sábado, 20 de julho de 2019
ZÉ GATÃO - SIROCO E AS CENAS REAIS DA VIDA
Rato é um bicho perigoso. Nunca me esqueço de uma notícia que li quando moço, uma jovem mãe, em uma certa favela não lembro de qual estado do Brasil, deixou seu filho recém nascido no berço por uns minutos enquanto ia comprar alguma coisa, um remédio, pão, sei lá. Quando voltou viu aterrorizada umas ratazanas roendo o rosto da criança. A pobre criatura teve um dos olhos, nariz e boca devorados pelos bichos.
Certa vez, na nossa quadra, em Brasília, o zelador do prédio me relatou que fora atacado por um imenso rato que se empanturrava de restos de comida na lixeira do prédio, se sentindo acuado, o bicho saltou-lhe em cima e ele saiu correndo. Não o censuro, é um animal que transmite doenças.
Aqui no bairro onde moro, voltando do supermercado certa vez ao cair da tarde, vi uns gatos com movimentos suspeitos. Um deles meio que montava guarda e um outro se alimentava de algo que eu não conseguia divisar direito o que era, ao me aproximar ele virou-se para mim com a boca cheia de sangue, embaixo dele um enorme rato jazia morto com um imenso ferimento na nuca. Não atrapalhei, saí dali deixando os felinos se banquetearem a vontade.
Não faz muito tempo enquanto eu andava pelas ruas daqui, uns garotos perseguiam um grande roedor já tonto, talvez por alguma pancada, sem condições de fugir, foi vencido pelos chutes dos moleques. Um mais corajoso apanhou o animal pela ponta do rabo e jogou-o no meio da rua para ser esmagado pelas rodas de algum carro. Os pneus tiravam fino da criatura que estertorava no asfalto. Sem estômago para presenciar aquilo, afastei-me deixando os fedelhos entregues à sua cruel diversão.
Zé Gatão - Siroco segue sendo desenvolvido e eu espero estar com tudo pronto antes do final desse ano.
A trama: um grupo de felinos composto por uma tigresa aleijada com um filhote, uma onça, um velho leão, duas panteras negras e Zé Gatão são implacavelmente perseguidos por uma horda de hienas, babuínos e cães do deserto sedentos de sangue. Some-se a esse caldo, um oficial militar sequioso por vingança e urubus ávidos por carniça. Tudo isso num ambiente estéril, onde o sol agourento parece nunca sair de cima de suas cabeças. Um violento Siroco se aproxima prometendo dizimação.
A dor e o sofrimento de cada personagem nesta aventura me servem como expurgo dos males da alma.
Pra vocês, parte de páginas e esboços deste projeto que, acho, será totalmente independente.
Grande beijo a todos e até a próxima, querendo Deus!
sábado, 13 de julho de 2019
GALAXY TRIO
Aqui fala um indivíduo que é um dos últimos de sua raça. Um dinossauro. Sim, uma pedra que já rolou muito - não o suficiente, pelo visto, pois criou certo limo - e sente o enfado da fase atual. Viver nunca foi fácil, ao menos nos dias passados haviam grandes expectações e mais sentimentalidades.
Eu dialogava com uma pessoa próxima e afirmava que a minha geração foi, de certa forma, bem aventurada no quesito progresso da tecnologia e conhecimento. Eu penso que os nascidos entre os anos 50 e 70 foram privilegiados. A ciência se desenvolveu aceleradamente neste período; claro, sementes foram plantadas antes, mas a ampliação da sapiência se deu neste tempo. O homem no espaço, as vacinas, o avanço da medicina, televisão e tutti quanti. Óbvio que sempre existem os efeitos colaterais, com tal soerguimento cresceu também a paranoia e com ela a violência, a quebra de certos valores e costumes deixaram os pilares da sociedade mais frágeis. Mas o meu ponto é: em termos de cultura absorvemos o que de melhor se produziu no tocante a literatura, cinema, quadrinhos e principalmente música. Antes dos anos 50 havia o jazz e o blues mas era restrito. Com Elvis e os Beatles foram plantadas novas sementes (para o bem e para o mal) e o mundo nunca mais foi o mesmo. A literatura sempre foi um ponto forte no mundo, não dá para destacar um período que tenha sido mais fecundo que outro (minha opinião) mas creio que no tempo que eu destaco ela atingiu mais as massas com a abertura promovida pelos pulps. Nas HQs as histórias de terror e mistério da EC amadureceram esta forma de arte como nunca e com o surgimento da Metal Hurland nos 70 ela definitivamente deixou de ser coisa de adolescente e adulto infantilizado.
Hoje vivemos uma era tecnológica como nunca se viu e noto como o mundo ficou pequeno e estranho. Pessoas hoje se relacionam através de uma câmera de vídeo, parece não haver mais necessidade de contato físico. Isso me soa alienígena.
Lembro da época que numa festa de aniversário, casamento ou férias, tirávamos fotos e havia uma expectativa enorme para levar ao laboratório e aguardar para ver as imagens. Algumas saíam fora de foco, tremidas ou mal enquadradas (eu tinha uma tia que sempre cortava nossas cabeças nas fotos), mas as melhores eram guardadas em pequenos álbuns e viravam relíquias. E não era barato! Hoje este sentimento, esta expectação se perdeu. Com a modernidade tiramos instantâneos da vida por um aparelho que emite uma imagem em alta definição, se gostamos, enviamos por e-mail, salvamos e esquecemos numa pasta eletrônica. Se não gostamos, deletamos.
O mesmo posso dizer da emotividade em escrever e remeter cartas. A gostosa ansiedade pela resposta, a chegada do carteiro (este por quem tenho até hoje um profundo respeito), a esperança para ler as aguardadas palavras. Me lembra aquela música da Vanusa. Todas essas impressões quase que volatizaram pois hoje enviamos mensagens subitâneas, aceleradas, pelos mesmos mini computadores que trazemos nas mãos e que não deixamos nem nas horas das refeições.
Quando me referi acima como "mundo estranho" quis dizer também que até temo em passar a mão pela cabeça de uma criança e ser chamado de pedófilo. Não há como elogiar a beleza e elegância de uma mulher sem recear a acusação de assédio.
Mas claro que reconheço os enormes benefícios do tempo presente, não fosse isso eu não poderia transmitir essas ideias para vocês através deste espaço; meu trabalho, que sempre foi meio ignorado, não teria tido alcance nenhum. Sem falar no acréscimo dos anos de vida.
O Galaxy Trio são os antigos heróis da Hanna Barbera que dividiam o espaço com o Homem Pássaro nos idos dos anos 60. Recordo que o roteirista Leonardo Santana sugeriu que eu os retratasse pela minha ótica. Este valioso amigo saiu das redes sociais e faz falta.
Boa noite a todos e fiquem com Deus!
Obs - Mais uma vez perdoem os possíveis erros, não fiz revisão.
sábado, 6 de julho de 2019
AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 14 ).
Ah, como eu queria ser rico! Queria ter bastante dinheiro! Bem, quem não queria, né? Mas eu diria que meu caso é um pouquinho diferente. Se eu tivesse uma baita grana não gastaria com Ferraris ou mansões com 20 banheiros, não ia ficar torrando com cruzeiros inúteis. Em primeiro lugar eu deixaria a família bem de vida. Um bom lugar para morar com conforto e segurança é primordial, este seria o meu presente a eles. Para mim eu compraria um espaço para transformar em estúdio. Um local para armazenar meus companheiros, os livros, e, claro, minha prancheta. Ali também poderia ter um frigobar e um confortável sofá para repousar as costas depois da labuta. Nas paredes alguns dos meus trabalhos emoldurados, tímidos, ao lado de reproduções dos grandes mestres (nunca pude fazer isto nos locais onde morei, jamais consegui enquadrá-los). Este local poderia ser alguma das sobrelojas das comerciais da Asa Norte em Brasília, aquelas que ficam de frente para as quadras. Sempre achei estes espaços agradáveis. Seria o meu recanto de trabalho e repouso.
Mas acima de tudo eu gostaria de realizar os sonhos das pessoas, ou pelo menos prover um meio delas realizá-los. Nunca me esqueço de um moço batalhador que certa vez me falou que precisava fazer um curso para melhorar seu salário na empresa onde trabalhava. Tivesse eu o recurso eu teria pago o tal curso. Ou ainda aquele que precisa de veículo - carro ou moto - para trabalhar. Pensem, eu que amo esse negócio dos quadrinhos poderia dar uma força àquele que quer publicar sua obra para ver se isto o ajuda a entrar no mercado, ou mesmo pelo prazer de ver seu projeto circulando nas mãos dos admiradores. Eu queria ter dinheiro não para comer um bife de 500 reais na Argentina, mas para coisas como as que mencionei. Nada contra os milionários que torram muito com coleção de Harley Davidson, cada um cuida de fazer o que bem entende com o que é seu de direito, mas minha praia é outra; me visto de forma decente, porém simples, jeans, camiseta, ou camisas com as mangas dobradas na altura da metade do antebraço, tênis ou botas/sapatos esportivos, trajo basicamente aquilo que vocês veem nos desenhos do Zé Gatão (sem as camisas rasgadas, é claro). Gosto de comer bem mas nada dessas coisas sofisticadinhas francesas que aparecem no Masterchef, pratos que parecem uma pintura abstrata e que sugerem fome após a degustação. Se a cama é confortável e limpa, tá valendo, os lençóis não precisam ser de linho fino ou pura seda. Passei a minha vida inteira com muito, muito pouco, as vezes quase nada. No Rio de Janeiro eu dormia em cima de um tapete de couro de boi, coberto com um lençol simples e uma almofada forrada de uma planta chamada Marcela. Fazia refeições frugais, mas mantinha um espírito positivo apesar da depressão que sempre tentou me engolir por completo. Hoje sinto meu espírito quebrado, se dobrando a cada insulto e cusparada.
A bondade está escassa, mas em meio ao mar de lama Deus mostra que há flor no meio da urtiga; um dia desses procurava um telefone publico para ligar para casa - sem sucesso - e um senhor me estendeu seu celular dizendo: ligue do meu, fique a vontade.
E tem a bondade que vem acompanhada de interesse. Esta semana eu e Vera fomos às compras e eu estava sem crédito para solicitar um Uber. Perguntei se uma das pessoas ali no estacionamento do mercado poderiam rotear sua internet para meu aparelho apenas para eu pedir um carro e todos negaram. Mas um moço acompanhado de sua namorada disse: eu peço um Uber para o senhor. E assim o fez. Agradeci. Tomamos o veículo e então percebi que o motorista era amigo do cara que solicitou. Tudo estaria bem exceto pelo preço que ele cobrou pela corrida. Ficou, é claro, mais barato que um táxi, mas muito acima do que normalmente pagamos ao pedir pelo aplicativo.
Bem, se eu olhar com os olhos humanos, só verei as atuais circunstâncias, ou seja, jamais terei dinheiro para viver meus últimos dias com mais sossego e conforto. Possivelmente, pelos motivos que citei acima eu jamais farei fortuna, as pessoas bem sucedidas neste quesito pensam muito sobre este assunto, investem na bolsa, economizam, fazem aplicações financeiras. Fica complicado agir assim os que tem "devoradores" gravitando por todos os lados.
Hoje, mais velho, tenho vergonha de pedir dinheiro emprestado a amigos. Muitas vezes leio nos olhos deles algo como: porra, velho, tu nunca sai da merda? Se possível fosse jogariam a nota numa fossa para eu pegar. Nunca me esquecerei de um editor que certa vez me detratou pelo telefone em plena hora do almoço porque eu pedi um adiantamento do valor que ele me devia, ele disse que eu era uma pessoa nociva, eu iria receber na data combinada, solicitando adiantamento e ele impossibilitado de ajudar, se sentia uma pessoa má, eu o tornava mal.
Mas sempre tem os que entendem as situações difíceis e estendem a mão e ainda dizem para eu pagar quando possível, para eu não me preocupar com prazo. Que Deus abençoe a eles e também aos que fazem de má vontade ou nem fazem, afinal, o sol nasce para todos da mesma forma, não é?
A penúltima arte deste clássico.
Por conta da correria não fiz revisão de texto. Se houver erros (dever haver) queiram perdoar.
Até a próxima postagem, se o Senhor permitir!
sábado, 29 de junho de 2019
AINDA ESTOU POR AQUI.
Depois de mais de duas semanas afastado da prancheta, dos desenhos, das redes sociais e deste blog, retorno para minhas atividades. Volto aos lápis, papeis, pinceis e tintas; retorno à HQ Siroco e por fim à minha vida depois de um tempo onde tentei me desconectar de tudo. Tentei, porém não consegui. Me abstenho de falar sobre as aflições do tempo presente, elas são as mesmas desde sempre e uma nova chance parece quimera, não obstante eu admito que olho pelos olhos da carne, para as circunstâncias, não pelos olhos da fé - a minha parece ser menor que o grão da mostarda - senão eu me inspiraria nos acontecimentos que envolveram o José no Egito. Não conhecem a história? Se tiverem uma Bíblia em casa, leiam o capítulo 37 de Gênesis até o 46, na verdade podem ler até o final de Gênesis.
Não sei se as aflições atuais são piores que as do passado, parece que sim, pois lá, no ontem, pulsava a juventude e esperança de dias com sol mais ameno, ao entrar na velhice eu esperava dias de mais sossego e reflexão, qual agricultor que labutou duro em sua vinha e depois de longa batalha, esperou para poder comer o fruto da vide com satisfação - o que não é o caso. Entretanto, ainda não é tarde demais.
Já que citei o passado, hoje, por coincidência eu relia uma HQ escrita pelo Harvey Pekar e desenhada pelo Crumb, intitulada "AMERICAN SPLENDOR ATACA A MÍDIA". Na tal história, Pekar reclama de uma chance perdida de sucesso com a fracassada tentativa de ter uma página de seu gibi publicada no independente jornal novaiorquino The Village Voice. O cara só queria uma chance de brilhar, mostrar para um público mais amplo o seu trabalho e se viu iludido e ignorado. Parecia a história da minha vida. Houve um tempo que eu corria a cata de publicidade para meus talentos como desenhista, tentava as redações de revistas, jornais, ia aos eventos de quadrinhos e tentava me enturmar. Queria poder viver da arte, ilustrando livros ou fazendo álbuns de quadrinhos. Às duras penas consegui alguma coisa, mas nunca foi suficiente. O mesmo aconteceu com o Harvey Pekar, pelo que noto, mesmo ele tendo se tornado uma celebridade graças as conturbadas participações no programa do David Letterman.
A tal HQ onde ele se queixa do Voice é de 1983, nesta época, com 21 anos, eu estava de volta a Brasília depois de correr atrás de avião no Rio de Janeiro, tentava arrumar emprego para ajudar a família. Somar esforços, vocês sabem. Era uma dureza sem fim. Meu pai, naqueles tempos, tirou uma licença prêmio e foi para São Paulo em mais umas das suas inúmeras tentativas de fazer dinheiro e ficou vários meses sem dar notícias.
Havia na comercial da SQS 202 um horti fruti de um certo japonês chamado Maeda que minha mãe conhecia que as vezes nos dava umas sobras de frutas, dessas que estão perto de vencer. Ela serviu de babá para o neto do tal japa, por uns trocados. Alugou o quarto de empregada para um rapaz da igreja mórmon, enfim, tudo pela sobrevivência. Meus irmãos todos ainda muito novos. Eu lembro que certa vez fui atrás de um anúncio, o recém inaugurado Carrefour do Park Shopping precisava de funcionários em várias áreas. Passei horas em uma fila quilométrica debaixo do sol ouvindo as conversas dos outros desesperados por emprego perto de mim, uma bela moça se queixava que o namorado, por ser negro, sofria preconceito por parte da família dela. Na minha vez de ser atendido preenchi uma ficha e fui entrevistado por uma gorda. Estou esperando ser chamado até hoje.
Minha mãe conhecia muitas pessoas em Brasília, mas ninguém que pudesse ajudar efetivamente. Um conhecido de meus pais, que mais tarde viria a ser deputado, participava de um programa de TV local, destes comuns, como "O Povo na TV", onde pessoas com as mais diversas habilitações ofereciam seus serviços a quem interessar pudessem. Eu fui anunciado como desenhista e procurava trabalho em agências de propaganda e gráficas. Mas eu, desenhista? Naquela época eu fazia meus rabiscos em folhas de xerox com canetas bic. Havia pintado murais no Rio, mas em Brasília aquilo não existia.
Malgrado toda esta dificuldade, eu sentia grande prazer em estar junto a minha mãe e irmãos. Éramos como uma corda bem entretecida. Eu me sentia satisfeito com o céu, o por do sol do planalto, o vento e toda a natureza do Criador.
Minha vida estava para dar uma guinada - não exatamente para melhor, posso adiantar - quando fiz dois concursos públicos, um para o DASP (um órgão mais tarde extinto pelo Collor) e o outro para a Polícia Militar do DF, passei nos dois e tive que fazer opção por um. Comento sobre isto posteriormente? Quem sabe? Mais que nunca a existência é uma incógnita e eu ando muito exaurido até para escrever memórias aqui.
O Harvey Pekar teve seu brilho, seu quadrinho American Splendor deu origem a um premiado filme com o ator Paul Giamatti no papel de Pekar (filme muito bom, aliás, recomendo), mas será que ele pode saborear esta tardia vitória? Ele morreu de câncer em 2010.
Eu, até onde sei, continuo respirando, mas o "momento" mesmo ainda não chegou.
O Zorro postado abaixo é minha terceira incursão no personagem. Eu toparia fazer uma graphic novel dele.
Bem, sei lá se poderei estar aqui com vocês na próxima semana, mas desejo a todos tudo de bom.
Não sei se as aflições atuais são piores que as do passado, parece que sim, pois lá, no ontem, pulsava a juventude e esperança de dias com sol mais ameno, ao entrar na velhice eu esperava dias de mais sossego e reflexão, qual agricultor que labutou duro em sua vinha e depois de longa batalha, esperou para poder comer o fruto da vide com satisfação - o que não é o caso. Entretanto, ainda não é tarde demais.
Já que citei o passado, hoje, por coincidência eu relia uma HQ escrita pelo Harvey Pekar e desenhada pelo Crumb, intitulada "AMERICAN SPLENDOR ATACA A MÍDIA". Na tal história, Pekar reclama de uma chance perdida de sucesso com a fracassada tentativa de ter uma página de seu gibi publicada no independente jornal novaiorquino The Village Voice. O cara só queria uma chance de brilhar, mostrar para um público mais amplo o seu trabalho e se viu iludido e ignorado. Parecia a história da minha vida. Houve um tempo que eu corria a cata de publicidade para meus talentos como desenhista, tentava as redações de revistas, jornais, ia aos eventos de quadrinhos e tentava me enturmar. Queria poder viver da arte, ilustrando livros ou fazendo álbuns de quadrinhos. Às duras penas consegui alguma coisa, mas nunca foi suficiente. O mesmo aconteceu com o Harvey Pekar, pelo que noto, mesmo ele tendo se tornado uma celebridade graças as conturbadas participações no programa do David Letterman.
A tal HQ onde ele se queixa do Voice é de 1983, nesta época, com 21 anos, eu estava de volta a Brasília depois de correr atrás de avião no Rio de Janeiro, tentava arrumar emprego para ajudar a família. Somar esforços, vocês sabem. Era uma dureza sem fim. Meu pai, naqueles tempos, tirou uma licença prêmio e foi para São Paulo em mais umas das suas inúmeras tentativas de fazer dinheiro e ficou vários meses sem dar notícias.
Havia na comercial da SQS 202 um horti fruti de um certo japonês chamado Maeda que minha mãe conhecia que as vezes nos dava umas sobras de frutas, dessas que estão perto de vencer. Ela serviu de babá para o neto do tal japa, por uns trocados. Alugou o quarto de empregada para um rapaz da igreja mórmon, enfim, tudo pela sobrevivência. Meus irmãos todos ainda muito novos. Eu lembro que certa vez fui atrás de um anúncio, o recém inaugurado Carrefour do Park Shopping precisava de funcionários em várias áreas. Passei horas em uma fila quilométrica debaixo do sol ouvindo as conversas dos outros desesperados por emprego perto de mim, uma bela moça se queixava que o namorado, por ser negro, sofria preconceito por parte da família dela. Na minha vez de ser atendido preenchi uma ficha e fui entrevistado por uma gorda. Estou esperando ser chamado até hoje.
Minha mãe conhecia muitas pessoas em Brasília, mas ninguém que pudesse ajudar efetivamente. Um conhecido de meus pais, que mais tarde viria a ser deputado, participava de um programa de TV local, destes comuns, como "O Povo na TV", onde pessoas com as mais diversas habilitações ofereciam seus serviços a quem interessar pudessem. Eu fui anunciado como desenhista e procurava trabalho em agências de propaganda e gráficas. Mas eu, desenhista? Naquela época eu fazia meus rabiscos em folhas de xerox com canetas bic. Havia pintado murais no Rio, mas em Brasília aquilo não existia.
Malgrado toda esta dificuldade, eu sentia grande prazer em estar junto a minha mãe e irmãos. Éramos como uma corda bem entretecida. Eu me sentia satisfeito com o céu, o por do sol do planalto, o vento e toda a natureza do Criador.
Minha vida estava para dar uma guinada - não exatamente para melhor, posso adiantar - quando fiz dois concursos públicos, um para o DASP (um órgão mais tarde extinto pelo Collor) e o outro para a Polícia Militar do DF, passei nos dois e tive que fazer opção por um. Comento sobre isto posteriormente? Quem sabe? Mais que nunca a existência é uma incógnita e eu ando muito exaurido até para escrever memórias aqui.
O Harvey Pekar teve seu brilho, seu quadrinho American Splendor deu origem a um premiado filme com o ator Paul Giamatti no papel de Pekar (filme muito bom, aliás, recomendo), mas será que ele pode saborear esta tardia vitória? Ele morreu de câncer em 2010.
Eu, até onde sei, continuo respirando, mas o "momento" mesmo ainda não chegou.
O Zorro postado abaixo é minha terceira incursão no personagem. Eu toparia fazer uma graphic novel dele.
Bem, sei lá se poderei estar aqui com vocês na próxima semana, mas desejo a todos tudo de bom.
sábado, 8 de junho de 2019
A LONGA NOITE ENTRE FELINOS E CUECAS.
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| Charles Bukowski e Zé Gatão. |
Estafa: essa palavra me define. Ando outra vez com a difícil e humilhante tarefa de pedir dinheiro emprestado a amigos e conhecidos. Crise, esta velha conhecida que de tempos em tempos vem bater na porta, entra pela janela, se acomoda, esvazia a geladeira e bagunça todo o ambiente. Nunca foi diferente. Eu queria que em minha vida os momentos de bonança, paz e alegria pesassem mais na balança que os de tensão e depressão, mas não é assim.
Me recordo daqueles tempos em São Paulo, os anos 90, tudo era cinza, frio, eu quase podia ver os espíritos dos mortos vagando naquelas noites entre os arranha-céus, principalmente na primeira metade da década.
Certa noite, um conhecido que trabalhava criando embalagens, em um escritório que ficava na Rua da Consolação, me ofereceu um trabalho que ele recusou por por falta de tempo para executar. Naqueles dias eu pegava qualquer bonde que me levasse aonde tivesse alguns trocados. Ele me apresentou a um cara de aspecto delicado, eu teria que fazer uns desenhos para um catálogo de cuecas da Hering, coisa de umas duas horas de trabalho. Topei, claro, eu não tinha nada em vista. Fechamos um preço que a mim pareceu razoável. Eram umas 19 horas e marcamos para nos encontrarmos na frente daquele prédio e dali seguiríamos até a agência onde eu faria as ilustrações.
Voltei para casa e comi alguma coisa. Se não me engano meus pais estavam fora, em viagem.
No horário marcado lá estava eu, o fulano delicado e sua barbinha chegava uns minutos depois. Era uma noite muito gelada. Tomamos um táxi até um condomínio em Pinheiros. A tal agência de publicidade pertencia a uma mulher cujo nome não é possível recordar, mas chamaremos de Dark e funcionava no seu apartamento; na verdade uma quitinete. Ela vivia só, com três gatos siameses. Devia ter uns 40 anos e nos recebeu de roupão. Ela me explicou o que desejava, fazer alguns desenhos de rapazes de cueca para o catálogo de uma famosa marca, os esboços, digamos assim, era para ela montar um "boneco" do tal catálogo e ver se empresa aprovaria. Se fosse admitido, meus desenhos seriam substituídos por fotos.
Julguei que umas duas horas de trampo seriam suficientes, o barbicha delicado me pagaria o táxi de volta para casa. Tirei meu casaco e fui para um quartinho onde havia uma mesa e alguns alistamentos onde se viam rapazes de sungas dos mais variados modelos, para eu me guiar.
Rabisquei algumas coisas e Dark gostou. Você curte desenhar histórias em quadrinhos? Perguntou. Sim, respondi. Nota-se, ela disse. Muito bom, continue assim, estamos no caminho certo, falou, se afastando. Fiz uma série de desenhos a lápis de torsos masculinos de aspecto atlético procurando valorizar as sungas. Levei a ela e foram todos assentidos. Ela recortava as figuras e posicionava os desenhos no boneco do catálogo e discutia com o barbicha qual a melhor composição. Cada vez que eu fazia uma série, tentando não repetir muito as poses, ela substituía pelas anteriores e me pedia mais. Nisso, a madrugada ia alta, três, quatro horas; os felinos, de hábitos noturnos, com sua graça e agilidade, pulando do chão para minha mesa, da mesa para os armários, um atrás do outro, numa agilidade impressionante.
Haviam desenhos de homens de cuecas mais que suficiente para encher uns cinco catálogos daqueles e pareciam nunca ser suficientes. Estamos no caminho certo, quase lá, faça mais, ela pedia.
Meus olhos doíam, as costas reclamavam e minhas mãos quase não conseguiam mais segurar o lápis. O dia amanheceu e Dark, como uma louca, se angustiava por não encontrar o tom certo do que queria. Barbicha pacientemente fumava seu cigarro e dizia que já estava bom. Ela: não, isto pode ficar melhor, e se posicionássemos assim? ou assim? e se ele fizesse esses desenhos um pouco maiores pra colocar no início de cada página?
E assim prossegui, morto de exaustão, sem comer, até quase 10 horas da manhã. Eu calculo que devia ter feito perto de uns 300 desenhos, todos a lápis, com 10 cm de altura e Dark nunca estava satisfeita.
Por fim, ela disse: ok, acho que é isso, fechamos, me faça apenas mais uns 10 numa pose assim e assim para eu ter de reserva na hora de apresentar na Hering. Eu tinha chegado ao meu limite, inventei que tinha um compromisso inadiável para dali a uma hora e precisava ir embora. Me deixe pelo menos seu telefone, ela pediu, para o caso de eu precisar substituir alguma coisa. Eu falei que não tinha telefone (e isso era verdade). Pode me pagar, por favor? instei. Certo, quanto é? Falei o valor que havia combinado com o barbicha. Nossa!!! Tudo isso?!?!? ela se espantou e volutou-se ao amigo. Você definiu isso com ele??? Sim, o valor é justo, ele ficou aqui pacientemente a noite toda e fez um ótimo trabalho, asseverou o barbicha fumando languidamente seu cigarro. Concordo, falou Dark, mas eu ando com pouco dinheiro, você não podia diminuir o valor? Eu disse que infelizmente não era possível. Ela fez ar de resignada e perguntou se eu poderia segurar o cheque por uma semana. Concordei. Só queria ir embora dali. Como só tinha aquele cheque no bolso tive que pedir o dinheiro da passagem de ônibus ao barbicha para poder voltar para casa. Me despedi dos dois e ganhei as ruas movimentadas. Peguei um coletivo lotado para a Praça da República. No trajeto eu quase caí sentado de tanto sono umas duas vezes.
Finalmente cheguei em casa. Tomei um banho, comi alguma coisa e fui me deitar. Curiosamente não consegui dormir. Mas em uma semana eu teria dinheiro por algum tempo.
sábado, 1 de junho de 2019
AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 13 ).
Ei, estamos chegando quase ao final das ilustrações para os contos do Artur Azevedo! Agora eu já nem lembro direito quais foram os livros que ilustrei e postei os desenhos aqui, terei que fazer uma avaliação para exibir os inéditos. Lembrando que ainda faltam ser publicados metade dos livros que produzi para a Editora Construir, não falei mais com eles para saber, na última vez, disseram que entrariam em contato e até agora nada. Resta esperar.
Enquanto não dou continuidade aos relatos que comecei, vamos falar um pouco sobre o que anda me fazendo companhia.
QUADRINHOS:
Li Batman e Filho do Grant Morrison com arte do Adam Kubert. Trata da chegada do Damian Wayne na vida do morcegão, filho que ele teve com Talia, a filha do vilão Ra´s Al Ghul. Sinceramente eu esperava mais de um roteirista do calibre do Morrison. Um acontecimento desta natureza, um novo Robin que vai rivalizar com o atual, Tim Drake, merecia algo mais consistente, mais maduro, mais sombrio. A narrativa é falha e parece que o cara escreveu para cumprir uma agenda. O desenho é bem funcional mas peca em muitos pontos. Serve como entretenimento? Sim, mas como eu disse: é Grant Morrison, o cara que compõe uma trinca ao lado de Neil Gaiman e Alan Moore.
Partindo para a concorrente (Marvel), ainda estou lendo Homem-Aranha Percepções. Só não acabei ainda porque a leitura tem me dado sono. Peguei emprestado porque este volume é da fase do Todd MacFarlene, criador do Spawn, é bem famosa, vendeu milhares de cópias no EUA nos anos 90 e eu nada conhecia dela. Eu já sabia que o Todd desenhava mal, sua anatomia, mais falha impossível, mas é lá meio caricato e ele tem bom design de página, agora, é péssimo escritor. PÉSSIMO!!!! Pelo menos nesta primeira aventura onde o Aracnídeo se une ao Motoqueiro Fantasma para lutar contra o Duende Macabro. Espero que o próxima história ao lado do Wolverine seja melhor (trata-se de um álbum em capa dura).
Isto mostra que talvez eu esteja ficando velho para as HQs de heróis.
Remexendo em uma caixa antiga me deparei com um velho Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo, edição da Record intitulado Incubus. Reli. Tinha me esquecido o quanto este material é excelente, o que prova que as HQs europeias ainda dão um banho de qualidade e criatividade no comic americano.
LIVROS:
Acabei O Morro Dos Ventos Uivantes - que gostei muito - e parti para reler Hollywood do Bukowski - que nunca tem como dar errado - acabei e agora leio o tomo dois de As Mil e Uma Noites, curti demais o primeiro e o segundo continua no mesmo pique.
MÚSICA:
Tenho insistido nas velharias, nas coisas que produziram nos anos 50 (principalmente) e 60.
Filmes:
Capitã Marvel - diverte, achei bem feitinho, mas é com certeza o filme mais fraco da Marvel.
Aquaman - Me surpreendeu positivamente. Um personagem que nunca me chamou a atenção e era zoado por todos por falar com latas de sardinha nas animações e conseguiram fazer um filme decente, bem produzido. Ponto pra DC!
Tô ligado que o cinema não é só filme de herói e deve ter coisa bacana rolando por aí, mas tenho preferenciado apenas coisas que me relaxem.
SÉRIES: The Walking Dead - só tenho visto pra não morrer na praia. A nona temporada mostra que passou da hora de acabar.
Hells on Wheels - faroeste que trata da construção das ferrovias que ligarão o leste e o oeste americano. Sensacional as cinco temporadas! O final, os últimos 10, 15 minutos quase botam tudo a perder.
Guerra dos Tronos - O que dizer? Uma das melhores séries de todos os tempos! Até a sexta temporada, é claro. Na sétima, onde não era mais lastreada pelos livros, os roteiristas começaram a cagar tudo. A oitava eles cagam tudo, sentam em cima e limpam o cu com a bosta. Nem vou falar mais nada. Lamentável!
E é isso.
Será que nos vemos na próxima semana? Espero que sim.
domingo, 26 de maio de 2019
AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 12 )
Depender das máquinas para atividades profissionais tornou-se um grande problema. Lembro-me de um amigo que eu tive bem no comecinho dos anos 90 onde a informática ainda dava seus primeiros passos na vida cotidiana das pessoas. Publicitário, trabalhava em casa e usava o computador para tudo, fazer suas artes, logos e jingles. Muito requisitado por sua competência, teria ganho muito dinheiro se soubesse cobrar bem pelos seus serviços, este é meu problema também, com a diferença de que ele era funcionário público de um ministério em Brasília e usava seus dons apenas por paixão e para complementar sua renda, eu, além de não ser tão disputado como ele, não sei fazer mais porra nenhuma na vida a não ser desenhar.
Bem, o caso é que certo dia o PC dele começou a travar e por fim brecou de vez. Poucas vezes o vi tão raivoso e depois depauperado mentalmente. Levou o aparelho para consertar e eu o acompanhei nessa via crúcis. Não haviam tantos profissionais em computadores neste período, teve que trocar placa e sei lá mais o quê, levou mais de uma semana para pegá-lo de volta.
Esta introdução foi para comentar que eu também ando tendo dor de cabeça com os eletrônicos que hoje já fazem parte total de nossas vidas. No meu caso, vivo bem sem redes sociais, embora elas desempenhem um papel fundamental para eu ganhar dinheiro, mas não é só isso, tenho que escanear imagens, fazer pesquisas, enviar e responder e-mails e etc e o funcionamento limitado dos aparelhos me impedem inclusive de fazer uma postagem mais bacana aqui.
E já que mencionei este blog, vocês sabem que comentei várias vezes minha intenção de finalizá-lo. Tenho pensado insistentemente nisto por vários motivos: o primeiro deles são as baixas visualizações, tem a minha falta de motivação, noto que estou soando repetitivo a bastante tempo, motivo pelo qual muitos talvez tenham debandado. Acho que minhas palavras soam cada dia mais insossas, sem a alma de outrora. Pode ser minha fadiga mental, o tempo sempre muito curto ou eu não tenha mais o pique, vai saber.
Entretanto, algumas pessoas curtem minhas linhas, pedem para eu continuar e muitas até já pediram para publicar minhas crônicas, memórias e contos em papel. É muito lisonjeiro mas vocês sabem, não sou escritor, me sinto um analfabeto funcional, não escrevo direito, não sei bem o uso de vírgulas e todas essas coisas da língua portuguesa, o que faço aqui é usar essa ferramenta do Google como um diário, um veículo além de minhas artes e HQs para me comunicar com um público. E duvido muito que algum editor vá se arriscar numa furada dessas. Só se eu fosse o Eisner ou o Kirby.
Eu não tenho mais visitado os blogs que curtia, muitos de artistas dos quais sou fã, e boa parte deles também abandonaram seus espaços para se concentrar em páginas no Facebook, Instagram, Twitter e o que mais tiver a disposição.
Bem, já falei o que tinha pra falar hoje. Agora é arrumar tempo para a segunda parte da saga do Ed Palumbo e as memórias com Alvarado em meio as artes que tenho que entregar e os percalços com computadores lentos.
Mais uma arte para o conto do Artur Azevedo.
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