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domingo, 25 de janeiro de 2026

RÉQUIEM PARA O POETA DO CAOS

 


 Não tenho escrito muito neste blog, falta-me força, falta-me vontade. Achei que a idade me faria escrever melhor, mas a insistência de certas situações em me sufocar, principalmente dentro de casa, no dia-a-dia, a eterna luta para matar os gigantes da semana, drenam toda a inspiração para a escrita e para o desenho (o que para mim é quase a mesma coisa). A fonte está prestes a secar, o que brota dela é uma água barrenta, salobra. E esse produto - tóxico, eu diria - é de que me sirvo para comentar sobre meu amigo e sócio Luis Carlos Girassol Cichetto, mais conhecido como Barata.

As dezenas de lives que fizemos durante o ano de 2025, conhecida como Lanchonete do Barata poderiam falar por mim muito melhor que minhas pobres palavras, lá estão descritos pelo próprio Barata como nos conhecemos, nos tornamos chegados, como criamos a Lanchonete e editamos alguns dos meus títulos pelo seu selo, mas convinha que eu desse um depoimento sobre essa ligação que durou tão pouco e ao mesmo tempo valeram por uma longa vida.

Sou amigo de uma pessoa que foi próximo do Barata por muito tempo, esse parceiro tinha uns canais sensacionais no YouTube e eu sempre deixava um comentário nas postagens. Junto a mim, as opiniões de um certo Barata Cichetto. A alcunha já me chamou a atenção e também as análises dos vídeos que batiam com as minhas.

Pois bem, esse camarada em comum falou ao Barata sobre uma obra minha em parceria com o lendário escritor de pulps, Rubens Francisco Lucchetti, "A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE"; bem, os que foram próximos ao poeta já o ouviram falar sobre isso inúmeras vezes, ele comprou o livro, se indagou como nunca tinha ouvido falar de mim antes e etc. Ele solicitou minha amizade no Facebook (fato do qual não me recordo até hoje, mas isso é normal, alguém fala comigo e no dia seguinte já não lembro). Me escapa agora como ficamos mais próximos, mas creio que ele encontrou o meu blog e começou a ler algumas postagens e chamou a atenção dele os contos que o Luca Fiuza escreveu sobre o universo antropozoomorfo que criei e pediu permissão para reproduzir em seu site, o Barata Verso. Eu disse que me sentiria honrado e ele assim o fez, sempre divulgando como podia.

Ele era sócio do poeta e escritor lusitano Luis Roxo num projeto - se podemos chamar assim - intitulado POETURA, onde uma revista eletrônica do mesmo nome trazia diversos escritores e poetas contemporâneos com artigos do Barata. Em uma das edições o Zé Gatão foi capa e nela fui entrevistado. 

 


Vale ressaltar que neste período (2024) ele trocava muitas ideias com o Luca. Até que no fim do ano, num estalo, ele resolveu publicar de forma impressa todos os contos do Zé Gatão num belo livro intitulado ZÉGATÃOVERSO, primeiro em preto e branco e depois uma versão colorida. Só mesmo uma pessoa como o Barata com coragem para cometer tal loucura, por na praça um tomo de um personagem incompreendido em sua mídia de origem, os quadrinhos. Não foi surpresa constatar que o ZéGatãoVerso vendeu pouquíssimas unidades. 

 

A ideia da Lanchonete do Barata veio através de uma conversa que tivemos certa noite (sim, conversávamos por horas, tarde da noite, sobre os mais diversos assuntos) e eu disse a ele que me frustrei ao ver uma entrevista que o Luis Roxo fez com ele numa live que durou menos de duas horas pois percebi que ele tinha muito mais a dizer. Somado a isso comentamos sobre os tempos em que uma galera ia ao cinema e depois se sentava numa hamburgueria e batia papo sobre o filme e aleatoriedades. E se fizéssemos algumas lives com convidados ligados às mais diversas atividades artísticas para falar sobre suas produções, mercados e tutti quanti? Ele curtiu a ideia e batizou a coisa de Lanchonete do Barata e assim foi, entre muitos erros e alguns acertos a nossa trajetória nessa coisa de youtuber, minha conexão com a internet sempre era precária e eu vivia caindo, as vezes, por problemas pessoais, eu não podia participar e embora ninguém soubesse, isso muito o irritava. Acho que 80% dos convidados foram artistas ligados aos quadrinhos, pois eram os meus chegados, pessoas que eu admiro, ele queria chamar outros artífices mas só um ou outro do conhecimento dele aceitou participar. Mas foi um período bom, que trazia a ele uma certa ansiedade e muita alegria por mais um convidado que se tornava amigo.

Eu não sei dizer bem como era a vida do Barata antes da nossa parceria, mas me parecia que ele estava um pouco isolado, ele reclamava muito que ninguém mais lia poesia nos dias de hoje, o site que ele se orgulhava tanto, rico em artigos, matérias de convidados, gente muito capacitada e talentosa, não era visitado, não era comentado; eu compartilhava essa frustração pois também lutava duramente para ter meu trabalho reconhecido e eu sentia que estava limpando carvão. 

O que sei dizer, e sinto orgulho disso, é que eu o introduzi no mundo das artes gráficas e isso o encheu de ânimo, ele ficou conhecido pela galera dos quadrinhos, frequentou lives, participou de grupos ligados ao tema, fez amigos, alguns ele fazia questão de dizer que eram os "novos melhores companheiros de infância", virou editor e roteirista de HQs, era reconhecido nos podcasts pelo seu jeitão de poeta/roqueiro desbocado e ele curtia muito isso, tanto que não levava em conta os muitos percauços que este meio tem para oferecer. Por fim ele acabou virando personagem de aventuras quadrinísticas nos contos do Baratex criado pelo talentoso escritor Vinícius Pereira.  

Se tive participação nessa nova vida do Barata eu ganhei muito com isso, por conta da sua intrepidez eu pude realizar alguns sonhos como ver chegando ao público, ainda que muito limitado, o já citado ZéGatãoVerso, o CRAZY SKETCHBOOK, meu livro de rascunhos e o DESENHANDO PALAVRAS, meu tomo de contos numa fabulosa edição impressa que não  despertou a atenção de ninguém (acho que não sou tão bom quanto ele pensava que eu era). E o livros do Zé Gatão lançados pela Devir ganharam novas edições com novos  formatos para um novo público. Projeto que, embora cansativo, o encheu de orgulho, cada mimo criado para os apoiadores foi feito por ele com muito carinho. Essas coisas todas não tenho palavras para expressar minha gratidão.

Não pude conhecer (ainda) em toda extensão a obra do meu amigo, os únicos livros dele que possuo são NEVERMORE: UM GATO CHAMADO NUNCAMAIS e O POETA XINGOU MINHA MÃE DE PUTA E EU LHE DEI UMA PORRADA. São fortes, incomodos, não próprios para qualquer público. É a mais pura arte, pois te tira da zona de conforto e te põe a refletir.

Todo ser é único, eu sei, mas alguns, são mais únicos que outros, o Barata é destes que surgem um a cada século, não só pelo seu visual ou jeito de ser, mas pelo inegável talento para a escrita.

Haviam muitos projetos meus com o selo que ele criou chamado LÂMINA 44, para 2026: VENUS E VENENUS, republicação de ZÉ GATÃO-CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO e PHOBOS E DEIMOS, além de um livro contendo minhas crônicas e reminiscências e se desse tempo, este ano ainda, o álbum de HQs curtas e inéditas do Zé Gatão. Não teremos essas obras, infelizmente.

Sim, eu já tinha dois convidados para a Lanchonetes já neste mês de janeiro.

Zé Gatão-Siroco no limbo, talvez abortado, não sei ainda.

Falei com ele no dia 30 de dezembro, exortei para cuidar da saúde, ele disse que estava bem, desejei um feliz ano novo, ele retribuiu. 

O ano de 2026 para mim começou com fúria demoníaca, talvez o pior dos meus 63 anos, um acontecimento nefando durante a queima de fogos na praia...... noite sem dormir, passei o dia primeiro como um zumbi e só visitei as redes sociais no começo da madrugada do dia dois quando vi mais de 60 comentários no grupo do Zé Gatão que ele criou no WhatSapp, pensei: o que é isso tudo? Entrei e veio a pancada.

Fica aqui, na alma, como um selo, essa imensa saudade.

OBRIGADO POR TUDO, BARATA! 

Arte através de IA criada pelo cartunista Du Oliveira

 

 

  

2 comentários:

  1. Belas palavras, meu caro! O Barata será sempre lembrado por nós. Foi um grande amigo, infelizmente por pouco tempo, mas somos e seremos sempre BARATAVERSO.

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    1. Obrigado, meu amigo, palavras insuficientes para exaltar o talento e imenso coração do Barata, mas é o que posso nestes dias estranhos.

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