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domingo, 9 de fevereiro de 2020

UM QUENTE DIA CLARO QUE NÃO ALEGRA UMA ALMA CHEIA DE TEMORES.


Há um pesadelo constante que deteriora o meu viver. Como uma onda, ele vai e vem. A raiz da árvore já foi contaminada, não há remédio para ela a não ser o machado..... e eu não tenho forças para derrubá-la. Enquanto ela segue apodrecendo, vou tentando existir, sabendo que há pessoas em situação bem pior. Esta semana, na fila do banco, vi um rapaz, jovem ainda, com um terrível melanoma cancerígeno no nariz que se espalhava por uma parte do rosto. Um outro dia um velho me abordou pedindo dinheiro, me mostrou umas receitas - e todas essas coisas - dizendo que tinha câncer, que teria que colocar uma bolsa de colostomia na barriga e tal. Não sei se era verdade mas dei os trocados que eu tinha.

Mas sigo a maré até onde ela me levar.
Continuo fazendo os storyboards para o filme de terror e uma nova porta de trabalho começa a se abrir. Há uma burocracia no meio que emperra tudo: MEI, conta jurídica para poder receber pagamentos e etc.

Minha HQ, ZÉ GATÃO - SIROCO teve nova interrupção. Meus contos, que vou erigindo aos poucos, também.

Enquanto a vida segue em seus açoites, tento tocar a rotina. Vamos a ela?

QUE LIVRO ESTOU LENDO?
Com o falecimento do Neil Peart, o genial baterista do Rush, resolvi finalmente ler A ESTRADA DA CURA, livro em que ele relata como voltou "à vida" depois da morte de sua filha, num acidente de carro e de sua esposa, vitimada pelo câncer alguns meses depois. Ele decidiu sair de moto, viajando sem rumo pelas estradas desertas do Canadá, EUA e outros lugares. Muito bom texto, pena que eu não tenha tempo e concentração para degustar como se deve.


QUE QUADRINHOS ESTOU LENDO?
Black Hammer, com roteiro do Jeff Lemire e desenhos de Dean Ormston. Super heróis numa pegada bem diferente onde há ecos na fase dourada dos justiceiros. Mas estou no décimo número e pelo visto ainda falta muito para amarrarem todas as pontas. Até aqui está bem legal, tomara que não estraguem tudo enrolando indefinidamente.

Terminei de ler os quatro volumes de Parker, HQ policial excelente adaptada pelo saudoso Darwyn Cooke dos livros de Richard Stark.



O QUE ESTOU ASSISTINDO?
No cinema, o último filme que vi foi o EXTERMINADOR DO FUTURO, DESTINO SOMBRIO. Fraco toda a vida. Arnold em franca decadência, só aparece como alívio cômico lá pela metade do filme. James Cameron conseguiu enterrar de vez a sua criação.

VAMOS ÀS SÉRIES DE TV:
Finalmente terminei de ver MISTER MERCEDES, baseado na obra de Stephen King. Boa, mantem a tensão, decepcionando um pouco no último episódio.

THE WITCHER - Bacaninha, não li os livros e muito menos conheço os jogos ou as HQs, eu pensei que teria um tom mais sombrio. Demorou para eu sacar que cada personagem está numa linha diferente de tempo. As cenas de luta com espada são muito bem coreografadas. Acho que o Henry Cavill está bem caracterizado mas um tanto canastrão. Os efeitos especiais podiam ser um pouco mais caprichados. Mas fiquei curioso por uma nova temporada.

WATCHMEN - Excelente fotografia, trilha sonora nota 10, mas todo o resto achei lamentável. Pelo pouco que li, a galerinha da cultura pop brasileira curtiu. Nem vou falar mais a respeito, dá pra entender porque o Alan Moore se nega a ter sequer seu nome nos créditos destes caça niqueis.

SONS OF ANARCHY - Estamos na terceira temporada. Vera curte bastante, eu estou achando muito novelão das 8.

Tenho que retomar Os Vikings, que parei na terceira temporada.

O QUE TENHO OUVIDO?
Música clássica, preciso de coisas que me acalmem o espírito. Mas um dia desses  eu trabalhava e deu vontade de ouvir velharias (como sempre), só que não escolhidas por mim, pesquisei no Youtube por sucessos dos anos 70 e ouvi quase duas horas de canções que nunca mais eu tinha escutado. Coisas bem bregas, clássicos italianos e franceses misturados com baladas americanas. Pô, foi muito legal! Ouve um tempo em que se faziam músicas boas. 

Até semana que vem, meus queridos e minhas queridas! Deus abençoe a vida de vocês!

 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

UM CERTO JUDEU.


ESCREVO AO SOM DE BARULHO DE CHUVA E TROVOADAS DISTANTES, NO YOU TUBE, ISSO ACALMA A MINHA ALMA.
BEM, VAMOS LÁ....


Isto se passou em meados da década de 1970.

Dudu era um menino de uns 12 anos que saiu de sua cidade natal para morar num estado muito distante e bem diferente de tudo que tinha conhecido até então.....depois de quase um ano, durante umas férias, ele retornava ao seu ponto de origem, na verdade ele não sabia exatamente porque, não havia deixado grandes amigos e o tio que ficara no apartamento outrora alugado por seu pai nunca o considerou gente, pelo menos não naquela época, mas pensando bem, que adulto respeita um fedelho dessa idade? Bom, o caso é que depois que seus pais conseguiram a autorização junto ao juizado de menores, lá estava ele encarando uma viagem de quase doze horas até São Paulo.
Ao chegar no Terminal Rodoviário da Luz, próximo à Praça Júlio Prestes, o cheiro da fumaça, as cores opacas da cidade trouxeram alguma nostalgia. Havia uma certa luminosidade no ar lembrando um pouco o cromatismo das películas de cinema dos anos 60.
Caminhou pela Avenida Duque de Caxias e dobrou na Avenida Rio Branco até chegar na Rua Aurora, onde morava o tio.
Não esperava encontrar o apartamento cheio de gente: tias, tios e primos (todos mais velhos que ele, claro) que vieram para a formatura de uma prima que seus pais abrigaram uns anos antes. A convivência não foi agradável; como sempre, ele era alvo de zombaria de um povo maledicente cuja única diversão consistia em falar mal uns dos outros.

Mas o que interessa neste relato foi o reencontro de Dudu com um certo coleguinha de infância a quem chamaremos de Israel. Este menino, de família judia era mais alto que ele, mais bonito (tinha olhos verdes) e contava com excelente educação escolar, muitos mimos o tornaram um tanto soberbo. Uns anos antes, Dudu estava com seu irmãozinho (Gil ou Dedé?) em seu colo e era acompanhado por este amigo, bem ali, na esquina da Rua Guianazes com a Rua Vitória e uns meninos de rua vieram em sua direção. O então valente Israel, que sempre dissera ser o tal, revelou sua pusilanimidade saindo correndo sem uma palavra, deixando Dudu à sua própria sorte com um bebê nos braços. Os meninos de rua apenas passavam por ali, não eram ameaça, no final das contas, mas para um guri abastado como Israel, eles eram o próprio terror encarnado.
Israel, sempre humilhou o Dudu, mas era uma humilhação diferente das que ele fora vítima por parte de seus primos e outros garotos da escola. Israel se gabava de ser judeu, de ter uma família rica, estudar num colégio caro, ter muitos gibis, brinquedos, autorama e um kart. Ah, o kart! Aquilo nunca foi o sonho de consumo de Dudu, talvez fosse demais para ele. Certa vez, Israel o chamou para ir até o galpão onde ficava o depósito de papeis (o ramo de negócios do patriarca era esse, papeis) e lhe mostrar o que aos olhos de Dudu se assemelhava a um carro de fórmula 1, só que um pouco menor. Uma bela peça, mas não lhe dizia nada, pareceu muita ostentação. O garoto pilotava em alguma pista própria para isso, mas Dudu nunca vira. Contudo, se o kart não era um sonho de consumo, o mesmo não se poderia dizer do autorama. Sempre que ele ia ao apartamento do Israel, ficava maravilhado com aquele brinquedo, que aliás, nunca teve permissão para tocar, só via o garoto mexer no controle e fazer o carrinho correr pela pista, derrapar na curva e sair da via.
Os gibis que Israel comprava, sempre indicados por Dudu, eram itens que o pobre menino invejava. Nem podia tocar. O judeu também jogava damas melhor e sobre isto é legal falar: certa vez, jogaram apostando quadrinhos; Israel colocou o Manual do Tio Patinhas - com a moedinha número 1 - contra vários gibis de Dudu, que eram umas revistas do Fantasma e do Recruta Zero. Resultado, Israel ganhou e deixou o outro sem nada. Jogo com aposta é mesmo uma coisa do diabo, foi a primeira e única vez que Dudu teve vontade de esganar alguém. O riso de deboche do judeu o acompanhou por alguns anos além.
A mãe de Israel era uma senhora agradável e muito carinhosa, havia um irmão mais velho poucos anos mas que pouco falava com o garoto pobre. O pai era inclinado a uma pinga e quando chegava em casa, geralmente alterado (maldito álcool!!!), Dudu era praticamente tocado de lá pela pobre senhora - ela tinha suas razões, com certeza.

O reencontro dos meninos foi muito amistoso. Para matar o tempo perdido, faziam belas caminhadas pelas ruas do centro, olhando as bundas das mulheres e comentando sobre bucetas e punhetas. Numa tarde, Israel falou:
- Dudu, posso te pedir uma coisa?
- Claro!
- Mas antes, promete que não vai rir de mim?
- Ora, o que é?
- Promete!
- Ok, prometo!
- Mas promete mesmo? Se não cumprir você pode ser castigado por Deus.
- Certo, certo, Israel, eu prometo que não vou rir!
- Tá bem....poderia amarrar meus sapatos?
- Como é?
- Eu não sei amarrar sapatos e meus cadarços se soltaram.
- Cê tá brincando!
- Você prometeu que não ia rir!
- Não estou com vontade de rir, eu só achei que.....tá certo, vou amarrar.
Dudu se ajoelhou aos pés do amigo ali na rua e atou os cadarços.

Não muito depois surgiu a conversa que inspirou este relato.
- Dudu, você já furtou alguma coisa?
- Como assim?
- Roubou alguma coisa de alguma loja?
- Bem, uma vez eu peguei um número da coleção "Os Bichos" de uma banca de jornal sem pagar...é só o que lembro...e você?
- Eu nunca. Uns amigos meus do colégio já surrupiaram uns compactos de uma loja de discos e fitas cassete também......hei, vamos "afanar" alguma coisa do Pão de Açucar?
- Não, cara, isso dá merda!
- Ah, só um biscoitinho! Só pelo prazer da aventura!
O menino insistiu tanto que o outro aquiesceu. Pegar um lanchinho Mirabel, não ia dar em nada. Incrível o que garotos bem orientados pelos pais podem fazer a título de uma transgressão!
Devia ser umas 15, 16 horas, por aí, de um dia sem sol, quando eles andavam pelos corredores do supermercado praticamente vazio, procurando o que poderia ser levado que não chamasse tanto a atenção. Dudu não sabia porque fazia aquilo, talvez para não parecer covarde aos olhos do colega, o outro, com certeza, para parecer corajoso e durão para si mesmo.
Israel, veio até ele em atitude pra lá de suspeita e falou em sussurros:
- Vou levar um Lanche Mirabel, e você?
- Ah, sei lá, acho que essa cola Tenaz.
- Psiu! Fale baixo!
- Ok, desculpe.
Mais esperto, com certeza, como um gato que sonda um aquário de peixe, Dudu enfiou o tubo de cola branca na manga do seu suéter azul marinho pelo punho, ao contrário do outro que como o pior dos canastrões olhou para os lados e enfiou apressadamente o pacote com os biscoitinhos no bolso da calça de tergal cinza, fazendo enorme volume.
Depois disso caminharam mais um pouco pelo ambiente e se apressaram em direção à saída. Nervoso, Dudu acelerou sem olhar para trás. Já estava na calçada, em frente a uma banca de revistas quando olhou pelo vidro e viu o amigo ser agarrado com rispidez pelos seguranças do estabelecimento. Ele poderia ter fugido como Israel fez uns anos atrás, mas seu caráter o impedia de deixar o companheiro se foder sozinho. Entrou no mercado ouvindo um moreno alto falar:
- Havia um outro com este ladrãozinho, juro que vi. Ah, olha ele ali, pegue ele!!!
Um cara de óculos, jeito distinto, o agarrou violentamente pelo braço.
O senhores da lei daquele local os conduziram aos fundos da propriedade sob protestos de Israel que bradava:
- Vocês vão se arrepender! Vou chamar o meu pai! Ele é uma pessoa importante!
- CALA A BOCA, LADRÃO! Você vai para o Juizado de Menores!
Tiraram o pacotinho de biscoitos do bolso do judeu e esfregaram na sua cara!
- Cê roubou isso aqui, seu pivete! Vai preso por isso!
Dudu era revistado mas o moreno não conseguiu localizar o tubo de cola.
- Tenho certeza que vi esse aqui roubar alguma coisa, tenho certeza!
O menino judeu gritava:
- Vocês tão fudido! Meu pai é dono de uma grande papelaria.....
- CALA A BOCA!!!! Dizendo isso o cara de óculos deu um soco na boca de Israel, que tombou ajoelhado e urinando nas calças. Ele chorava e segurava os lábios como se eles fossem cair.
Dudu, temendo que encontrassem o objeto do roubo consigo e isto agravasse a situação, aproveitou o momento onde as atenções eram voltadas para o menino ajoelhado e se livrou da cola, deixando-a parcialmente escondida ao lado de uma caixa que estava por ali.
Escarneciam do menino no chão.
- Acabou a tua valentia, pivete?
- Ei, e essa cola aqui? Foi você que a escondeu? Perguntaram ao Dudu.
- N-não!
- Fala a verdade moleque ou vai sobrar porrada pra tu também!
- Moço, temos dinheiro para pagar por isso....não somos ladrões, essa foi uma travessura, nada mais. Disse Dudu.
Os adultos se entreolharam. Não precisava ser adivinho para notar que não estavam afim de ter trabalho chamando polícia, Juizado de Menores ou o que fosse, por tão pouco, e tinha o agravante do soco que deram no menino, aquilo podia custar caro ao cara de óculos.
O moreno abriu a cola e deixou uma farta quantidade esguichar na roupa do pobre Israel.
- Tu tem grana, ô moleque? Pra pagar isso aqui?
- T-te-tenho! balbuciou.
- Então dá, aí!
Dudu ajudou o colega que não tinha forças nas pernas a se levantar. O menino tirou a carteira e retirou a quantia para pagar pelo biscoito e a cola.
- Tu pensa que é o tal, né fedelho? Podia ser como seu amigo aí, que é muito mais razoável. Vamos, vamos lá para o caixa!
Escoltados, os dois meninos, observados por algumas pessoas dali, foram até o caixa e pagaram pelos objetos e dispensados.
- SE VOLTAREM AQUI, VÃO PRA CADEIA, SEUS VAGABUNDOS!
Nem precisavam avisar, jamais voltariam.

A tarde caía  e os dois andavam pela Avenida Rio Branco, Dudu sabia que Israel, calado, depois de tudo, procrastinava para voltar ao lar.

- Dudu?
- Sim?
- Você nunca vai contar isto a ninguém, não é?
- Não, nunca!
- Nem que mijei nas calças, né?
- Nada!
- Obrigado!

E DE FATO, NUNCA CONTEI, SÓ A VOCÊS, NESTA POSTAGEM.

*************                                                            ***********                                                                   

Post Escriptum:

Dudu muitos anos depois voltou a morar com a família em São Paulo, no mesmo lugar de outrora. Viu Israel algumas poucas vezes, herdaram os negócios da família e tinham um escritório na Rua dos Timbiras. Era a cara do pai. Estava casado e segundo o irmão mais velho, com uma mulher bonita e megera, que o dominava. A mãe, morreu vitimada por uma câncer no intestino. O pai, doente, cego pelo diabetes.
Depois daqueles primeiros contatos, nunca mais o viu, nem soube mais nada dele.


















sábado, 25 de janeiro de 2020

UMA MINI BIOGRAFIA.


A arte de hoje foi feita numa tacada só, caneta bic no sulfite, pra dar uma desopilada. O personagem é o JAGUAR GOD, herói que o mestre Frank Frazetta criou para a Verotik, uma editora fundada pelo roqueiro Glen Danzig, que publicou hqs de bárbaros nos anos 90, não sei se ainda está em atividade.


Passaram já 25 dias de 2020 e nenhuma novidade no ar, ao contrário, sigo dançando a mesma melodia de sempre, de uma banda em descompasso e desafinação, mas ela segue tocando, e eu, sem alternativa, acompanho seu ritmo malsoante.

Fui convidado a dar uma entrevista numa rádio, para isto, o entrevistador me solicitou uma pequena biografia. Como muitos podem estar só chegando agora e não leram as inúmeras postagens em que falei do meu passado, segue um resumo:

"Nasci em São Paulo em 1962. 
Entre 62 e 75 morei em Guarulhos, Pirituba e centrão velho da capital. 

Em 1975 meu pai foi transferido para Brasília, onde moramos 16 anos.

Em 1986 entrei para a faculdade de Artes de Brasília. E foi um ano inesquecível pois também arrumei o meu primeiro emprego como desenhista profissional no SENAC AR/DF (onde fiquei por quatro anos).

Em 1987 realizei minha primeira (e única) exposição de desenhos no Espaço Cultural do Banco Central com bom reconhecimento da crítica e público.

Em 1989, ao criar estampas para uma loja especializada em camisas esportivas, surge o embrião do que viria a ser o personagem Zé Gatão.

Em 1991 voltei para São Paulo com toda a família, morando no centrão velho, local que era conhecido como Boca do Lixo, mais tarde batizado de "cracolândia".
A primeira Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro (mas eu visitei a versão que exibiram no SESC Pompeia em Sampa) me induziram a tentar me auto expressar com as narrativas gráficas.
Neste recomeço, decidi criar as minhas histórias em quadrinhos, algo entre o sci fi estilo Moebius e o terror da Ec Comics, mas sem grandes resultados.

Em 1992, Zé Gatão e seu universo antropomorfo foram oficialmente criados.

Estes anos em São Paulo foram amargos, atuei como ilustrador para algumas pequenas editoras, realizando artes para revistas de games, posters de atores de cinema e rockstars, desenhos para revistas de art pop e coisas do tipo. 
Para ajudar meu pai nas despesas da casa, pintei muitas telas a óleo com temas indígenas e até releituras de clássicos da arte - Manet e Picasso, por exemplo - para ele revender em feiras de arte (quase sempre com baixas vendas). 
Como eram tempos difíceis em termos de dinheiro e vivendo uma existência solitária, a depressão meio que marcou a personalidade do felino Zé Gatão em histórias violentas, com forte apelo erótico, mas sem possibilidade para publicação, uma vez que não haviam editoras que abrigassem aquelas sagas. 
Em 1994 dei início ao álbum que ficaria conhecido como ZÉ GATÃO - A CIDADE DO MEDO. 
Em meio a tudo isso, fiz estampas para camisetas para confecções dos chineses do Braz. Bicos em oficinas de serigrafia, pintei murais de mulheres peladas nos cinemas pornô do centro e criei artes para algumas agências de publicidade, inclusive uma  embalagem para a fábrica de brinquedos Estrela. 

Em 1997, com empréstimo que eu e meu pai fizemos num banco, publicamos do nossos próprios bolsos o primeiro livro do Zé Gatão: "A CIDADE DO MEDO". Eu mesmo fiz a distribuição (sempre de ônibus e metrô) nas comic shops da cidade. Foi um tour de force mas com o tempo o personagem ganhou resenhas em jornais e revistas (não havia internet, muito menos sites e canais de HQs) e passou a ser comentado pelos que "entendiam" de quadrinhos nas gibitecas e locais de encontros de fãs de gibis. E foi aí que notei também o preconceito com determinado tema e a exclusão dos que não pensavam coletivamente como eles.

Em 1998, retornei a Brasília e atuei como desenhista em uma empresa de comunicação que fazia quadrinhos instrucionais para o governo do DF. Foi neste contexto que novas histórias do Zé Gatão foram elaboradas.

Trabalhando entre São Paulo e Brasília, criei diversas histórias em quadrinhos porno eróticas que pagavam um preço bem razoável por página, para pequenas editoras paulistas. Foi um momento profícuo, que durou até 2003, já morando de novo definitivamente em Brasília.

E foi exatamente no ano de 2003 que teve dois momentos marcantes: foi publicado pela Editora Via Lettera o segundo livro do Zé Gatão chamado CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO e minha mudança para o nordeste do país, Jaboatão dos Guararapes - PE, onde vivo até hoje.

Durante esses 17 anos publiquei três álbuns de anatomia voltada para artistas, pela Ópera Graphica e ilustrei 45 livros da literatura clássica brasileira para a Editora Construir, de Recife.
Elaborei manuais de desenho para iniciantes em seis volumes para a Editora Escala, de São Paulo e outros tantos para diversas pequenas editoras.
Criei mais três livros de anatomia para a Editora Criativo (que republicou os 3 primeiros pela Ópera Graphica).

Em 2011 é lançado pela Devir, ZÉ GATÃO - MEMENTO MORI. 
Neste mesmo ano a P.A.D.A. (um grupo de artistas pernambucanos) edita também uma coletânea de histórias curtas, engavetadas, em tiragem limitada, o álbum "Especial PADA, Zé Gatão".

Em 2015, também pela Devir, chega ao público ZÉ GATÃO - DAQUI PARA A ETERNIDADE. 

Em 2018 finalmente é publicado A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE, com roteiro de R. F. Lucchetti e desenhos meus. Passei 6 anos trabalhando neste projeto.

Em 2019 chega o álbum em quadrinhos "O BICHO QUE CHEGOU A FEIRA", baseado na obra de Muniz Sodré, com roteiro de Marcelo Oliveira Lima e arte minha e de Allan Alex, Alex Genaro, Hugo Canuto e Naara Nascimento (cada artista ilustrando um capítulo da obra em seu traço peculiar). 

Atualmente produzo um novo álbum de Zé Gatão e tenho várias HQs inéditas aguardando sua vez.

Todos esses anos trabalhando num ambiente de caos."

Bem, caso alguém se interesse em ouvir a entrevista, é só acessar o link abaixo. Tem música legal lá. O entrevistador é uma pessoa muito culta e verdadeira enciclopédia musical e saca tudo de filmes de cinema.

https://soundcloud.com/radioshowtimeoficial/o-marco-de-hoje-14012020?fbclid=IwAR0R2pszMupePMJiY5-MQve06RtQAGwRUGrZxW7MiBd-xcgaP_IwepvN29M



sábado, 18 de janeiro de 2020

DEATH DEALER


Como não ser fã de um mestre como Frank Frazetta? Suas habilidades artísticas o alçaram ao panteão dos grandes mestres. Não foi só sua apuradíssima técnica, também a sua criatividade em criar elementos próprios no, já, diversificado mundo da fantasia. Nova linguagem, novos personagens. Talvez o mais popular deles seja o Death Dealer, um guerreiro sem face, brutal, como o próprio nome sugere. Um guerreiro que figurou em umas 5 ou 6 pinturas que ele fez e que rendeu enredos para livros e HQs, além de inúmeras versões nos traços de outros artistas. Claro que eu não podia ficar de fora.


Nos momentos em que tudo fica mais escuro, o Senhor vem me lembrar que Ele me deu a arte como uma janela para entrar a luz. Obrigado, Jesus!

sábado, 11 de janeiro de 2020

NEIL PEART, ADEUS!




Neil Peart para mim foi o maior baterista de todos os tempos! Maior até do que as lendas que o inspiraram.

Embora eu insista em dizer que tenho um gosto musical bem eclético, que vai do sertanejo raiz, passando por algo da MPB, pelo pop, blues, o Jazz da década de 30 e pela música clássica, minha predileção é pelo rock, ou mais acertadamente, por algumas bandas de Rock.... e o Rush é uma delas.

Não conheci a fundo o Neil, não sei se era boa pessoa (a maioria dos rockstars me soam como bandidos, pessoas sem caráter, pelo que ouço, leio e pelos poucos que tive o desprazer de conhecer de perto), mas o Neil, não, ele me inspirava tranquilidade e educação, sempre reservado e grande estudioso de seu instrumento.

Fiquei embasbacado com suas habilidades ao ouvir a lendária Tom Sawyer, do álbum Moving Pictures (porra! o disco todo é um petardo!).

Tenho o PDF de um de seus livros (sim ele era escritor dos bons, também!), mas só li o primeiro capítulo, tenho essa dificuldade em ler textos demasiadamente longos no computador (questão de hábito, será?) e meu notebook é compartilhado, mas pretendo retomar.

A partida definitiva de alguém tão dedicada ao seu ofício como fazia Neil Peart, é algo a se lamentar, é constatar que o bom deste mundo vai se acabando aos poucos, deixando lugar para um universo mais frio. São as gerações que se sucedem.

Tchau, Neil! Você certamente não passou em vão por este mundo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

SEM TER O QUE DIZER


Este meu notebook está uma merda. Lento como uma lesma com reumatismo. As páginas demoram muito para carregar, trava e se escrevo um texto só vou ver o que digitei uns segundos depois. Pudera, está cheio de pastas e arquivos. É o problema de ter sua ferramenta de trabalho compartilhada. O HD está quase cheio. Mas sempre dividi tudo o que tinha (menos mulher, é claro), não consigo ser diferente e nem por isto me acho um cara legal, me acho um idiota. O problema não é ser burro, todos nascemos burros, complicado é sentir um burro aos 57 anos. E por burro, entendam, não é não conseguir entender coisas simples, é admitir certas situações que te empurram para baixo. Sempre foi assim, mas sabem, de que adianta falar se não há como mudar, se eu não posso mudar o que sou?

O ano novo cá está e não há novidade nenhuma. O calor não me deixa mentir.

A vida de um homem é seu trabalho, é o que o define, não são suas conquistas amorosas ou suas aventuras na natureza, é o que ele faz para sobreviver, a contribuição que dá ao mundo ao seu redor. Tá, é filosofia de botequim, mas..... tenho pensado na arte. Quero imaginar que desenho melhor hoje do que quando eu tinha 30 ou 40 anos. Talvez, não, o que eu fazia naquela época era bem diferente do que eu faço hoje; é bem verdade que no passado eu ousava mais, experimentava mais, tinha mais tempo e sonhava mais, também. Boa parte do que planejei não consegui realizar, na verdade, quase tudo. Os quadrinhos que publiquei foram partos difíceis e nem vingaram, dando um direção concreta para minha existência, hoje, nem tenho vontade de folheá-los, na verdade alguns títulos nem tenho mais um exemplar comigo, é o caso de ZÉ GATÃO - CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO e alguns de anatomia. Nem me importo, encaro estas realizações como filhos que educamos para a vida,  depois eles formam outras famílias e se distanciam.
Meus traços hoje parecem mais espontâneos, não demoro tanto na elaboração de uma composição, mas....sinto-me sem gás, algo suga minhas energias. Minhas noites são mal dormidas. É como se eu me deitasse sobre barris de pólvora. Pelo menos atribuo a isso (que tem intimidades comigo sabe do que falo).
Queria estar no escuro de um quarto frio, envolto em cobertas cheirosas e dormir por longo tempo (ah, mais uma das minhas quimeras!).

Tenho recebido algumas propostas de trabalho, ainda falta acertar detalhes importantes, um deles envolve elaboração de contrato e nota fiscal, uma burocracia cansativa e que toma um tempo precioso. No meu atual momento, cada minuto conta e perder com coisas assim é desanimador mas não se pode fugir deles, como não podemos evitar os impostos, as contas para pagar e a morte.
Também tenho feito um esforço para voltar a viajar nos meus desenhos pessoais,  aqueles que vem da alma e justifica esta porra toda. Afinal, se não me divertir um pouco com minhas criações significa que estou acabado.

Ok, por hoje conversei fiado demais.

Fiquem bem e até a próxima!

sábado, 28 de dezembro de 2019

FELIZ 2020!!!!!!


Pois é, chegamos a mais um final de ano.
Depois de determinada idade é contagem regressiva. Sim, eu sei, ainda há uma boa estrada pela frente. O que nos trará ela? Temos que seguir em frente...esse é o problema, assistir o mesmo filme todas as vezes e saber qual o final. O desfecho é o mesmo para os bandidos e mocinhos. O que vem  depois que a alma se separa do corpo é que são elas......isso é realmente uma incógnita. Nisto reside o desespero da maioria dos viventes. As clássicas perguntas que coçam incessantemente o cérebro dos que tem capacidade de raciocino: de onde venho, pra onde vou? De onde venho a mim pouco importa. Pra onde vou? Ah, isto sim me perturba. Sou cristão - embora muitos possam duvidar pelo teor do meu trabalho e reclamações que sempre faço - e em minha defesa eu digo que sou sincero, reproduzo em meus desenhos e escritos o mundo como eu sinto e sobre reclamar, os profetas do antigo testamento também o faziam. Humanos que eram, sentindo suas dores. Jó deu vazão ao que ia na sua alma. Mas voltando ao tema, como cristão eu deveria estar seguro do meu destino, afinal, eu creio nas promessas de Jesus e Ele nunca falha. O ponto que as vezes me pega é: quem realmente é digno? Meus muitos tropeços as vezes me fazem duvidar. Mas sou um cara confiante, embora não pareça.

Eu cheguei a escrever uma sentença de várias linhas neste momento falando sobre os tormentos que as pessoas procuram para suas vidas e depois não sabem como se livrar deles, como a moça romântica que se enlaça com um cara dissimulado, cruel e ciumento, mas deletei, soei mais amargo que de costume e na verdade não tinha a ver com o que realmente quero dizer aqui.

Pensei em fazer um balanço deste ano que finda mas na verdade ele é foi quase igual aos anteriores, muito trabalho por pouco dinheiro, muita pressão e cobrança, a eterna sensação de estar enxugando gelo. Mas a saúde segue aguentando e tive o grato prazer de estar ao lado da família em Brasília na ocasião do casamento do meu irmão caçula. Todo o resto continua a mesma chuva de pedras que sempre foi a minha vida, com a diferença que ao ficar mais velho as pancadas vão ficando mais dolorosas.

Embora eu note que sou cada dia menos visitado aqui, quero deixar uma breve mensagem aos que ainda fazem o favor de me acompanhar semanalmente neste espaço. FIQUEM FIRMES, sei que temos momentos de agonia nesta vida e embora as horas de alegria não pesem na balança mais que os ruins, são os bons que fazem valer a pena. Estar com a família, amigos leais, um bom programa ao lado de alguém especial. Um trabalho que acrescenta...o que for que te deixe contente e motivado, lute por isto. Não deixe mágoa ou sentimento de vingança tirar o brilho que você tem.
Dia desses sai para comprar pão e me sentia bem azedo, a caminho da padaria, num cruzamento, foi possível ver ao longe um lindo por do sol, cores de um vermelho intenso com matizes violáceas, o horizonte pegando fogo numa pintura que somente o Criador é capaz de fazer. São momentos em que a existência tem um sabor mais doce. Eu tento me agarrar a isto, no sentimento de dever cumprido ao terminar uma arte, ao ver uma página de HQ pronta. Este ano saiu mais um livro de quadrinhos com meus traços, esforço que rendeu frutos. Nos menores frascos encontram-se os melhores perfumes, dizem, e embora isto pareça frase de para choque de caminhão eu digo com sinceridade, sejam fortes em momentos de fraqueza!

Um FELIZ 2020 A TODOS, queridos e queridas! 

Espero estar aqui com vocês no próximo ano, com mais alguns desabafos, contos e artes.

DEUS ABENÇOE A TODOS!

UMA VIDA NORMAL

   Eu queria muito vir aqui com notícias boas. Na verdade tenho sim, boas notícias, uma delas é que fiz agora há pouco a minha terceira refe...