domingo, 4 de março de 2018
AS MAIORES HQS DE TODOS OS TEMPOS: BLOODSTAR
Richard Corben é um dos maiores artistas de todos os tempos, um dos que mais influenciaram a minha forma de fazer quadrinhos, mas não é para falar exatamente dele que estou aqui, mas para comentar a respeito de uma das melhores obras que ele realizou: BLOODSTAR.
Quem me acompanha a muito tempo sabe que esta série que batizei de "os melhores quadrinhos de todos os tempos" não tem como objetivo destrinchar este ou aquele comic, mas falar o que ele significou em minha vida e porque eu acho um dos mais significativos do mundo (pela minha ótica).
Bloodstar é uma adaptação do conto "The Valley Of The Worm" de Robert E. Howard, o mítico criador do Conan, e narra a história de um guerreiro aesir que nasce com um sinal na testa que lembra uma estrela vermelha, daí seu nome: Bloodstar. A narrativa começa com o fim da civilização causada por uma estrela que desencadeia desatres naturais em nosso planeta. O mundo acaba e os sobreviventes voltam ao estado de barbárie. Tribos se formam e duas delas guerreiam entre si: Os pictos e os aesires. Num destes confrontos dois inimigos mortais acabam se tornando como irmãos, Bloodstar e Brom, o picto. Nesta graphic novel magistralmente ilustrada por Corben temos romance, traição, criaturas fantásticas, muita aventura e violência até tudo culminar com o duelo entre o protagonista e um gigantesco verme conhecido como o Rei do Abismo do Norte. Uma história trágica.
Veio a público pela primeira vez em 1976 numa edição limitada e numerada.
A cópia que tenho é uma edição espanhola e é colorida (não pelo próprio Corben, infelizmente, mas segue seus métodos de colorização). Na minha opinião a cor matou um pouco da força das ilustrações do livro.
Encontrei meu Bloodstar em uma pequena livraria situada dentro de um cineclube na Rua Augusta em São Paulo. Era bastante caro na época, não só por ser um item raro, mas também por causa de uma moeda forte, a peseta, em relação ao nosso dinheiro. Eu não podia perder aquela oportunidade, pedi ao meu pai e embora estivéssemos muito apertados neste período ele me deu a grana para comprar o álbum.
Bloodstar me marcou muito no início dos anos 90, tinha todos os elementos que eu gostava numa aventura: bárbaros, mulheres sensuais, javalis, cobras e tigres pré históricos, além do final épico. Falar muito é chover no molhado, só lendo para se certificar.
Nunca foi lançado no Brasil e mesmo nos EUA e Europa teve poucas reedições e está esgotada a muitos anos, o que é uma pena para os amantes de quadrinhos sensacionais.
domingo, 25 de fevereiro de 2018
SPACE GHOST
Não faz muito tempo, alguns comentários numa postagem qualquer do Facebook me acenderam uma ideia: revisitar alguns heróis da minha infância, aqueles da Hanna Barbera que me deixavam eletrizados diante da tv. Mightor, Dino Boy, Herculóides, Frankenstein Júnior e outros. Ando totalmente sem tempo para os trabalhos pessoais (vejam, nunca mais rabisquei em meus Crazy Sketchbooks e a nova aventura de Zé Gatão está interrompida) mas não resisti e parei o que estava fazendo para cometer minha primeira homenagem a uma das imortais criações do Alex Toth: o Fantasma do Espaço. Desenho rápido, sem muitas firulas.
Tenho planos para outros mais, quem sabe os Flintstones? Scooby Doo? Ficariam legais no meu traço? Digam aí nos comentários.
Beijos a todos e até pra semana, se Deus quiser!
domingo, 18 de fevereiro de 2018
RECARREGANDO AS BATERIAS.
Passei os últimos dias totalmente desconectado do trabalho e acessei a internet só para me comunicar com minha esposa e ver se havia algum e-mail urgente. Nem meus pequenos cadernos de desenho (que eu chamo de "crazy sketchbooks") que geralmente eu levo a lugares longe do meu estúdio eu quis contato. Tudo isto para fazer uma visita à minha mãe e meus dois irmãos que moram em Brasília. Descansar a cabeça da rotina diária era tudo que eu precisava ainda que por um breve tempo. Estar com minha mãe foi uma benção que pedi a Deus a muitos meses e as preces foram atendidas. Nem preciso dizer o quanto valeu. Mal liguei a televisão por lá, ouvia falar do Carnaval só por alto.
Foi muito bom rever Brasília, seus prédios deitados, suas árvores, seu verde, seu céu de nuvens baixas, mas tudo me soa como se a cidade fosse uma mulher por quem sempre fui apaixonado e ela tivesse me esquecido para sempre.
Recebi visita do meu old pal Luca Fiuza e do Nestablo Ramos Neto, grande artista e companheiro de mais de 20 anos. Foi bom revê-los e falar sobre os velhos tempos já que os atuais tem se mostrado difícil para todos - seria a crise do país ou a idade que já pesa sobre nossos ombros? - assuntos sobre filmes, quadrinhos, literatura, séries e nossos trabalhos pontuaram estas conversas.
André Araújo, um médico pediatra, amigo e admirador do meu trabalho me convidou à casa dele e fui com gosto pois a coleção de quadrinhos dele prometia ser grande e eu não me decepcionei. Fui carinhosamente recebido por ele e sua família. Passamos algumas horas falando sobre o assunto que nos unia: HQs e coisas afins. Conferis os gibis raros dele, estatuetas e muitos book arts. Para checar todo o acervo eu precisaria de muito mais tempo e eu tinha que voltar para casa para fazer as malas e retornar a Pernambuco.
Ele quis tirar umas fotos para registrar o encontro e aqui estão.
Voltei e ainda me sinto preguiçoso, retorno às artes aos poucos e tenho muita coisa a fazer, felizmente.
Mas me sinto estranho, cada vez mais como se eu não tivesse pátria, como se não pertencesse a nada nem a lugar algum.
domingo, 11 de fevereiro de 2018
AMARRANDO O BURRO COMO O DONO DO BURRO MANDA.
Não estou em casa e uso um computador alheio, o teclado é um tanto diferente por isto me atrapalho um pouco para digitar. Mas tudo bem, a postagem será breve.
Recentemente trabalhei em uma encomenda para um cliente dos EUA. Sabem essas figuras antropomórficas grotescamente musculosas que costumam adornar as paredes de academias de musculação e também camisetas dos entusiastas da cultura física? Não? Bem, não faz mal, a arte que executei, ilustrada neste post, mostra a que me refiro.
O primeiro esboço que fiz do personagem, apesar de exageradamente grande, ainda ostentava uma certa elegância. Qual o quê, a cada mostra o cliente pedia para eu aumentar o volume muscular e também a vascularização (postei os sketches a umas duas semanas atrás, lembram?). Cheguei a pensar que a cabeça ia sumir em meio a tantos músculos. Por fim ele deu sinal verde e pude pintar.
Eu até cheguei a gostar do resultado. Recebi pelo serviço e a arte está a caminho dos states.
Um abraço afetuoso e apertado a todos.
domingo, 4 de fevereiro de 2018
UM NOVO ZÉ GATÃO QUE MOROSAMENTE VAI GANHANDO FÔLEGO.
Nasci em São Paulo no ano de 1962. Meus primeiros anos de vida foram vividos com meus avós maternos pois meus pais, sem uma casa, ainda lutavam duro pra nos trazer o sustento a cada quinze, vinte dias.
Meu avô veio de Strasburgo (França) logo depois da primeira guerra e se estabeleceu no interior paulista construindo casas. A lembrança que tenho dele é que era calado e rude com minha avó. Esta por sua vez não perdia a oportunidade de me castigar com surras fosse pelo que fosse. Ela tinha a mania de frequentar velórios e eu sempre era levado junto. A morte, parece, sempre me acompanhou de perto. Mesmo assim eu amava esta avó com amor incondicional.
Meu pai também se revelou um pesadelo assim que fui morar com ele. Por tudo isso, eu penso, me tornei arredio e tímido, com grande dificuldade de me adaptar em qualquer meio. Na infância os valentões (sempre eles) eram como cardos dentro dos sapatos. Eu odiava a escola. Meus primos diziam que eu era baixinho e feio. Vivia apanhando dos professores e dos meninos mais velhos. Eu nunca dizia nada em casa. Achava que estava sozinho no mundo.
As histórias em quadrinhos entraram cedo em minha existência e foi ali que descobri uma forma de escapar da vida. As primeiras edições que tive acesso foram as HQs da Disney e do Maurício de Souza. Não tardou para chegar às minhas mãos as publicações da Ebal, uma editora maravilhosa que nos trazia Tarzan (o meu preferido), Lone Ranger, Cisco Kid, do argentino José Luis Salinas, Príncipe Valente, de hal Foster, Jim das Selvas e Flash Gordon de Alex Raymond, além dos heróis da Marvel e DC. Isso sem falar das publicações da Globo, a maior concorrente da Ebal, com histórias do Spirit, Fantasma, Mandrake, Dick Tracy, Sobrinhos do Capitão e muitos outros. Não sei qual editora publicava Riquinho, Tininha, Bolota e Brotoeja, mas eu devorava esses gibis, juntamente com Gasparzinho e Brazinha. Sim, claro, Luluzinha e Bolinha!
Claro que eu nunca tinha dinheiro para comprar isto, eu lia na maioria das vezes na cara dura na própria banca de jornal no centro velho de São Paulo ou quando alguém menos cruel se dispunha a me emprestar.
Com Tintim (que eu lia numa biblioteca pública) eu viajava o mundo e até ia para a lua, então surgiu o terror da Kripta e não muito depois os mundos fantásticos da Metal Hurlant. Eu me divertia com Mortadelo e Salaminho, Asterix e Mad (sempre lendo as edições dos poucos amigos que tive).
Talvez por não morar em São Paulo eu não tive acesso ao que era produzido no Brasil com suas HQs de terror e sexo. As edições da Spektro e Calafrio eu só vim conhecer melhor nos fins dos anos 80.
Isso tudo, acredito, me incentivou a desenhar, mas eu fazia coisas só para mim mesmo e uns pouquíssimos companheiros de escola, nunca me imaginei fazendo disso uma profissão, acho que por esta razão eu nunca me preocupei em me lapidar cedo, buscar recursos, desenhar melhor, eu comecei muito tarde nisto tudo.
Foi nos tormentos da vida no Rio de Janeiro que passei a me preocupar com o que eu faria do meu futuro e foi na arte que encontrei um rumo. Eu comecei a ter melhor noção de anatomia, luz e sombra, dobras de tecido, reproduzindo a lápis modelos de revistas de moda e maquiagem. Em contrapartida nunca me preocupei com perspectiva (algo que ainda hoje me dá dor de cabeça), prédios, carros e essas coisas. Nunca tive paciência para desenhar instrumentos musicais, móveis, mesas e cadeiras. No estúdio do Edgar Cognat esta paciência teve que ser duramente desenvolvida, eu precisava de disciplina e ali encontrei alguma. Mas não durou muito.
Tive meus momentos de "artista" trabalhando no SENAC em Brasília, mas foi quando finalmente eu regressei a São Paulo e me dar conta de que haviam quadrinistas talentosos que me senti desafiado a ser melhor do que eu pensava que eu era. Foi um duro caminho. E para cada um artista gente fina que eu encontrava (Arthur Garcia, João Pacheco, Franco de Rosa) eu me esbarrava com um bando de prepotentes que se achavam deuses. Com o passar do tempo vi que isso não se limitava só aos desenhistas, mas também editores e jornalistas especializados no assunto.
Mesmo com isso me retraindo eu procurei fazer meus quadrinhos nas frias madrugadas paulistas (neste tempo já influenciado pelo underground europeu - tá, um pouco de americano também, Crumb, por exemplo) sempre tentando aprimorar minhas narrativas.
Terminei meu último Zé Gatão (DAQUI PARA A ETERNIDADE) em 2003 e depois disso fiz umas poucas HQs curtas com o personagem e mais nada! Hoje, volto a trabalhar em uma nova aventura do felino nos meus intervalos de pagaluguel, tento fazer da mesma forma instintiva que fiz o meu primeiro álbum, tendo um texto como fio condutor e inventando pelo caminho, tentando me divertir e desabafar no processo criativo.
Nesta postagem, alguma cenas do que venho produzindo.
Vejo alguns programas no Youtube que falam sobre quadrinhos nacionais para me sentir antenado e noto que o que vem sendo publicado hoje é bem diferente do que eu lia na infância. Tudo tem veia de adulto, de autobiográfico, com desenho tosco, cartunizado. Não tenho vontade de ler.
No meio disso tudo sinto que não há publico e espaço para mim, mas mesmo assim eu vou fazendo um quadrinho hoje, outro na próxima semana, quando der. Um dia fica pronto. Talvez eu publique eu mesmo uma tiragem pequena para quem quiser ler.
Um fã me procurou para perguntar porque eu não compareço no FIQ ou na CCXP. Ele queria saber se eu sofria alguma perseguição por ser cristão e reaça de direita. Eu respondi a ele que não era isso, não, eu não era convidado pra esses lugares porque os organizadores não sabem que eu existo, nunca ouviram falar de mim e que isto não me importava. Não me sinto inserido neste mundo, não faço parte dele, nunca fiz. Os quadrinhos nacionais que são publicados hoje pelas editoras nada tem a ver com o que eu procuro fazer em Zé Gatão. Eu ainda sofro as influências de Corben, Wrigtson e Liberatore. Os atuais gibis tem muito pouco disso.
Será que nos encontramos na próxima semana? Deus sabe.
Beijos a todos!
domingo, 28 de janeiro de 2018
ESBOÇOS APENAS.
Mais um dia sem tempo para escrever um texto como eu gostaria.
Tenho recebido umas encomendas de clientes americanos. Não é lá essa grana que eu gostaria mas ajuda a pagar as contas.
O difícil é acertar o tom das ilustrações. Vários esboços se fazem necessários até que o cliente aprove.
Até outro dia!
domingo, 21 de janeiro de 2018
A MARCA DO ZORRO.
Amadas e amados, boa noite!
Esta semana, enquanto trabalhava eu via um vídeo no Youtube falando sobre o atual cenário de quadrinhos nacionais e refleti um pouco a respeito, entretanto, dividir meus pensamentos com vocês terá que ficar para uma outra oportunidade (semana que vem, quem sabe?) pois não tive tempo de maturar um texto decente. Incrível como o tempo parece encolher a cada dia!
Um admirador do meu trabalho, de Brasília, me encomendou uma arte do Zorro, personagem que tive o maior prazer em executar, posto que foi uma das minhas alegrias na infância. Eu não perdia um único episódio quando passava na tv e devorei os poucos quadrinhos que me chegaram às mãos (detalhe, só recentemente eu fiquei sabendo que quem desenhava as aventuras do justiceiro mascarado era o brasileiro Walmir Amaral - http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,walmir-amaral-o-eterno-heroi-da-era-de-ouro-dos-quadrinhos,1575794).
Evidentemente fizeram vários filmes com este herói, acho a versão com o Antônio Banderas muito decente, contudo, quem eternizou - pelo menos para mim - o vigilante no período que a Espanha colonizou aquela parte da América, foi o Guy Willians na década de 50, produção de Walt Disney. Ainda hoje uma série que não perdeu a força. Dom Diego (Zorro), Bernardo (o fiel ajudante mudo), Dom Alejandro, Sargento Garcia, Cabo Reis, Capitão Monastério, o magistrado, o misterioso Águia...fantástico! O tal de Batman deve ter aprendido com o Zorro a ser um playboy mulherengo e beberrão durante o dia e fazer justiça a noite.
Pra me inspirar assisti alguns episódios no Youtube e fui atrás da biografia do Guy Willians, que uns anos mais tarde seria o professor Robinson de Perdidos no Espaço. Inacreditável o fim que ele teve.
Minha homenagem a este grande herói que enterneceu a minha infância.
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