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sábado, 25 de setembro de 2021

RELEMBRANDO MEMENTO MORI E DAQUI PARA ETERNIDADE.

 

 Acho muito difícil eu criar novas HQs de Zé Gatão. Ainda há SIROCO para publicar e também as várias narrativas curtas que devem preencher uns dois álbum com mais de cem páginas cada um. Essas histórias breves eu fiz ao longo dos mais de vinte anos que o personagem existe para os leitores (caramba, tem uns trinta anos que o felino cinza foi gestado!). No entanto para esses materiais não há nada concreto em termos de editoração. Da minha parte não há pressa. 

Porque não há desejos de criar nada novo com o personagem? Sabem, entendo bem porque o Led Zeppelin acabou depois da morte do John Bonham, ou o porque os dois membros restantes do Rush não substituíram o Neal Peart após o falecimento dele. Penso que esses músicos foram tão importantes na trajetória dessas bandas que sem eles o som não seria mais o mesmo. Há a questão do respeito também. Sou grande fã do Queen, mas colocar outros cantores no lugar do Mercury não me soou bem, tanto que nunca ouvi o material novo. O que as bandas de rock tem a ver com Zé Gatão? Simples, sem mamãe e Gil minha fonte de inspiração secou. O Felino é um personagem muito querido, faz parte da família, difícil eu elaborar novas sagas se minha mãe e irmão não estiverem aqui para compartilhar comigo as alegrias e tristezas nesta jornada de criação, publicação e divulgação. O que está feito vou dar um jeito de que venha a público (inclusive planejo um livro com todos os contos escritos pelo Luca Fiúza), mas material novo não; pelo menos não por um bom tempo.  

Gosto muito de Memento Mori e Daqui Para a Eternidade, tenho orgulho de ter concebido esses livros; com eles, creio, provei o que tinha de provar em termos de desenho e narrativa gráfica. 

Assim que o álbum branco foi lançado ficou a pergunta: o que aconteceu com Zé Gatão após aquele cataclismo? Eu era indagado por alguns leitores - e cobrado também - se haveria continuação. Lógico que eu pensava em novas histórias mas não tinha em mente um prosseguimento a partir daquele ponto. No entanto uma centelha brilhou no escuro da minha alma e pensei numa situação de revolta e vingança misturando elementos místicos com um pé no terror. Ideias começaram a brotar e ainda em 1998, morando numa pensão em Brasília - com meu querido irmão Gil - eu comecei a corporificar as abstrações que vinha tendo. Rabisquei um roteiro básico e vários garranchos para me situar. Labutava de madrugada, durante o dia eu ganhava o pão trabalhando numa agência de comunicação concebendo quadrinhos instrucionais. Tinha muito gás e sonhava com muitas boas perspectivas. A principio ela não era para ser tão longa mas as conceituações foram brotando e eu dei tratos à bola. 

O meu plano era publicar na Via Lettera,  logo depois que o Crônica do Tempo Perdido viesse à baila. Os anos passaram e Crônica demorava, nesse meio tempo eu ia tocando Memento Mori e histórias mais curtas. Todo o desenvolvimento se deu entre Brasília e São Paulo (nesses tempos eu alternava de um lugar a outro) sendo que eu finalizei em Pernambuco, onde vim morar em 2003. Quase seis anos para concluir tudo! Como a história tinha mais de 400 páginas eu dividi em três partes intituladas "Memento Mori",  "Ventos da Noite" e "Anátema". Achei que seria mais fácil oferecer assim para quem se interessasse. Depois tudo isso mudou, como veremos à frente.

Crônica do Tempo Perdido finalmente foi publicado e houve certo barulho, mas não "aconteceu" e Memento Mori não passou de intenção por parte da Via Lettera.

De qualquer modo, alguma fortes  decepções com o mundo dos quadrinhos me fizeram envelopar o material e aguardar. Ele só saiu para respirar quando certa vez, ao telefone, o editor Leandro Luigi Del Manto, que sempre disse gostar do que eu vinha produzindo em São Paulo, me perguntou se eu ainda tinha aquelas páginas do Zé Gatão. Sim, disse eu. Me mande amostras do material, falou ele, pretendo mostrar aos publishers. Mandei. Isso deve ter sido por volta de 2006. O Douglas, um dos donos dono da Devir, achou melhor esperar. O anseio durou até 2011. Nesse meio tempo eu dava sequência a outros projetos, A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe foi o principal deles.

Em 2011, decidido a acabar com as férias forçadas do Felino cinza, retirei da gaveta as HQs curtas que havia feito nas décadas passadas e motivado pela publicação do Zona Zen (criação do amigo Nestablo Ramos) pela revista Prismarte, procurei o Leonardo Santana - que dizia ser fã do Zé Gatão - e ofereci qualquer uma das histórias curtas para fazer parte da Prismarte. Ele gostou tanto da ideia que levou o caso para os outros membros da PADA. O resultado foi que decidiram não por uma, mas por várias HQs, elas fizeram parte do já comentado aqui especial Graphic PADA. 

Neste mesmo ano o Leandro, vendo um momento favorável tornou a abordar o Douglas que topou finalmente publicar o Memento Mori. Aleluia!

Como eu tinha que fazer uma viagem a São Paulo para o aniversário da minha sobrinha (Alice, filha do André) eu aproveitaria e combinaria in loco com os editores da Devir os detalhes do novo livro. 

Minha ideia, claro, era um tremendo calhamaço com as mais de 400 páginas em formato álbum (o formatão típico dos europeus), mas naquela tarde quente em que estive na agradável companhia do Douglas e do Leandro eu me vi frustrado em minha tentativa. Para um melhor aproveitamento de papel e outros detalhes técnicos que um editor entende melhor do que eu, Memento seria dividido em duas partes e as medidas seriam como as de um livro normal. Tudo bem para mim, era melhor aquilo que nada.

Memento Mori viria a público em outubro de 2011 depois de ficar no ostracismo por oito anos!!!!

Infelizmente não teve a receptividade que eu imaginava, não como o Crônica do Tempo Perdido apesar dos esforços da editora em divulgar, contudo foi bem resenhado pelos  Melhores do Mundo e alguns jornais com pequenas notas. No entanto os sites e blogs especializados em HQs o ignoraram solenemente. Mas obtive retorno de alguns leitores e elas não poderiam ser melhores. E isso é o que de fato faz valer a pena o esforço.

A segunda parte ficou prometida para dali a uns seis meses.....e demorou cinco anos!!!!!

Eu tinha dois títulos para a continuação: Daqui Para a Eternidade e Tapetum Lucidum. Botei em votação entre meus três irmãos e o Leandro. Eternidade ganhou de 3 a 1 (só o André optou pelo nome em latim). 

Daqui Para a Eternidade virou realidade em maio de 2015 e não foi comentado e anunciado por ninguém, mais uma vez obscuro, só que sem as notas de jornal que tinham dado destaque ao volume anterior. Mas para mim isso não importava de fato, me bastava saber que finalmente eu tinha tirado esse esqueleto do armário e eu sabia que ele era bom, muito bom! O resto, era o resto. 

Essas sementes darão frutos mais saborosos num futuro? Talvez sim, talvez não, já não me importa. Botei a mão na massa e às duras penas fiz acontecer sem puxar o saco de ninguém. Durmo tranquilo quanto a isso.



domingo, 19 de setembro de 2021

OS DIAS DA GRAPHIC P.A.D.A. ESPECIAL ZÉ GATÃO


 Como voam os anos! 

Hoje passei o dia de cama, adoentado com um problema que vez por outra vem me atormentar, a velha lesão nos músculos lombares. É assim, eu procuro tomar cuidado ao erguer algum peso extra sabendo que tenho essa limitação, no entanto as vezes só de me abaixar para pegar algo no chão sinto uma espécie de choque no local e fico torto. É UMA MERDA ISSO! Tem vez que é leve e passa logo, noutras não consigo ficar em pé ou sentado muito tempo, e ficar deitado cansa. É horrível porque além de tudo há muito trabalho a ser feito e o tempo é cada vez mais reduzido.

Precisei, na manhã de ontem, tirar água da cisterna com baldes para encher um enorme barril. Depois de uma meia hora nesta aventura as costas travaram. Verônica veio e qual uma guerreira amazona completou todo o serviço de encher o tonel com água. E eu como um velho decrépito tive que me conformar em andar como um símio no seu ocaso.  

Mas comecei essa postagem falando da passagem do tempo, né? Eu conversava com a Vera sobre uns acontecimentos de 2010 e 2011 e na minha mente veio à lembrança a publicação independente Graphic PADA Zé Gatão. 

É um gibi legal (embora eu seja suspeitíssimo para falar), um tanto triste, mas foge um pouco do terreno da aventura e violência sempre presentes. 

Sei que é bobagem comparar os tempos passados com os de agora, até porque cada período tem suas alegrias e tristezas, mas como não confrontar? Naqueles idos meus pais estavam vivos, meu irmão Gil também, a avó e irmão da Verônica idem. Havia aquela vontade natural de continuar produzindo, o sonho de morar num lugar mais aprazível e tal. 

Pensando hoje, vejo como a deterioração de tudo na minha vida não foi de forma imperceptível, ela se escancarou principalmente após o ano de 2014, talvez até um pouco antes. Mas eu nem posso me queixar, de fato, sempre colhemos o que plantamos e eu nunca discerni bem quais sementes eram boas.

Apesar de tudo, eu não tenho vontade de reler o Zé Gatão PADA, nem qualquer outro quadrinho que eu já tenha criado.

Agora falam de um possível tsunami a inundar a costa nordestina por causa do tal vulcão lá das Ilhas Canárias. O que eu poderia fazer? NADA! 

É isso, esse blog continua com cada vez menos leitores. Pudera, eu só venho aqui para reclamar!

Vou me deitar um pouco pois minha região lombar requisita repouso.

Seguimos em frente. Beijos a todos. 

domingo, 5 de setembro de 2021

BLACK BALLS

 Trabalho, trabalho e trabalho. É só o que faço. Não só trabalho com arte (argh, ainda me incomoda usar essa palavra para designar o que faço, arte mesmo fez Beethoven, Rembrandt, mas vá lá) mas em inescapáveis tarefas domésticas. Por isso admiro e invejo tanto os gatos. Dormem pra caralho e sempre encontram a comida no prato, e a água, e o carinho (da minha parte, pelo menos). Bom, pensando bem, só se for os gatos das madames, gatos de rua podem até dormir muito durante o dia mas rango fácil é outra história e durante a noite sempre são batalhas homéricas por território, por uma trepada, sei lá.

 Adotamos um gato em nosso prédio. A mãe dele apareceu certo dia e uns vizinhos a alimentaram e depois ela não saiu mais daqui. Nós também sempre dávamos leite a ela. Aí ela engravidou (claro). Três rebentos, o pai devia ser um siamês, dois machos com aquelas colorações típicas dos siameses e uma preta igual a mãe. Depois nossos vizinhos se mandaram daqui e continuamos a alimentar os felinos. Os pequenos eram ariscos que só. A pequena preta desapareceu (roubaram? mataram?) mas os outros dois eu fui me  aproximado e até mesmo encurralando num canto e depois de muito cansaço acabaram me aceitando. Um deles nós batizamos de Vesgo. Isso mesmo, olhos azuis e zarolho. O outro alcunhamos de Saco Preto. É exatamente isso que vocês pensaram, as bolas dele são pretas.

A mãe deles foi vasectomizada e hoje vejo-a bem pouco, o Vesgo também, acho que encontraram refeição num prédio próximo, de vez em quando aparecem aqui, mas o Saco Preto não, esse nos "adotou", nosso pequeno prédio se tornou o seu território, diariamente ele tem sua ração, água e muito carinho meu e da Verônica, mais meu, na verdade. Deixamos ele entrar um pouco em casa e desfrutar de nossa companhia, depois ele se cansa e vai embora. Não raro ele  aparece ferido pela manhã, numa das últimas vezes haviam ferimentos feios na cabeça, como se fossem feitos por presas caninas (estaria ele enfrentando cães em suas rondas noturnas?). Nesse ponto ele me lembra o Zé Gatão. Certa vez o ferimento foi no rosto, o que lhe conferiu uma baita cicatriz. Sempre cuido dele passando uma medicação sobre as chagas. É muito bom quando me aproximo dele e ele encosta sua testa na minha, é como um pequeno bálsamo para essa dor que teima em habitar o meu peito, essa saudade que sei, nunca vai morrer.

Na verdade não era minha intenção falar sobre gatos hoje mas ainda bem que vieram à baila, ariscaria  repetir minhas lamentações. Os trabalhos continuam e estão ficando bons mas nada de projetos pessoais, esse dormem e nem sei se acordarão um dia. Como o dinheiro acabou, agora batalho um terceiro trampo que pague as contas. Se conseguir (espero, preciso!!!) estarei acumulado de tarefas, então se eu  demorar a vir confabular com vocês aqui, já sabem o motivo. Mas prometo vir pelo menos para deixar uma arte, ok?

Beijos a todos vocês e muito obrigado!

  

domingo, 22 de agosto de 2021

UM PASSO PRA FRENTE E DOIS PARA TRÁS.

 

O calor dá sinais de retorno após um breve tempo de frio, algo bem incomum nesta região do país. Eu aproveitei cada segundo, dormi até com algumas cobertas, vejam só!  Mas a quentura sempre incômoda já acena no horizonte, nada há que possa impedir aqueles momentos de enfado, suor abundante e noites mal dormidas. Mas como nos recomenda o livro sagrado, por tudo temos de dar graças. 

Antes eu tinha sonhos de sair daqui, ir para outro lugar, um lugar que fosse bem tranquilo e mais frio (notem bem, falo de frio suportável, ok?), meu objetivo sempre foi voltar para Brasília, mas hoje não mais, eu e a cidade dos meus encantos nos divorciamos de vez, tudo, claro, porque mamãe e Gil não mais estão entre nós, eles sempre fizeram parte daquele lugar. A perda me afetou de tal forma que não tenho mais como recuperar o antigo eu, o Eduardo Schloesser que existia até o início de fevereiro deste ano se foi para sempre, o de hoje vive e respira mas não passa de uma cópia mal feita do outro. Estou tentando me recompor, me reconstruir para continuar a passar pela vida, trabalhando (e trabalhando duro, como podem ver pelas artes neste post) afim de obter o teto e comida na mesa, mas sem sonhos. Não haverão mais aventuras do Zé Gatão. Tenho material suficiente do felino para mais uns três álbuns (se conseguir publicá-los), mas é tudo coisa antiga, inédita, mas antiga. Parecia até que eu antevia que SIROCO seria mesmo a última saga e foi concluída em fins de 2020. 

Não quer dizer que não vá mais criar quadrinhos autorais, tenho roteiros prontos há muito tempo e a ideia era corporificá-los aos poucos como sempre fiz, mas agora é uma incógnita, no presente instante não há a menor vontade para isto. Histórias eu tenho para contar, mas não sei se vale a pena, é tudo muito difícil de realizar, antes eu me dava por satisfeito só em ver o projeto pronto, finalizado, eu dividia este prazer com mamãe e Gil, agora é como se eu tivesse apenas o vento ao meu redor. Claro, tenho ainda o André e o Rodrigo, mas este meu mundo não é o deles - não os critico de forma alguma, eles tem suas dores e lutas para enfrentar - simplesmente minha arte era algo entre nós três, principalmente o Gil, com quem eu confabulava sobre minhas criações e ambições. Nesse ponto fiquei definitivamente só e devo arcar com o peso. 

Hoje me torturei revendo as últimas mensagens escritas por ele enquanto esteve internado no Hospital de Base de Brasília, antes de ser entubado. Me lembrei do choro inconsolável do André ao telefone na fatídica noite do dia 20 de Abril, da minha caminhada pelas ruas escuras do meu bairro tentando sorver oxigênio e sentindo o vazio que teimava me abarcar por todos os lados. Recordei as palavras do Rodrigo dias depois: "Estou muito triste, vou chutar a bola pra frente e correr atrás dela com lágrimas nos olhos".  Isso tudo ainda sob os efeitos da despedida da nossa genitora. 

Phobos e Deimos veio a público depois de ficar engavetado por 15 anos, veio no momento certo e é incrível como as histórias retratam tudo o que sinto hoje. 

Sigo em frente, com a ajuda de Deus, até o dia do reencontro.

Minha saúde anda ok. Sinto uma dor de cabeça constante ultimamente, não forte, mas onipresente. Há um dente precisando de extração e eu ainda não cuidei disso. Não posso ficar à base de analgésicos. Vou tentar providenciar a tortura esta semana.

Fiz exames e segundo meu irmão médico minhas taxas estão muito boas, nada de colesterol alto ou diabetes mas me sinto ofegante quando subo escadas muito rápido, não faço exercícios desde o início deste maldito ano, tenho que recomeçar.

Minhas reservas de grana estão no fim, porém ainda sigo trabalhando, o pagamento por uma das duas HQs que realizo atualmente foi realizado pelo roteirista antecipadamente.

Para fugir um pouco da realidade tenho visto uns filmes e séries, além de ler, claro. Mas isto é matéria para a próxima postagem.

Até lá, se Deus quiser.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

UMA HISTÓRIA REAL OCORRIDA NA PRIMEIRA METADE DOS ANOS 90.

 Zac torceu o nariz ao som da campainha. Não havia ninguém em casa e ele pensou que poderia dormir tranquilamente. Devia ser quase duas da tarde e um bom cochilo depois do almoço era tudo o que ele achava merecer depois de passar a madrugada trabalhando. Bom, pensando direito, merecia porra nenhuma, afinal, ser sustentado por pai e mãe com mais de 30 anos chegava a ser infame. Ao ser cobrado por não ser independente, ele respondia que não fora ele que escolheu a profissão e sim que fora escolhido por ela. E a profissão que o escolhera não lhe oferecia meios de ganhar dinheiro e ter sua própria vida.

Falávamos da campainha. Ela insistia. "Merda, quem será?" Fazia frio, aquele frio que só era possível numa cidade como São Paulo, aquele clima que deixa a cama gelada como se jogassem um balde d´água em cima, mesmo assim ele estava nu sob as cobertas grossas. Mas voltemos à campainha, ele levantou-se, colocou a cueca, uma bermuda e foi atender. Era o Fat. Só podia ser, quem poderia ser mais inconveniente? Quem falava tão alto não importando onde estivesse? Quem poderia encher mais o saco senão o Fat, com aquele topete à la Elvis e cara de menino chorão? 

Fat era desenhista. Zac também era. Só que o Fat ganhava uma grana ilustrando algumas revistas da Editora Abril. Zac não ganhava quase nada com desenho.

- Fala, meu, cuméquitá? indagou o visitante com sua voz que parecia de um desenho animado. 

- Tô indo.

Zac não convidou o Fat para entrar mas ele entrou assim mesmo. Sentou se no sofá  e se espalhou.

- E aí, tá pronto?

- Pronto pra quê?

- Ué, pra ir no HQ Mix.

- Ah, eu não vou pro HQ Mix.

- Não acredito!

- Olha, Fat, não tenho mais saco pra esse tipo de coisa.

- Que foi Zac, tá com dor de cotovelo porque o seu livro não faturou nenhum prêmio? 

- Não é nada disso.

- Fala a verdade.

- Tá legal, eu fiquei puto no começo, afinal, se eu tivesse perdido para um cara bom, mas aquela bosta que escolheram? Mas na boa, não é por isso não, tenho consciência que meus quadrinhos são melhores que os daqueles caras. Não fui escolhido em nenhuma categoria, fazer o quê?

- Bem, então vamos lá, temos que prestigiar.

- Não suporto mais isso, sabe, ir em lançamento de gibi de tal autor, entrega de prêmios....me sinto como peixe fora d´água, totalmente deslocado.

- Eu não dou a mínima, sabe, eu...

- Aqueles caras, meu, vão lá receber o seus prêmios, se sentem como se estivessem na festa do Oscar, se achando os tais, depois formam suas panelinhas e ficam conversando merda sobre quem é mais legal, o Aquaman ou o Namor, ou os cartunistas dos jornais discutindo política como  se fizessem qualquer diferença. Francamente cansei de tentar me enturmar com esses nerds com suas namoradinhas, se exibindo como babuínos, disputando quem tem o cu mais vermelho. Cansei, cara, cansei mesmo!

- Rapaz, como cê tá azedo!

- Bem, eu não poderia ir mesmo que eu tivesse afim, tenho que resolver um negócio para o meu pai, logo mais a noite, um negócio chato pacas!

- Bem, é uma pena, vai tá lá aquele italiano que desenha o Ken Parker.

Zac já conhecia o italiano, na verdade tinha até um álbum autografado, o artista, inclusive, escreveu seu nome errado na dedicatória, então, para que ir lá ver o cara em mais um momento de glória? Ele já devia estar com o saco dolorido de tanto ser puxado. 

- Então, tem feito coisa nova?

O Fat era assim, só trabalhava se lhe encomendassem as artes, Zac não, ele desenhava porque precisava, para extravasar sua frustração frente à vida. E o Fat sempre queria ver as novidades.

- Bem, tenho algumas pinturas a óleo e algumas páginas de uma HQ que estava lutando para sair da minha cabeça.

E Zac mostrou suas artes novas com dissimulada indiferença.

- Puta merda! Esse tá do caralho! Era assim que o Fat se expressava.

- Tão bom quanto o Bóris!

Era nesses momentos que o trabalho de Zac valia a pena, quando caras como o Fat reconheciam seu talento, não que isso fizesse diferença, ele continuaria a ser um zé ninguém neste disputado nicho, mas o Fat era um cara com discernimento, sabia ver algo de valor.

- Tá melhor que o Frazetta!!!

Claro que não chegava a tanto, mas só ali seu talento era reconhecido. Todo artista gosta de ter o ego massageado e Zac não era imune a isso. Era a razão pela qual ele aturava o Fat e alguns outros pernósticos iguais a ele, que não economizavam elogios.

Depois de muita conversa mole sobre editores picaretas e a luta que era receber uma grana por um trabalho entregue no prazo o Fat foi embora deixando no ar um clima de depressão.

O ar estava gelado e Zac queria fechar os olhos, dormir e se apartar da vida. Tirou a roupa e se enfiou debaixo das cobertas que estavam geladas como uma mortalha. Leva tempo até o calor do corpo irradiar pelos tecidos. Enquanto isso acontecia o sono do esquecimento avizinhava-se timidamente. Foi aí que o telefone tocou. Pôs a cueca, a bermuda e foi atender.

- Alô?

- É com você mesmo que eu queria falar.

- Quem é?

- Aaaah, como é gostoso! Era uma voz feminina, rouca e sensual, ofegante.

- Quem está falando?

- Sua voz é bonita, é grave, máscula. Aposto que você sabe chupar uma buceta como ninguém.

- Faço o que posso.

- Você gosta? 

- Do quê?

- Chupar buceta.

- Se estiver bem lavada...

 - A minha tá toda molhada

- Escuta, isso é alguma brincadeira?

- Não, escolhi este número ao acaso na lista telefônica. Disquei o número e fechei a lista, quando eu desligar não saberei qual é, faço isso sempre.

- Porque você não me dá seu número?

- Não, assim não tem graça. Vai, fala.

- Falar o quê?

- Que gosta da minha bunda, que ela é grande...

- Tua bunda é enorme, suculenta!

- Aaah, que gostoso! Tá de pau duro?

- Pode apostar a vida do teu cachorro.

- Como sabe que eu tenho cachorro?

- Intuição. Não vai me dizer seu nome?

- Não, nada de nomes, sua voz me dá tesão. Tô me masturbando, você está? 

- Não.

- Aposto que teu pau é grande e que gostaria de arregaçar a minha bunda e meter no meu cu. 

- Nem me fale, escute, porque você....

- Fala, fala mais que eu tô quase gozando...

- Você é uma cadela gostosa, uma puta safada....

- Aaaaahhhh...

- Tô te lambendo todinha...

- Aaaahhhh....

Em seguida ela desligou o telefone.  Zac lamentou não ter bina. Número escolhido ao acaso, só com ele mesmo, acertar a mega sena que seria bom de verdade, nada! 

O cansaço e o sono eram maiores que a excitação. Estava quase adormecendo quando ouviu o tilintar das chaves na porta da sala, em seguida o som de sua mãe entrando com as compras. Desistiu de dormir. Levantou, ajudou sua genitora com as sacolas. Ia tomar um banho para sair quando ouviu o telefone tocar, apressou-se em atender achando que poderia ser a mulher da voz rouca de novo. Não era, e sim a fala de seu pai lembrando-lhe da tarefa que tinha para executar.

O banho foi demorado. Ducha quente no clima frio era assim, como bálsamo, você abraça o próprio corpo e fica debaixo do chuveiro como que lavando da alma tudo que julga impuro. Quisera fosse assim tão fácil.

Zac cultivava um cabelo longo que lhe chegava pelo meio das costas. Aparou o cavanhaque, vestiu a camisa, seu jeans surrado e um casaco de lã verde escuro, tênis. Se perfumou e foi até o armário do pai, de lá tirou uma grossa e pesada corrente de ouro, cafona toda a vida, digna de um bicheiro  Colocou no bolso interno da blusa. Beijou a mãe e saiu.

O corredor estava escuro, ao dobrar a direita em direção às escadas as luzes se acenderam automaticamente. O elevador chegou, dentro estava uma uma gorda baixinha, muito bonita de rosto que morava no quinto andar. Tinha uns quadris e bunda paquidérmicos, totalmente desproporcionais ao seu tamanho.

- Uau! Como vai o meu fortão?

- Tô bem, e você?

- Endividada, tem dinheiro pra me dar?

- Quisera eu, também estou precisando.

- E outra coisa, você tem para me dar? Ela se aproximou de forma sedutora, o perfume era gostoso, os olhos muito bonitos.

- Eu teria, se você não fosse casada.

- É isso que gosto em você, um cavalheiro, respeitador. Não se encontra mais. Me diga que me quer eu eu peço o divórcio na hora.

Zac riu. Sabia que aquela mulher tinha um gênio de cão, o marido tinha medo dela. Ele jamais cairia nessa armadilha. 

- Um outro dia terminamos essa conversa, disse ela, saindo na frente dele, rebolando o colossal traseiro.

Um vento gélido, cadavérico, soprava naquela tarde. Morava no centro velho de São Paulo, no lugar que chamavam de cracolândia. Seu irmão que residia em Brasília dizia que o resto da família morava no dente cariado da boca do lixo, e era verdade. Ali se via de tudo: putas, drogados, travestis, traficantes, enfim, toda a escória possível de uma sociedade falida e degradada. Algum boêmio poderia encontrar ali, de forma romântica, matéria prima para alguma canção ou livro. Zac não via dessa forma; este foi o local que seu pai escolheu para residir depois de morar mais de 15 anos em uma bela super quadra no Planalto Central. Zac tinha três irmãos, um continuava na Capital Federal, lutando pela sobrevivência e era mais corajoso que ele, outro fritava os miolos na faculdade de medicina e era muito mais esforçado e o caçula, que devia estar com alguma garota naquele instante, era muito mais autêntico.

Zac era um fracassado, tinha mais de 30 anos e alimentava a ideia de fazer quadrinhos, pintar calendários como Norman Rockwell e ganhar dinheiro, muito dinheiro, para sair daquela vidinha ordinária, dar um bom apartamento para seus pais, produzir um disco com a voz de sua mãe - o grande sonho dela - ajudar os irmãos. Ele queria casar, ter filhos, viver longe da situação vexatória de ser pau mandado do pai. Mas só o que ele fazia era sonhar, por mais que tentasse melhorar suas técnicas artísticas e adentrar no metiê dos que conquistaram algum sucesso, para ele era como enxugar gelo, parecia sempre leva-lo a lugar algum.   

Quando criou um personagem e depois de sete anos conseguiu publicar seu primeiro álbum de quadrinhos, um jornalista da Folha de São Paulo entrou em contato querendo fazer uma matéria sobre a produção nacional. Marcaram um dia e hora e na ocasião foi recebido por um gordo de barba e cabelos longos que mais parecia membro de uma banda de metal rock.

- Gostei muito do seu livro, você é um cara corajoso.

- Obrigado.

- Achei interessante as reflexões do seu personagem sobre vida e morte.

- Bem, então acho que atingi meu objetivo.

- Com certeza.   

Estavam na cantina, no último andar do prédio onde funcionava o jornal, na Barão de Limeira, dali se via boa parte da cidade. Era uma tarde quente, sentaram em uma mesa, o barbudo tomava um refrigerante. 

O fato é que conversaram e conversaram um bom par de horas, falaram sobre Flávio Colin, Shimamoto e todos os mestres das antigas, as adversidades que as HQs tupiniquins enfrentavam por não existir um mercado sólido com produções regulares, boa distribuição e divulgação.

Por fim Zac foi embora satisfeito por mais esta divulgação. Semanas depois a tal matéria saiu na Ilustrada, duas páginas de texto e imagens e não havia uma única referência a seu nome, ao seu personagem ou ao seu livro, fora isso, todo o resto estava lá.

Foi tirado de seus pensamentos pela pessoa que iria encontrar, um amigo de seu pai conhecido como "Professor". Estava ali, parado, a espera, com um jornal dobrado debaixo do braço, o terno era surrado mas a barba branca era bem aparada. Era bebedor e fumava cigarros sem filtro.

- Como vai meu jovem?

- Bem, e o senhor?

Tomaram o metrô em direção ao Jabaquara. Fizeram baldeação na Paraíso em direção à Clínicas.

O cara falava e Zac não ouvia. Dava conselhos, mas a cabeça do rapaz estava em outro planeta, ele só prestou atenção na seguinte frase: 

- ...se não fosse a sabedoria do seu pai, você teria um filho com cada mulher com quem dormiu.

Eles se dirigiram à casa de uma mulher a quem chamaremos de "Poetiza". Zac achava que ela deveria ser alcunhada de "Agiota", pois era disso que se tratava, a mulher ia emprestar dinheiro ao pai de Zac a juros altos, a pulseira ia ficar de garantia e o Professor seria o intermediário da transação.  

Chegaram na casa da poetiza já noite. O apartamento dela mais parecia um museu, Zac apreciou; muitos quadros ornavam todas as paredes, alguns de excelência, muitos objetos bregas também, móveis coloniais, tapeçarias e toda tralha antiga possível. A tal mulher era uma velha bonitona que se vestia de forma extravagante, viúva de um oficial da marinha. Se julgava uma intelectual, tinha publicado diversos livros de poesia. Trajava um vestido azul colado no corpo com uma abertura nas pernas deixando entrever fartas coxas brancas.

Enquanto ela e o Professor conversavam sobre política, o rapaz lia algumas das poesias criadas pela mulher. Nada que se comparasse a Florbela Espanca ou Cecília Meirelles, claro, mas eram sonetos muito bons. Ele recusou bolachas e chá, queria ir para casa tocar seus desenhos, era a única coisa que lhe dava alguma satisfação.  

Deixou a pulseira, pegou o dinheiro e ele e o barbudo ganharam o metrô as 23 horas. Fazia um frio terrível. Ele saltou na estação Luz e o amigo de seu pai seguiu para Santana. Começou a garoar e o vento glacial parecia fúnebre.

Lembrou-se do HQ Mix, a premiação era importante, os criadores ótimas pessoas, mas todo o resto lhe enchia mortalmente o saco. Praticamente todo ano eram os mesmos premiados, nunca havia renovação. Talvez ele fosse mesmo invejoso e não admitia para si mesmo, mas todo aquele papo sobre Jim Lee,  MacFarlene, as artes pasteurizadas focando em heróis fantasiados, lhe embrulhavam o estômago. Os quadrinhos eram muito mais que isso, ele sabia, haviam roteiros geniais e desenhos interessantes, inclusive nos mangás, mas acabavam se perdendo no meio de tanto material medíocre criado por gente presunçosa. A arte, na maioria, careciam de identidade, não pareciam nascer das entranhas como as do Crumb, Moebius, Corben, Eisner ou Flávio Colin. Certamente a música e a literatura sofriam do mesmo mal. As artes estavam fixadas à regras, à um modus operandis que só visavam o lucro imediato. De dar nojo!

Estava decidido: ele ia mandar tudo à merda, esquecer os quadrinhos e coisas relacionadas, ia arrumar um emprego que lhe pagasse um salário fixo todo mês.

Subia a Rua Aurora, à sua frente, um travesti de quase dois metros, canelas finas e uma bunda desmedida que parecia querer estourar o micro vestido apertado, fez-lhe uma proposta sexual numa voz anasalada, ele fingiu  não ouvir e continuou seu caminho perdido em pensamentos até escutar o cantar de pneus ao seu lado e um carro enorme e escuro, de faróis apagados, lhe barrar a passagem. Numa fração de segundos ele entendeu a encrenca que estava por vir. Os homens da lei saltaram do veículo com artilharia pesada em punho.

- Mãos na parede, vagabundo!

O moço obedeceu tendo o cuidado de afastar bem as pernas e assim evitar que os PMs o chutassem por baixo. Foi apalpado nos tornozelos, saco, pernas e costelas, teve cócegas mas não sentiu vontade de rir.  

- Ele tá armado?

- Não.

- Drogas?

- Não.

O policial tirou-lhe a carteira do bolso traseiro e olhou sua identidade.

- Tá fazendo o que na rua a essa hora, cabeludo?

- Estou a caminho de casa.

- Trabalha?

- Sim.

- É sim senhor,

- Sim senhor.

- Faz o quê?

- Sou desenhista.

- Isso não é trabalho. Se ajoelha.

- Como é? Zac estava apavorado mas não ia permitir um abuso desses.

- Se ajoelha, ô cara!

O PM, um negro bem alto, deu lhe um soco de cima para baixo no ombro, pesava como um saco de cimento, mas ele não se dobrou.

- Ajoelha!!! A manzorra desceu de novo como uma marreta. Um outro atrás de si lhe aplicou um "telefone"; ficou zonzo, o ouvido zunia, caiu de joelhos. O que queriam afinal? Se divertir humilhando um coitado qualquer?

- Esse cabeludo é cheio de marra!

Outra viatura menor, também de luzes desligadas estacionou ao lado.

- O que está acontecendo aqui?

- Um folgado, tenente.

- Tá com identidade?

- Tá aqui.

- Você trabalha, rapaz? O oficial era um indivíduo de estatura média, musculoso, com bigodes grisalhos.

- Sim senhor. Zac não reconheceu a própria voz.

- Faz o quê da vida?

- Sou artista plástico, formado como arte educador.

- Ah, é professor de artes?

- Ainda não exerci. No momento faço ilustração para livros didáticos e histórias em quadrinhos.

- Quadrinhos? Como os do Fantasma e do Mandrake?

- Sim senhor, é isto.

- Eu lia muito gibi do Mandrake.

Zac nada disse, é como se ele não existisse no tempo e espaço.

- Tem carteira de trabalho?

- Tenho, mas tá em casa.

- Mora onde?

- Na Rua Guaianazes.

- É perto, venha, vamos te dar uma carona.

O jovem não queria. Temeu que os traficantes da área o tomassem por "ganso" da PM, mas não conseguiu recusar. Entrou na viatura menor. Os veículos seguiram silenciosos pela Rua Aurora, dobraram na Rua Conselheiro Nébias, depois na Rua Vitória até chegar à rua de Zac. 

- É aqui. 

Ele pensou em anotar mentalmente o número da viatura, o horário e fazer uma queixa ao comando geral da polícia militar, mas preferiu esquecer o assunto. Bem, esquecer seria impossível, mas ia deixar daquele jeito.

A localidade estava deserta e escura. O policial que o agrediu falou:

- Tenha uma boa noite.

O desenhista o olhou pela primeira vez no rosto, era um indivíduo jovem com uma boca esquisita, parecia um cu com hemorroidas.

Pernas trêmulas o conduziram ao elevador e dali para seu apartamento. 

Entrou silencioso. Não queria ver ninguém. Precisava de um banho.

O telefone tocou. Quem seria a uma hora daquelas? Atendeu no primeiro toque. Tarde demais, sua mãe surgia de seu quarto com o rosto amarrotado de sono informando que havia deixado seu jantar na geladeira. Agradeceu e respondeu à ligação:

- Alô? Sua voz verdadeira tinha voltado.

- Alô, eu queria falar com o Zac.

- Já está falando

- Zac? Desculpe o adiantado da hora, mas eu estive esta noite na premiação do HQ Mix e não te vi por lá, conheço um amigo seu, o Fat, ele me deu seu número.

- Sim?

- Bem, olhe eu comprei o seu livro, foi uma das melhores coisas que li nos últimos anos. Você é sensacional!

- Obrigado.

- Veja, eu estou roteirizando uma estória e queria saber se você poderia desenhá-la. Se passa no século passado, na França, é sobre um vampiro...

- Escute, desculpe, mas o momento não é bom, me ligue uma outra hora, então conversamos, pode ser?

- C-claro, desculpe. Te ligo amanhã, então.

- Certo.

- Boa noite.

- Boa noite.

Zac entregou o dinheiro da agiota para sua mãe dar a seu pai. Agradeceu a Deus a polícia não ter percebido todas aquelas notas em seu bolso, poderia ter sido uma dura provação.

Foi ao banheiro. Despiu-se

Parecia estar num freezer. Regulou o chuveiro na temperatura certa e ficou debaixo d´água abraçado ao próprio corpo. Quis chorar mas agora já era muito tarde para isso.

A noite parecia não ter fim, mas para ele não fazia qualquer diferença.


 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

FINALMENTE O ANATOMIA DE SERES FANTÁSTICOS CHEGOU!!!!!!


 Pronto, recebi sinal verde do editor para falar sobre um álbum que tenho muito orgulho de ter elaborado. Claro, claro, sou suspeitíssimo para falar, a coisa que mais gosto de desenhar são criaturas de fantasia (não por acaso meu personagem de quadrinhos é um felino antropomorfo), principalmente monstros e de preferência, GIGANTES. 

Pois bem, Desenhando Anatomia - Seres Fantásticos pela Editora Criativo é sobre isso, monstros, gigantes, híbridos, alienígenas e tudo o que a minha mente imaginativa pode conceber. Claro que havia muito mais para mostrar mas eu estava limitado ao número de umas noventa e tantas páginas, muita coisa bacana ficou de fora, algumas não passaram dos esboços (nem sei em que envelope eu os guardei, são tantos desenhos...!) e outras ainda só ficaram em meus pensamentos. Mas o que está registrado no livro creio que vale a pena, pra quem, como eu, curte uma boa fantasia, bem entendido. 

O livro estava pronto desde muito tempo - nem sei mais quantos anos - e ficou na geladeira da editora aguardando o momento certo de sair. Finalmente!

Nele eu falo da minha relação com os monstros e os gigantes e dou umas dicas de como criar um ser fantástico, torná-lo crível, funcional. Acima de tudo busco aguçar a imaginação do leitor (não curto muito a palavra aluno, não me acho professor de nada, apenas uma pessoa que aponta um caminho), mostrar que qualquer um que maneja bem um lápis pode dar origem a estes seres que nos encantam e nos assustam. 

E mesmo os que não desenham mas gostam dos meus traços, tem umas ilustrações bem legais, falo sem modéstia. Foram dez livros que lancei pela Criativo (sem contar o Caderno de Exercícios) e este ao lado do Sketchbook são os meus preferidos. Ele pode ser adquirido através deste link:

https://www.livrariacriativo.com.br/produto/481511/desenhando-anatomia-seres-fantasticos?fbclid=IwAR1M4slQsjHOZeiVP_XL1tbv9ZoiBFmqmh4jYWPTu4CamfoeVUuxQgsKNZc


Bom, esse deve ser meu último tomo que sai por essa editora, não há planos de editar mais nenhum. O futuro dirá o que vem pela frente.

Beijos a todos.



sábado, 24 de julho de 2021

RELEMBRANDO GRAPHIC PADA ESPECIAL ZÉ GATÃO.


 Zé Gatão nunca teve uma casa fixa. Vejo certos personagens, como Asterix por exemplo, serem publicados por uma editora por anos a fio. Eu julguei que a Via Lettera editaria meus álbuns a medida que eles fossem ficando prontos, bem, esse era o meu desejo, mas sim, não fui campeão de vendas e os publishers, claro, não são mecenas, não têm nenhuma obrigação comigo ou qualquer outro autor. Isso demonstra também a fragilidade do mercado de HQs nacionais, mas não é disso que trataremos aqui. 

No ano de 2010 eu decidi retirar dos envelopes algumas histórias curtas que ia criando ao longo dos anos nos intervalos dos pagalugueis e oferecer a alguma editora pequena ou fanzine, sei lá. Uns tempos antes travei contato com um pessoal de Belém do Pará que formatavam uma revista chamada Quadrinorte. Foi combinado que uma das minhas HQS sairia na número 2, inclusive cedi uma ilustração colorida do felino para a capa. Bem, pra encurtar, houve um desentendimento entre os organizadores e a Quadrinorte foi definitivamente cancelada, não passou da número1, parece. Acreditem, é normal isso acontecer comigo.      

 Memento Mori e Daqui Para a Eternidade já estavam prontos desde 2003 mas não tinha a menor ideia de onde eu publicaria e nem estava mais pensando no assunto, mas a intenção de trazer ao público alguma das curtas ficou na cabeça. O amigão Nestablo Ramos tinha aparecido na Prismarte, uma revista feita na raça por uns artistas de Recife. Procurei o roteirista Leonardo Santana (por onde será que ele anda?) e propus ceder uma HQ do Zé Gatão para a Prismarte, só para ressuscitar o personagem. Ele levou a ideia para os outros membros da PADA e retornou com a novidade de lançar um álbum completo com as narrativas curtas do Felino, afinal, segundo ele, todos lá eram fãs do Gato. 

O plano era que a Graphic Pada fosse uma publicação periódica, sempre com um tema ou personagem de cada vez e o felino cinzento seria o primeiro. Infelizmente não foi assim, até onde sei só saiu Zé Gatão mesmo.

Foram editados apenas uns poucos exemplares, não sei o número exato mas certamente não chegaram a 100. Acabou muito rápido! De vez em quando o Milson Marins imprime mais alguns para vender nos eventos, mas é um material que poucos possuem. 

O Leonardo Santana teve a coragem de tentar um financiamento coletivo no Catarse para lançar uma edição mais caprichada. Não tive envolvimento direto por não ter tempo para fazer campanha, mas ele se empenhou. Entretanto, para provar que o personagem nunca foi popular, a meta não foi atingida e o gibi PADA permanece sendo o mais difícil de conseguir.  

Tenho orgulho desse álbum, é modesto mas as histórias, que fogem um pouco do padrão normal, são contundentes e divertidas, mas eu sou suspeito para falar, é lógico.

UMA VIDA NORMAL

   Eu queria muito vir aqui com notícias boas. Na verdade tenho sim, boas notícias, uma delas é que fiz agora há pouco a minha terceira refe...