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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

ZÉ GATÃO - MEMENTO MORI FINALMENTE CHEGOU!



Caríssimos e caríssimas, tenho um novo livro na praça. Bem... mais ou menos. A gráfica mandou alguns exemplares para a Devir Editora ontem, e o Leandro (editor) me mandou algumas fotos da chegada (vocês conferem em primeira mão). Até o fim de semana a editora deve receber todo o estoque, aí começam as divulgações e distribuição. Penso que até a próxima semana este álbum já esteja a venda em todas as livrarias.




Ainda nem tenho meus exemplares, deve demorar mais um pouco até que receba, mas agora é o de menos, o importante é que Zé Gatão, mais uma vez volta a rugir, sim, nada de miados, é rugido mesmo! Agora não tem mais jeito, agora é caveira! É fogo na caixa d´agua!!!!

E ainda tem a GRAPHIC PADA 01 ESPECIAL ZÉ GATÃO, uma tiragem limitada só com HQs curtas do felino editada pela PADA, que vocês encontram aqui:
http://www.bodegadoleo.com/

Evidentemente deverei voltar com novidades sobre este lançamento. Tudo a seu tempo.
Agente segue se falando.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

JORGE E O DRAGÃO.

Amadas e amados, boa noite, passo aqui pra dar um alô, dizer que não há novidades dignas de nota, continuo ansioso pelo novo livro do Zé Gatão (que deve estar chegando por estes dias), o calor marca sua presença agora com mais intensidade, as ruas poeirentas e as calçadas infestadas com bosta de cachorro. Realmente nada novo.

Estou com os dois livros restantes da coleção dos clássicos para ilustrar, o que agora vai me tomar bastante tempo, sendo assim não estranhem se eu der uma sumidinha daqui, mas vou tentar postar pelo menos alguns esboços rápidos pra manter nosso contato atualizado.

Traços ligeiros como este de hoje. Este é um rascunho mal feito de uma ideia que tive faz tempo, queria fazer uma aquarela, aí rascunhei para ver se era viável. Desisti depois de um tempo pelo mesmo motivo que o da série dos Lobisomens Gigantes, pintar isto para quê? Para depois ficar guardado num envelope qualquer? Quem liga pra este tipo de coisa? Mas, sabem, se o bom Deus permitir, assim que der vou fazer esta aquarela, arte pra mim também é diversão, antes eu fazia algumas pinturas só pelo prazer de velas prontas, ainda que somente eu apreciasse, então não vou deixar este prazer de lado só porque a idade vai me tornando mais amargo, acho que vale a pena.

Não sei se vai dar pra aparecer aqui amanhã, o Senhor sabe, mas caso não, desde já, desejo a todos um bom feriado.

domingo, 9 de outubro de 2011

BICO DE PATO


O que está acontecendo com as mulheres? Não, a pergunta correta é: O que está acontecendo com ALGUMAS mulheres? É sabido que os modismos vem e vão. Se formos olhar para os grandes mestres do passado, veremos aquelas modelos todas gordinhas porque aquele era o padrão de beleza daqueles tempos, algo que pelo que percebo, durou até fins do século XIX (atenção, não falo com conhecimento de causa). Hoje vivemos a ditadura da magreza - pobres dos vermes, não queremos dar muito alimento a eles quando formos desta para melhor (ou para pior). Vejam bem, não estou falando daqueles casos onde a gordura é um risco à saúde de alguém.
Mas não é só de magrinhos que a grande mídia tem se alimentado, mas também da fealdade, das inversões de valores (e quando digo valores, falo de todos os tipos), mulheres bombadas, cheias de silicone nos peitos, na bunda, na panturrilha, os ídolos da música pop são aqueles tipos frágeis, andróginos que fazem as fãs, que ainda deveriam brincar de boneca, irem ao delírio.

Piercings e tatuagens por todo o corpo ( tá, eu sei que isto é até milenar em algumas culturas, mas não consigo me acostumar).

Contudo, o que tem me causado espécie é este enchimento que algumas mulheres tem colocado nos lábios dando um "efeito bico de pato". Cara, fica horrível! Outro dia destes vi uma jovem com os beiços assim, num eterno bico, como se tivesse tomado picadas de marimbondos na boca.
Rascunhei apressadamente alguns exemplos de como eu vejo estas intervenções cirúrgicas, tão em voga, para tentar demonstrar o quão ridículo fica (pela minha ótica, claro), mas confesso ter falhado, não ficou nem de longe estranho como já vi em algumas pessoas.


Que fique claro, meu reacionarismo não chega ao ponto de negar o benefício que a medicina pode prover a um indivíduo com problemas de auto estima. Então, se alguém tem orelhas de abano, um nariz muito farto, uma arcada dentária que o torne alvo do ridículo, nada mais natural que faça uso da ciência para corrigir o "problema", mas não me conformo com o exagero. Por exemplo, bonita como sempre foi, que necessidade tinha a Nicole Kidman de se parecer com a namorada do Pato Donald?


Bem, no final das contas eu nada tenho a ver com isto, não é? Mas fica aí a minha opinião (como se fizesse diferença).

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CARPE DIEM

- E então, almoça comigo hoje? - Pergunta o rapaz para a moça que está sentada atrás da maquina de datilografia na seção de pessoal.
- De novo? Almocei na sua casa ontem, fico sem graça com sua mãe, eu indo lá todos os dias...
- Ah, minha mãe gosta quando você vai lá, e depois não seria em casa, mas num self-service na 104.
- Não sei, acho que você não devia gastar seu dinheiro.
- Ah, deixa disso, vamos ou não?
A garota olhou o rapaz de forma um tanto cismada, pensou no estômago vazio, na grana que precisava economizar para pagar suas dívidas, daí falou: - Certo, passa aqui ao meio dia.

Tempos depois eles caminhavam lado a lado pelas calçadas quebradas das entre-quadras de Brasília, ele, de tênis, trajando seu jeans e camisa esporte que deixavam eminente seu físico atlético, ela, uma mini-blusa e uma saia branca longa, com bolsos grandes que escondia seus quadris generosos, pernas bem torneadas e sandálias baixas. Entre eles uma espécie de muro invisível se erguia tornando-os quase estranhos um ao outro. O rapaz tentava criar coragem para perguntar o que estava saindo errado. Meses atrás ela parecia tão apaixonada, a ponto de ir atrás dele na faculdade, de praticamente sequestra-lo, levando-o para os motéis do Núcleo Bandeirante quase todos os fins de semana. Mas ele tinha medo de precipitar os acontecimentos, temor que ela uma vez encostada na parede, dissesse que o amor morrera, que era melhor permanecerem amigos apenas. Na verdade nas últimas semanas, era isto mesmo que acontecia, amigos que praticavam sexo. Pagar o almoço, emprestar dinheiro que nunca aceitava de volta e coisas do tipo, para ele era uma forma de dizer que a amava, que era um fiel companheiro de todas as horas, que valia a pena estar ao lado dele.

- Rapaz, hoje eu estou peidando muito - disse a garota quebrando o gelo.
- Eu hein!!!
- É sem cheiro seu bobo, só vento.
Esta era uma coisa que ele também gostava nela, esta espontaneidade, uma simplicidade quase infantil para falar de certos assuntos. Para ele, quase um alívio por ela demonstrar assim uma intimidade que sempre os uniu, uma cumplicidade construída ao longo do tempo.

Chegaram ao restaurante, fazia um clima tépido, um tanto incomum para a cidade naquele meio de ano.
Ela fez seu prato, arroz, purê, peixe e salada; ele, arroz com brócolis, bife grelhado, grão de bico, legumes e muitos ovos de codorna. Estes ovinhos difíceis de descascar, rico em albumina não podiam ser desperdiçados. Ele só comprometeu sua refeição exagerando no molho rosé.
Comeram em silêncio.
A moça olhava o varão, parecia admira-lo, o físico definido, de barriga dura como rocha. Gostava da forma educada como ele comia. Queria ter coragem para falar a ele daquilo que a angustiava, seu anseio por liberdade, buscar um rumo que a afastasse da mediocridade que era sua vida, mas tinha que fazer isto sozinha.
O rapaz queria casar, era talhado para o casamento, seria excelente marido, ótimo pai, mas não com ela, já tinha sido casada, um inferno em vida. Para ela bastou. Ele ficaria sabendo desses sentimentos ruminados através da irmã dela muito tempo depois.

O jovem observava discretamente a moça mastigar, os olhos grandes e vivos, o narizinho bem afilado, os fartos cabelos castanhos num corte que em anos vindouros chamarão de cafona. Lá, no íntimo, ele sabia que já a havia perdido, estava ciente de que não era amado. O que queria ela? Alguém mais alto? Com mais dinheiro? De olhos claros? Sentiu tristeza. Sentiu pena. Pena dela. Pena por ela. Num mundo mau como este em que vivemos, quem iria apoia-la, ouvi-la e protege-la?

Ele nada podia fazer, apenas aproveitar pequenos momentos ao lado dela enquanto ainda era possível.
- Eu ainda acho que você devia economizar seu dinheiro, eu faria um lanche lá na cantina da repartição, você mora perto do trabalho, podia almoçar em casa.
Ele nada respondeu, apenas levantou-se e pagou a conta.

Caminharam lado a lado de volta ao serviço. O muro invisível entre eles agora parecia mais alto que nunca.

ESTA HISTÓRIA É VERÍDICA E ACONTECEU EM 1988.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

HOJE O INCONVENIENTE SOU EU ( E MAIS SARGENTO DE MILICIAS )


No post de ontem comentei sobre alguns "malas", estes tipos "sem noção" que nos pegam no pé, muitas vezes sem se dar por isto. Assim que saí do computador comecei a refletir sobre o assunto e cheguei a conclusão que em muitas ocasiões eu também protagonizei este papel.

O frade acima é uma das ilustrações criadas para Memórias De Um Sargento De Milicias, parece descoroçoado, né? Ele lembra a mim mesmo em algumas situações, vamos a uma delas:

Excetuando o índio que pensou que fosse meu amigo, a maioria dos tais malas na minha vida foram pessoas que admiravam minha pessoa ou meu trabalho. Vendo por este prisma, com certeza eu já fui inconveniente uma pá de vezes. Por exemplo, no início dos anos 90, eu ia ao estúdio que o Arthur Garcia dividia com seu saudoso sócio e amigo João Pacheco em pleno horário de trabalho e ficava lá por horas a fio atrapalhando os caras. Eita mala sem alça e sem rodinha!

Já fiquei na casa do Gualberto Costa até tarde da noite, e abusei da generosidade do Franco de Rosa. Mas o fato mais gritante se deu com um dos maiores quadrinistas deste país, vou omitir o nome, ok? É mais saudável a todos.

Conheci este artista muito badalado por público e crítica ainda na Gibiteca  Henfil, em tempos nada aprazíveis. Como achei que nossas formas de criar HQs eram muito similares (não na forma, mas no conteúdo), tentei fazer amizade no melhor estilo Gasparzinho. O cara nunca ficou a vontade comigo, mas achei que era só coisa da minha cabeça, então sempre que uma oportunidade se apresentava, lá estava eu tentando entabular uma conversa. Ele era muito agradável, chegou a me ligar umas duas vezes, uma delas inclusive para repassar um trabalho, mas eu sentia que alguma coisa não estava certa, havia sempre a sensação de que eu queria me impôr na vida dele. Não havia nenhum interesse da minha parte, só a de ser chegado mesmo, por admirar o trabalho e me identificar, em parte, com sua história de vida.
Num dos festivais de HQ que era realizado no Recife (pena que não tem mais) ele foi um dos convidados e lá estava eu. Ele foi bastante cordial e como eu estava desenvolvendo um novo álbum, levei alguns dos originais para ele dar uma olhada. Fomos até o seu quarto de hotel onde ele leu atentamente uma das histórias e me despedi quando ele se dirigia para umas das suas palestras. Na verdade eu colei no cara, hoje penso que deve ter sido um alivio para ele quando me despedi.
O encontro seguinte foi no apartamento dele em São Paulo numa manhã, levei um dos meus álbuns de anatomia assinado (que ele pediu). Conversamos bastante e ele riu um monte com alguns relatos picarescos da minha vida. Me mostrou um álbum ainda em andamento, desenhos (alguns pornográficos) nunca publicados, todos sensacionais. Como eu não dava mostras de ir embora ele disse que teria que sair dali a pouco; neste ínterim, a esposa dele chegou, me cumprimentou, ficou sentada na cozinha e de lá não saiu. Meu desconfiômetro começou a se regular e eu pedi pra ir ao banheiro antes de ir embora. Me despedi e me mandei. De novo penso que o cara deve ter suspirado de alívio. Liguei para ele um certo dia e notei frieza. Desisti. Nunca mais o procurei. Amizade é uma coisa que não se impõe, se conquista, e a dele eu nunca tive, hoje sei disso.
O curioso é que eu NÃO sou do tipo muito sociável, mas se gosto de alguém, pareço aquele cão fiel.

Bem, chega de dar a cara a tapa por hoje.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

TALKING ABOUT THE WEATHER E SARGENTO DE MILICIAS ( 03 )



Depois do texto pesado de ontem, que tal uma conversa, ainda que rápida, sobre temas mais amenos?
Sobre o que falaremos? Sobre o desenho de hoje? Certo, é mais um do livro clássico, Memórias De Um Sargento De Milicias. Nanquim sobre papel opaline, não há muito o que acrescentar. Podemos falar do tempo, que tal?

O calor voltou. Parece aquele amigo mala que surge sem aviso. Passa dois meses, acaba com seu sossego, sua geladeira e depois vai embora reclamando que o problema dele é que só tem amigo pobre. Parece exagero né? Coisa de comédia hollywoodiana ou sitcom americano. Nah, eu minha família já passamos por situações do tipo. Uma vez apareceu uma certa advogada lá em casa recomendada por um juiz amigo do meu pai, e o que era pra ser uma estada de três dias acabou sendo quase um mês. Uma pessoa inconveniente toda vida, dando palpite em assuntos alheios. O pior é que a tal mulher acostumou e uma vez a cada, sei lá, quatro meses, ela reaparecia quando tinha que resolver alguma coisa na Justiça de Brasília. Constrangidos por ela ser amiga de uma pessoa a quem meu pai tinha estima, a gente aguentava calado. Fiquei sabendo mais tarde por outra pessoa, que ela falava mal de nós.

Em São Paulo havia um conhecido meu que aparecia nas horas mais improváveis, cedo ou tarde, pra ele não fazia diferença. E falava palavrão alto. Cara, meus pais estão aí, abaixa o seu volume - dizia eu, Ô, desculpe, respondia ele, e no segundo seguinte lá estava o cara bradando suas bobagens. Passei a evita-lo como a uma moléstia contagiosa, cada vez que ele aparecia eu dizia que estava de saída, botava uma roupa e me mandava pra um lugar qualquer. A que ponto cheguei.
Não sei dizer se estas pessoas são mesmo cara de pau, ou não percebem o quão inconvenientes são.

Mas o pior de todos foi um cara que cismou comigo, quer dizer, cismou que era meu amigo, quando na verdade era só um babaca que eu conhecia no colégio. Parecia um autêntico índio saído de alguma tribo lá no Xingú. Não sei como o  cara conseguiu meu endereço, talvez através de outro conhecido da sala de aula, o caso é que um dia de manhã ele me aparece lá em casa. Viera de bicicleta desde o Guará. Entrou, sentou, conversou fiado, peidou na sala (sério!), e minha paciência se esgotando.
Certa tarde eu chego em casa e minha mãe me fala que um amigo meu estava me esperando. Quem?!? E lá estava o cara sentado no sofá, todo refestelado assistindo TV. Chamei-o pra fora e fui taxativo: Cara, quando eu não estiver em casa nem ouse entrar, fui claro? O individuo se fez de ofendido e se mandou, logo no dia seguinte ele se associou a outro dois elementos pra me provocar no pátio da escola, mas aí já é outra história.

Pensando bem, o calor não é como estas pessoas. Definitivamente não. Ele é só um amigo mais intenso.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

UMA IMAGEM MARCANTE.


Ao me deparar com a tela do computador hoje, como das vezes anteriores, fiquei me perguntando qual seria o tema da postagem. Na maioria dos casos o que dá mote ao texto é o desenho que o acompanha, outras vezes (mas muito raramente) crio uma arte qualquer de última hora só para ilustrar a mensagem.
Sempre tenho a cabeça cheia de idéias, o que me falta é tempo e quase sempre minhas preocupações bloqueiam meu raciocínio, melhor dizendo, criam estáticas, e não filtro minhas emoções de maneira adequada; como hoje, logo de manhã já recebi ligação de uma das editoras que me dão serviço, e lá vem mais obstáculos para transpor;  hoje, prevejo um dia cheio, daqueles que não trazem nenhuma palavra de alento. É fácil reconhece-los. Esta talvez seja a única vantagem de envelhecer, conhecer de cor e salteado o enredo e o final de determinados filmes.

Com o clima assim, não seria de bom tom falar sobre tragédias, ou para ser menos dramático, de coisas que nos incomodam, mas se temos que enfrentar os nossos medos, então vamos lá.

A primeira lembrança que tenho de ver um corpo humano aos pedaços, foi na região do Taboão em Guarulhos, quando morei com minha avó. Um garoto havia sido atropelado por um ônibus. Não sei que idade eu tinha, 4, 5 ou 6 anos, não era mais que isto. Mas nada me causou um impacto tão forte como a pintura do "Tiradentes Esquartejado" (google), obra do pintor clássico paraibano Pedro Américo.
Era início dos anos 70, e eu morava em Pirituba, na mesma rua onde aquela cor amarelovermelhoalaranjada dos longos cabelos da boneca na mão da garotinha me deslumbrou, e para provar que tudo nesta vida possui um certo equilíbrio, para uma grata lembrança, temos outra funesta, e quão trágico parece ser que esta última se sobreponha à primeira, como a tormenta ocupa o lugar do agradável horizonte límpido que a precedeu de forma brutal.

Eu estava na escola, era próximo do dia 21 de abril, o trabalho era para se fazer cartazes para as comemorações do dia do Tiradentes, e ali estava, em todas as suas cores a figura que tinha sido recortada do primeiro fascículo da coleção "Grandes Personagens Da Nossa História". Um cartaz com várias gravuras mostrando os distintos momentos da vida deste que foi eleito o maior "herói" nacional". Mas apenas uma viria marcar - vai saber se para o bem ou para o mal - boa parte da minha vida. Ainda lembro do comentário irônico de um garoto japonês sobre a perna fincada na estaca.
Naquele dia eu cheguei em casa taciturno, sem apetite para o almoço. Não era medo, tampouco nojo, era uma forte impressão que tomou conta de mim e que nos anos posteriores viria se tornar um espectro que me tiraria a paz. Soa forte? Não sou bom com as palavras, se fosse, eu traduziria nas letras o que se passava no meu íntimo para que alguém pudesse entender. Só entender, nada mais. Certas coisas na vida não se explicam, tampouco tem remédio, elas são o que são, como são, e a única coisa a fazer é lutar contra o monstro que te devora, e só se faz isto levantando a cabeça e seguindo em frente. Se pararem pra pensar, Zé Gatão tem a ver com isto, a dura luta diária pela sobrevivência num mundo repleto de violência, luxuria e mensagens negativas. Levantar a cabeça e seguir em frente tentando manter a sanidade e discernir a linha tênue entre o bem e o mal. Repare que no universo antropomorfo que criei não existe lugar seguro, nas cidades, no mar, na floresta ou no deserto, ali está a pressão, a ameaça. Parece familiar pra você?

A imagem do Tiradentes esquartejado, parecia-me mais abjeta que do garoto atropelado de uns anos antes talvez porque ali tinha acontecido uma fatalidade, algo que, sei lá, não seria possível evitar. No caso do Joaquim José da Silva Xavier, me parecia inconcebível que um ser humano pudesse fazer aquilo com outro. Tá, a coisa não se deu, provavelmente, como mostra o quadro, mas a mensagem permanece.
Como é comum à qualquer criança, aquilo não durou, logo estava de novo brincando de Tarzan com os amiguinhos ou descendo as ladeiras em carrinhos de rolimã.

Uns dois anos depois, estávamos instalados no centrão velho de Sampa, na Rua Aurora, eu estudava no Instituto Escolar de Educação Caetano de Campos na Praça da República, e de novo, próximo das comemorações do dia 21 de abril, na sala de aula, amplo debate sobre a inconfidência mineira e suas consequências. Então novamente me deparei com o espectro do "herói nacional", só que agora ele tinha tomado um aspecto maior, mais escuro, mais assustador. Logo entendi porque, não era mais somente a figura dele esquartejado, mas toda a sordidez que envolvia a história, a forma como ela era contada. Tudo aquilo começou a formar em mim um sentimento de desprezo absoluto por tudo o que se relacionava com a história do Brasil. Todos os absurdos gloriosos me davam asco. Eu não conseguia tirar da mente as visões que se formavam, os detalhes sórdidos, como por exemplo, o carrasco montando nas costas do enforcado para que o suplício não se prolongasse.
Aquelas sombras tomaram conta do meu universo e mente, me envolveram como uma bruma negra. Os dias frios e cinzentos, a garoa fina e intermitente tão peculiar de São Paulo naqueles dias só faziam multiplicar aquela onda de terror que me acometia. Eu não tinha fome, nem conseguia conciliar o sono. Só dormia depois de muitas horas me revolvendo na cama e ainda assim era tomado por sonhos estranhos e perturbadores. Eu buscava de forma obcecada saber tudo a respeito do drama da conjuração mineira, e quanto mais sabia, mais odiava aquilo tudo. Eu quase admirava o traidor da "causa", Silvério dos Reis. No meio disto tudo acabei conhecendo um certo Felipe dos Santos que uns anos antes liderou uma revolta semelhante em Ouro Preto. Ali, a coisa se adensava, uma vez que este coitado teria sido esquartejado atado entre quatro cavalos bravos (hoje especula-se que isto seja um mito) e minha cabeça um tanto doente com estas visões macabras ameaçava fundir-se irremediavelmente (pelo menos a mim parecia). O lado bom desta história é que tirei nota máxima por este trabalho, aliás, devo acrescentar aqui que durante o meu primário (hoje ensino fundamental) eu fui um ótimo aluno, só vindo a ser um estudante medíocre no ginásio, ou segundo grau, ou ainda ensino médio.
Eu me sentia triste e sozinho, apavorado por algo invisível e além da compreensão, afinal, ali não havia nada a temer; porque então eu tinha uma sensação de que os espíritos dos inconfidentes viriam me arrastar para aquele passado sórdido com eles, para ser degredado na África ou subir o cadafalso e ser enforcado?
Cheguei a conversar com minha mãe (com meu pai nunca houve diálogo) mas como ela poderia dar crédito a algo tão impalpável?  Logo aquilo iria passar dizia ela. No escuro do quarto algo parecia me observar. Naquela época eu não conhecia a Cristo, nem Sua palavra, não sabia do poder da oração. Meus irmãos, sempre os melhores amigos, eram tenros demais.
Se eu tivesse tempo e espaço, contaria algumas coincidências envolvendo a macabra pintura do Américo, mas pensando bem, melhor não falar disso. Deixo o passado no passado.

Um ano ou dois mais tarde Brasília vinha me saldar com seus horizontes amplos, sua iluminação quase célica e a verdura de sua rasteira vegetação. Aquelas emoções conturbadas pareciam ter ficado para trás. Por pouco tempo. Aprendi com isto que não importa para onde se vá, se não resolve-lo, o problema segue junto com você. Contudo parecia que no céu o mesmo problema tinha uma cara, no inferno outra pior. Talvez na adolescência as impressões nefandas tomassem outro corpo. De qualquer modo o resultado era era o mesmo. Uma terrível sensação de desgraça eminente que me tiravam o prazer da vida. Pra contra atacar eu desmerecia a figura do "herói nacional", dizia que era uma farsa, o cara era um escroto, a história toda era uma mentira. Me diverti de forma forçada quando certa vez a revista Mad retratou alguns célebres personagens históricos. Lá estava o Tiradentes enforcado com a cara do Alfred Newman de lingua de fora e ainda com aquele sorriso imbecil - Estes caras não respeitam nada, nem o único herói que possuímos - disse um amigo de escola. Eu não tinha coragem de olhar a pintura dele esquartejado, quando de forma inadvertida ela me saltava aos olhos, eu tinha palpitações e sudoreses. Afirmava que ela era mal feita, não retratava fidedignamente o local onde a tragédia se deu, como se eu soubesse do que estava falando. Qual o quê, a obra é brilhante, corajosa e ousada, hoje reconheço, embora ainda me cause desconforto.
Pra piorar meus nervos, houve quem falasse que eu poderia ser a reencarnação de um dos inconfidentes, quem sabe do Silvério, até mesmo do Joaquim. Cheguei a frequentar centros espíritas na época e finalmente me dar conta da grande bobajada que é o espiritismo e suas práticas. Resumo tudo em duas únicas palavrinhas: foi horrível.

A história do Brasil pra mim ainda é uma lástima, mas noto como ela vem sendo recontada de diferentes formas conforme a música que é tocada no momento. Fontes modernas e mais confiáveis afirmam que a conjuração mineira não foi bem como aprendemos na escola. Uma nova versão, dizem, bem documentada, afirma que o Tiradentes sequer foi enforcado, que um ladrão foi morto em seu lugar em troca de benefícios à sua família e blá, blá, blá. Pra mim tanto faz.

Como venci isto tudo? Não venci meus amigos. Cristo Jesus venceu por mim. Ontem eu era criança, hoje sou velho, as marcas das inúmeras lutas hoje não passam de meras cicatrizes.

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...