Minha vida tem se resumido à prancheta e ocasionais idas ao mercado, padaria e consultórios médicos para checar como andam uns probleminhas de saúde que não dão sinais de melhora. Sabem, depois dos 40 a máquina começa ranger aqui e acolá, e já estou com 50, embora insista em dizer que minha cabeça ainda é a de um moleque. Isto torna o fardo do envelhecimento mais leve? Apesar de tudo ainda consigo malhar pesado, mas as vezes me pergunto o que quero provar com isto. A maioria vai dizer que o que importa é o espírito jovem e todas essas coisas bonitas que na hora da verdade não querem dizer porra nenhuma. Bom, acho que estou mais azedo hoje que de costume, cansado talvez, querendo alguma novidade boa, uma viajem de alguns meses pra algum lugar bonito, fresco, com alguma grana pra gastar. Rapaz, seria ótimo! Mas qual o quê, devo amargar o meu exílio até o dia que o Todo Poderoso quiser, eu de mim mesmo não posso fazer mais do que já tenho feito.
Ouço alguns colegas de profissão dizer de boca cheia que estão fartos e vão parar de prestar serviços pra sanguessugas, estão de saco cheio de trabalhar pra encher os bolsos de editores milionários, chefões que choram as pitangas quando o artista pede um aumento no valor das ilustrações, mas estão sempre trocando de carro, comprando impressoras importadas, viajando pra praia com a família, expandindo seus negócios. Se estes desenhadores tem outras opções, não me mostraram o caminho das pedras, se eles tem alternativas pra fugir dos exploradores, sorte deles pois eu não tenho.
Outro dia estava trocando ideias pelo Facebook com o Sebastião Seabra e ele falava do mercado editorial brasileiro com muita revolta. Ele está certo, mas o que eu posso fazer? Até hoje não consegui cobrar um valor de mercado pelos meus desenhos, sempre sou obrigado a fechar acordo com um preço um terço do que na realidade valem. Se não faço isso não consigo trabalho e não boto comida na mesa. Os dias não andam bons, embora o governo queira passar outra impressão.
Well, o teor da postagem mudou sem que eu percebesse, era pra eu falar sobre a velhice, de bandas boas que não existem mais como o Fleetwood Mac, em como a vocalista Stevie Nicks continua bonita apesar dos anos pesarem sobre seus ombros. Bem, está dito, mas não da forma que eu queria. Quem sabe um outro dia.
Pra fechar este texto melancólico, um desalentado rabisco com caneta bic.
So long.
quarta-feira, 13 de março de 2013
segunda-feira, 11 de março de 2013
IRACEMA ( 01 )
Foi legal ilustrar "Iracema, A Virgem Dos Lábios De Mel", apesar de ser um livro insuportavelmente chato (opinião minha, claro). Pude sair do lugar comum, que é desenhar "pessoas conversando"- na maioria das vezes - para delinear índios, ainda que estes também passem boa parte do tempo confabulando, mas são silvícolas, então já mudo de rotina.
Pra ser sincero não fiz pesquisa, quis ilustrar este tomo baseado em minhas memórias, pois no passado busquei muitas referências para pintar alguns dos nossos selvagens.
Vale lembrar aqui que as imagens que vocês estão vendo são minhas artes originais antes d´eu fazer "reparos" a pedido da editora. Tive que tampar alguns peitos e bundas para não escandalizar a garotada.
Outras cenas chegarão oportunamente.
sexta-feira, 8 de março de 2013
PEDAÇOS.
Procurava desesperadamente umas artes antigas para pra uma republicação quando dentro de um envelope achei estes desenhos totalmente esquecidos. Logo me veio à memória a época que os fiz, foi a mais de 10 anos, morávamos neste período na SQS 411, em Brasília. Um ano antes eu havia realizado algumas histórias eróticas para algumas editoras de São Paulo, pagavam um preço bem razoável e muito me ajudaram naquela fase pois foi quando eu e Verônica passamos a morar juntos. Sempre foi a intenção do Franco de Rosa juntar todo aquele material e mais algumas hqs que permaneceram inéditas num único e bem acabado álbum.
Em 2003 isto quase virou realidade com ele a frente da finada Opera Graphica, me pediram alguns desenhos para ilustrar as matérias que seriam incluídas no compêndio. Então fiz estes estudos de cangaceiros e criaturas do período pleistoceno, nada muito elaborado, lápis sobre um cartão que eu tinha em casa. Existem outros mas não tenho ideia de onde possam estar. Não sei se enviei com outras artes para São Paulo, se ficaram comigo....o livro nunca saiu, é claro, mas o Franco insiste que ainda vai coloca-lo na praça.
Bem , independente do que aconteça, fica aqui o registro de mais um bom tempo que voou.
quarta-feira, 6 de março de 2013
RABISCOS A NANQUIM.
É comum sobrar um pouco de nanquim no recipiente toda vez que vou executar uma arte a bico de pena. Para não desperdiça-lo, pego um pincel e começo a rabiscar sem pensar muito. O que vemos hoje é resultado de uma destas brincadeiras. Tenho uma porção desses desenhos aqui, inclusive uma historinha de luta (tipo MMA) de Zé Gatão todo de pincel grosso e quase sem esboço, preciso concluí-la, inclusive. Aos poucos estas "artes" vão dando as caras por aqui.
Espero que vocês esteja tendo uma boa semana, porque a minha, pra variar, está complicada.
segunda-feira, 4 de março de 2013
EXPOSIÇÃO SANSÃO TAMBÉM FAZ 50 ANOS.
A alguns dias atrás um amigo meu, que trabalha como roteirista para diversas publicações do Maurício de Souza, me ligou para me falar dos 50 anos que a Mônica completa em 2013, as comemorações diversas que se darão e por aí vai. Os tais festejos começam com uma exposição focada no Sansão, o infeliz coelho da Mônica. Evento idealizado por um velho conhecido, o cartunista JAL, que segundo soube, atua também como relações públicas do Maurício.
Meu amigo sugeria que eu participasse, que seria legal e assim por diante. Relutei por três motivos: 1 - tenho pouco tempo atualmente. 2 - ando com a mente embotada, afinal, uma exposição assim, com tantos cartunistas, requer muita criatividade e humor. 3 - estou afastado deste universo do Maurício de Souza a muito tempo.
Mas agradeci ao meu camarada a lembrança, sugestões e incentivo. Fiquei pensando no que poderia fazer.
Gosto as vezes de brincar com as tintas fazendo uma releitura de obras clássicas. O próprio Maurício de Souza já expôs uma série de pinturas legais emulando artistas do passado com seus personagens.
A primeira coisa que me veio à mente foi criar um Baco bem ao estilo Caravaggio (o atual pintor barroco da moda) só substituindo o personagem pelo coelho azul. Mas aí teria dois problemas: seria esta uma imagem tão conhecida a ponto de ser reconhecida pelo público médio? A figura do Baco seria adequada? Matutava estas questões quando bati um papo com meu irmão naquela mesma tarde, ele sugeriu que ao invés de Caravaggio eu poderia fazer o Van Gogh. Ótima ideia, só não sabia se poderia imitar o estilo delirante do pintor holandês. Gosto de desafios. Como o prazo para envio era curto, parei tudo o que estava fazendo e trabalhei na manhã seguinte cometendo a ilustração que vocês conferem hoje.
Ela foi bem recebida. Tanto que foi usada para ilustrar a postagem do blog Gibizada como mostra este link:
http://oglobo.globo.com/blogs/Gibizada/posts/2013/03/02/parabens-monica-488317.asp#.UTJ1Oks82bw.twitter
Meu amigo sugeria que eu participasse, que seria legal e assim por diante. Relutei por três motivos: 1 - tenho pouco tempo atualmente. 2 - ando com a mente embotada, afinal, uma exposição assim, com tantos cartunistas, requer muita criatividade e humor. 3 - estou afastado deste universo do Maurício de Souza a muito tempo.
Mas agradeci ao meu camarada a lembrança, sugestões e incentivo. Fiquei pensando no que poderia fazer.
Gosto as vezes de brincar com as tintas fazendo uma releitura de obras clássicas. O próprio Maurício de Souza já expôs uma série de pinturas legais emulando artistas do passado com seus personagens.
A primeira coisa que me veio à mente foi criar um Baco bem ao estilo Caravaggio (o atual pintor barroco da moda) só substituindo o personagem pelo coelho azul. Mas aí teria dois problemas: seria esta uma imagem tão conhecida a ponto de ser reconhecida pelo público médio? A figura do Baco seria adequada? Matutava estas questões quando bati um papo com meu irmão naquela mesma tarde, ele sugeriu que ao invés de Caravaggio eu poderia fazer o Van Gogh. Ótima ideia, só não sabia se poderia imitar o estilo delirante do pintor holandês. Gosto de desafios. Como o prazo para envio era curto, parei tudo o que estava fazendo e trabalhei na manhã seguinte cometendo a ilustração que vocês conferem hoje.
Ela foi bem recebida. Tanto que foi usada para ilustrar a postagem do blog Gibizada como mostra este link:
http://oglobo.globo.com/blogs/Gibizada/posts/2013/03/02/parabens-monica-488317.asp#.UTJ1Oks82bw.twitter
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
MEMENTO.
As primeiras lembranças que tenho da vida são essas: morava com meus avós maternos numa casinha em Cumbica (SP). Meu avô, o velho Schloesser, trabalhava no ramo de construção, viera da França logo depois da primeira guerra mundial, onde, segundo minha mãe, ele serviu nas colunas de seu país. Era de Strasburgo, cidade situada ao leste da França, na margem esquerda do Reno. Por causa da guerra não pode se formar em engenharia, abandonou seu país natal e veio para o Brasil, interior de São Paulo onde conheceu dona Silvéria, minha avó. Fixado na região de Ourinhos, ele construiu casas, escolas, projetou prédios, alambiques e era exímio enxadrista. É tudo que sei dele. Tinha bom porte , austero. As lembranças que tenho é de um senhor de cabelos branquíssimos, que sempre saía com uma boina azul típica usada na França antiga, terno bem cortado, sapatos pretos e uma bengala. Apesar de idade avançada e já doente, ele construía sozinho uma casa bem defronte onde morávamos, no mesmo terreno. Havia uma estrada de chão batido em frente a nossa morada, seguido de um barranco alto e mata espessa de árvores centenárias.
Minha avó era uma senhora miúda, magrinha, de cabelos acinzentados, sempre curtos, analfabeta de pai e mãe, cega de um olho devido a um infeliz acidente. Minha mãe, uma jovem mignon, de cabelos longos negros lustrosos, e meu pai um cara robusto, de compleição taurina, olhos verdes e cabelos escuros penteados com gomalina, sempre calado e ensimesmado. Na verdade ele me dava medo. Estava sempre ausente, trabalhando em algum lugar. Minha mãe também aparecia pouco, trabalhava como governanta na casa de uma italiana chamada dona Franca, cuidava em especial dos filhos desta senhora, e embora eu não os tenha conhecido, até hoje lembro seus nomes de tanto que minha mãe comentava, Flávia, Paulo, Humberto e Gigliola (esta morreu aos 15 anos de idade num acidente de carro em 1969).
Tínhamos um cachorro chamado Rintintin, de pelagem avermelhada, parecia uma raposa. Morreu por aqueles tempos, provavelmente envenenado, pois segundo minha mãe, as aves de rapina nem se aproximaram do local onde jazia o cadáver. Eu me pergunto hoje, porque meu avô não o enterrou?
Minhas recordações deste período são difusas, afinal, que idade eu devia ter? Três? Quatro anos? O único brinquedo que me lembro de possuir era uma bonequinha de um palmo de cumprimento com uma diminuta chupeta em sua boca e usava uma fraldinha de plástico quadriculado azul, o mesmo material que se usava antigamente para encapar cadernos. Sei disso pois uma noite antes de minha mãe partir para a cidade, eu tinha que fazer xixi para de me botarem na cama e eu disse que a boneca deveria fazer o mesmo, simulei com a boca o som da urina saindo do brinquedo.
Minha madre foi cantora muitos anos, se apresentava em programas de rádio, e cantava com sua voz doce de soprano músicas para me fazer dormir, uma delas, "Luciana" interpretada pela Evinha, uma artista popular da época, tinha o poder de me fazer chorar, dada a sua comovente melodia..
Eu tinha uma sensação muito forte de tristeza e desamparo, embora a dona Silvéria fosse onipresente naqueles dias.
Eu vivia me acidentando. Certa vez fui até onde meu avô estava trabalhando e um tijolo caiu na minha cabeça. Ganhei um galo e chorei muito, mas não tanto quando coloquei pimenta nos olhos. Foi assim: minha avó punha às vezes, semente de pimenta para secar ao sol em cima de um tambor de metal bem que era bem mais alto que eu, não se sabe como (eu devia ser bastante inquieto) peguei aquilo e devo ter posto na boca e esfregado as mãos nos olhos. Gritei pra valer, minha avó veio me acudir e meu avô correu como uma bala e passou uma violenta reprimenda na pobre senhora com seu sotaque estrangeiro pensando que ela tinha batido em mim. Na verdade ela só ousava me bater ele saía e eu não parava quieto.
Lembro vagamente da Cidinha e do Paulo, meus padrinhos. Havia uma mulher com três filhos e um aleijão na perna esquerda chamada Júlia, era casada com um italiano. Aquela mulher metia medo em todos, não era boa pessoa, como tenho lembranças nefandas dela e de seus filhos, é melhor guarda-las para mim.
Minha mãe conta uma série de fatos mais ou menos pitorescos dos quais não tenho a menor recordação, coisas engraçadas que os petizes dizem ou fazem, que põem os adultos a rir. Parece que eu não gostava de andar, então quando ela e minha avó tinham que sair e eu era pesado para ser levado no colo, me levavam dentro de uma sacola destas de feira.
Quando ganhei um sapato novo, eu mostrava pras pessoas um pé e depois dizia solenemente: "olha o outro", como se não fosse uma coisa óbvia. Ao comentar sobre uma fogueira de São João, falava assim: "fizeram uma FODERONA!" Me queimei com ferro de passar roupa e eu tinha medo de chegar perto dele, mesmo quando não estava em uso. Talvez por isto hoje eu tenha tanto receio de materiais que emanam muito calor.
Foi deste período o caso em que eu e o filho da madrinha brincávamos com uma cobra coral verdadeira, já relatada numa postagem antiga.
Estas coisas todas eu poderia procurar confirmação com minha mãe, mas preferi relata-las como estão em minha memória.
Continuamos em outra ocasião.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
NU A CARVÃO.
Esta arte foi feita para o álbum Desenhando Anatomia - Figura Feminina, então não é novidade para os que possuem o compêndio, mas para os que não conhecem, fica aqui o registro.
Um bom fim de semana a todos.
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