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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

POE, UNBOXING E OVERVIEW.

  Amados e amadas, boa noite. 

Sim, eu sei, já faz mais de duas semanas que eu não apareço aqui para dividir umas ideias com vocês. Creiam, vontade não faltou, mas o tempo sim. Tudo anda muito corrido, boletos demais e dinheiro de menos (pra variar, mas dessa vez o caso é crônico, todavia já estive pior.) São muitas horas na prancheta, exaurindo a mente, cansando a ponta dos dedos, a mão, os músculos do antebraço, até chegar no ombro, onde ele parece estar inflamado. Sei que preciso fazer pausas mais frequentes, alongamentos e tals, mas acabo me empolgando com as cenas que vão criando vida no branco do papel que quando me dou conta, meus olhos estão irritados e minhas costas em brasa. Exagero? Tentem fazer isso de domingo a domingo todas as horas do dia, intervalando só para comer e ir ao banheiro. Ah, sim, sempre que posso eu dou uma cochilada de uns 40 minutos a uma hora depois do almoço, do contrário eu não conseguiria lavorar até duas, três da madrugada. E, claro, sou eu que vou à rua comprar pequenas coisas para casa e pagar alguma conta na lotérica. Fora isso é a rotina de sempre. 

E, sim, são os mesmos quadrinhos que seguem sendo trabalhados: RASTREADORES DE ALGURES (onde faço com mais vagar), o de terror que está associado a um filme em produção (também moroso) e OS MITOS GREGOS (esse priorizado, pois é o que paga as contas atualmente).  

Mas tenho fé que tudo vai melhorar, Deus está sempre no comando da minha vida.

Passo aqui para deixar com vocês um vídeo maneiro feito por um camarada muito legal, que tem um canal bacanudo sobre HQs. Gosto dele porque ele não se apresenta como muitos youtubers cheios de empáfia, donos da verdade e militância política. Passem lá, curtam, deixem uma mensagem e tal e tal. Prestigiem, ele merece.

Um beijo a todos e até breve, se Deus quiser!




domingo, 31 de julho de 2022

SEM O BRILHO DE OUTRORA

 

 O que escrever aqui para manter a brasa, a pequenina brasa deste blog acesa, foi algo que me incomodou durante alguns dias, eu sentava diante do computador com muitas coisas girando em minha cabeça mas as palavras não vinham, inclusive tenciono cometer um novo conto mas o tempo reduzidíssimo não me permite concentração. Talvez o bom tempo tenha passado, artes, escrita, algum projeto de pseudo felicidade, tudo parece ter ficado para trás, nada há mais de relevante para falar. Seria bom dividir com vocês mais alguns fatos pitorescos do meu passado mas acho que o momento não é bom, seria forçar uma situação e as letras não fluiriam espontaneamente, então melhor esperar, quem sabe, um raio de sol inspirador furar as nuvens escuras da depressão para assim voltar a falar sobre algum acontecimento relevante que fez alguma diferença na minha forma de ver o mundo e como ela corporificou artisticamente. 

Falando em nuvens escuras, esse mês de Julho foi legal, choveu muito trazendo um frescor inédito neste estado do nordeste, diria até que fez frio, algumas manhãs fui saudado por um tempo nublado, quase escuro, sem chuvas, e minha alma encontrou identificação. Claro, para contrapor, o aguaceiro frequente desabrochou mosquitos em profusão, mas foi para isto que criaram os repelentes, né? No entanto o calor, este inimigo - meu, pelo menos - já ensaia seu retorno tirânico, como se dissesse: aguarde, Dudu, você não perde por esperar! 

Vivo com se tivesse uma arma apontada para minha cabeça, o dedo suado pode apertar o gatilho a qualquer momento, os mais próximos a mim sabem do que falo. Será que um dia me verei livre dessa situação?

Meus trabalhos continuam, RASTREADORES DE ALGURES, MITOS GREGOS e aquele que envolve um filme de cinema do qual ainda não posso falar a respeito. Os traços saem quase naturalmente e eu deveria me sentir satisfeito mas não sei como categorizar o que faço. Não consigo afirmar se é underground (na falta de uma palavra melhor), uma coisa é bem clara, está longe de ser aquilo que chamam de mainstream - tanto o que fazem nos EUA ou na Europa - e sei lá se isso é bom ou ruim. Eu enfatizo esses pensamentos porque me pergunto qual a razão d´eu ainda não ter conseguido ganhar grana com isso, falo grana de verdade, não ficar milionário, mas para parar de pedir dinheiro emprestado aos outros. Essa semana tive que vender meu único exemplar de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe para poder completar o que faltava para pagar um boleto!

Não consigo mais fazer um desenho pessoal, há ideias mas eu mal consigo ler um capítulo de algum livro ou páginas de quadrinhos. Estou com vontade de fazer umas pinups de heroínas bem acima do peso, Mulher Maravilha, Capitã Marvel, Jean Grey, etc, no estilo Botero, só pra me divertir, mas me falta o tempo e cabeça fleumática suficiente.   

Eu me sinto cansado, pesado. A saudade da minha mãe e do Gil roubou aquela velha chama criadora que me fazia experimentar traços e cores, mergulhar fundo sem me importar a quem agradaria. Olho em volta de mim, respiro, miro em frente e continuo na jornada, sustentado apenas pelas poderosas mãos de Jesus, Senhor e Salvador.

Sobre os desenhos de hoje, foram criados pelo Celso Moraes, um amigo muito gentil que tem um canal no You Tube chamado Cultmix, onde ele posta uns vídeos muito legais, são curtos e bem divertidos, falando sobre quadrinhos, cinema, com curiosidades bem interessantes. Faço merchand para ele porque ele merece, se inscrevam e curtam (https://www.youtube.com/user/MrCelsomoraes). Nessas artes ele coloca o Zé Gatão contra o Blacksad em dois ambientes diferentes. 

O meu felino é uma espécie de primo pobre dos gatos antropomorfos que se destacaram nessa mídia (Leão Negro, Félix, Krazy Kat, Fritz, Omaha, Garfield e, claro, o próprio Blacksad) e eu fico contente que um cara como o Celso, que conhece bem o universo das HQs, se lembre do Zé Gatão. Obrigado mais uma vez, meu caro! Claro que você foi diplomático e colocou os dois em pé de igualdade, embora saibamos que o mestiço de lince daria uma surra titânica no gato preto espanhol.

Beijos a todos e eu espero estar mais inspirado numa próxima postagem.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE PHOBOS E DEIMOS

 

 Esta semana um querido amigo, médico, residente na minha saudosa Brasília me enviou um link de um canal do YouTube onde um rapaz dissecava uma HQ do Senhor Milagre, criação do eterno Jack Kirby. Segundo este meu bom amigo, a tal HQ lembrava a minha história de vida em muitos aspectos. Já tinha ouvido falar do tal quadrinho (acho que é de 2017) mas nunca li - pra ser sincero, conheço pouca coisa dos Novos Deuses, tenho curiosidade - e segundo o youtuber, a obra seria relativa à depressão; o Scott Free não aceitando a morte do irmão, entrava num vórtice de tristeza aguda que o induzia ao suicídio. Realmente tudo a ver comigo, de fato.

O que me leva a pensar um pouco sobre PHOBOS E DEIMOS, uma das minhas obras mais amargas; como quase ninguém leu e sequer sabe que existe, vamos recordar um pouco sua gênese: era o início do novo milênio e eu estava profundamente deprimido, enfrentando problemas, recém chegado ao nordeste do país, longe da minha mãe e irmãos, torturado por uma tendinite na mão direita, sem trabalho, sem dinheiro (fui sustentado pelos meus pais até que começasse a produzir novamente) e acima de tudo uma forte desilusão no que concerne a viver de quadrinhos no Brasil. Pouco antes de migrar para Pernambuco eu passei uns dias na casa do meu irmão médico em São Paulo e fui recomendado pelo Jotapê Martins (editor da Via Lettera, por onde saiu o ZÉ GATÃO - CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO) ao Art & Comics onde fui muito bem recebido e minhas obras autorais muito elogiadas pelo Joe Prado (era ele o responsável em avaliar e enviar material brasileiro para o mercado ianque). Ele me deu um roteiro sobre um bárbaro e disse que se eu quisesse poderia criar algo curto com algum super.   Chegando no Jaboatão me sentei na prancheta e me concentrei em duas tarefas, concluir a saga MEMENTO MORI e dar vida às páginas para o Art & Comics. Desenhei o roteiro do bárbaro e criei cinco páginas de uma do Hulk (sempre gostei do verdão). Não imitei nenhum artista, fiz do meu jeito, esse traço que lembra um pouco os quadrinhos undergrounds americanos de terror e sci-fi do final dos anos sessenta. Tudo feito, embalei e enviei. Depois de um longo tempo sem resposta eu fui até o orelhão da esquina ligar para o Joe. Parecia outra pessoa, distante, indiferente e disse que meu traço era expressionista demais para os americanos, caricato, até. Ah, e que eu não desenhava mãos direito. Mas que eu poderia treinar e tentar novamente, se eu quisesse. 

Me senti um merda. No mesmo instante liguei para meu irmão, o melhor amigo, aquele que partiu para sempre, e desaguei minhas mágoas. Ele ouviu em silêncio e disse para eu não desistir. No entanto eu sempre soube que eu não conseguiria me adequar a certos padrões. Era meu sonho viver de quadrinhos, mas não desenhar o Batman ou Wolverine no  esquema das grandes editoras, então eu me via em apuros. Claro, não fiquei parado e comecei a procurar trabalhos, me aproximar dos artistas locais e até tentei dar aulas e oficinas mas o resultado sempre era o mesmo: portas fechadas. 

Assim, a minha tendência à melancolia começou a crescer e eu tentei escapar da única maneira que me era possível, criando histórias, e malgrado a dor na mão, dei corpo a uns roteiros (na verdade esboços de escritos em um velho caderno) e desta forma nascia Phobos e Deimos. Nele, o final trágico dos protagonistas nas sete narrativas era a minha forma de morrer sem dar cabo da minha vida. 

Não posso deixar de dizer que Verônica foi (e é) um grande apoio, não houve pressão ou cobrança, ela pacientemente esperou até que eu me reerguesse e novamente começasse a fazer dinheiro com meus traços. 

Phobos e Deimos não viu a luz do sol até o final de 2020, quando a Editora Atomic imprimiu 50 unidades. 

Semana passada o Marcos Freitas, editor do livro, anunciou no Facebook a promoção dos dois últimos itens da obra com 50% de desconto - acho que ele fez isso para queimar estoque - e é bem provável que não tenha conseguido vender. 

Não sei dizer se as mais ou menos quarenta pessoas que leram se deram conta do que havia ali,  personagens comuns, humilhadas, envergonhadas, tragadas pela voragem de situações onde se viram envolvidas contra a vontade e das consequências de escolhas erradas onde pagaram um preço muito maior do que deviam. 

Para mim, hoje, esse álbum que escrevi e desenhei há 15 anos atrás é mais atual que nunca; estou mais velho, a situação financeira nunca se estabilizou e outros problemas cresceram. A diferença fatídica é que agora não posso mais ir até a esquina e discar para o Gil de um orelhão qualquer, ele não está mais aqui. Eu continuo tentando segurar o leme deste barco num mar cada dia mais raivoso. 



domingo, 3 de julho de 2022

AS MAIORES HQS DE TODOS OS TEMPOS: LOBO SOLITÁRIO.

 

 Foi Francis, minha querida e saudosa mãe quem me iniciou na leitura, na música, nos filmes, nas artes enfim. Ela lia para mim quando eu mal andava, cantava com sua voz de rouxinol para eu dormir e foi quem me levou ao cinema pela primeira vez. Lembro dos dois primeiros filmes que vi na vida: O LADRÃO DE BAGDÁ e SE MEU FUSCA FALASSE e documentários (sim, nos cinemas) sobre animais da África e ela sempre ali ao meu lado.

Também não posso deixar de citar meu querido irmão Agildo (Gil, como muitos chamavam) em postagens como a de hoje pois a coleção de mangá sobre a qual falarei foi financiada por ele, assim como muitos outros quadrinhos que ele me presenteou nos períodos de ruína financeira (fato notório em 80% da minha existência).

Hoje retorno com um quadro antigo deste blog, "As Maiores HQs de Todos os Tempos" para comentar sobre O LOBO SOLITÁRIO, de Kazuo Koike (roteiro) e Goseki Kojima (arte), uma saga de muito sucesso no Japão que até rendeu alguns filmes (que nunca assisti). 

Como sempre o objetivo aqui não é esmiuçar a obra, analisar texto e arte e tal, mas expor a forma que tal projeto me encantou e que repercussão teve em minha vida.

Meu primeiro contato com este quadrinho foi em 1988 quando saiu pela Cedibra, no formato americano e em leitura ocidental (exatamente como foi publicado nos EUA pela Dark Horse - salvo engano). Eu não conhecia muito do quadrinho japonês, apreciava mas não era um entusiasta faminto (na verdade até hoje não sou), mas a história de um Samurai (um ronin, melhor dizendo) aceitando o trabalho de assassinar pessoas em troca de uma vultosa quantia em dinheiro para poder perpetrar uma vingança contra o clã que desonrou seu nome e o de sua família, carregando seu filho de três anos num carrinho de bebê, era diferente de tudo o que eu já tinha lido. Nudez, violência em quantidades absurdas...não, não dava para ficar indiferente!

Foram lançados seis números, se a memória não me trai, depois a Cedibra parou de publicar quadrinhos e adeus ao Lobo. Até que a Nova Sampa retomou a publicação em um formato menor. Cheguei até a fazer uma capa para uma das edições mas nunca foi publicada, também não durou muito. 

A coleção toda foi finalmente lançada pela Panini na primeira década do novo milênio mas eu fiquei de fora, nem lembro exatamente porque, talvez por estar morando e tentando me adaptar em outro estado e sempre sem grana.

Até que finalmente a mesma editora anunciou a republicação depois de mais de 10 anos longe das bancas (acho que em 2016) e meu irmão disse: "compre, eu pago!" E assim foi. Ele comprou para mim até o número 24, depois ele partiu levando o colorido da minha vida e eu adquiri os 4 últimos. 

Comecei a ler lentamente e achei mesmo que só concluiria, sei lá, no ano que vem, afinal meu tempo é reduzido e cada mangá tem em média 300 páginas em 28 volumes, mas absorvendo um pouco ao logo do dia, em meus intervalos de trabalho eu fechei tudo há algumas semanas e finalmente pude tomar conhecimento de toda a saga de Ito Ogami e seu filho Daigoro. E não fiquei desapontado, é uma obra fantástica, cheia de poesia e arte cinemática!

Bem, faço uma correção, o final me decepcionou um pouco, não que eu achasse que não deveria ser daquela forma, mas faltou algo e eu não posso dizer o que é sem entregar o jogo para os que ainda não leram e eu recomendo demais que leia, se puderem.

Pois é, achei que 34 anos para apreender a saga do samurai com o carrinho de bebê merecia ser registrado aqui, na verdade teria outros comentários a fazer mas acho que são de menor relevância e não estou mais no espírito de enunciar minhas emoções, além do tempo que encolhe dia a dia.

Beijos a todos vocês, queridos e queridas!  


                 

sábado, 25 de junho de 2022

DANDO RÁPIDAS NOTÍCIAS


 Amadas e amados, boa noite!

Sei que estou um tempo sem dar notícias, mas não tenho novidades, na verdade tenho, mas elas não são muito boas. Estava procurando por uma postagem antiga aqui e aproveitei para ler aleatoriamente uns textos que escrevi em 2010, 2011, 2012 e por aí adiante, e muitos deles foram só queixumes. Vejam, existem pessoas com vocação para a felicidade, passam por umas boas merdas mas logo se recompõem e voltam a sorrir, gargalhar, viajar e talz. Eu queria ser assim, mas as pancadas do existir me atingem de forma a me deixar bem pra baixo e a única forma que eu tenho de não internalizar totalmente é escrevendo ou fazendo meus quadrinhos particulares (aliás, fazia, pois o bom e velho tempo encurtou de vez). De forma que agora fico até sem graça de vir aqui chorar, melhor guardar para mim o que me vai na alma.

Estive adoentado há uns 10 dias atrás, febre, dores no corpo, calafrios e forte cefaleia. Não sei se foi dengue, covid ou outra bosta semelhante. Estou melhor mas com o corpo ainda de ressaca. Não pude trabalhar e as páginas atrasaram e consequentemente meu pagamento, e os boletos quando chegam, dizem: "Foda-se, seu velho reclamão, quem mandou não estudar pra virar funcionário de estatal? Agora aguenta, esses juros vão te ferrar direitinho, hahahahahah!"

Pra piorar, um corpo de uns cem quilos caiu em cima de mim (sinto: não posso dar detalhes) e no choque eu magoei minhas costelas e meu joelho direito. Quando espirro ou tusso, sinto dores na altura da minha costela flutuante.

Todavia tento trabalhar como posso, nas horas em que os estresses do cotidiano são menos cruéis. Não sei quanto tempo vou aguentar, uma hora tudo acaba. Até lá...... 

Essas imagens são de um dos três projetos que desenvolvo (as cores são do Rafael Anderson, um talentoso artista aqui de Pernambuco).

Fiquem todos bem e até breve, se Deus permitir! 



domingo, 12 de junho de 2022

RÉQUIEM PARA UM SONHADOR (Um conto criado por Eduardo Schloesser num dia qualquer de 2007).

 Quantos anos faz que isto aconteceu mesmo?

Muitos anos, o suficiente para não saber a data com exatidão, mas foi na época daquela novela em que o ator principal morreu bem na metade da trama. Sua passagem causou comoção nacional e também um grave problema para os produtores do folhetim, afinal, como prosseguir com o enredo sem o protagonista? Substituíram-no por um outro interprete que em nada lembrava o original.

Meses depois surgiria o boato de que aquele artista, um dos maiores que este país já teve, não havia de fato morrido, mas fora enterrado vivo. Sofria, disseram, de catalepsia e o único a sabe-lo seria seu médico que na ocasião estava viajando para o exterior. Ao retornar o doutor mandara exumar o corpo e constatou-se que a tampa do caixão apresentava arranhaduras pela parte de dentro e o cadáver encontrava-se de bruços, morto finalmente, claro, por asfixia. 

Verdade? Lenda urbana? Pouco importava para o menino que estava apoiado no baixo muro caiado observando o movimento da rua, totalmente absorto em seu mundinho de fantasias.

Os olhos do infante como que hipnotizados, nem piscavam contemplando a cena que se desenrolava diante dele, na via, o movimento das bicicletas, muitas bicicletas, pedaladas por meninos mais abastados que ele, indo e vindo, de lá pra cá, daqui pra lá, num contínuo vai e vem, quase como um bailado bem ensaiado. Quantas haviam? Dez? Vinte? Trinta? Mais? Elas pareciam se multiplicar numa escala geométrica. Os guris felizardos, que tinham o privilégio de possuí-las pouco se importavam com aquele momento mágico. Conduziam o veículo de duas rodas velozmente num perímetro curto, faziam a curva e passavam uns pelos outros como se fossem etéreos, surreais.

A bicicleta, o símbolo de uma felicidade quimérica. A bicicleta do primeiro amor, como chamavam. A bicicleta da novela. Aquela novela onde o ator fora sepultado achando que estava morto. A bicicleta que o menino nunca ia poder ter. Nem a bicicleta, nem o primeiro amor.

O coitado não entendia se não ia ter o tão almejado objeto de desejo porque era pobre ou porque não se importavam com seus sonhos, pra ele dava no mesmo. Que idade tinha aquela criança? Pouca para saber como um filho era gerado e o bastante para se dar conta que era infeliz.

Vivia com seus pais, com a avó - mãe de sua mãe - e dois irmãozinhos menores no térreo de um sobradinho.

O petiz tinha seus idílios, crescer, estudar, casar (podia ser com a filha do senhorio, ela era bem bonita) e ter filhos. Mas ele não queria ser como seu pai. Ele não queria ser como nenhum pai, pois todos, a seus olhos, eram coléricos e brutais. Ele seria o tipo de pai que chega em casa e trás doces e figurinhas, compra revistas do Fantasma e do Recruta Zero para seus filhos. O pai que brinca com seus rebentos e na data do aniversário dá uma bicicleta de presente. A bicicleta da novela. A bicicleta do primeiro amor.  

Ali, apoiado no muro branco, o menino divagava fitando o trafegar onírico daqueles veículos na tarde que morria e esqueceu-se da hora. Uma a uma as bicicletas iam sumindo. Quantas agora? Quinze? Oito? Cinco? Nenhuma mais. O garoto passara a tarde na casa de sua tia, que era bem próxima da sua. Era bom? Ele não discernia. Gostava de brincar, um momento de não se sentir tão sozinho, mas os primos as vezes o hostilizavam, principalmente o mais velho; dizia que ele era feio, que era burro, que era baixinho. As primas também, poucos meses mais velhas que ele, o induziam a fazer coisas proibidas, queriam beijar na boca e levantavam as saias e pediam para ele colocar a mão por dentro das calcinhas. Era uma sensação muito boa, ele não entendia porque mas gostava de estar com elas no escuro, atrás das portas. Entretanto sabia por intuição que aquilo era condenável e seria severamente punido caso fosse descoberto pelos adultos. 

Foi tirado de seus devaneios pela voz da avó, a mãe  do seu pai, alertando-o que era tarde e que ele deveria ir para casa. Antes porém, pediu-lhe que fosse pegar uma toalha no banheiro pra sei lá o quê. Distraidamente se encaminhou ainda sob os eflúvios das bicicletas e primas sacanas. Abriu a porta e, surpresa, flagrou a tia tomando banho. Foi um lapso de segundo que pareceu durar uma eternidade. Envergonhado, tão rápido como foi o ato de abrir, ele fechou a porta com um pedido de desculpas.

Falou para a senhora que solicitara a toalha que a tia ocupava o banheiro e encaminhou-se à saída, não sem antes ouvir as imprecações da tia chamando-o de sem vergonha, confirmando o que no íntimo ele já suspeitava:  ela dava a sentença condenatória: "vou falar para o seu pai!!!"

Qual fora seu crime? Abrir por acidente a porta de um banheiro e divisar por um rápido instante um corpo miúdo que, salvo por um tufo triangular de pelos no meio das pernas em nada diferia do de suas primas. Não fora de propósito, claro, mas para o pai severo e carrasco era motivo mais que suficiente para impingir-lhe um castigo muito superior à sua idade e peso.

O corpo do menino chegou em casa, sua alma porém debatia-se no desespero, antevendo o inferno onde estava para ser mergulhada. 

Não teve coragem para narrar o ocorrido à mãe ou à avó, seria inútil; como das outras vezes, ninguém poderia interceder por ele. Novamente seu genitor viria para cima dele como aquele rolo compressor que esmagara um gato na rua que estava sendo asfaltada perto da igreja.

O infante não nutria simpatia pelo pai. Temia-o na mesma proporção que o desprezava. Aquele homem era incapaz de um gesto de amor ou gentileza, vivia mau humorado, falando alto, sempre discutindo com as pessoas, fosse numa padaria, supermercado,  estacionamento, ele sempre caçava motivo para brigar com alguém. Era valente, isso não se podia negar, mas a criança não via isso como qualidade.

Certa vez, toda a família fora assistir ao Holiday On Ice - algo raro - e ao término do espetáculo o pai pegou o primeiro táxi que viu parado. O motorista foi logo avisando que aquela hora ele só fazia lotação, ou seja, cobraria um valor alto por cada passageiro, incluindo crianças. Não fazendo caso, o pai deu o endereço e pediu que dirigisse. Com o veículo em movimento o taxista reiterou que cobraria o valor de lotação. Teve início uma discussão que atingiu um absurdo numero de decibéis. No banco de trás, o menino, seu irmãozinho menor, sua mãe (que pedia ao marido para parar o carro e pegarem outro), a avó com o bebê de colo e o primo calhorda. Imprecações, ameaças. O carro em velocidade e o motorista gritando e olhando para os ocupantes no banco traseiro, parecendo querer matar a todos. Em resumo, a polícia teve que intervir e no fim todos voltaram para casa de ônibus. Casos semelhantes eram comuns na vida daquela pobre família.

O menino não quis jantar, seria como a refeição de um condenado. Entretanto aquilo podia dar em nada. Era como roleta russa com bala de festim. Certa vez ele saiu para comprar açúcar e perdeu o dinheiro no caminho, ficou o dia inteiro esperando levar uma surra e o pai, ao chegar, nem fez caso. Outras vezes, por algo de menor importância fora espancado como o pior dos criminosos. Não tinha como antecipar o que ia acontecer e como sempre a expectativa era pior do que o castigo propriamente dito.

A mãe e a avó nada podiam fazer por ele, morriam de medo do chefe da casa.  Elas estavam vendo novela na tv, a novela da bicicleta e do ator que fora enterrado vivo. O irmãozinho brincava no chão, o bebê dormia. Ele sofrendo de expectação dentro do quarto, no escuro, sozinho como sempre fora.

Ele sabia que o progenitor sempre passava na residência do irmão antes de vir para casa pra jogar uma conversa fora, ele clamava aos céus para que não fosse assim dessa vez, ou que lá, eles esquecessem o fato, ou ainda, que seu pai intuísse que ele jamais invadiria o banheiro com alguém dentro por pura malícia.

Esperança vã. Ouviu a porta da sala se abrir e a voz do carrasco a indagar por ele, aquela voz que parecia brotar das trevas admoestando que ninguém interferisse, que o menino precisava ser corrigido.

A porta se abriu. A luza acendeu. Todos os temores do petiz se confirmaram. O pórtico atrás do homem se fechou encerrando lá fora todas as esperanças.

O pai era um indivíduo de baixa estatura mas de compleição taurina, com cabelos escuros penteados cuidadosamente com brilhantina. Tinha olhos verdes magnéticos que a tudo e a todos fuzilavam. 

O menino só viu o pai, tudo o mais pareceu deixar de existir, as paredes, o teto, a porta, os móveis, tudo sumiu, restando apenas ele e aquele sujeito imenso que se agigantava diante dele a medida que sorvia o ar de forma ruidosa e exalava ódio, fúria. "O que você fez hoje na casa da sua tia, moleque?" Não teve tempo de responder, uma bofetada estourou em algum ponto de sua cabeça. Ele não saberia dizer se caiu pois com incrível rapidez, mãos rudes o  agarraram pelo pescoço como se fossem tornos e o sacudiram com violência. "Você gosta de espiar os outros tomando banho? GOSTA? Responde moleque!!!" 

O braço cabeludo desceu raivoso. Ele não discernia dor, só o pânico que o mantinha travado, incapaz de falar, mover e até chorar. "RESPONDA MOLEQUE!!!!" A carantonha do verdugo com os olhos verdes faiscantes, os dentes mordendo a língua dobrada, ocupavam todo o seu campo de visão, preenchiam todo aquele aposento que parecia não existir. Quis responder mas a voz não saía, tinha sido manietada dentro dele. Um potente tapa no rosto o fez sentir dor, mas não a dor física como uma martelada no dedo ou topada numa pedra, não, havia nela o ingrediente da humilhação, algo venenoso que paralisava a vontade de viver. 

Neste momento alguém batia na porta. A voz da mãe anunciando que havia uma pessoa no portão querendo falar.

"Não acabamos ainda, Eu vou te ensinar a ter respeito com as pessoas da minha família. Não saia daqui!"

O tirano saiu advertindo à esposa e à sogra que ninguém deveria falar com o menino e quando ele ditava, ele era obedecido. Todos o temiam com tremor sobrenatural.

O infante ficou lá, sentindo tudo e sentindo nada, As dores, frutos da brutalidade, afligia sua carne tenra, mas as emoções que envolviam sua alma o tornavam alheio ao ambiente, que agora assumia de novo a aparência de um quarto. A humilhação sofrida suplantava a pungência, tornava-o menor que o mais repelente inseto.

Então, uma estranha sensação, uma espécie de vazio, não só a essência desguarnecida, mas algo concreto, físico, como se não houvesse ar suficiente no aposento, um formigamento na planta dos pés, um frio nauseante a abraçar-lhe o corpo.

O menino  inseto envolveu-se num pesado cobertor. Ia passar. Tudo na vida passava, dizia a mãe de sua mãe. Logo o pai voltaria para castiga-lo de novo, mas agora não havia medo. Ia passar rápido. Até que por algum outro motivo tudo recomeçasse, mas também passaria e assim eram os ciclos da vida. Este pensamento o confortou. Ficou ali no escuro, suando frio, caindo num buraco espiralado, sem fundo. Pensou então na bicicleta que jamais teria, nela, ele pedalava velozmente contra o vento, rumo à liberdade.

Lá fora o pai conseguia se livrar do chato que viera aborrece-lo com conversa fiada. Porra, fora mais um dia de merda na repartição. Todos aqueles papeis, os rostos vazios das pessoas, os sorrisos falsos, o som insuportável, perpétuo e onipresente das teclas das máquinas de datilografar. Em casa, toda a mediocridade de sua vida a cuspir-lhe no rosto e ainda por cima a idiota da sua cunhada vinha lhe encher o saco queixando-se do seu filho. Ah era demais! Aquele fedelho ia pagar caro, ah, se ia!  

Passou pela sala, as fisionomias reprovadoras da esposa e sogra mais o choro do bebê aumentaram sua cólera.

Abriu a porta, ligou a luz, viu o menino enrolado nas cobertas. "Levanta, seu cão! Vou te ensinar a se comportar nas casas dos outros!" Dizendo isso, o bruto desceu a manzorra nas costas do garoto. Não sentindo reação, bateu novamente redobrando a força. Furibundo com a passividade, puxou o cobertor. O guri encontrava-se em posição fetal, abraçado às pernas. Estava gelado. O homem sacudiu o corpo. NADA! Tomou--lhe o pulso: estava morto.


 







terça-feira, 7 de junho de 2022

ZÉ GATÃO PARA UM NOVO PÚBLICO?

 Eu queria muito ter criado mais aventuras para o Zé Gatão ao longo dos mais de 30 anos que o personagem existe, mas a falta de interesse por parte do público não estimulou a labuta em colocar tudo no papel, abortei vários projetos, mas uma ou outra ideia eu aproveitei nas sagas que consegui publicar (sem esquecer as várias curtas que permanecem inéditas, mas não há planos para trazer ao público)

Entretanto ainda existem os novos que vão chegando agora, uma boa parte já ouvia falar do personagem, já tinha contato com ele nas estantes da Devir nas bienais, mas por motivos diversos só recentemente é que houve um real interesse e o retorno tem sido bem positivo.

Este vídeo do Canal Milhas e Milhas do simpaticíssimo Cássio Witt atesta.

Será que o Felino ainda será será lido, discutido e aceito no futuro? Só Deus sabe.





UMA VIDA NORMAL

   Eu queria muito vir aqui com notícias boas. Na verdade tenho sim, boas notícias, uma delas é que fiz agora há pouco a minha terceira refe...