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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ZÉ GATÃO ( CRÔNICA DO TEMPO DO PERDIDO ) Parte 2

A Via Lettera, se não estou errado, foi uma das primeiras editoras a publicar por aqui, quadrinhos adultos em formato de livro pra um público diferenciado. Começou com O Homem Ideal e Balas Perdidas. A Conrad ( talvez até um pouco antes ), tinha trazido às livrarias o clássico GEN, PÉS DESCALÇOS ( obra que recomendo sem pestanejar ). Daí pra frente outras vieram no vácuo, e ( felizmente ) não parou mais.
O novo livro do Zé Gatão seria o primeiro dos nacionais desta safra.
SERIA, mas NÃO FOI.
Logo após aquele rápido papo com o Jotapê Martins, liguei pra ele sem muito entusiasmo, afinal, quando já se bateu em tantas portas e a maioria não se abriram, tende-se a ficar paranóico e achar que é pessoal. Mas não foi assim, ele me instruiu a mandar xerox de boa qualidade de todas as histórias que tinha criado até então.
Assim o fiz. A resposta não demorou, recebi uma ligação dele no trabalho, afirmando que tinha gostado muito do material e que gostaria de publica-lo. Mas tinha algumas ressalvas. A primeira delas é que nem todas as narrativas entrariam neste volume pra não exceder a um número específico de páginas. Ficariam, quem sabe, para um próximo. A segunda é que certas passagens eram violentas por demais, e teriam que ser censuradas.
Tudo bem, disse eu. Como fazemos? Escaneie tais e tais histórias com boa resolução, grave num CD e me mande pra tal endereço, respondeu ele.  Ok.
As hqs que não entraram no pacote permanecem inéditas até hoje. Pena. Gostava delas. Nem sei se vou publica-las um dia. Nunca mais abri os envelopes que as continham. Fazem parte de uma etapa que ficou para trás. É coisa velha. E coisa velha não consumida, tende a embolorar.

Só para situar, meu irmão já tinha se separado da mulher e fora trabalhar no Metrô de Brasilia. Nós morávamos  nestes dias numa pensão situada na W-3 Sul. Apesar de algumas dificuldades cotidianas e forte pressão desnecessária na empresa em que eu trabalhava, foram dias inesquecíveis.
As páginas de Zé Gatão foram desenhadas em A-3.  Sendo assim eu teria que escanear em duas metades e depois montar no Photoshop.  Meu grande amigo Ricardo Bermudez me permitiu trabalhar no seu computador e eu passava longas horas no processo. Saía da casa dele por volta de meia-noite e chegava na pensão a uma da madrugada. Assim, durante alguns dias eu saía do trabalho, jantava e ia incomodar meu velho amigo. Por fim todo o livro foi montado, gravado e remetido. Agora era só esperar a publicação que, se não me falha a memória, estava agendada para aquele final de ano.
O primeiro banho de água gelada veio alguns dias depois. O Jota me disse que a resolução não estava boa. Eu era um ignorante em informática e não me haviam passado nenhuma especificação exata. TIF, JPG,  ou sei lá mais o que, foram as palavras que arruinaram meus sonhos de ver aquele material impresso num momento imediato.  Eu teria que refazer tudo, mas ainda assim o livro estava adiado. E também, não poderia voltar a incomodar meu amigo. A coisa ficou suspensa.
A tal agência de comunicação em que eu trabalhava, atrasava os pagamentos. Fiquei quatro meses sem receber salário, por fim abriram falência. Não era surpresa e ficamos todos a ver navios. Fomos à justiça. Ganhamos a causa. Nosso chefe não possuía um único bem em seu nome e não recebemos nada.
Em 2000 precisei voltar a São Paulo. Levei comigo os originais do "Crônica do Tempo Perdido", título extraido de uma das histórias.

Escaneei e montei  todas as páginas novamente na própria Via Lettera. Agora era só aguardar.
Quais problemas enfrentam uma empresa só seus diretores sabem, mas os meses viraram anos, a editora colocava no mercado uma série de títulos e Zé Gatão era sempre adiado. Cheguei a pensar que haviam desistido e não tinham coragem de me informar.

Quero lembrar que nem por isto parei de trabalhar com o gato. Desde 1998 eu desenhava um novo álbum além das tradicionais histórias curtas que cobravam vida. Como já disse, era a única forma que tinha pra desabafar. Fiquei oscilando entre SP e o DF, até que em 2002, toda a familia voltou a residir em Brasília. Meu irmão se casou de novo, o outro se formou em medicina. Minha relação de namoro com a Verônica que se arrastava a oito anos, se transformou em matrimônio em meados de 2002.
Como é sabido que tudo nesta vida tem um fim, a minha espera pelo livro preto acabou. Recebi o pacote pelo correio numa manhã ensolarada quando saía de casa pra um compromisso. Levei um exemplar do mesmo e fiquei lambendo a cria aquela tarde toda e ainda nos dias que se seguiram.
Ficou um ótimo livro, mas diferente do que eu tinha idealizado. Começou pelo formato. Minha idéia, era que se o primeiro álbum era branco com o personagem de costas, o segundo teria que ser preto com o felino de frente. Mesmo tamanho, mesmo padrão. A hq, GALO DE BRIGA, foi rediagramada para o formato. O Jotapê enxugou ( em muitos casos, melhorou ) quase todo o meu texto. Vocês que possuem o livro, podem conferir, nas páginas ( originais ) desta postagem, as diferenças de diagramação e texto e também uma das cenas censuradas.

O saldo final foi totalmente positivo e eu agradeço
imensamente ao  Jotapê Martins, por haver acreditado no trabalho e ido até o fim com ele.
Foi muito bem recebido pela crítica. Em algumas livrarias virtuais como o Submarino por ex. ele recebeu máxima avaliação e é sempre muito bem recomendado. Júlio Shimamoto, acha que a hq RÁDIO MALDITA, é um primor pela forma como  desenvolvo a ação em apenas algumas páginas. Perdoem meu cabotinismo, mas aprendi que se não valorizo e enalteço meu próprio trabalho, ninguém o fará.
Obtive ótimas resenhas ( postarei algumas assim que der) mas as vendas não foram tão boas. Infelizmente.
Seria o preço? O tema? Animais atuando como humanos? Alguns afirmam que o momento para o lançamento era inapropriado.
O fato é que ele saiu e já faz parte da história. O resto é o resto.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ZÉ GATÃO ( CRÔNICA DO TEMPO DO PERDIDO ) Parte 1


Na segunda metade dos anos 90 eu estava com todo gás, mal acabava uma hq eu já dava inicio a outra numa fome insaciável. Nem tinha me recuperado da agitação da concluir "A Cidade do Medo" e dei vida a uma série de histórias curtas que de inicio batizei de "Crônicas". Eram idéias que me pegavam de sopetão, geralmente na hora de dormir ou quando "viajava" nas filas de um banco qualquer. Normalmente baseada em alguma experiência pessoal.
Quando pude, publiquei meu primeiro álbum, trabalho totalmente amador fortemente influenciado pelo underground italiano.
Com alguma experiência adquirida naquelas páginas fui dando corpo a estas idéias. Iam sendo fechadas em envelopes pardos a medida que ficavam prontas. Quem sabe um dia eu publique, pensava.
São Paulo, a mulher de tetas grandes e caídas convertia-se agora num vampiro que drenava minhas energias e precisei partir antes de enlouquecer de vez. Voltei para Brasília com 40 reais na carteira decidido a arrumar um emprego e me tornar um cidadão decente. Mas antes de deixar de ser um vagabundo desenhador de comics pornoviolentos, eu queimei meu filme morando de favor na casa de uns conhecidos. Um mês na casa de um, outra semana na casa de outro. Passei por momentos horríveis. Tanto constrangimento tiravam todo o brilho que uma cidade como a Capital Federal tinha para oferecer.
Tentei emprego até de cartazista no Carrefour. NADA. Todo este tempo fui mantido por meu irmão que nesta época não ganhava lá muito bem e sofria os horrores de um péssimo casamento. Tentei a todo custo evitar morar com ele e assim piorar um matrimônio já no ocaso. Não foi possível. Ou ia para debaixo do seu teto agravar a ferida,  testemunhar suas agruras ou dormia na rua. Foi ali que fiz a curta PALAVRAS VENENOSAS, com uma prancheta de mão, sulfite, esferográfica preta e caneta de retroprojetor.
Arrumei finalmente um emprego numa empresa de comunicação que prestava serviços para diversos orgãos públicos de Brasília, em especial o Ministério da Saúde. Minha função lá era criar histórias em quadrinhos educacionais. Trabalhavam na mesma empresa os artistas Nestablo Ramos e James Figueiredo. Eu e um ótimo escritor chamado J.G. Pinheiro (que ali tinha a função de roteirista) criamos a série "Garoteens". Modéstia a parte um excelente trabalho, mas como vocês devem saber, os chefes destes lugares não sabem a diferença entre uma jóia e um pedaço de cagalhão seco, rejeitaram nossa idéia preferindo uma porcaria criada por outro desenhista de lá. Tivemos que trabalhar utilizando aqueles personagens insossos... mas estou me afastando do assunto.
Era o ano de 1998. O Brasil, ganhava um jogo dramático contra a Holanda na copa. Nesta noite em Sampa, meu pai sofreu um AVC que mudaria radicalmente os rumos da familia. Eu e meu irmão fomos visita-lo. O Brasil perdeu a copa para a França.
De volta ao DF, a famosa Fábrica de Quadrinhos, que nesta época era capitaneada pelo Jotapê Martins, veio para um evento de quadrinhos que foi sediado no Park Shopping, fui lá dar uma prestigiada.
Eu e o Jota conversamos um pouco. Elogiou meu primeiro álbum, só disse que eu excedia no texto, fosse ele o editor, ele cortaria metade das minhas palavras. Tem coisa nova? Tenho umas curtas esperando você, falei.
Me manda. Ok, eu disse.
Começava assim o processo de publicação do chamado álbum preto. Um tempo que duraria longos seis anos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A BANCA OLIDO.

Cá estou eu diante do computador, pensando em como começar a postagem, em busca de uma frase que sirva como tiro de partida, e eu pareço oco. Não consigo me concentrar, não tenho ficado muito tempo na prancheta pra dar direção certa a várias artes pessoais inacabadas. Sim, porque os trabalhos encomendados e remunerados resolveram dar um tempo da minha vida. É sempre assim, depois eles sentem falta da mão que lhes dão formas e voltam a me rondar, geralmente quando estou a beira da ruína, com minhas contas todas atrasadas, onde a subida é mais dolorosa. Paciência. Foi assim a vida toda. 
Pronto, achei o fio da meada, já posso começar o que me propus, continuar a narração da minha saga: Meu recomeço em São Paulo.
Eu não me sinto a vontade escrevendo. Isto é para os escritores e poetas. Nem sei direito porque mantenho este blog, várias pessoas me disseram que era importante pra divulgar a minha arte... putz, minha arte, como esta frase me soa pedante! Mas vá lá, que seja, então eu deveria mostrar um monte de desenhos e nos últimos tempos o que faço aqui é bancar o hipócrita dizendo que não gosto de me expor e agora não faço outra coisa. Eu justificaria que parte, senão tudo que produzo, é resultado direto do que se passa comigo. É assim com todos, diria você. Será? Bem, alguém parece gostar do que escrevo. Então vamos lá.
O Livro de Eclesiastes, disserta de maneira contundente e profunda, o sentido da vida. Quem tiver discernimento para entender, entenda. Lutamos como os leões nas savanas por nossa sobrevivência (a nossa e de nossa prole).
Tendo ciência de que o tempo (este grande carrasco), não espera por ninguém, fui a luta logo cedo. Trabalhei numa série de coisas. Meus primeiros trampos foram ao lado do meu pai, e sobre estes, não falarei hoje. Na selva de pedra, fiz estampas pra camisetas, capas pra revistas e uma série de ilustrações pra publicações diversas. Contudo nunca pude manter uma independência. Quadrinhos? Você conhece alguém que ganhe a vida com isto aqui no Brasil? Dizem que está melhorando. Veremos. 
Em 1994, um cara (tenho evitado nomes) dono de uma banca de jornal, (eu já o conhecia a tempos), me chamou para uma conversa. Sabendo ele das minhas dificuldades em me manter só com ilustração, me propôs alugar a sua banca, uma vez que ele mesmo já não aguentava mais o negocio. Agradeci e pedi pra pensar um tempo. Sozinho eu não daria conta do recado, consultei meus irmãos e perguntei se estariam nessa comigo. Nunca me desapontaram, então topei. Arrendei a Banca Olido, na Avenida São João, quase em frente a galeria do rock, por 800 reais mensais, mais 100 de telefone. 
Como a banca estava sucateada e afundada em dívidas, ficou acordado que eu não o pagaria nos primeiros meses até que ela estivesse recheada de mercadorias e livre das dificuldades financeiras. Também não lucrei nas primeiras estações. Mas aos poucos ela foi tomando forma de uma banca com muitos títulos. 
Alguns estabelecimentos destes se especializam em jornais, apostilas e etc, eu quis recheá-la de histórias em quadrinhos. Abasteci o local com HQs nacionais e importadas. Semanalmente eu ia na DEVIR, pra atender os clientes que iam crescendo a olhos vistos. Nossa meta ali era, pontualidade, bom atendimento e mercadoria de qualidade.
Antes de continuar, um adendo, se é pra me expor então vamos completar a obra. As duas fotos que ilustram a postagem de hoje mostram dois momentos, de manhã, na hora de abrir e a noite perto da hora de fechar.  
Esta foi a minha primeira tentativa de trabalhar com comércio.


A coisa parecia dar certo. A freguesia aumentou. Tanto que sem planejar, "roubei" parte dos clientes da Livraria Muito Prazer, a minha concorrente direta. Meu dólar era um pouco menor que o cobrado por eles, esta era a razão. Mas foi uma concorrência saudável, quando eu não dispunha de determinado título eu os indicava e vice-versa. O que nós ganhávamos ali era aplicado em mais revistas. Lembro que aos sábados uma multidão de garotos acorriam ao local para troca de cards (uma das febres do período).
Trabalhando num local assim, você se vê inserido numa realidade diferente da que está acostumado, toma-se conhecimento que existe um traficante na área, bons e maus policiais, torna-se testemunha de muitos fatos que são comuns em filmes de vigilantes. Procurei não me contaminar. Nada de muito papo com ninguém. Nada de putas ao redor. A noite a coisa pegava. Não podia ficar aberto até muito tarde. Conheci um cara que arrendou um bar e permitiu que os nigerianos tomassem conta do local. Fracassou no negocio. 
Afinal, você me perguntaria, deu certo a empreitada? 
NÃO. 
Eu tinha muita mercadoria não consignada. Todos os títulos da Meribérica e alguns álbuns especiais eu tinha que pagar a vista ou assinar promissórias. 
Meu irmão recebeu a grande noticia que tinha sido aprovado no vestibular para medicina, e não pode mais nos ajudar. Ficamos eu e o caçula pra tomar conta do negócio.
Naqueles dias, o FHC veio em rede nacional, exortar a população brasileira que refreasse o consumo para evitar a volta da inflação.
Eu me vi assim, vendendo num dia em torno de 400 ou 500 reais diários e no seguinte uma queda para 100, 120 reais. E estava com uma banca cheio de importados de qualidade pegando poeira e as letras vencendo. O aluguel do lugar era alto, e eu tentei resistir como pude. 
É um serviço cansativo e emburrecedor. Não há tempo pra nada. Não lia mais, não desenhava, não ia mais ao cinema. NIENTE. Acordava por volta de 5:30 para abrir as 6:00. Procurava a noite, morto de cansado, dormir cedo, mas em casa isto nunca foi possível. Estávamos exauridos.
Para muitos que pareciam ser de confiança, nós vendemos fiado, nem todos voltaram pra pagar.
JOGUEI A TOALHA.
O pouco que pude guardar no banco, eu tive que retirar para quitar algumas notas. Peguei um dinheiro emprestado com dois amigos e nunca pude pagar de volta. Tudo para poder devolver a banca para seu dono sem dívidas.
Um dos caras que me emprestou dinheiro, além de amigo, era fã do meu trabalho, não quis que eu o restituisse. O nome dele? Nelson Modesto. Tenho com ele uma dívida de gratidão eterna. 
Sinceramente? Acho que fui muito ingênuo. Um total incompetente pra um serviço como este. 
Na verdade, voltar para minha atividade natural foi como uma libertação. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

SÃO PAULO

Nasci em São Paulo.
Acho que já disse isto.
E sempre esqueço que tem esta informação no meu perfil aqui no blog.
A verdade é que até hoje não sei se gosto de São Paulo ou não. Em principio não. Quando estou longe tenho vontade de voltar, rever meu irmão e os poucos amigos que tenho (alguns deles moram na selva de pedra), visitar o MASP, a Pinacoteca do Estado, comprar algumas coisas que só se acham em Sampa. Mas uma vez que coloco meus pés por lá, com pouco tempo sinto vontade de partir. O problema é que esta cidade (sim, a cidade, não exatamente o Estado) nunca me foi acolhedora. Vejo São Paulo como uma mulher de tetas enormes e caídas que ainda procura amamentar todos que a procuram. Parece que sugaram tudo. Todo o verde, toda sensibilidade e educação, deixando no lugar, poluíção, prédios cinzentos e cadavéricos, juntamente com o fedor de merda e urina em cada trecho verde que teima em subsistir no meio do asfalto e concreto.
Passei minha infância em Guarulhos e suas imediações; no pricipio dos anos 70 fomos morar ali na famosa "boca do lixo", um período na Rua Guaianazes, depois mudamos pra Pereira Barreto, não muito depois voltamos pra Rua Aurora. Naqueles tempos já era comum vislumbrar pelas calçadas estes tipos que a vida engoliu, regurgitou, mastigou e por fim cuspiu de nojo. Certa vez passei por uma mulher na rua e nunca imaginei que fosse possível uma pessoa feder tanto.
No principio de 1975, minha mãe quis visitar seu passado, então fizemos uma viagem de trem até Ourinhos, eu, ela, minha avó e meus dois irmãos menores. Foram os melhores 15 dias que passei em toda a minha vida. Ficou agendado uma volta nas férias de meio de ano, que jamais aconteceu. Por volta da Semana Santa, meu pai veio anunciando nossa mudança para Brasília. Demorou pra me habituar, mas fui feliz na Capital Federal.
Só voltamos pra São Paulo no começo de 1992, para o mesmo lugar, mesmo prédio, como uma moléstia que retorna ao seu corpo quando você pensou que havia se livrado dela. Era estranho ver os mesmos rostos (só que envelhecidos uns 50 anos), aquele cara ainda com aquele uniforme de mensageiro na portaria do hotel. Estranho mesmo era regressar como se nunca tivesse saído, e notar como ali no centrão, falava-se uma série de dialetos, alguns de origem africana, coreano, castelhano e mais alguns.
A Livraria Muito Prazer, veio a ser um instrumento de prazer e tortura no melhor estilo "sadomasô". Havia tantos book arts e comics nos mais diversos idiomas e nenhum dinheiro pra comprar. A sério, eu não tinha tostão nem pra comer um maldito churrasco grego.
Certo dia, cansado da dureza, munido de uma pasta que continham alguns desenhos feitos com esferográfica preta, sai determinado a arrumar trabalho, passei na galeria 24 de Maio, a famosa galeria do rock, nas lojas de silk screen. Lá, abordei um cara, mostrei os desenhos e ele me perguntou se eu sabia trabalhar com poliéster, letra tone e coisas tais. Eu menti dizendo que sim. Na mesma hora fui  finalizar umas artes que ele tinha por lá (o cara que trabalhava ali havia faltado naquele dia). Pagavam por produção. Naquela tarde eu já tinha uma quantia pra fazer um mercado em casa, ir a um cinema e comprar um vinil do Scorpions. Foi meu primeiro trabalho depois de tantos anos fora.
Solitário, nos fins de semana, eu ia até a Praça da Luz, na Pinacoteca e ficava lá a tarde toda. Naquela época a entrada era franca e quase não havia viva alma lá dentro, eu tinha todo o acervo do século XIX somente pra mim. Doces tardes amargas e geladas.  
Hoje sei que o trânsito está mais impossivel que nunca, estive lá pro casamento do meu irmão há dois anos, e vi por mim mesmo. Assisti pela TV, um arrastão próximo ao Túnel Rebouças. Sei lá, acho que todo paulistano deveria no final de cada ano ganhar uma medalha por sobreviver em São Paulo. Os homens por terem os colhões de ferro e as mulheres pelos nervos de aço. Eu, como não tenho nem uma coisa nem outra, fico de longe me decidindo se amo ou odeio esta cidade.
Se o Deus Todo Poderoso permitir estas reminicências continuam amanhã, finalizo aqui com uma imagem do Zé Gatão. Se fosse traduzir a expressão do seu rosto eu diria que é de extremo tédio. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

CAPA PARA A REVISTA "GAMERS" ( 03 )

Esta foi a terceira capa que fiz para esta publicação. Como disse antes, cada uma delas tem um fato pitoresco para acompanhar. A mim parece que certas situações nunca mudam. Antes eu pensava que só artistas iniciantes é que passavam por situações muitas vezes constrangedoras, mas mudei de opinião ao ler certa vez uma entrevista com o famoso Boris Vallejo. Ele relatava as inúmeras vezes que teve seus trabalhos recusados ou mesmo perdidos por algum editor. E não só ele, Greg Hildebrant, Corben e etc.
Para a primeira capa eu cobrei um valor "X" (não coloco o preço exato aqui somente por não lembrar quanto era exatamente. Era outra moeda inclusive), acharam muito mas pagaram numa boa. Quando levei a segunda,  quiseram abaixar uns 20% do valor. Como eu precisava do dinheiro, aceitei sem problemas. Não foi diferente com esta terceira, alegaram baixas vendas, que não podiam competir com a Super Game Powers da Abril e blá blá blá, então reduziram uns 30% do meu pagamento. A contragosto assenti.
Como narrei anteriormente, eu pegava as referências na Lapa e ia entregar o material no Morumbi. Havia lá um cara enorme, com o singelo nome de Marcial, que parecia não ir com a minha cara, e ele não curtiu esta terceira ilustração. O motivo? Para os que estão inteirados do assunto, o mascote, ou garoto propaganda do game "Killer Instinct", era o personagem Fulgore, e eles queriam a figura do mesmo na arte. Como o pessoal da redação da Gamers não havia especificado nada, eu retratei o Cinder e o Glacius, outros dois lutadores do mesmo jogo. Só aceitaram porque não havia tempo para mudanças. 
Um outro aspecto interessante, foi que havia lá uma menina que era uma graça, muito bonita mesmo. Como eu estava solteiro e não vi aliança nos dedos dela, resolvi dar uma galanteada. Não gostaram muito da coisa não, numa outra vez que apareci por lá, um individuo afetado (homossexual assumido mesmo) se apresentou como noivo da beldade, frisando que eram felizes e em breve se casariam e tal. Cena patética, mas eu devo mesmo ter cara de lobo mal, pois a ovelhinha (ou porquinha) se sentiu ameaçada. Repito: PATÉTICO.
Bem, meus queridos e queridas, por hoje é só.
Um bom final de semana, descansem, divirtam-se e se Deus quiser voltarei na segunda.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CINCO MINUTOS ( 07 )

Acho que já deu pra perceber que quando coloco imagens dos últimos livros que ilustrei é porque não posso me delongar aqui no blog. É isto mesmo, na verdade está sendo uma semana complicada para mim. Todas são na verdade, e como não há muito o que dizer sobre estas artes, elas meio que preenchem as lacunas. Melhor dizendo, eu planejei comentar sobre o período em que trabalhei com o comércio de quadrinhos em São Paulo, mas teria que ser uma postagem mais longa e hoje eu não disponho de tempo, então pra não ficarmos com um buraco na semana, os desenhos dos livros me socorrem. A outra opção seria só postar algo quando eu tivesse alguma coisa muito relevante para dizer, mas não é a minha proposta para este blog. Sou metódico, enquanto for possível quero manter a regularidade. Por enquanto ainda temos vários desenhos e eu sempre fui tagarela quando a oportunidade se apresenta.
Não é o caso hoje.
Quem sabe amanhã terei mais tempo?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

NATUREZA MORTA 02

Salve, meus caros amigos e amigas.
Como foi o feriadão?
O meu teve altos e baixos. Não é incrível como estes pequenos problemas cotidianos somados criam uma muralha quase intransponível? Estas dificuldades comezinhas tornaram meu dia ontem muito difícil.
Ok, tropeçamos, nos ferimos com o tombo e fazemos o quê? Só restam duas opções, ficar chorando caido ou levantar, sacudir a poeira e continuar a caminhada. Estar deitado não é comigo (nem para dormir - aliás, durmo pouco).
Mas vamos ao que interessa, esta foi a segunda natureza morta que fiz para o "Método Dinâmico de Desenho e Pintura" da Escala. Tive pouco tempo pra improvisar esta arte. Me lembro que meu irmão Gil veio com a esposa e filhos para Recife, então comprei umas frutas, fiz uns arranjos e pedi a ele que fotografasse pra mim. Revelei no Shopping as que achei mais interessantes e corri pra casa pra lambuzar a tela com tinta a óleo.
Procurei, com uma mistura básica de cores, dar o tom mais realista possível. O fundo frio contrasta com os pigmentos das frutas e legumes.
Não lembro mais o motivo, mas desgraçadamente a pintura, a exemplo da primeira, não fez parte do volume. De nada adiantou a pressa.
Quando estive em São Paulo pra rodar um DVD, eu tive que pintar uma outra nos mesmos moldes, seguindo o mesmo padrão de formas e cores, e esta sim acabou fazendo parte da revista. É uma pena não ter a arte aqui para comparação. Não lembro direito, pois nem a edição eu tenho comigo, mas acho que esta ficou melhor. Se você tem o referido volume aí, poderá confrontar.

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...