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sábado, 7 de fevereiro de 2026

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 3 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A BUSCA – Capítulo 3:

Por vários dias consecutivos, o Gatão vagou pelo deserto
inóspito, na direção indicada pela Grande Serpente de outras eras!
Certa noite, remexendo em sua mochila, o felino casmurro
encontrou um pacotinho, do qual até já havia se esquecido. Abriu-o
com vagar. Era uma bússola! Havia junto, um bilhetinho com estes
dizeres:
– “Para guiar seus caminhos”.
Lena.
Zé Gatão sorriu, dos seus cada vez mais raros sorrisos e
pensou: Ah, Lena! Eu deveria ter trazido você comigo! Seria sua
chance! Uma alternativa ao caos…mas naquela hora em que nos
despedimos, eu não sabia o que sei agora! - Reavivou o fogo,
mastigou um pouco de ração de uma das latas e de sobremesa,
comeu umas três flores adocicadas de um pequeno cacto que
encontrou, nas proximidades. O Gatão passou a noite
tranquilamente. Relaxado, mas alerta – tipo: um olho na missa e
outro no padre – como antigamente se dizia!
O felino levantou acampamento, antes do amanhecer! Era melhor
caminhar nas primeiras horas do dia, pois o calor ainda não era tão

causticante! No meio da tarde aproximou-se de pequenas
elevações, localizadas a uns cem metros, mais adiante. Firmando a
vista, percebeu que estas elevações tinha cavidades, as quais
sugeriam em entradas e mais no alto, um arremedo de janelas!
Portanto, eram usadas como moradias! Tal constatação, fez o
Gatão chegar cautelosamente, encoberto por pedras e dunas,
espalhadas pelas cercanias. Sua apurada audição, ouviu vozes
roufenhas e sentiu no ar, o desagradável cheiro de
répteis! Para ser mais preciso, lagartos verdes da amplidão!
As elevações residenciais faziam um semicírculo. No centro
destes, alguns lagartos, armados de espadas, lanças curtas e
escudos metálicos, se achavam entretidos amarrando um pequeno
jumento a uma espécie de biga, de aparência antiquada! O pobre
jumento, se achava solidamente preso à biga e arreios de couro
cingiam seu focinho e a testa! A ponta dos arreios estava nas mãos
de um dos répteis, em pé, dentro da biga! O jumentinho envergava
um traje que lembrava aquelas vestimentas que Zé Gatão viu em
certos livros escolares, há muito tempo! Era como se o infeliz muar
fosse o escudeiro de algum tipo de cavaleiro andante! Os
lagartões usavam suas típicas e escassas roupas que os faziam
parecer uma edição requentada de velhos povos bárbaros! Os
olhos do Gatão se estreitaram, enquanto fazia mira com o rifle. O
lagarto que ia conduzir a biga, ergueu o chicote, pronto para ferir,
sem dó, o lombo do asinino indefeso! Nisso, uma voz ameaçadora,
paralisou os répteis, ensandecidos pela expectativa de fazer sofrer
mais o jumentinho!

– Largue este chicote, cabeça de merda! E vocês aí, não se
mexam, ou faço um estrago à bala, inesquecível, na carcaça de
vocês! Assim que eu gosto! Meninos bonzinhos!
O Gatão saiu de trás das pedras, ainda apontando o rifle para os
antes algozes daquele burrico. Foi se chegando, lentamente e
ficando à vista! Um dos quatro répteis, parecendo ser o manda
chuva, gritou para o Gatão:

– Hey, felino! De que parte deste deserto infernal te vomitaram?
Baixa o trabuco, cara! Aqui nós somo de paz! Saca! Só tamo aqui
lembrando a este jumento que seus antepassados eram animais de
tração pra alguns mamíferos, há uma pá de tempo! Sei lá, quando,
porra! Negó é o seguin! Cê parece bem fodástico! Por que não se
junta a nós?! Um animal como tu e desse tamanho que você é,
pode muito bem liderá nós, nuns trampo, aí! Tem um resto de
cidadezinha, mais a leste que nós podia saqueá! Tomei umas
informação que…! - Zé Gatão interrompeu o falastrão
bruscamente!
– Não estou interessado nos seus trampos e muito menos em
liderar um bando de bafo de répteis escamosos que nem você e
esta súcia de imbecis! Só quero uma coisa! Desatrelem o burrico e
mandem ele pra cá! Aí, eu deixo vocês com as peles intactas para
irem fazer suas cagadas em qualquer outra parte! - O lagartão
soltou uma gargalhada borbulhante, acrescentado: - Num credito!
Cê tá preocupado com este pequeno asno? Pra que? Deixa disso e
vamos todos nos divertir com o burrinho de cara assustada! O que

me diz? Cê não parece ser um nutela! Vimos logo que tu é dos
fodões! Ou será que apesar de grandalhão, não é também um
piegas? Aqui é terra de macho, mano! Aqui os fraco não tem vez!
E…! - O Gatão encheu-se até as medidas daquele energúmeno!
Respondeu dando um tiro, que atingiu seu interlocutor bem no
meio da testa! Ato contínuo! Engatilhou a arma várias vezes e
liquidou a tiros os três lagartos restantes! Um caiu estendido, de
costas com um balaço certeiro no coração, outro teve a área
genital arrebentada pelo balázio do rifle! Tombou ao chão dando
bramidos roucos, a todo volume! Nem teve tempo de escabujar!
Sua cabeçorra explodiu, ao ser atingido na têmpora direita pelo
disparo infalível daquele terrível felino! O último tentou suplicar pela
vida, mas o Gatão, já junto dele, no sentido de poupar munição,
estourou impiedosamente, a pequena cabecinha do reptiliano mais
magro que seus companheiros, a base de coronhadas!
Horrorizado, o burrico chorava, esperando sua vez de ser morto! O
Grande Gato olhou para aquela frágil criatura e sentiu pena! Que
fazia um coitado daqueles no deserto? Para o tranquilizar, o felino
lhe falou:
– Pode parar de tremer, burrico! Você está salvo. Como veio parar
aqui? - O pequeno muar agradeceu a seu salvador, com a voz
trêmula e contou:
– Eu e meu senhor, o intrépido Cavaleiro Andante, de reluzente
armadura, viemos para estas imensidões desoladas para meditar
sobre as razões das desditas que se abateram sobre este mundo
pecaminoso! E o mais importante! Tentar encontrar a adorada de

meu amo e redentora desta terra maldita! Ninguém mais, ninguém
menos do que A VERDADEIRA expressão da VERDADE,
encarnada! Meu amo e protetor, além de cavaleiro do Rei de
Alhures, era um grande filósofo existencialista…embora ele
falasse, falasse e eu nunca entendesse nada do que ele dizia! Mas
minha obrigação era diligentemente, o servir! - O Gatão encarou o
animalzinho com muita pena! Não havia dúvida que ele e seu
suposto amo eram loucos! O entezinho prosseguiu:
– Palmilhamos esta amplidão sem ver ninguém, apenas abutres,
no alto do céu límpido! Então um dia, eu não sei quando, os
lagartos vieram e nos atacaram! Meu senhor lutou com coragem e
galhardia, mas o derrotaram! Depois, o mataram! O mataram sob
torturas horríveis! O sepultaram neste solo agreste! Deste modo,
no deserto jaz um verdadeiro herói do povo, a ser esquecido pelas
próximas gerações! Aí, me levaram embora! Todo dia, me batiam
forte! Não sei dizer, quanto tempo se passou! Mal me alimentavam,
mal me davam água! E então, o “senhor” apareceu, como um anjo
vingador!
Extenuado, o burrico calou-se, por fim! O Gatão cuidou dele!
Mesmo após a chegada da noite! Porém, devido às provações que
sofreu, o felino viu, no fim da madrugada, o burrinho falecer
mansamente, da mesma maneira calma e inexpressiva que foi a
vida dele! O último lampejo no olhar do asinino foi de profunda
gratidão! Zé Gatão quedou-se, inconformado! Neste mundo atual,
mais brutal e selvagem, como jamais o fora antes, os bons morrem
e os perversos florescem! O bichinho foi enterrado no dia seguinte

na areia imutável do deserto. Se o burrico tivesse vivido, o Gatão o
levaria junto para o “Paraíso Perdido”, onde ele teria a merecida
paz, em vida e não na morte!
Pouco antes do amanhecer, o felino partiu dali, sem olhar para
trás. Consultou a bússola, na pausa para a refeição vespertina e
constatou que ia no rumo certo. Fez isto, só daquela vez! Afinal, a
rota certa, já estava implantada profundamente, em sua mente.
Portanto, não haveria como se perder! Lá pelo meio da tarde,
encontrou um povoado que um dia tinha sido uma cidade de porte
médio. Não havia ninguém por ali. O vento uivava de modo
lúgubre, ao atravessar as ruas, esquinas e ruelas arruinadas! Ao
chegar a um antigo hotel, meio intacto, foi atraído a adentrar no seu
interior pelo odor pungente de podridão! Dito e feito! No saguão,
vários cadáveres de animais…em adiantado estado de
decomposição, espalhados em posições grotescas formando uma
visão para dizer o mínimo, bastante funérea! Repentinamente, um
outro odor mais intenso, foi captado pelo olfato ultrassensível do
felino tristonho! Um fedor, muito bem conhecido pelo Grande Gato.
Posto isto, ele não precisou colocar em palavras, a origem de tal
futum! Quem o emitia, surgiu das sombras, em um pequeno e
barulhento bando!
Era formado por enormes baratas, cujas carapaças lustrosas de
cor marrom metálica, as tornavam parte integrante, daquele
ambiente mal iluminado do saguão daquele arremedo de hotel, o
qual havia sido muito luxuoso, ainda que já decadente, em seus
melhores dias! As nojentas criaturas começaram a tentar cercar o

felino gris. Este segurou firmemente, o cabo do alfanje e o retirou
da bainha, em um movimento repentino! Brandindo a arma branca
com decisão, o felino se precipitou sobre os artrópodes! Surpresos,
os seres que estavam mais à frente, não tiveram como impedir a
própria decapitação, em razão dos golpes mortais da lâmina afiada!
O Gatão aproveitou a desorganização daquelas baratas e foi
ceifando cabeças, membros, seccionando carapaças, pisando forte
nos corpos tombados, enquanto os líquidos internos dos insetos
espirravam! Substância gosmenta e esbranquiçada, sujando tudo
em volta, inclusive o Gatão! Mas ele não se importava! Como uma
máquina de destruição imparável, o felídeo, como uma fera
selvagem, ia sistematicamente, aniquilando seus adversários!
Morriam, lançando aos ares, chiados fortíssimos, que denotavam
dor, sofrimento e incompreensão de como aquilo era possível de
acontecer! Suas carcaças, sem vida uniam-se aos cadáveres dos
mamíferos que já enchiam o local! Enquanto isto, o braço
incansável do cinzento continuava a “limpeza” letal! Até sobrar
apenas um exemplar daqueles artrópodes, o qual conseguira
abreviar seu fim, saltando desesperadamente, para trás! Os dois
contendores ficaram parados, se estudando! O felino acinzentado,
notou que o inseto estava usando um estranho capacete,
encaixado em sua bizarra cabeça! Antes que o cinzento avançasse
para dar o golpe final, de alfanje erguido, uma voz se fez ouvir! Era
a barata, falando por um tradutor embutido no capacete!
O impossível acontece! Os dois seres que falavam línguas
diferentes, poderiam se entender, após tantos anos!

– Mamífero! Você matou cruelmente, os de minha espécie! Maldito
seja você! Que espécie de monstro é você?
– E estes animais mortos e decompostos? Como os explica?
Foram vocês que os mataram?
– Foi! Eles invadiram nosso território! Viemos para cá, há muito,
para sobreviver, ao deserto e ficaríamos aqui em paz, se os
mamíferos não tivessem tentado tomar o que é nosso! Há fêmeas
aqui! Há nossos ovos! Só queríamos tranquilidade! Estamos
cansados de tanto ódio e tantas mortes, sem sentido! Isto tem que
acabar! Um dia tem que acabar! Não vê? O mundo de vocês,
mamíferos está morto! Destruído por vocês e suas loucas Guerras!
E agora, ele pertence aos insetos! Nós só vivemos! Não
espoliamos, não destruímos…como vocês fazem! Não, em
condições normais!
– Barata…! O ódio entre nossas espécies têm sua origem perdida
no tempo! Ninguém sabe mais, o porquê! Temos nos matado por
anos a fio! Até acredito no que você está me dizendo, agora! Se
fosse antes da Grande Guerra e suas consequências, esteja
ciente, de que te cortaria ao meio, sem pensar duas vezes! Está
certo! Vivam! Para todos os efeitos, nunca nos vimos! Adeus! - O
Gatão guardou sua arma, depois de bem limpar a lâmina, em um
dos empoeirados restos de um sofá! O artrópode ficou olhando,
meio incomodado pelas últimas luzes do sol poente, o seu quase
assassino desaparecer à distância, em uma daquelas ruas
poeirentas! A barata, voltou para os subterrâneos do hotel, sem se
voltar!

O Gatão achou melhor prosseguir viagem! Era mais fácil de se
deslocar nas horas noturnas, quando o clima se tornava mais
suportável! Na verdade, o frio e o calor extremos daquelas plagas,
pouco o incomodavam! Sua incomum resistência física, residia no
fato de possuir em seu DNA, as características de um lince! Tipo
de felino mais afeito a viver em regiões inóspitas, com mais
escassez do que fartura! Quanto aos perigos do deserto, eram para
o Grande Gato, de somenos importância, acostumado que sempre
esteve, em encarar, o que quer que aparecesse! Dito e feito! Uma
hora de caminhada depois, o felino gris teve a sensação de que
não se achava só! Alguma coisa o espreitava, em meio às dunas!
O cinzento parou por um instante! Todos os sentidos alerta! Ao
máximo! Seu olhar treinado, percebeu um movimento à sua
esquerda! Portanto, imediatamente, jogou-se para o lado oposto,
erguendo-se velozmente, de alfanje na mão! Então, o felino viu
diante de si, uma figura de pesadelo! Era um tipo de aracnídeo,
monstruoso! Cor de areia! Lembrava vagamente uma aranha! O
Gatão recordou rapidamente, que uma vez lera um livro científico,
a respeito de tal criatura! Era um Solífugo! Animal não
peçonhento, mas absurdamente forte! Se o colhesse em suas
garras, o Gatão estaria perdido! Após morrer de brutal modo, teria
o corpo dissolvido por um ácido biológico expelido por aquele ser,
sendo depois deglutido, lentamente como um mingau nojento e
incrivelmente, fedido! O felino gris, atacou rápido! A arma branca
funcionando como uma extensão de seu musculoso braço! Porém,
atingiu o vazio! Seu adversário, apesar de grande, se movia com

uma rapidez impressionante! O Grande Gato recuou, enquanto
brandia a lâmina do alfange em movimentos ritmados, formando
uma espécie de barreira entre ele e seu feroz êmulo!
A partir daí, iniciou-se uma espécie de dança macabra, orquestrada
pelo som do vento gelado e funéreo, da noite do deserto!
Movimentos de avanço e recuo! Um acompanhando atentamente,
a cinesia do outro! Em um círculo concêntrico, iam se
achegando…! De repente, o Solífugo deu um salto inesperado para
frente, na tentativa de fisgar o Gatão em suas quelíceras mortais!
Com a uma velocidade estonteante, o Grande Gato saltou por cima
de seu oponente, indo cair de pé, às suas costas! Ato contínuo!
Aplicou um golpe violentíssimo, rasgando a s costas do aracnídeo,
como se ela fosse feita de manteiga! Em seguida em um
movimento circular, com a lâmina afiada do alfanje arrancou a
cabeça da criatura, a qual foi precipitar-se ao solo, bem mais
adiante! O corpanzil desgovernado, tombou para frente,
espalhando-se desarticulado, naquele terreno pedrento e arenoso,
ao mesmo tempo! Do feio talho em seu dorso, escapava suas
entranhas, imensamente, mal cheirosas! Um último restinho de
vida provocou um breve estremecimento em sua carcaça, a qual
logo se imobilizou na quietude eterna dos falecidos! Zé Gatão
olhou sem emoção, a sua obra! Não se lamentou e nem se
horrorizou com a visão daquele destroço caído que fora um dia
uma criatura vivente! Aquilo era apenas, parte da luta pela
sobrevivência que cedo na vida, ele aprendeu a travar! Agora,
naquela nova realidade era assim! Tinha que ser assim! Por causa

disto, precisava encontrar aquela Terra Prometida, onde talvez,
este círculo infinito de dor, morte e destruição findasse! Afastou-
se, deixando o cadáver de seu adversário a seu destino! Ou seja,
ser pasto de outros entes daquele sertão impiedoso! O felino
tristonho, andou mais alguns quilômetros, até alcançar, ao nascer
do sol uma conformação rochosa com uma cavidade bem no alto!
Com a presteza dos felídeos, escalou aquela formação granítica e
se acomodou em seu espaçoso interior! Ali estava fresco e
penumbroso! Resolveu tirar um bom sono e voltar a jornadear
quando o sol se deitasse, reduzindo, portanto, o abrasivo calor
diurno! Dormiu. Como de costume, seu ressonar sempre leve, o
mantinha pronto para qualquer ameaça que surgisse! Devido a
este fato, ele sempre despertaria a tempo de se defender! E ai, de
quem perturbasse seu descanso!
Pouco depois, do cair da noite, um ruído, tipo um arrastar
pesado veio a acordar o felino casmurro! Era um som sutil! Alguma
criatura se aproximava de maneira sorrateira! Pelo odor que
chegava às suas narinas sensíveis, só podia ser um réptil! Com
certeza, uma cobra! Naquelas desoladas paragens havia vários
tipos de ofídios! Pelo cheiro, o Gatão identificou-a como sendo uma
víbora da areia! Seu veneno não é necessariamente fatal, mas
sua picada requereria assistência hospitalar imediata e hospitais
eram instituições não mais existentes naquele mundo destroçado,
da atualidade! O Gatão sabia que aquele tipo de serpente, não
costumava predar animais grandes! Era muito possível que não
estivesse de fato, atrás dele! Contudo, um confronto seria perigoso,

pelo motivo já descrito! Sem mover um músculo, ele esperou…!
Olhos semicerrados que enxergavam perfeitamente na cova
escura! A cobra vinha vindo cautamente! Sua língua bifurcada
experimentando os olores da criatura de sangue quente estendida
diante do réptil faminto! Parecia ser algo bem maior do que suas
presas usuais. No entanto, aguilhoada por uma fome de vários
dias, a serpente deu-se por satisfeita de encontrar tal enorme
quantidade de alimento! Atacou, pois, rápida, em seu bote mortal!
Então, uma mão com a força de um torno agarrou-a, cortando
brutalmente, a passagem de ar, para seu único pulmão!
Debatendo-se alucinadamente, a cobra tentou escapar daquele
aperto titânico! Sem sucesso! Cuidadosamente, mantendo a
cabeça reptiliana imobilizada como fizera com a outra cobra que
eliminara em uma luta anterior, o felino aproximou-a de si para a
examinar mais de perto! A cobra, com voz chiada, em um esforço
supremo, expeliu o seguinte e desesperado apelo:
– M-mamífeross! P-por favor…sss, me soltess! N-nãoss
consigoss…nãoss c-consigoss..respirar..sss! - um esgar cruel,
surgiu no rosto do felino gris e ele replicou, simplesmente:
– Então, morra…! - O Gatão apertou energicamente! A cobra
coleava violentamente, enquanto tentava se libertar! A boca
escancarada, revelando seus dentes mortais, mas inúteis! A língua
negra, a corcovear loucamente! Os olhos amarelentos, transmitindo
o louco medo da morte iminente! Procurou ainda, envolver o braço
de seu executor e o apertar, mas com que energia, se estava fraca
demais para fazê-lo? Ainda conseguiu emitir um som derradeiro de

sua goela avermelhada: - N-não! - o estalo de ossos quebrados
encerrou a contenda desigual! O corpo da cobra moleou! Estava
morta! O Gatão lançou-a para longe! Não podia permanecer ali,
sem proteção! Aquele cadáver, com certeza atrairia insetos que o
felino sabia se esconderem nas frestas e reentrâncias daquela
espécie de caverna, elevada! De todo modo, já era noite e
descansado, o felino acinzentado poderia prosseguir sua marcha!
Teve que admitir que sentiu prazer em matar aquela serpente!
Tinha um temor atávico delas, com uma única exceção – ler
Inferno Verde – e era por causa desta exceção que se lançara a
empreender a busca! A última esperança de encontrar o seu
Horizonte Perdido!

domingo, 25 de janeiro de 2026

RÉQUIEM PARA O POETA DO CAOS

 


 Não tenho escrito muito neste blog, falta-me força, falta-me vontade. Achei que a idade me faria escrever melhor, mas a insistência de certas situações em me sufocar, principalmente dentro de casa, no dia-a-dia, a eterna luta para matar os gigantes da semana, drenam toda a inspiração para a escrita e para o desenho (o que para mim é quase a mesma coisa). A fonte está prestes a secar, o que brota dela é uma água barrenta, salobra. E esse produto - tóxico, eu diria - é de que me sirvo para comentar sobre meu amigo e sócio Luis Carlos Girassol Cichetto, mais conhecido como Barata.

As dezenas de lives que fizemos durante o ano de 2025, conhecida como Lanchonete do Barata poderiam falar por mim muito melhor que minhas pobres palavras, lá estão descritos pelo próprio Barata como nos conhecemos, nos tornamos chegados, como criamos a Lanchonete e editamos alguns dos meus títulos pelo seu selo, mas convinha que eu desse um depoimento sobre essa ligação que durou tão pouco e ao mesmo tempo valeram por uma longa vida.

Sou amigo de uma pessoa que foi próximo do Barata por muito tempo, esse parceiro tinha uns canais sensacionais no YouTube e eu sempre deixava um comentário nas postagens. Junto a mim, as opiniões de um certo Barata Cichetto. A alcunha já me chamou a atenção e também as análises dos vídeos que batiam com as minhas.

Pois bem, esse camarada em comum falou ao Barata sobre uma obra minha em parceria com o lendário escritor de pulps, Rubens Francisco Lucchetti, "A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE"; bem, os que foram próximos ao poeta já o ouviram falar sobre isso inúmeras vezes, ele comprou o livro, se indagou como nunca tinha ouvido falar de mim antes e etc. Ele solicitou minha amizade no Facebook (fato do qual não me recordo até hoje, mas isso é normal, alguém fala comigo e no dia seguinte já não lembro). Me escapa agora como ficamos mais próximos, mas creio que ele encontrou o meu blog e começou a ler algumas postagens e chamou a atenção dele os contos que o Luca Fiuza escreveu sobre o universo antropozoomorfo que criei e pediu permissão para reproduzir em seu site, o Barata Verso. Eu disse que me sentiria honrado e ele assim o fez, sempre divulgando como podia.

Ele era sócio do poeta e escritor lusitano Luis Roxo num projeto - se podemos chamar assim - intitulado POETURA, onde uma revista eletrônica do mesmo nome trazia diversos escritores e poetas contemporâneos com artigos do Barata. Em uma das edições o Zé Gatão foi capa e nela fui entrevistado. 

 


Vale ressaltar que neste período (2024) ele trocava muitas ideias com o Luca. Até que no fim do ano, num estalo, ele resolveu publicar de forma impressa todos os contos do Zé Gatão num belo livro intitulado ZÉGATÃOVERSO, primeiro em preto e branco e depois uma versão colorida. Só mesmo uma pessoa como o Barata com coragem para cometer tal loucura, por na praça um tomo de um personagem incompreendido em sua mídia de origem, os quadrinhos. Não foi surpresa constatar que o ZéGatãoVerso vendeu pouquíssimas unidades. 

 

A ideia da Lanchonete do Barata veio através de uma conversa que tivemos certa noite (sim, conversávamos por horas, tarde da noite, sobre os mais diversos assuntos) e eu disse a ele que me frustrei ao ver uma entrevista que o Luis Roxo fez com ele numa live que durou menos de duas horas pois percebi que ele tinha muito mais a dizer. Somado a isso comentamos sobre os tempos em que uma galera ia ao cinema e depois se sentava numa hamburgueria e batia papo sobre o filme e aleatoriedades. E se fizéssemos algumas lives com convidados ligados às mais diversas atividades artísticas para falar sobre suas produções, mercados e tutti quanti? Ele curtiu a ideia e batizou a coisa de Lanchonete do Barata e assim foi, entre muitos erros e alguns acertos a nossa trajetória nessa coisa de youtuber, minha conexão com a internet sempre era precária e eu vivia caindo, as vezes, por problemas pessoais, eu não podia participar e embora ninguém soubesse, isso muito o irritava. Acho que 80% dos convidados foram artistas ligados aos quadrinhos, pois eram os meus chegados, pessoas que eu admiro, ele queria chamar outros artífices mas só um ou outro do conhecimento dele aceitou participar. Mas foi um período bom, que trazia a ele uma certa ansiedade e muita alegria por mais um convidado que se tornava amigo.

Eu não sei dizer bem como era a vida do Barata antes da nossa parceria, mas me parecia que ele estava um pouco isolado, ele reclamava muito que ninguém mais lia poesia nos dias de hoje, o site que ele se orgulhava tanto, rico em artigos, matérias de convidados, gente muito capacitada e talentosa, não era visitado, não era comentado; eu compartilhava essa frustração pois também lutava duramente para ter meu trabalho reconhecido e eu sentia que estava limpando carvão. 

O que sei dizer, e sinto orgulho disso, é que eu o introduzi no mundo das artes gráficas e isso o encheu de ânimo, ele ficou conhecido pela galera dos quadrinhos, frequentou lives, participou de grupos ligados ao tema, fez amigos, alguns ele fazia questão de dizer que eram os "novos melhores companheiros de infância", virou editor e roteirista de HQs, era reconhecido nos podcasts pelo seu jeitão de poeta/roqueiro desbocado e ele curtia muito isso, tanto que não levava em conta os muitos percauços que este meio tem para oferecer. Por fim ele acabou virando personagem de aventuras quadrinísticas nos contos do Baratex criado pelo talentoso escritor Vinícius Pereira.  

Se tive participação nessa nova vida do Barata eu ganhei muito com isso, por conta da sua intrepidez eu pude realizar alguns sonhos como ver chegando ao público, ainda que muito limitado, o já citado ZéGatãoVerso, o CRAZY SKETCHBOOK, meu livro de rascunhos e o DESENHANDO PALAVRAS, meu tomo de contos numa fabulosa edição impressa que não  despertou a atenção de ninguém (acho que não sou tão bom quanto ele pensava que eu era). E o livros do Zé Gatão lançados pela Devir ganharam novas edições com novos  formatos para um novo público. Projeto que, embora cansativo, o encheu de orgulho, cada mimo criado para os apoiadores foi feito por ele com muito carinho. Essas coisas todas não tenho palavras para expressar minha gratidão.

Não pude conhecer (ainda) em toda extensão a obra do meu amigo, os únicos livros dele que possuo são NEVERMORE: UM GATO CHAMADO NUNCAMAIS e O POETA XINGOU MINHA MÃE DE PUTA E EU LHE DEI UMA PORRADA. São fortes, incomodos, não próprios para qualquer público. É a mais pura arte, pois te tira da zona de conforto e te põe a refletir.

Todo ser é único, eu sei, mas alguns, são mais únicos que outros, o Barata é destes que surgem um a cada século, não só pelo seu visual ou jeito de ser, mas pelo inegável talento para a escrita.

Haviam muitos projetos meus com o selo que ele criou chamado LÂMINA 44, para 2026: VENUS E VENENUS, republicação de ZÉ GATÃO-CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO e PHOBOS E DEIMOS, além de um livro contendo minhas crônicas e reminiscências e se desse tempo, este ano ainda, o álbum de HQs curtas e inéditas do Zé Gatão. Não teremos essas obras, infelizmente.

Sim, eu já tinha dois convidados para a Lanchonetes já neste mês de janeiro.

Zé Gatão-Siroco no limbo, talvez abortado, não sei ainda.

Falei com ele no dia 30 de dezembro, exortei para cuidar da saúde, ele disse que estava bem, desejei um feliz ano novo, ele retribuiu. 

O ano de 2026 para mim começou com fúria demoníaca, talvez o pior dos meus 63 anos, um acontecimento nefando durante a queima de fogos na praia...... noite sem dormir, passei o dia primeiro como um zumbi e só visitei as redes sociais no começo da madrugada do dia dois quando vi mais de 60 comentários no grupo do Zé Gatão que ele criou no WhatSapp, pensei: o que é isso tudo? Entrei e veio a pancada.

Fica aqui, na alma, como um selo, essa imensa saudade.

OBRIGADO POR TUDO, BARATA! 

Arte através de IA criada pelo cartunista Du Oliveira

 

 

  

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

DESABAFO E DESESPERO.

 ATÉ O PRESENTE MOMENTO O ANO DE 2026 TEM SIDO PÉSSIMO PARA MIM, MAS CALMA, AINDA ESTAMOS NA PRIMEIRA QUINZENA, AS COISAS PODEM MUDAR. 

NÃO SOU O MAIS OTIMISTA DOS HOMENS, MAS PENSAR EM REVIRAVOLTAS PARA O MELHOR AJUDA NA DURA CAMINHADA.

EU ACHO QUE JÁ ESTAMOS VIVENDO O QUE JESUS FALOU EM MATHEUS 24.

SENHOR, TENHA MISERICÓRDIA DE NÓS!


 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ADEUS 2025!

 

 Vocês já perceberam que há muito tempo eu não exibo uma arte particular neste blog?

Tenho trabalhado muito e não tenho tirado momentos para mim, para os desenhos pessoais, aquelas coisas que reunidas viraram o Crazy Sketchbook editado pelo Barata Cichetto, por exemplo. A questão de tempo é muito forte, mas tempo sempre foi algo que arrumei quando a necessidade de desabafo se tornava insuportável. Hoje, a demanda por gritar por meio de traços e palavras é mais sólida que nunca, mas cheguei a um ponto que joguei a toalha e julgo que não vale a pena mais, aquele velho cansaço que sempre expressei em meus textos chegou a tal ponto que lancei os dados esperando o que o acaso me trará. O blog continua porque acredito em ressurreição, vai que aconteça algo que mude todo o quadro da minha vida e eu vou querer transmitir aqui.

O sketch do Zé Gatão exposto acima para coroar a despedida deste ano tão cheia de altos e baixos foi uma encomenda, só para deixar claro.

Como dito, 2025 foi aquele ano complicado (como todos, né?) mas que me trouxeram breves momentos de alegrias, como aquele oásis num deserto vasto, inclemente. Não sei claramente se esses momentos pesaram positivamente na libra, tenho a tendência a recordar mais os pontos negativos, ou pelo menos, senti-los com mais intensidade, pois a violência psicológica de certos acontecimentos foram (e ainda estão sendo) truculentos como nunca. É certo que não é coisa nova, mas a medida que envelheço sinto as desditas com mais vigor. Mas deixemos, por um instante, os queixumes, e vamos ao balanço desse ano.

Como ponto positivo tenho que destacar o lançamento da Bíblia em Quadrinhos pela Editora Ciranda Cultural. Material que trabalhei febrilmente e demorou para chegar ao público. 

 

O já citado CRAZY SKETCHBOOK, veio em seguida, um livro sensacional - falo sem a mínima modéstia - incrivelmente editado pelo poeta Barata Cichetto. Tenho orgulho deste tomo; como sempre afirmo, nele contém os meus mais honestos traços.  

 

Não citei o ZÉGATÃOVERSO porque este foi lançado no finzinho de 2024. 

 DESENHANDO PALAVRAS, livro que reúne todos os contos que cometi ao longo desses mais de 15 anos, também sob a batuta do Barata, foi outro sonho realizado, ter impresso minhas impressões sobre a vida em forma de letras era algo ansiado mas sem perspectivas para fazer acontecer.

 

Verdade que esses livros venderam quase nada, nada mesmo! mas isso não tira o brilho da coisa.

O ponto negativo neste raciocínio é que os planos que eu tinha de reunir em alguns volumes, muitos dos meus textos deste blog - crônicas, memórias do passado e coisas tais - ficam sepultados, é muito claro que ninguém está interessado no que eu escrevo, então, melhor economizar energia, expectativa, papel e tinta.

Outro acontecimento que merece destaque, que saiu pelo Barata Verso foi o Retorno do Guerreiro, republicação de MEMENTO MORI e DAQUI PARA A ETERNIDADE, os dois livros lançados pela Devir anos e anos antes. Uma campanha de financiamento coletivo que foi um tour de force tanto para o editor quanto para mim, que tive que criar mais de 40 artes novas para brindar os apoiadores. Mas valeu a pena, álbuns no formato A4, capa dura envoltos numa luva feita artesanalmente pelo Barata.

 

A campanha foi vencedora, mas não nos trouxe lucro algum, contudo, concordamos que se não deu prejuízo, já foi vitória certa. Esses dois livros há muito esgotados na Devir, chegaram a mais uns 40 leitores.

E chegamos ao final do ano com a republicação de SIROCO, também capa dura, 80 páginas a mais e nova arte na embalagem para atender leitores que cobravam essa edição que, em sua primeira prensagem, não passou de umas 40 unidades. Tivemos poucos pedidos até o momento.

 

Quero ressaltar que todos esses produtos podem ser comprados no site do Barata:   https://barataverso.com.br/?s=eduardo+schloesser

Como bônus de final de ano, saiu também o Baratex - Lendas de um Velho Cowboy Filosófico, livro de contos concebido pelo jovem escritor carioca Vinícius Pereira, onde o personagem José Cat é uma clara homenagem à minha criação. Fiz a capa (com cores do artista Louis Mello), como forma de mostrar gratidão.

    

Indo para o lado negativo do ano, além das tempestades que há uns vinte anos assolam a minha existência, o dinheiro começou a ficar curto depois de abril, mas tão curto que eu tive (tenho) que sobreviver de ofertas de pessoas de coração generoso, uns pedem encomendas de desenhos, outros simplesmente fazem algum depósito na minha conta. 

Pra não dizer que não fiz atividade formal, criei a capa de um livro de memórias de um autor mineiro para uma editora de Brasília, e quadrinizei 8 páginas do roteiro do Barata para o gibi Mestre Makabro.    

E nos últimos tempos tenho sido acometido de dores nos dentes, um fraturou, outro amoleceu. Vá ao dentista, oras! Sim, e cadê grana para ao menos pegar os três ônibus até o centro onde existe pronto socorro público?

Esse foi o primeiro Natal que não tivemos ceia mas muita pressão dentro de casa. 

E assim, falido, insultado, mastigando com dificuldade e dor, mas contente por ter tido livros publicados, fecho o ano de 2025.

Alguns podem perguntar: onde está esse Jesus que você insiste tanto em falar que é a solução para todas as coisas? Respondo: eu estou vivo, não? Creiam, não era mais para eu existir; este não é lugar de descanso, é um planeta comandado pelo malígno, nesta terra farta de injustiça e iniquidade ainda tenho as ferramentas para lutar e tentar reverter o quadro. O apóstolo Paulo não teve vida fácil após se tornar cristão.

Não sei o que nos espera no ano que chega, certamente não coisa boa pelos prognósticos de especialistas em geopolítica, mas quero pensar que as pequenas alegrias que hão de acontecer, equilibrarão o embalo. Lutemos para que assim seja sem nos corromper.

Fé, saúde, trabalho e perdão, sempre!

FELIZ 2026 A TODOS VOCÊS!  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

ZÉ GATÃO-SIROCO NOVAMENTE EM CAMPO DE BATALHA

 

 Sim, sim, amados e amadas, estou em falta com vocês (falo com os que gostam dos meus desabafos), há tempos planejo vir aqui me abrir um pouco convosco mas a roda da vida, como costumo chamar, tem girado muito rápido e todas as vezes sou atropelado por ela, de modo que até meus desafogos não são permitidos. Bem verdade que não é só a questão do tempo, mora em mim um certo cansaço da vida (sim, hoje em dia mais forte), uma eterna indagação: O QUE FAÇO AQUI AINDA? Essa é uma questão que só Deus pode responder, e se ainda caminho por esse vale de lágrimas deve ter um forte propósito e não cabe a mim questionar. Esse enfado me leva ao recolhimento das minhas emoções e poupar quem quer que seja das minhas lamúrias, até porque elas não são novas, vivo ainda matando vários gigantes todo mês, o ciclope do aluguel, da conta de luz, água, internet, compras semanais para abastecer a dispensa. Ainda continuo sem contrato com editoras (que sempre foram as que me permitiram viver com menos peso nos ombros) e tenho vivido de pequenas comissões aqui e ali e também, da generosidade de alguns que mesmo não me conhecendo direito me encomendam artes.

Meu intuito era vir aqui falar sobre umas novelas gráficas que reli há algum tempo (HQs ainda é assunto que me motiva, e não é o quadrinho mainstream, mas aqueles autorais e/ou biográficos) mas vou ter que adiar, hoje quero falar sobre o Zé Gatão - Siroco, material bem conhecido dos leitores deste blog. Já destrinchei essa saga à exaustão, além das várias resenhas de leitores.

No entanto esse material retorna agora um pouco mais elegante. Ele vem com nova arte em capadura (obra minha com Vinicius Caldas e Murilo Freitas), 80 páginas de extras, usamos dois desenhos nas guardas que não foram aproveitados na primeira edição. Prefácio do artista fodabagarai Nestablo Ramos.

A pré-venda (preço promocional) está valendo até 08/01/2026 nohttps://editora.barataverso.com.br/produto/eduardo-schloesser-ze-gatao-siroco/?fbclid=IwY2xjawOxYOJleHRuA2FlbQIxMABicmlkETF4bjNMYWJSbVlWbXBmNmdQc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtf7tv9IA4Nj8avPLTLcd1F2-cF16lBbz-44LpStQsbO-m_Ph4LC-6NBg5-T_aem_ZsQdD8K3PQ0Em4gSFMGuyw

Siroco foi lido por umas 40 pessoas no máximo (não conto com o PDF ou se alguém emprestou para um amigo), acho que isso merece chegar a outros leitores, por isso eu e o Barata nos lançamos nesta jornada. Conto com o apoio de vocês.

Volto aqui para desejar Feliz Natal, se Deus quiser.

Beijos e abraços. 


 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 2 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A BUSCA – Capítulo 2:

O crepitar da fogueira era o único som audível, no silêncio da
gélida noite do deserto. Sua luz bruxuleante, iluminava o rosto
sombrio do felino casmurro. Ter ficado no interior daquelas ruínas
foi a melhor coisa que o Gatão fez. Apesar de estar bastante frio,
era melhor do que dormir ao relento, no interior de uma tenda
rústica. Pouco antes da chegada da noite, o Gatão revistara
cuidadosamente, aquele destroço, um dia uma cidade próspera e
movimentada. Encontrou o esconderijo usado pelos chacais. Havia
uma preciosa caixa de mantimentos, cheia de latas de ração de
sobrevivência, uma mochila maior que a sua e pastilhas de água
desidratada em grande quantidade. O felino verificou que todo
aquele equipamento era pertencente ao Exército. Intuiu que
destacamentos dispersos desta Força Armada, erravam pelas
cercanias e com certeza, aconteciam escaramuças entre estes
pequenos destacamentos militares e as hordas de desesperados
como aquela que ele, Gatão tinha eliminado! Bem, aqueles chacais
não eram exatamente uma horda e sim, um bando minúsculo,
comandados por uma fêmea de miolo mole!

O felino juntou o que pode daqueles itens e os levou para seu
acampamento, em outra parte das ruínas! Resolveu conservar o
alfanje! Era uma ótima arma de ataque e defesa! Seria inútil contra
armas de fogo, mas ele sabia se virar! Para não dizer que não
havia outros artefatos interessantes, encontrou um rifle de
repetição, em bom estado e três caixas pequenas de munição!
Apropriou-se disto, também! No entanto, só usaria o rifle em último
caso! Munição era algo escasso naqueles tempos e o Gatão não
sabia quando e se a encontraria, outra vez! Portanto, a ordem era
ser parcimonioso! Assim que amanhecesse, ele partiria sem
demora daquele antro, onde o cheiro de dor e morte eram
incomodativos, de tão intensos! Estava cansado! Nem tanto
fisicamente! O cansaço era mais mental! Resolveu recolher-se.
Deixou o alfanje ao alcance da mão, fora da bainha trabalhada que
seria depois presa ao lado do corpo por uma cinta vermelha, com
motivos dourados, de sabor oriental.
Pouco antes da aurora, um leve som despertou o felino! Era o
arrastar sinuoso de um corpo pesado! Uma cobra! E das grandes!
O corpo do felino retesou-se, como que atingido por uma forte
descarga elétrica. Sua mão segurou firme, o cabo do alfanje!
Repentinamente, ele rolou para o lado direito e ergueu-se de
pronto! O enorme réptil levantou o corpanzil poderoso! Em seus
olhos frios, um lampejar de decepção! Esperava atacar sua vítima
e eventual repasto, durante o sono! Seu olhar era magnético! Sua
voz, um chiado suave e estranho aos ouvidos do Gatão!

– Felinoss…não queirass me enfrentarss! A resistência é inútil!
Conforme-sess! Sujeite-ses a meu venenoss e ao abraçoss de
meus anéiss! Prometo-lhe uma mortess rápidass e quasess
indolor!
– Foda-se, você! Vai ter que me tomar a vida! Não será fácil!
– A resposta do ofídio foi um silvo enfurecido! A criatura viperina
percebeu o alfanje na mão firme de seu contendor! Notou que ele
não era uma das tantas presas aterrorizadas que a peçonhenta
matara e comera, ao longo de sua longa existência! Seria portanto,
uma luta de vida e morte! Coleando o rajado corpo musculoso, a
cobra atacou na diagonal, em uma tentativa de confundir o Gatão!
Seus olhos reptilianos faiscavam, buscando mergulhar a pretensa
vítima em um sortilégio mortal! Pobre tola! Não sabia com quem
estava lidando! Ousadamente, o felino gris avançou, em um
movimento veloz e sinuoso! Estendeu o braço e sua mão agarrou o
corpo da cobra, junto a cabeçorra monstruosa! Apertando-o com
força titânica! A cobra sentiu instantaneamente a falta de ar! Não
conseguia respirar! O corpanzil estremeceu, lutando para supri-lo
do oxigênio faltante aos pulmões convulsionados! Dava para ver
seus dentes pontiagudos, pingando um veneno de cor amarelada,
a escorrer de maneira inócua pelas comissuras daquela boca
nojenta!
– Quess sser fantásstico era estess gato que tinha o poder de a
dominar daquela forma, terrível?! - perguntava-se o réptil,
encarando nebulosamente aquele felino gigante que estava prestes
a tirar-lhe a vida! Nem conseguia enlaçá-lo em seus palpitantes                                                          anéis de carne escamada, pois uma fraqueza imensa, dominava
seu organismo! Não queria morrer, assim! Precisava se soltar!
Necessitava desesperadamente sorver o ar para vivificar seu corpo
combalido! O coração batia violento, como um martelo
descompassado! A língua bífida, cor de carmim, se projetava à
frente, oscilando convulsivamente! E a dor! A dor extrema
provocada pelo aperto brutal era algo insuportável! Na cabeça,
uma sensação de inchaço, como se ela fosse um balão cheio de
hélio, bombeado incessantemente, a ponto de quase explodir! O
corpo da cobra estrebuchou, sem coordenação! A consciência e o
discernimento foram fugindo célere daquela mente em disrupção! A
visão do ofidiano escurecia rapidamente! Este, conseguiu, com
grande esforço, divisar um vulto! Notou fracamente, um movimento!
Era a lâmina gélida do alfange! Não sentiu o golpe! Sua cabeça foi
arrancada e voou para longe, enquanto o corpo do réptil, solto pela
mão de seu executor, caía, estertorando violentamente no solo
poeirento! Fim da contenda! Baixava com estrépito, mais uma vez,
a cortina do Teatro da Vida, manchada de sangue!

Desta vez, o Gatão estava verdadeiramente esgotado!
Afastou-se do canto, onde lutara pela própria vida! Cambaleando,
um pouco caminhou e foi sentar-se junto à fogueira! Tinha fome!
Pegou uma das latas de ração! Apertou uma reentrância, em seu
topo. Dentro da lata, o conteúdo desidratado começou a se
modificar! Desta forma, graças aos prodígios de uma tecnologia,
não mais existente, a lata se abriu, revelando uma deliciosa e
quente sopa de legumes temperados! O Gatão retirou a colher de
carbono localizada no lado esquerdo da lata e comeu com apetite
evidente, deixando a lata vazia! Este tipo de ração, usada pelos
militares em suas andanças em terrenos desérticos supria o
organismo de vitaminas e sais minerais, além de substituir a água,
hidratando integralmente o corpo! De fato, estas latas de ração
eram de último tipo e muito superiores aquelas ofertadas a ele por
Lena! Isto explicava a aparência saudável e bem alimentadas dos
chacais. Como será que estes malditos animais conseguiram
emboscar e superar militares treinados e possuidores de armas de
grosso calibre? Pensando bem, chacais eram conhecidos por
serem ardilosos e da mesma forma que atraíram a abutre e seu
filhote a uma armadilha, aqueles traíras deviam ter feito o mesmo,
com os milicos! Que se fodam todos eles, chacais e milicos! No
fundo, farinha do mesmo saco!

O Gatão deitou-se e estendeu o corpo, no sentido de
descansar por algumas horas. O sol já havia se levantado no céu,
quando o felino começou a adormecer, lenta e suavemente. Então
aconteceu! Embora estivesse dormindo, não era sonho! Ao felino
cinzento, pareceu que seu espírito estava sendo arrancado do
corpo físico! Neste estado, ouviu nitidamente uma voz! Esta voz o
chamava! Um som que já ouvira antes, mas quando? Com a
percepção do espíritos desencarnados, o Grande Gato sentiu que
não estava só! Uma figura longa, sinuosa e diáfana dele se
aproximou! Como se um véu fosse levantado diante de si, o felino
tristonho reconheceu a imagem da Serpente Gigantesca! Um ser
profundamente poderoso e sapiente que há muitos anos, o Gatão
encontrara na vetusta selva virginal, conhecida como o Inferno
Verde!

– Grande felino de outras terras! Me é prazeroso saber que
ainda vives! Não tentai replicar, pois a fala é propriedade da
carne! Escutai, filho meu! Tu passaste pela tribulação das
tribulações e esta ainda não findou! Ainda há de vir situações
muito piores! Momentos, os quais nem você poderá resistir e
sobreviver! Este mundo em que pisas está condenado!
Contudo, para ti haverá salvação! Deves levantar-te, levar
contigo o expressamente necessário e seguir para o sul. Não
temais, pois em tua mente o rumo certo a seguir implantado
estará! Encontrarás a passagem escondida para um mundo
dentro do mundo! Neste paraíso estarei eu à tua espera, bem
como, uma tua amiga felina que há muito não vês! Venhas,
corajoso felídeo! Venhas, se quiseres continuar vivo! Se não
crerdes ser capaz de arrostar os perigos e sofrimentos de tua
jornada, deixai-te ficar, para perecer com o resto dos que ainda
vivem…!

O Grande Gato despertou, sobressaltado! A face                                                                             banhada de suor! A cabeleira acinzentada em desalinho! Ficou por
um momento parado, a refletir profundamente! Esta pausa foi
momentânea, porém! Resolutamente, ele arrumou seus pertences
e partiu, sob o sol inclemente do deserto. Ter uma motivação, um
objetivo mudou completamente o estado de espírito do felino! Se
ele existia, até aquele momento, por assim dizer, no automático,
agora sabia para onde ir e que havia uma luz brilhante, no fim do
túnel, até então, um abismo muito profundo! O Gatão não
continuaria, apenas pelo mero instinto de sobrevivência! Ele                                                    prosseguiria numa busca! Uma busca baseada em uma louca
experiência transcendental! Fantástica, sim! Mas era a única
certeza que hoje tinha, de recomeçar uma vida que julgava
perdida!

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 3 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A BUSCA – Capítulo 3: Por vários dias consecutivos, o Gatão vagou pelo deserto inóspito, na direção indicada pela Grande Serpente de outras...