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sábado, 25 de junho de 2022

DANDO RÁPIDAS NOTÍCIAS


 Amadas e amados, boa noite!

Sei que estou um tempo sem dar notícias, mas não tenho novidades, na verdade tenho, mas elas não são muito boas. Estava procurando por uma postagem antiga aqui e aproveitei para ler aleatoriamente uns textos que escrevi em 2010, 2011, 2012 e por aí adiante, e muitos deles foram só queixumes. Vejam, existem pessoas com vocação para a felicidade, passam por umas boas merdas mas logo se recompõem e voltam a sorrir, gargalhar, viajar e talz. Eu queria ser assim, mas as pancadas do existir me atingem de forma a me deixar bem pra baixo e a única forma que eu tenho de não internalizar totalmente é escrevendo ou fazendo meus quadrinhos particulares (aliás, fazia, pois o bom e velho tempo encurtou de vez). De forma que agora fico até sem graça de vir aqui chorar, melhor guardar para mim o que me vai na alma.

Estive adoentado há uns 10 dias atrás, febre, dores no corpo, calafrios e forte cefaleia. Não sei se foi dengue, covid ou outra bosta semelhante. Estou melhor mas com o corpo ainda de ressaca. Não pude trabalhar e as páginas atrasaram e consequentemente meu pagamento, e os boletos quando chegam, dizem: "Foda-se, seu velho reclamão, quem mandou não estudar pra virar funcionário de estatal? Agora aguenta, esses juros vão te ferrar direitinho, hahahahahah!"

Pra piorar, um corpo de uns cem quilos caiu em cima de mim (sinto: não posso dar detalhes) e no choque eu magoei minhas costelas e meu joelho direito. Quando espirro ou tusso, sinto dores na altura da minha costela flutuante.

Todavia tento trabalhar como posso, nas horas em que os estresses do cotidiano são menos cruéis. Não sei quanto tempo vou aguentar, uma hora tudo acaba. Até lá...... 

Essas imagens são de um dos três projetos que desenvolvo (as cores são do Rafael Anderson, um talentoso artista aqui de Pernambuco).

Fiquem todos bem e até breve, se Deus permitir! 



domingo, 12 de junho de 2022

RÉQUIEM PARA UM SONHADOR (Um conto criado por Eduardo Schloesser num dia qualquer de 2007).

 Quantos anos faz que isto aconteceu mesmo?

Muitos anos, o suficiente para não saber a data com exatidão, mas foi na época daquela novela em que o ator principal morreu bem na metade da trama. Sua passagem causou comoção nacional e também um grave problema para os produtores do folhetim, afinal, como prosseguir com o enredo sem o protagonista? Substituíram-no por um outro interprete que em nada lembrava o original.

Meses depois surgiria o boato de que aquele artista, um dos maiores que este país já teve, não havia de fato morrido, mas fora enterrado vivo. Sofria, disseram, de catalepsia e o único a sabe-lo seria seu médico que na ocasião estava viajando para o exterior. Ao retornar o doutor mandara exumar o corpo e constatou-se que a tampa do caixão apresentava arranhaduras pela parte de dentro e o cadáver encontrava-se de bruços, morto finalmente, claro, por asfixia. 

Verdade? Lenda urbana? Pouco importava para o menino que estava apoiado no baixo muro caiado observando o movimento da rua, totalmente absorto em seu mundinho de fantasias.

Os olhos do infante como que hipnotizados, nem piscavam contemplando a cena que se desenrolava diante dele, na via, o movimento das bicicletas, muitas bicicletas, pedaladas por meninos mais abastados que ele, indo e vindo, de lá pra cá, daqui pra lá, num contínuo vai e vem, quase como um bailado bem ensaiado. Quantas haviam? Dez? Vinte? Trinta? Mais? Elas pareciam se multiplicar numa escala geométrica. Os guris felizardos, que tinham o privilégio de possuí-las pouco se importavam com aquele momento mágico. Conduziam o veículo de duas rodas velozmente num perímetro curto, faziam a curva e passavam uns pelos outros como se fossem etéreos, surreais.

A bicicleta, o símbolo de uma felicidade quimérica. A bicicleta do primeiro amor, como chamavam. A bicicleta da novela. Aquela novela onde o ator fora sepultado achando que estava morto. A bicicleta que o menino nunca ia poder ter. Nem a bicicleta, nem o primeiro amor.

O coitado não entendia se não ia ter o tão almejado objeto de desejo porque era pobre ou porque não se importavam com seus sonhos, pra ele dava no mesmo. Que idade tinha aquela criança? Pouca para saber como um filho era gerado e o bastante para se dar conta que era infeliz.

Vivia com seus pais, com a avó - mãe de sua mãe - e dois irmãozinhos menores no térreo de um sobradinho.

O petiz tinha seus idílios, crescer, estudar, casar (podia ser com a filha do senhorio, ela era bem bonita) e ter filhos. Mas ele não queria ser como seu pai. Ele não queria ser como nenhum pai, pois todos, a seus olhos, eram coléricos e brutais. Ele seria o tipo de pai que chega em casa e trás doces e figurinhas, compra revistas do Fantasma e do Recruta Zero para seus filhos. O pai que brinca com seus rebentos e na data do aniversário dá uma bicicleta de presente. A bicicleta da novela. A bicicleta do primeiro amor.  

Ali, apoiado no muro branco, o menino divagava fitando o trafegar onírico daqueles veículos na tarde que morria e esqueceu-se da hora. Uma a uma as bicicletas iam sumindo. Quantas agora? Quinze? Oito? Cinco? Nenhuma mais. O garoto passara a tarde na casa de sua tia, que era bem próxima da sua. Era bom? Ele não discernia. Gostava de brincar, um momento de não se sentir tão sozinho, mas os primos as vezes o hostilizavam, principalmente o mais velho; dizia que ele era feio, que era burro, que era baixinho. As primas também, poucos meses mais velhas que ele, o induziam a fazer coisas proibidas, queriam beijar na boca e levantavam as saias e pediam para ele colocar a mão por dentro das calcinhas. Era uma sensação muito boa, ele não entendia porque mas gostava de estar com elas no escuro, atrás das portas. Entretanto sabia por intuição que aquilo era condenável e seria severamente punido caso fosse descoberto pelos adultos. 

Foi tirado de seus devaneios pela voz da avó, a mãe  do seu pai, alertando-o que era tarde e que ele deveria ir para casa. Antes porém, pediu-lhe que fosse pegar uma toalha no banheiro pra sei lá o quê. Distraidamente se encaminhou ainda sob os eflúvios das bicicletas e primas sacanas. Abriu a porta e, surpresa, flagrou a tia tomando banho. Foi um lapso de segundo que pareceu durar uma eternidade. Envergonhado, tão rápido como foi o ato de abrir, ele fechou a porta com um pedido de desculpas.

Falou para a senhora que solicitara a toalha que a tia ocupava o banheiro e encaminhou-se à saída, não sem antes ouvir as imprecações da tia chamando-o de sem vergonha, confirmando o que no íntimo ele já suspeitava:  ela dava a sentença condenatória: "vou falar para o seu pai!!!"

Qual fora seu crime? Abrir por acidente a porta de um banheiro e divisar por um rápido instante um corpo miúdo que, salvo por um tufo triangular de pelos no meio das pernas em nada diferia do de suas primas. Não fora de propósito, claro, mas para o pai severo e carrasco era motivo mais que suficiente para impingir-lhe um castigo muito superior à sua idade e peso.

O corpo do menino chegou em casa, sua alma porém debatia-se no desespero, antevendo o inferno onde estava para ser mergulhada. 

Não teve coragem para narrar o ocorrido à mãe ou à avó, seria inútil; como das outras vezes, ninguém poderia interceder por ele. Novamente seu genitor viria para cima dele como aquele rolo compressor que esmagara um gato na rua que estava sendo asfaltada perto da igreja.

O infante não nutria simpatia pelo pai. Temia-o na mesma proporção que o desprezava. Aquele homem era incapaz de um gesto de amor ou gentileza, vivia mau humorado, falando alto, sempre discutindo com as pessoas, fosse numa padaria, supermercado,  estacionamento, ele sempre caçava motivo para brigar com alguém. Era valente, isso não se podia negar, mas a criança não via isso como qualidade.

Certa vez, toda a família fora assistir ao Holiday On Ice - algo raro - e ao término do espetáculo o pai pegou o primeiro táxi que viu parado. O motorista foi logo avisando que aquela hora ele só fazia lotação, ou seja, cobraria um valor alto por cada passageiro, incluindo crianças. Não fazendo caso, o pai deu o endereço e pediu que dirigisse. Com o veículo em movimento o taxista reiterou que cobraria o valor de lotação. Teve início uma discussão que atingiu um absurdo numero de decibéis. No banco de trás, o menino, seu irmãozinho menor, sua mãe (que pedia ao marido para parar o carro e pegarem outro), a avó com o bebê de colo e o primo calhorda. Imprecações, ameaças. O carro em velocidade e o motorista gritando e olhando para os ocupantes no banco traseiro, parecendo querer matar a todos. Em resumo, a polícia teve que intervir e no fim todos voltaram para casa de ônibus. Casos semelhantes eram comuns na vida daquela pobre família.

O menino não quis jantar, seria como a refeição de um condenado. Entretanto aquilo podia dar em nada. Era como roleta russa com bala de festim. Certa vez ele saiu para comprar açúcar e perdeu o dinheiro no caminho, ficou o dia inteiro esperando levar uma surra e o pai, ao chegar, nem fez caso. Outras vezes, por algo de menor importância fora espancado como o pior dos criminosos. Não tinha como antecipar o que ia acontecer e como sempre a expectativa era pior do que o castigo propriamente dito.

A mãe e a avó nada podiam fazer por ele, morriam de medo do chefe da casa.  Elas estavam vendo novela na tv, a novela da bicicleta e do ator que fora enterrado vivo. O irmãozinho brincava no chão, o bebê dormia. Ele sofrendo de expectação dentro do quarto, no escuro, sozinho como sempre fora.

Ele sabia que o progenitor sempre passava na residência do irmão antes de vir para casa pra jogar uma conversa fora, ele clamava aos céus para que não fosse assim dessa vez, ou que lá, eles esquecessem o fato, ou ainda, que seu pai intuísse que ele jamais invadiria o banheiro com alguém dentro por pura malícia.

Esperança vã. Ouviu a porta da sala se abrir e a voz do carrasco a indagar por ele, aquela voz que parecia brotar das trevas admoestando que ninguém interferisse, que o menino precisava ser corrigido.

A porta se abriu. A luza acendeu. Todos os temores do petiz se confirmaram. O pórtico atrás do homem se fechou encerrando lá fora todas as esperanças.

O pai era um indivíduo de baixa estatura mas de compleição taurina, com cabelos escuros penteados cuidadosamente com brilhantina. Tinha olhos verdes magnéticos que a tudo e a todos fuzilavam. 

O menino só viu o pai, tudo o mais pareceu deixar de existir, as paredes, o teto, a porta, os móveis, tudo sumiu, restando apenas ele e aquele sujeito imenso que se agigantava diante dele a medida que sorvia o ar de forma ruidosa e exalava ódio, fúria. "O que você fez hoje na casa da sua tia, moleque?" Não teve tempo de responder, uma bofetada estourou em algum ponto de sua cabeça. Ele não saberia dizer se caiu pois com incrível rapidez, mãos rudes o  agarraram pelo pescoço como se fossem tornos e o sacudiram com violência. "Você gosta de espiar os outros tomando banho? GOSTA? Responde moleque!!!" 

O braço cabeludo desceu raivoso. Ele não discernia dor, só o pânico que o mantinha travado, incapaz de falar, mover e até chorar. "RESPONDA MOLEQUE!!!!" A carantonha do verdugo com os olhos verdes faiscantes, os dentes mordendo a língua dobrada, ocupavam todo o seu campo de visão, preenchiam todo aquele aposento que parecia não existir. Quis responder mas a voz não saía, tinha sido manietada dentro dele. Um potente tapa no rosto o fez sentir dor, mas não a dor física como uma martelada no dedo ou topada numa pedra, não, havia nela o ingrediente da humilhação, algo venenoso que paralisava a vontade de viver. 

Neste momento alguém batia na porta. A voz da mãe anunciando que havia uma pessoa no portão querendo falar.

"Não acabamos ainda, Eu vou te ensinar a ter respeito com as pessoas da minha família. Não saia daqui!"

O tirano saiu advertindo à esposa e à sogra que ninguém deveria falar com o menino e quando ele ditava, ele era obedecido. Todos o temiam com tremor sobrenatural.

O infante ficou lá, sentindo tudo e sentindo nada, As dores, frutos da brutalidade, afligia sua carne tenra, mas as emoções que envolviam sua alma o tornavam alheio ao ambiente, que agora assumia de novo a aparência de um quarto. A humilhação sofrida suplantava a pungência, tornava-o menor que o mais repelente inseto.

Então, uma estranha sensação, uma espécie de vazio, não só a essência desguarnecida, mas algo concreto, físico, como se não houvesse ar suficiente no aposento, um formigamento na planta dos pés, um frio nauseante a abraçar-lhe o corpo.

O menino  inseto envolveu-se num pesado cobertor. Ia passar. Tudo na vida passava, dizia a mãe de sua mãe. Logo o pai voltaria para castiga-lo de novo, mas agora não havia medo. Ia passar rápido. Até que por algum outro motivo tudo recomeçasse, mas também passaria e assim eram os ciclos da vida. Este pensamento o confortou. Ficou ali no escuro, suando frio, caindo num buraco espiralado, sem fundo. Pensou então na bicicleta que jamais teria, nela, ele pedalava velozmente contra o vento, rumo à liberdade.

Lá fora o pai conseguia se livrar do chato que viera aborrece-lo com conversa fiada. Porra, fora mais um dia de merda na repartição. Todos aqueles papeis, os rostos vazios das pessoas, os sorrisos falsos, o som insuportável, perpétuo e onipresente das teclas das máquinas de datilografar. Em casa, toda a mediocridade de sua vida a cuspir-lhe no rosto e ainda por cima a idiota da sua cunhada vinha lhe encher o saco queixando-se do seu filho. Ah era demais! Aquele fedelho ia pagar caro, ah, se ia!  

Passou pela sala, as fisionomias reprovadoras da esposa e sogra mais o choro do bebê aumentaram sua cólera.

Abriu a porta, ligou a luz, viu o menino enrolado nas cobertas. "Levanta, seu cão! Vou te ensinar a se comportar nas casas dos outros!" Dizendo isso, o bruto desceu a manzorra nas costas do garoto. Não sentindo reação, bateu novamente redobrando a força. Furibundo com a passividade, puxou o cobertor. O guri encontrava-se em posição fetal, abraçado às pernas. Estava gelado. O homem sacudiu o corpo. NADA! Tomou--lhe o pulso: estava morto.


 







terça-feira, 7 de junho de 2022

ZÉ GATÃO PARA UM NOVO PÚBLICO?

 Eu queria muito ter criado mais aventuras para o Zé Gatão ao longo dos mais de 30 anos que o personagem existe, mas a falta de interesse por parte do público não estimulou a labuta em colocar tudo no papel, abortei vários projetos, mas uma ou outra ideia eu aproveitei nas sagas que consegui publicar (sem esquecer as várias curtas que permanecem inéditas, mas não há planos para trazer ao público)

Entretanto ainda existem os novos que vão chegando agora, uma boa parte já ouvia falar do personagem, já tinha contato com ele nas estantes da Devir nas bienais, mas por motivos diversos só recentemente é que houve um real interesse e o retorno tem sido bem positivo.

Este vídeo do Canal Milhas e Milhas do simpaticíssimo Cássio Witt atesta.

Será que o Felino ainda será será lido, discutido e aceito no futuro? Só Deus sabe.





quarta-feira, 1 de junho de 2022

PERDIDO DENTRO DE MIM MESMO.

 

 

Projeto em andamento (cores de Rafael Anderson)

Acredito eu que a maior parte dos que me acompanham aqui sequer sabem como é o meu rosto e isso me deixa a vontade para exprimir o que sinto nos momentos mais amargos. 

Esses dias sinto com intensidade uma grande aflição da vida. Uma sensação que me acompanha desde que me entendo por gente, antigamente chamavam de melancolia, hoje denominam depressão. É uma tristeza tão intensa que me aperta da cabeça aos pés, e é tão potente que chega a doer, um medo irracional de tudo e de nada. Eu acordo, me alimento, trabalho, me higienizo, converso com a Vera, com os poucos amigos - na verdade só tenho contato com dois - faço minhas obrigações cotidianas mas ninguém sabe o que trago no peito, só DEUS, somente ELE e só com ELE eu me abro, pois por mais que exista boa vontade por parte das pessoas de bem, sei que não há palavra que faça o desconsolo ir embora. 

Há também um problema familiar por parte da minha esposa que piora muito esse estado de espírito e não há o que eu possa fazer para ajudar ou contornar. Me dá uma brutal sensação de impotência.

Sinto uma saudade da minha mãe e do meu irmão muito grande, tão grande que não tenho palavras para expressar.

Apesar de tudo a ideia de suicídio não me vem mais à mente. Me sinto como que resignado, só esperando,  esperando, esperando. 



domingo, 15 de maio de 2022

A VELHA HISTÓRIA.

 A gente sempre pensa no dia de amanhã e deixa de viver o hoje, ninguém está livre dessa cadeia. Penso que isto se deva - no meu caso pelo menos - que um momento bom, sendo ele tão raro (de novo, no meu caso) queremos perpetuá-lo. O temor de que o amanhã, as horas seguintes sejam de desditas, nos faz agarrar com unhas e dentes os instantes de bem aventurança. Por que digo isto? Hoje tenho trabalho, graças ao bom DEUS, e se nada der errado, o projeto se estende até março ou abril de 2023. E depois? Bom, depois, não sei. Eu tento deixar para me ocupar quando o prazo estiver próximo, afinal o Mestre Jesus nos aconselhou a não nos amofinarmos com o porvir, isso de nada resolve. O fato é que eu gostaria muito de uma aposentadoria, um salário digno, seguro, para poder não ter a cabeça tão cheia de preocupações. Me dar ao luxo de depois de anos a fio trabalhando de manhã, tarde, noites e madrugadas em lugares apertados, em ambientes frios (São Paulo) e quentes (Jaboatão), poder relaxar um pouco e caminhar a esmo, ver o por do sol, ler meus livros, dormir sem o peso das pressões. Lembro das conduções lotadas com minha enorme pasta de desenhos indo à editoras para ver se conseguia um  trabalho, pegando dois ônibus e um metrô, seja no sol ou na chuva e na maioria das vezes retornava de mãos vazias. Hoje, num certo aspecto isso mudou um pouco, sou procurado para gerar arte mas a um preço baixo, quando não querem desenhos de graça. 

As centenas de ilustrações que fiz para os clássicos da literatura brasileira continuam chamando a atenção. Recentemente recebi mensagem de umas moças bem simpáticas, que trabalham na televisão, pedindo permissão para exibir algumas artes num especial da TV Cultura sobre a Semana de Arte Moderna. Respondi que por mim tudo bem, mas a Editora Construir podia não concordar, já que é ela que tem os direitos. A editora concordou e todos ficaram felizes. Só que ninguém quer pagar para ter um desenho inédito, exclusivo. Claro, vai ter meu nome nos créditos e isso equivale ao velho tapinha nas costas e o elogio: "cara, você é um gênio!" O ego infla, mas os estômago continua vazio.  Na mesma semana uma outra moça, agora de uma editora, pediu para usar umas artes que fiz para o Dom Casmurro num livro de literatura. Aconteceu o mesmo, aprovei e a editora também. Propus à moça, fazer uma arte nova, ela falou que não tinham verba. É a velha história sempre repetida.        

O salário que recebo atualmente vem da Editora Ciranda Cultural para a qual crio HQs sobre os Mitos Gregos e não cobre todas as minhas despesas, sempre fica um ou dois boletos em aberto que sempre pago depois com juros e isso acaba sendo uma bola de neve. Paralelo aos Mitos, tenho que continuar os outros dois quadrinhos em que trabalho com roteiristas distintos e pelos quais já fui pago. Estes, procuro fazer nos intervalos. 

Isso me impede de procurar trampo extra pra ajudar nas despesas. Pedi a um bom amigo para colocar umas artes originais de super heróis no Ebay mas até agora ninguém deu bola. 

Recebo muitos convites para participar de antologias de quadrinhos, sempre tem umas propostas legais, mas hoje não posso mais me dar ao luxo de trabalhar sem a certeza de um retorno financeiro. Foram muitos anos desenvolvendo um estilo de arte, algo que pudesse falar por mim. Desenhava como um possesso, para mim mesmo, como queria e achava que devia, sempre tentando encontrar o tom certo (nunca consegui, que fique bem claro), eu tentei comunicar a minha visão de mundo através dos quadrinhos mais que tudo e depois de uns sete livros na praça vejo que não fui muito longe, embora os mais otimistas digam que fui muito além. Bem, talvez, eu sou muito exigente com o que faço, acho que ainda há muito o que ser melhorado mas hoje não resta muito tempo para tanto.

Era o que eu tinha para dizer hoje. 

Alguns dos clássicos citados neste post.


domingo, 8 de maio de 2022

SOU COMO UM PEQUENO PEDAÇO DE MERDA BOIANDO NO RIO DA VIDA.

 

Projeto em andamento.

 Hoje é o dia que os homens escolheram para comemorar o dia das mães. Certo, foi uma data criada para aquecer o comércio, assim como o dia dos pais, das crianças e outros mais, mas tá valendo, é um dia para confraternizar, almoço em família, comprar um presente, um ramalhete de flores, ligar (se não puder estar presente por um forte motivo). Se lembrar daquela que te gerou, amamentou, trocou suas fraldas, te embalou com cantigas e te protegeu com braços ternos. Feliz daquele que ouviu seus sábios conselhos e os põem em prática. Bem aventurado aquele que pode abraçar sua genitora. Eu não posso mais e quem me conhece um pouco sabe o quanto isso me pesa na alma, principalmente sem a presença do meu irmão. As vezes penso que estou bem e logo a certeza da perda me esbofeteia o rosto e sou tomado por uma espécie de medo, um certo desespero, um vazio causado pela certeza de que não vão mais voltar e eu nada posso fazer para reverter o processo. É quando as lágrimas vem em profusão e sou sugado por um buraco negro de solidão e...... aí rogo a Jesus para ajudar a me recompor e seguir adiante, firme, na certeza do reencontro na eternidade.

Esboço de um projeto em execução.

Malgrado todas essas sensações - sentindo que sou outra pessoa, nem melhor ou pior do que antes de 2021, apenas mais macambúzio - tenho desenhado mais que nunca, talvez no afã de tentar expurgar a angústia do peito ou a carreira desesperada para não deixar que nada falte para a Verônica num mundo cada dia mais complicado pós pandemia e com uma guerra em curso no leste europeu. E quando falo  desenhado mais do que nunca, não me refiro somente à quantidade de páginas, mas de uma forma mais natural. Pode ser que eu esteja enganado, uma sensação do momento caótico nesses dias febricitantes, talvez eu sempre estivesse nessa situação de correr atrás do tempo, me recordo de dias passados ilustrando livros com prazos apertados, tendo que alternar com álbuns de anatomia e a bio do Edgar Allan Poe e por recompensa um dinheiro minguado. Bem, o fato é que os esboços fluem mais fácil (quando não complico a vida com ângulos de câmera muito excêntricos, claro). Bom, depois de umas três décadas e meia diariamente com lápis e papel na mão é assim que deveria ser (ou não?). 

É lógico que nessa toada doida, indo dormir sempre alta madrugada e acordando cedo a fadiga me tortura durante o dia, mas é um cansaço muito mais na alma do que no corpo, como se num momento eu fosse apagar repentinamente. Não consigo mais tempo para meus exercícios físicos ou leituras, coisas que outrora eram o meu escapismo. Tenho tido problemas de memória recente e dores nas articulações. Meu irmão médico diz que a idade conta muito, estou com 59, embora sinta a alma de criança, o mesmo menino medroso das décadas de 60 e 70. Pode ser que seja a morte já mordendo minha bunda, lembrando que a estrada já está chegando no fim. Pra mim está ok, acho que não tenho muito mais a acrescentar (se é que acrescentei algo) neste mundo.    

Eu sempre gostei de desenhar, mas penso que comecei tarde na profissão. Sem referencial, sem modelos a seguir eu demorei demais a me profissionalizar. Escolas de arte eram uma utopia, não tinha como comprar livros, o jeito foi me virar usando modelos de revistas masculinas, de fisiculturismo e de moda como guia para obter alguns progressos, misturar tintas e cores até alcançar a pigmentação adequada (e olhem que sou daltônico) para minhas pobres pinturas.

Meu primeiro trabalho como qualificado eu consegui em 1986 e com um salário até bom, ali eu quase não ilustrei, mas compunha textos com letra set e normógrafo (não sabem o que é? Deem um Google). Isso me ajudou a angariar uma certa paciência, coisa muito necessária para quem quer ser um expert na arte do desenho. Na década de 90 eu me vi obrigado a superar as limitações que tinha para poder me inserir no mercado, eu tinha um traço mais acadêmico, muito calcado no realismo, em contrapartida minhas HQs nunca perderam a alma underground - ou alternativo, se preferirem - e não sei dizer se isso é bom ou ruim. Talvez seja bom se eu aprecio um traço com identidade forte, mas ruim por não ser adequando aos quadrinhos que rendem grana no mercado gringo (algo que desisti faz tempo). 

Falando em anos 90, me lembrei deles ao assistir uma live do amigo Anderson, de Alvorada, no Rio Grande do Sul, onde ele comentava sobre sua coleção da revista Herói (publicação informativa sobre quadrinhos, animes e tutti quanti muito em voga naqueles tempos). Ali ele leu os nomes de alguns jornalistas que colaboravam no periódico. Boa parte deles eu conheci. Tirando uns poucos, a maioria era de uma arrogância sem tamanho. Ficou na memória dois orientais com quem tive o desprazer de me deparar ao levar portfólio para apreciação. Não vou citar nomes, mas um deles olhou minha pasta como se folheasse um jornal bolorento, até fez elogios à minha técnica de lápis mas nem me deixou entrar na editora, me dispensou na porta mesmo. O outro desde a primeira vez que me viu não foi com a minha cara, devia ter um metro e meio e parecia trabalhar em todos os lugares que eu ia, desde estúdios de desenho a editoras do porte da Escala. Onde ele pôde, me barrou. Não foram os únicos, claro, e isso fazia com que eu me sentisse um merda maior do que eu era. Lógico que haviam as exceções, como o Arthur e o Franco. Memórias, fragmentos da vida. Vaidade.

Essa semana que passou teve uma live no canal Milhas e Milhas do Cassio Witt com o editor da  Atomic, fui bastante citado lá, participei do chat, inclusive. Breve o Zé Gatão - Siroco começa a  ser trabalhado e segundo ele, em dois meses o álbum já começa a ser distribuído aos apoiadores. Sentirei falta do Felino, ele foi um fiel porta voz das emoções que eu deixei sair da alma, mas não tenho mais nada a comunicar através dele. Mas, se possível for, quero ainda fazer mais uns quadrinhos, curtos e longos, para mais um álbum no estilo Phobos e Deimos. Quem sabe quando eu não estiver fazendo três projetos encomendados eu dê início? Ou talvez não, tudo o que fiz na arte sequencial até hoje foi pouco compreendido.

 Abraços a todos e fiquem bem.  

Esboço de uma nova HQ em execução.

    




quarta-feira, 20 de abril de 2022

O NADA ENGOLINDO O TUDO.

Há muito tempo eu não sofria com problemas financeiros, claro, na minha vida nunca sobrou dinheiro mas as contas  estavam em dia e nada faltava em casa e fazia muito tempo que eu não pedia grana emprestado a alguém. Tudo começou com um atraso na entrega das páginas para a editora para qual trabalho atualmente, como eles pagam sempre de vinte a trinta dias após a emissão da nota fiscal, meus boletos chegaram antes de eu receber e aí, ó, os juros não querem nem saber. O tiro de misericórdia veio com aquele dinheiro que eu perdi (fato relatado aqui há algumas postagens atrás). Quando a coisa sai do controle fica difícil equilibrar de novo. É queridos e queridas, não está fácil! Mas já passei por crises bem piores.  Houve um tempo que eu não tinha trabalho nenhum.

Tenho tentado labutar num ritmo mais acelerado sem deixar cair a qualidade, mas não tem adiantado, não consigo correr com os traços mais rápido do que estou acostumado. O que me faz perder um certo tempo são as minúcias da história, faço o roteiro também e a saga de Alcides (alguns chamam de Alceu), na mitologia grega ele é conhecido como Héracles, entretanto é com a alcunha de Hércules que o identificamos. A jornada dele é muito pesada e dramática - muito antes dos famosos 12 trabalhos - e eu tenho que condensar tudo em 78 páginas, então tem elementos que preciso resumir sem deixar a carga emocional esvair. A arte, bem, essa é discutível.   

Minha mão direita dói, mais especificamente os dedos indicador e polegar (com eles eu seguro o lápis e as canetas). Meus lombares idem, minha cadeira quebrou e ela fica um pouco mais baixa do que deveria em relação à prancheta, uso um cobertor dobrado (na falta de uma almofada) para tentar compensar a altura, então sento-me para trabalhar em posição inadequada, e isso muitas e muitas horas por dia até alta madrugada e convenhamos, já não sou mais um mocinho.

Meus olhos estão cansados também, mas é de chorar. Hoje, dia 20 de abril, é um dia emblemático para mim; há um ano atrás meu irmão Gil partiu para a eternidade me deixando ser abraçado pelo vazio que cresce dia a dia. Não falo essas coisas com ninguém, não há palavras que façam a saudade diminuir e não quero ser alvo de comiseração e é chato incomodar os outros com lamúrias. A vida segue, claro, mas com fardos que pesam mais e mais a medida que os anos avançam. 

Coisas como as que eu digo aqui eram divididas com ele, risos, choros, sonhos...tudo. E agora é o silêncio. Uma ano. Como passou rápido! 

Eu precisava deixar registrado aqui. Tenho muito mais a falar.....mas de que adiantaria? As vezes penso nessas histórias que o homem cria para se livrar da dor, sobre outros mundos, homens que voam, homens de aço, seres de outros planetas, seres que do nada criam coisas......    então eu fantasiei que se existisse um lugar, sei lá, uma fonte inacessível numa certa montanha, num determinado dia e hora do ano em que seria possível você encontrar pessoas amadas que se foram para sempre e para isso seria necessário passar por certos perigos, com certeza eu arriscaria tudo para ter algumas horas com minha mãe e meu irmão. Ah, se fosse possível! 

Esse é o motivo pelo  qual existe a arte, por isso criamos essas fantasias, histórias nos pulps e nas HQs. Para tentar preencher esses poços profundos que temos dentro de nós.

Um beijo com muitas saudades, Gil! Até algum dia (espero que seja breve).

Eu e ele no final dos anos 90. Dias áureos para nós.



ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...