– No
capítulo anterior, o Gatão mais uma vez, mostrou-se um sobrevivente nato!
Enfrentou e matou uma das mais perigosas e mortais criaturas do deserto! A
grande busca continua!
INÍCIO:
27/09/25. Término: 18/12/25.
A
Busca – Capítulo 5:
Assim que o sol se pôs, o felino levantou acampamento.
Naquela noite avançou incansavelmente, por trinta quilômetros, ou mais,
realizando paradas rápidas somente para alimentar-se! Felizmente, aquelas rações
enlatadas especiais, além de supri-lo de nutrientes básicos e necessários,
também substituíam a necessidade de água, sendo ricas em sais minerais
essenciais à vida! Realmente, as Forças Armadas atingiram seu auge,
em relação a seu equipamento padrão de sobrevivência em áreas inóspitas! Era um
dos últimos resquícios de alta tecnologia que hoje beneficiava o felino, em um
mundo que havia regredido praticamente à barbárie!
Alta madrugada! O Grande Gato é atraído pelo som de vozes, no
silêncio opressivo do deserto! Por falar em militares, ao aproximar-se silenciosamente
e sem ser notado, divisou em um acampamento montado, no meio das ruínas de um
antigo vilarejo, um destacamento de uns dez indivíduos! Enormes mastins de ar
empedernido e brutal! E militares era modo de dizer! Não havia mais Forças
Armadas constituídas! Na verdade, quem deles sobreviveu ao caos, formavam
pequenas hordas! Aqui e acolá! Os cães estavam de fato, a caráter!
Uniformizados, mas eram roupas sujas e suadas, sem a notória e costumeira
impecabilidade dos milicos de outrora! Estavam bem armados e possuíam farta
munição, em grandes caixas! Parecia ser um grupo coeso! Isto explicaria o fato
de estarem ainda vivos e suas coisas não terem sido tomadas por outras hordas
errantes, bem como também suas peles! Na realidade, o que atraiu o Gatão foi a
visão de um veículo que estava estacionado atrás de um resto de parede baixa e
carcomida, a qual, não ocultava aquele artefato completamente! Era um flutuador!
Um veículo comprido feito de carbono metalizado! Para se locomover, não possuía
rodas ou esteiras, tipo as de um tanque! Sob ele, um campo antigravitacional o
elevava acima do solo, deixando-o destituído de peso, quando em funcionamento!
E o melhor! Era alimentado por acumuladores solares! Não precisava de
combustível, tendo autonomia, portanto, ilimitada! Atrelado à sua traseira, um
tipo de reboque (alimentado pelo mesmo princípio do flutuador), carregado de
grandes caixas de munição! Por sorte, Zé Gatão sabia manejar aquele aparelho!
Embora, nunca tivesse uma única vez em sua vida servido às Forças Armadas,
tinha estudado e tido contato com seus equipamentos, em um dado momento de sua
vida! Apesar de sua notória aversão a cães, em especial a milicos havia
tido alguns poucos bons amigos caninos, nesta área específica e aprendido com
eles, o manejo de armas variadas, bem como a condução de uma miríade de meios
de transporte militares! O Gatão, imóvel, próximo aos dois sentinelas que
vigiavam o flutuador, esperou os outros membros do destacamento irem dormir!
Aguardou mais uma hora e satisfeito, viu os sentinelas distraídos, jogando
cartas!
O felino cinzento preparou-se para anular os dois sentinelas!
Contudo, sem matá-los! Não havia motivo! Se agisse com calma, nem seria
percebido pela milicada! Pegou uma zarabatana que havia feito de uma espécie de
planta local que tinha conformações que se assemelhavam a canudos! Ele produziu
dardos de espinhos de cacto e embebeu as pontas com uma seiva soporífera,
provinda das próprias plantas canudo! Tinha preparado a zarabatana e os dardos
anteriormente, por precaução! Não sabia que usaria estes artefatos, tão já!
Cautamente, o felino casmurro se aproximou dos sentinelas caídos! Notou que
estavam entregues ao sono dos narcotizados! Roncando, até! Desconectou o
reboque! Não precisaria dele! Da grande caixa pegou algumas embalagens de
cartuchos e um fuzil-metralhadora de último tipo! Depois, calmamente, o Gatão
subiu no espaçoso flutuador! Ativou-o! Como não tinha motor, não fazia ruído
algum, ao ser ligado! Saiu logo dali, planando! Luzes apagadas! Gostaria de ver
a cara dos militares, quando descobrissem o furto! Bom, este é um prazer que
nós teremos, no lugar do Grande Gato!
Logo ao raiar do dia, o comandante do destacamento canino,
acordou, meio mal-humorado e assim que deu falta do flutuador e viu os dois
sentinelas estirados de barriga para cima, a roncar barulhentamente, explodiu
em ira! Não latiu de raiva! Urrou, fazendo a soldadesca pular que nem pipoca na
panela quente!
– Que merda aconteceu aqui?
Não acredito! Roubaram nosso flutuador! E debaixo dos focinhos de dois idiotas!
Vamos! Acordem estes biltres! Andem! Mexam-se bando de moloides! Quero
explicações! E já!! - Os pobres sentinelas foram acordados a base de
chutes e palavrões! Em seguida, estavam enfileirados com os outros soldados
diante de um comandante furibundo! Os dois infelizes ainda estavam meio grogues
e isto apenas serviu para enfurecer mais ainda, o superior! - Vocês dois!
Como é que dormiram em serviço?! Eu devia estourar o crânio de vocês à bala!
Como foi isto? Andem! Expliquem-se, antes que eu os mate, aqui e agora!
É claro que os dois coitados,
não souberam explicar como caíram no sono, durante a vigília! Só se lembravam
que estavam jogando cartas e…! O comandante estrilou: - Imbecis! Néscios! O
dever de vocês era vigiar e não jogar carteado durante o serviço! Maldição!
Agradeçam por eu não ser como um oficial que já trabalhou comigo, chamado
Coronel Brutal (vide Siroco)! Se fosse ele, em meu lugar, o cara
fuzilaria vocês, cretinos, sem hesitação! Diabos! Mas não pensem que vão ficar
sem castigo! Pendurem estes dois bastardos! Chamem o sargento Pederneira!
Tragam o chicote! Andem, seus moles! Mexam estas suas bundas inúteis! -
Mesmo naquele momento quase insano, um tenente caiu na besteira de perguntar se
o comandante ainda tinha contato com o referido oficial! O mastim explodiu: - Nunca
mais o vi e quero mais que ele se foda! Era um grande filho da puta! Espero que
esteja agora, catando carvão no Inferno, onde é o seu lugar! E pare de falar
idiotices, tenente! Traga logo o sargento e não esqueça do chicote!
Ao serem bem amarrados, meio
pendurados, os dois sentinelas, caídos em desgraça, olharam para seu comandante
com os olhos marejados de lágrimas, em uma súplica muda! Insensivelmente, o
oficial resmoneou: - Não sei como dois cachorros aviadados como vocês
conseguiram ser aceitos por uma tropa de elite como a nossa! Ambos deram
o rabo pra quem?! Hein?! Já chegou, sargento? Cinquenta chicotadas no lombo
destes dois maricas! E com vontade! Quero ouvi-los ladrar, fui claro?! -
O sargento não se fez de rogado! Chicoteou impiedosamente as costas dos
dois sentinelas e seus uivos, misturados com ganidos de uma dor indescritível,
atroaram à distância e este fato alegrou por demais, o pervertido coração do
comandante!
Ao mesmo tempo, o Gatão já se encontra a muitos quilômetros
longe do palco da tragédia, a qual tivemos o privilégio de assistir! O
flutuador era facílimo de manejar e sua cabine hermeticamente fechada e
refrigerada trazia ao felino, um frescor e uma tranquilidade, normalmente
desconhecidas, ao ar livre! Além disto, o aparelho possuía sensores direcionais
que o guiavam perfeitamente para a direção que o Grande Gato pretendia seguir!
Porém, como diz um velhíssimo ditado, “tudo o que é bom dura pouco!”
Repentinamente, uma luz de alerta se acendeu no painel de controle! Ao que
parece, algum problema mecânico estava fazendo o flutuador falhar! O Gatão
resolveu aterrar e foi bem na hora! Assim que tocou no solo, o painel se
amagou! Não havia nada a fazer! Não havia mecânicos, ou peças de reposição em
lugar algum do mundo e muito menos oficinas do Exército!
O felino tristonho deixou o
aparelho, exatamente onde havia pousado, não muito longe de uma cordilheira
montanhosa que significava o fim do deserto! Faltava uma hora para o anoitecer.
Se andasse logo, o Gatão poderia acampar ao sopé da cordilheira! Com certeza
ali, a natureza seria menos hostil, quem sabe? Pôs-se a caminho.
Quando a primeira estrela da noite cintilou no firmamento, Zé
Gatão alcançou o sopé da cordilheira. Encontrou um trecho de mata agreste,
arbustivo. Adentrou naquela área e levantou acampamento no interior de uma
pequena caverna que encontrou. O local era habitado por morceguinhos
amarronzados que voaram assustados, para o alto das estalactites que se
projetavam do teto como dentes de uma grande fera! Somente uma daquelas
criaturinhas não fugiu! Era uma fêmea e de uma fenda próxima na parede,
observava o intruso, com os olhinhos arregalados e brilhantes! Em um dos seus
raríssimos sorrisos, o felino chamou-a para aquecer-se junto à fogueira,
afirmando que nada temesse! Ele não lhe faria mal! Ela se aproximou, meio
ressabiada! Incrivelmente, surgiu uma instantânea empatia entre aqueles dois
seres! Tanto que quando a morceguinha perguntou o que ele fazia ali, o Gatão,
sem reservas contou-lhe sua história e o motivo de sua jornada! A pequenina
sorriu contente e disse que já ouvira falar deste mundo perdido dentro do
mundo! Perguntou se podia acompanhá-lo, dali por diante e o Grande Gato
aquiesceu! Ele estivera sozinho tempo demais, até para seus padrões de ser
solitário! Estava cansado de brigar e muitas vezes matar, toda vez que
encontrava algum ente em seu caminho! Ficaram amigos! Ela chamou seus inúmeros
parentes! Eles saudaram o Gatão, mas não quiseram seguir naquela estranha
jornada. Antes de partirem para seu voo noturno fora da caverna, conversaram
muito com o felino e o seu falatório alegre, trouxe descontração ao coração do
Gatão! A morceguinha não foi! Preferiu ficar ao lado do novo amigo!
O novo dia se apresentou ensolarado, mas diferentemente da
área desértica, uma brisa agradável vinha da cordilheira! Era ótimo não sentir
mais o constante e pesado calor que só desertos podem proporcionar durante as
longas horas de claridade! Também dentro da caverna, onde havia se abrigado na
noite anterior, o clima era meio geladinho! O Gatão despertou faminto! Acabou
devorando duas latas de ração específicas que diziam em suas informações
nutricionais – concentrado! Olhou casualmente para o teto e viu bandos
de minúsculos morcegos adormecidos e pendurados às estalactites que enchiam a
cave! Procurou, Bella, a morceguinha com a qual havia contraído recente
amizade e a viu pendurada numa estalactite bem acima de onde o felino estava.
Seu ronquinho sutil podia ser ouvido facilmente no silêncio daquele ambiente
cavernoso! O felino gris a encarou com um incomum sentimento de ternura! Sim!
Nunca gostara tão facilmente assim, de alguém! Achava inclusive, a criaturinha
alada engraçadinha e graciosa, com seus olhinhos vivos e vozinha firme! Parecia
ser muito inteligente e destemida! Deixou-a e aos seus semelhantes dormir
tranquilamente e procurou não fazer barulhos desnecessários! Cerca de uma hora
depois, Bella acordou e seu bom dia feliz, foi respondido com desusado
entusiasmo pelo Gatão, em voz baixa devido ao seu timbre de voz mais grave! O
felino perguntou se ela estava com fome! A resposta foi afirmativa e ela comeu
com apetite um restinho de ração que ainda sobrara!
Duas horas depois, a inusitada dupla deixou a caverna! A
pequena ia agarrada às costas amplas de seu mais novo amigo, sedenta de
aventuras, segundo ela! O felino expressou um leve e fugidio sorriso! Não deu
infelizmente, para se despedirem dos outros morceguinhos! Contudo, o clã já
havia aprovado ontem, a partida de Bella! Seguindo de forma ascendente, o Gatão
se movia, se agarrando a cada reentrância rochosa! Sua enorme força,
guindando-o, palmo a palmo, apesar do peso da sacola de armas e munições bem
atravessada em seu corpo muscular e a pesada mochila em suas costas! Movia-se
rápido e facilmente pelo costado da enorme montanha! Ao fim de duas horas de
escalada, o felino e sua pequenina companheira de viagem atingiram o topo da
montanha! Seguiram por uma trilha entre as rochas, se detendo em um platô, no
intuito de descansarem um pouco, em meio a uma mata mais densa! O felino sentiu
o cheio de água e descendo um aclive encontrou um regato murmurejante, de água limpa
e fresca! Ao que parece, aquela cordilheira distante, não havia sido afetada
pelos horrores da Guerra e sua toxidade mortal! O Gatão encheu seu
grande cantil e dividiu seu conteúdo com Bella! Que delícia para o casmurro
tomar água de verdade! Se sentiu revigorado! Prosseguiram
a caminhada! Bella agora voando juntinho do rosto do felídeo! Instantes depois,
a minúscula quiróptera mostrou-se alarmada e Zé Gatão indagou o motivo! Ela
respondeu que estavam se aproximando do território dos três leões! Era um trio
de irmãos extremamente territorial que dominava aquelas cercanias!
A morceguinha tirou da cabeça
do Gatão, qualquer possibilidade de negociação! E o pior! Não havia rota
alternativa, já que tudo ali pertencia aquelas grandes feras! O Gatão acalmou-a,
dizendo que dariam um jeito qualquer! Pararam para almoçar, quando a fome bateu
e aproveitaram para descansar um pouco! No princípio da tarde, antes de
levantar acampamento, o vento trouxe às narinas ultrassensíveis do felino
acinzentado, cheiro de leões! E forte! Dali a instantes, três formidáveis
felinos surgiram no acampamento! O que parecia ser o chefe possuía uma enorme
juba negra! Trajavam roupas inteiriças feitas de fibra vegetal! A cintura
cingida por grandes cintos semelhantes aos de antigos gladiadores de épocas
passadas! Braçadeiras trabalhadas, enfeitavam os pulsos! Os corpos musculosos e
bem formados denotavam força e brutalidade quase palpáveis! O Gatão não se
impressionou e os olhou tranquilamente! A calma do amigo reduziu um pouco o medo
da morceguinha que estava encolhida, bem agarrada ao pescoço dele! Então o
líder se pronunciou! Voz forte, altiva de tom bastante profundo e grave: -
Você está invadindo nosso pedaço, meio lince! Levanta, venha me enfrentar, se é
macho!
O felino cinzento retrucou, com desdém: -
Esta terra é livre, cabeludo! Precisamos seguir em frente, entendeu, ou quer
que eu desenhe?! Caia fora, ou vou ter que te amaciar na base de muita porrada!
A risada grossa do de juba
negra ecoou pelas cercanias!
– Tás de sacanagem, parceiro!
Cê é grande pra caralho! Nunca tinha visto igual! Mas não sabe com quem está se
metendo! Acho que achei um novo tapete para enfeitar minha casa, não é
rapazes?! - Os dois irmãos de juba acobreada riram, o bom
rir! O Gatão não riu, mas retrucou: - Vamos combinar! Se eu amassar este seu
focinho feio, eu e minha amiguinha teremos livre passagem por estas plagas das
quais você se diz o mestre e senhor! De acordo? - O leão gigantesco riu até
quase vomitar de tanto gosto! Nenhum animal, que ousara passar por ali, o
pudera vencer! Colecionava em sua habitação, cabeças, chifres e ossos dos que
tentaram! Que troféu magnífico seria a cabeça daquele meio lince, acinzentado
na parede da sala! O Gatão mediu seu adversário de alto a baixo! Parecia ser um
elemento perigoso! Mas tal constatação, não fez seu metabolismo acelerar, nem
um tiquinho! Era só ser prudente e saber aproveitar qualquer chance a seu favor
que surgisse durante o combate! O Gatão não era nenhum novato! Pelo contrário!
O leão também percebeu que seu oponente ia dar trabalho! Isto só o estimulou e
acirrou-lhe o instinto sanguinário! Se achava tão foda que a seu ver, aquela
luta só ia se prolongar um pouco mais! Bom! Faria aquele felino cheio de marra
implorar! Faria o louco iludido sofrer, antes de tirar-lhe a vida! Quanto à
morceguinha, ela seria um novo brinquedo para seu prazer pessoal!
Os dois contendores mediram-se! Começaram a mover-se, um em
torno do outro, de maneira concêntrica! Pareciam estar em um ringue sem cordas
e sem delimitações físicas! Estudavam-se, procurando brechas e pontos
vulneráveis, a explorar! Como um relâmpago, o leão de juba negra e basta
atacou, aplicando uma saraivada de jabs, os quais o Gatão evitou com a
facilidade e experiência do exímio lutador que era! O leão ainda tentou um
murro no plexo solar do adversário e sequencialmente, um soco de cima para
baixo, com uma precisão incrível! Isto, se tivessem atingido seu alvo!
Percebendo uma brecha para atacar e um momentâneo desequilíbrio do corpo do
oponente, em razão de seu deslocamento natural, durante o combate, o felino
aproveitou para oscilar, confundindo o êmulo! Em seguida, se projetou à frente,
conseguindo encaixar um murro explosivo na face de um surpreso panthera leo!
A boca do indivíduo, simplesmente explodiu em sangue e sua dentadura, assim
como a mandíbula, só não foram seriamente danificadas, por conta de serem
excepcionalmente fortes! No entanto, o impacto devastador, lançou o musculoso
ser, brutalmente ao solo como se ele fosse um encardido pano velho jogado fora,
com displicência! Os irmãos do atingido gritaram sonoramente, sem crer no que
viam e Bella, dependurada em uma árvore arbustiva, próxima bateu suas asinhas
de contentamento! Ao chão, estonteado, o leão resmungou: - Porra! Pela juba
de meu avô! Nunca ninguém conseguiu me derrubar até hoje! Nem os maiores
animais! Puta que me pariu!
Os seus irmãos, furiosamente instaram para que o leão de juba
negra, revolta se levantasse logo! Da boca deste irmão mais velho escorria
sangue! Profuso e vermelho! Zé Gatão estava à espera! Descontraído, mas alerta!
Então, como um bólido, o enorme leão ergueu-se! Porém, antes que pudesse mover
um músculo, tomou um poderosíssimo chute lateral que quase arrancou sua
cabeçorra fora! Desta vez, o felino gris não deixou que ele caísse de novo!
Agarrou-o com a mão esquerda e enterrou o punho direito, com toda a força, no
bucho do desgraçado! O infeliz gritou de dor! Um lamento sufocado, que mais
parecia o cacarejo de um galináceo e não o bramido altivo e ameaçador de um leão!
Uma, duas, três vezes, o Gatão esmurrou fundamente! Bateu sem dó, no estômago
de seu contrário! O ar já não entrava livremente naqueles pulmões,
convulsionados! Para finalizar, um novo murro no meio da cara atirou o pobre
leão no mundo dos sonhos! Ficou esticado igual um amontoado de merda! Ali,
quietinho, a esperar que o recolhessem para jogá-lo na privada mais próxima,
mesmo se sabendo que não mais as havia!
Os irmãos do de juba negra estavam estupefatos! Não podia
ser! Seu irmão foi derrotado como um principiante! Correram a acordá-lo
sacudindo-o e estapeando seu rosto arrebentado! Foi preciso jogar água na face
dele, diversas vezes! Gemendo penosamente, ele despertou, estremunhado! Olhou
em torno, e viu o felino que o espancara tão facilmente, sentado em uma pedra,
a conversar com Bella! Esta não se cabia de contente e dava gritinhos, voejando
em torno da cabeça do felino cinza!
– Você é extraordinário, cara!
Eu nunca fui derrotado! Nunca, até hoje! Como foi possível? - As
palavras do leão eram sinceras! O Gatão o encarou com sobriedade e respondeu,
categórico:
– Fácil de explicar, amigo!
Você lutou de forma descuidada! Foi prepotente! E o mais importante! Seu
coração não estava no combate, entende?
– Mas como assim?
– Você sempre foi acostumado a
porrar seus oponentes, sem dificuldades! Você era mais habilidoso do que todos
eles! Não importava o tamanho! Só que eu, saio na porrada desde que precisei
aprender a me defender dos valentões que me espancavam quando eu era filhote!
Depois, estudei a fundo a Arte do Combate físico! Tive excelentes professores!
Participei de lutas profissionais e não-profissionais! Misturei várias técnicas
clássicas à luta de rua (esta não tem regras)! Acima de tudo, aprendi a usar a
cabeça, além dos punhos! E foi o que você viu! E agora? Vai cumprir sua
promessa, ou vamos continuar nossa pendenga? Você quem sabe!
– Vou cumprir minha promessa,
meio lince! Você é um animal honrado e quero que a gente seja amigo! - Os
irmãos mais novos do leão de juba negra protestaram, aos gritos e o mais velho
ordenou que se calassem! Eles atenderam, contrafeitos! Se voltou para o felino
gris, dizendo: - Me chamo Léo Grandi e estes dois bobalhões são meus
irmãos menores: Sid Léo e Mik Léo!
– Eu sou Zé Gatão e
aquela é Bella! Minha amiga e companheira de jornada! - A
morceguinha se sacudiu faceira, empoleirada no ombro de seu amigo!
– Prazer! Ei, vocês dois! Vão
apertar a mão do Zé Gatão, ou tão precisando de uns cascudos pra ter educação?
Andem, vamos!
Sid e Mik,
o fizeram meio ressabiados, mas logo esqueceram as desavenças e ficaram mais
sociáveis! Até pediram que o Gatão os ensinasse a lutar. O felino deu um breve
sorriso sem mostrar os dentes, acrescentando:
– E para quê? Para você
matarem animais, como seu irmão mais velho?
– Ora, por que você luta? Não
é para isto? - indagou Sid!
– Por acaso, eu matei o irmão
de vocês?
– Eles estão certos, Gatão! De
que vale lutar, sem matar o adversário? Você nunca matou ninguém?
– Não nego! Já matei! Mas
diferentemente de você, eu luto para me defender e não necessariamente para
matar! Você não está vivo? - Bella olhou para os três leões, com
certa ironia!
– É verdade, só não entendo
porquê você não me matou!
– Eu não tinha e não tenho
razão para tirar sua vida! Não vou afirmar que nossa luta não foi empolgante,
de certa maneira! Mas eu pessoalmente estou de saco cheio de lutar e mais ainda
de matar! Mas fique certo! Se minha vida, ou a de Bella estivesse em perigo,
nenhum de vocês estaria mais respirando! - Sid e Mik
quiseram protestar! Porém, o olhar severo de Grandi, os fez calar! O
Gatão continuou: - Não tenho nada a ver com o que vocês fazem! Então, me
digam! Qual é o sentido de desafiar animais que passam por “suas terras” e
simplesmente matá-los? Acho uma pura criancice! Quem determinou que
vocês têm este direito? Vocês mesmos, imagino! Não sei se sabem! Mas a
civilização como a conhecemos foi destruída por uma grande Guerra! Não
há mais cidades, dinheiro, sociedade organizada e muito menos Governo!
– Nós não sabíamos! Viemos
para cá há muitos anos para fugir da pobreza, da fome e da violência das
grandes megalópoles! Redarguiu Grandi. Seus irmãos confirmaram!
– Sei! E estabeleceram aqui
seu pequeno reino de violência…! Escutem, só quero que reflitam! Querem tanto
lutar com os animais que aparecem? Ótimo! Porém, não precisam matá-los, se não
for absolutamente necessário!
– Mas então, eles vão
atravessar nossas terras, livremente!
– E que mal há nisto? Eles são tão livres como
vocês! E tem mais! Eu cheguei e venci a luta contra o Grandi, aqui! Pode muito
bem aparecer hordas agressivas de chacais, lobos e hienas, vindas do deserto
que não hesitarão em estripar vocês três a frio, ou encher vocês de chumbo
grosso! Não duvidem! Eu estive lá! - Os três irmãos leoninos
ficaram pensativos! - falaram em uníssono:
– O que acha que devemos
fazer? Arregar? Nem pensar!
– Eu penso que vocês poderiam ser mais
atentos! Só lutem se for para se defender! Não deem na vista! Sejam mais
cautelosos!
- Hey! Não quer ficar aqui conosco e nos ensinar a sermos
mais cautelosos, como você diz? - perguntou Sid.
– Não podemos ficar! Temos que seguir viagem!
Amanhã cedo, nós iremos!
– Sim! Então, fiquem conosco,
hoje e partam mesmo, amanhã! Daqui a pouco vai anoitecer! - asseverou,
Mik. Assim foi feito. O felino gris e a morceguinha se hospedaram na
casa onde Grandi morava com os dois irmãos. Envergonhado, o leão de juba
negra retirou seus troféus da sala de estar e os guardou em outro
aposento! Passaram aquele princípio de noite em animada conversa, durante o
jantar, em um espaçoso refeitório! O Gatão ofereceu como complemento à gostosa
comida preparada pelos irmãos, alguns de seus enlatados doces, como sobremesa e
todos comeram as iguarias com redobrado prazer! A loquaz tagarelice da
morceguinha alegrou ainda mais o ambiente e até o Gatão permitiu-se a sorrir,
parecendo um pouquinho menos casmurro, do que o usual! Duas horas após a
janta, foram para cama e pela primeira vez, em muito tempo, o felino cinzento
dormiu despreocupado! Ainda que seu sono fosse leve, como de costume!
No dia seguinte, ao fim do café da manhã, Zé Gatão e sua
companheira de viagem partiram! Léo Grandi e os irmãos, os fizeram
prometer que passariam por ali, na sua volta! Intimamente, o felino acinzentado
sabia que não mais veria os três leões, mas nada disse! Se contasse o objetivo
de sua jornada, os irmãos o considerariam um louco varrido!