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quinta-feira, 8 de março de 2012

RETRATOS NA RUA.

Sempre tive muita admiração pelos artistas de rua. Sério. No Rio ou em São Paulo eu sempre perdia um tempinho pra ver os lutadores pularem através de uma roda de bicicleta cheias de facas ou rolos de arame farpado; tinha um tiozinho que pregava o Evangelho de Jesus no Largo São Bento (SP) equilibrado numa cordinha mequetrefe.
Certa vez no Largo da Carioca (RJ), um grupo de capoeiristas faziam uma exibição, a turma que assistia jogava uns trocados, os caras davam um salto mortal para trás e pegavam o dinheiro com a boca plantando bananeira, até que um deles, sei lá, talvez com os braços já cansados da proeza, caiu de boca no chão arrebentando os dentes, se vê de tudo numa situação assim.
Perto da Praça da República (SP) um trio de crianças negras (duas meninas, uma na guitarra, outra no baixo e um gurizinho na bateria) faziam um rock´n roll maneiro, executando na boa o hit Stand By Me popularizado pelo John Lennon; tempos depois vi essas crianças tocando no programa do Gugu.
Agora o que dizer dos artistas que fazem retratos e caricaturas na rua? Andando pelas avenidas do centro velho de São Paulo, tipo, Avenida Ipiranga, Rua 24 de Maio e outras, era muito comum ver aqueles caras retratando quem se dispunha a pagar o preço pra levar seu rosto feito a lápis ou carvão para casa. Certo, nem todos eram tão bons, mas só o esforço e cara de pau de alguns já merecem crédito.
Houve uma época na minha vida que eu estava completamente quebrado de grana, não tinha nem um real pra comer um churrasco grego na Avenida São João, pensei seriamente em me aventurar fazendo retratos nas praças, só não me arrisquei por que também não tinha cavalete, nem folha, nem carvão. E também porque sempre morri de vergonha de desenhar com pessoas me observando. Uma vez uma pessoa me disse que meu estilo realista de pintura seria bem recebida na Europa. Lá, segundo ela, artistas compunham suas telas pintando nas calçadas, o Velho Continente respirava arte. "Será mesmo?" Pensava eu.
Relembrando isto agora, me veio à mente um período muito tenso em casa, em que eu sem emprego, recebia recortes de jornal do meu pai quase todas as manhãs, coisas como balconista de lanchonete e atendente de não sei o quê, cheguei a responder a alguns daqueles anúncios, mas as vagas estavam preenchidas. Eu me sentia um merda. Meu pai devia estar muito ansioso pra se ver livre de mim naquela época, ele propôs me mandar pra França com passagem só de ida. A ideia era comprar uma passagem a prestação, eu destacaria algumas telas das armações, coisas que tinha pintado anos antes e colocaria num cone pra não ocupar espaço, uma vez lá eu poderia vende-las e ir me mantendo enquanto produzia novos trabalhos e assim sucessivamente. Um plano perfeito, enfim. Visto, passaporte e outros detalhes  pareciam não ter importância. Eu nunca pude dizer não,  e nem me atrevia, só que a coisa era sempre falada mas nunca levada a cabo. Eu já sabia por artistas que moravam na França, Espanha e Suíça, que não era nada fácil se destacar sem ter um lugar para morar. Mas eu estava disposto a tentar, nem que fosse pra morrer de fome e de frio, era melhor que a imagem de vagabundo que sempre me acompanhou. Sinto esse estigma até hoje.
Atualmente, ao caminhar por Recife vejo uns caras nas calçadas exibindo retratos de Elvis, Madona, Roberto Carlos e outros, alguns muito bem feitos e me pergunto se não estão passando pelos mesmos momentos complicados que passei um dia. Como nada posso fazer, mentalmente peço que Deus ajude esses artistas de rua a vencerem na profissão, sei que muitos não escolheram este caminho, foram escolhidos.
Este retrato que fiz a carvão foi para explicar a técnica passo a passo, este e outros exemplos devem estar chegando nas bancas em breve.

terça-feira, 6 de março de 2012

A CIGARRA E A FORMIGA ( CENAS FINAIS ).


 Há uma expressão aqui em Pernambuco quando algo é complicado: TÁ PAU! ou, É PAU! Tipo, alguém fez uma bobagem qualquer ou é frequente nas merdas que executa, "FULANO É PAU!" O ônibus tá atrasado? TÁ PAU!
Pois é, pensando nisto hoje, me dei conta de que vai fazer nove anos que estou exilado aqui. Quando cheguei, imaginava que ficaria o mínimo, achava que em um ano ou dois eu estaria de volta a Brasília, ou São Paulo. Todo ano eu pensava: Será o último. Até que o tempo foi me vencendo e eu parei de me preocupar. Algumas decepções que sofri com o mercado de arte/hq no início de 2004, mais a solidão que senti ao aportar nesta terra quente, gerou um amargoso álbum com histórias ultrapornoviolentas que ainda permanece inédito, e mesmo ele não foi capaz de dar vazão ao meu grito.
Quando me perguntam se gosto daqui eu respondo que me acostumei. Se eu dissesse que é ruim eu estaria mentindo, mas eu gostaria de voltar a Brasília. Na verdade eu queria voltar no tempo. Precisamente os meados de 1980. Queria estar com meus irmãos de novo, mas sem as angústias do presente. As dificuldades que enfrentávamos naquela época eram dureza mas estávamos juntos. Éramos como uma corda bem entretecida. Separados, parece que ficamos mais frágeis. Eu pelo menos me sinto mais enfraquecido.
Nove anos aqui. Só sentado dentro do meu quartinho produzindo rotineiramente desenhos que os outros me encomendam. Como passou rápido! Rápido como um tiro na nuca. Não, na nuca não, na barriga. Uma bala na nuca você apaga no ato, já nas tripas você perece devagar curtindo cada segundo de sofrimento. Hemorragia e a merda se misturando à corrente sanguínea provocando uma avassaladora infecção.


A cigarra cantava ao invés de trabalhar, chegou o inverno e ela não tinha onde se abrigar nem o que comer, a formiga trabalhou duro provendo a ela e a toda sua comunidade substância para os dias maus. Há quem diga que a cigarra com sua arte deu alento às trabalhadoras durante sua labuta. Será?
Enquanto vou produzindo estes desenhos que pela misericórdia de Deus me encomendam, não posso nem me dar ao luxo de, como Carolina, olhar a vida passar na janela. É PAU!


quinta-feira, 1 de março de 2012

ZÉ GATÃO ( AQUI E AGORA)


 Pelo que fui informado, a edição especial da P.A.D.A. com Zé Gatão, esgotou sua pequena tiragem inicial. Se farão uma nova impressão ainda não sei, mas na ocasião do lançamento alguma pessoas me perguntaram se a hq "Righ Here, Right Now" teria num futuro próximo uma publicação no seu original em cores. Respondi que não havia planos para isto naquele momento. Pra quem não sabe, esta história saiu em preto e branco no álbum.
Bem, como a revista não está mais circulando, então não vejo problema em posta-la aqui (inclusive com meu letreiramento à lapis, não reparem).
Esta hq foi um dos tantos experimentos de cores, lápis e papéis que fiz quando ainda tinha saco pra isto. Na verdade não deixa de ser uma sátira aos programas pseudo-jornalísticos policiais apelativos de fim de tarde.






quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SATISFAÇÃO.

Uma das coisas que me dão muito prazer é ver minha criação pelo traço de outro artista. Algo comum em personagens bastante populares como Batman e Wolverine, mas não um tipo ainda obscuro como Zé Gatão (ainda mais que o nome do personagem não diz exatamente qual o teor de suas histórias e pelo que pude perceber estes dias ainda provoca risos nos ignorantes).

É bem verdade que a meu pedido, artistas bastante gabaritados fariam uma pin-up dele numa boa, tanto que no passado um dos meus planos era criar um álbum de hqs curtas com ilustrações de caras feras entre as histórias, os convidados da pesada ficaram entusiasmados (menos o Flávio Colin, que recusou), porém uma série de motivos abortaram o projeto, mas é uma grata surpresa me deparar com um desenho homenageando minha cria.

O que ilustra o post de hoje foi feito no ano passado pelo grande LANCELOTT MARTINS para seu site HQ QUADRINHOS ( http://hqquadrinhos.blogspot.com/2011/01/ze-gatao-by-eduardo-schloesser.html ) dedicada a fazer do conhecimento de todos quanto possa, o rico universo de personagens brasileiros. O Lancelott é uma espécie de gigante, desses batalhadores incansáveis pelo fortalecimento do produto nacional sem desprezar as boas coisas que os gringos produzem.



Tivemos um Zé Gatão retratado pelo artista José Carlos Braga ( http://fotolog.terra.com.br/josebraga ) e outra pelo André Rodrigues do estúdio de animação Quadro a Quadro aqui de Recife. Este do Lancelott ficou bem selvagem, ne´não?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A CIGARRA E A FORMIGA ( CENAS 01 E 02 )


É bom estar por aqui de novo, mas brevemente. Acabaram os dias de folia (ainda bem). Agora quem sabe este país possa dar mais um passo para frente (sim, um passo por vez; é como parece que ele anda).
A batalha em cima da prancheta continua mas agora já estou mais organizado. Meu pai já está em casa, contudo o estado de saúde dele é delicado. Continuo trabalhando como um doido e ainda não me pagaram o que devem. I´m broke. Enfim, nada novo.
Deixo aqui com vocês duas imagens do infantil "A Formiga e a Cigarra".

Até semana que vem, se Deus quiser.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ZÉ GATÃO - MEMENTO MORI ( A gênese de uma capa )


 Bom dia pessoal.
O dia hoje por aqui amanheceu escuro, chuvoso, algo muito peculiar para esta época do ano, tomara que sirva para minorar o calor que anda fazendo.

Pois é, sentei-me diante do computador para escanear umas imagens para um editor e ao checar meus e-mails deparei-me com uma carta do meu grande amigo José Roosevelt; para meu deleite ele sempre escreve longas missivas contando como é a vida na Europa e sobre o mercado editorial de lá e também faz comentários sobre coisas que ele leu e achou interessantes neste blog. Desta vez o tema discorria sobre o frio arrasador que fez vítimas no velho continente, velhice e morte - nada lúgubre, bem entendido - mas uma sábia reflexão sobre nossa breve passagem por este mundo; o que me pôs a pensar sobre este espaço que inicialmente usei como uma vitrine para mostrar algumas das minhas pobres artes e que acabou se tornando, quase sem que eu me desse conta, uma ferramenta para desabafar um pouco nos meus constantes momentos de crises. Sim, é um dos meus exercícios de vaidade, estou ciente; pelos números, noto que as visitas tem aumentado, seguidores vão se somando paulatinamente, embora os comentários ainda sejam poucos.
Penso que um espaço como este sirva, usando uma metáfora tola, para nos sentirmos como pequenos deuses, como aqueles ídolos de pequenas dimensões que as tribos e famílias do oriente possuíam ( igual aquele que Raquel pegou de Labão, seu pai). Deuses de argila que se quebram à primeira queda, pois somos por demais efêmeros.    
Sempre me pondero por quanto tempo ainda continuarei com este blog. E com o risco de parecer cu doce, a tentação de abandona-lo sempre sopra em meus ouvidos como ventos sedutores. Uma hora terei que parar, é inevitável, mas enquanto este dia não chega, continuo usando-o como mais um instrumento de trabalho e divulgação, e a quem interessar possa, hoje mostro as etapas de criação da capa do meu último livro publicado.
Na verdade a capa para Memento Mori foi criada em fins dos anos 90 como pode ser conferida no alto, mas por sugestão do meu amigo Kaique, seria legal ela conter elementos mais simbólicos.
O que me serviu de inspiração foi a arte promocional do filme Drácula de Bran Stoker, dirigida por Francis Ford Coppola.


Partindo daí fiz minha própria leitura utilizando elementos existentes na minha HQ.
Fiz um esboço para ver com o editor Leandro Luigi Del Manto se a coisa era viável.


Uma versão colorida.


Aprovada pelo editor, iniciei o processo de pintura. Primeiro os desenhos preliminares.


Depois a imagem na base onde seria pintada, no caso, em uma chapa de papelão.


Um banho de tinta acrílica sobre toda a base e em seguida as primeiras pinceladas a óleo.


 A arte que ilustra a parte de de trás também tinha sido criada a muitos anos antes e era uma das possibilidades para capa do álbum.


 Capa pronta para um trabalho que aos poucos vai sendo notado.


 Tenham todos um bom feriado e a gente volta a se falar após o carnaval se o Senhor Jesus assim o permitir.

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...