A Busca – Capítulo 7:
Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham
palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a
morceguinha e o felino deram de cara com uma paisagem
inusitada! Diferente de tudo o que haviam visto, até então! Ambos
se descobriram em um espaço natural desconhecido que se
descortinava diante de seus olhos! Um estranho e inesperado
“céu,”apresentava uma tonalidade rosácea de grande intensidade!
Daí, podia se depreender que estava aparentemente,
amanhecendo. Abaixo deles, pois saíram sobre um penhasco,
estendia-se uma espécie de selva luxuriante, com uma vegetação
de sabor milenar! Assim, pensou o felino casmurro! A morceguinha,
espantadíssima perguntou, com sua vozinha guinchante:
– Gatão! Onde estamos?!
– Bella...! Acredite, ou não, naniquinha...! Estamos em um mundo
interior! Um mundo dentro do mundo!
– Como explica...?
– Não explico! Aí, está o que você vê! Venha!
– Vai aparecer sol?!
– Não sei e nem quero saber, pequenina! Vamos é descer daqui!
Vou pegar a corda!
O felino cinzento e a morceguinha, mexeram-se! O felino
amarrou a longa e robusta corda em uma protuberância na borda
do penhasco e se pôs a descer pelo paredão imponente!
À medida que desciam, uma neblina abaixo deles começava a
envolvê-los! A pequena quiróptera permaneceu prudentemente
agarrada ao Gatão e o acinzentado teve a impressão de sentir o
bater do coraçãozinho acelerado e escutar o leve ofegar,
denotando a tensão que a dominava! Ele estava tranquilo!
Acostumado com as adversidades, estava pronto para agir rápido e
decisivamente, conforme o caso. Por causa da névoa espessa, a
descida foi lenta! Para não cansar os músculos dos braços, o
Gatão realizava pequenas paradas, apoiando-se no paredão
vertical! Uma hora depois, chegaram à base do penhasco! Uma
claridade difusa e penumbrosa, convenceu os dois viajantes a
ficarem, onde estavam! Possivelmente, esta cerração não duraria
para sempre! Dito e feito! Em meia hora de espera, felino e
quiróptera viram a intensa névoa se dissipar, ainda que lentamente!
No estranho céu azulado erguia-se um sol esbranquiçado! Seu
calor era cálido! Agradável! O ar, de uma pureza nunca vista,
enchia os pulmões dos dois recém-chegados! O Gatão propôs que
tomassem o desjejum e descansassem mais umas duas horas!
Enquanto comiam, o felino inspecionava os arredores com seu
olhar agudo, farejava o ar e escutava! Nada viu, além da selva de
aparência pré-histórica! Sentiu o cheiro acre das grandes matas e
também odores esquisitos de coisas vivas que deviam pulular, em
meio à vegetação! Ambiente de luz e sombra! Ouviu urros, fortes
bramidos, silvos e o piar seco de possíveis aves que pelo som,
deviam ser de tamanho descomunal! Tudo isto, o Grande Gato
processou em sua mente! Bella tremeu! Acalmou, ao olhar o felino!
Recuperados, após o descanso, o Gatão e Bella seguiram
adiante, até alcançar a fímbria da selva, cuja aparência sombria e
ameaçadora assustaria, os menos corajosos! O felino tristonho
examinou atentamente, a vegetação! Era formada em sua maioria
por samambaias gigantescas e árvores de aparência exótica! O
felino casmurro lembrou-se de ter visto figuras de plantas como
aquelas, em livros escolares! Naqueles compêndios, ele aprendeu,
ainda filhote que há milhões de anos, a realidade do planeta era
outra! Houve uma variedade imensa de vida vegetal e animal, hoje
extinta! A morceguinha, que não tinha estudo nenhum, ficou sem
entender nada! Fez um montão de perguntas e o Gatão,
pacientemente explicou, dando uma rápida aula de História à
bichinha! Ela perguntou se, naquela selva poderiam encontrar
alguns dos monstros daquele terrificante passado! O Gatão não
mentiu, afirmando que era muito provável, pelos sons que antes
tinham ouvido! No entanto, o felino cinzento, procurou tranquilizar a
morceguinha, baixando no chão, a sacola de armas e de lá
retirando uma metralhadora. Colocou-a a tiracolo e resmungou:
– Se aparecer algum, nada como uma boa rajada de balas para
tirar a vontade do puto de nos lanchar! - Embora não fosse uma
piada, Bella riu!
A dupla penetrou na selva! Era uma das mais densas e
escuras jamais vistas! Ainda assim, o Gatão como que guiado por
um radar interno, parecia saber exatamente para onde ir!
Bella estava mais despreocupada! Confiava cegamente em seu
amigo!
Caminharam por várias horas! Incrivelmente, diferentemente
de qualquer selva normal, aquela não era quente! Pelo contrário! O
frescor ambiente era agradabilíssimo! A apurada audição de
ambos, o guiou até um regato murmurejante, de águas cristalinas.
Mataram a sede! O sabor daquela água era suave e muito
revigorante! O felino gris, resolveu acampar ali, pois por entre a
folhagem das árvores, pode ver uma nesga do céu e sua
tonalidade opalina, evidenciava que estava entardecendo. Como
ele não sabia quando a noite cairia naquele mundo singular, achou
melhor continuarem a jornada, assim que amanhecesse! Montou a
tenda rapidamente. Acendeu uma fogueira diante da habitação
provisória e preparou um dos alimentos enlatados! O felino achou
por bem, não comerem nenhum fruto, tubérculo, ou raiz, porventura
encontrados! Poderiam ser venenosos! Ainda havia rações de
sobrevivência aos montes! Não passariam fome! Quando
acabaram de comer, uma pesada escuridão a tudo cobriu! No
firmamento negro, não se viam estrelas e muito menos uma lua!
Era meio angustiante, mas o Gatão procurou não pensar muito
nisto! A morceguinha gostou! Parecia estar em sua antiga caverna
com seus outros irmãos! Era uma percepção ilusória, mas
reconfortante para ela! Isto, até que os ruídos daquela noite
invulgar encheram os ouvidos da criaturinha, bem como os do
Grande Gato!
– G-Gatão!
– Nada tema, pequena! Pelo som, me parece que não há grandes
animais aqui por perto! Vamos dormir que é o melhor a fazer!
De fato, os dois passaram uma noite tranquila. Embora como
sempre, o felino tenha tido seu sono superficial, ele conseguia
relaxar fisicamente, o suficiente para se recuperar de qualquer
cansaço! Concomitantemente, a sua mente, não se desligava
totalmente do que acontecia à sua volta! Uma pequena e essencial
parte dela ficava em alerta! Era uma característica instintiva e típica
dos sobreviventes, em especial, dos gatos, civilizados, ou
selvagens! Isto, economizava também a energia cerebral! Mas, ao
mesmo tempo, sem deixar o indivíduo entregar-se ao acaso por
estar adormecido!
A refeição matinal foi consumida com grande apetite pela
dupla! A morceguinha comeu uma quantidade de alimento,
equivalente ao seu tamanho minúsculo e o Gatão devorou sua
parte, sem nenhuma cerimônia! Assim, providos satisfatoriamente,
de nutrientes, levantaram acampamento! Como no dia interior,
apesar do sol forte, lá nas alturas, a mata estava fresca e uma
aragem suave soprava mansamente entre as folhagens e as
árvores!
– Hora de nos mexermos, tampinha! Quero percorrer uns bons
quilômetros, antes da hora do almoço!
– Você sabe mesmo para onde está indo, Gatão?
– Sei! Só não me pergunte, como eu sei!
Sem mais conversa, o acampamento foi desfeito e os dois
partiram, mergulhando nas sombras da mata densa daquela
estranha selva!
Além do exotismo daquele ambiente selvático, com sua
vegetação, cheiros e sons, muito diferentes do que Zé Gatão
conhecia por experiência própria (vide Inferno Verde), o senso de
perigo do felino gris, pulsava fortemente em sua mente, tornando-o
mais alerta do que nunca! E apesar dele e da morceguinha
espevitada se sentirem, como de fato o eram, alienígenas, vindos
de outra realidade, o Grande Gato, ao mesmo tempo, sabia
exatamente qual rota seguir! Enquanto caminhavam, o Gatão
começou a raciocinar! A explicação de alguns de seus atos até
então, não foi difícil, após fazer um exercício de memória! Ele
nunca estivera de fato sozinho, em sua busca! A gigantesca
Serpente deusa que conhecera no reino das onças (Inferno
Verde), o conduzira espiritualmente ao mundo dentro do mundo!
Por isto, e só por isto, o felino conseguiu achar a entrada deste
universo chegando vivo, após tantas canseiras e perigos!
Umas duas horas de caminhada, levaram felino e quiróptera a
uma vasta clareira, de onde puderam observar uma passagem
natural entre a vegetação. Iam se dirigir para lá, quando um forte
ruído de galhos se quebrando e folhagem sendo afastada
violentamente, se fez ouvir! O Gatão largou rápido, no chão a
sacola de armas! Felizmente estava com o alfanje na cinta!
– Atenção! Voe para aquela árvore, Bella! Rápido! - Nem bem a
morceguinha fez o que lha via sido ordenado, da mata em torno
surgiram três seres grotescos! Répteis empenados, a pele, de cor
meio arroxeada, misturada com tons esverdeados! As penas
tinham um tom avermelhado e eram azuladas nas pontas! Aqueles
seres eram mais altos que o Gatão, mas não muito! Seus corpos
tinham formato esguio, mas bem musculosos! Braços curtos com
dois dedos em garra, nas mãos relativamente pequenas! Pescoços
fortes, fauces escancaradas num sorriso distorcido e cheias de
dentes pontiagudos, de tonalidade amarelada! Olhos reptilianos
brilhantes, cheios de fome e agressividade extrema! Pernas
musculares com um esporão agudo e ameaçador na parte traseira,
destas! Caudas longas, muito vibrantes, revelando as intenções
assassinas que os animavam! O Gatão segurou com a mão direita
o cabo do alfanje e com a esquerda, a bainha, no sentido de sacá-
lo, rapidamente! Ficou parado à espera! A adrenalina correndo forte
por sua corrente sanguínea! Respiração rápida! Musculatura
tensionada como uma enorme mola retraída! Dois répteis foram se
aproximando lentamente! Salivando intensamente, ante a
perspectiva de uma bela refeição que seria proporcionada pela
carne daquele estranho tipo de felino, nunca antes visto naquelas
paragens! O terceiro ficou a uma curta distância, crente que seus
dois parceiros dariam conta de matar aquele gato esquisito! Apesar
de preparado para o ataque iminente, o felino gris não contava de
forma alguma, com a velocidade daquelas duas terríveis feras
pecilotérmicas! A que se achava vindo pela direita, realizou um
inesperado e velocíssimo movimento, se colocando atrás do Gatão,
enquanto a outra, mais à esquerda avançava como um trem
expresso, diretamente para o Grande Gato! Felizmente, o Gatão
não era um amador e muito menos, lento! Suas poderosas pernas
o elevaram do chão! Dando um salto acrobático ele foi pousar,
agora atrás de seu agressor! O outro, não se sabe como,
conseguiu frear sua investida e ficou diante do meio lince, um tanto
atarantado, por alguns imensamente, preciosos segundos! Tempo
que o cinzento aproveitou para agir! Arrancou o alfanje da bainha e
deu um golpe brutal, de cima para baixo nas costas do réptil que
tencionava atacá-lo pelas costas! A coisa deu um urro medonho,
tomado por uma dor escruciante, enquanto sua carne era rasgada
e o sangue arroxeado aflorava em esguichos! Sem coordenação
motora alguma, aquele lagarto saído dos antigos livros de
Paleontologia, tombou para frente estrebuchando! Antes que ele
tocasse no solo da selva, teve a cabeça decepada por um golpe
certeiro da lâmina, já ensanguentada! Ainda restavam alguns
segundos entre o início da ação mortal há pouco executada e a
momentânea paralisia do companheiro daquele que morrera! Pior
para ele! Viu-se com a barriga rasgada e teve o sofrimento atroz de
ver suas entranhas caindo como roupa suja de um saco de
aniagem rasgado! Jogou-se para frente, bramindo, a cabeça
jogada para o alto, em direção a um céu que já não via! A vida
escoando de seu corpo, velozmente! Ainda assim, as mãozinhas se
contorcendo, desordenadas na tentativa reflexa de aparar suas
vísceras soltas! Precipitou-se no chão como um naco de bosta
fresca! Curiosamente, o fedor que exalou de seu interior, tornava a
bosta, algo de delicado perfume!
O terceiro réptil não podia acreditar no que seus olhos
presenciaram! Os outros dois, na verdade, queridos irmãos,
nascidos todos os três do mesmo ovo tinham sido facilmente
assassinados por aquele musculoso e estranho gato! Então, o
lagartão voltou-se para o assassino de sua família, o felino cinza!
Como era possível? - pensava, ele! - Isto não podia ser! Não podia!
Parecia um tresloucado pesadelo! Se o pobre reptiliano tivesse
braços compridos, levaria as mãos à cabeça! Como não os tinha,
limitou-se a jogar a cabeçorra para trás, exprimindo uma espécie
de lamentoso vagido por aqueles que jamais voltariam a correr e a
caçar junto dele! Estava só! Vingança! Ah! Um ódio alucinado
fervilhava em seus olhos baços! Apesar desta fortíssima emoção, o
réptil foi chegando cautelosamente! Ciente agora de que o
acinzentado não era para ser desprezado, tais e quais, as
inúmeras vítimas que o trio havia matado e devorado, até aquele
instante fatídico! O Gatão estava calmo! Sabe-se que a raiva é má
conselheira! Nos faz agir sem refletir e numa luta, saber o que está
fazendo e onde atacar fulminantemente era a diferença entre a
vitória e a derrota! Esta última seguida quase sempre, pela
chegada da sorridente, dona Morte!
Mais uma vez, a velocidade de movimentos daquele tipo de
réptil, lhe trouxe uma vantagem uma inicial! A cauda traiçoeira do
pecilotermo, enlaçou a canela direita do Gatão, com uma incrível
força! Um puxão brutal, fez com que o felino gris perdesse o
equilíbrio, caindo estrepitosamente, de costas no solo! O alfanje
escapando, repentinamente de sua mão! Mesmo assim, o Grande
Gato teve, através de uma imediata reação reflexa de defesa,
como segurar o corpo da criatura que avançava sobre si! Logo, o
felino sentiu a nojenta podridão quente daquela respiração
apressada, sendo despejada sobre seu rosto e captada por suas
narinas sensíveis, revoltando de pronto, o seu estômago! Reprimiu
uma forte ânsia de vômito e concentrou toda a sua força, para
afastar aqueles dentes mortais de sua jugular, pulsante! Sem muito
esforço, o Gatão ergueu um pouco, seu adversário, evitando com
isto que os pequenos braços da criatura se aproximassem de seu
peito, ou ventre, os quais podiam ser facilmente rasgados pelas
duras e fulminantes unhas, localizadas nas pontas daqueles dois
dedos bizarros! Então, em um movimento súbito, o acinzentado,
deu uma espécie de balão, sem soltar seu oponente! Esta ação foi
decisiva para que as posições fossem invertidas! O Gatão, agora
estava por cima e o lagarto por baixo! Sem tardança, a mão
esquerda do felino agarrou a garganta do réptil, pressionando-a
com a força de um torno! Os olhos da criatura se arregalaram,
enquanto a passagem de ar para seus pulmões era terrível e
brutalizadamente cortada! Como um raio, o Gatão meteu os dois
dedos da mão direita nos olhos do infeliz, furando a ambos! O urro
agônico de dor atroou, enquanto o sangue arroxeado esguichava
forte, da área atingida! A luz daqueles olhos foi extinta! Estava
irremediavelmente, cego! E na escuridão da cegueira, o lagarto
sentiu a traqueia sendo esmagada por uma força inimaginável,
advinda de músculos de aço! O corpo da coisa, escabujava!
Inutilmente! O coração batia, descompassado! Os pulmões
opressos e ardentes, ansiavam pelo oxigênio benfazejo que jamais
viria! Um som rascante partia da garganta destroçada, som meio
líquido, devido ao sangue grosso, profuso, de forte sabor metálico
que subia, escapando pela boca escancarada e pelas narinas, a
fremir loucamente! O corpanzil sacudiu-se, em estertores! Os
pequenos bracinhos se esticaram, desesperadamente! Porém, as
garras aduncas dos dedos duplos atingiram o vazio, pois as partes
mais vulneráveis do felino casmurro, se achavam além de seu
alcance! As pernas do ser reptiliano, paralisadas pelo peso do
Gatão, emitiam espasmos musculares intermitentes, como últimos
sinais de vida, daquele ente que penosamente, ali, morria!
O Grande Gato, não soltou seu adversário, até sentir o corpo
dele dar um último estremecimento e ficar mole, dando a certeza
de que aquela vida havia findado! Definitivamente! Esgotado, o
felino gris ergueu-se! A morceguinha, aliviada voou depressa para
pousar toda faceira, no ombro do amigo e protetor! Ela não pode
deixar de perguntar, como ele aprendera a lutar daquele jeito! O
Gatão respondeu simplesmente: - Foi a Vida...!
A morceguinha continuou a falar, levada por sua imensa e sempre
aguçada curiosidade: - Pra continuar a viver, você teve que lutar e
matar muito, né? - O Gatão, costumeiramente, calado e reservado,
se achava mais loquaz do que o usual! Respondeu a pergunta da
amiguinha, sem se sentir invadido, ou incomodado!
– Pequenina! O mundo não é bom, não é justo! Na verdade é
violento e brutal! Ainda mais agora, depois do grande holocausto
que praticamente, a tudo consumiu! Eu nunca gostei e não gosto
de matar! Mas é aquela máxima! Ou eu, ou eles! Simples assim!
Esteja certa de que aquele réptil me mataria se eu deixasse e você
seria a sobremesa! - A baixinha se tremeu toda, só de pensar!
Após uma hora de descanso, levantaram acampamento,
caminhando para aquela passagem que os dois tinham visto, antes
do confronto com os répteis. Ao atravessar a folhagem densa,
saíram em um grande vale, iluminado pelo insólito sol que brilhava
imperturbável, no firmamento azulado! Era um lugar maravilhoso,
embora incrivelmente pré-histórico! Adiante, em uma elevação
próxima! Um ser chamou a atenção da nossa dupla! Era um felino
de proporções gigantescas! Cabeça grande sobre um pescoço
maciço! Rabo curto! Fronte alongada! Orelhas pontudas, em
constante movimento! Caninos pontiagudos e longos, como sabres
amarelados! Corpo poderosíssimo! Musculatura extremamente
compacta e não trabalhada, mas rija! Pesada! Uma pele dourada a
cobrir aquele corpo nu, forjado pelos ditames de uma sobrevivência
selvagem! Voltou a cabeçorra e seus olhos de um verde intenso
faiscaram intensamente. Mexeu-se! Ia atacar!
– Gatão! Ele está vindo pra cá!
– Deixe que venha, baixinha! Se afaste logo!
A morceguinha voou, ocultando-se em um galho alto, de uma
árvore próxima! Ficou espiando entre as folhas, assustada! Nunca
vira uma criatura como aquela em sua vida! Será que seu amigo
daria conta de derrotá-la? Ela olhou o Gatão. Ele estava tranquilo!
Parecia não ter medo do titã que se aproximava rapidamente! Ela
viu com horror, o felino gris desafivelar a cinta que prendia a bainha
do alfanje, jogando no chão a formidável lâmina! Estaria ele louco,
querendo enfrentar aquele felino monstruoso de mãos limpas? O
ser pré-histórico parou diante do Gatão! Seu rosnado profundo
aumentava o grau de ameaça! A mente do Grande Gato trabalhou
velozmente, neste ínterim! A luta com aquela verdadeira usina de
força motriz, não podia ser convencional! O boxe seria
praticamente inútil! Ineficaz! Então o felino casmurro lembrou-se de
seu querido amigo Ching (Vide O Toque da Morte) e de seus
preciosos ensinamentos a respeito da luta marcial de seu povo, e
também de outros Mestres que o Gatão encontrou ao longo da
vida! Mestres habilidosos que o ajudaram a aprimorar os
rudimentos do que aprendera com o amigo, há muito falecido! O
Dentes de Sabre avançou furiosamente, tentando agarrar o Gatão
e esmagá-lo em um abraço fatal! O felino gris, evitou o ataque com
facilidade e como retribuição à falha do oponente, aplicou um
potente chute lateral bem ajustado naquela enorme cabeça! A
pancada brutal, derrubou o felino ressurgido de tempos imemoriais,
ao solo! Tonto, sem entender bem o que ocorrera, ele se reergueu,
furibundo!
Urrando de ódio, ele atacou o Gatão dando patadas, tentando sem
sucesso feri-lo com suas garras! Dava para ver que era pura
selvageria, sem nenhuma técnica de combate! Novamente o felino
cinzento afastou seu adversário, através de uma sequência de
chutes certeiros naquela carantonha disforme, a qual já manava
sangue quente e vermelho! O Dentes de Sabre recuou, balouçando
como um grande navio, em meio à violenta tempestade! O Gatão
avançou, aplicando golpes diretos, em áreas sensíveis! Primeiro
uma cutilada no braço direito, paralisou o movimento daquele
membro! Em seguida, uma pancada com o indicador em riste, no
meio daquele amplo peitoral, cortou a respiração do contendor e
por fim, uma fortíssima joelhada nas partes baixas, fez o coitado ir
ao chão, a se retorcer como um verme, em agonia! O Gatão parou
de atacar. Pegou o alfanje, prendendo-o de novo, à cintura. Pegou
a mochila e as outras coisas. Chamou Bella. Quando começaram a
se afastar, o Dentes de Sabre se levantou, em um esforço titânico!
Adrenalina ao máximo! Mesmo com a dor atroz que o consumia,
ele saltou! Goela escancarada! Pronto para enterrar seus imensos
dentes na carne daquele que há pouco, o humilhara! O felino
tristonho, sempre alerta, percebeu o movimento por detrás dele!
Abaixou-se e o Dente de Sabres voou por cima dele! Porém, com a
agilidade comum a todos os felídeos, ele girou no ar sobre si
mesmo e conseguiu, apesar do tamanho e peso cair de frente para
seu adversário, meio desajeitado, é verdade! Ainda assim, uma
ameaça concreta à vida do outro! No entanto, concomitantemente
à descida de seu atacante, o Gatão atacou, antes que o indivíduo
recuperasse totalmente, o prumo! Puxou-o para si pelo braço
esquerdo e começou a aplicar, sem parar, uma saraivada de socos
pesadíssimos na já castigada face da fera! Era como uma canção
abrutalhada e regida pela batuta de um maestro impiedoso! A
melodia era o som dos murros, tendo como acréscimo o ruído do
sangue esguichando e os bufos fortes do grandalhão, quando cada
porrada atingia o alvo! O cérebro dentro do crânio do felídeo
gigante revolvia-se como bananas sendo batidas com leite, num
liquidificador a jato! O senso de espaço e de equilíbrio do
desafortunado, não mais existiam! Incansavelmente, o felino
tristonho batia duro! Como um ferreiro a malhar metal em sua
bigorna! A vista do Dentes de sabre estava turva! O ar faltava-lhe!
Nunca nenhum ser dali, a não ser alguns répteis colossais que
erravam naquela selva luxuriante, foram adversários para ele!
Nenhum! Então para encerrar o agradável bate papo, o Gatão deu
um socão de cima para baixo, o qual atingiu o Sabre bem na ponta
do queixo! Este voou para trás, tal qual a pluma que realmente não
era! Só parou quando sua cabeça veio a colidir em uma enorme
rocha, de modo tão animalesco que seu forte pescoço não teve
outra saída, senão quebrar-se! Estava morto! E como uma papa
mole, lá ficou estirado, o sangue a escorrer fartamente daquilo que
um dia foi o crânio de um ser vivente! O Gatão não se aproximou e
nem deixou Bella chegar perto do cadáver! Ela voou para o seu
porto seguro (o ombro do Gatão) e perguntou, em um misto de
curiosidade e espanto: - O que foi? Você ficou triste! - O felino
replicou: - Aquele lá, estava apenas defendendo seu território! Não
passava de uma fera instintiva! Eu não queria matá-lo! Que bosta!
Deveria tê-lo deixado inconsciente, em primeiro lugar! Vamos
daqui, baixinha! Temos que seguir em frente! - Os dois partiram!
Ambos em silêncio, pois não havia mais nada a dizer!
Assim, ao atravessar a folhagem daquela passagem que
intentavam alcançar, em primeiro lugar, a morceguinha e o Gatão
adentraram em um vale cercado de montanhas imponentes, a se
erguer acima da selva verdejante! Mais à frente, uma cascata
cristalina se derramava sobre uma pequena lagoa de águas
azuladas! Atraídos pela água, a dupla se dirigiu para aquele ponto e
resolveu parar ali. Ambos beberam com prazer! E satisfatoriamente,
impressionaram-se com o teor refrescante e na mesma medida,
revigorante impresso naquele líquido precioso! O felino pegou o
grande cantil e substituiu a água nele contida por aquela maravilha!
O Gatão resolveu que deveriam permanecer ali, por algumas horas,
antes de prosseguir a caminhada. Além da abundância de água,
havia umas frutas amareladas do tamanho de mangas em algumas
árvores, às margens da lagoa. Tinham de fato, o tamanho de
mangas, mas eram roxas e de cascas segmentadas. Seu sabor
delicado foi algo nunca antes experimentado! Felino e morceguinha
fartaram-se! E o melhor de tudo! Os dois se sentiram nutridos, de
forma superior ao das rações enlatadas que tinham consumido, até
então! O dia passou sem novidades! À tarde puderam ver voando
no céu, estranhos répteis alados de vários tamanhos!
O dia seguinte surgiu envolto em uma densa névoa! O ar
estava frio, mas não de maneira excessiva! O Gatão acendeu uma
pequena fogueira e experimentou assar uma daquelas frutas, já
mencionadas! Esta ficou mais macia e seu sabor mudou
surpreendentemente se tornando melhor, ainda! Comeram com
apetite redobrado! Trinta minutos, após o término da refeição, um
sopro de brisa matutina trouxe consigo, um odor pungente, muito
próximo de onde estavam acampados! Ao mesmo tempo, o solo
começou a tremer, enquanto um som intenso se fazia ouvir, como
uma espécie de terremoto!
– Gatão...!
– Não grite, pequena! Parece que um ser gigantesco está correndo
para cá! E ele vem muito rápido!
– Vamos fugir!
– Não dá tempo! Está para chegar! Faça silêncio! Vamos tentar usar
a neblina a nosso favor! Venha! Vamos nos esconder atrás daquela
grande rocha, ali! - O felino gris apagou a fogueira e se escondeu
com Bella atrás da rocha, coberta de limo esverdeado, bem na beira
da lagoa! O tremor e o atroar da terra aumentavam
exponencialmente! Foi então que os dois viram aquela figura
dantesca rompendo a neblina! Diante do esconderijo da espantada
dupla surgiu uma criatura inimaginável! Quatro metros de altura!
Plumas coloridas na face grotesca e no alto da imensa cabeçorra!
Também havia plumas espalhadas de maneira irregular por seu
musculoso corpanzil, nu! Onde não havia penas era possível ver
seu couro áspero de uma tonalidade acinzentada! Boca enorme,
adornada de uma fileira de dentes agudos e serrilhados! Olhos
grandes de esclerótica amarelada e de íris negras, cintilantes! As
narinas imensas a aspirar sofregamente, o ar nebuloso! Parou,
procurando! O Gatão, ao perceber que ele e a morceguinha já
tinham sido localizados saiu de trás da pedra! A baixinha, a tremer
agarrada ao pescoço do felino! Ao ver suas ansiadas presas, o
gigante deu um grito de satisfação! Parecia o berro assustador e
superdimensionado de uma gralha descomunal! Uma luta corporal
seria a morte certa! O Gatão bem o sabia! Por longos minutos, os
três ficaram paralisados! O único sinal de vida, daquela besta-fera
era o fremir de sua grossa e monstruosa cauda! Em contrapartida, o
felídeo cinza, se achava muscularmente tensionado ao limite e a
morceguinha, lânguida! Quase desfalecendo de terror!
Naquele breve tempo de imobilidade, a mente do Gatão
formulou instantaneamente, várias hipóteses para lidar com aquela
situação alucinante, e só uma solução havia! Empunhou
firmemente, a metralhadora! Sem pensar duas vezes, ele disparou
uma rajada de balas diretamente na cabeçona do monstrengo!
Tendo o crânio varado de chumbo grosso, o ser tombou como uma
árvore atingida por um raio, sem um pio, sequer! Onde era a
cabeça, apenas um destroço sanguinolento! Esparramou-se
brutalmente no solo, aos estertores, para em seguida, se aquietar
para sempre! O Gatão baixou a arma, fumegante! Olhou para
morceguinha derreada em seu ombro! Estava desmaiada! O felino
gris, tomou-a gentilmente em suas mãos e levou-a à beira da lagoa,
despertando-a com borrifos de água fresca! Depois, partiram!
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)
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ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)
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Ando bastante alheio ao que acontece ao meu derredor. Sem paciência para notícias do mundo, política do dia e tudo o mais, até mesmo assist...
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Vocês já perceberam que há muito tempo eu não exibo uma arte particular neste blog? Tenho trabalhado muito e não tenho tirado momentos pa...