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sábado, 1 de outubro de 2022

O PROSCRASTINADOR


  Amadas e amados, é isso. Deu um bloqueio total, há uns três dias que não consigo avançar nas páginas dos projetos em que trabalho no momento. O novo capítulo de Os Mitos Gregos empacou na página 73 e não consigo resolve-la. Claro, já aconteceu antes, isso é comum, mas é desesperador quando estou com muitas dívidas e o dinheiro é algo urgente! Vai passar, só preciso respirar fundo, focar e fazer acontecer. Mas tenho que tomar cuidado, se forçar demais a coisa pode não funcionar. Me obriguei a trabalhar em uma página de "Os Rastreadores de Algures" e ela não ficou boa. Por causa de um único quadrinho que não ficou do meu agrado terei que retrabalhar tudo, ou talvez eu refaça apenas aquele quadro, embora eu deteste emendas. 

Estou com um conto aqui, esboçado, só tenho que sentar uma horinha do dia e escrever um pouco, mas não sinto vontade. As vezes penso que é o fim da linha pra mim. Ah, Deus, como eu queria ter uma aposentadoria pra não esquentar a cabeça a essa altura da vida! Me sinto liquidado.

Uma dor aguda no meu calcâneo está me maltratando furiosamente, é a terceira vez que sou acometido desta praga. Lembro que em anos passados eu escrevi sobre isto aqui (não lembro o ano) e houve até comentários a respeito. Na primeira vez que me ocorreu este mal eu até fiz uma HQ com o título de Esporão Calcâneo, que faz parte do álbum Phobos e Deimos. Das outras vezes a dor sumiu como apareceu: repentinamente. Espero que passe logo.

Bem, essas são as minhas notícias, não tão boas, mas estou melhor do que nas duas primeiras semanas de setembro desse ano. 

Como não tenho conseguido produzir nenhum material particular, posto duas artes que foram publicadas em manuais de desenho num período em que eu era outra pessoa. Os originais nunca voltaram para mim, então tive que fazer scans das próprias revistas.

Fiquem com DEUS!



terça-feira, 20 de setembro de 2022

AINDA NAVEGANDO NO MAR DA TRISTEZA



  Boa tarde a todos!

Passo aqui para dar notícias, dizer que ainda estou vivo, que tenho muitas coisas para falar (na verdade escrever) mas estou sempre em busca de um momento adequado e o instante nunca chega. Então temos que forçar, sentar e escrever, mesmo que seja um texto menos inspirado. As ideias estão sempre agitando-se em minha mente, mas meu corpo não encontra o espaço pacífico para dar vazão às palavras e os traços (sobre estes, falo mais adiante).

Nunca sei quando será a última vez que venho aqui, não que intencione abandonar este nosso espaço, mas me pego sempre com o pensamento de que a esta altura da vida tudo pode acontecer, principalmente a alguém que sofre tantas pressões como eu. Contudo minha vida está nas mãos de Deus, o que Ele decidir está ok. 

Minhas dificuldades financeiras não são novidade, nem minha depressão, nem minhas saudades, nem o quase total desinteresse por quase tudo. Pouco tenho visitado canais do YouTube que gosto de assistir, não abro mais as páginas de redes sociais de conhecidos e falo por telefone somente com dois amigos (estes sim, se revelaram verdadeiros amigos, que Deus abençoe a ambos). Evito falar de problemas para meus irmãos, eles tem suas próprias cruzes para carregar e eu, se não posso ajudar a levar, não quero agregar peso. 

Passamos, minha esposa e eu, por uns momentos bem ruins, nada novo, um pesadelo recorrente, mas agora nos vemos um tanto velhos e as feridas da batalha vão ficando mais difíceis de sarar.

Continuo trabalhando naqueles três projetos de quadrinhos mas sinto que os traços saem à fórceps, não ruins, pra falar a verdade, mas demorados, arrastados como se teimassem em virar formas no papel; me vejo apagando uma mesma cena dezenas de vezes até que me soem satisfatórias. É uma pena, já que hoje o tempo se encurta e há conceitos que gostaria de dividir com o público, sim, existem abstrações que ainda queria que virassem histórias publicadas e impressas. Mas não sei se vai acontecer, não com esta vida tão feroz e meu estado de ânimo tão precário. 

Não há notícias de Zé Gatão-Siroco, silêncio por parte da editora e uns dois apoiadores já me passaram mensagem perguntando. Isso é tão desanimador que toda a vontade de criar novos álbuns fenecem como gotas de orvalho ao sol.

É isso, meus queridos e queridas, esta breve postagem foi para dizer que ainda estou respirando e criando gibis.

Sketch de uma HQ veiculada a um filme de terror para o cinema.
 
Obrigado e até uma próxima, se o Senhor permitir, quem sabe, com um texto mais motivado.

RASTREADORES DE ALGURES

MITOS GREGOS (cores de Rafael Anderson).
















 

  


domingo, 28 de agosto de 2022

O SONHO MORTO.


  Dizem que não devemos desistir de nossos sonhos. Concordo plenamente. Mas as vezes tem o caso de amadurecer e ver que aquilo outrora tão ansiado não tem mais relevância nos dias atuais.

Quando bem menino, eu sonhava em estar deitado numa cama bem grande e confortável, num local escuro, junto da minha mãe, minha avó e o irmãozinho recém nascido, todos protegidos das maldades do mundo. Não sei bem porque, talvez inconscientemente eu desejasse voltar à segurança do útero (esta é uma razão para eu ser tão radicalmente contra o aborto). Ok, esse negócio da segurança do útero demonstra como eu sou medíocre em psicologia, vamos ao sonho seguinte: queria encontrar uma mulher que me amasse muito, que estivesse ao meu lado em todos os momentos, que nunca colocasse algo ou alguém (excetuando Jesus) acima de mim - eu visualizava essa mulher com o rosto tipo da Nastassja Kinski - e que tivéssemos uns quatro filhos.

 Minha quimera seguinte foi a de ter uma grande casa, com sala e cozinha bem amplas, quartos espaçosos, e moraríamos todos, meus pais, irmãos com suas esposas e filhos, que fôssemos bem unidos e nos reuníssemos sempre para aquela abençoada tertúlia.

Minha ilusão mais recente, já depois dos cinquenta, foi o de ter grana para comprar uma quitinete numa comercial qualquer da Asa Norte, em Brasília (de preferência que ela ficasse de costas para a pista e de frente para a quadra - quem conhece a Capital Federal sabe do que falo) e nela montar o meu estúdio de trabalho, com meus livros, um frigobar e um sofá bem confortável para tirar uns cochilos entre os projetos. Neste delírio, cada um dos meus irmãos teria uma chave e poderiam ir até lá sem aviso prévio e sentar no sofá, pegar um livro, ou quadrinho e relaxar de suas agitadas vidas. Nunca vai acontecer, infelizmente, um deles não está mais aqui para que o encantamento fosse completo.

Meu devaneio como artista, se posso me olhar como tal, era o de pintar quadros a óleo, expor em galerias e fazer esculturas em argila (na faculdade cheguei a criar coisas bem interessantes, meio ao estilo Rodin). Aventura e fantasia eram meus temas, influenciado pelas capas das revistas do Tarzan que eu via nas bancas de jornais. Depois conheci o Frazetta, Boris e os Hildebrandt Brothers na Heavy Metal, foi uma droga injetada na minha veia que me viciou por toda a vida. Claro, depois conheci outros muito talentosos. Essa coisa de fantasia na arte não é nova, mestres como Rembrandt, Rubens e tantos, realizaram obras incríveis com temas mitológicos.

Eu nunca estudei pintura formalmente, tinha medo dos pinceis e tintas, mas por força da necessidade, para não morrer de fome, me aventurei pintar uns murais nas casas de uns bacanas no Rio de Janeiro e também uns batistérios de igrejas, ganhei elogios e alguns trocados. Também pintei paisagens e cavalos com guache em papeis camurçados para vender nas feiras hippies da Cidade Maravilhosa, mas já escrevi sobre isso.

No entanto o que eu desejava mesmo era pintar como meus ídolos. Um belo dia, na primeira metade da década de 80, deixei o medo de lado e comprei uns pincéis, tintas e cometi "artes" em umas placas de madeira que haviam em casa. No começo eu reproduzi, como pude, algumas obras das capas das Heavy Metal, sempre com meu toque pessoal, claro, depois arrisquei as minhas criações. Eu era bem medíocre, pra ser sincero, mas com o tempo eu acho que fui melhorando. Como tudo na vida, a prática ajuda a apurar. Já mais para o final dos 80 eu comprava grandes telas e ia dando corpo aos meus devaneios, consegui fotografar algumas, como pode ser visto aqui (embora a resolução esteja péssima) e quando eu estivesse num nível aceitável eu tentaria alguma carreira como pintor, tipo Juarez Machado ou José Roosevelt; claro, nunca cheguei aos pés desses artistas. Talvez, quem sabe, se eu tivesse continuado?

O que me brecou na pintura a óleo foram dois motivos: 1- meu retorno a São Paulo, eu não tinha dinheiro para materiais e muito menos espaço dentro do apartamento. 2- descobrir que não havia mercado para este tipo de trabalho no Brasil. O grande Benício talvez tenha sido a exceção, pintando capas de livros, cartazes de filmes para o cinema e até rótulos de produtos medicinais. Não havia demanda como nos EUA onde desde o início do século vinte brotaram muitos talentosos artistas dando vida com traços e tintas aos textos de Conan Doyle, Bran Stoker, Robert Louis Stevenson, Robert E. Howard, Edgar Rice Burroughs e etc. Aqui, o máximo que chegamos perto, pelo que sei, foi a revista Dragão, especializada em RPGs e logo percebi que era um nicho restrito a um grupo seleto. Ainda assim, graças a indicação de uns amigos legais, como o Arthur Garcia, consegui fazer umas capas para revistas de games (também já escrevi sobre isto aqui), foi o mais próximo que consegui de realizar o sonho de viver como ilustrador com este tipo de temática.

Os primeiros quadros que pintei (como os que ilustram este post) sumiram, nem sei onde foram parar. Doei alguns para um grande amigo que reside em Brasília e os demais, desconheço. Numa das tantas mudanças de residência, meu irmão caçula me ligou dizendo que não havia espaço para muita coisa que eu havia deixado na casa da minha mãe, livros, vinis e as telas a óleo com imagens de índios, ciclopes e cavalos alados. Claro, ninguém colocaria quadros deste tipo na sala da sua casa, talvez algum roqueiro muito doido. Nem sei o que me irmão fez daquelas telas, se doou para alguém ou jogou fora. C´est la vie. 

Rembrandt ficou bem de vida aceitando encomendas, pintando retratos coletivos,  quando abdicou disso para explorar seus anseios acabou ficando na miséria.   

Por essas razões eu sepultei esse sonho, pintar meus quadros quando não tivesse mais que matar um leão por dia para sustentar a casa. Tenho calafrios de pensar que essa luta toda está longe de acabar e..... talvez só acabe com a morte.

Há um pesadelo recorrente na minha vida envolvendo uma pessoa próxima, eu e minha esposa sofremos muito com isso, essa aflição recomeçou hoje. Deus nos ajude.

Queria muito poder estar com meus dois irmãos que sobraram, mas cada um deles tem que lidar com suas próprias tormentas.

Ainda tenho os quadrinhos para fazer minha catarse, ainda posso escrever meus desabafos aqui, ainda existem uns poucos bons amigos com quem posso contar. A vida ainda vale a pena.

Fiquem com  Deus.  



quinta-feira, 18 de agosto de 2022

POE, UNBOXING E OVERVIEW.

  Amados e amadas, boa noite. 

Sim, eu sei, já faz mais de duas semanas que eu não apareço aqui para dividir umas ideias com vocês. Creiam, vontade não faltou, mas o tempo sim. Tudo anda muito corrido, boletos demais e dinheiro de menos (pra variar, mas dessa vez o caso é crônico, todavia já estive pior.) São muitas horas na prancheta, exaurindo a mente, cansando a ponta dos dedos, a mão, os músculos do antebraço, até chegar no ombro, onde ele parece estar inflamado. Sei que preciso fazer pausas mais frequentes, alongamentos e tals, mas acabo me empolgando com as cenas que vão criando vida no branco do papel que quando me dou conta, meus olhos estão irritados e minhas costas em brasa. Exagero? Tentem fazer isso de domingo a domingo todas as horas do dia, intervalando só para comer e ir ao banheiro. Ah, sim, sempre que posso eu dou uma cochilada de uns 40 minutos a uma hora depois do almoço, do contrário eu não conseguiria lavorar até duas, três da madrugada. E, claro, sou eu que vou à rua comprar pequenas coisas para casa e pagar alguma conta na lotérica. Fora isso é a rotina de sempre. 

E, sim, são os mesmos quadrinhos que seguem sendo trabalhados: RASTREADORES DE ALGURES (onde faço com mais vagar), o de terror que está associado a um filme em produção (também moroso) e OS MITOS GREGOS (esse priorizado, pois é o que paga as contas atualmente).  

Mas tenho fé que tudo vai melhorar, Deus está sempre no comando da minha vida.

Passo aqui para deixar com vocês um vídeo maneiro feito por um camarada muito legal, que tem um canal bacanudo sobre HQs. Gosto dele porque ele não se apresenta como muitos youtubers cheios de empáfia, donos da verdade e militância política. Passem lá, curtam, deixem uma mensagem e tal e tal. Prestigiem, ele merece.

Um beijo a todos e até breve, se Deus quiser!




domingo, 31 de julho de 2022

SEM O BRILHO DE OUTRORA

 

 O que escrever aqui para manter a brasa, a pequenina brasa deste blog acesa, foi algo que me incomodou durante alguns dias, eu sentava diante do computador com muitas coisas girando em minha cabeça mas as palavras não vinham, inclusive tenciono cometer um novo conto mas o tempo reduzidíssimo não me permite concentração. Talvez o bom tempo tenha passado, artes, escrita, algum projeto de pseudo felicidade, tudo parece ter ficado para trás, nada há mais de relevante para falar. Seria bom dividir com vocês mais alguns fatos pitorescos do meu passado mas acho que o momento não é bom, seria forçar uma situação e as letras não fluiriam espontaneamente, então melhor esperar, quem sabe, um raio de sol inspirador furar as nuvens escuras da depressão para assim voltar a falar sobre algum acontecimento relevante que fez alguma diferença na minha forma de ver o mundo e como ela corporificou artisticamente. 

Falando em nuvens escuras, esse mês de Julho foi legal, choveu muito trazendo um frescor inédito neste estado do nordeste, diria até que fez frio, algumas manhãs fui saudado por um tempo nublado, quase escuro, sem chuvas, e minha alma encontrou identificação. Claro, para contrapor, o aguaceiro frequente desabrochou mosquitos em profusão, mas foi para isto que criaram os repelentes, né? No entanto o calor, este inimigo - meu, pelo menos - já ensaia seu retorno tirânico, como se dissesse: aguarde, Dudu, você não perde por esperar! 

Vivo com se tivesse uma arma apontada para minha cabeça, o dedo suado pode apertar o gatilho a qualquer momento, os mais próximos a mim sabem do que falo. Será que um dia me verei livre dessa situação?

Meus trabalhos continuam, RASTREADORES DE ALGURES, MITOS GREGOS e aquele que envolve um filme de cinema do qual ainda não posso falar a respeito. Os traços saem quase naturalmente e eu deveria me sentir satisfeito mas não sei como categorizar o que faço. Não consigo afirmar se é underground (na falta de uma palavra melhor), uma coisa é bem clara, está longe de ser aquilo que chamam de mainstream - tanto o que fazem nos EUA ou na Europa - e sei lá se isso é bom ou ruim. Eu enfatizo esses pensamentos porque me pergunto qual a razão d´eu ainda não ter conseguido ganhar grana com isso, falo grana de verdade, não ficar milionário, mas para parar de pedir dinheiro emprestado aos outros. Essa semana tive que vender meu único exemplar de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe para poder completar o que faltava para pagar um boleto!

Não consigo mais fazer um desenho pessoal, há ideias mas eu mal consigo ler um capítulo de algum livro ou páginas de quadrinhos. Estou com vontade de fazer umas pinups de heroínas bem acima do peso, Mulher Maravilha, Capitã Marvel, Jean Grey, etc, no estilo Botero, só pra me divertir, mas me falta o tempo e cabeça fleumática suficiente.   

Eu me sinto cansado, pesado. A saudade da minha mãe e do Gil roubou aquela velha chama criadora que me fazia experimentar traços e cores, mergulhar fundo sem me importar a quem agradaria. Olho em volta de mim, respiro, miro em frente e continuo na jornada, sustentado apenas pelas poderosas mãos de Jesus, Senhor e Salvador.

Sobre os desenhos de hoje, foram criados pelo Celso Moraes, um amigo muito gentil que tem um canal no You Tube chamado Cultmix, onde ele posta uns vídeos muito legais, são curtos e bem divertidos, falando sobre quadrinhos, cinema, com curiosidades bem interessantes. Faço merchand para ele porque ele merece, se inscrevam e curtam (https://www.youtube.com/user/MrCelsomoraes). Nessas artes ele coloca o Zé Gatão contra o Blacksad em dois ambientes diferentes. 

O meu felino é uma espécie de primo pobre dos gatos antropomorfos que se destacaram nessa mídia (Leão Negro, Félix, Krazy Kat, Fritz, Omaha, Garfield e, claro, o próprio Blacksad) e eu fico contente que um cara como o Celso, que conhece bem o universo das HQs, se lembre do Zé Gatão. Obrigado mais uma vez, meu caro! Claro que você foi diplomático e colocou os dois em pé de igualdade, embora saibamos que o mestiço de lince daria uma surra titânica no gato preto espanhol.

Beijos a todos e eu espero estar mais inspirado numa próxima postagem.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE PHOBOS E DEIMOS

 

 Esta semana um querido amigo, médico, residente na minha saudosa Brasília me enviou um link de um canal do YouTube onde um rapaz dissecava uma HQ do Senhor Milagre, criação do eterno Jack Kirby. Segundo este meu bom amigo, a tal HQ lembrava a minha história de vida em muitos aspectos. Já tinha ouvido falar do tal quadrinho (acho que é de 2017) mas nunca li - pra ser sincero, conheço pouca coisa dos Novos Deuses, tenho curiosidade - e segundo o youtuber, a obra seria relativa à depressão; o Scott Free não aceitando a morte do irmão, entrava num vórtice de tristeza aguda que o induzia ao suicídio. Realmente tudo a ver comigo, de fato.

O que me leva a pensar um pouco sobre PHOBOS E DEIMOS, uma das minhas obras mais amargas; como quase ninguém leu e sequer sabe que existe, vamos recordar um pouco sua gênese: era o início do novo milênio e eu estava profundamente deprimido, enfrentando problemas, recém chegado ao nordeste do país, longe da minha mãe e irmãos, torturado por uma tendinite na mão direita, sem trabalho, sem dinheiro (fui sustentado pelos meus pais até que começasse a produzir novamente) e acima de tudo uma forte desilusão no que concerne a viver de quadrinhos no Brasil. Pouco antes de migrar para Pernambuco eu passei uns dias na casa do meu irmão médico em São Paulo e fui recomendado pelo Jotapê Martins (editor da Via Lettera, por onde saiu o ZÉ GATÃO - CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO) ao Art & Comics onde fui muito bem recebido e minhas obras autorais muito elogiadas pelo Joe Prado (era ele o responsável em avaliar e enviar material brasileiro para o mercado ianque). Ele me deu um roteiro sobre um bárbaro e disse que se eu quisesse poderia criar algo curto com algum super.   Chegando no Jaboatão me sentei na prancheta e me concentrei em duas tarefas, concluir a saga MEMENTO MORI e dar vida às páginas para o Art & Comics. Desenhei o roteiro do bárbaro e criei cinco páginas de uma do Hulk (sempre gostei do verdão). Não imitei nenhum artista, fiz do meu jeito, esse traço que lembra um pouco os quadrinhos undergrounds americanos de terror e sci-fi do final dos anos sessenta. Tudo feito, embalei e enviei. Depois de um longo tempo sem resposta eu fui até o orelhão da esquina ligar para o Joe. Parecia outra pessoa, distante, indiferente e disse que meu traço era expressionista demais para os americanos, caricato, até. Ah, e que eu não desenhava mãos direito. Mas que eu poderia treinar e tentar novamente, se eu quisesse. 

Me senti um merda. No mesmo instante liguei para meu irmão, o melhor amigo, aquele que partiu para sempre, e desaguei minhas mágoas. Ele ouviu em silêncio e disse para eu não desistir. No entanto eu sempre soube que eu não conseguiria me adequar a certos padrões. Era meu sonho viver de quadrinhos, mas não desenhar o Batman ou Wolverine no  esquema das grandes editoras, então eu me via em apuros. Claro, não fiquei parado e comecei a procurar trabalhos, me aproximar dos artistas locais e até tentei dar aulas e oficinas mas o resultado sempre era o mesmo: portas fechadas. 

Assim, a minha tendência à melancolia começou a crescer e eu tentei escapar da única maneira que me era possível, criando histórias, e malgrado a dor na mão, dei corpo a uns roteiros (na verdade esboços de escritos em um velho caderno) e desta forma nascia Phobos e Deimos. Nele, o final trágico dos protagonistas nas sete narrativas era a minha forma de morrer sem dar cabo da minha vida. 

Não posso deixar de dizer que Verônica foi (e é) um grande apoio, não houve pressão ou cobrança, ela pacientemente esperou até que eu me reerguesse e novamente começasse a fazer dinheiro com meus traços. 

Phobos e Deimos não viu a luz do sol até o final de 2020, quando a Editora Atomic imprimiu 50 unidades. 

Semana passada o Marcos Freitas, editor do livro, anunciou no Facebook a promoção dos dois últimos itens da obra com 50% de desconto - acho que ele fez isso para queimar estoque - e é bem provável que não tenha conseguido vender. 

Não sei dizer se as mais ou menos quarenta pessoas que leram se deram conta do que havia ali,  personagens comuns, humilhadas, envergonhadas, tragadas pela voragem de situações onde se viram envolvidas contra a vontade e das consequências de escolhas erradas onde pagaram um preço muito maior do que deviam. 

Para mim, hoje, esse álbum que escrevi e desenhei há 15 anos atrás é mais atual que nunca; estou mais velho, a situação financeira nunca se estabilizou e outros problemas cresceram. A diferença fatídica é que agora não posso mais ir até a esquina e discar para o Gil de um orelhão qualquer, ele não está mais aqui. Eu continuo tentando segurar o leme deste barco num mar cada dia mais raivoso. 



domingo, 3 de julho de 2022

AS MAIORES HQS DE TODOS OS TEMPOS: LOBO SOLITÁRIO.

 

 Foi Francis, minha querida e saudosa mãe quem me iniciou na leitura, na música, nos filmes, nas artes enfim. Ela lia para mim quando eu mal andava, cantava com sua voz de rouxinol para eu dormir e foi quem me levou ao cinema pela primeira vez. Lembro dos dois primeiros filmes que vi na vida: O LADRÃO DE BAGDÁ e SE MEU FUSCA FALASSE e documentários (sim, nos cinemas) sobre animais da África e ela sempre ali ao meu lado.

Também não posso deixar de citar meu querido irmão Agildo (Gil, como muitos chamavam) em postagens como a de hoje pois a coleção de mangá sobre a qual falarei foi financiada por ele, assim como muitos outros quadrinhos que ele me presenteou nos períodos de ruína financeira (fato notório em 80% da minha existência).

Hoje retorno com um quadro antigo deste blog, "As Maiores HQs de Todos os Tempos" para comentar sobre O LOBO SOLITÁRIO, de Kazuo Koike (roteiro) e Goseki Kojima (arte), uma saga de muito sucesso no Japão que até rendeu alguns filmes (que nunca assisti). 

Como sempre o objetivo aqui não é esmiuçar a obra, analisar texto e arte e tal, mas expor a forma que tal projeto me encantou e que repercussão teve em minha vida.

Meu primeiro contato com este quadrinho foi em 1988 quando saiu pela Cedibra, no formato americano e em leitura ocidental (exatamente como foi publicado nos EUA pela Dark Horse - salvo engano). Eu não conhecia muito do quadrinho japonês, apreciava mas não era um entusiasta faminto (na verdade até hoje não sou), mas a história de um Samurai (um ronin, melhor dizendo) aceitando o trabalho de assassinar pessoas em troca de uma vultosa quantia em dinheiro para poder perpetrar uma vingança contra o clã que desonrou seu nome e o de sua família, carregando seu filho de três anos num carrinho de bebê, era diferente de tudo o que eu já tinha lido. Nudez, violência em quantidades absurdas...não, não dava para ficar indiferente!

Foram lançados seis números, se a memória não me trai, depois a Cedibra parou de publicar quadrinhos e adeus ao Lobo. Até que a Nova Sampa retomou a publicação em um formato menor. Cheguei até a fazer uma capa para uma das edições mas nunca foi publicada, também não durou muito. 

A coleção toda foi finalmente lançada pela Panini na primeira década do novo milênio mas eu fiquei de fora, nem lembro exatamente porque, talvez por estar morando e tentando me adaptar em outro estado e sempre sem grana.

Até que finalmente a mesma editora anunciou a republicação depois de mais de 10 anos longe das bancas (acho que em 2016) e meu irmão disse: "compre, eu pago!" E assim foi. Ele comprou para mim até o número 24, depois ele partiu levando o colorido da minha vida e eu adquiri os 4 últimos. 

Comecei a ler lentamente e achei mesmo que só concluiria, sei lá, no ano que vem, afinal meu tempo é reduzido e cada mangá tem em média 300 páginas em 28 volumes, mas absorvendo um pouco ao logo do dia, em meus intervalos de trabalho eu fechei tudo há algumas semanas e finalmente pude tomar conhecimento de toda a saga de Ito Ogami e seu filho Daigoro. E não fiquei desapontado, é uma obra fantástica, cheia de poesia e arte cinemática!

Bem, faço uma correção, o final me decepcionou um pouco, não que eu achasse que não deveria ser daquela forma, mas faltou algo e eu não posso dizer o que é sem entregar o jogo para os que ainda não leram e eu recomendo demais que leia, se puderem.

Pois é, achei que 34 anos para apreender a saga do samurai com o carrinho de bebê merecia ser registrado aqui, na verdade teria outros comentários a fazer mas acho que são de menor relevância e não estou mais no espírito de enunciar minhas emoções, além do tempo que encolhe dia a dia.

Beijos a todos vocês, queridos e queridas!  


                 

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...