sábado, 8 de outubro de 2016
LIRA DOS VINTE ANOS ( SEIS ).
Tem mais de uma semana que não faço a barba, provavelmente mais de uma semana, acho que dez dias, ela começa a pinicar. Não tem nada demais fazer a barba, levo de cinco a dez minutos na operação, mas dá uma preguiça danada fazer isto, é como cortar as unhas dos pés, acho um saco! Mas tem que ser feito, não posso parecer um homem das cavernas, a sociedade exige que eu esteja apresentável, embora eu não saiba exatamente porque.
O pior de fazer a barba é ter que olhar meu rosto diretamente no espelho, não gosto da minha cara, se eu encontrasse comigo mesmo na rua eu me daria um murro bem na boca, e diria: "Para de ser cuzão cara! Para com essas lamúrias, as pessoas vão pensar que cê tá muito mal e isto não é verdade! Para com essa auto piedade, não cola mais! E depois, quem liga? Todos tem problemas, uns tem câncer, outros tem loucos, alcoólatras, drogados na família! Outros ainda tem familiares na prisão! A vida é uma merda! Que mais podemos fazer senão aspirar o aroma bem fundo pra ver se o organismo se acostuma com o cheiro? Você deveria ter morrido a muitos anos atrás mas Deus te salvou, seja mais grato a Ele!"
Amados e amadas, eu juro que faria isso. Até porque sei que sou covarde demais para revidar minha própria porrada e acomodado o suficiente pra não ir à delegacia de polícia dar queixa de mim mesmo.
Mas me olhar no espelho continua sendo difícil.
Diante de mim tenho uma folha de papel com cores aquareladas preliminares sobre traços indeléveis a lápis. Devo esperar o papel estar mais seco para colocar outras camadas de cores, enquanto isto divido um pouco dos meus pensamentos com vocês, meus amigos e minhas amigas, afinal, isto não é uma espécie de diário?
No aparelho de som o Mark Knopfler canta sobre as Luzes de Taormina, há algo de divino na guitarra deste homem, algo que me toca ao ponto de chamar lágrimas aos meus olhos, ah, se um dia um desenho meu pudesse tocar alguém assim!
Apalpo a folha, já secou, isto significa que tenho que voltar ao trabalho. Na verdade eu queria me deitar numa rede e ler um bom livro, tenho montes aqui pacientemente me esperando, e também uns gibis legais que tenho que dar uma relida.
E queria comer uma bela fatia de bolo de chocolate com sorvete de creme, embora esteja gordo o suficiente.
Espero que gostem desta arte feita com pincel grosso para o poema do Álvares de Azevedo.
sábado, 1 de outubro de 2016
SELVAGEM É O VENTO.
Dia claro, lá fora.
O calor é forte mas em meu peito sopra uma brisa de inverno.
No papel, a tinta diluída em água forma imagens oriundas da minha alma.
A melancolia me abraça.
Vocês a dividem comigo?
Vamos ouvir Bowie juntos?
Obrigado.
domingo, 25 de setembro de 2016
SKETCHES DE ZÉ GATÃO ( 02 )
Mais uma semana passou e eu quase não notei. O calor tão comum aqui começa aparecer devagar. Ele vem como uma puta sensual lhe massageando os ombros, é agradável a princípio, depois os dedos começam a lhe apertar as carnes com violência cada vez maior até finalizar lhe esmurando com fúria. Não há nada que se possa fazer, a única coisa provável seria ligar o ar condicionado (se eu tivesse um) e depois pagar uma bela quantia pela energia gasta.
Não há notícias da biografia do Edgar Allan Poe, nem do NCT, muito menos de novas aventuras do Zé Gatão que intentava fazer. Não consigo mais tempo de pegar nisto de vez em quando. Tudo parece ficar no silêncio.
Dei um tempo do Facebook, me fazia perder tempo, as pessoas lá ficam discutindo que Conan é o melhor, Arnold ou Momoa? Qual Surfista Prateado é mais legal? Aquele desenhado pelo Jack Kirby ou pelo Moebius?
(Nunca entrei nessas discussões, mas cá pra nós, Arnold é muito melhor e Kirby é isuperável!)
Entro lá diariamente para ver se há mensagens in box e contatos de trabalho, também adiciono os novos amigos que diariamente fazem solicitações. Eu não tenho por hábito solicitar amizades, só o fiz umas poucas vezes, três, eu acho, uma para o Tanino Liberatore, outra para o Marcatti e recentemente para o Juarez Machado.
O número de pessoas que me pedem adição é a prova de que meu nome está ficando mais conhecido? Deve ser. Estaria meu trabalho mais consumido? Não tenho certeza.
Na prática minha vida não tem mudado nada.
Estes últimos dias foram muito estranhos, me vi abraçado por uma tristeza muito grande, a velha sensação de impotência frente às coisas que estão além das minhas forças. Nestas horas de profunda depressão eu gosto de me recolher e buscar forças em Jesus.
Na sexta-feira última fui a noitinha visitar uma amigo, dono de uma academia aqui perto de casa. Ele também enfrenta sérios problemas financeiros. Saí de lá e quis ficar um pouco a sós com Deus, segui até a praia para conseguir meu intento. Eram umas sete horas da noite, me sentei na mureta baixa de um prédio à beira mar. A luz de um poste me iluminava, à minha frente, em total escuridão, estava o mar bravio, eu só ouvia seus ruídos raivosos. Fechei meus olhos sentindo o vento e iniciei minha oração. Notei uma presença próxima, era um cão vira latas enorme, preto; ele se aproximou, me farejou e ficou em pé ali parado. Tornei a cerrar meus olhos e reiniciei o meu colóquio com o Todo Poderoso, então passos atrás de mim me fizeram voltar a cabeça. Um travesti negro, cheio daquelas trancinhas na cabeça, feio de doer, magro de dar dó, jogou um saco de lixo num conteiner que havia perto. Me olhou e disse com voz efeminada:
- Fica esperto, amigo, tem muito assalto por aqui a esta hora!
Eu sabia disso, mas mesmo assim fiz cara de surpresa pra não parecer que eu brincava com a minha vida:
- Puxa, é mesmo?
- É, tem três caras andando por aí; esta semana um casal foi assaltado!
- Bem, muito obrigado pelo aviso! Dizendo isso eu me levantei e tomei a direção de casa, eu não iria poder falar com Deus sentindo na pele a alegria da sua criação. Teria que fazê-lo mesmo no escuro do meu quarto.
Foi legal da parte do rapaz ter me alertado. A gente nunca sabe, mas pode ter sido um recado de Deus pra mim.
Gosto destes sketches direto na caneta que faço para os fãs do Felino Cinzento, na verdade queria até fazer mais, mas minhas vendas sempre foram baixas.
No momento trabalho em mais um livro infantil, já era pra estar terminando mas estou cada dia mais lento, está saindo bem caprichado, no entanto a demora atrasa o pagamento e....bem, vocês já estão cansados de saber o resto.
Esta semana assisti uns filmes baixados da internet no final da noite. Alice Através do Espelho. Achei tão chato que parei na metade.
O outro foi a Lenda de Tarzan. Sempre fui fã do personagem desde que era moleque. Um filme muito ruim!
E por fim o Blood Father, filme novo com o Mel Gibson, este sim, bem legal!
Peguei umas Marvel Max para reler um arco de histórias do Justiceiro. Pô, muito bacana!
Assim vamos vivendo nossos dias.
domingo, 18 de setembro de 2016
LIRA DOS VINTE ANOS ( CINCO ).
Eita que quase não consigo postar hoje!
A semana, pra variar, passou como uma bala! O que eu teria pra contar em poucas linhas que não seja mais do mesmo? Minhas lesões (em especial uma antiga no tendão do tríceps) voltaram a incomodar. Estou dando sequencia ao novo livro infantil. Assisti nos finais da noite a Stranger Things com a Verônica e Fellipe, meu cunhado caçula. Gostei mas esperava mais.
Ontem, a caminho da minha sogra, eu e a Vera fomos atacados por um enxame de abelhas. Bem, enxame é exagero, foram algumas abelhas, na verdade, várias, mas só eu fui picado. No pescoço. Só não fui mais maltratado pelos insetos produtores de mel porque minha Wonder Woman munida de uma sacola de mercado com uns panos de prato dentro bateu nas minhas costas e em volta de mim, matando vários desses bichos numa cena no mínimo patética pra quem observava de longe. De onde elas vieram ainda é um mistério para nós. Penso que é o preço a ser pago por morar em local tão arborizado.
Bem, apesar desses pequenos percalços foi uma boa semana que o Senhor nos deu, espero que a próxima também seja.
Mais uma arte para o poema e até nova postagem.
domingo, 4 de setembro de 2016
LIRA DOS VINTE ANOS ( QUATRO ).
Domingo de sol, sem calor excessivo, manhã tranquila (bem, quase, tem alguns carros de som trombeteando em jingles insuportáveis as qualidades dos candidatos à prefeitura e à câmara municipal), política é um negócio que tem me causado azia. Temos excelentes políticos, com certeza, mas a torpeza reinante é de embrulhar o estômago. Graças a Deus que parte do tumor foi removido definitivamente esta semana, no entanto o perigo de metástase ainda é grande. Mas não vim aqui para falar disso, aliás, não vim aqui para falar sobre nada em especial, só para reafirmar que a estrada que trilho continua esburacada e eu ainda estou descalço, mas a persistência foi algo que o Todo Poderoso plantou em mim e os frutos, ainda que aparentemente magros, continuam brotando.
O desenho de hoje é mais uma cena do poema do Álvares de Azevedo. São artes criadas faz tempo e infelizmente não lembro qual momento esta em especial retrata. Curioso que ainda falta a editora publicar mais da metade dos livros que ilustrei para eles. Bueno, tem tempo para cada coisa debaixo do céu.
Aos que curtem meus desenhos, saibam que vem novidade boa por aí.
Beijos a todos e até a próxima semana, querendo Deus.
domingo, 28 de agosto de 2016
LIRA DOS VINTE ANOS ( TRÊS )
Esta não foi uma semana fácil, um trabalho dado como certo foi suspenso e outro foi cancelado, um terceiro que deveria ter vindo para minhas mãos no princípio deste mês, até agora nada. Normalmente uso este intervalo para dar prosseguimento às artes particulares, mas aquilo que poderíamos chamar de inspiração, não veio. Um desânimo tormentoso tomou conta do meu corpo de tal forma que achei melhor me dar um tempo, sendo assim a produção foi fraca, quase nada fiz, nem mesmo pus em dia minhas leituras. O que não quer dizer que fiquei parado olhando para o teto, pelo contrário, se não estou sentado na prancheta parece que os servicinhos domésticos me perseguem, me sinto culpado se deixo a Verônica labutando sozinha.
Na terça feira que passou fui realizar um exame pelo SUS depois de um século desde a marcação, a confirmação do que eu já desconfiava me deixou um tanto mais sorumbático do que costumo ser, acho que isto contribuiu para me tornar improdutivo esses dias (até meus sketchbooks estão pegando poeira). Bem, depois de tudo o que fiz até agora acho que posso parar um pouco de pular nos abismos, acho que sim.
Minhas contas me cobram um posição rígida, espartana, exigem que eu continue vendendo minha alma, mas elas vão estar sempre aí, eu não estarei.
Aguardo agora, também pelo mesmo Serviço Único de Saúde a abertura de agenda para marcar o médico que deverá analisar o tal problema.
Mas hoje mesmo já retorno às atividades, retomo um álbum de anatomia que estava parado, e também uns desenhos a lápis esperando tinta. Tudo isto sem a febricidade dos dias normais, mas vou pegando de novo o ritmo.
Para vocês, mais uma arte para o poema do Álvares de Azevedo.
domingo, 21 de agosto de 2016
IMAGENS DE UM NOVO INFANTIL.
Finalmente eu terminei as 32 pranchas aquareladas do último livro infantil. Trata-se de uma historinha norueguesa, bem divertida e com um toque sombrio.
Na última sexta fui levar as artes na editora e sabia que seria a odisseia de sempre, são dois ônibus e um metrô com baldeação. Saí, como de costume, mais tarde do que pretendia. Desta vez não levei meus caderninhos que tenho a pachorra de chamar de sketchbooks (eles estão meio abandonados, coitados!), mas um outro que vou rascunhando o roteiro de uma nova HQ do Zé Gatão (espero um dia poder fazer). Confesso que não estava com muito ânimo para escrever, alguma coisa tem sugado meu cérebro, minha energia, não tenho dormido bem, aquele sono pesado onde você acorda se espreguiçando revigorado parece ter ficado muitos anos lá atrás, na verdade, se paro pra pensar, acho que nunca existiram, mas a roda não pode parar de girar, eu tenho que seguir em frente, não há opção.
Sentado num banco de pedra eu espero o trem, impossível se concentrar em algo, há muita movimentação ali, a pobreza gosta de rebuliço. O que mais gosto de observar nas pessoas é o modo como elas se vestem; aqui no nordeste uma coisa que admiro nos passantes, principalmente nas mulheres, é que elas não estão nem aí para a estética, a maioria é gorda se achando gostosa, é um desfile de shortinhos e tatoos feitas em alguma cabeça de porco acompanhados de celulites sem fim. Seria engraçado se não fosse trágico. A maioria é nova com crianças de colo.
O trem chega e já vem lotado. Eu vou pra editora levar uns desenhos e assinar contratos mas me pergunto: toda aquela gente segue pra onde? Passeio? Trabalho? Indo visitar alguém? Sabe-se lá. Dentro do veículo ininterruptamente um sem número de sobreviventes de guerra bradam seus pregões: "Água é só 1 real! É pra acabar!" "Olha o sorvete! Tem de coco, creme e milho verde! Quem vai querer? Quem vai querer?" Teve um que dizia que o bombom que ele vendia era feito com leite condensado de verdade, se você comprasse e não tivesse leite condensado ele devolvia o dinheiro. E tem os que oferecem chocolates, salgadinhos, fones de ouvido e carregadores de celular. Até que de repente um cara magro de bermuda, chinelo e camiseta, com uma voz impossível de passar despercebida começou um discurso se desculpando por atrapalhar a viagem mas que apelava para nossa sensibilidade em ajudar o seu amigo, sr fulano, que ali estava (mudo, diga-se de passagem), que precisava comprar remédios para se tratar por que sofreu um acidente e a empresa na qual trabalhava o demitiu não dando a ele nenhum recurso. O sr. fulano era um senhor magro de bigode, óculos, usava chapéu e exibia uma bolsinha que parecia conter urina e havia uma sonda que saía debaixo de sua camisa azul. Não gosto de julgar, mas estaria mesmo aquele homem enfermo ou eram dois malandros querendo ganhar uma grana apelando à solidariedade dos passageiros do metrô? Uma bolsa com um líquido amarelado não quer dizer muita coisa. Lembrei-me de um cara a muitos anos atrás que enfaixava um bife de fígado na perna e ia pedir esmolas no Viaduto Santa Efigênia.
A editora fica num bairro bastante carente por seu aspecto, mas o interior da mesma é algo digno de elogios. Tudo muito limpo e organizado (acho que já comentei isto aqui). Sou tratado por todos com muito respeito e carinho, como se eu fosse alguém de alguma importância. Almocei por lá, comida boa, ótima sobremesa. Conversei um pouco, deixei as artes e peguei um novo trabalho. Os jovens ilustradores elogiam meu estilo, eles vão à CCXP este ano, fui perguntado se eu não fora convidado. Claro que não! Eles não sabem a verdade, que eu não passo de um cagalhão seco rolando ladeira abaixo, como aqueles caras do trem. Me despedi e voltei à vida real, o sol forte, os poucos trocados para a viagem de volta.
Ao chegar na plataforma para pegar o trem de retorno um grupo de caras que vendem seus produtos berravam uns com os outros, olhos em fúria, bocas abertas soltando imprecações, veias jugulares ao ponto de rebentar, perdigotos para todos os lados e punhos cerrados, os enormes sacos com salgadinhos e pipocas doces largados no chão. Saí de perto indo para o final da estação, nem soube qual era o motivo da pendenga. Dentro do trem o burburinho continuava incessante, mal dava pra ouvir a agradável voz feminina que anunciava a estação e recomendava não se apoiar nas portas. Até que apareceu um cara moreno alto com um menino de uns 8 anos com um braço numa tipoia. Chamou-nos a todos meus irmãos como se estivéssemos numa igreja e falou que estava desempregado e precisava comprar antibióticos para seu filho que tinha fraturado a clavícula. Apelou para nossa emotividade falando de Jesus e desejou-nos a todos muitas bençãos mesmo que não pudéssemos ajudar. Num momento ele foi ajeitar a sandália do guri e o trem deu uma freada, ele caiu de bunda no chão e o menino desandou a rir, ele deu uma bronca no pequeno exigindo respeito e saiu de nossas vistas.
Desci na estação de Prazeres, o nome é bonito, o lugar é uma bosta. Peguei o ônibus de volta para casa. Cheguei cansado. Não sou mais aquele atleta, queria dormir por uma semana mas ainda tinha que descer com o lixo.
De novo sentado à prancheta. Um novo livro infantil na minha frente, breve deve chegar um novo roteiro de quadrinho (algo a ver com a história de Feira de Santana, na Bahia), este vou trabalhar revesando com dois quadrinistas que são bons de verdade, tipo, cada um desenha um capítulo, vamos ver como isto vai caminhar.
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