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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

NO FIM DAS CONTAS, O LOUCO SOU EU.


Estou cercado de loucos.
É sério. Não é uma metáfora. Literalmente estou cercado de pessoas com problemas mentais.
À minha direita, na casa ao lado do meu prédio, vive um rapaz, de talvez uns 45 anos, que quando menos se espera explode numa fúria avassaladora, nestes acessos, ele grita coisas que a primeira vista seriam ininteligíveis. As palavras meio que se sobrepõe umas as outras numa velocidade digna de um narrador de corridas de cavalos. Eu e Verônica certa vez paramos para prestar atenção, são brigas que ele trava consigo mesmo, ou com quem discute com ele dentro de sua cabeça. No turbilhão de impropérios interpretamos as palavras "rapariga", "filha da puta" e outras do mesmo quilate. Não tem hora para começar. Pode ser de manhã, tarde ou madrugada, e termina tão abruptamente quanto inicia.
O cara é forte, alto, calvo, fuma compulsivamente e anda como um autômato. Já o vi na rua, a caminho da padaria, só suas pernas se movem, todo o resto do corpo permanece empertigado. Ele sabe que sou seu vizinho, quando me vê, seus olhinhos vazios, lacrimosos e esgazeados não demonstram emoção, ele sorri um sorriso que mais parece um esgar a título de cumprimento, as vezes faz um movimento de mão como um aceno. Ele vive com a mãe, uma senhora magra de aspecto frágil. Certa vez eu e ela fechávamos nossos respectivos portões, ela me saudou, depois disse: Espero que meu filho não esteja lhe perturbando com seus barulhos. Nada, disse eu. De fato a coisa não chega a me incomodar. Ela disse mais, que ele era esquizofrênico. Ficara assim aos dezoito anos de idade. Não havia uma razão aparente. Nos últimos tempos os problemas se intensificaram, a casa precisava de uma reforma e ele não aceitava. Não pode leva-lo para outro lugar enquanto o serviço é feito? Sugeri. Isto até seria possível, mas ele voltaria furioso; realmente não sei o que fazer. Desejei sorte e segui meu rumo. As vezes tem na casa uma festa de aniversário e ele parece uma pessoa normal, mas certa noite, da minha janela eu o vi em seu quarto repetindo inúmeras vezes o ato de pegar uma toalha, ir até a porta, voltar, por a toalha no mesmo lugar, tornar a pega-la, ir até a porta e voltar e assim por diante. Contei este movimento umas 45 vezes, juro. Aí desisti. Parei de bisbilhotar e voltei aos meus afazeres. O coitado deve ter varado a noite neste transtorno.
Moro num prédio, de dois andares, no térreo reside um casal com um vira-latas; quase não os ouço. O cara é problema, parece que a cabeça não acompanhou o desenvolvimento do corpo. É sempre muito polido quando me encontra. Nos seus momentos de insanidade ele arrebenta a casa toda. É impossivel ficar alheio ao caso. As portas batem, vidros da janela são quebrados, coisas são lançadas no assoalho. A mulher grita e acho até que já deu porrada nele, é um tipo franzino, alourado e de hálito desagradável, não deve ter mais que trinta anos. Os pais o sustenta. A coisa não me afeta, mas é chato quando os entreveros são na alta madrugada. Entretanto, as confusões não são frequentes.
Vizinho a eles moram uma senhora e dois filhos, cujo rapaz também é desiquilibrado. É um cara moreno, enorme, peludo, mentalmente eu o chamo de urso. Mas este cara fora uma ou outra discussão que tem com a mãe e a irmã, nem lembro que ele existe.
Na casa atrás do nosso prédio, escuto uns gemidos estranhos, não se trata de alguém em agonia ou coisa do gênero, mas alguém que não consegue se comunicar, Seria uma garota surda-muda? Parecia. Mas é mesmo uma moçinha com problemas mentais.
À minha esquerda... bem, à minha esquerda, no prédio ao lado há um cão, filhote ainda mas que está crescendo a olhos vistos que deve ter algum tipo de transtorno. O filho da puta late o dia inteiro. Na boa, eu sei que a única coisa que um cão pode fazer é latir, mas este deve ter algum tipo de demência. Meu estúdio fica naquela lateral e ouço o maldito latir por todas as horas do dia. Vai acabar tendo um câncer na garganta (espero). Quando digo o prédio ao lado, quero dizer praticamente colado ao meu. Meu som quebrou, então vocês podem imaginar o suplício que é ouvir as fofocas das empregadas, adolescentes babacas ao telefone, sem ter para onde correr, mas o que mais incomoda é o cão. E parece que não é só a mim. A pauta da última reunião de condomínio foi o barulho incessante do animal. Até agora os donos cagaram um quilo para as queixas. Ouvi dizer que o dono do cachorro é delegado de policia. O desgraçado late num tom esganiçado, concatenado, sem pausa para respirar. Sei lá, ouço cães latirem tipo assim: AU, AU, AUAU, AU, AUAUAUAU e por aí vai. Este vizinho late assim: AUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAUAU
Ou seja, deve ser louco também.
As artes de hoje creio que tem tudo a ver com o texto, a de cima foi criada recentemente, a de baixo foi um rabisco feito a muitos séculos.
Sei não meus amados e amadas que me prestigiam neste espaço, o doido no final das contas deve ser eu. Se não for, vou acabar ficando. Alguém duvida? Então troquem de lugar comigo.
Não, gosto demais de vocês para lhes desejar tal coisa.
Beijos a todos.
 
 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MAIS INFANTIS.



Damas e cavalheiros, como vão?
Notaram como a semana voou? A rotina faz isto. Trancado no estúdio, saindo apenas para me alimentar, conferir os e-mails,  um pulo ocasional ao mercado  e quando vejo, a semana se foi. Chega a ser assustador!
Falando nisto, preciso voltar ao batente. Deixo com vocês mais algumas imagens do livro infantil de temática ecológica que fiz semanas atrás. Em fevereiro, se Deus quiser, volto a ilustrar os clássicos da literatura brasileira.
Um ótimo fim de semana a todos.







quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ACONTECIMENTO BANAL.


Houve um tempo em eu que gostava de tirar fotos. Hoje não gosto mais. No passado eu tentava fazer parte de grupos. Queria estar inserido. Pra usar uma liguagem moderna (bem, nem tão moderna assim), ser "IN" ao invés de "OUT". Hoje só quero ficar na minha.
Os tempos mudaram. 
Eu mudei.
Na verdade parei de tentar ser o que não era. A única vantagem de envelhecer é que os anos tenden a revelar o que se é na verdade. Assim você se sente a vontade para se aceitar. Se é baixo, é baixo, se é careca, é careca. Quem não se aceita, acaba caindo no ridículo usando peruca e enchendo os sapatos de palmilhas pra ficar mais alto. Havia um personagem no  volume colorido de Luther Arkwright - gibi de Bryan Talbot - um militar de porte, mas na verdade o cara era esquálido, tinha enchimentos no uniforme e outros apetrechos que salientavam o aspecto pomposo.  Eu queria ter tempo para fazer um paralelo entre o que afirmo aqui e algumas palavras do personagem Brás Cubas de Machado de Assis, mas fica para outra ocasião.
É lógico que  existem pessoas que são autênticas desde o berço, e outras que os anos não as convence, mas eu diria que são exceções, não regra.
Digo tudo isto porque agora me sinto a vontade pra narrar um fato que aconteceu o ano passado, e não estava confortável para faze-lo na ocasião. Fiquei temeroso de causar constrangimento às outras personagens da peça e pensando bem não há razão para tal.
Fui ao centro da cidade comprar materiais de trabalho e como de praxe, dei uma chegada na Livraria Cultura; estava folheando uns livros quando um casal jovem e elegante se aproximou de forma um tanto desconcertada e perguntaram se eu era o Eduardo Schloesser, o cara que criou o Zé Gatão (o rapaz que tinha um forte sotaque do Rio Grande do sul, errou a pronúncia do meu nome. Normal, todo mundo erra, até os que me conhecem de longa data). Surpreso, respondi que era eu mesmo. Começaram então os confetes, que eu era um artista fantástico e que Zé Gatão era foda. Comecei a ficar envaidecido. Eram casados, indaguei de onde eles me conheciam. De uma palestra que dei no MAMAN uns anos atrás, disseram. No ensejo eles estavam atrasados para outro compromisso por isto não puderam falar comigo. Um papo rápido e indagaram porque não lancei mais álbuns do felino e se tinha outros projetos de HQ que não envolvessem antropomorfos. Respondi. A moça era mais entusiasmada. Parecia gostar mesmo do meu personagem. Dizia que ele era lindo. Que comprou o álbum preto pelo Submarino por indicação de uma amiga que reverencia gatos, Sandman e cultura egípcia. As vezes essas coisas me assustam.
Estava até gostando do assunto. A vaidade pode ser como o alcool, em excesso pode ser nociva. é bom se policiar.
Num dado momento o rapaz perguntou se poderiam tirar uma foto comigo. Já tirei várias fotos com admiradores e é algo que não me deixa a vontade. Titubeante, respondi que não haveria problema. Mas tinha que ter o livro do Zé Gatão na foto, disseram. Então foram perguntar a um atendente se  tinham o tal gibi. Havia um exemplar na loja de São paulo, se quisessem poderia encomendar que chegaria em três dias. Poxa, que pena. Então indagaram se havia outro livro da minha autoria na loja. Havia o Livro de Anatomia da Ópera Graphica. Pegaram o livro. A esta altura eu já estava bem embaraçado. Queria que eles desistissem daquilo. Então pediram ao tal atendente, um rapaz afetado e arrogante para clicar.  Se posicionaram ao meu lado. Um à direita, o outro à esquerda. Cheiravam bem e eram mais altos que eu. O rapaz pôs a mão no meu ombro e a moça me cingiu a cintura. Sorriam. Agora chegamos ao coração da minha narrativa. Eu não sabia se ficava sério ou mostrava os dentes. Decidi sorrir, mas não muito. Me senti um pateta. Naqueles segundos antes do cara apertar o botão da máquina eu ensaiei a melhor expressão e isto me incomodou. Este não sou eu. Todos querem ficar bem na foto, é natural, mas eu me flagrei querendo estar tão bem quanto aquele casal onde parecia que tudo era festa. Eu não estava confortável, me sentia um farsante. Me achavam um grande criador e eu só tinha a grana da passagem de volta pra casa. O cara bateu a foto. Vamos ver. Ei, você não enquadrou direito. O livro ficou cortado. Pedi pra ver. Minha cara ficou esquisita. Feia como sempre. Riso forçado. Nova foto. Decidi ser eu mesmo desta vez. Sério. A expressão de alguém que logo vai fazer cinquenta anos e ainda luta pra pagar o aluguel. O cara clicou. A foto ficou boa. Minha cara desta vez me agradou mais.
Como Zé Gatão foi o pivô deste episódio nada mais natural que te-lo na postagem. São rabiscos feitos no passado.
O casal gaúcho pediu meu e-mail pra manter contato e enviar as fotos. Tô esperando até hoje.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

BICICLETA.

Alô amigos e amigas.
Jogo rápido hoje, só passei aqui pra deixar uma arte para vocês.
Como disse anteriormente, estou revezando artes antigas com material novo. Esta ilustração feita à bico de pena foi encomendada para um curso de desenho ainda inédito.
Comentei com vocês que minha memória para coisas recentes anda péssima? Pois é, não consigo lembrar onde foi parar o texto referente a esta arte, mas eu creio que ali eu explico o efeito de luz e sombra que promove um forte contraste. Pela minha observação o sol de três horas da tarde é o que melhor faculta este efeito. Deve ter sido isto que falei, só pode ter sido, realmente eu não lembro (é incrível este esquecimento!). Bem, se não citei lá, fica citado aqui.
Tenham todos um bom dia.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MÃE E FILHA.


Relaxar. Ultimamente eu tento e não consigo. Há muito o que fazer. O tempo nunca é suficiente.  Meu corpo está quieto mas minha mente não para. Enquanto escrevo, os pensamentos divagam. Tento me concentrar. A música geralmente me acalma. Estou com fones de ouvido. As melodias me transportam para outros tempos. Nem tão melhores, mas diferentes.
Ouço John Lennon, "Aisumasem (I´m Sorry)" do subestimado álbum Mind Games.
Acima de tudo, penso no trabalho, manter o padrão de vida do qual acabo por me tornar escravo. É assim com todos. Somos dependentes demais do que construimos ao nosso redor e nem nos damos conta. Quando abrimos os olhos constatamos que o bonde da vida está veloz demais, já não é possível saltar sem se arrebentar todo. Tá, eu sei que como filósofo eu sou medíocre, mas o que posso fazer?
Agora John diz a Yoko que sente muito, que não vai machuca-la de novo.
A música avança.
Eu continuo sem conseguir relaxar, nem me concentrar. Penso também em todas as artes que nunca farei. Nas idéias que estarão para sempre trancadas nos porões da minha alma. As vezes ouço seus gritos sufocados me acusando do tempo que perdi correndo atrás do vento enquanto poderia ter estudado mais, produzido mais, insistido mais.
Vaidade. Tudo vaidade.
No solo final, a guitarra de David Spinosa chora em seus dedos. Lennon sabia escolher seus músicos, sabia arranjar suas canções. São os acordes finais. Não pare porra! Ainda não terminei o texto!
As notas chegam ao fim.
Uma outra começa.
"So Many Things" com a Sarah Brightman.
Eu passo para a próxima.
Preciso de algo mais antigo, mais nostálgico.
"Miss You Nights" do Cliff Richards. Não, triste demais.
B. J. Thomas, "Songs".
Essa é das boas, é das velhas.
Me lembra a Ilha de Paquetá.
Estive lá em 1974.
A ilha da Moreninha.
Ilustrei este livro o ano passado. Livro chato.
De uma lembrança a outra.
Encontro conforto na família.
Este pensamento sim me relaxa.
O que nos trás a arte de hoje. Tentei neste óleo retratar minha mãe e minha filha a tanto tempo atrás que nem sei. Pablo Picasso foi a inspiração. Meu afeto a dois amores travestido de homenagem ao grande pintor catalão.
Dona Francis está ok, mas em Samanta eu não acertei. Nariz arrebitado demais.
Minha mãe e minha filha. Saudades.
A melodia finda e também minha postagem de hoje.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CURSO DE DESENHO ( SUPER - HERÓIS 10)


Bom dia a todos.
Quem me acompanha a tempos com certeza já leu os comentários que fiz em posts anteriores sobre um curso de como desenhar super-heróis - segundo a minha ótica. Sabem que a empreitada não deu em nada, aliás, parte dele saiu em uma revista de banca, bem diferente do que eu tinha idealizado. As artes de hoje pertencem àquele projeto. Foram sugestões do editor que tentava vender o material. Fazer rostos distintos, de diversas etnias e depois mostra-los mascarados.
Uma coisa que gostei de brincar aqui, foi com o fato de todos pegarem nos pés dos supers por muitos usarem a cueca por cima da calça. Nada mais justo as mulheres usarem o soutien por cima da camisa. Mas gracejos à parte, eu nunca achei esta idéia da roupa de baixo ficar por cima da calça assim tão absurda. Olhando os figurinos de muitos guerreiros da antiguidade, eles usavam protetores na região da virilha. Era um reforço a mais para resguardar uma área tão desprovida de amparo. Assim, creio que os uniformes coloridos dos paladinos da justiça dos quadrinhos herdaram esta tradição. Pelo menos esta é a leitura que faço. O problema é que muita gente leva estas coisas a sério demais, tratam estas fantasias, estes arquétipos, como se fossem uma realidade cotidiana. Vêem o absurdo numa indumentária berrante mas parecem achar natural um individuo escalar paredes como se fosse um aracnídeo. Bom, não estou aqui para polemizar.
Só para avisar, soube que a Escala vai reimprimir aquele curso em seis edições (MÉTODO DINÂMICO DE DESENHO E PINTURA) que fiz para eles. Bem que podiam pagar uns royalties, afinal, uma grana extra até que cairia bem. Mas não o farão.
O desenho da heroína acima foi feito com lápis 6-B.
Abaixo (mascarada), com lápis de cor.
That´s all.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

MILOCA, UMA GRAÇA DE MINHOCA.


A última literatura infantil que ilustrei atendia pelo singelo nome que também denomina esta postagem.
Em rápidas palavras, trata-se de uma pequena minhoca que não se conforma com sua condição de verme da terra. Ela inveja sua amiguinha, uma pequena semente que será um frondoso araçazeiro no futuro, enquanto ela será sempre uma minhoca, não importa quanto tempo leve. Então sua mãe e uma professora tentarão convence-la da sua importância para o ecosistema.
Foi o trabalho mais rápido que fiz, mas nem por isto mais fácil, afinal eu não tinha muitos elementos para trabalhar minha criatividade. Era só um bando de minhocas conversando o tempo todo dentro daquelas galerias subterrâneas. Me esforcei entretanto para que a obra não ficasse cansativa, dando aos bichinhos personalidade através de suas expressões faciais, como vocês podem constatar nas imagens. Não fiz consulta, mas tentei visualizar um desenho da turma do Pernalonga que nunca mais vi, onde dois corvos mexicanos tentam comer um vermezinho numa região desértica.
O atual que estou ilustrando trata de uma menininha com Síndrome de Down. Tema delicado.







ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...