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terça-feira, 7 de julho de 2026

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 5 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 

– No capítulo anterior, o Gatão mais uma vez, mostrou-se um sobrevivente nato! Enfrentou e matou uma das mais perigosas e mortais criaturas do deserto! A grande busca continua!

INÍCIO: 27/09/25. Término: 18/12/25.

A Busca – Capítulo 5:

        Assim que o sol se pôs, o felino levantou acampamento. Naquela noite avançou incansavelmente, por trinta quilômetros, ou mais, realizando paradas rápidas somente para alimentar-se! Felizmente, aquelas rações enlatadas especiais, além de supri-lo de nutrientes básicos e necessários, também substituíam a necessidade de água, sendo ricas em sais minerais essenciais à vida! Realmente, as Forças Armadas atingiram seu auge, em relação a seu equipamento padrão de sobrevivência em áreas inóspitas! Era um dos últimos resquícios de alta tecnologia que hoje beneficiava o felino, em um mundo que havia regredido praticamente à barbárie!

        Alta madrugada! O Grande Gato é atraído pelo som de vozes, no silêncio opressivo do deserto! Por falar em militares, ao aproximar-se silenciosamente e sem ser notado, divisou em um acampamento montado, no meio das ruínas de um antigo vilarejo, um destacamento de uns dez indivíduos! Enormes mastins de ar empedernido e brutal! E militares era modo de dizer! Não havia mais Forças Armadas constituídas! Na verdade, quem deles sobreviveu ao caos, formavam pequenas hordas! Aqui e acolá! Os cães estavam de fato, a caráter! Uniformizados, mas eram roupas sujas e suadas, sem a notória e costumeira impecabilidade dos milicos de outrora! Estavam bem armados e possuíam farta munição, em grandes caixas! Parecia ser um grupo coeso! Isto explicaria o fato de estarem ainda vivos e suas coisas não terem sido tomadas por outras hordas errantes, bem como também suas peles! Na realidade, o que atraiu o Gatão foi a visão de um veículo que estava estacionado atrás de um resto de parede baixa e carcomida, a qual, não ocultava aquele artefato completamente! Era um flutuador! Um veículo comprido feito de carbono metalizado! Para se locomover, não possuía rodas ou esteiras, tipo as de um tanque! Sob ele, um campo antigravitacional o elevava acima do solo, deixando-o destituído de peso, quando em funcionamento! E o melhor! Era alimentado por acumuladores solares! Não precisava de combustível, tendo autonomia, portanto, ilimitada! Atrelado à sua traseira, um tipo de reboque (alimentado pelo mesmo princípio do flutuador), carregado de grandes caixas de munição! Por sorte, Zé Gatão sabia manejar aquele aparelho! Embora, nunca tivesse uma única vez em sua vida servido às Forças Armadas, tinha estudado e tido contato com seus equipamentos, em um dado momento de sua vida! Apesar de sua notória aversão a cães, em especial a milicos havia tido alguns poucos bons amigos caninos, nesta área específica e aprendido com eles, o manejo de armas variadas, bem como a condução de uma miríade de meios de transporte militares! O Gatão, imóvel, próximo aos dois sentinelas que vigiavam o flutuador, esperou os outros membros do destacamento irem dormir! Aguardou mais uma hora e satisfeito, viu os sentinelas distraídos, jogando cartas!

        O felino cinzento preparou-se para anular os dois sentinelas! Contudo, sem matá-los! Não havia motivo! Se agisse com calma, nem seria percebido pela milicada! Pegou uma zarabatana que havia feito de uma espécie de planta local que tinha conformações que se assemelhavam a canudos! Ele produziu dardos de espinhos de cacto e embebeu as pontas com uma seiva soporífera, provinda das próprias plantas canudo! Tinha preparado a zarabatana e os dardos anteriormente, por precaução! Não sabia que usaria estes artefatos, tão já! Cautamente, o felino casmurro se aproximou dos sentinelas caídos! Notou que estavam entregues ao sono dos narcotizados! Roncando, até! Desconectou o reboque! Não precisaria dele! Da grande caixa pegou algumas embalagens de cartuchos e um fuzil-metralhadora de último tipo! Depois, calmamente, o Gatão subiu no espaçoso flutuador! Ativou-o! Como não tinha motor, não fazia ruído algum, ao ser ligado! Saiu logo dali, planando! Luzes apagadas! Gostaria de ver a cara dos militares, quando descobrissem o furto! Bom, este é um prazer que nós teremos, no lugar do Grande Gato!

        Logo ao raiar do dia, o comandante do destacamento canino, acordou, meio mal-humorado e assim que deu falta do flutuador e viu os dois sentinelas estirados de barriga para cima, a roncar barulhentamente, explodiu em ira! Não latiu de raiva! Urrou, fazendo a soldadesca pular que nem pipoca na panela quente!

– Que merda aconteceu aqui? Não acredito! Roubaram nosso flutuador! E debaixo dos focinhos de dois idiotas! Vamos! Acordem estes biltres! Andem! Mexam-se bando de moloides! Quero explicações! E já!! - Os pobres sentinelas foram acordados a base de chutes e palavrões! Em seguida, estavam enfileirados com os outros soldados diante de um comandante furibundo! Os dois infelizes ainda estavam meio grogues e isto apenas serviu para enfurecer mais ainda, o superior! - Vocês dois! Como é que dormiram em serviço?! Eu devia estourar o crânio de vocês à bala! Como foi isto? Andem! Expliquem-se, antes que eu os mate, aqui e agora!

É claro que os dois coitados, não souberam explicar como caíram no sono, durante a vigília! Só se lembravam que estavam jogando cartas e…! O comandante estrilou: - Imbecis! Néscios! O dever de vocês era vigiar e não jogar carteado durante o serviço! Maldição! Agradeçam por eu não ser como um oficial que já trabalhou comigo, chamado Coronel Brutal (vide Siroco)! Se fosse ele, em meu lugar, o cara fuzilaria vocês, cretinos, sem hesitação! Diabos! Mas não pensem que vão ficar sem castigo! Pendurem estes dois bastardos! Chamem o sargento Pederneira! Tragam o chicote! Andem, seus moles! Mexam estas suas bundas inúteis! - Mesmo naquele momento quase insano, um tenente caiu na besteira de perguntar se o comandante ainda tinha contato com o referido oficial! O mastim explodiu: - Nunca mais o vi e quero mais que ele se foda! Era um grande filho da puta! Espero que esteja agora, catando carvão no Inferno, onde é o seu lugar! E pare de falar idiotices, tenente! Traga logo o sargento e não esqueça do chicote!

 Ao serem bem amarrados, meio pendurados, os dois sentinelas, caídos em desgraça, olharam para seu comandante com os olhos marejados de lágrimas, em uma súplica muda! Insensivelmente, o oficial resmoneou: - Não sei como dois cachorros aviadados como vocês conseguiram ser aceitos por uma tropa de elite como a nossa! Ambos deram o rabo pra quem?! Hein?! Já chegou, sargento? Cinquenta chicotadas no lombo destes dois maricas! E com vontade! Quero ouvi-los ladrar, fui claro?! - O sargento não se fez de rogado! Chicoteou impiedosamente as costas dos dois sentinelas e seus uivos, misturados com ganidos de uma dor indescritível, atroaram à distância e este fato alegrou por demais, o pervertido coração do comandante!

        Ao mesmo tempo, o Gatão já se encontra a muitos quilômetros longe do palco da tragédia, a qual tivemos o privilégio de assistir! O flutuador era facílimo de manejar e sua cabine hermeticamente fechada e refrigerada trazia ao felino, um frescor e uma tranquilidade, normalmente desconhecidas, ao ar livre! Além disto, o aparelho possuía sensores direcionais que o guiavam perfeitamente para a direção que o Grande Gato pretendia seguir! Porém, como diz um velhíssimo ditado, “tudo o que é bom dura pouco!” Repentinamente, uma luz de alerta se acendeu no painel de controle! Ao que parece, algum problema mecânico estava fazendo o flutuador falhar! O Gatão resolveu aterrar e foi bem na hora! Assim que tocou no solo, o painel se amagou! Não havia nada a fazer! Não havia mecânicos, ou peças de reposição em lugar algum do mundo e muito menos oficinas do Exército!

O felino tristonho deixou o aparelho, exatamente onde havia pousado, não muito longe de uma cordilheira montanhosa que significava o fim do deserto! Faltava uma hora para o anoitecer. Se andasse logo, o Gatão poderia acampar ao sopé da cordilheira! Com certeza ali, a natureza seria menos hostil, quem sabe? Pôs-se a caminho.

 Quando a primeira estrela da noite cintilou no firmamento, Zé Gatão alcançou o sopé da cordilheira. Encontrou um trecho de mata agreste, arbustivo. Adentrou naquela área e levantou acampamento no interior de uma pequena caverna que encontrou. O local era habitado por morceguinhos amarronzados que voaram assustados, para o alto das estalactites que se projetavam do teto como dentes de uma grande fera! Somente uma daquelas criaturinhas não fugiu! Era uma fêmea e de uma fenda próxima na parede, observava o intruso, com os olhinhos arregalados e brilhantes! Em um dos seus raríssimos sorrisos, o felino chamou-a para aquecer-se junto à fogueira, afirmando que nada temesse! Ele não lhe faria mal! Ela se aproximou, meio ressabiada! Incrivelmente, surgiu uma instantânea empatia entre aqueles dois seres! Tanto que quando a morceguinha perguntou o que ele fazia ali, o Gatão, sem reservas contou-lhe sua história e o motivo de sua jornada! A pequenina sorriu contente e disse que já ouvira falar deste mundo perdido dentro do mundo! Perguntou se podia acompanhá-lo, dali por diante e o Grande Gato aquiesceu! Ele estivera sozinho tempo demais, até para seus padrões de ser solitário! Estava cansado de brigar e muitas vezes matar, toda vez que encontrava algum ente em seu caminho! Ficaram amigos! Ela chamou seus inúmeros parentes! Eles saudaram o Gatão, mas não quiseram seguir naquela estranha jornada. Antes de partirem para seu voo noturno fora da caverna, conversaram muito com o felino e o seu falatório alegre, trouxe descontração ao coração do Gatão! A morceguinha não foi! Preferiu ficar ao lado do novo amigo!

 O novo dia se apresentou ensolarado, mas diferentemente da área desértica, uma brisa agradável vinha da cordilheira! Era ótimo não sentir mais o constante e pesado calor que só desertos podem proporcionar durante as longas horas de claridade! Também dentro da caverna, onde havia se abrigado na noite anterior, o clima era meio geladinho! O Gatão despertou faminto! Acabou devorando duas latas de ração específicas que diziam em suas informações nutricionais – concentrado! Olhou casualmente para o teto e viu bandos de minúsculos morcegos adormecidos e pendurados às estalactites que enchiam a cave! Procurou, Bella, a morceguinha com a qual havia contraído recente amizade e a viu pendurada numa estalactite bem acima de onde o felino estava. Seu ronquinho sutil podia ser ouvido facilmente no silêncio daquele ambiente cavernoso! O felino gris a encarou com um incomum sentimento de ternura! Sim! Nunca gostara tão facilmente assim, de alguém! Achava inclusive, a criaturinha alada engraçadinha e graciosa, com seus olhinhos vivos e vozinha firme! Parecia ser muito inteligente e destemida! Deixou-a e aos seus semelhantes dormir tranquilamente e procurou não fazer barulhos desnecessários! Cerca de uma hora depois, Bella acordou e seu bom dia feliz, foi respondido com desusado entusiasmo pelo Gatão, em voz baixa devido ao seu timbre de voz mais grave! O felino perguntou se ela estava com fome! A resposta foi afirmativa e ela comeu com apetite um restinho de ração que ainda sobrara!

 Duas horas depois, a inusitada dupla deixou a caverna! A pequena ia agarrada às costas amplas de seu mais novo amigo, sedenta de aventuras, segundo ela! O felino expressou um leve e fugidio sorriso! Não deu infelizmente, para se despedirem dos outros morceguinhos! Contudo, o clã já havia aprovado ontem, a partida de Bella! Seguindo de forma ascendente, o Gatão se movia, se agarrando a cada reentrância rochosa! Sua enorme força, guindando-o, palmo a palmo, apesar do peso da sacola de armas e munições bem atravessada em seu corpo muscular e a pesada mochila em suas costas! Movia-se rápido e facilmente pelo costado da enorme montanha! Ao fim de duas horas de escalada, o felino e sua pequenina companheira de viagem atingiram o topo da montanha! Seguiram por uma trilha entre as rochas, se detendo em um platô, no intuito de descansarem um pouco, em meio a uma mata mais densa! O felino sentiu o cheio de água e descendo um aclive encontrou um regato murmurejante, de água limpa e fresca! Ao que parece, aquela cordilheira distante, não havia sido afetada pelos horrores da Guerra e sua toxidade mortal! O Gatão encheu seu grande cantil e dividiu seu conteúdo com Bella! Que delícia para o casmurro tomar água de verdade! Se sentiu revigorado!      Prosseguiram a caminhada! Bella agora voando juntinho do rosto do felídeo! Instantes depois, a minúscula quiróptera mostrou-se alarmada e Zé Gatão indagou o motivo! Ela respondeu que estavam se aproximando do território dos três leões! Era um trio de irmãos extremamente territorial que dominava aquelas cercanias!

A morceguinha tirou da cabeça do Gatão, qualquer possibilidade de negociação! E o pior! Não havia rota alternativa, já que tudo ali pertencia aquelas grandes feras! O Gatão acalmou-a, dizendo que dariam um jeito qualquer! Pararam para almoçar, quando a fome bateu e aproveitaram para descansar um pouco! No princípio da tarde, antes de levantar acampamento, o vento trouxe às narinas ultrassensíveis do felino acinzentado, cheiro de leões! E forte! Dali a instantes, três formidáveis felinos surgiram no acampamento! O que parecia ser o chefe possuía uma enorme juba negra! Trajavam roupas inteiriças feitas de fibra vegetal! A cintura cingida por grandes cintos semelhantes aos de antigos gladiadores de épocas passadas! Braçadeiras trabalhadas, enfeitavam os pulsos! Os corpos musculosos e bem formados denotavam força e brutalidade quase palpáveis! O Gatão não se impressionou e os olhou tranquilamente! A calma do amigo reduziu um pouco o medo da morceguinha que estava encolhida, bem agarrada ao pescoço dele! Então o líder se pronunciou! Voz forte, altiva de tom bastante profundo e grave: - Você está invadindo nosso pedaço, meio lince! Levanta, venha me enfrentar, se é macho!

 O felino cinzento retrucou, com desdém: - Esta terra é livre, cabeludo! Precisamos seguir em frente, entendeu, ou quer que eu desenhe?! Caia fora, ou vou ter que te amaciar na base de muita porrada!

A risada grossa do de juba negra ecoou pelas cercanias!

– Tás de sacanagem, parceiro! Cê é grande pra caralho! Nunca tinha visto igual! Mas não sabe com quem está se metendo! Acho que achei um novo tapete para enfeitar minha casa, não é rapazes?! - Os dois irmãos de juba acobreada riram, o bom rir! O Gatão não riu, mas retrucou: - Vamos combinar! Se eu amassar este seu focinho feio, eu e minha amiguinha teremos livre passagem por estas plagas das quais você se diz o mestre e senhor! De acordo? - O leão gigantesco riu até quase vomitar de tanto gosto! Nenhum animal, que ousara passar por ali, o pudera vencer! Colecionava em sua habitação, cabeças, chifres e ossos dos que tentaram! Que troféu magnífico seria a cabeça daquele meio lince, acinzentado na parede da sala! O Gatão mediu seu adversário de alto a baixo! Parecia ser um elemento perigoso! Mas tal constatação, não fez seu metabolismo acelerar, nem um tiquinho! Era só ser prudente e saber aproveitar qualquer chance a seu favor que surgisse durante o combate! O Gatão não era nenhum novato! Pelo contrário! O leão também percebeu que seu oponente ia dar trabalho! Isto só o estimulou e acirrou-lhe o instinto sanguinário! Se achava tão foda que a seu ver, aquela luta só ia se prolongar um pouco mais! Bom! Faria aquele felino cheio de marra implorar! Faria o louco iludido sofrer, antes de tirar-lhe a vida! Quanto à morceguinha, ela seria um novo brinquedo para seu prazer pessoal!

        Os dois contendores mediram-se! Começaram a mover-se, um em torno do outro, de maneira concêntrica! Pareciam estar em um ringue sem cordas e sem delimitações físicas! Estudavam-se, procurando brechas e pontos vulneráveis, a explorar! Como um relâmpago, o leão de juba negra e basta atacou, aplicando uma saraivada de jabs, os quais o Gatão evitou com a facilidade e experiência do exímio lutador que era! O leão ainda tentou um murro no plexo solar do adversário e sequencialmente, um soco de cima para baixo, com uma precisão incrível! Isto, se tivessem atingido seu alvo! Percebendo uma brecha para atacar e um momentâneo desequilíbrio do corpo do oponente, em razão de seu deslocamento natural, durante o combate, o felino aproveitou para oscilar, confundindo o êmulo! Em seguida, se projetou à frente, conseguindo encaixar um murro explosivo na face de um surpreso panthera leo! A boca do indivíduo, simplesmente explodiu em sangue e sua dentadura, assim como a mandíbula, só não foram seriamente danificadas, por conta de serem excepcionalmente fortes! No entanto, o impacto devastador, lançou o musculoso ser, brutalmente ao solo como se ele fosse um encardido pano velho jogado fora, com displicência! Os irmãos do atingido gritaram sonoramente, sem crer no que viam e Bella, dependurada em uma árvore arbustiva, próxima bateu suas asinhas de contentamento! Ao chão, estonteado, o leão resmungou: - Porra! Pela juba de meu avô! Nunca ninguém conseguiu me derrubar até hoje! Nem os maiores animais! Puta que me pariu!

        Os seus irmãos, furiosamente instaram para que o leão de juba negra, revolta se levantasse logo! Da boca deste irmão mais velho escorria sangue! Profuso e vermelho! Zé Gatão estava à espera! Descontraído, mas alerta! Então, como um bólido, o enorme leão ergueu-se! Porém, antes que pudesse mover um músculo, tomou um poderosíssimo chute lateral que quase arrancou sua cabeçorra fora! Desta vez, o felino gris não deixou que ele caísse de novo! Agarrou-o com a mão esquerda e enterrou o punho direito, com toda a força, no bucho do desgraçado! O infeliz gritou de dor! Um lamento sufocado, que mais parecia o cacarejo de um galináceo e não o bramido altivo e ameaçador de um leão! Uma, duas, três vezes, o Gatão esmurrou fundamente! Bateu sem dó, no estômago de seu contrário! O ar já não entrava livremente naqueles pulmões, convulsionados! Para finalizar, um novo murro no meio da cara atirou o pobre leão no mundo dos sonhos! Ficou esticado igual um amontoado de merda! Ali, quietinho, a esperar que o recolhessem para jogá-lo na privada mais próxima, mesmo se sabendo que não mais as havia!

        Os irmãos do de juba negra estavam estupefatos! Não podia ser! Seu irmão foi derrotado como um principiante! Correram a acordá-lo sacudindo-o e estapeando seu rosto arrebentado! Foi preciso jogar água na face dele, diversas vezes! Gemendo penosamente, ele despertou, estremunhado! Olhou em torno, e viu o felino que o espancara tão facilmente, sentado em uma pedra, a conversar com Bella! Esta não se cabia de contente e dava gritinhos, voejando em torno da cabeça do felino cinza!

 – Você é extraordinário, cara! Eu nunca fui derrotado! Nunca, até hoje! Como foi possível? - As palavras do leão eram sinceras! O Gatão o encarou com sobriedade e respondeu, categórico:

– Fácil de explicar, amigo! Você lutou de forma descuidada! Foi prepotente! E o mais importante! Seu coração não estava no combate, entende?

– Mas como assim?

– Você sempre foi acostumado a porrar seus oponentes, sem dificuldades! Você era mais habilidoso do que todos eles! Não importava o tamanho! Só que eu, saio na porrada desde que precisei aprender a me defender dos valentões que me espancavam quando eu era filhote! Depois, estudei a fundo a Arte do Combate físico! Tive excelentes professores! Participei de lutas profissionais e não-profissionais! Misturei várias técnicas clássicas à luta de rua (esta não tem regras)! Acima de tudo, aprendi a usar a cabeça, além dos punhos! E foi o que você viu! E agora? Vai cumprir sua promessa, ou vamos continuar nossa pendenga? Você quem sabe!

– Vou cumprir minha promessa, meio lince! Você é um animal honrado e quero que a gente seja amigo! - Os irmãos mais novos do leão de juba negra protestaram, aos gritos e o mais velho ordenou que se calassem! Eles atenderam, contrafeitos! Se voltou para o felino gris, dizendo: - Me chamo Léo Grandi e estes dois bobalhões são meus irmãos menores: Sid Léo e Mik Léo!

– Eu sou Zé Gatão e aquela é Bella! Minha amiga e companheira de jornada! - A morceguinha se sacudiu faceira, empoleirada no ombro de seu amigo!

– Prazer! Ei, vocês dois! Vão apertar a mão do Zé Gatão, ou tão precisando de uns cascudos pra ter educação? Andem, vamos!

Sid e Mik, o fizeram meio ressabiados, mas logo esqueceram as desavenças e ficaram mais sociáveis! Até pediram que o Gatão os ensinasse a lutar. O felino deu um breve sorriso sem mostrar os dentes, acrescentando:

– E para quê? Para você matarem animais, como seu irmão mais velho?

– Ora, por que você luta? Não é para isto? - indagou Sid!

– Por acaso, eu matei o irmão de vocês?

– Eles estão certos, Gatão! De que vale lutar, sem matar o adversário? Você nunca matou ninguém?

– Não nego! Já matei! Mas diferentemente de você, eu luto para me defender e não necessariamente para matar! Você não está vivo? - Bella olhou para os três leões, com certa ironia!

– É verdade, só não entendo porquê você não me matou!

– Eu não tinha e não tenho razão para tirar sua vida! Não vou afirmar que nossa luta não foi empolgante, de certa maneira! Mas eu pessoalmente estou de saco cheio de lutar e mais ainda de matar! Mas fique certo! Se minha vida, ou a de Bella estivesse em perigo, nenhum de vocês estaria mais respirando! - Sid e Mik quiseram protestar! Porém, o olhar severo de Grandi, os fez calar! O Gatão continuou: - Não tenho nada a ver com o que vocês fazem! Então, me digam! Qual é o sentido de desafiar animais que passam por “suas terras” e simplesmente matá-los? Acho uma pura criancice! Quem determinou que vocês têm este direito? Vocês mesmos, imagino! Não sei se sabem! Mas a civilização como a conhecemos foi destruída por uma grande Guerra! Não há mais cidades, dinheiro, sociedade organizada e muito menos Governo!

– Nós não sabíamos! Viemos para cá há muitos anos para fugir da pobreza, da fome e da violência das grandes megalópoles! Redarguiu Grandi. Seus irmãos confirmaram!

– Sei! E estabeleceram aqui seu pequeno reino de violência…! Escutem, só quero que reflitam! Querem tanto lutar com os animais que aparecem? Ótimo! Porém, não precisam matá-los, se não for absolutamente necessário!

– Mas então, eles vão atravessar nossas terras, livremente!

 – E que mal há nisto? Eles são tão livres como vocês! E tem mais! Eu cheguei e venci a luta contra o Grandi, aqui! Pode muito bem aparecer hordas agressivas de chacais, lobos e hienas, vindas do deserto que não hesitarão em estripar vocês três a frio, ou encher vocês de chumbo grosso! Não duvidem! Eu estive lá! - Os três irmãos leoninos ficaram pensativos! - falaram em uníssono:

– O que acha que devemos fazer? Arregar? Nem pensar!

 – Eu penso que vocês poderiam ser mais atentos! Só lutem se for para se defender! Não deem na vista! Sejam mais cautelosos!

        - Hey! Não quer ficar aqui conosco e nos ensinar a sermos mais cautelosos, como você diz? - perguntou Sid.

 – Não podemos ficar! Temos que seguir viagem! Amanhã cedo, nós iremos!

– Sim! Então, fiquem conosco, hoje e partam mesmo, amanhã! Daqui a pouco vai anoitecer! - asseverou, Mik. Assim foi feito. O felino gris e a morceguinha se hospedaram na casa onde Grandi morava com os dois irmãos. Envergonhado, o leão de juba negra retirou seus troféus da sala de estar e os guardou em outro aposento! Passaram aquele princípio de noite em animada conversa, durante o jantar, em um espaçoso refeitório! O Gatão ofereceu como complemento à gostosa comida preparada pelos irmãos, alguns de seus enlatados doces, como sobremesa e todos comeram as iguarias com redobrado prazer! A loquaz tagarelice da morceguinha alegrou ainda mais o ambiente e até o Gatão permitiu-se a sorrir, parecendo um pouquinho menos casmurro, do que o usual! Duas horas após a janta, foram para cama e pela primeira vez, em muito tempo, o felino cinzento dormiu despreocupado! Ainda que seu sono fosse leve, como de costume!

        No dia seguinte, ao fim do café da manhã, Zé Gatão e sua companheira de viagem partiram! Léo Grandi e os irmãos, os fizeram prometer que passariam por ali, na sua volta! Intimamente, o felino acinzentado sabia que não mais veria os três leões, mas nada disse! Se contasse o objetivo de sua jornada, os irmãos o considerariam um louco varrido!

 

 


quinta-feira, 2 de julho de 2026

"BIG BABY E EL BORBAH", QUADRINHOS QUE (RE)LI RECENTEMENTE 02

 É sempre assim, caminho pelas ruas e as ideias me surgem claras, inspiradas e eu penso: oh, isso precisa ser registrado no blog! Uma lembrança, um conceito, uma reflexão sobre algo do presente ou do passado, sei lá. Reservo num canto do porão da mente e quando me sento diante do computador não lembro mais o que era, as palavras iluminadas se foram como fumaça ao vento (lembrei que usei essa frase numa HQ do Zé Gatão). Tem acontecido com muita frequência, infelizmente. Fico me perguntando sobre a relevância deste blog, se é que já teve alguma. Ando tão apático a tudo que minha vontade é me exilar daquilo tudo que me cerca. Pra não dizer TUDO, ainda gosto de ler, mas o tempo e as urgências da vida me impedem de me concentrar. E nesta abulia e desânimo, o que transmitir aqui? Para quem? O que eu teria para argumentar que eu já não tivesse dito em 16 anos que aqui escrevo? Bem, claro, alguns admiradores dos meus desenhos e palavras me pedem para não parar e este espaço tem tido um alto número de visualizações (hei, isso é ótimo!), mostra que existem interessados. Na verdade não sei se essas visitações são como aquelas pessoas que entram num local, dão uma olhada para ver o que tem e vão embora no mesmo ato ou se realmente leem um texto (empurrados por alguma arte ou não) e procuram por mais. Quando inaugurei este espaço para mostrar alguns desenhos não era minha intenção transformá-lo numa espécie de diário, um muro de lamentações mas foi o que acabou se tornando. Aqueles que me acompanham por anos me viram chorar perdas, comemorar a vitória de um novo álbum publicado, demonstrar apreensão diante da minha incapacidade de debelar uma ameaça, minhas queixas por não conseguir respirar aliviado no que tange a dinheiro e muitas outras coisas. Aliás, MUITO OBRIGADO uma vez mais a todos vocês, queridos e queridas! Se preciso de um motivo para vir aqui abrir meu coração, o maior deles, com certeza é sua audiência. 

Mas vamos focar no real objetivo de vir aqui hoje que é falar sobre Charles Burns e suas novelas gráficas. Claro, eu poderia citar o ótimo Black Hole, talvez sua obra mais famosa (ou mais comentada), tenho ela na minha coleção e já li duas vezes, mas prefiro aludir a respeito de "Big Baby" e "El Borbah". 


 

BIG BABY, como tudo o que este autor americano faz, é estranho. Flerta com o horror, o esquisito, o sem explicação. Temos um menino, que eu diria que tem no máximo uns 10 anos, que protagoniza - ou testemunha - fatos bizarros. Burns não se preocupa em dar explicações sobre o que ocorre, me sinto como se estivesse caminhando por uma rua e alguém me pegasse pela mão sem mais nem porque e me levasse a um território desconhecido e ameaçador e depois me colocasse de volta em terreno firme, dizendo: calma, foi só um susto. Na verdade é bem mais que isso, só lendo para atestar.

Já com EL BORBAH me sinto um pouco diferente, embora as histórias contenham sempre os elementos esquisitos e terroríficos, ele me envolve sobretudo pela memória afetiva; eu folheava avidamente as edições da Heavy Metal na livraria Sodiler no fim dos anos 70 e lá estava aquele desenho excêntrico, de movimentos duros, retratando um personagem mascarado, como aqueles luchadores mexicanos, que sempre era contratado (no melhor estilo detetive noir) para resolver casos escabrosos. Caras, é legal pacas!

Lembrem-se, o objetivo aqui não é fazer resenhas, dissecar obras e tal, mas falar das minhas impressões sobre essas criações. Não tenho comprado quadrinhos novos, algumas coisas eu baixo da internet para não ficar alienado deste universo que tanto me encanta, mas quero reler o que tenho e na medida do possível falar sobre. A segunda leitura me traz algo que não havia captado na primeira, pelo menos não que eu lembre.

 Dificilmente teremos super-heróis aqui, mas não impossível. Atualmente leio o que tenho do Daniel Clowes, deve ser minha próxima interpretação.

 Notem, cheguei aqui sem assunto (além, claro, de falar sobre esses quadrinhos) e acabei tendo assunto.

Fiquem todos com DEUS! 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

"INTRUSOS", QUADRINHO QUE (RE)LI RECENTEMENTE 01

 Bom dia, amados e amadas. Tudo bem com vocês?

Aqui do meu lado, no que tange o lado financeiro, a barra está pesadíssima! Sempre esteve, mas agora noto que conhecidos que nunca se queixaram tanto da vida, com bom salário e emprego estável, se veem roendo as unhas e contendo gastos. Isso explica, em parte, o Zé Gatão - Siroco, edição de colecionador ter despertado interesse mas nenhum consumo até o momento. Pudera, o mundo está um caos, mas principalmente o Brasil cujo o leme se encontra nas mãos da mais pérfida quadrilha que se tem notícia. Mas deixa isso pra lá, falar não adianta.

Sabem, tenho saudades do tempo em que eu comprava quadrinhos. Ler e ir ao cinema sempre foram as maiores (talvez únicas) diversões para mim. O cinema como eu gostava, morreu, as produções hoje, muitas delas boas, sim, bem produzidas, são esquecíveis, depois de um tempo não são mais lembradas como "O Tesouro de Sierra Madre", por exemplo. 

As HQs já é outro departamento, são legais hoje como sempre foram, o problema é que o dinheiro e meu espaço físico não permitem mais o colecionismo.

Por isso me volto para o que já foi lido. Me desafio a reler uma boa obra por dia.- dependendo do número de páginas, uma por semana - para não sentir a vida tão árida, uma vez que só tenho Verônica e Rodrigo por família e amigos de verdade vão se tornando dia a dia mais raros, boa parte dos que sempre me mandavam mensagens de apoio me abandonaram, não por descaso, quero crer, mas por que optaram por viver seus problemas fora do meu radar. Desejo sorte a eles, de verdade.

O item que reli semana passada foi Intrusos do Adrian Tomine (falei sobre "A Tristeza De Um Quadrinho Sem Fim", do mesmo autor, há umas postagens atrás) que comprei, se não me engano, em 2019. 

O que me agrada no Tomine é a forma como ele capta situações e dramas do cotidiano de modo que induz à reflexão e trás uma certa melancolia em traços simples e econômicos, mas muito bem feitos (por bem feitos, leia-se "não toscos", como é muito comum hoje em dia em HQs com a mesma temática).

Não vou fazer análise da obra, não é a proposta aqui, apenas registrar que alguns gibis ainda me encantam da mesma forma que eu sentia quando era criança. Agradeço a Deus por isso.

No momento releio Charles Burns com seu "El Borbah". Breve comento  aqui.


 

FIQUEM TODOS NA GRAÇA E AMOR DE CRISTO JESUS! 

 

 

 

 

 

  

segunda-feira, 8 de junho de 2026

ZÉ GATÃO - SIROCO EDIÇÃO DE COLECIONADOR

 A arte é para todos mas poucos apreciam, desses poucos, uma fração ínfima tem dinheiro para usufruir disso que é o que torna a vida terrena mais suportável.

Estou assistindo no streaming um spin off da cultuada série La Casa De Papel com o personagem Berlin (na verdade esse é o segundo spin off, o primeiro eu comecei a ver mas achei chato e não quis perder tempo). O que me chamou a atenção nesta série foi o sub-título: "A Dama Com Arminho", alusão ao quadro do Leonardo Da Vinci. Um dos episódios faz uns comentários muito pertinentes sobre a arte da pintura.

Pintar telas a óleo e expor em galerias mundo afora sempre foi o meu grande sonho, mas é uma aspiração que precisa ser alimentada dia a dia, que necessita de dinheiro, não só para materiais - que são caros - mas para poder mesmo se dedicar aos estudos. Tive que abortar essa quimera em prol da sobrevivência e como gosto de contar histórias, os quadrinhos (outra grande paixão, mas aqui falo como consumidor, não autor) serviram de substituto. Porém, as dificuldades enfrentadas por quadrinistas num país regido por ladrões e canalhas da pior espécie, onde não existe mercado e nem tradição, o que se tem é uma muralha quase intransponível. Sem contar que boa parte dos materiais que vem a público é ruim. Ganhei de presente um álbum de antologias do que se produz atualmente e a coisa é triste. Narrativas toscas e com desenhos fracos!

Eu e o Renato Tavares (um herói anônimo que quer deixar toda a minha obra em catálogo) cometemos uma nova edição do ZÉ GATÃO-SIROCO e o interesse por parte do público foi zero. Só consegui vender o meu exemplar (o que é mostrado no vídeo) para um amigo médico e colecionador de quadrinhos lá em Brasília, embora ele já tivesse a edição da Atomic. Umas duas pessoas me passaram mensagens pelo Facebook mas  devem ter se assustado com o preço.

Essa nova edição do SIROCO tem capa dura, papel offset de gramatura 120 (papel grosso), 288 páginas, contendo esboços, sketches e uma galeria de arte, o preço é 175 reais.

Num país cada dia mais miserável, dar 175 reais num álbum de quadrinhos que não é do Batman e nem do Homem-Aranha não é para fracos, então nem posso me queixar.

Repetindo o que eu disse no início do texto, a arte é para todos, mas nem todos tem a sorte de entender, apreciar ou dinheiro para tal. 

Como dito por alguém, quem gosta de arte é milionário, o artista gosta é de dinheiro.

Mas a sorte está lançada. Vamos ver se tudo isso vai render frutos um dia


 

        

sábado, 16 de maio de 2026

AH, QUE VONTADE DE COMER ALGUMA COISA DIFERENTE!

 A frase que dá título ao post de hoje foi proferida por Francis, minha mãe, algumas noites do ano de 1972 ou 73, acho.

A vida sempre foi extremamente difícil para nós (a minha é até hoje), mas na primeira metade dos anos 70, antes de nossa mudança para Brasília, foi cruel! Sempre tinha o básico para a alimentação, mas geralmente aquelas guloseimas que encantam os petizes, eu só via pela tv com água na boca, tipo, chantily ou Leite Moça, como era conhecido o leite condensado. E nós (eu, ela, minha avó e os bebês, Gil e André) deitados na cama olhando para o teto conversando e ela vinha com a frase: Poxa, deu uma vontade de comer alguma coisa diferente!

Algumas vezes contávamos as moedinhas para ver se dava pra comprar uma fatia de um doce de leite numa mercearia que tinha numa galeria que dava acesso à Avenida Ipiranga. Havia uma barra de doce de leite da marca Zebu, muito conhecida na época, que eles dividiam em várias fatias e vendiam na tal mercearia. Quando dava, lá ia o pequeno Dudu comprar o almejado doce, que era dividido em pequenos pedaços para todos nós. Geralmente meu pai não estava em casa, na presença dele tais minúsculos prazeres não seria possível, ele era austero demais. Foram tempos duros, duros mesmo!

Pra falar a verdade isso não mudou muito nos anos posteriores, melhorou um pouco na capital federal mas sempre foi complicado, só no final da vida do meu pai, com alguns benefícios que o cargo dele no ministério da fazenda foram finalmente conquistados - depois de lutas na justiça - é que ele, minha mãe e meu irmão caçula tiveram vida mais confortável. Gil conseguiu um emprego bem razoável na Anvisa e o André, como médico em São Paulo, teve suas conquistas. 

Já eu nunca consegui respirar aliviado.

A tal vontade de comer algo diferente bateu forte uma noite dessas e em casa só tinha o básico. Nada tem faltado, tenho lutado muito para não ficar sem teto, alimento, luz, água e internet, mas aquelas coisas que meu paladar infantil as vezes ainda deseja, ah, isso ainda me transporta para aqueles doridos anos de 72 e 73, com a diferença que ao invés de 9 ou 10 anos, agora tenho 63.  

FIQUEM COM DEUS e até a próxima!   

PS - Não tenho mais feito desenhos particulares, então fiquem com uma imagem dos Rastreadores de Algures, HQ que venho produzindo há alguns anos em parceria com o roteirista e amigo Elton Borges.


 

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

QUADRINHOS QUE RECOMENDO (A SOLIDÃO DE UM QUADRINHO SEM FIM)

 Boa noite a todos!

Vocês estão bem? Rogo a DEUS que sim.

Eu por cá, estou ok, e ok não quer dizer bem, mas que continuo vivo, respirando, caminhando e trabalhando (não tanto quanto deveria e gostaria, mas vá lá).

Sabem, acho que no atual panorama global é difícil uma pessoa estar bem, feliz, realizada e coisas tais, talvez aqueles ricos poderosos inconsequentes que não creem ou não temem o regresso do Salvador. O mundo já sofre as dores de parto e creio que não dá pra ser otimista quanto ao futuro, principalmente neste país ainda comandado por gente sórdida, pessoas cujas almas já estão nas mãos do inimigo. 

Mas vamos lá, não quero falar sobre isso, não adianta, só comecei citando essas coisas a título de desabafo. Hoje meu barco começou singrando em águas tranquilas e tudo apontava para um dia promissor, de bom trabalho, mas vocês sabem, basta uma gota de leite azedo para talhar todo o resto, assim como bastam algumas palavras com certa dose de veneno para tirar o brilho. Ventos contrários começaram a soprar; não obstante, não passou disso, apenas um vento, não foi suficiente para causar uma tormenta, mas já ouviram aquele ditado que diz que "cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça"? Pois é. O dia ficou improdutivo e aquela velha depressão me agarrou num mata-leão e orei a Jesus para não sufocar. Estou melhor agora. Salmo 46, amados e amadas, quando a angústia chegar, leiam o salmo 46 com os olhos da alma.

 Bueno, vamos ao assunto de hoje que é falar abreviadamente sobre um quadrinho que comprei em 2020 (tempos em que eu ainda comprava gibis), A Solidão De Um Quadrinho Sem Fim, do Adrian Tomine, edição da Nemo.


 

 A primeira vez vez que li algo desse autor foi lá pelo ano de 1998 (quando eu comprava muitos comics) e adquiri uma HQ da Conrad intitulada Comic Book, O novo Quadrinho Norte Americano, uma antologia de histórias, digamos, alternativas, índies, undergrounds ou como queiram chamar. O texto do editor afirmava que esse tipo de narrativa ia muito bem das pernas enquanto os super-herois davam sinais de cansaço - sim, já naquela época - e que avançavam como rolo compressor sobre a indústria. Dava pra ver que era exagero, até porque o conteúdo do livro deixava muito a desejar, pra mim só salvavam algumas poucas histórias, até os irmãos Hernandez (que gosto muito) pisaram no tomate, mas Daniel Clowes e Adrian Tomine valeram por todo o tomo. "Dylan e Donovam" era uma hq do Tomine que muito me chamou a atenção, sensível sem viadagem, traço limpo, muito bem executada. Procurei, na ocasião, por outras coisas deste autor sem sucesso, mas ele não me saiu da cabeça. 

Pelo que sei a produção dele é pequena, ele atua mais como ilustrador para publicações como a New Yorker. 

Adquiri uns anos atrás Intrusos (também pela Nemo) e gostei bastante, aliás, nem lembro do que se trata, preciso reler, só não sei onde ela se encontra, como vocês sabem, meu estúdio é uma espécie de pântano.

A Solidão De Um Quadrinho Sem Fim pretende ser uma autobiografia, um hobby de infância se torna uma carreira de autos e baixos. Situações constrangedoras, mostrando que o autor é sensível, sonhador e como todos os artistas, se veem mais do que realmente são e isto produz muitas vezes vergonha alheia. No vídeo que eu fiz acima para mostrar um pouco do conteúdo, notem o meu polegar destacando um quadro em particular, aquele é o Frank Miller, a cena que envolve esse superestimado autor (minha opinião) é algo muito comum a nós, desenhistas de HQs, que sonham com o sucesso.

Adrian Tomine fala de sua relação com o público, comparações inevitáveis com outros artistas independentes, entrevistas que foram fiascos, medos, inseguranças, relações pessoais, casamento, paternidade e as dificuldades para se estabelecer como profissional. Não foi fácil, mas se ele tivesse nascido no Brasil, seguramente (penso eu) não seria publicado lá fora. Aliás, ouso dizer que se ele tivesse passado 20% do que passei na vida, ele não teria sobrevivido, ou teria optado por outra profissão, mas claro, posso estar enganado.

Conclusão, uma ótima HQ provando que coisas do cotidiano, se bem narradas e ilustradas faz você esquecer de outros gêneros já consagrados.

Que vocês todos fiquem bem e breve pretendo voltar com mais uma HQ da minha biblioteca.

Abraços! 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

QUADRINHOS QUE RECOMENDO ( KAFKA de CRUMB )

 Boa noite a todos!

Amados e amadas, eu tenho tentado nos últimos meses, sem muito sucesso, reclamar menos e agradecer mais. Agradecer a Deus, é claro, pela minha vida, pelo que tenho e pelas minhas realizações. Meu ego e fraqueza quase sempre me tornam um murmurador, mas estou me esforçando por mudar. Se venho aqui é sempre com alguma queixa, geralmente pelas injustiças que sofro e principalmente pela eterna dificuldade financeira causada pela minha incompetência em ganhar dinheiro. Minha arte, elogiada por muitos, não me permite viver sem matar dragões diariamente para pagar os boletos que teimam em chegar. Mas vocês já estão com o saco cheio de ler as lamentações deste velho, então só venho aqui reclamar se a coisa ficar preta além do limite, certo?

Vamos voltar a uma série que eu iniciei lá nos início deste blog e por motivos que nem sei dizer, interrompi em algum momento, que é OBRAS ou QUADRINHOS QUE RECOMENDO. Já escrevi sobre Estórias Gerais, Monster, Eu Sou A Lenda e etc. 

Hoje eu quero comentar brevemente sobre Kafka De Crumb. 

Pra começo de conversa o título me soa injusto, a editora quis aproveitar a fama do desenhista para vender a obra, o título original é INTRODUCING KAFKA e é da autoria do escritor David Zane Mairowitz, o Robert Crumb brilhantemente, como sempre, ilustrou. 

Gosto muito de biografias, não tem que necessariamente ser de alguém que gosto, li as bios de Adolf Hitler e Fidel Castro, personas que detesto, mas se for de quem admiro, melhor.

Esta obra em questão não chega a ser exatamente uma biografia, mas uma análise, quase uma dissecação da obra do escritor tcheco.

Também é "quase" uma história  em quadrinhos, mas uma tese ilustrada por um dos mais famosos quadrinistas mundiais. Mas calma, lá, tem as obras mais famosas do Kafka quadrinizada sim, tipo a Metamorfose, Na Colônia Penal e outras.

O legal deste livro é que ele aborda a vida, o tempo e o estilo literário do autor de O Processo de maneira que combina bem prosa com desenho. O autor faz isso de maneira fluída, prazeirosa e as ilustrações do Crumb, com suas achuras nervosas dão aquele toque especial, um tanto claustrofóbicas, trazendo um certo desconforto, como pede qualquer coisa relativa a Kafka que se preze.

Desde que li o Processo, a narrativa de Kafka nunca mais me saiu da cabeça; no meu caso, a identificação foi completa, principalmente depois de conhecer certos  aspectos de sua vida.

Teria muito mais para falar sobre este livro, mas a série Quadrinhos Que Recomendo não pretende ser uma investigação detalhada, mas um breve comentário sobre.

Espero que o vídeo  que eu gravei mostre bem a potência da obra, pretendo adotar esse processo doravante. 

Não sei se ainda existe em catálogo, na verdade eu queria uma edição posterior lançada pela Desiderata, em formato grande para trocar pelo meu formatinho (a arte do Crumb merece um modelo maior), mas o preço deles estava muito salgado. Fico mesmo com essa edição da Relume Dumará que sei que está esgotada há anos. Uma obra que releio sempre que posso. Mergulha bem fundo na alma do escritor de O Castelo.

Deus abençoe todos vocês!


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 5 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

  – No capítulo anterior, o Gatão mais uma vez, mostrou-se um sobrevivente nato! Enfrentou e matou uma das mais perigosas e mortais criatu...