A Busca – Capítulo 7:
Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham
palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a
morceguinha e o felino deram de cara com uma paisagem
inusitada! Diferente de tudo o que haviam visto, até então! Ambos
se descobriram em um espaço natural desconhecido que se
descortinava diante de seus olhos! Um estranho e inesperado
“céu,”apresentava uma tonalidade rosácea de grande intensidade!
Daí, podia se depreender que estava aparentemente,
amanhecendo. Abaixo deles, pois saíram sobre um penhasco,
estendia-se uma espécie de selva luxuriante, com uma vegetação
de sabor milenar! Assim, pensou o felino casmurro! A morceguinha,
espantadíssima perguntou, com sua vozinha guinchante:
– Gatão! Onde estamos?!
– Bella...! Acredite, ou não, naniquinha...! Estamos em um mundo
interior! Um mundo dentro do mundo!
– Como explica...?
– Não explico! Aí, está o que você vê! Venha!
– Vai aparecer sol?!
– Não sei e nem quero saber, pequenina! Vamos é descer daqui!
Vou pegar a corda!
O felino cinzento e a morceguinha, mexeram-se! O felino
amarrou a longa e robusta corda em uma protuberância na borda
do penhasco e se pôs a descer pelo paredão imponente!
À medida que desciam, uma neblina abaixo deles começava a
envolvê-los! A pequena quiróptera permaneceu prudentemente
agarrada ao Gatão e o acinzentado teve a impressão de sentir o
bater do coraçãozinho acelerado e escutar o leve ofegar,
denotando a tensão que a dominava! Ele estava tranquilo!
Acostumado com as adversidades, estava pronto para agir rápido e
decisivamente, conforme o caso. Por causa da névoa espessa, a
descida foi lenta! Para não cansar os músculos dos braços, o
Gatão realizava pequenas paradas, apoiando-se no paredão
vertical! Uma hora depois, chegaram à base do penhasco! Uma
claridade difusa e penumbrosa, convenceu os dois viajantes a
ficarem, onde estavam! Possivelmente, esta cerração não duraria
para sempre! Dito e feito! Em meia hora de espera, felino e
quiróptera viram a intensa névoa se dissipar, ainda que lentamente!
No estranho céu azulado erguia-se um sol esbranquiçado! Seu
calor era cálido! Agradável! O ar, de uma pureza nunca vista,
enchia os pulmões dos dois recém-chegados! O Gatão propôs que
tomassem o desjejum e descansassem mais umas duas horas!
Enquanto comiam, o felino inspecionava os arredores com seu
olhar agudo, farejava o ar e escutava! Nada viu, além da selva de
aparência pré-histórica! Sentiu o cheiro acre das grandes matas e
também odores esquisitos de coisas vivas que deviam pulular, em
meio à vegetação! Ambiente de luz e sombra! Ouviu urros, fortes
bramidos, silvos e o piar seco de possíveis aves que pelo som,
deviam ser de tamanho descomunal! Tudo isto, o Grande Gato
processou em sua mente! Bella tremeu! Acalmou, ao olhar o felino!
Recuperados, após o descanso, o Gatão e Bella seguiram
adiante, até alcançar a fímbria da selva, cuja aparência sombria e
ameaçadora assustaria, os menos corajosos! O felino tristonho
examinou atentamente, a vegetação! Era formada em sua maioria
por samambaias gigantescas e árvores de aparência exótica! O
felino casmurro lembrou-se de ter visto figuras de plantas como
aquelas, em livros escolares! Naqueles compêndios, ele aprendeu,
ainda filhote que há milhões de anos, a realidade do planeta era
outra! Houve uma variedade imensa de vida vegetal e animal, hoje
extinta! A morceguinha, que não tinha estudo nenhum, ficou sem
entender nada! Fez um montão de perguntas e o Gatão,
pacientemente explicou, dando uma rápida aula de História à
bichinha! Ela perguntou se, naquela selva poderiam encontrar
alguns dos monstros daquele terrificante passado! O Gatão não
mentiu, afirmando que era muito provável, pelos sons que antes
tinham ouvido! No entanto, o felino cinzento, procurou tranquilizar a
morceguinha, baixando no chão, a sacola de armas e de lá
retirando uma metralhadora. Colocou-a a tiracolo e resmungou:
– Se aparecer algum, nada como uma boa rajada de balas para
tirar a vontade do puto de nos lanchar! - Embora não fosse uma
piada, Bella riu!
A dupla penetrou na selva! Era uma das mais densas e
escuras jamais vistas! Ainda assim, o Gatão como que guiado por
um radar interno, parecia saber exatamente para onde ir!
Bella estava mais despreocupada! Confiava cegamente em seu
amigo!
Caminharam por várias horas! Incrivelmente, diferentemente
de qualquer selva normal, aquela não era quente! Pelo contrário! O
frescor ambiente era agradabilíssimo! A apurada audição de
ambos, o guiou até um regato murmurejante, de águas cristalinas.
Mataram a sede! O sabor daquela água era suave e muito
revigorante! O felino gris, resolveu acampar ali, pois por entre a
folhagem das árvores, pode ver uma nesga do céu e sua
tonalidade opalina, evidenciava que estava entardecendo. Como
ele não sabia quando a noite cairia naquele mundo singular, achou
melhor continuarem a jornada, assim que amanhecesse! Montou a
tenda rapidamente. Acendeu uma fogueira diante da habitação
provisória e preparou um dos alimentos enlatados! O felino achou
por bem, não comerem nenhum fruto, tubérculo, ou raiz, porventura
encontrados! Poderiam ser venenosos! Ainda havia rações de
sobrevivência aos montes! Não passariam fome! Quando
acabaram de comer, uma pesada escuridão a tudo cobriu! No
firmamento negro, não se viam estrelas e muito menos uma lua!
Era meio angustiante, mas o Gatão procurou não pensar muito
nisto! A morceguinha gostou! Parecia estar em sua antiga caverna
com seus outros irmãos! Era uma percepção ilusória, mas
reconfortante para ela! Isto, até que os ruídos daquela noite
invulgar encheram os ouvidos da criaturinha, bem como os do
Grande Gato!
– G-Gatão!
– Nada tema, pequena! Pelo som, me parece que não há grandes
animais aqui por perto! Vamos dormir que é o melhor a fazer!
De fato, os dois passaram uma noite tranquila. Embora como
sempre, o felino tenha tido seu sono superficial, ele conseguia
relaxar fisicamente, o suficiente para se recuperar de qualquer
cansaço! Concomitantemente, a sua mente, não se desligava
totalmente do que acontecia à sua volta! Uma pequena e essencial
parte dela ficava em alerta! Era uma característica instintiva e típica
dos sobreviventes, em especial, dos gatos, civilizados, ou
selvagens! Isto, economizava também a energia cerebral! Mas, ao
mesmo tempo, sem deixar o indivíduo entregar-se ao acaso por
estar adormecido!
A refeição matinal foi consumida com grande apetite pela
dupla! A morceguinha comeu uma quantidade de alimento,
equivalente ao seu tamanho minúsculo e o Gatão devorou sua
parte, sem nenhuma cerimônia! Assim, providos satisfatoriamente,
de nutrientes, levantaram acampamento! Como no dia interior,
apesar do sol forte, lá nas alturas, a mata estava fresca e uma
aragem suave soprava mansamente entre as folhagens e as
árvores!
– Hora de nos mexermos, tampinha! Quero percorrer uns bons
quilômetros, antes da hora do almoço!
– Você sabe mesmo para onde está indo, Gatão?
– Sei! Só não me pergunte, como eu sei!
Sem mais conversa, o acampamento foi desfeito e os dois
partiram, mergulhando nas sombras da mata densa daquela
estranha selva!
Além do exotismo daquele ambiente selvático, com sua
vegetação, cheiros e sons, muito diferentes do que Zé Gatão
conhecia por experiência própria (vide Inferno Verde), o senso de
perigo do felino gris, pulsava fortemente em sua mente, tornando-o
mais alerta do que nunca! E apesar dele e da morceguinha
espevitada se sentirem, como de fato o eram, alienígenas, vindos
de outra realidade, o Grande Gato, ao mesmo tempo, sabia
exatamente qual rota seguir! Enquanto caminhavam, o Gatão
começou a raciocinar! A explicação de alguns de seus atos até
então, não foi difícil, após fazer um exercício de memória! Ele
nunca estivera de fato sozinho, em sua busca! A gigantesca
Serpente deusa que conhecera no reino das onças (Inferno
Verde), o conduzira espiritualmente ao mundo dentro do mundo!
Por isto, e só por isto, o felino conseguiu achar a entrada deste
universo chegando vivo, após tantas canseiras e perigos!
Umas duas horas de caminhada, levaram felino e quiróptera a
uma vasta clareira, de onde puderam observar uma passagem
natural entre a vegetação. Iam se dirigir para lá, quando um forte
ruído de galhos se quebrando e folhagem sendo afastada
violentamente, se fez ouvir! O Gatão largou rápido, no chão a
sacola de armas! Felizmente estava com o alfanje na cinta!
– Atenção! Voe para aquela árvore, Bella! Rápido! - Nem bem a
morceguinha fez o que lha via sido ordenado, da mata em torno
surgiram três seres grotescos! Répteis empenados, a pele, de cor
meio arroxeada, misturada com tons esverdeados! As penas
tinham um tom avermelhado e eram azuladas nas pontas! Aqueles
seres eram mais altos que o Gatão, mas não muito! Seus corpos
tinham formato esguio, mas bem musculosos! Braços curtos com
dois dedos em garra, nas mãos relativamente pequenas! Pescoços
fortes, fauces escancaradas num sorriso distorcido e cheias de
dentes pontiagudos, de tonalidade amarelada! Olhos reptilianos
brilhantes, cheios de fome e agressividade extrema! Pernas
musculares com um esporão agudo e ameaçador na parte traseira,
destas! Caudas longas, muito vibrantes, revelando as intenções
assassinas que os animavam! O Gatão segurou com a mão direita
o cabo do alfanje e com a esquerda, a bainha, no sentido de sacá-
lo, rapidamente! Ficou parado à espera! A adrenalina correndo forte
por sua corrente sanguínea! Respiração rápida! Musculatura
tensionada como uma enorme mola retraída! Dois répteis foram se
aproximando lentamente! Salivando intensamente, ante a
perspectiva de uma bela refeição que seria proporcionada pela
carne daquele estranho tipo de felino, nunca antes visto naquelas
paragens! O terceiro ficou a uma curta distância, crente que seus
dois parceiros dariam conta de matar aquele gato esquisito! Apesar
de preparado para o ataque iminente, o felino gris não contava de
forma alguma, com a velocidade daquelas duas terríveis feras
pecilotérmicas! A que se achava vindo pela direita, realizou um
inesperado e velocíssimo movimento, se colocando atrás do Gatão,
enquanto a outra, mais à esquerda avançava como um trem
expresso, diretamente para o Grande Gato! Felizmente, o Gatão
não era um amador e muito menos, lento! Suas poderosas pernas
o elevaram do chão! Dando um salto acrobático ele foi pousar,
agora atrás de seu agressor! O outro, não se sabe como,
conseguiu frear sua investida e ficou diante do meio lince, um tanto
atarantado, por alguns imensamente, preciosos segundos! Tempo
que o cinzento aproveitou para agir! Arrancou o alfanje da bainha e
deu um golpe brutal, de cima para baixo nas costas do réptil que
tencionava atacá-lo pelas costas! A coisa deu um urro medonho,
tomado por uma dor escruciante, enquanto sua carne era rasgada
e o sangue arroxeado aflorava em esguichos! Sem coordenação
motora alguma, aquele lagarto saído dos antigos livros de
Paleontologia, tombou para frente estrebuchando! Antes que ele
tocasse no solo da selva, teve a cabeça decepada por um golpe
certeiro da lâmina, já ensanguentada! Ainda restavam alguns
segundos entre o início da ação mortal há pouco executada e a
momentânea paralisia do companheiro daquele que morrera! Pior
para ele! Viu-se com a barriga rasgada e teve o sofrimento atroz de
ver suas entranhas caindo como roupa suja de um saco de
aniagem rasgado! Jogou-se para frente, bramindo, a cabeça
jogada para o alto, em direção a um céu que já não via! A vida
escoando de seu corpo, velozmente! Ainda assim, as mãozinhas se
contorcendo, desordenadas na tentativa reflexa de aparar suas
vísceras soltas! Precipitou-se no chão como um naco de bosta
fresca! Curiosamente, o fedor que exalou de seu interior, tornava a
bosta, algo de delicado perfume!
O terceiro réptil não podia acreditar no que seus olhos
presenciaram! Os outros dois, na verdade, queridos irmãos,
nascidos todos os três do mesmo ovo tinham sido facilmente
assassinados por aquele musculoso e estranho gato! Então, o
lagartão voltou-se para o assassino de sua família, o felino cinza!
Como era possível? - pensava, ele! - Isto não podia ser! Não podia!
Parecia um tresloucado pesadelo! Se o pobre reptiliano tivesse
braços compridos, levaria as mãos à cabeça! Como não os tinha,
limitou-se a jogar a cabeçorra para trás, exprimindo uma espécie
de lamentoso vagido por aqueles que jamais voltariam a correr e a
caçar junto dele! Estava só! Vingança! Ah! Um ódio alucinado
fervilhava em seus olhos baços! Apesar desta fortíssima emoção, o
réptil foi chegando cautelosamente! Ciente agora de que o
acinzentado não era para ser desprezado, tais e quais, as
inúmeras vítimas que o trio havia matado e devorado, até aquele
instante fatídico! O Gatão estava calmo! Sabe-se que a raiva é má
conselheira! Nos faz agir sem refletir e numa luta, saber o que está
fazendo e onde atacar fulminantemente era a diferença entre a
vitória e a derrota! Esta última seguida quase sempre, pela
chegada da sorridente, dona Morte!
Mais uma vez, a velocidade de movimentos daquele tipo de
réptil, lhe trouxe uma vantagem uma inicial! A cauda traiçoeira do
pecilotermo, enlaçou a canela direita do Gatão, com uma incrível
força! Um puxão brutal, fez com que o felino gris perdesse o
equilíbrio, caindo estrepitosamente, de costas no solo! O alfanje
escapando, repentinamente de sua mão! Mesmo assim, o Grande
Gato teve, através de uma imediata reação reflexa de defesa,
como segurar o corpo da criatura que avançava sobre si! Logo, o
felino sentiu a nojenta podridão quente daquela respiração
apressada, sendo despejada sobre seu rosto e captada por suas
narinas sensíveis, revoltando de pronto, o seu estômago! Reprimiu
uma forte ânsia de vômito e concentrou toda a sua força, para
afastar aqueles dentes mortais de sua jugular, pulsante! Sem muito
esforço, o Gatão ergueu um pouco, seu adversário, evitando com
isto que os pequenos braços da criatura se aproximassem de seu
peito, ou ventre, os quais podiam ser facilmente rasgados pelas
duras e fulminantes unhas, localizadas nas pontas daqueles dois
dedos bizarros! Então, em um movimento súbito, o acinzentado,
deu uma espécie de balão, sem soltar seu oponente! Esta ação foi
decisiva para que as posições fossem invertidas! O Gatão, agora
estava por cima e o lagarto por baixo! Sem tardança, a mão
esquerda do felino agarrou a garganta do réptil, pressionando-a
com a força de um torno! Os olhos da criatura se arregalaram,
enquanto a passagem de ar para seus pulmões era terrível e
brutalizadamente cortada! Como um raio, o Gatão meteu os dois
dedos da mão direita nos olhos do infeliz, furando a ambos! O urro
agônico de dor atroou, enquanto o sangue arroxeado esguichava
forte, da área atingida! A luz daqueles olhos foi extinta! Estava
irremediavelmente, cego! E na escuridão da cegueira, o lagarto
sentiu a traqueia sendo esmagada por uma força inimaginável,
advinda de músculos de aço! O corpo da coisa, escabujava!
Inutilmente! O coração batia, descompassado! Os pulmões
opressos e ardentes, ansiavam pelo oxigênio benfazejo que jamais
viria! Um som rascante partia da garganta destroçada, som meio
líquido, devido ao sangue grosso, profuso, de forte sabor metálico
que subia, escapando pela boca escancarada e pelas narinas, a
fremir loucamente! O corpanzil sacudiu-se, em estertores! Os
pequenos bracinhos se esticaram, desesperadamente! Porém, as
garras aduncas dos dedos duplos atingiram o vazio, pois as partes
mais vulneráveis do felino casmurro, se achavam além de seu
alcance! As pernas do ser reptiliano, paralisadas pelo peso do
Gatão, emitiam espasmos musculares intermitentes, como últimos
sinais de vida, daquele ente que penosamente, ali, morria!
O Grande Gato, não soltou seu adversário, até sentir o corpo
dele dar um último estremecimento e ficar mole, dando a certeza
de que aquela vida havia findado! Definitivamente! Esgotado, o
felino gris ergueu-se! A morceguinha, aliviada voou depressa para
pousar toda faceira, no ombro do amigo e protetor! Ela não pode
deixar de perguntar, como ele aprendera a lutar daquele jeito! O
Gatão respondeu simplesmente: - Foi a Vida...!
A morceguinha continuou a falar, levada por sua imensa e sempre
aguçada curiosidade: - Pra continuar a viver, você teve que lutar e
matar muito, né? - O Gatão, costumeiramente, calado e reservado,
se achava mais loquaz do que o usual! Respondeu a pergunta da
amiguinha, sem se sentir invadido, ou incomodado!
– Pequenina! O mundo não é bom, não é justo! Na verdade é
violento e brutal! Ainda mais agora, depois do grande holocausto
que praticamente, a tudo consumiu! Eu nunca gostei e não gosto
de matar! Mas é aquela máxima! Ou eu, ou eles! Simples assim!
Esteja certa de que aquele réptil me mataria se eu deixasse e você
seria a sobremesa! - A baixinha se tremeu toda, só de pensar!
Após uma hora de descanso, levantaram acampamento,
caminhando para aquela passagem que os dois tinham visto, antes
do confronto com os répteis. Ao atravessar a folhagem densa,
saíram em um grande vale, iluminado pelo insólito sol que brilhava
imperturbável, no firmamento azulado! Era um lugar maravilhoso,
embora incrivelmente pré-histórico! Adiante, em uma elevação
próxima! Um ser chamou a atenção da nossa dupla! Era um felino
de proporções gigantescas! Cabeça grande sobre um pescoço
maciço! Rabo curto! Fronte alongada! Orelhas pontudas, em
constante movimento! Caninos pontiagudos e longos, como sabres
amarelados! Corpo poderosíssimo! Musculatura extremamente
compacta e não trabalhada, mas rija! Pesada! Uma pele dourada a
cobrir aquele corpo nu, forjado pelos ditames de uma sobrevivência
selvagem! Voltou a cabeçorra e seus olhos de um verde intenso
faiscaram intensamente. Mexeu-se! Ia atacar!
– Gatão! Ele está vindo pra cá!
– Deixe que venha, baixinha! Se afaste logo!
A morceguinha voou, ocultando-se em um galho alto, de uma
árvore próxima! Ficou espiando entre as folhas, assustada! Nunca
vira uma criatura como aquela em sua vida! Será que seu amigo
daria conta de derrotá-la? Ela olhou o Gatão. Ele estava tranquilo!
Parecia não ter medo do titã que se aproximava rapidamente! Ela
viu com horror, o felino gris desafivelar a cinta que prendia a bainha
do alfanje, jogando no chão a formidável lâmina! Estaria ele louco,
querendo enfrentar aquele felino monstruoso de mãos limpas? O
ser pré-histórico parou diante do Gatão! Seu rosnado profundo
aumentava o grau de ameaça! A mente do Grande Gato trabalhou
velozmente, neste ínterim! A luta com aquela verdadeira usina de
força motriz, não podia ser convencional! O boxe seria
praticamente inútil! Ineficaz! Então o felino casmurro lembrou-se de
seu querido amigo Ching (Vide O Toque da Morte) e de seus
preciosos ensinamentos a respeito da luta marcial de seu povo, e
também de outros Mestres que o Gatão encontrou ao longo da
vida! Mestres habilidosos que o ajudaram a aprimorar os
rudimentos do que aprendera com o amigo, há muito falecido! O
Dentes de Sabre avançou furiosamente, tentando agarrar o Gatão
e esmagá-lo em um abraço fatal! O felino gris, evitou o ataque com
facilidade e como retribuição à falha do oponente, aplicou um
potente chute lateral bem ajustado naquela enorme cabeça! A
pancada brutal, derrubou o felino ressurgido de tempos imemoriais,
ao solo! Tonto, sem entender bem o que ocorrera, ele se reergueu,
furibundo!
Urrando de ódio, ele atacou o Gatão dando patadas, tentando sem
sucesso feri-lo com suas garras! Dava para ver que era pura
selvageria, sem nenhuma técnica de combate! Novamente o felino
cinzento afastou seu adversário, através de uma sequência de
chutes certeiros naquela carantonha disforme, a qual já manava
sangue quente e vermelho! O Dentes de Sabre recuou, balouçando
como um grande navio, em meio à violenta tempestade! O Gatão
avançou, aplicando golpes diretos, em áreas sensíveis! Primeiro
uma cutilada no braço direito, paralisou o movimento daquele
membro! Em seguida, uma pancada com o indicador em riste, no
meio daquele amplo peitoral, cortou a respiração do contendor e
por fim, uma fortíssima joelhada nas partes baixas, fez o coitado ir
ao chão, a se retorcer como um verme, em agonia! O Gatão parou
de atacar. Pegou o alfanje, prendendo-o de novo, à cintura. Pegou
a mochila e as outras coisas. Chamou Bella. Quando começaram a
se afastar, o Dentes de Sabre se levantou, em um esforço titânico!
Adrenalina ao máximo! Mesmo com a dor atroz que o consumia,
ele saltou! Goela escancarada! Pronto para enterrar seus imensos
dentes na carne daquele que há pouco, o humilhara! O felino
tristonho, sempre alerta, percebeu o movimento por detrás dele!
Abaixou-se e o Dente de Sabres voou por cima dele! Porém, com a
agilidade comum a todos os felídeos, ele girou no ar sobre si
mesmo e conseguiu, apesar do tamanho e peso cair de frente para
seu adversário, meio desajeitado, é verdade! Ainda assim, uma
ameaça concreta à vida do outro! No entanto, concomitantemente
à descida de seu atacante, o Gatão atacou, antes que o indivíduo
recuperasse totalmente, o prumo! Puxou-o para si pelo braço
esquerdo e começou a aplicar, sem parar, uma saraivada de socos
pesadíssimos na já castigada face da fera! Era como uma canção
abrutalhada e regida pela batuta de um maestro impiedoso! A
melodia era o som dos murros, tendo como acréscimo o ruído do
sangue esguichando e os bufos fortes do grandalhão, quando cada
porrada atingia o alvo! O cérebro dentro do crânio do felídeo
gigante revolvia-se como bananas sendo batidas com leite, num
liquidificador a jato! O senso de espaço e de equilíbrio do
desafortunado, não mais existiam! Incansavelmente, o felino
tristonho batia duro! Como um ferreiro a malhar metal em sua
bigorna! A vista do Dentes de sabre estava turva! O ar faltava-lhe!
Nunca nenhum ser dali, a não ser alguns répteis colossais que
erravam naquela selva luxuriante, foram adversários para ele!
Nenhum! Então para encerrar o agradável bate papo, o Gatão deu
um socão de cima para baixo, o qual atingiu o Sabre bem na ponta
do queixo! Este voou para trás, tal qual a pluma que realmente não
era! Só parou quando sua cabeça veio a colidir em uma enorme
rocha, de modo tão animalesco que seu forte pescoço não teve
outra saída, senão quebrar-se! Estava morto! E como uma papa
mole, lá ficou estirado, o sangue a escorrer fartamente daquilo que
um dia foi o crânio de um ser vivente! O Gatão não se aproximou e
nem deixou Bella chegar perto do cadáver! Ela voou para o seu
porto seguro (o ombro do Gatão) e perguntou, em um misto de
curiosidade e espanto: - O que foi? Você ficou triste! - O felino
replicou: - Aquele lá, estava apenas defendendo seu território! Não
passava de uma fera instintiva! Eu não queria matá-lo! Que bosta!
Deveria tê-lo deixado inconsciente, em primeiro lugar! Vamos
daqui, baixinha! Temos que seguir em frente! - Os dois partiram!
Ambos em silêncio, pois não havia mais nada a dizer!
Assim, ao atravessar a folhagem daquela passagem que
intentavam alcançar, em primeiro lugar, a morceguinha e o Gatão
adentraram em um vale cercado de montanhas imponentes, a se
erguer acima da selva verdejante! Mais à frente, uma cascata
cristalina se derramava sobre uma pequena lagoa de águas
azuladas! Atraídos pela água, a dupla se dirigiu para aquele ponto e
resolveu parar ali. Ambos beberam com prazer! E satisfatoriamente,
impressionaram-se com o teor refrescante e na mesma medida,
revigorante impresso naquele líquido precioso! O felino pegou o
grande cantil e substituiu a água nele contida por aquela maravilha!
O Gatão resolveu que deveriam permanecer ali, por algumas horas,
antes de prosseguir a caminhada. Além da abundância de água,
havia umas frutas amareladas do tamanho de mangas em algumas
árvores, às margens da lagoa. Tinham de fato, o tamanho de
mangas, mas eram roxas e de cascas segmentadas. Seu sabor
delicado foi algo nunca antes experimentado! Felino e morceguinha
fartaram-se! E o melhor de tudo! Os dois se sentiram nutridos, de
forma superior ao das rações enlatadas que tinham consumido, até
então! O dia passou sem novidades! À tarde puderam ver voando
no céu, estranhos répteis alados de vários tamanhos!
O dia seguinte surgiu envolto em uma densa névoa! O ar
estava frio, mas não de maneira excessiva! O Gatão acendeu uma
pequena fogueira e experimentou assar uma daquelas frutas, já
mencionadas! Esta ficou mais macia e seu sabor mudou
surpreendentemente se tornando melhor, ainda! Comeram com
apetite redobrado! Trinta minutos, após o término da refeição, um
sopro de brisa matutina trouxe consigo, um odor pungente, muito
próximo de onde estavam acampados! Ao mesmo tempo, o solo
começou a tremer, enquanto um som intenso se fazia ouvir, como
uma espécie de terremoto!
– Gatão...!
– Não grite, pequena! Parece que um ser gigantesco está correndo
para cá! E ele vem muito rápido!
– Vamos fugir!
– Não dá tempo! Está para chegar! Faça silêncio! Vamos tentar usar
a neblina a nosso favor! Venha! Vamos nos esconder atrás daquela
grande rocha, ali! - O felino gris apagou a fogueira e se escondeu
com Bella atrás da rocha, coberta de limo esverdeado, bem na beira
da lagoa! O tremor e o atroar da terra aumentavam
exponencialmente! Foi então que os dois viram aquela figura
dantesca rompendo a neblina! Diante do esconderijo da espantada
dupla surgiu uma criatura inimaginável! Quatro metros de altura!
Plumas coloridas na face grotesca e no alto da imensa cabeçorra!
Também havia plumas espalhadas de maneira irregular por seu
musculoso corpanzil, nu! Onde não havia penas era possível ver
seu couro áspero de uma tonalidade acinzentada! Boca enorme,
adornada de uma fileira de dentes agudos e serrilhados! Olhos
grandes de esclerótica amarelada e de íris negras, cintilantes! As
narinas imensas a aspirar sofregamente, o ar nebuloso! Parou,
procurando! O Gatão, ao perceber que ele e a morceguinha já
tinham sido localizados saiu de trás da pedra! A baixinha, a tremer
agarrada ao pescoço do felino! Ao ver suas ansiadas presas, o
gigante deu um grito de satisfação! Parecia o berro assustador e
superdimensionado de uma gralha descomunal! Uma luta corporal
seria a morte certa! O Gatão bem o sabia! Por longos minutos, os
três ficaram paralisados! O único sinal de vida, daquela besta-fera
era o fremir de sua grossa e monstruosa cauda! Em contrapartida, o
felídeo cinza, se achava muscularmente tensionado ao limite e a
morceguinha, lânguida! Quase desfalecendo de terror!
Naquele breve tempo de imobilidade, a mente do Gatão
formulou instantaneamente, várias hipóteses para lidar com aquela
situação alucinante, e só uma solução havia! Empunhou
firmemente, a metralhadora! Sem pensar duas vezes, ele disparou
uma rajada de balas diretamente na cabeçona do monstrengo!
Tendo o crânio varado de chumbo grosso, o ser tombou como uma
árvore atingida por um raio, sem um pio, sequer! Onde era a
cabeça, apenas um destroço sanguinolento! Esparramou-se
brutalmente no solo, aos estertores, para em seguida, se aquietar
para sempre! O Gatão baixou a arma, fumegante! Olhou para
morceguinha derreada em seu ombro! Estava desmaiada! O felino
gris, tomou-a gentilmente em suas mãos e levou-a à beira da lagoa,
despertando-a com borrifos de água fresca! Depois, partiram!
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
1978
Músicas e livros foram grandes escapes ao longo da vida, já relatei isso aqui.
No ambiente familiar as coisas estão ok, graças a Deus, mas de mim para mim a coisa não vai tão bem. Existem vários motivos para isso, uma delas é a maldita ansiedade. Sabem o que Jesus disse sobre não nos ocuparmos com o dia de amanhã? Pois é, eu tento, juro que tento ser otimista, ter fé, crer que Deus tem o controle de tudo (eu sei que Ele tem), mas quase sempre sou acossado pelo pensamento de que a qualquer momento a bonança possa ser quebrada pela conhecida tempestade e sinceramente não sei se meus nervos irão aguentar, há fortes indícios que não, a última tormenta deixou sequelas. Associado a isso está o fantasma da ruína financeira sempre chutando a porta. Não tenho encomendas, nada, nada, até o momento. Como pagar o aluguel? Os serviços? Fazer as compras da semana? Envelhecendo dia a dia, sem garantia de nada num país comandado por uma quadrilha, pessoas que assaltam a aposentadoria de idosos! Fica difícil não ser engolido pela depressão.
Mas houve um tempo em que as preocupações eram outras, eram dias menos pesados talvez por eu ser um menino sem as responsabilidades dos adultos, meu único medo era o de tirar nota baixa na escola ou não escutar o chamado do meu pai e levar uma surra dele.
No ano de 1978, atendendo a um convite de um amigo da família, fui passar umas férias no Rio de Janeiro. Lembrando hoje, não foram dias tão alegres, mas sim, deu pra sentir o que é estar afastado do espectro paterno e conhecer pessoas que a princípio me trataram muito bem.
Esses dias tenho ouvido certas canções que colaram em meus ouvidos naqueles tempos onde eu escutava rádio diuturnamente. É só ouvir e me transportar para o quase fim daquela década.
Vamos a algumas delas: I´m In You do Peter Frampton, Year Of The Cat do Al Stewart, You And Me do Alice Cooper, Kiss You All Over do Exile, Get Up And Go, do Pilote.
Claro que haviam artistas brasileiros, os que mais fortes me vem à memória são Raul Seixas com Maluco Beleza e Fafá de Belém com Foi Assim (possivelmente a única canção que gosto na voz dessa cantora).
Pensei em deixar os links das músicas na postagem mas confesso que estou com muita preguiça para isso, vocês, caso não conheçam alguma, podem pesquisar no YouTube, vale a pena.
Esse foi o meu desabafo de hoje, amados e amadas.
Até a próxima.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
O QUE ESTOU (RE)LENDO: GAVIÃO ARQUEIRO
Parei de ler quadrinhos de super-heróis regularmente na primeira metade dos anos 80. Eu quase não tinha grana para comprar gibis e também, avançando na idade, os meus interesses começaram a mudar, muito disso eu devo ao Gibi Semanal depois que descobri o Spirit do Will Eisner. Os europeus já tinham feito minha cabeça com Tintin e Asterix, mas bem no final da década de 70 estava entusiasmado com as histórias de terror da Kripta e foi aí que a Heavy Metal entrou na minha vida. Nesses tempos, quando morei no Rio de Janeiro, me encantei com Ken Parker, Tex e Zagor (nesta ordem).
Na infância e juventude os supers dominaram minha vida ao lado dos personagens Disney, as publicações da Ebal, principalmente o titulo A MAIOR, que continham histórias do Capitão América, Thor e Homem de Ferro serializadas e a série INVICTUS, focadas no Batman e Super-Homem.
Sem falar no Fantasma, que sempre foi o meu predileto.
Mas a maioria eu li emprestado de colegas, não tinha grana para colecionar, com muito custo eu comprei as edições da Bloch (todos os títulos) por um tempo, mas como eu disse, meus interesses começaram a mudar a medida que eu ia ficando mais velho.
Claro que eu lia algumas coisas bastante recomendáveis, principalmente os do Batman, nascia a era das tais graphic novels, V de Vingança, Whatchmen e os (entre aspas) títulos adultos da Abril e Globo até hoje estão na minha coleção. Mas no geral, as clássicas dos formatinhos da Abril eu li de forma muito irregular, personagens de sucesso como Adam Warlock, Rom e Nova me passaram batidos, foi o período em que fazia faculdade e trabalhava em dois empregos.
Só de uns anos pra cá é que de certa forma voltei ao tema. Meus saudoso irmão Agildo me presenteou com a série Salvat (a coleção da Marvel em capa dura), ali, além de alguns clássicos que eu já conhecia, como Marvels, Queda de Murdock e Guerras Secretas, haviam pérolas de praticamente todos os heróis da Casa das Ideias, só o filé. No entanto os uniformizados estão bem longe de ser o meu gênero preferido de gibis, hoje em dia estou de novo totalmente por fora do que é produzido.
No entanto a série do Gavião Arqueiro criada pelo roteirista Matt Fraction e desenhada pelo David Aja (tem outros colaboradores, claro) foi uma grata surpresa quando saiu em 2015. Com certo custo eu comprei as 4 edições encadernadas e já li umas 3 vezes. Releio agora uma quarta vez, ainda estou no primeiro volume intitulado "Minha Vida Como Uma Arma" e digo, é diversão garantida. Uma aula de narrativa com desenhos econômicos mas riquíssimos em expressividade. Posso dizer que esta série é uma das joias da minha coleção.
Por hoje é só. Volto assim que puder com mais um post (espero mesmo poder voltar, não tenho me sentido bem nos últimos tempos).
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
UMA VIDA NORMAL
Eu queria muito vir aqui com notícias boas. Na verdade tenho sim, boas notícias, uma delas é que fiz agora há pouco a minha terceira refeição do dia, estou vivo (o que me permite sempre um novo recomeço, né?) e um dia, lá atrás, no fim dos anos 70 fui apresentado a JESUS. Melhores notícias do que estas impossível e isso já seria motivo suficiente para terminar a postagem agora. Mas materialmente falando, faltam algumas coisas: paz de espírito e dinheiro. Nunca tive as duas por longo tempo em 63 anos de vida. Eu nunca consegui ter uma vida normal. E aqui cabe uma pergunta: O QUE É TER UMA VIDA NORMAL?
Bem, segundo a minha ótica, um casal tem um filho, ensinam a ele bons valores, tipo aqueles descritos no Livro de Provérbios da Bíblia, falam da importância de ser justo, íntegro, que faça a sua cama ao levantar e nunca pedir a alguém uma coisa que não possa fazer primeiro; esse filho estuda, arruma um emprego, se casa, e passa para seu herdeiro os valores recebidos de seus pais. Isso tudo independe de etnia ou sucesso no trabalho, grana é uma coisa que vem e vai, sabemos que os problemas, as enfermidades e injustiças sempre vão estar presentes mas com paciência e perseverança (palavras que usei na minha existência como um mantra) consegue-se suplanta-los. Isso acho normal.
Certa vez eu vi uma senhora dentro de uma farmácia segurando um filho (presumo que fosse filho) que devia ter uns 14 anos, era claro que o jovem tinha sérios problemas neurológicos. Ele não andava, as pernas magras do menino indicavam atrofia. Ela o abraçava por trás, tentando conter seus braços que se movimentavam de forma involuntária derrubando o que estivesse ao seu alcance, a boca semi-aberta cheia de baba. Ao ver aquela cena, me enchi de piedade, aquela pequena mulher talvez não tivesse com quem deixar o filho e precisava levá-lo onde quer que fosse e passava por aquele sofrimento. Eu diria que aquela não era uma vida normal.
Eu assisti o documentário sobre a vida do Robert Crumb dirigido pelo Terry Zwigoff e posso dizer que a família do cartunista não é normal. Câncer na parentela não é normal, um marido alcoólatra que bate na esposa não é normal e eu poderia citar inúmeros exemplos.
Eu nunca fui muito ambicioso, só queria ter uma família, filhos, netos. Jamais almejei ter meu nome em alguma premiação, placa de rua ou criar um personagem famoso como o Mickey Mouse ou o Batman, só queria viver decentemente do meu ofício, produzir meus quadrinhos, angariar um público fiel e ilustrar capas de livros. Nunca consegui.
Eu fiz muita besteira na vida, muitos caminhos errados e sei que tudo o que plantamos, colhemos. Mas será que a colheita um dia chega ao fim? Ao menos um pouco de respeito e paz seriam suficientes agora que passei dos 60, mas não, as tensões (desnecessárias) se multiplicam. Falar mais me exporia além do necessário. Fica mais esse desabafo e a esperança de um dia vir aqui dizer, "amadas e amados, as coisas melhoraram, está tudo bem, a truculência, as ameaças e os insultos cessaram e as contas estão pagas".
Enquanto este momento não chega, clamo ao Pai da luzes (Tiago 1:17) por misericórdia e proteção.
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 6 (Um conto escrito por Luca Fiuza)
A Busca – Capítulo 6:
O Gatão e Bella voando à frente, seguiram por uma trilha
ascendente! Seu objetivo era alcançar a base de um vulcão extinto,
conhecido pelo nome de Vômito Ardente! Era distante! Gastariam
três horas para chegar até o sopé do velho cuspidor de lava,
adormecido! Na hora do almoço, pararam para se alimentar. Foi a
deixa para a morceguinha perguntar, ao amigo:
– Gatão...! Você acha que os três leões vão mudar?
– Não!
– Por que?
– Eles não sabem fazer outra coisa!
– Eles, então, vão continuar matando?
– Não tenha dúvida!
– Mesmo depois de tudo o que você disse a eles?
– Sim!
– E você acha que as hordas do deserto poderão vir aqui nestas
alturas?
– Não!
– E por que? - O felino olhou firmemente para a pequena
quiróptera, acrescentando:
– As hordas não conhecem este lugar! São restritas ao deserto!
Tanto elas, quanto os animais sobreviventes espalhados por lá!
– Eu também nunca soube desta Guerra, da qual você tanto fala!
– Esta Guerra destruiu a civilização dos mamíferos e todos os
seres de água doce e salgada, mas não o mundo inteiro e a
Natureza! Mas virá uma hecatombe que vai eliminar toda a Vida e
nem a Natureza resistirá!
– Que horror!
– Agora termine de comer, sua faladeira! Quero chegar na base do
vulcão antes do cair da noite! - Bella fez uma careta e botou a
língua para o felino! No fundo, ele achou até graça daquela
rebeldia pueril, mas não demonstrou! Arrumou tudo, seguindo
resolutamente, em frente!
– Hey, cara feia! Espere por mim! - e ela saiu voando depressa,
atrás do Grande Gato!
Bem no finzinho da tarde, o Gatão, com Bella empoleirada no
ombro direito do felino gris chegaram aos pés do imponente vulcão!
Acamparam portanto, sob sua enorme sombra, admirando com
bastante espanto, a morceguinha, as paredes de basalto
enegrecidas pelo magma, escorrido por elas, a milênios, ao ser
expelido pela cratera gigantesca, lá no alto! - Uaau! Deve ter sido
uma erupção terrível! Ainda bem que eu não existia! – pensou a
pequenina, se tremendo toda!
Fogueira acesa, refeição tomada, a insólita dupla resolveu
dormir logo, pois o dia seguinte prometia ser dureza!
Logo que o sol surgiu, um frugal desjejum foi consumido
rapidamente! - sopa leve de legumes enlatada – Meia hora, após
levantar acampamento, começou a dura subida até o topo do
vulcão morto! Reafirmo, dura para o felino! Não para a
morceguinha! Esta, ou ia voando, ou se encarapitava nos ombros
do felino! Como o Gatão era excepcionalmente forte e
absurdamente resistente, subiu até o cimo, sem esmorecer! No
entanto, ele levou mais de uma hora para atingir seu objetivo!
Era o meio da manhã, quando a cratera, tal qual uma bocarra
escancarada e faminta, se mostrou diante do acinzentado e sua
diminuta amiga! Em determinado ponto, nas bordas daquela
esquisita circunferência, foi achado um local seguro de parada! Ali,
se alimentaram de uma ração bem nutritiva para deixá-los
revigorados, mas não enfastiados, no sentido de atrapalhar a
próxima etapa: descer cratera adentro! Os leões haviam fornecido
um rolo de corda tão ou mais resistente que o cânhamo! A ponta da
corda foi amarrado firmemente em uma grande e protuberante
rocha! Logo, o Gatão foi descendo pelo gigantesco buraco,
apoiando-se de quando em vez, nas grossas paredes de basalto
negro que o compunham! O felino usava um capacete metalizado,
parte de seu equipamento militar, firme em sua cabeça! A lanterna
embutida lançava um forte facho luminoso que devassava as
trevas reinantes que se adensavam, à medida que se deslocavam
para baixo! A morceguinha Bella, não se atrevia a voar! Preferia
ficar colada ao felino cinzento, olhando assustada, aquelas
profundas e tentando inutilmente divisar o fundo, ainda invisível aos
olhos dos dois!
Quarenta minutos, após o início da descida, o solo pedregoso
foi alcançado! Era um espaço amplo que se medido, englobaria
diversos campos de futebol! Comparação engraçada, pois, do nada
e de maneira fugaz, o felino lembrou-se que fora um tipo de perna
de pau, no futebol, quando criança! Se atrapalhava nas pernas!
Perdia os gols e como recompensa era vítima das chacotas e
cascudos de seus “amiguinhos” de pelada! O Gatão pode perceber
melhor a enormidade do espaço, onde estavam, porquê acendeu
uma tocha de luz fria radiante e graças a ela encontrou uma
concavidade, para onde seguiu, sem tardança, penetrando nela! A
morceguinha perguntou, curiosa, como ele sabia que caminho
seguir! Enfático, o felino respondeu que simplesmente o sabia!
Os dois percorreram por uma longa passagem que ia aos
poucos, se afunilando! De repente, o felino gris, perdeu o pé e foi
deslizando cada vez mais rápido, sem ter como e onde se apoiar!
– Gatão! - gritou Bella, aterrorizada!
– Voe, pequena! Eu...! - não conseguiu falar mais nada! A
velocidade da queda aumentou drasticamente! Era como se o
felídeo estivesse em um escorrega monstruoso! Acima dele, havia
felizmente espaço para Bella o acompanhar voando! Ela
concentrou todas as suas forças no bater das asas, pois não queria
perder seu amigo naquela espécie de funil gigantesco! Felizmente,
as paredes eram lisas, parecendo por analogia, a garganta de uma
fera de proporções titânicas!! Por um tempo impossível de precisar,
ambos continuaram caindo vertiginosamente, em linha reta! De
repente, a morceguinha, gritou: - Gatão! E se no fim desta descida
encontrarmos uma parede?! - O felino, respondeu no mesmo tom,
de modo que a pequenina o ouvisse: - Vamos nos arrebentar
contra rocha sólida! Você, talvez não! - a calma na voz do amigo, a
impressionou! Ela se desesperou! - M-mas você...! Você pode
morrer! - não houve resposta! Se fosse assim, nada poderia ser
feito! Lágrimas começaram a escapar dos olhos da diminuta
quiróptera! Se o Gatão morresse ali, o que seria dela? Por certo,
não teria forças para voar de volta para a entrada do funil rochoso!
E mesmo que a tivesse, não poderia abandonar o felino! Vivo, ou
morto! Morreria lentamente, de fome e sede, naquele estranho
túmulo, vendo o amigo apodrecer naquela espécie de túmulo,
antes do seu próprio fim! Melhor seria, morrer junto com ele!
Tendo decidido, silenciosamente o seu destino, a minúscula
Bella tentou agarrar-se ao corpo do Gatão, o conseguindo a custo!
Daí, percebeu, assustada que o espaço abaixo ia aumentando
gradativamente, à medida que avançavam! Em um átimo, passaram
velozes por uma abertura, caindo no vazio! A morceguinha guinchou,
ainda agarrada num dos musculosos ombros do Gatão! Seu guincho
fino foi abafado, quando mergulharam estrepitosamente, em água
gélida! A reação do felino foi imediata, agarrou a bichinha, enquanto
afundavam nas águas! Emergiu violentamente e nadou até a
margem de um pequeno lago subterrâneo, onde haviam se
precipitado! Saiu da água e depositou a estonteada e tiritante
morceguinha no chão! Cuidadosamente, o felino massageou o
corpinho dela, com as pontas dos dedos enormes, mas
incrivelmente delicados! A criaturinha recuperou-se aos poucos!
Olhou para o grande Gato, agradecida e perguntou em uma vozinha
fraca: - C-como você...sabia que não tinha parede...? Ahhh! Deixa
quieto! Você simplesmente sabia! E ainda me disse aquilo! Seu
danado...! E pare com esse seu sorrisinho sem mostrar os dentes!
Não achei graça, nenhuma! - O felino gris apenas disse para a
morceguinha descansar! Ele faria o mesmo! Felizmente todo o seu
equipamento estava com ele e a salvo, já que o material que
compunha a mochila e a sacola, onde se achavam acondicionados
mantimentos e armas eram impermeáveis! Também a lanterna do
capacete não foi danificada! A tocha de luz fria se perdera! Bem,
havia outras, na sacola! No entanto, o felino notou que o ambiente
não era trevoso! Uma luminosidade esverdeada fosforescente
enchia o lugar! Durante o descanso gato e quiróptera ingeriram mais
uma lata de alimento energético e nutriente! A morceguinha acabou
dormindo, mas o Gatão apenas deitou-se naquele arremedo de
praia, apenas para relaxar! Não tinha sono! Enquanto a pequenina
ressonava, o felino casmurro, olhou em torno. Das águas calmas e
paradas do lago saía um brilho verde, com certeza devido à
fosforescência que devia emanar do fundo e também notadamente,
das paredes daquela enorme caverna, onde se encontravam! O
local era naturalmente, profundamente silencioso, mas tal fato não
incomodava o cinzento! Não sabia se havia alguma forma de vida
ali! Ao menos até agora não tinha visto nenhum animal, planta, ou
fungo! Ainda assim, como era de seu hábito, ele não ficaria
desatento! Nunca fora descuidado, a não ser quando criança e no
início da juventude! Crianças e jovens podem ser descuidados!
Machos adultos, jamais!
Horas mais tarde, o Gatão chamou a morceguinha! Sonolenta,
ela custou a despertar! O felino tristonho recomendou que Bella
ficasse pousada em seu ombro, por precaução! Seguiram em
direção ao paredão na extremidade da caverna, em relação ao lago
de águas tranquilas e quietas, aparentemente, sem vida! Ao
chegarem aquele ponto determinado, entraram por uma larga
passagem, pela qual se deslocaram com cuidado! Não
encontraram nenhum obstáculo, ou qualquer ente, em seu
caminho! Foram avançando. As paredes em torno e no teto eram
fosforescentes, mas a tonalidade variava de um vermelho vivo a
um azul safira! A luminosidade, embora suave era suficiente para
que tanto o felino, quanto a morceguinha prescindissem do uso da
lanterna do capacete do Gatão. Gatos e morcegos, por serem mais
noturnos possuíam uma visão apurada, sem a necessidade de
muita luz ambiente. O tempo parecia elástico e aquele caminho
dava a impressão de não ter fim! A morceguinha, impaciente queria
que eles saíssem logo dali, mas o Gatão, em sua natural paciência
felídea, disse para a naniquinha se acalmar, pois o nervosismo
dela, não encurtaria a jornada! Emburradinha, ele se calou, mas
logo seu bom humor estava de volta, bem como a sua loquacidade,
usual! No que parecia uma eternidade, a improvável dupla seguiu
adiante! Até que uma lufada de ar fresco, deu ao Gatão e a sua
companheira de viagem a percepção de que estavam chegando ao
fim daquele caminho insólito!
sexta-feira, 24 de julho de 2026
DIA A DIA O FIM SE APROXIMA.
Na sexta-feira passada, dia 17 de junho, por volta de 13 horas, um velho foi espancado próximo da minha casa por um cara que tinha o dobro do tamanho dele e metade de sua idade. Dizem que se alguém machucar um idoso (pessoas acima de 60 anos) pode pegar de 2 a 5 anos de cadeia, até mesmo agressão verbal já dá um tempo de detenção que varia de 1 a 4 anos.
Mas, claro, as leis no Brasil praticamente não se plicam, haja visto que sabemos que apesar das medidas restritivas os companheiros continuam matando suas esposas e parece que isso só aumenta.
Mas é o mundo em que vivemos, onde velhos são surrados e crianças violadas, e isso não é de hoje, sempre foi assim, apenas o planeta ficou pequeno com a velocidade das notícias (hoje em tempo real) e não há nada que se possa fazer.
Por isso criamos os heróis, para, pelo menos na arte, vermos um pouco de justiça. Razão pela qual gostamos de ver o Batman espancando bandidos. Não a toa os meus quadrinhos são tão violentos, são catárticos. Uma pena eu não ter mais o tempo e a tal inspiração para novas histórias, mas cumpri o meu papel em todos os anos em que me aventurei como autor de novelas gráficas. Não obtive sucesso comercial mas deixei algo registrado a quem interessar possa.
O mundo caminha para seu fim e isto é cada dia mais nítido. Me lembro que no final da década de 80, quando eu congregava na Igreja Batista Central, em Brasília, muitos acreditavam que Jesus voltaria antes da virada do milênio. Alguns ousaram marcar dia e hora para tal. Uma tolice essa audácia, posto que Ele mesmo falou sobre isso em Mateus 24:36. Sim, realmente não sabemos, mas pelo caminhar da carruagem a volta do Mestre parece mesmo cada dia mais próxima, a coisa está de um jeito que ninguém aguenta mais (eu, pelo menos, penso ter chegado no limite!).
Oxalá o Senhor permitisse viver meus últimos anos sem essa pressão devastadora, sem as ameaças que pairam sobre minha cabeça, para não ter que viver a liberdade em cima de uma moto só através de um desenho.
Mas isso é Ele quem sabe.
terça-feira, 14 de julho de 2026
QUADRINHOS QUE (RE)LI RECENTEMENTE - TODOS OS QUE POSSUO DO DANIEL CLOWES
Olá, como estão vocês?
Por aqui tudo continua difícil, são tantas dívidas que nem sei, ainda não pude colocar o meu MEI em dia, diariamente recebo ameaças por e-mail de cancelamento do meu CNPJ. Realmente não tenho como pagar, tudo o que entra na minha conta, seja um dinheiro por uma pequena arte comissionada (sim, pequena pois geralmente é num formato A4 por uma quantia irrisória), um livro vendido ou uma oferta de algum irmão em Cristo, é para comprar comida e quitar os serviços como água, luz e internet. Aos que devo grana, me valho da máxima: "devo, não nego, pago quando puder".
Este período de seca já dura um ano e meio, pudera, nosso país, regido por bandidos, vai ladeira abaixo e tenho dúvidas se é possível reverter antes que eu vire defunto no médio prazo.
E não é só isso, no âmbito psicológico a coisa vai mal de verdade e eu sei que ainda não desisti por que Jesus tem segurado na minha mão e tem sido refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia em todos os momentos negros. Nele e tão somente nEle está a minha esperança e confiança.
Agora vamos ao tópico da postagem de hoje: minha releituras de coisas que estão na minha estante. Tenho me obrigado a ler um pouco a cada dia, sempre nos intervalos dos meus trampos (lembrem-se, ainda não concluí RASTREADORES DE ALGURES e a quadrinização de um filme de terror que deve ser lançado este ano) e a seleção que tenho feito são os quadrinhos que retratam a vida pela ótica ímpar de seus autores, a bola da vez ficou com o genial Daniel Clowes.
Conheci este artista nos anos 90 através de um álbum da Conrad chamado "Comic Book - O Novo Quadrinho Norte-Americano". Nele Clowes nos brinda com uma curiosa HQ intitulada CARICATURA. Ele e o Adrian Tomine eram os melhores no meio de toda a turma neounderground. Detalhe, o desenho do Clowes está longe de ser o idealizado por mim, eu sempre lutei no time do Corben ou Wrightson, mas é inegável que o estilo de narrativa dele tem tudo a ver com seu traço, que aliás é único.
Assim que a Conrad colocou na praça o Como Uma Luva De Veludo Moldada Em Ferro corri para comprar e fiquei com uma impressão estranha por um bom tempo. Senti como se eu lesse David Linch em quadrinhoos, situações bizarras e personagens absurdos, sem dúvida o álbum mais perturbador que ele fez, pelo menos que eu li,
Wilson veio a seguir, um sujeito insuportável mas que acabamos nos simpatizando com ele, seria como o Alex de Laranja Mecãnica, despresivel, mas acabamos torcendo por ele.
David Boring tem uma narrativa peculiar, triste, sombria. Alguém definiu este álbum como "desolador, perverso e fetichista" e acertou em cheio.
E por fim, "Paciência" (é o nome de uma mulher). Assassinato, violência com toques de sci fi e viagem no tempo.
Foram bons momentos de prazer em meio ao caos lendo essas HQs.
Espero voltar em breve comentando novas releituras, talvez uma de herói, o excelente Gavião Arqueiro pelo Matt Fraction e David Aja ou quem sabe a Cidade de Vidro do Mazzuchelli? Veremos.
Até lá, se DEUS quiser!
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Ando bastante alheio ao que acontece ao meu derredor. Sem paciência para notícias do mundo, política do dia e tudo o mais, até mesmo assist...
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Vocês já perceberam que há muito tempo eu não exibo uma arte particular neste blog? Tenho trabalhado muito e não tenho tirado momentos pa...




