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domingo, 2 de setembro de 2018

A TRISTE FIGURA DE UM PROFESSOR.


Era um amigo do meu pai. Nós o conhecíamos como Professor Sérgio. Se não estou enganado ele era italiano de nascimento, um homem culto e educado, artista dos bons. Este senhor é uma das minhas lembranças taciturnas de uma São Paulo fria e cinzenta. Todos os anos que passei lá na primeira metade da década de 70 hoje me são rememoradas com cores opacas, mortiças, como uma gravura que estivesse muito tempo exposta ao sol e seus pigmentos tivessem desbotados.
Hoje não lembro mais a origem do Professor Sérgio, como ou de onde meu pai o conheceu. Era da idade, talvez, de uns 40 anos, sua tez era morena, bem bronzeada, cabelos lisos e escuros com grandes entradas, nariz aquilino, lábios finos. Corpo bem magro. Não era muito alto e não tinha boa postura, sempre meio encurvado para a frente. Duas coisas nunca esqueci naquele homem, seus imensos olhos escuros tristes, de uma tristeza que comovia e as mãos grandes, um tanto deformadas. Ele era um bom artista, semanalmente nós o recebíamos em casa pois era lá que ele deixava algumas de suas obras que eram expostas na chamada "feira hippie"que acontecia na Praça da República aos domingos. Ele, se me lembro bem, morava na Lapa e seus quadros eram bastante pesados para trazer em ônibus, então, possivelmente, a convite dos meus pais, os deixavam num canto do quarto onde eu dormia com a minha avó materna e os irmãos mais novos. A técnica dele era a seguinte: ele elaborava seus temas num papel e os reproduzia desenhando com papel carbono azul sobre grandes chapas de metal - cobre, se não estou enganado - depois com um instrumento de ponta grossa ele forçava aqueles traços de forma que eles ficassem em relevo do outro lado da chapa. Eram detalhes minuciosos e que exigiam grande esforço, motivo pelo qual seus dedos eram meio tortos dando à mão um aspecto de deformidade. Lembro da Santa Ceia do Leonardo Da Vinci que ele reproduzia nesta técnica, não só Leonardo, aliás, mas muitos temas religiosos de outros grandes mestres, em cobre, assim como cavalos correndo pelo campo e escudos (destes que as famílias tradicionais colocavam em suas paredes). Se a memória não me trai a venda dessas obras era sua única fonte de renda e ele não vendia tão bem. Meu pai ajudava a divulgar e transacionar aqueles quadros metálicos entre seus contatos no ministério.
Todos os domingos pela manhã, lá estava o professor nos saudando com seu sotaque forte já preparado para pegar aqueles quadros pesados e eu, um gurizinho, o ajudava a levar até a praça. Me recordo que aquele lugar aos domingos era tomado por uma multidão de pessoas onde mal se podia andar. Muitas vezes eu ficava por ali assistindo ele comercializar seus trabalhos. Não era uma vida fácil, assim como a da nossa família também era cheia de aflições.
Numa dessas ocasiões, sofri um assédio por parte de um senhor baixinho que usava chapéu e tinha uma cicatriz de lábio leporino. Ele me disse bem baixinho: deixe eu ficar encostado em você, não fale nada pra ninguém e eu te dou um cruzeiro e ficou colado em minhas costas, comprimindo algo entre minhas omoplatas, me seguia por aquele caminho até o local onde o professor tinha seu espaço de exposição. Claro que naquela época eu não sabia do que se tratava aquilo, para mim era apenas um cara chato que não desgrudava onde quer que eu fosse e o compacto bloco daquela procissão facilitava tudo para ele. O professor ia à frente, suando, levando seus pesados quadros, eu, com os objetos menores um pouco atrás e o lábio leporino logo desapareceu. Nunca contei isso a ninguém, por algum motivo aquilo me pareceu muito errado. Hoje a petizada sabe de tudo, mas eu, naqueles dias, era um total ignorante em relação a quase tudo. Muitos anos depois eu vi aquele sujeito em Brasília, no Setor Comercial Sul, bem em frente ao Shopping Pátio Brasil com uma barraquinha de doces, bem envelhecido, de chapeuzinho e a cicatriz debaixo do narigão. Tentei não pensar mais naquele assunto até que me lembrei hoje.

Algumas vezes fomos visitar o professor em sua casa, eu, minha mãe, avó e irmãos pequenos. A esposa dele era uma mulher problemática, meio louca, até. Falava muito e falava alto, ao contrário do marido que era circunspecto. Eles tinham um filho pequeno, quase da idade do meu irmão Gil - talvez mais velho um pouco - chamado Gino. Um pirralho magrinho com uma enorme cabeleira toda cacheada que chegava até as nádegas. A mãe fizera uma promessa a um santo de não cortar as madeixas do menino até que ele completasse uma determinada idade. Um troço bem doido.
Numa dessas visitas àquela casa eu desenhei uma figura do Super-Homem num caderno e aquela senhora me passou um longo sermão, como se aquilo fosse um pecado, dizia que o desenho nunca me traria felicidade se eu continuasse nesse caminho. Durante um tempo eu fiquei sofrendo de culpa por gostar de desenhar.
Parece, não tenho bem certeza, que o Sérgio tinha sido padre - ou fazia seminário - e abandonou a batina para se casar.
Bem, era visível que aquele homem não era feliz. Muitas dificuldades financeiras, nunca reconhecido por seu talento e cultura, sem sex apeal e uma relação conjugal infeliz.

Eu sempre me senti pressionado, solitário, poucos amigos e muito bullying na escola. Em casa vivíamos tensos por causa do humor tempestivo do meu pai. Naquela época eu brincava com soldadinhos de Fort Apache ao lado de um garoto (não sei se seria legal citar o nome dele, acho melhor não). Era um menino vivaz e muito comunicativo, muito protegido pela mãe, o pai frequentemente chegava bêbado em casa. Soube uns anos mais tarde que aquele senhor morrera atropelado por um ônibus.
A mãe do menino mantinha a casa impecavelmente limpa. Na hora de almoçar, claro, parávamos a brincadeira, eu, as vezes era convidado, as vezes, não, mas ficava ali ao lado observando ela colocar a comida na boca de um pirralho que já tinha idade mais que suficiente para comer sozinho. Numa dessas situações ela o deixou com um copo de limonada e foi para a cozinha. Em dado momento, acidentalmente, o copo virou e molhou todo o chão. Temendo a surra que a mãe lhe daria tentou ajeitar a merda que fez pegando um pano no banheiro para limpar a sujeira. Tinha piorado, era visível a mancha no soalho encerado. Ele colocou um tapete em cima (era o couro curtido de um bovino malhado, lembro bem) e achou que tudo estava ok. A brincadeira continuou. Logo a gorda senhora veio pegar o copo para lavar e, lógico, notou a travessura. "Fulano, o que foi que você fez?" O pivete ficou pálido como se a vida lhe faltasse, sem delongas a mulher pegou-o pelo braço, sacou seu tamanco e deu-lhe com fúria na bunda e nas pernas. Eu fiquei petrificado ouvindo os berros: Aaaaaiii, mãe!!! Não, mãe...aaaaaiiii! Num me bate, mãeeeee, aiiiiii!!!!! Me levantei e saí da casa com o choro gritado do menino soando pelos corredores daquele prédio soturno.

Acho tudo isso muito triste. Triste como a figura do professor Sérgio.

Nos mudamos para Brasília e nunca mais ouvimos falar dele.
Meu pai, em meados dos anos 80, certo dia, recebeu uma carta do professor Sérgio - até hoje não sei como ele nos localizou, talvez algum amigo em comum - e a mensagem era tão triste quanto sua figura, nela ele falava um pouco de sua vida, que continuava a mesma luta inglória, pedia que meu pai respondesse a ele. Não sei se ele o fez. Uma segunda carta com apelos mais desesperados onde se lia: "Por favor, escreva...escreva...escreva...por favor, escreva!" E depois, nunca mais.

Não sei porque me lembrei do professor Sérgio nesses dias. Há em mim uma sensação de ocaso. De fim da linha, embora eu saiba que o porvir só a Deus compete. Eu sei que obtive mais sucesso que o triste professor, mas não consigo evitar de me comparar a ele, de me solidarizar com sua história. Acho que ela merecia registro aqui. Não sei se o Sérgio vive ainda, provavelmente não. A ele minha admiração e minha homenagem. Até um dia, professor!
           









domingo, 26 de agosto de 2018

FAMOUS MONSTER - A NOIVA DE FRANKENSTEIN


Hoje a minha homenagem aos famosos monstros do cinema vai para o clássico de 1935 dirigido por James Whale, A Noiva de Frankenstein. A primeira personagem feminina inclusive.


Estou chegando na reta final desta minha série, devo fazer mais uns quatro ou cinco. Confesso que depois de um tempo começo a perder o pique sobre um tema, principalmente se fico longo tempo sobre ele. Não aconteceu isto com "O Misterioso Caso dos Lobisomens Gigantes", lembram? Foram seis desenhos que fiz numa boa pois realizei quase numa sequencia, Famous Monster já dura anos e parei por muito tempo, as releituras de personagens da Hanna Barbera também tive fôlego curto, mas devo compor mais algumas se bater inspiração. Esta no entanto me obrigo a ilustrar as pérolas que me eletrizaram na adolescência, então, o que falta? Homem Lobo? Criatura da Lagoa Negra? Elvira? Certo, vamos a eles.

Até uma próxima, meus amados! 

domingo, 19 de agosto de 2018

JUNGLE KAMEN



Boa tarde a todos!

Acho que não é segredo que as histórias em quadrinhos hoje publicadas pelas editoras não me estimulam a comprá-las. Não me agradam os desenhos, tampouco os temas, que sempre partem para pseudo biografias com ênfase em algum absurdo. Mas as vezes me deparo com algo gratificante, que me remete às HQs que eu lia na infância, narrativas escapista, divertidas, cujo objetivo não é doutrinar, mas entreter (e isto não quer dizer que não tenha profundidade). É o caso de Jungle Kamen da autoria de Fabio Hasmann.

Pinup com a qual contribuí para Jungle Kamen

Também já comentei que o tempo que me vi envolvido com autores de quadrinhos (famosos ou não) minha decepção com eles foi marcante, a maioria se julgava muito mais do eram na verdade. Poucos eram os simpáticos e humildes. O Fabio Hasmann, que conheço via Facebook, sempre mostrou o perfil de cara gente boníssima, talentoso desenhista, educado e com disposição para dividir generosamente seus espaço com outros autores (coisa bem incomum, a maioria prefere te ignorar, são incapazes de um elogio, quanto mais alardear o trabalho alheio).
Para minha grata satisfação descobri que ele também sabe contar uma excelente história. Jungle Kamen é sua entrada neste metiê. A narrativa é bem amarrada, tem um saboroso gosto de aventura juvenil (nem por isto pouco violenta). Ele é muito bem sucedido na criação de sua própria mitologia.


Entendo muito pouco de mangás, games, robôs e monstros no estilo Jaspion (há um nome específico para esta vertente japonesa mas me esqueci agora) mas a influência em Jungle Kamen é patente - pelo menos para meus olhos - e ele consegue imprimir um forte estilo pessoal. Não vou dar sinopse da história, há canais no Youtube para isto, tampouco sou crítico de gibis, eu falo daquilo que gosto e eu li as duas partes quase numa tacada só.


O Fabio me falou que sou uma inspiração para ele. Logo eu? um desenhista desconhecido que nunca alcançou sucesso comercial? Não deveria ser um Mozart Couto? Um Mike Deodato ou Ed Benes? Mas eu fico agradecido pelo carinho e prestígio dele.


Valeu por tudo, meu caro Fabio, pelas palavras de encorajamento, sketches e dedicatórias!


Desejo sucesso absoluto em todos os seus projetos e vida longa a Jungle Kamen! Avante! 


domingo, 12 de agosto de 2018

ENCOMENDAS RÁPIDAS,


Parece até mentira que já estamos em agosto! Você para um instante para tomar um fôlego na corrida da vida e paft!, o tempo já te deu outra bofetada no rosto e não há reflexo que possa evitá-lo. Logo completo 56 anos e ainda me pergunto o que realizei na minha existência....eu diria que quase nada! Quero desesperadamente fazer algo que me permita pensar, putz, isto valeu a pena! Mas malditamente nunca consigo. Nunca é o dia. Tudo o que faço é trabalhar para ter o que comer e onde morar. Já é alguma coisa? Muitos diriam que sim, eu sempre afirmo que poderia fazer mais, só não sei o que nem quando. Bem, são pensamentos inúteis.

Costumo dividir com vocês o que ando absorvendo enquanto o tempo vai me devorando, né? Então vamos lá:

O que eu assisti? Vi o "Deadpool 2". Gostei, mas preferi o primeiro, talvez pela novidade; neste, quiseram fazer igual, só que com mais piadas, citações e ação. Achei que forçaram a barra em muitos momentos. Assisti também "Um Lugar Silencioso". Bom; mas pelos comentários eu esperava mais.

O que li? Queria muito reler "O Morro dos Ventos Uivantes", procurei o livro em todo lugar aqui no meio da minha bagunça e não achei, ou perdi ou está com algum dos meus irmãos. Terei que comprar de novo. Li então "No Sufoco" do Chuck Palahniuk; não gostei, é muito parecido com o livro anterior dele, "O Clube da Luta"; ali, a prosa dele era uma novidade, no que acabei de ler é tudo repeteco de situações absurdas e bizarras.

Quadrinhos? Terminei a saga do "Blade, A Lâmina do Imortal". Bom pra caramba, embora as sequencias de ação sejam as vezes confusas assim como as tramas políticas! Na verdade os japoneses incorrem muito neste "problema", na minha opinião.

Série de tv? Eu e Vera assistimos a primeira e a segunda temporada de "Fargo". Recomendo demais!


Bem, por hora é isto, só. As artes de hoje foram duas encomendas rápidas que um amigo me fez de personagens dos jogos que ele desenvolve. Ah, as personagens não são assim "fofas", foram sugeridas neste estilo, ok?

Boa noite, boa semana e fiquem bem!




domingo, 5 de agosto de 2018

O IDIOTA DE UM PASSADO INÚTIL COM FUTURO NEBULOSO.


A avó entregava o indicador para o menininho e ele com seus dedinhos minúsculos segurava o dedão que, de tão grosso, a mãozinha quase não abarcava todo e assim caminhavam pelas poeirentas ruas de uma Guarulhos dos idos de 60. O dedão que trazia segurança era da mesma mão que o espancava quase todos os dias, as vezes sem motivo, muitas vezes só para extravasar a frustração, assim como um rinoceronte que em seu acesso de fúria, sem saber como liberar a raiva, investe sobre uma árvore ou um cupinzeiro. Certa vez o gurizinho, tolinho toda a vida, encontrou no quintal barrento de uma amiga da avó uma nota de um cruzeiro e sem saber o valor daquilo pegou o dinheiro lamacento e fazendo um rolinho, envolveu com a mãozinha suja desconhecendo que estava incorrendo num crime que lhe custaria caro, carregou-o assim, consigo. Ele não dimensionava a distância de casa da amiga da avó até a sua, talvez fossem apenas uma quadra ou duas, mas em seu cérebrinho idiotinha aquilo parecia muitos e muitos quilômetros. A avó vendo o pequenino punho cerrado perguntou o que ele segurava, ele, abrindo a garrinha, mostrou a cédula amarrotada. Onde você achou isso? Ele respondeu verdadeira e inocentemente.


A avó tomou aquilo como obtenção indevida de propriedade alheia. A manzorra desceu violenta sobre seu rosto. Incapaz de se conter, a senhora, cujo rosto parecia um pergaminho e tinha um olho cego, mordeu a língua e aplicou-lhe um novo bofetão. Talvez o choro do imbecilzinho aumentasse o furor da mulher, sabe-se lá, mas ela pegou uma vara e dava na bundinha e perninhas do pirralho dizendo que não suportaria a vergonha de ter um neto ladrão e foram devolver o dinheiro, o trajeto todo tomando sova, ora com varadas nas pernas, ora com tapões no cachaço. Os passantes olhavam indiferentes. Na vida adulta ele nunca conseguiu compreender porque, apesar de tudo aquilo, ele amava aquela mulher com amor incondicional e sua morte em 1977 deixou nele um vazio que nunca mais seria preenchido.

As jornadas pelas casas dos conhecidos eram longas e nas noites de lua cheia, o merdinha olhava para o alto e via aquele imenso olho gelado e prateado a fitá-lo. Ele corria o mais veloz que podia para fugir daquele olhar, mas não havia como se esconder, o olho o perseguia implacavelmente e seu encéfalo de minhoca não entendia: por mais rápido que corresse, a lua estava sempre ali, no alto, sondando-o.


Passou a infância com medo, não tanto pelos defuntos que ele via nos caixões, muitos quase escondidos entre cravos e rosas, mas das surras sem motivo aparente antes de dormir, ao levantar ou durante o correr do dia, dependia muito do humor da velha senhora. Os medos das surras só eram suplantados pelos constrangimentos provocados pelos desmaios da avó nas casas onde ela frequentava. Talvez eles fossem reais, talvez ela só provocasse a piedade alheia. Ele nunca soube. Todavia os castigos infringidos por ela nunca se comparariam aos do pai que viriam algum tempo depois.

Uns anos mais tarde, no início dos anos 70, o palerminha vê um comercial na tv de um certo produto de limpeza: uma mulher perplexa com a sujeira de sua cozinha, daí surge o Ajax com seu grande furacão branco, e dona retira a tampa e um tufão sai do recipiente limpando toda a imundície do local. Num belo dia a mãe do bocózinho compra o tal Ajax. Ele nada fala mas fica na expectativa de vê-la abrir a tampa do involucro e soltar o vendaval que há nele. Quando ela finalmente abre, nada acontece, nada de furacão, nada de ciclone, nada de turbilhão! O tontinho pensa: será que veio com defeito?

O lerdinho foi crescendo ouvindo dos priminhos que era feiosinho, das priminhas, que era baixinho e dos amiguinhos na escola, que era burrinho, assim, levando pancada dos meninos bem nutridos, com pais bem sucedidos, começou a pensar que não pertencia a este mundo, que não queria existir nele, descobriu que tinha incapacidade de se sentir bem em grupo. Vivia com quimeras e devaneios, sempre tristinho e com medo, sempre tentando parecer fortinho. Até que Deus, em quem ele acreditava, sem saber como nem porque, fê-lo descobrir que sabia desenhar e isto aliviou um pouco o fardo, fazendo-o escapar para outros mundos, mundos tristes que ele imaginava e criava, onde ele por mais surrado e pressionado que fosse, sempre saía vencedor no final.

O basbaquinho foi ficando velho no corpo mas por dentro nunca mudou. Continuou sendo um idiotinha, sempre fazendo as escolhas erradas. Nunca conseguiu mudar. Chegou a conclusão de que o amor eros é uma armadilha, um cárcere, o pior deles; descobriu que o que vale temporariamente é o amor philos e concluiu que o amor Ágape é o que preenche, é eterno e que torna a vida na terra suportável. E assim prossegue até o dia derradeiro em que toda vã filosofia vire poeira e seja dispersada pelo vendaval do tempo.

domingo, 29 de julho de 2018

O DIFÍCIL RETORNO AO LAR.


As memórias para os detalhes de como voltei para a casa dos meus pais em Brasília depois de residir - e praticamente parasitar - no Rio de Janeiro por quatro anos são um tanto nubladas, afinal isto aconteceu em 1983, faz uns 35 anos, eu tinha 21. Se a memória não me trai eu saí de Paty do Alferes numa noite qualquer de agosto, fazia muito frio. Minhas coisas, que eram uma televisão, muitos discos e livros já estavam na kombi do Ruço (vou chamá-lo de Ruço porque ele tinha mais cara de Ruço do que de Russo) e ele buzinou no portão da casa por volta das 22 horas. Os momentos finais em companhia da Luci serão omitidos, é um tanto doloroso e íntimo demais para expor.
O cara queria começar a viagem de madrugada para ganhar tempo, dirigir a noite, segundo ele, era melhor, o descanso ficaria para algumas horas do dia. Nos beneficiamos da companhia mútua, ele queria recomeçar sua vida em Brasília depois de se separar de sua esposa e eu esperava colar meus cacos na companhia da família. Eu seria um companheiro para ele não viajar sozinho e em troca ele transportaria meus pobres bens. Era um cara simpático de pouca barba, com cabelos encaracolados e claros; falava muito, falava até pelos cotovelos, acumulando saliva nos cantos da boca e quando falava lançava chuvas de perdigotos no volante e no para-brisa do carro. Os assuntos? Não lembro bem, parte foram as desditas de seu casamento e o fracasso das minhas empreitadas no Rio. Não recordo de nada dos planos para sua vida em Brasília, acho que ele iria usar sua kombi para transporte, eu não tinha ideia do que faria da minha. Como enfrentamos a viagem parece que foi tudo apagado da minha mente, mas lembro que ele errou o trajeto umas duas vezes o que redundou num atraso muito grande trazendo grandes preocupações para nossas famílias. Eu soube posteriormente que pensavam que tivéssemos sido assaltados e mortos na estrada. Deu um branco total na minha mente no que se refere ao tempo de descanso, possivelmente dormimos no banco do veículo em algum posto de gasolina de beira de estrada, tampouco sei dizer quanto tempo passamos em viagem, mas eu calculo que foi quase uns cinco dias, tempo muito longo para uma viagem do Rio a Brasília. O que me lembro bem era do cara - que não era muito mais velho do que eu - me pregando sermão como se eu fosse um adolescente idiota e ele uma espécie de sábio, me ensinando os rudimentos da vida, intuindo que meu fracasso na Cidade Maravilhosa fosse apenas por eu ser um sonhador irresponsável. Talvez ele estivesse certo.
Quando chegamos perto de Cristalina, cidade de Goiás, a perua, que já exalava um cheiro de queimado, deu prego total no meio do caminho. Acho que conseguimos uma carona até um posto em Cristalina e lá ele arrumou um mecânico e o carro foi rebocado até o tal posto. Eu digo acho porque sinceramente não lembro bem. Seria um fato a se recordar para sempre mas, na real, apagou-se de minhas memórias, tudo aquilo me soa como um sonho confuso. O que tenho certeza é de que o concerto do veículo só ficaria pronto numa data distante, talvez uma semana ou dez dias. Ele tinha umas economias na Caixa Econômica e usaria para concertar o carro. Mas como iríamos para Brasília? Eu tinha uns trocados comigo mas não era suficiente para comprar duas passagens de ônibus dali até a capital do Brasil. O jeito era pedir carona. Ficamos conversando com pessoas que paravam por ali para ver se conseguíamos que alguém nos levasse. Eu estava com muita fome e decidi que com estômago cheio tudo era mais fácil de suportar. Com o pouco dinheiro que possuía convidei o Ruço para comer no restaurante do posto. Ele se empanturrou e enquanto arrotava dizia que eu era inconsequente, que o dinheiro tinha que ser guardado para uma emergência qualquer. Eu nada falei, sempre fiquei na minha, guardava as coisas para mim e tava pouco me fodendo para o que pensassem a meu respeito.
Um senhor nos deu carona numa mini perua. Era um desses carros Fiat com uma pequena carroceria. O Ruço foi sentado ao lado do cara e eu fui na caçamba morrendo de frio (o meio do ano na Capital Federal é gelado!), mas não me importei, a cada quilômetro rodado eu estava mais perto de casa. Viajar ali naquela época não tinha problema, as pessoas dirigiam sem cinto de segurança, inclusive. O Ruço me diria depois que aquele senhor tinha ganho na Loto e com o dinheiro do prêmio comprara uma frota daqueles carros e usava para fazer transportes.

Foi na caçamba de um carrinho deste tipo que viajei de Cristalina a Brasília.

O cara nos deixou, em alguma cidade satélite, talvez Taguatinga ou Gama, mas tinha sobrado troco do almoço o suficiente para duas passagens de ônibus até o Plano Piloto.
Descemos na parada do eixo leste entre as quadras 202 e 2003. A noite já estava caindo, meus pés não se continham e davam pressa para chegar em casa. Meu coração batia num ritmo diferente. O vento era gelado e eu tremia de bater os dentes mas não sabia se era de frio ou de emoção. Ao me aproximar do prédio a primeira pessoa que encontrei foi o Cesar, um conhecido dos tempos de adolescência, falamo-nos brevemente, entrei, peguei o elevador, e bati na porta....é tudo o que posso dizer por enquanto.

O bloco H da SQS 202







 

domingo, 22 de julho de 2018

SÓ É POSSÍVEL NOS QUADRINHOS.


Ainda não vai ser desta vez que prossigo os relatos sobre meu passado, sempre há uma maldita coisa atrasada que não posso postergar ou mesmo a falta da sensibilidade necessária no momento de escrever. Quero que a coisa fique boa, pelo menos para mim, e na dúvida, opto por um instante adequado.

Sobre o que falar, então? Ok, um pouco mais sobre a atitude de criar HQs. Esta semana eu estava lendo um prefácio escrito por um famoso cartunista brasileiro para um sketchbook de sua autoria - vou ficar devendo o nome do tal cartunista: uma, pra evitar celeuma; duas, o cara já tem quem faça propaganda dele demais - e num dado momento ele achava ser os quadrinhos "uma arte pra lá de inútil". Eu até entendo este tipo de afirmação, principalmente vindo de uma pessoa que parece nunca ter atingido a maioridade mental, e olha que os quadrinhos e charges deles são muito legais, mas é um tanto cômodo alguém falar assim quando hoje o que quer que ele faça será alvo de aplausos.
Arte inútil? O ato de narrar uma aventura, um acontecimento banal, um fato histórico em planos sequenciais de desenho? Não sei, este tipo de pensamento sempre coloca as histórias em quadrinhos como subcultura, coisa de alienados, débeis infantiloides, sempre à margem da literatura e do cinema. Existem pessoas que tentando legitimar a forma de contar histórias em sequência de quadros comparam-na à literatura. Há boa intenção aí mas é uma afirmação tola, as artes sequenciais tem seu próprio meio de comunicar o que intenta. Grandes autores, como Alan Moore e Will Eisner provaram que existem coisas que só são possíveis nos quadrinhos, em nenhum outro meio, graficamente, consegue-se mostrar diferentes tempos e ritmos em uma mesma prancha. O cinema tentou, principalmente na segunda metade dos anos 60 e por toda a década de 70, dividir a tela em quadros para mostrar momentos diversos, mas apenas nas imagens, já que nas falas, causariam confusão. Nos quadrinhos, no entanto isso é perfeitamente possível.

Como exemplo cito aqui o clássico Gasoline Alley de Frank King em duas páginas:


King concedeu noção de continuidade em tempo real aos quadrinhos mostrando os personagens amadurecendo e envelhecendo a medida que os anos avançavam com as publicações de sua página dominical, além de muitos conceitos e designs.


Possivelmente o cartunista brasileiro ao chamar as HQs de arte pra lá de inútil quis dizer que aqui no Brasil o esforço em fazer quadrinhos é como trafegar num rio perigoso com o barco cheio de furos; se a intenção foi essa, não tenho como não concordar.
De todo jeito, eu gosto de fazer meus quadrinhos, é a única forma que eu tenho de mostrar como vejo as coisas que me circunvizinham. Pena que seja tormentoso o processo e o retorno, pífio.

Não sei se me fiz entender perfeitamente, vou digitando febrilmente, apressadamente, sem tempo para revisão; aos erros, me perdoem.

Boa noite, meus amados e amadas, fiquem com Deus!

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...