A BUSCA – Capítulo 4:
Durante a noite, o Gatão parou uma vez, apenas para
alimentar-se. Pegou uma lata comprida de ração. Esta, em
particular, era composta de uma mistura láctea, de alto teor
nutritivo! O felino apertou o botão no topo da lata!
Automaticamente, o produto foi preparado! Já pronto, a lata se
abriu e o Grande Gato deliciou-se com seu conteúdo! Satisfeito
com o belo lanche, continuou seu caminho. A madrugada estava
adiantada! Parou umas duas horas depois para realizar outra
refeição! Comeu rapidamente, do conteúdo de uma lata de ração
salgada hiperproteica! Descansou um pouco para fazer a digestão
e logo estava marchando pela imensidão desolada, mais de acordo
com seu instinto, sem mais usar a bússola, novamente.
Aos primeiros albores da manhã, avistou uma espécie de cidadela
fortificada, erguendo-se ameaçadoramente, a contrastar com o
céu de um azul desmaiado, decorado com os sinais da
vermelhidão do sol nascente, que ainda não despontara no
firmamento. A precaução felina, avisava claramente ao Gatão que
seria de bom alvitre passar ao largo daquela estranha estrutura e
de quem a habitasse! No entanto…! Um grito de agonia vindo lá de
dentro, o fez parar! Era a voz de uma fêmea! Assim, contra todo o
bom senso e toda a lógica, o felino acinzentado se aproximou da
fortaleza, como uma sombra, entre as sombras! Percebeu um
sentinela no alto da grossa muralha, a qual escalou sem nenhuma
dificuldade, agarrando-se nas fendas existentes na pedra bruta! Na
cintura, o alfanje! Pendurado nas costas, o rifle de repetição!
Cuidadosamente, alçou o corpo, até se colocar bem atrás do
sentinela! Um feneco – um tipo de raposa do deserto – magricela,
entretido com algo, acontecendo no meio do pátio daquela
construção, meio que grotescamente erigida! O sentinela, portanto,
não estava preparado para receber na garganta, o aperto
brutalíssimo, daquele braço musculoso que o cingiu! Morreu rápido
e sem emitir um mísero som! A feia língua rosada projetada para
fora da boca! A saliva a gotejar um pouco e os olhos revirados que
nada mais viam! O Gatão depositou o morto suavemente no chão
frio! Firmou a vista detidamente, na direção em que o chacal estava
olhando! Seus dentes rilharam de raiva, ao ver uma leitoinha sendo
devagar e criteriosamente estripada, ainda com vida! A assar nas
brasas viu diversos corpos de suínos! O odor forte de carne já
pronta, enchia os ares! Um grupo de porcos enormes dançava e
cantava diante de um trono gigantesco, onde uma suína disforme e
de tamanho desmesurado se sentava! O rosto inchado, com um ar
entre dominador e complacente! Zé Gatão a reconheceu de jornais
que lera há anos! Era Balôfula Apresunntada! Líder inconteste da
famosa Seita, conhecida como Canibalenses! Uma mistura de
religião, política e crenças variadas que tentou desencadear
uma Revolução Reformadora! Falharam! As forças repressivas
do Governo destruíram a Seita e queimaram até os alicerces,
suas Sedes nas diversas cidades, onde floresciam! Pensou-se que
Balôfula tinha sido morta, em algum destes confrontos!
A Organização foi literalmente esmagada! Só que a suína e vários
de seus cerdos haviam escapado! E ali estavam, realizando as
mesmas práticas, em especial, o canibalismo! O Gatão, agachado
e protegido por uma mureta, olhou em torno! Havia outros fenecos
sentinelas em pontos estratégicos! Mas como aquele que o felino
matara, estavam absortos na bizarra cena que se desenrolava
naquele pátio de horrores e pecados sem fim!
O Gatão, apoiou o rifle na mureta, apontando-o diretamente
para o coração da líder suína. Em seguida, em voz clara gritou: -
Hey, vocês aí embaixo e os guardas fenecos em suas posições!
Tenho meu rifle apontado para o coração de sua líder! Um
movimento em falso e Balôfula vai pro espaço! - A porca
estremeceu em seu trono! Seu urro estrondou: - Façam o que foi
dito! Não se movam, nenhum de vocês, idiotas! Por minha vida,
estranho! Não atire! O que é que você quer?!
– Soltem essa leitoa! Já! - os grandes e feiosos porcos que
ladeavam a líder, obedeceram, cortando as amarras que prendiam
a supliciada! A pobre leitoinha, tombou no chão! Infelizmente,
morta! O Gatão deu de imediato, voz à sua arma! Disparou um tiro
certeiro, bem no coração da Apresunntada! Sem se deter,
despejou chumbo grosso nos demais porcos, e nos suídeos
dançarinos que tentaram se dispersar atabalhoadamente! Parecia
uma máquina precisa de morte! Antes que os ditos sentinelas
conseguissem revidar, os tiros do Gatão os fuzilaram! Cada qual
teve o cérebro arrebentado por balaços destrutivos! Estava por fim,
aniquilada definitivamente a Seita maldita dos Canibalenses!
Zé Gatão desceu da muralha, dentro do pátio. Após este
movimento saiu pelo enorme portal da fortaleza vencida! Antes, ele
enterrou a pobre leitoinha que deveria ter quando muito, uns quinze
anos de idade! Quanto aos demais mortos, deixou-os onde haviam
tombado! Que apodrecessem sem sepultura, expostos aos rigores
do deserto! Estava decidido em prosseguir sua caminhada. No
entanto, resolveu não partir tão já! Acampou junto à muralha. O sol
já havia se erguido no horizonte. Além de descansar, resolveu
aproveitar para realizar uma exploração nas dependências daquele
baluarte.
Após um breve período de repouso e de uma boa refeição
enlatada, o felino casmurro adentrou no vasto pátio. Ignorou
solenemente, a presença de um bando de abutres que descera do
céu para se empanzinar com a carne dos mortos! Tinham uma
certa utilidade, aqueles pássaros feios e carecas, de penas negras
como a noite! Seus hábitos tétricos, de alimentação evitavam que a
podridão dos mortos se espalhasse, na forma de doenças, além do
mau cheiro! Quando terminassem de comer, só restariam ossos e
nem um resquício de carne, a cobrir os despojos! Entretidos em
sua descontrolada glutonaria, as aves, não deram atenção, ao
vivente que passava perto delas. E nem o Gatão tinha razão para
hostilizar aqueles bichos! Ou seja, ficou cada um na sua! O felino
entrou fácil e tranquilamente na área interna do bastião. Estavam
portas e portais escancarados! Explorou o andar térreo, mas não
se interessou em examinar o andar superior. Imaginou que lá em
cima, nos quartos, haveria suídeos machos e fêmeas, com certeza,
mortos em suas camas! De acordo com o modus operandi da
Seita, pelo que o Gatão já tinha lido, nos jornais e assistido no
noticiário da época, em caso de perigo extremo, a ordem era o
suicídio! Desta forma, os principais segredos da dita “ordem”, não
cairiam nas mãos profanas, dos infiéis!
Como não havia mais eletricidade no mundo, o interior dos
aposentos era iluminado fracamente por enormes tochas,
alimentadas por gordura de porco – dá para imaginar que tal
combustível era fornecido pelos próprios súditos da
Apresunntada, imolados brutalmente durante os rituais arcanos
da Seita! - Naquele ambiente quase crepuscular, a visão aguçada
do Gatão não tinha
dificuldade nenhuma em devassar aquela penumbra e caminhar
por entre a mobília, sem esbarrar em nada!
No fim de um longo corredor atapetado, o felino se deparou
com um maciço portal de madeira que felizmente estava
entreaberto. Ao adentrar ali, percebeu que se encontrava em uma
espécie de sala imensa cheia de armas variadas! Espadas,
punhais, adagas, lanças, escudos de vários formatos e machados
de todo tipo! Escolheu dentre elas, uma adaga de lâmina
encurvada, algumas pequenas facas, um punhal, um arco, uma
aljava cheia de flechas, uma boleadeira, uma submetralhadora e
caixas de munição da referida arma de fogo! Notou que as armas
de fogo, granadas, pistolas automáticas e semiautomáticas tinham
o selo das Forças especiais do Exército e da Marinha! Como
teriam caído nas mãos da Seita? Casualmente, tocando em uma
das paredes daquele cômodo, o Gatão encontrou uma passagem e
galgou uma escada que o conduziu até os aposentos luxuosos e
privados de Balôfula Apresunntada! Sobre uma penteadeira
ricamente trabalhada, encontrou uma espécie de diário pessoal da
porca! Folheando-o, o felino gris tomou ciência de uma série de
fatos inquietantes! Segundo o tal diário, a suína conseguira fugir,
auxiliada por um militar corrupto e uns políticos do mesmo naipe!
Se mandaram para o deserto, antes da Guerra e se fixaram
naquela cidadela fortificada, construída pelos sequazes de
Apresunntada que com ela também escaparam do cerco das
autoridades governamentais! Refletindo sobre estas informações
impactantes, o Gatão pegou e arrumou as peças do armamento
escolhidas por ele, colocando-as em uma grande bolsa de lona
preta. Feito isto, retirou-se. Saiu do reduto de luxo da suídea, por
uma porta lateral, com a bolsa no ombro. Mais a frente, entrou em
outro aposento maior ainda! Lá dentro, surpreendeu-se como
nunca antes em sua existência! O local, parecia uma espécie de
museu de horrores! O felídeo havia se perguntado sobre o destino
do milico e políticos, aliados!
Agora o sabia! Estavam ali! Empalhados! Postos sobre pedestais
com o nome e o cargo de cada um, em letras garrafais! Cada face,
expressando o último instante de suas vidas: surpresa, terror, dor e
a fixidez permanente, do olhar derradeiro, antes do fim! Todos
conhecidos e famosos! O General Farbindes, um enorme
canzarrão de raça desconhecida! Trajando um belo e pomposo
uniforme de combate, o quepe vermelho sombreando os olhos muito
abertos, a língua de fora! Corpanzil empertigado, o forte braço direito
estendido! O indicador apontando firmemente para adiante! As
orelhas em pé, como que ouvindo algo, ao longe! Os políticos, dois
porcos agigantados de pele rosada, em seus próprios pedestais,
denotavam imponência e transpiravam Poder de mando e domínio!
Ternos bem cortados e devidamente ajustados a seus perfis
adiposos! O profissional em taxidermia que preparou aquelas
figuras era de alto nível! Pareciam estar vivas, quando na verdade
estavam mortas, há muito! Zé Gatão havia trazido consigo, o
nefando diário de Balôfula! O texto que ainda lia, descrevia
minuciosamente que na noite do assassinato do General e dos
políticos, todos os órgãos internos dos cadáveres foram extirpados e
transformados em iguarias, servidas em um banquete suntuoso que
Apresunntada promoveu para si e seus seguidores! Ela mesma,
consumiu com prazer o coração do General, seu fígado e seus rins!
Já, os congressistas foram repartidos entre a suinária faminta! Foi
uma voracidade, uma gula desmedida que tomou a todos os
presentes! Se lambuzando, entre arrotos, peidos e grunhidos! Além
de muito vinho tirado de uma vinícola especialmente desenvolvida
naquela área desértica! A festança só terminou no meio da
madrugada! O Taxidermista, um porquinho pequeno e balofo de ar
bastante distinto foi convidado para o amor, na alcova da grande
líder! Ao final do prazer, Balôfula, premeditadamente, se deitou
sobre o porquinho! Sem dó, esmagou-o sob seu peso colossal! O
infeliz encontrou a morte, por sufocação! Sem nada enxergar,
debaixo daquela montanha de carne quente que fremia de puro
gosto, ao eliminar aquele ser minúsculo que se achara alguém, por
ter tido o privilégio de ter se deitado com a Senhora de todos os
Canibalenses! Pobre tolo! Foi devorado assado, no café da manhã,
do dia seguinte! O Gatão fechou bruscamente o diário! Com um
movimento de mão, queimou-o em uma das tochas penduradas na
parede! Balançou a cabeça, tentando esquecer o que vira e o que
lera! Saiu para o pátio, em busca da luz do sol, a descer mais uma
vez, no firmamento!
Do lado de fora, observou que os abutres já haviam comido
fartamente. Já próximo do grande portão, ouviu uma voz roufenha e
meio esganiçada, chamá-lo!
– Felino…! - O Gatão virou-se. O abutre que o chamara parecia ser
o chefe do bando de carniceiros. O abutre líder perguntou se ele e
os seus poderiam adentrar na fortaleza! Havia corpos ainda lá, e o
apetite dos lixeiros do céu ainda não havia passado! O cinzento
falou que podiam entrar, desde que trouxessem os defuntos para o
pátio, e depois os comessem, no mesmo lugar onde já tinham feito
seu odioso rega-bofe! Eles concordaram! O felino acinzentado
percebeu que a ave careca queria dizer mais alguma coisa. O abutre
não se fez de rogado: - Sou Áticos…! Sei o que você fez por uma
de nós e seu filhote! É…! As notícias voam, gato grande! A palavra
já foi passada! Nenhum mal há de lhe advir, enquanto você estiver
passando por minha jurisdição! E meu território é amplo! Se precisar,
estaremos todos e todas à sua disposição! Nada posso garantir dos
bandos fora de minha área! Falo por mim e pelos meus! Do meu
povo, quem desobedecer esta ordem, por certo, há de morrer! - o
felino tristonho quedou-se pensativo! Quem diria? Naquele mundo
caótico e destruído, ainda existiam certos
princípios básicos! Algo inédito vindo de seres dos mais
improváveis em ter este tipo de postura, como os abutres! O Gatão
agradeceu com um breve aceno de cabeça! Despediu-se das aves
abjetas e partiu! Talvez nem tudo estivesse perdido…! Ahh! A quem
queria enganar? A grande serpente de seu passado e dos sonhos
recentes foi categórica! - NÃO HÁ SALVAÇÃO PARA ESTE
MUNDO!
Dentro da noite gelada do deserto, marcha o Grande Gato!
Ele vai sempre em frente atrás de uma quimera! Ele, que há muito
tempo não tem mais sonhos…!Isto, até agora…! O felino
acinzentado avançou por muitos quilômetros, sem se deter, a não
ser nas horas claras! Por duas noites consecutivas, não encontrou
nenhum ser vivo em seu caminho! No fim da terceira noite, ele parou
para descansar e comer algo, detendo-se sobre uma elevação que
não chegava a ser uma colina. Enquanto mastigava o conteúdo seco
de uma das latas de ração, ouviu um som! Um chiado agudo! De
repente, surgiu à sua frente, um lagartão atarracado e multicolorido,
conhecido como Monstrengo! Feio como o pecado! Uma bocarra
cheia de dentes serrilhados e saliva altamente venenosa! Membros
curtos e musculosos! Garras aduncas de cor preta! Cauda comprida
e grossa que se afilava no final! Seus olhinhos malévolos faiscavam
intensamente! O Gatão mexeu-se! Em suas mãos surgiram, dois
punhais agudos! Sem pensar duas vezes arremessou-os contra a
figura escamada! Um deles foi cravar-se na garganta do réptil! O
outro foi enterrar-se no ventre do lagarto, pouco acima da cinta que
segurava seu saio curto, feito do couro de alguma vítima, sua! O
bicho deu um urro titânico de agonia! Não chegou a cair
imediatamente ao solo, pois antes disto foi seccionado pelo golpe
devastador do alfanje do Gatão! A carcaça partida ao meio, terminou
por separar-se, um pedaço para cada lado, em nada lembrando a
forma que fora, em vida! O felino limpou o sangue negro do
pecilotermo das lâminas de suas armas. Enterrou-o sob um monte
de pedras, para que ficasse inacessível a outras criaturas do
deserto! Sua carne era tão letal, quanto a sua saliva! O felino
afastou-se dali, buscando outro lugar para passar o dia que já
estava raiando. Montou sua tenda e internou-se em seu interior!
Para não dizer que não houve mais nada, foi perturbado, lá dentro,
pela invasão de um grande escaravelho pardacento! O enxerido
inseto atacou logo, cheio de fome! Porém, enganou-se, ao imaginar
que o Gatão seria presa fácil! O felino, enfurecido pela presença do
coleóptero, liquidou-o a pancadas, esmagando a carapaça e todo
ele, com uma pesada maça que havia trazido, da fortaleza, até
reduzi-lo a pó! Depois, o felino virou-se de lado e dormiu o sono dos
justos!
sexta-feira, 13 de março de 2026
ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 4 (Um conto escrito por Luca Fiuza)
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