A Busca – Capítulo 8:
A caminhada foi longa e consumiu muitas horas para que
saíssem do vale! Felizmente, o tempo melhorou e a claridade
daquele estranho sol, cálido, se fez presente pelo resto do dia!
Ao entardecer, felino e morceguinha alcançaram uma vasta
planície arbustiva, acima da selva virgem! Resolveram parar para
um breve descanso e também mastigar alguma coisa. Na verdade,
não comeram por real necessidade, mas por hábito! Além disso, o
Gatão achou de bom alvitre dar um pouco de trabalho aos
maxilares, para compensar! Ainda não tinham almoçado! Estavam
nisto, quando um vulto ao longe, lhes atraiu a atenção! E que vulto!
No momento em que a dupla pode distingui-lo, espantaram-se! Era
uma formidável figura reptiliana! Imensa! Tinha um corpo maciço!
Postura bípede, mas andava arqueado para frente, meio
bamboleante! O ser era coberto por um couro duro, cor de musgo!
Estava nu! Das costas compactas saíam uma fileira de placas
ósseas, de formato pontiagudo, mas rombudas na ponta! Da
cabeçona disforme cobrindo toda a parte frontal da face,
exatamente sobre os olhinhos miúdos, projetava-se uma placa
óssea curvada para trás! Tinha dois cornos afiados saindo desta
placa facial. Em lugar do focinho, possuía um bico curvo Entre os
olhos e o bico, elevava-se um único chifre curto, bem semelhante
ao de um rinoceronte! Uma cauda grossa arrastava-se, atrás da
criatura! Cauda forte, de ponta espinhosa!
– Gatão!!!
– Que animal incrível! Parece ser de maus bofes! Sem conversa!
Então, agora vai ser na porrada!
– Mas, Gatão! Você viu o tamanhão dele? É melhor usar a
metralhadora! Use! Já!!
– Me deu vontade de esquentar os músculos! Armas vão tirar a
graça da brincadeira!
– Graça?! Brincadeira?! Você ficou louco?! Aquele bicho vai te
massacrar! Você perdeu o juízo, gato?!
– Calada, pequena! Se ponha em segurança! Só quero ver se dá
para encarar o bicho aí, na mão!
– Você alucinou! Foi a água?! Foram as frutas?!
– Te arranca baixinha e me observe! - Inconformada, Bella voou
para longe, sem entender o que tinha dado no amigo! Com aquele
outro lagartão, ele sensatamente usou a metralhadora! Mas com o
que estava chegando, apenas disse que queria esquentar os
músculos! Louco e insensato! O que seria dela, se ele morresse?
O ser veio se aproximando, de cabeça baixa, bufando para
quem ousava penetrar no seu pedaço! Era grande, de fato, mas
meio atarracado! Devia ter, em torno de 1,80 metro de altura! O
sangue do Gatão corria rápido nas veias! Por que resolvera
arriscar, tudo por tudo? Não sabia e nem queria saber! Só o que
desejava era sair no pau com aquela criatura dantesca!
O bichão atacou, rocando! Atacava à moda dos rinocerontes,
empreendendo um avanço violento, rápido e às cegas!
Ousadamente, o felino gris esperou até o último minuto, para sair
de lado! O réptil monstruoso passou ventando à direita de sua
pretensa vítima! O Gatão já tinha lido sobre aquela criatura de
outras eras e sabia que não primava pele inteligência! Era uma
massa bruta, instintiva! A custo, o grandalhão freou o corpanzil
titânico e voltou-se, em uma nova e feroz investida! Se
pudéssemos fazer uma comparação, o Grande Gato parecia um
dançarino, diante daquela fera! Esquivava-se, saltava! Dava
cambalhotas para trás! Ágil, como o felino que era! E nestas
evoluções corporais, atraiu seu adversário para a beira de um
barranco que dava para um rio agitado! O Gatão parou, esperando!
Explodindo de vitalidade! Sem exibir um único sinal de cansaço! Já
a criatura pecilotérmica estava apresentando sinais de forte
esgotamento físico! Seu arfar barulhento, o evidenciava! Ainda
assim, julgando que o intruso estivesse cansado demais para
escapar, o animalão lançou-se em um último esforço, numa
carreira desabalada, no intuito de perfurar o corpo do gato com o
chifre único, para depois pisoteá-lo até que este virasse uma
sanguinolenta papa informe! A cena a seguir foi digna de espanto!
De repente, o Gatão saltou acrobaticamente! Girando o corpo
repetidamente, ele conseguiu posicionar-se no dorso do réptil! Mal
tocou aquela superfície, começou a correr velozmente! Saltou,
outra vez, evitando a pesada e espinhenta cauda do adversário,
assim caindo a salvo e de pé, longe daquele chicote vivo!
A besta-fera continuou em frente, sem conseguir deter a inércia de
seu movimento! De sua goela escancarada, escapou um grito que
poderia ser definido como de surpresa e decepção! Como um
colosso de merda, ela precipitou-se nas águas espumosas e
inquietas do rio, abaixo! A forte correnteza o carregou! Debatia-se,
enquanto seu urro grosso enchia os ares! Levada pelas águas, a
disforme criatura, a debater-se impotente tombou vários
quilômetros depois, na cascata, indo parar na lagoa de águas
azuis, onde o felino e a morceguinha estiveram, no início daquele
dia! O Gatão caminhou lentamente até a árvore, na qual se
escondia a pequena Bella! Sentou-se pesadamente, ao pé dela!
Parecia meio alheio, não respondendo à bateria de indagações que
a morceguinha despejou sobre ele! Ali mesmo, caiu em um sono
profundo! A pequenina ficou a seu lado, visivelmente preocupada!
Pela primeira vez, em anos de existência, o felino cinza desligou-
se! Um sono sem sonhos, mas tranquilo! Felizmente nada sucedeu
naquela noite, diga-se de passagem, bastante agradável! A
morceguinha não pregou o olho!
O dia seguinte surgiu fresco e ensolarado! O Gatão despertou,
como de um sonho! Porém, estava perfeitamente ciente do que
havia acontecido. A morceguinha, agitadamente, o interpelou! Com
toda a calma do mundo, o Gatão respondeu que não tinha ideia da
razão que o libertara de todas as amarras, fazendo com que
encarasse o perigo como uma grande diversão! Felizmente, seu
poderoso instinto de sobrevivência, prevalecera! Desta forma, o
felino agiu da mesma maneira eficiente, à qual já estava afeito,
durante as lutas! Fato este, que tranquilizou a pequena quiróptera,
sobremaneira! Alimentaram-se desta vez, das rações que já
traziam consigo. Bella observou que ontem ficara mais nervosa do
que habitualmente! O felino retrucou que era melhor ela não encher
a cabecinha de preocupações! O que quer que tenha provocado
aquelas alterações comportamentais, nos dois havia passado!
Após a refeição matutina, se afastaram daquele local! Durante a
caminhada, a curiosíssima morceguinha perguntou o que o amigo
achava que tinha acontecido ao animalão de ontem! Dando um de
seus raríssimos sorrisos, o Gatão asseverou que o bicho
simplesmente fora carregado até a cascata, onde depois caíra! Com
certeza, sem graves ferimentos, devido à sua corpulência! Na
verdade, fora para o animal, apenas um grande susto e um bom
banho! A pequenina riu alto! O Gatão não achou motivo para rir, mas
a alegria de Bella, o comprazia e fazia um contraponto, à natureza
mais sorumbática de Zé Gatão!
Nenhum comentário:
Postar um comentário