A Busca – Capítulo 6:
O Gatão e Bella voando à frente, seguiram por uma trilha
ascendente! Seu objetivo era alcançar a base de um vulcão extinto,
conhecido pelo nome de Vômito Ardente! Era distante! Gastariam
três horas para chegar até o sopé do velho cuspidor de lava,
adormecido! Na hora do almoço, pararam para se alimentar. Foi a
deixa para a morceguinha perguntar, ao amigo:
– Gatão...! Você acha que os três leões vão mudar?
– Não!
– Por que?
– Eles não sabem fazer outra coisa!
– Eles, então, vão continuar matando?
– Não tenha dúvida!
– Mesmo depois de tudo o que você disse a eles?
– Sim!
– E você acha que as hordas do deserto poderão vir aqui nestas
alturas?
– Não!
– E por que? - O felino olhou firmemente para a pequena
quiróptera, acrescentando:
– As hordas não conhecem este lugar! São restritas ao deserto!
Tanto elas, quanto os animais sobreviventes espalhados por lá!
– Eu também nunca soube desta Guerra, da qual você tanto fala!
– Esta Guerra destruiu a civilização dos mamíferos e todos os
seres de água doce e salgada, mas não o mundo inteiro e a
Natureza! Mas virá uma hecatombe que vai eliminar toda a Vida e
nem a Natureza resistirá!
– Que horror!
– Agora termine de comer, sua faladeira! Quero chegar na base do
vulcão antes do cair da noite! - Bella fez uma careta e botou a
língua para o felino! No fundo, ele achou até graça daquela
rebeldia pueril, mas não demonstrou! Arrumou tudo, seguindo
resolutamente, em frente!
– Hey, cara feia! Espere por mim! - e ela saiu voando depressa,
atrás do Grande Gato!
Bem no finzinho da tarde, o Gatão, com Bella empoleirada no
ombro direito do felino gris chegaram aos pés do imponente vulcão!
Acamparam portanto, sob sua enorme sombra, admirando com
bastante espanto, a morceguinha, as paredes de basalto
enegrecidas pelo magma, escorrido por elas, a milênios, ao ser
expelido pela cratera gigantesca, lá no alto! - Uaau! Deve ter sido
uma erupção terrível! Ainda bem que eu não existia! – pensou a
pequenina, se tremendo toda!
Fogueira acesa, refeição tomada, a insólita dupla resolveu
dormir logo, pois o dia seguinte prometia ser dureza!
Logo que o sol surgiu, um frugal desjejum foi consumido
rapidamente! - sopa leve de legumes enlatada – Meia hora, após
levantar acampamento, começou a dura subida até o topo do
vulcão morto! Reafirmo, dura para o felino! Não para a
morceguinha! Esta, ou ia voando, ou se encarapitava nos ombros
do felino! Como o Gatão era excepcionalmente forte e
absurdamente resistente, subiu até o cimo, sem esmorecer! No
entanto, ele levou mais de uma hora para atingir seu objetivo!
Era o meio da manhã, quando a cratera, tal qual uma bocarra
escancarada e faminta, se mostrou diante do acinzentado e sua
diminuta amiga! Em determinado ponto, nas bordas daquela
esquisita circunferência, foi achado um local seguro de parada! Ali,
se alimentaram de uma ração bem nutritiva para deixá-los
revigorados, mas não enfastiados, no sentido de atrapalhar a
próxima etapa: descer cratera adentro! Os leões haviam fornecido
um rolo de corda tão ou mais resistente que o cânhamo! A ponta da
corda foi amarrado firmemente em uma grande e protuberante
rocha! Logo, o Gatão foi descendo pelo gigantesco buraco,
apoiando-se de quando em vez, nas grossas paredes de basalto
negro que o compunham! O felino usava um capacete metalizado,
parte de seu equipamento militar, firme em sua cabeça! A lanterna
embutida lançava um forte facho luminoso que devassava as
trevas reinantes que se adensavam, à medida que se deslocavam
para baixo! A morceguinha Bella, não se atrevia a voar! Preferia
ficar colada ao felino cinzento, olhando assustada, aquelas
profundas e tentando inutilmente divisar o fundo, ainda invisível aos
olhos dos dois!
Quarenta minutos, após o início da descida, o solo pedregoso
foi alcançado! Era um espaço amplo que se medido, englobaria
diversos campos de futebol! Comparação engraçada, pois, do nada
e de maneira fugaz, o felino lembrou-se que fora um tipo de perna
de pau, no futebol, quando criança! Se atrapalhava nas pernas!
Perdia os gols e como recompensa era vítima das chacotas e
cascudos de seus “amiguinhos” de pelada! O Gatão pode perceber
melhor a enormidade do espaço, onde estavam, porquê acendeu
uma tocha de luz fria radiante e graças a ela encontrou uma
concavidade, para onde seguiu, sem tardança, penetrando nela! A
morceguinha perguntou, curiosa, como ele sabia que caminho
seguir! Enfático, o felino respondeu que simplesmente o sabia!
Os dois percorreram por uma longa passagem que ia aos
poucos, se afunilando! De repente, o felino gris, perdeu o pé e foi
deslizando cada vez mais rápido, sem ter como e onde se apoiar!
– Gatão! - gritou Bella, aterrorizada!
– Voe, pequena! Eu...! - não conseguiu falar mais nada! A
velocidade da queda aumentou drasticamente! Era como se o
felídeo estivesse em um escorrega monstruoso! Acima dele, havia
felizmente espaço para Bella o acompanhar voando! Ela
concentrou todas as suas forças no bater das asas, pois não queria
perder seu amigo naquela espécie de funil gigantesco! Felizmente,
as paredes eram lisas, parecendo por analogia, a garganta de uma
fera de proporções titânicas!! Por um tempo impossível de precisar,
ambos continuaram caindo vertiginosamente, em linha reta! De
repente, a morceguinha, gritou: - Gatão! E se no fim desta descida
encontrarmos uma parede?! - O felino, respondeu no mesmo tom,
de modo que a pequenina o ouvisse: - Vamos nos arrebentar
contra rocha sólida! Você, talvez não! - a calma na voz do amigo, a
impressionou! Ela se desesperou! - M-mas você...! Você pode
morrer! - não houve resposta! Se fosse assim, nada poderia ser
feito! Lágrimas começaram a escapar dos olhos da diminuta
quiróptera! Se o Gatão morresse ali, o que seria dela? Por certo,
não teria forças para voar de volta para a entrada do funil rochoso!
E mesmo que a tivesse, não poderia abandonar o felino! Vivo, ou
morto! Morreria lentamente, de fome e sede, naquele estranho
túmulo, vendo o amigo apodrecer naquela espécie de túmulo,
antes do seu próprio fim! Melhor seria, morrer junto com ele!
Tendo decidido, silenciosamente o seu destino, a minúscula
Bella tentou agarrar-se ao corpo do Gatão, o conseguindo a custo!
Daí, percebeu, assustada que o espaço abaixo ia aumentando
gradativamente, à medida que avançavam! Em um átimo, passaram
velozes por uma abertura, caindo no vazio! A morceguinha guinchou,
ainda agarrada num dos musculosos ombros do Gatão! Seu guincho
fino foi abafado, quando mergulharam estrepitosamente, em água
gélida! A reação do felino foi imediata, agarrou a bichinha, enquanto
afundavam nas águas! Emergiu violentamente e nadou até a
margem de um pequeno lago subterrâneo, onde haviam se
precipitado! Saiu da água e depositou a estonteada e tiritante
morceguinha no chão! Cuidadosamente, o felino massageou o
corpinho dela, com as pontas dos dedos enormes, mas
incrivelmente delicados! A criaturinha recuperou-se aos poucos!
Olhou para o grande Gato, agradecida e perguntou em uma vozinha
fraca: - C-como você...sabia que não tinha parede...? Ahhh! Deixa
quieto! Você simplesmente sabia! E ainda me disse aquilo! Seu
danado...! E pare com esse seu sorrisinho sem mostrar os dentes!
Não achei graça, nenhuma! - O felino gris apenas disse para a
morceguinha descansar! Ele faria o mesmo! Felizmente todo o seu
equipamento estava com ele e a salvo, já que o material que
compunha a mochila e a sacola, onde se achavam acondicionados
mantimentos e armas eram impermeáveis! Também a lanterna do
capacete não foi danificada! A tocha de luz fria se perdera! Bem,
havia outras, na sacola! No entanto, o felino notou que o ambiente
não era trevoso! Uma luminosidade esverdeada fosforescente
enchia o lugar! Durante o descanso gato e quiróptera ingeriram mais
uma lata de alimento energético e nutriente! A morceguinha acabou
dormindo, mas o Gatão apenas deitou-se naquele arremedo de
praia, apenas para relaxar! Não tinha sono! Enquanto a pequenina
ressonava, o felino casmurro, olhou em torno. Das águas calmas e
paradas do lago saía um brilho verde, com certeza devido à
fosforescência que devia emanar do fundo e também notadamente,
das paredes daquela enorme caverna, onde se encontravam! O
local era naturalmente, profundamente silencioso, mas tal fato não
incomodava o cinzento! Não sabia se havia alguma forma de vida
ali! Ao menos até agora não tinha visto nenhum animal, planta, ou
fungo! Ainda assim, como era de seu hábito, ele não ficaria
desatento! Nunca fora descuidado, a não ser quando criança e no
início da juventude! Crianças e jovens podem ser descuidados!
Machos adultos, jamais!
Horas mais tarde, o Gatão chamou a morceguinha! Sonolenta,
ela custou a despertar! O felino tristonho recomendou que Bella
ficasse pousada em seu ombro, por precaução! Seguiram em
direção ao paredão na extremidade da caverna, em relação ao lago
de águas tranquilas e quietas, aparentemente, sem vida! Ao
chegarem aquele ponto determinado, entraram por uma larga
passagem, pela qual se deslocaram com cuidado! Não
encontraram nenhum obstáculo, ou qualquer ente, em seu
caminho! Foram avançando. As paredes em torno e no teto eram
fosforescentes, mas a tonalidade variava de um vermelho vivo a
um azul safira! A luminosidade, embora suave era suficiente para
que tanto o felino, quanto a morceguinha prescindissem do uso da
lanterna do capacete do Gatão. Gatos e morcegos, por serem mais
noturnos possuíam uma visão apurada, sem a necessidade de
muita luz ambiente. O tempo parecia elástico e aquele caminho
dava a impressão de não ter fim! A morceguinha, impaciente queria
que eles saíssem logo dali, mas o Gatão, em sua natural paciência
felídea, disse para a naniquinha se acalmar, pois o nervosismo
dela, não encurtaria a jornada! Emburradinha, ele se calou, mas
logo seu bom humor estava de volta, bem como a sua loquacidade,
usual! No que parecia uma eternidade, a improvável dupla seguiu
adiante! Até que uma lufada de ar fresco, deu ao Gatão e a sua
companheira de viagem a percepção de que estavam chegando ao
fim daquele caminho insólito!
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 6 (Um conto escrito por Luca Fiuza)
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