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terça-feira, 9 de julho de 2024

ZÉ GATÃO - SIROCO DETALHADAMENTE RESENHADO POR LUCA FIUZA.


 

Análise: Zé Gatão Siroco. 11/08/23. 6a feira a 15/09/23. 6a feira.


Por Luiz Fiuza.


Nesta chamada derradeira aventura do felino cinzento criada, escrita e desenhada pelo Quadrinista Eduardo Schloesser encontramos Zé Gatão envolvido em situações de enorme perigo em um ambiente de extremos, vivendo o impossível em nome de um dos mais primais dos instintos: SOBREVIVÊNCIA!


Os comentários a seguir vão se basear principalmente em minha interpretação pessoal da obra, onde farei observações e análises como leitor costumeiro das aventuras/desventuras do Grande Gato produzidas pelo Eduardo ao longo dos anos.

Ao ler Siroco, percebe-se que ao longo do enredo, apesar de a história ser situada em um microcosmo desértico e ter um período de tempo específico – que pode ser bem elástico – o mundo como um todo está caótico, fragmentado e eventos terríveis ocorreram, potencializando as mazelas que sempre reinaram no universo antropomorfo de Zé Gatão! Não é mais possível recuar, recompor o que se perdeu! Em verdade, a situação se resume em continuar de maneira obstinada vivendo dentro da realidade adversa que se apresenta caminhando na direção de um futuro dos mais incertos! Na amplidão fervente do deserto só há dor, violência, brutalidade! Ainda assim, no meio do nada, a distopia geral acaba se chocando violentamente com a utopia quimérica dos que teimam em sonhar! Uma fresca aragem (do passado), impiedosamente calcinada pelo bafejo ardente do Siroco (na verdade, a dura realidade do presente)!


Primeiras cenas: (p.7 a 21) Tudo começa com a visão característica dos pés de dois personagens acompanhada de um diálogo: o tom irônico de um, seguido pela resposta áspera do outro. Em um movimento de câmera cinematográfica, os indivíduos vão sendo revelados aos poucos até divisarmos as feições brutais de um grande leão e de um colossal e raivoso rinoceronte! O diálogo prossegue. O leão incisivo em sua determinação em uma fala mordaz, enquanto o rino se desmancha em uma risada debochada ante ao louco e notadamente, imprudente desejo do outro animal de encarar o tamanho e a enorme força do titânico paquiderme! A linguagem de ambos é grosseira, chula! Reforçando a rudeza inerente aquelas ferozes criaturas! Outra interessante angulação cinematográfica se faz presente, evidenciando o clima de confronto em meio a um cenário desolado! Evidentemente, não há piedade nos corações de tais seres! Apenas o desejo inflexível do leão de tomar algo que na verdade não seria dele e o rinoceronte ensandecido, propenso a deixar o felino ainda vivo, mas arrebentado para a sanha dos carniceiros emplumados! É a lei do mais forte a imperar em terra de ninguém! A luta é seca! Brutalizada! O leão com a mente obliterada pela confiança excessiva se deixa levar pela soberba e o paquiderme mostra que é mais perigoso e mortal do que aparentava! Para sorte do velho leão ele não estava só! Há outros felinos, aliados seus, na área! Em tempo, eis que surge nosso felino cinzento! Lutador ágil, pródigo em distribuir socos e chutes certeiros, sem dar chance para o oponente reagir a contento! Pragmático, Zé Gatão age de modo a fazer o necessário para que um dos membros do grupo felídeo usando determinado artefato incapacite o gigante chifrudo para dele ser tirado o que queriam sem matá-lo! Dito e feito!


A idade não perdoa: (p.22 e 23) Khan o leão tem uma postura muito comum de não aceitação em relação à passagem do tempo. Intimamente, não engole o fato de que está mais velho! Apesar de ainda vigoroso, não tem mais a mesma resistência e destreza de antes! Sua atitude é até compreensível, pois admitir a imposição da velhice que vem chegando, bem como as limitações decorrentes desta fase de sua existência não é nada fácil. O complicador é o estilo de vida que ele leva e o ambiente selvagem onde se encontra! Não dá para simplesmente mudar o estilo de viver! No entanto, se fosse mais consciente de sua realidade faria adequações mais apropriadas para continuar razoavelmente efetivo, sendo portanto, capaz de ser útil ao grupo! Por exemplo, passando a se servir mais da inteligência e do bom senso do que unicamente da força bruta! Infelizmente, é justamente a teimosia que o torna prepotente e descuidado! Com base em uma ilusão autoinduzida, a todo momento o leão precisa se afirmar como o eterno fodão tanto para si mesmo quanto para os demais, se assemelhando muito a um adolescente marrento! As fêmeas tentam arrazoar com o leão, mas este irredutível, não ouve a voz da razão! Achei interessante a presença do filhote surgindo como um contraponto, aparecendo de repente em sua alegria pueril! Brincando despreocupado sobre o corpanzil inerme do rinoceronte, a cena em si promove uma quebra brusca do clima pesado e violento anterior, mostrando que mesmo ali, há um pequeno espaço para o desabrochar momentâneo da inocência dos infantes! Sintomática a conversa tensa entre os membros do grupo felino. Zé Gatão e Khan se afastando dos demais a tudo escutam graças à audição apurada de ambos, bem cientes sobre o que se fala deles. Khan está pouco se lixando e Zé Gatão confirma o que sempre soube! Os felinos puros não apreciam os mestiços! Olham-nos com desconfiança e preconceito! Em sequência, pode-se notar um ponto de alívio cômico em relação ao brutalizado início: vemos leão e mestiço jogando conversa fora. Simples amenidades enquanto curtem um resquício da Civilização. Uma observação do felino cinzento faz Khan quase rebentar de rir! O circunspecto Zé Gatão não compartilha da explosão de hilaridade do outro! Ao mesmo tempo, Khan começa a dar sinais de algum tipo de dor interna. No entanto, um estranho fedor no ar tira a atenção do felino cinzento e ele não nota o desconforto do fortuito companheiro de lutas!

Personagens deste início de aventura: Me divertiu ver a figura do rino! Ele tem um estilo bem punk! Cerdas capilares eriçadas à la anos 80 e indumentária imediatamente relacionada aquelas notórias figuras pós apocalípticas! Enormes brincos como argolas a pender das orelhas, ombreiras metálicas, braçadeiras nos pulsos, faixas nos braços maciços, tal qual um arremedo de gladiador! Nos pezões, grosseiras sandálias de couro! Bermudão justo! O paquidérmico ser, tão confiante em sua força descomunal a ponto de não carregar armas consigo. O velho leão, tem a aparência de um feroz bárbaro, em razão do penteado – uma mistura de rabo de cavalo e tranças, assemelhado a um antigo viking redivivo! As roupas de mangas cortadas, características típicas dos anos 70 e 80. Sandálias trançadas nas canelas combinando com o sabor antigo, de sua figura imponente! O cavanhaque apontado e meio revolto se destacando agressivamente na queixada leonina! Zé Gatão está igualmente diferenciado: enverga uma vestimenta de pele, a indefectível calça jeans e nos pés, calçados confortáveis de solado duro e forte. O fato da basta cabeleira estar solta me sugere ser o reflexo do caos e da disrupção a reinarem soberanas! As fêmeas e os machos felinos são os tão conhecidos soldados da fortuna, buscando tirar os seus ganhos sem muito ligar de onde realmente vêm, desde que sejam pagos por suas missões! Um detalhe a considerar é que por natureza, onças, tigres e panteras são animais de comportamento solitário, enquanto os leões tendem a ser mais gregários. A ironia desta relação aqui é a de que Khan, o leão prefere ser solitário, enquanto os demais felinos do grupo defendem a associação. Claramente por questão de necessidade e formação militar! Zé Gatão é como Khan neste sentido de preferir a solidão. Contudo, em razão das circunstâncias entende a importância da união ainda que temporária. Um entendimento que falta ao velho leão.

Carniceiros emplumados: ( p.24 a 29) O odor de carniça é como o hálito da morte que vem das alturas! Dantesca é a cena da chegada dos urubus a planar por cima do Comando felino! Imagino a revolta estomacal que o fedor deles exalado provoca, pois vem do corpo, das penas, do hálito! Verdadeiras merdas aladas! É o que são! O líder das abjetas aves…horrendo, careca com uma expressão de pura malignidade no olhar! Sorriso feio e deformado! Malditamente jocoso e sobretudo, ele e sua trupe nojenta, sequiosos por devorar a carne do rinoceronte abatido para empanturrar-se da carne alheia sem qualquer esforço! Achei surpreendente, um certo escrúpulo revelado pela onça! Ela poderia estar pouco se cagando para o rino, mas sabendo-o ainda vivo não teve estômago para deixar que os urubus simplesmente o estraçalhassem! Apesar de tudo ainda há alguns valores, mesmo em tão caótico ambiente. Advertidos a partir imediatamente por Nero, os carniceiros na pessoa de seu líder, veementemente discordaram! A cruel e egoística ave, pensando tão somente em suas necessidades estomacais, atreveu-se então, a proferir ameaças, sendo então brindado com um balaço em suas penas sebentas! Tiro este, efetuado por um Nero de saco cheio daquela criatura nauseabunda! A expressão de susto somada ao grito esganiçado de pura perplexidade foram brutalmente interrompidos pelo inesperado salto da onça, a qual surgiu diante do feioso, dando um potente murro naquele bico sujo, de onde projetou-se língua, dentes e uma saliva pútrida! O filhote amou, encantado com a violência crua e arrasadora! Sinal de um futuro muito mais sombrio e desapiedado que talvez estivesse se delineando a partir daquele instante! A grande exposição dos muitos novos à violência pode os levar a achar que tudo se resolve por esta via. Eles podem vir a idolatrar apaixonadamente seres violentos e se tornar também eles, criaturas cruéis e desapiedadas, reforçando esta mentalidade na idade adulta!

Falando em violência e sobrevivência, a lógica diz que a tropa felina deveria ter acabado com os pássaros carniceiros, em vez de tê-los deixado com vida! A realidade, porém não se baseia tão somente no pragmatismo! Nem todo mundo mata pelo puro e simples prazer de fazê-lo, ou para evitar problemas futuros, o que é muito significativo dentro de um contexto, onde impera muito mais a Lei do mais forte que qualquer outra coisa! Em verdade, é algo que dá algumas pistas a respeito da maneira de pensar dos combatentes felinos, demonstra um claro sinal de que mesmo em meio à escuridão há ainda uma luz no fim do túnel! Outro ponto de destaque, me antecipando um pouco é a natureza de equipe que cimenta a relação grupal entre felinos e felinas, no sentido de “unidos somos mais fortes”, ainda que Khan em sua teimosa obstinação não concorde e o Gatão apesar de sua natureza arredia aceite temporariamente esta condição o mote é a união incondicional! Notem que as páginas 28 e 29 da obra ilustram bem minhas recentes colocações. A alentada tigresa questiona a ausência do Gatão e de Khan durante o confronto com os urubus. Ciente de que a felina e os outros dariam conta do recado, o velho Leão não dá o ar da graça. Já Zé Gatão, de acordo com seu jeito de ser, pensou em ajudar, a princípio. Dissuadido pelo leão, o Gatão teve que ouvir a reprimenda da tigresa, esta reforçando seu papel de liderança, desautorizando a postura decisória do Khan e insistindo na necessidade de coesão entre os membros do pequeno grupo. Estes fatores reunidos são introdutórios para o desenrolar dos acontecimentos relacionados a estes personagens, portanto.

A Utopia e a realidade: Em meio a aspereza do deserto, castigados pelo sol inclemente, rodeados pelo ‘nada” absoluto encontramos duas figuras emblemáticas! Ambas representam uma alegoria com base em tresloucadas quimeras, idealismos e esperanças vãs! Palavras de teor forte que no entanto, se perdem ao vento! Frases há muito carentes de significado em um mundo descrente e abrutalhado! À frente vai altaneiro o Cavaleiro Andante de brilhante armadura e elmo, cuja montaria é uma singela bicicleta! À sombra de seu Mestre vem o Escudeiro com seu ar simplório e infantil, tendo como meio de transporte um indefectível patinete, incompatível com o terreno agreste e símbolo de uma mente ingênua, fortemente permeada pela inconsequência! Apenas disposto a seguir sem de fato entender claramente um líder de cegos direto a uma queda tão verdadeira quanto simbólica! Mesmo ao cair, ambos não se dão conta da impossibilidade e da futilidade dos sonhos delirantes do cavaleiro iludido que prossegue em sua interminável arenga filosófica! O flamejar intenso em seu olhar, a expressão resoluta e meio doentia, uma real caricatura de um paladino insensato, defensor de valores de outrora…tendo como ouvinte a triste figura de seu nada galante Escudeiro, a chafurdar no pantanal de sua ignorância pueril e ao mesmo tempo crer candidamente no discurso inflamado de um pretenso redentor dos perdidos (p.30, 31e 35)! Contudo, há um lado positivo a considerar! O fermento das ideias, primeiro se constitui de sonhos às vezes, impossíveis de alcançar dependendo do momento histórico em que surgem! Daquele solo crestado pelo sol ardente denota-se uma voz que grita se elevando cristalina na solidão do deserto! Propondo a quem puder e quiser ouvir uma mudança de rumo, uma revisão de paradigmas com o intuito de buscar a paz e a Justiça para todos! Seria, quem sabe, uma refrescante gota de chuva na sequidão que parece destinada a passar despercebida de todas as criaturas viventes! Uma molécula cristalina a trazer em seu cerne o que em um passado longínquo já foi Verdade e hoje lamentavelmente, não mais!

Então me pergunto com alguma perplexidade: “O que é a Verdade?” - A resposta se acha nas cenas a seguir na página 32. Sob um grande guarda sol vemos um volumoso e suarento hipopótamo, tendo também ele, seu sonho impossível: um refrescante cubo de gelo a derreter, visto aqui em uma excelente representação gráfica típica dos Quadrinhos! Surge então um subalterno casal de ratos de ar humilde trazem uma bebida não tão refrescante na tentativa servil de mitigar a sede do ser paquidérmico. Como já ficou evidente, o hipo tem o poder de mando e o casal de roedores o serve. O fazem intimamente com o objetivo específico de serem um dia, retirados daquele inferno escaldante! Concomitantemente, há uma relação abusiva entre o casal. O macho é ameaçador, impositivo! No entanto, a fêmea não se intimida, apesar de sucumbir sempre à agressividade dele! Discutem! O rato a acusa de erro e incompetência em bem servir o hipopótamo! A rata rebate dizendo que em primeiro lugar, devia ele ter feito a prévia manutenção do refrigerador para que de fato pudessem servir a bebida na temperatura adequada! A ira mútua prestes a explodir é quase palpável! No entanto, refreando seus instintos belicosos por enquanto, o rato apressa-se em cumprir as ordens do hipo de dar imediatamente um recado importante ao militar conhecido como coronel Brutal! Me chamou atenção as figuras dos personagens em questão. O casal de ratos me remete a elementos interioranos do Sertão. As vestimentas e sobretudo o tipo físico. O hipopótamo faz-me lembrar daqueles antigos coronéis endinheirados que mandam e desmandam nos sertanejos. Os mais pobres! Reféns eternos da miséria, muito distantes dos requisitos básicos de uma existência no mínimo decente! Ponto pacífico! Potamus faz parte de um grupo influente! Poderoso e dominante!


Desconfiança/Circunstâncias/ decisões: (p. 36, 37, 38, 39, 40 e 49). O grupo de comando felino está em um impasse! O transporte do qual dependem está quebrado! Precisam apanhar um componente básico para o funcionamento do veículo com seu empregador, Lipídio Potamus, o hipopótamo! É notório que o paquiderme jamais perde dinheiro! Irá descontar a peça do valor que paga aos mercenários felídeos! Estes não confiam no paquiderme e com razão! Portanto, Nero e seu irmão pegarão a peça em uma motovelox meio bichada! Khan sente repentinas dores! Uma possível hemorragia interna pode estar em progresso. O Gatão sugere levar o leão a uma cidade próxima para ser tratado por um cirurgião canino de seu conhecimento. A tigresa e alguns dos demais fazem objeção por não confiarem no mestiço cinzento e por aquele senso obstinado de grupo que os une ante a nada descartável possibilidade de um ataque. O único a concordar com a proposta do Gatão é o irmão de Nero. Khan, objeto da discussão também aceita acompanhar o felino tristonho, afirmando que confia nele sem reservas! Mais alguma discussão ocorre, vencendo o bom senso, ante o aumento das dores do leão. A contragosto, a tigresa permite que os dois partam. Temos todo um desenrolar de cena a analisar! - A ideia insistente de manter o grupo unido é arraigada na cabeça da líder, a tigresa! Fato que põe em risco a vida de Khan! O contraponto são justamente o Gatão e o irmão de Nero! Ainda assim, a gata listrada não cede! Nem o próprio leão admite fraqueza diante dos outros. Contudo, a realidade dos fatos fala por si mesma e a melhor decisão é tomada! Cada personagem entre os felinos e um determinado acontecimento representam um papel significativo no desenrolar da trama até este ponto – Khan e a tigresa, a obstinação! A onça a desconfiança (nisto apoiada pela líder), o Gatão a sensatez e o cuidado com seu semelhante, Nero a premência de resolver uma situação e o irmão de Nero a percepção de que o Gatão não está errado! O acontecimento decisório é a dor excruciante nas entranhas do leão! É preciso responder quem ali ainda traz em si, os valores antigos contidos na arenga do Cavaleiro Andante que grita no deserto? Aí está o paradoxo! Não esqueçamos da disposição do filhote em ajudar o tio Nero a montar a motovelox! Nem tudo está perdido, afinal! E ainda há amor, por incrível que pareça! Sendo repetitivo eu percebo que: em meio a cardos e espinhos é possível que as flores também subsistam!


Esferas de Poder: (p. 41 a 45): Há os que mandam e os que obedecem! E nisto a relação entre Potamus e o coronel Brutal é mais do que evidente! O hipopótamo manda e o militar canino obedece, ainda que contrariado! No universo antropomorfo, os militares não representam a Pátria e seu povo! São isto sim, parte de um Status Quo desigual, onde os milicos são a mais sombria face da repressão ostensiva! A qual existe em prol das classes dominantes e em detrimento da maioria da população! Esta conjuntura desenvolveu entre os chefes militares uma mentalidade egocêntrica, aberta à corrupção e de maneira pródiga se servindo da violência e do golpismo para alcançar seus objetivos espúrios! O cataclismo que dinamitou os alicerces da Sociedade animal não destruiu completamente as antigas esferas de Poder! Embora fragmentadas, elas continuam atuando, mesmo na amplidão do deserto. Que dizer de um subordinado de Brutal? Boçal, fala quase incompreensível! Coloca o superior nas alturas! O idolatra como um deus encarnado, massageando descaradamente o já inflado ego de uma criatura entupida de soberba! Que ganhou medalhas e méritos fazendo um trabalho sujo e desonroso à farda de um militar sério (os há, se bem que poucos)! Contudo, seu falso poder é confrontado por outro maior e mais consistente e apesar de suas armas, de sua tropa e do adulador de plantão, nada resta ao coronel Brutal senão esbravejar inutilmente contra alguém que é muito maior que ele, pequeno ditador, inexpressivo em sua pequenez! O provam suas próximas ações!


Imposição e brutalidade / consequências: Neste momento é mister analisar uma outra esfera de poder, bem menor e restrita ao ambiente doméstico, mas não menos destrutiva do que aquela em maior escala, já mencionada. O desenrolar de uma tragédia então ocorre (p.46, 47. 50 e 51). Como meros e impotentes espectadores, vamos observar o resultado de atitudes pouco racionais que vão cobrar um alto preço a todos os envolvidos! O rato se impõe, exigindo que a rata obedeça suas ordens, e a fêmea bem mais objetiva demonstra a inutilidade de ficar em volta do hipopótamo, tal qual incômoda mosca em um irritante puxa saquismo! Que o gordo os chame se desejar algo! Pura lógica! Contudo, o roedor sentindo-se desrespeitado, descarrega toda sua fúria represada sobre a fêmea, a espancando covardemente até tirar sua vida! É triste ver aquele frágil corpo tombado inerme e sangrento, após o festival de porradas brutais, onde um sorriso mau retorce a face horrorosa de um pulha! Não há remorso da parte do assassino! De forma alguma! Só pensa em si e não quer de jeito nenhum responder por seu ato insano! Covarde! Mil vezes covarde! O cadáver daquela pobre infeliz tem que desaparecer! É a voz do tolo, do inconsequente, do egoísta!

Quem semeia vento colhe tempestade” - Por ter agido movido pelos impulsos mais torpes e não planejados, quando se viu diante do pedido de Lipídio em ver a rata de imediato, o rato perdeu um controle que nunca teve e instilou o germe da desconfiança na mente obscura do patrão! Me diverti por demais com o desconforto do pusilânime roedor e ainda mais com a observação mordaz do hipo sobre a fedentina exalada por aquela carcaça imunda, devido a intensa sudorese, provocada pelo medo alucinado de ser descoberto! Ali pude ver bem como Potamus pode ser perigoso e em como seu tamanho e força se impôs à esquálida e pestilenta figura daquele rato miserável! A batata está assando, queimando e diga-se de passagem cheirando mal!

Clamor ao vento: (p.48) Ao mesmo tempo em que presenciamos a real e palpável brutalidade da vida que a tudo engolfa, voltamos também a mergulhar na alma torturada do quixotesco Cavaleiro Andante, continuamente a clamar! Sem cessar! Submerso em mirabolantes quimeras de outros tempos! Tristemente, entre lágrimas candentes, ele mesmo, lá no fundo sabe da incompatibilidade de seus delírios com o momento atual! As palavras por ele proferidas são como a areia que desce inexorável de uma ampulheta gigantesca, onde o tempo corre impreciso em direção a um abismo timpânico e sem fim! Porém, o clamor desesperado prossegue! E nem o Destino mais aziago pode calá-lo!


Hora da vingança: (p.52 a 59) Mercenários e militares pode-se dizer que são a face de uma mesma moeda! O que os move é acima de tudo interesses pessoais. Os primeiros trabalham por dinheiro e os segundos também não descartam um ganho financeiro, mas o que os milicos mais almejam é o aumento de seu poder, de sua influência e de seu domínio!

O acordo entre eles é tenso! O bando mercenário não é bobo e pelos riscos que vai correr quer receber um pagamento mais justo do que aquele que o coronel Brutal quer oferecer, além de sentir cheiro de queimado pelo fato dos milicos, fortemente armados, não irem eles mesmos dar conta do “serviço!” A objeção direta da hiena fêmea revela como é de praxe, a natureza dominante desta, tão comum a esta espécie! Machista e irônico, Brutal nem leva em consideração a fala da hiena! Ignora-a, dirigindo-se sempre ao babuíno, chefe do bando! A negociação acaba ficando desvantajosa para os mercenários, os quais têm um fraquíssimo poder de barganha, ainda mais com armas pesadas apontadas para o meio das fuças! Têm que engolir um monte de desaforos e sair com o rabo entre as pernas! Melhor teria sido não ter reclamado! Bien, c’est la vie!


O hipopótamo e os felinos / desmedida adulação / sobrevivência: (p.60 a 63) Chegam Nero e seu irmão diante de Potamus para entregar o tutano de rinoceronte e pegar a peça para reparar o veículo militar. A conversa entre o suarento paquiderme e os felinos é sem rodeios! Perspicaz, o untuoso hipo avisa Nero que um “certo” militar que tão bem conhecemos pretende emboscar a pequena tropa de felinos! - Quando os felinos chegam na motovelox, a forma como esta se aproxima denota a total ausência de peso e a fluidez de seu movimento no ar! O hipopótamo encara os recém-chegados, lavado de suor e, no entanto, continua envergando seu paletó como um símbolo de seu poder que não pode ceder ante “seus inferiores” e muito menos ao calor abrasador do deserto cruel! Todo o seu gestual é de quem sempre está a dar ordens! Já os felinos agem descontraídos! Não são subservientes a Lipídio. Estão apenas realizando seu trabalho!

Não se pode dizer o mesmo da relação entre o Cabo e seu comandante! A fala e a expressividade do subalterno é de adoração incondicional! Os olhos do cabo estão arregalados e brilhantes de veneração! O sorriso e a língua pendente, o olhar fixo e brilhante evidenciam os fortes sentimentos que embriagam o espírito estúpido e a mente curta de um mero servo, o qual tudo fará para atender a todos os desejos de seu objeto de idolatria! Pragmático, Brutal responde a seu subordinado de maneira simples e direta. Com certeza, o Coronel aprecia aquela bajulação toda e se sente mais poderoso do que nunca! Dominado por uma megalômana sensação de quem tudo pode ele se deixa guiar por seus instintos mais baixos de ódio e retaliação, sem pensar nas consequências de seus atos! Os mercenários a quem contratou e os urubus a voejar no deserto, nada mais são do que meros instrumentos a usar, no único sentido de cumprir seus desejos mais torpes!

Pensando tanto na posição dos mercenários contratados por Brutal como na de suas pretensas vítimas, os mercenários felídeos, dentro da cadeia de comando, os chamados Soldados da Fortuna estão sempre em desvantagem! Não são tão bem pagos assim, se compararmos com os ganhos astronômicos de seus contratantes! Fazem o serviço sujo! Encaram os maiores riscos! Poder de barganha limitado na presente conjuntura! São em geral ex-militares, desertores, bandidos e apátridas, se encontrando no mais inferior dos níveis na escala da Sociedade! Mais à margem dela do que parte integrante desta! Escolhas equivocadas? Circunstanciais? Quem sabe? A questão fundamental é sobreviver a mais um dia!


Hierarquia: (p.64 e 65): Como antes mencionado, entre as hienas a dominância é exercida por uma fêmea mais agressiva e experiente e os machos da espécie se submetem a isto! As cenas que se seguem nas referidas páginas são claras em demonstrar a fúria e o descontentamento da hiena fêmea caolha no tocante à negociação desastrosa realizada há pouco com os milicos! Os machos, pai e filho, intimidados são brutalmente humilhados! Queixoso, o filho reclama ao pai, mas este afirma que é assim mesmo e que ele em outra oportunidade, ao tentar se contrapor a sua esposa tomou uma surra inesquecível que o colocou em seu devido lugar, não restando ao filho ter o mesmo procedimento se não quisesse ele também ser violentamente espancado pela própria esposa! É engolir em seco e seguir em frente! Gostei muito das reações da fêmea! Olhar cheio de raiva lançando perdigotos de sua bocarra escancarada enquanto vocifera e depois se afastando soltando fumaça! O marido tenta inicialmente objetar timidamente, mas logo é calado por um rompante de sua companheira! O sogro ultrajado começa a falar grosso, mas logo pia fino diante de uma fêmea brutalizada e iracunda! A expressão de desalento do velho é quase comovente. A raiva do filho se mostra inócua e despropositada! O velho sabiamente, orienta o mais novo a aceitar silente, a crua realidade, goste ele, ou não!


Avanço / revelação / ataque /amor / infidelidade / combate: (p. 66 a 76): Lentamente, os mercenários de Brutal começam a avançar, se preparando para atacar de surpresa seus inimigos!

Enquanto isto, no acampamento dos milicos, Potamus sabendo estar tudo pronto para partir é convocado pelo Cabo para tomar ciência de um acontecimento inusitado! Neste ínterim, Nero e seu irmão estão retornando a seu grupo. Durante o trajeto, analisam a situação e acontecimentos passados, causadores de problemas presentes! Na paisagem desolada por onde passam, sem que o notem, uma desafortunada criatura do deserto está servindo de alimento a uma enorme cascavel, parte do terrível balé de vida e morte a que todos os seres estão sujeitos só pelo fato de existirem! Então, inesperadamente, os irmãos são atacados por aqueles que a meu ver eles deveriam antes ter matado! Aqui vemos como algumas decisões podem ser acertadas, ou não! A primeira pedrada vinda do alto destroça o crânio do irmão de Nero! A próxima atinge o ombro de Nero e a motovelox cai ao solo como um pássaro ferido! O pobre irmão vai de cara no chão, partindo o pescoço! Dentre os dois, o mais abençoado, pois morreu sem maiores sofrimentos! Já Nero, todo arrebentado amarga as dores da queda, osso da perna quebrado, ao mesmo tempo que sobre ele se projetam as sombras nefastas de seus algozes! Melhor seria para o felino negro se ele tivesse perecido na queda! Assim, à mercê de seus impiedosos inimigos, Nero é escarnecido pelo horrendo líder dos urubus, sedento de vingança e disposto a devorar sem qualquer sentimento de comiseração, a carne de sua incapacitada vítima! Ao longe, Lena pressente o pior ao ver a fumaça a se erguer à distância! Dominada pelo impulso de salvar seu amado Nero ela se lança à frente, insensível aos apelos de Thay para que não se afaste! O filhote de Thay segue atrás de Lena, ignorando igualmente o chamado da tigresa em desespero! A esta, só resta pedir a Lena que cuide do pequeno tigre! O filhote também não obedece quando Lena o manda voltar à mãe e ela é forçada a levá-lo consigo. É bastante significativo pensar que nesta Sociedade fragmentada ainda restem alguns valores antigos que não foram completamente destruídos. Refiro-me aos sentimentos de união, preocupação com a prole, com outrem e o mais forte dos sentimentos – o amor! E onde os encontramos concentrados? Justamente na tropa felina de Thay e seus comandados. São todos mercenários, é claro, mas é nesse grupo que incrivelmente, se corporificam de certa maneira, os sonhos quiméricos do Cavaleiro Andante! E Jihan? Como a criança, herdeira deste mundo devastado, se equilibra sem ainda entender, sobre a violência extrema e aqueles sentimentos a que me referi há pouco! Prefere seguir a “tia” a ficar com a mãe! Também algo a se pensar! É acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.

Novamente, temos o contraponto entre a utopia e a dura realidade! Nero ainda vivo, jaz abatido encarando o sorriso frio da Morte na figura abjeta do chefe dos urubus, o qual faz questão de explicar em detalhes, o fim terrível que aguarda o felino abatido e incapaz de defender-se! Embora xingue fracamente seu oponente, Nero está naturalmente aterrorizado pela inexorabilidade de seu Destino!

Em um corte abrupto, vemos a seguir a hórrida carantonha de Potamus. Cenho cerrado e olhar fixo no cadáver da rata, grotescamente acomodado dentro de uma caixa! Da boca de Lipídio escapa uma imprecação e praticamente a identidade do assassino, só o cérebro lento do cabo e de difícil compreensão, o faz indagar quem é o culpado daquele acontecimento ultrajante! No diálogo entre o cabo e Potamus, o primeiro, ingenuamente pensa que o rato realmente gostava da esposa – ledo engano! - Lipídio então revela sua própria história de seu casamento fracassado e a solução dantesca por ele encontrada para lavar sua honra de macho traído! O mais irônico de tudo é que Lipídio sente pena da rata, apesar de ele mesmo ter sido no passado, impiedoso com sua esposa! Além disto, o fato do gordo tentar corrigir a fala do cabo torna a situação toda bastante tragicômica, no fim das contas! As ordens são diretas a Brutal! Encontrar eliminar o roedor maldito!


Confronto: (p. 77 a 96): Esta palavra tem mais de um significado! Como vimos Jihan preferiu seguir a tia Lena! Tendo sua atitude contestada pela onça, o filhote até com lógica, rebate que o perigo será o mesmo, não importando com quem esteja! O mais sintomático, no entanto, é a bombástica revelação de que Jihan não gosta da mãe por ser chata, gorda e sem um dos braços! Estes fatos, representam a visão simplista de uma criança, mas também a reação de contraposição a genitores, tão comum na fase da vida pela qual o filhote atravessa! Sem conhecer a vida pregressa de Jihan e sua mãe, não dá para saber se estes sentimentos demonstrados pelo filhote de tigre sempre existiram, ou se surgiram a posteriori à medida que este crescia! Lena não concorda com o ponto de vista de Jihan e tenta defender Thay das acusações. Porém, não há tempo hábil para conversa! Um confronto bem mais visceral vai acontecer já, com a chegada do babuíno e seus sequazes, integralmente tomados pela sede de sangue e morte! Contudo, a gata sarapintada não se abala e ordena para que o filhote se agarre às costas dela! Motivados por uma sanha assassina que a ninguém poupará, os mercenários atacam, crentes de que liquidarão sem dificuldade uma única fêmea de onça e um indefeso filhote de tigre! Não sabem com quem estão lidando! Velozmente, Lena saca sua pistola automática e cospe fogo! Uma bala esfacela a cabeça de um dos símios como uma fruta podre! Isto, não refreia o ímpeto sanguinário dos ferozes atacantes, munidos somente de primitivas machadinhas de pedra contra uma moderna arma de fogo! É um embate rico em detalhes! Você pode ver a ação destruidora das balas mortais da arma de Lena sem rebuços! Uma delas voando para interior da bocarra aberta de um dos macacos enlouquecidos, causando inenarrável dano e jogando o crápula na escuridão do esquecimento, ao ceifar para sempre, sua vida pecaminosa e desapiedada! Tal qual uma máquina inflexível de matar Lena sem nenhuma pena mata seus inimigos, destroçando a tiros cabeças e corpos! Ainda assim, a súcia avança como enxame enfurecido de vespas, apenas para serem parados pelos consecutivos disparos da automática da onça! A pintada se movendo como um ciclone arrasador! Uma força imparável da Natureza, a qual nada e nem ninguém consegue enfrentar sem sentir as funestas consequências do atrevimento! Tudo tem limite, porém! A pistola fica sem balas! Logo, a fêmea e o filhote ficam à mercê da horda descontrolada! Mas em lugar de temer o fim quase certo, a onça enfurecida se lança contra seus carrascos, disposta a trucidá-los! Consegue se apossar de uma machadinha e de vítima indefesa se torna a nêmeses daquele bando simiesco, que experimenta o que é morrer da pior e mais sanguinolenta forma possível! Quase chego a ter pena deles! Uau! Que carnificina! Doeu em mim quando Lena enfiou uma lança nas partes baixas de um dos macacos! Não queria estar no lugar dele de jeito nenhum! E não parou por aí! Os golpes mortais e contundentes continuaram até restar somente dois aterrorizados símios! Em desespero de causa, o apavorado líder ordena que o outro sobrevivente, mesmo mutilado, ataque e mate a adversária felina! Idiota e insensato! Nada pode fazer, a não ser encontrar seu fim através de uma marretada brutal que esmigalha a já arrebentada face! O velho líder suplica pela vida! Por conveniência e necessidade, a felídea poupa o símio para dele extrair informações necessárias! Ao filhote, ileso, ao estar agarrado às costas dela, ordena que liquide quem ainda estiver vivo! Paradoxalmente, manda o macaco embora, na verdade um subterfúgio para o assassinar pelas costas! O ser simiesco morreu sem conseguir gritar! A lança atravessou a nuca e projetou-se pela boca, impedindo-o de proferir um som! Como Lena pontuou - “não fazemos prisioneiros!” - Há que notar que Jihan se assustou ao ser incumbido de liquidar os sobreviventes daquele bando desfeito, mas significativamente voltou com um sorriso depois de cumprir sua” missão!” Será que o ato de matar estava ficando natural para ele? Tremo só de pensar! Abandonando o local do embate, Lena e Jihan correm na tentativa de salvar Thay do ataque do segundo bando, formado por cães do deserto e hienas! Chegarão em tempo?!


Acerto de contas / Combate selvagem (p.96 a 115): As próximas cenas são intercaladas em subtramas que envolvem vários personagens estando tudo ligado a um fio condutor! A violência! O rato é descoberto para a satisfação de Potamus. Ele possui um senso de Justiça, ainda que deformado! A segunda horda ataca a tigresa! Impropérios são trocados e a peleja começa bruta, a crueza impera! As angulações do ponto de vista da própria Morte, a qual reina soberana! Só quem for mais forte, de fato sobreviverá! Voltamos a Potamus! O roedor aterrorizado está em suas mãos e não há desculpas suficientes que o livrem do castigo! Enquanto isto, a luta desesperada da tigresa pela vida se intensifica! Seus algozes se avolumam, ameaçando tragá-la! Neste ínterim, uma pesada manopla pousa no alto da cabeça do rato com a gentileza aparente de um “pai” benevolente! O roedor copiosamente chora como uma criança pega com a boca na botija! Uma grossa baba desce pelas comissuras labiais da pobre criatura! Então aquela mesma mão o ergue do chão como a uma pluma! Lentamente, a mão pressiona a cabeça do rato com pressão crescente e o infeliz grita de dor, enquanto a fúria no semblante de Lipídio aumenta, transformando aquele rosto em uma máscara de ódio puro! No deserto, o próprio ar ferve! Prossegue a luta da tigresa por sua vida! Gritos, xingamentos, bufos desconexos são os únicos sons audíveis nas cercanias! Na sequência, a Maestrina é a Morte e sua batuta é o alfanje afiado! A cabeça do rato é esmagada como um ovo pútrido! E enche os ares, um mau odor elevado ao cubo devido aos esfíncteres anais que afrouxam, derramando matéria fecal nas calças do roedor que faz o cabo gritar uma observação agoniada, ao ter seu órgão olfativo agredido pelo cheiro acre! Logo tapa o nariz, nauseado! Um soldado espantado lembra ter visto esta reação do rato na guerra…o estertor inevitável do fim! E a sinfonia macabra continua tocando, à medida que a tigresa arrasa seus inimigos, derrubando-os a seus pés como se nada representassem! Potamus e os milicos se vão, abandonando os despojos do roedor às criaturas do deserto! Na mente do paquiderme ofegante, só há lugar para um copo de chá bem gelado! Chega a ser ironicamente bucólico!

Ao mesmo tempo, na amplidão desértica o combate chega a um grau impressionante de bruteza e carnificina! Sem rodeios, sem meios-termos ou subterfúgios. Mesmo em desvantagem numérica Thay, a tigresa faz um inominável estrago, demolindo os cães e hienas como uma força Elemental de inimagináveis proporções! Infelizmente para ela, tudo tem limite e a hiena caolha põe um paradeiro na até então trajetória vitoriosa da guerreira listrada! Com a força de um bate-estacas, a hienídea ataca pesado e acaba por lesionar gravemente e derrotar a valente tigresa! Cada detalhe do combate insano é desenhado de maneira minuciosa em uma visão de câmera cinematográfica. A violência, extremada e realista, o sangue aos borbotões, a dor evidenciada nas contorcidas expressões faciais, o movimento desconexo dos corpos, as mortes bizarras! É uma verdadeira explosão de sensações contraditórias! Não há meio termo, portanto! Esta grande batalha é também uma ode à determinação da tigresa, a qual não cede nunca, não se rende jamais e vai até ao limite do impossível, onde um desfecho verdadeiramente bombástico acontece! Para Lena e Jihan só resta a dor da perda sem ter podido chegar a tempo para salvar ou morrer! No acampamento dos milicos, p aparelho sinalizador detecta e o cabo consternado com a inesperada situação revela o trágico resultado da empreitada dos mercenários do coronel Brutal! O cruel oficial pouco se importa com aqueles que enviou naquela missão letal e só pensa de modo frio e calculista na missão do outro grupo mercenário que ainda resta, a caçar Khan e o Gatão. Muito legal o enquadramento do último quadrinho da página 115 em que aparecem o coronel Brutal e o cabo: um dos lados do rosto do coronel em destaque, olhando para seu subordinado que também o olha desconsolado. Belo jogo de luz e sombra entre o interior da construção onde os dois estão e a forte luminosidade da parte externa em ambiente meio desfocado.

Ainda na página 115, podemos ver o Gatão e Khan seguindo em direção às ruínas de uma cidade, na qual podem vir a encontrar assistência médica para o leão ferido. Cada qual mergulhado em seu íntimo, seus pensamentos expressos em figuras singulares e representantes do que rola em suas cabeças anseio (uma chuva refrescante) e sensação (intensa dor nas entranhas) mais prementes. Recurso narrativo que quebra um pouco a brutalidade realística das cenas de violência antes mostradas. A paisagem em torno é agressiva e desolada!


Horrores do deserto/ elucubrações / predar é preciso / viver e morrer na vastidão:


(p.116 a 142) - Em penosa caminhada, o Gatão e Khan prosseguem. Khan se sente esmagado pela dor atroz que fervilha em seu interior, em razão de uma hemorragia interna. O felino cinzento por sua vez, incentiva o companheiro de lutas e infortúnio a perseverar e seguir em frente! Como se não bastassem as dificuldades que enfrentam, o deserto é um lugar cheio de perigos mortais! Khan e o Gatão divisam em seu caminho um dos insetos mais terríveis daqueles ermos, uma formiga gigantesca! Felizmente, a criatura parada em posição meditativa, pode estar em concentração mental ou estar morta e o que ali se vê pode apenas ser uma casca vazia, segundo diz, o felino tristonho! Pelo sim e pelo não, o Gatão sugere que se afastem sem incomodar o feioso artrópode! E é claro que eles logo se retiram dali! O leão se arrepende de não ter ido atrás do médico desde o início e as dores internas confirmam esta constatação da pior maneira! O Gatão volta a incentivar que sigam adiante. Por iniciativa de Khan, a conversa então descamba para uma reflexão do que aconteceu com o mundo! O felino macambúzio começa a discorrer sobre as causas que levaram ao caos quase total! Uma explanação que envolve Sociologia, Economia, Política, jogo de Poder e interesses dos que regem os Destinos do planeta! Mas qual! Khan não tem paciência e cabedal para discutir tais assuntos e o prosaico som de sua flatulência joga um balde de água fria em qualquer papo embasado que pudesse ter surgido entre os dois caminhantes! Um é filosófico e o outro é mundano! De novo a sombra do Cavaleiro Andante e suas palavras se manifestam! Vívidas, mas inúteis, dispersas simplesmente por um peido! Falando nele, eis que o cavaleiro ressurge em um canto qualquer da grande vastidão! Sua voz a clamar em uma cantilena sem fim! O pobre escudeiro a escutar, olhando mesmerizado, mas sem nada compreender! Em torno, macabras e silenciosas figuras! Alegorias funestas das mazelas deste mundo! Seres inexpressivos, sem irradiar o calor da Vida, como a esperar pacientemente a extinção de toda e qualquer esperança de dias melhores! O cavaleiro não parece notar, preso que está a suas quixotescas quimeras! Inquebrantáveis grilhões! Simulacros de uma falsa Liberdade! Caindo abruptamente das nuvens, damos de cara com os mabecos e um estranho bovino mascarado! À chula e abrutalhada linguagem dos canídeos, acrescenta-se o comportamento alucinado! Uma sede sanguinária engolfa seus espíritos apodrecidos! No intuito de redobrar a coragem ficam a matraquear impropriedades e bravatas! De repente, o poderoso olfato de um dos cães percebe a proximidade de suas presas! Que comece a caçada!

Khan está no seu limite! O Gatão terá de deixá-lo à espera e buscar o médico lá na cidade! Porém, a coisa muda de figura com a chegada dos cães selvagens e do silencioso bovino de um olho só! Nada mais resta a Zé Gatão do que combater sozinho, os recém-chegados! O bravateiro líder do bando, recebe o felino com sarcasmo e acordos cinicamente impostos, tipo: molhe o nosso bico e pode ir se foder onde bem entender! - O Gatão se conserva calado ante ao vomitório verbal do preconceituoso e debochado mabeco! Um fodão entre os fodões com uma enorme lista de mortes nas costas! Assim, após se apresentar como uma espécie de Cavaleiro do Apocalipse, o indivíduo lança um golpe veloz de facão contra seu oponente! Só que ele não está lutando contra um amador, ou atacando as tantas criaturas infelizes que já assassinou facilmente, no passado! Uma rápida e brutal joelhada na barriga, demonstra a ele e a seus acólitos que não estão lidando com uma frágil vítima do Destino! Pelo contrário! Incapaz de se defender, o sujeitinho é brutalmente espancado! Com muito custo, seus asseclas saem de seu espantado imobilismo, se precipitando violentamente contra o Gatão! O combate é seco, brutal! Com a fúria de um vendaval, Zé Gatão varre seus inimigos como se fossem fardos de palha em meio à tempestade inclemente! A força e agilidade do felino cinzento causa profundos estragos nas fileiras inimigas! Nunca vi criaturas que apanhassem tanto quanto estas! Não queria estar no lugar delas! Não, senhor! O Gatão bate pesado, desvia dos ataques e usa os adversários como arma! Nada nem ninguém consegue detê-lo! Acho que nunca vi o felino lutar com tanta fúria e eficiência tão destruidoras! Azar dos pobres canídeos cujos os ossos da carcaça são quebrados como meros palitos! O sangue corre solto das feridas abertas, saldo da desmedida violência! O bovino em sua sanha irracional acaba atingindo um dos seus próprios companheiros, por engano! Como o ser bestial que é, arranca a clava improvisada cheia de pregos do couro do derreado mabeco, trazendo em suas afiadas pontas uma mistura amorfa de carne e sangue! O bovino empunha sua clava e ataca com a ferocidade de um estouro de manada, mas a agilidade do Gatão o faz errar todos os golpes! O problema é que o felino acinzentado não fica só na esquiva! Um brutal soco na pança, arranca das entranhas do bovino um profundo gemido de dor! Outro no plexo solar o faz expelir um mugido agônico, enquanto seu único olho visível se arregala, denotando um sofrimento acima dos parâmetros suportáveis! E por fim, três murros sequenciais nas fuças, devido a força descomunal da pancada arranca da órbita o dito olho e arremessa duramente ao solo aquele traste desconjuntado! Após constatar que o estado de Khan piorou a olhos vistos, Zé Gatão parte em sua missão salvadora! Ao mesmo tempo, o cabo descobre por meio de seu equipamento que os mabecos fracassaram e foram destroçados pelo “lince!” O decepcionado coronel fica a praguejar e a mau digerir sua fragorosa derrota!

Sem prisioneiros / sob o domínio do caos / conta pendente / viver é preciso:

(p. 143 a 155): Lena chega ao último campo de batalha e elimina os mabecos ainda vivos a golpes de lança. Age fria e metodicamente, de acordo com sua premissa de “não fazer prisioneiros”. O filhote pensa que foi o leão, mas ela replica que não foi o Khan que derrotou aquela corja. O responsável foi o Gatão! Khan como é notório, “não deixaria sobreviventes!” Zé Gatão chega à cidade arruinada e não só em suas construções, mas também é evidente esta ruína no comportamento de seus habitantes, onde impera o caos extremo!! Não há nada mais que violência, instintos carnais, ganância, descaso pela Vida e o horror corpóreo da Morte em suas várias formas! Livre para se propagar como uma pestilência crescente e indomável! A mesma que tira vidas com a mesma facilidade que uma criança come doces! Ao perguntar pelo doutor, o Gatão descobre que aquele médico com quem contava já não mais existe! Morto estupidamente por vagabundos em busca de drogas! Simples assim!

O Gatão parte, sem escutar os apelos da rata gorducha que lhe pede dinheiro para os filhotes e proteção contra uns cães ladravazes! O felino ignora! Afinal o tempo dos heróis já passou, se é que algum dia existiu! Cego e surdo às concupiscências que o rodeiam e o conclamam a receber deliciado o abraço quimérico das falsas ilusões da Existência, o felino se vai rapidamente sem olhar para trás! Que os habitantes daquela pecaminosa urbe permaneçam entregues a seus prazeres e a suas dores! Ele não será parte daquilo! A amplidão desértica é preferível a ficar eternamente atolado em um lodaçal putrefato que é aquele antro de condenados Neste meio tempo, o debilitado organismo de Khan não suporta mais e nada pode ser feito! Ele morre atrozmente, engasgado no próprio sangue! Não sem antes revelar o amor que sempre sentiu por Lena, para o espanto da bela onça! Tudo na vida tem seu preço e chegou a hora de uns e outros pagá-lo! Refiro-me ao coronel Brutal e a Lipídio Potamus! Brutal dominado pela megalomania e descaso às consequências de seus atos é confrontado por Potamus que descobriu todos maus feitos do canídeo! Surpreendido, este tentou inutilmente negar! Potamus não era nenhum idiota, além de que também ele recebia os dados do satélite, sendo informado tudo que acontecia, da mesma maneira que o coronel! Não há mais lugar para palavras vãs! Começa uma luta encarniçada entre o paquidérmico titã e o militar canino. Com a destreza de anos de treinamento, o coronel Brutal tenta sacar sua arma. O consegue, mas é agarrado e imediatamente prensado à mesa por um Potamus enlouquecido de furor, o qual envolve o pescoço do adversário com suas mãos imensas! Vai apertando até que a língua do coronel se projete boca à fora! Sentindo o desespero da falta de ar crescente, o militar consegue a custo erguer a pistola e disparar dois balaços na enorme pança de Lipídio Potamus! O paquiderme urra de dor e em esforço hercúleo empurra violentamente a cabeça de Brutal para baixo, quebrando-lhe com um estalo macabro o pescoço taurino! Repentinamente chega o cabo e ao ver seu líder morto e quebrado como o ídolo de barro que sempre foi, nada mais ouve! O pedido de ajuda e as palavras de advertência de Potamus encontram ouvidos surdos à razão! O último ato da “fidelidade canina” do cabo é a execução incondicional de Potamus com um tiro certeiro que arrebenta sua cabeçorra como se fosse um grande melão recém-comprado em uma frutaria! Os tiros atraem o resto da tropa que supõe ser talvez, um ataque de insetos do deserto! E na vastidão deste deserto se encontram Lena, o filhote e Zé Gatão, o qual toma conhecimento do falecimento do velho leão. O Gatão ajuda a onça a terminar de enterrar o morto e na posterior conversa Lena revela fatos que acabam com qualquer desconfiança que ela pudesse vir a ter em relação ao felino cinzento. O verdadeiro mandante do ataque dos mercenários foi descoberto! Lena jura caçá-lo e matá-lo, mas os perigos do deserto não dão trégua e o bafo quente do Siroco que se aproxima acena, convidando-os a morrer calcinados pela ventania letal! Por sorte, não muito longe, no caminho para “aquela cidade”, Zé Gatão passou pelos destroços de uma nave! Sem mais delongas, tomou o filhote de Thay nos braços e junto com a onça correu para a segurança relativa do aparelho caído. Ele advertiu que o local poderia ser um ninho de insetos, mas era melhor correr o risco do que certamente perecer calcinados do lado de fora!

Soberana Morte: (p. 156 a 166): Dentro da nave sinistrada, Zé Gatão e Lena são envolvidos por um miasma quase insuportável, a emanar de aranhas monstruosas envoltas nos filamentos disformes de suas teias gosmentas, as bizarras criaturas reclinadas sobre seu repasto, o cadáver de um animal em decomposição para horror dos felinos, ao se deparar com o dantesco! Ao mesmo tempo, o vento fervente do deserto, conhecido como Siroco faz suas vítimas na cidade, onde imperam o hedonismo e o impulso carnal! Bailam juntas a luta visceral pela Vida e a Morte que a tudo elimina! Zé Gatão e Lena enfrentam a segunda com a força de seus punhos e os habitantes da cidade são apenas varridos perdendo a primeira sem ter ou saber como reagir ante a passagem do vento mortal e devorador! Nas entranhas da nave decaída, onça e mestiço de lince suplantam e liquidam as aranhas! Lá fora, um impessoal fenômeno da Natureza destrói uma cidade inteira! Entrementes, no acampamento dos militares, ao cabo fiel é anunciada sua sentença! Justiça seja feita ao sentenciado por sua integridade de caráter, ao declarar fidelidade eterna ao falecido coronel Brutal! Um cão que aos olhos de seu subordinado foi um combatente digno! Um herói por quem vale a pena morrer! Assim surgem os mitos e os mártires! Não que os poderosos se importem, como bem pontuou o major! Quem tem tira e quem não tem, a vida perde! - Estas palavras resumem as palavras do Cavaleiro Andante! Agora mais do que nunca vencido! Tendo os olhos apenas para chorar, a boca para se lamuriar, tendo como ouvinte o pobre e silencioso o Escudeiro que nada tem, nada sabe e nada é, senão a sombra de uma sombra, enquanto seu esquálido Mestre cercado por cactos espinhentos fala de heróis envelhecidos e tombados no pó do esquecimento! Concomitantemente, no interior da nave destroçada, Lena desperta de um pesadelo fatídico! Quem sabe profético? O que é mais terrível, afinal? Sonho ou realidade? Quem sabe os dois?! No mundo caótico do Presente, apesar de sua tragédia pessoal, Lena ainda tem esperança e convida o felino cinza a acompanhá-la com o filhote de tigre a quem sabe, um recomeço? No entanto, Zé Gatão, o solitário contumaz prefere seguir seu próprio caminho!

Retribuição / Tudo se vai…quimeras ficam: (p. 166 a 172): A Existência é cheia de casualidades e é uma delas que conduz os urubus a voar sobre a área errada em hora ainda mais errada! O que leva o líder dos carniceiros e a outro comparsa a provar o gosto sanguinolento de uma lança que os vara ao mesmo tempo, arremessada pela mão certeira de uma onça vingadora, para o incontestável deleite do filhote de tigre! Os alados atingidos mortalmente despencam do céu como pedras e suas carcaças brevemente apodrecidas servirão de pasto às criaturas do areal sem fim! Mais uma etapa se encerra e mesmo neste mundo de horrores, violência e brutalidade sem conta, há lugar para um bom conselho e umas poucas palavras de ternura e sentimentos agradáveis! Então, Lena, o filhote e Zé Gatão se afastam lentamente…sempre seguidos pela figura da Morte em suas mais hediondas formas! Cientes, portanto, o quão efêmera e fugaz é a Vida!

Extras (p. 174 a 203): Desenhar não é tarefa fácil! Além do enredo de sua autoria propriamente dito, o Artista precisa elaborar cada e todos os personagens participantes na saga, desenvolver o cenário onde vai se desenrolar a história através de estudos, enquadramento, movimento e criação de cenas que nem sempre vão aparecer no trabalho final, ou vão sofrer alterações para torná-las mais adequadas a determinadas situações. É desta forma que nasce e se desenvolve a obra de um Quadrinista que como o Edu Schloesser, valoriza sua Arte como contador de histórias e sagas, trabalhando com esmero e dedicação crescentes! Meus parabéns, velho amigo!


 

sexta-feira, 28 de junho de 2024

O DESENHISTA ZUMBI

 As pessoas gentis que eu conheço me perguntam, quando tem oportunidade de falar comigo diretamente, como eu estou. Se considerarmos o fato d´eu ter um teto sobre minha cabeça, fazer mais de três refeições por dia, dormir numa cama confortável, ter água limpa para beber, me higienizar e acima de tudo não estar sentindo nenhuma dor no corpo, eu diria que estou ótimo. Eu aparento estar bem, eu acredito no poder da oração e sei que existem pessoas que se importam comigo de verdade (mesmo que muitas delas não se manifestem) e oram por mim e sei que essas orações tem tido efeito (Tiago 5:16), o Espírito Santo tem me consolado, vivencio isso. No entanto, quando estou só, quando tiro a máscara e me vejo diante de mim mesmo é que sinto o quanto a saudade do André é avassaladora, somada a ausência de Francis e Gil. Imagine um astronauta no espaço, fazendo a manutenção em algum satélite e num instante ele se desconecta do cabo que o mantêm ligado a algum suporte e flutue à deriva no vazio silencioso. É assim que experimento a vida atualmente.

Os que me conhecem de perto, os que leem meu diário exposto aqui, sabem o quanto dependo da minha arte para viver e eu não tenho vontade de trabalhar, meus projetos agora se arrastam. Sento para produzir e fico procurando motivos para não agir, vejo algum vídeo idiota, uma notícia sobre a nojenta política atual, leio alguma postagem curta em rede social (algo que raramente fazia dias atrás), me levanto para beber água, ir ao banheiro e finalmente desisto e não forço a barra. Não tenho mais vontade de me exercitar, nenhum levantamento terra, nem uma flexão sequer. Ando na rua e a mente já não divaga ou imagina situações para um conto ou HQ. Me sinto um zumbi, um morto que caminha. E, detalhe, ninguém percebe, pois não demonstro. Se exponho essas coisas aqui é porque sei que a audiência é invisível aos meus olhos e o desabafo é necessário.

Dois dias atrás a minha sogra me humilhou dentro da minha casa casa, me senti tão mal que falei pra minha esposa que precisava cochilar um pouco, eram umas 15h. Me deitei no escuro mas não consegui dormir. Comecei a ruminar minha vergonha e pensar nos queridos ausentes, principalmente no André, que foi a perda mais recente e o vazio que se apresentou e me abraçou foi colossal. Fiquei a tarde toda ali e se pudesse não teria me levantado mais, havia paz naquela solidão, naquele silêncio, naquela inexistência de imagens. 

E os prognósticos para o futuro não são tão animadores, há coisas que não posso declinar ainda.

Mas como dizia minha saudosa avó materna, tudo na vida passa, o mal e o bem não duram, tudo é cíclico e essa onda de tristeza vai se atenuar. A necessidade pelo pão cotidiano vai falar mais alto e eu terei que movimentar minhas doloridas articulações enquanto Deus permitir.

A arte para mim sempre foi catártica embora na maioria das vezes, tormentosa, a gestação e parto de uma obra para mim sempre foi um suplício pois não sou tão talentoso como muita gente supõe. Como O NASCIMENTO DOS DEUSES, o último volume dos Mitos Gregos (na reta final, faltam umas 15 páginas para concluir) teimava em não se fazer presente no papel, encostei, dei um tempo. Trabalhei mais nos esboços de RASTREADORES DE ALGURES e naquele projeto que envolve a quadrinização de um filme de horror a ser lançado em 2025 (esta HQ, muito, muito atrasada!).

Detalhe do esboço da página 31 de Rastreadores

 
Rascunhão feito anteontem para o quadrinho secreto de horror

Louis Mello, um desenhista e escultor ultra mega talentoso postou em sua rede social e eu achei tão interessante que comentei por lá. Com a devida permissão eu reproduzo abaixo.

 

 Sobre o omnibus do Zé Gatão, não tenho notícias. Silêncio total por parte do editor. Não sou modelo de otimismo, mas como eu disse, provei o que tinha que provar com este personagem, não pensei que chegaria tão longe e estou satisfeito com o que fiz, como um zumbi, não estou me importando com o futuro.

Obrigado a todos vocês, Deus abençoe e até a próxima postagem se ELE permitir.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 9 de junho de 2024

ADEUS, ANDRÉ!

 Ontem, por volta de uma da madrugada, enquanto eu finalizava a página 64 de O Nascimento dos Deuses, recebi uma ligação do meu irmão caçula via WhatsApp, atendi com o coração aos pulos, antevendo o que eu ouviria da boca dele: "O ANDRÉ FALECEU". Depois de uma luta de mais de três meses (e põe luta nisso!), o Senhor o fez descansar e o levou para a glória. 

Não vou pintar meu irmão com cores desonestas, vou ser extremamente justo neste arremedo de réquiem, ele era difícil as vezes, paternalista em extremo com os irmãos, muitas vezes querendo planejar nossos futuros à nossa revelia, era o que chamamos de conservador e cristão devoto, ótimo pai e no que tange a sua profissão como médico, adorado pelos seus pares e pacientes e isso eu fui testemunha em inúmeras ocasiões.

A partida dele aumenta o imenso vazio que eu tenho na alma, já venho vertendo lágrimas por todos esse meses e o desfecho - até esperado - apenas escancara de vez as comportas do meu coração; tantas lembranças, tantos planos, tantas esperanças subtraídas abruptamente me soa injusto e absurdo. 

Tenho tanto testemunho sobre ele, coisas da nossa juventude, as namoradas (lembrando que ele era dez anos mais novo que eu mas eu sempre fui infantil, então eu creio que a idade mental, os idílios, eram quase semelhantes), os gostos para filmes, músicas, literatura e  quadrinhos eram os mesmos, talvez na música diferíamos um pouco, posto que ele era muito afeiçoado ao hard rock e eu mais ao erudito, ao blues e pop rock. Mas ele me fez gostar de Vinnie Moore, Tony MacAlpine e eu o introduzi ao Queen e Rush, entre outros.

Ele, assim como o Gil, eram muito zelosos do meu bem estar, amigos ao extremo, sempre me mandando dinheiro para suprir alguma necessidade básica, a diferença entre os dois residia no fato de que em relação à minha arte o Gil era mais engajado, enquanto o André se envolvia mais no quesito relações amorosas, sempre ouvindo minhas lamentações e infortúnios com o sexo oposto e me dando apoio irrestrito. Nos identificávamos muito, ambos, posso falar sem medo de equívoco, infelizes no amor, mas fieis à pessoas que amávamos, nunca encontrando nelas o tão ansiado eco. Eu tive o Zé Gatão para exprimir minhas frustrações e ele, penso, mergulhou na medicina, sendo um profissional enaltecido com homenagens. 

Nossos caminhos se dividiram no início do novo milênio quando a família partiu de São Paulo para voltar a Brasília, ele, por causa da profissão, teve que continuar na selva de pedra, mas nos víamos amiúde, a barreira subiu mesmo com minha partida para o nordeste e principalmente depois que ele se casou. Embora nos falássemos sempre por telefone nos vimos muito pouco ao longo desses vinte e tantos anos. Ele engordou muito provando o que o restante da família suspeitava: por motivos que não cabe comentar aqui ele desistiu de si mesmo. Principalmente depois da partida de mamãe e Gil. 

Sempre que nos falávamos ele se queixava da vida que levava, dizendo que após nossas perdas, nada mais interessava a ele, lutava para prover o futuro da filha, de quem falava com muito orgulho, todo o resto não importava mais e ansiava pela volta de Jesus, e Jesus o atendeu 😰😰😰😰😰. Ele faria 52 anos agora, 15 de junho, e deixa esposa e uma filha adolescente. 

No início desse ano ele estava planejando vir sozinho me ver em Pernambuco, iríamos, só eu e ele para Porto de Galinhas, sonhei com esse momento. Nunca acontecerá. Isso dói. Estou muito triste.

Tenho muitas lembranças ternas com o André, muitas, nem consigo replicar aqui. A gente não pensa que as tragédias vão se abater sobre nós, eu queria ter dito a ele mais vezes que o amava, queria ter agradecido mais cada gesto de carinho e cada palavra de incentivo......

Conversei com uma prima nossa, muito ligada a ele e ela disse uma frase que me marcou: Nós cinco, meus pais e irmãos, éramos uma família linda que se esfacelou num curto espaço de tempo. Só resta eu e o Rodrigo agora, o caçula e o mais velho, os dois mais improváveis.  

OBRIGADO, ANDRÉ, obrigado por tudo!

ADEUS, DÉ!


  







quarta-feira, 22 de maio de 2024

ZÉ GATÃO, A ENCICLOPÉDIA QUE NUNCA PASSOU DE UM MERO PLANO E MEU UNIVERSO ANTROPOMORFO EM RELAÇÃO AOS OUTROS.

 

 


Ok, ok, ok, aqui estou sentado pensando no que vou escrever.....sinto que devo dar notícias a vocês mas não faço isso por obrigação, a necessidade de comunicar é forte, embora a vontade de não fazer nada também tenha um poder embriagador. Na verdade queria dormir, dormir e dormir, se fosse para sempre melhor ainda. Há, no entanto, muito o que fazer mas a aquela vontade indômita de criar, de produzir, varando madrugadas - como aquelas onde eu morava com o Gil numa decadente pensão na W3 Sul, no fim dos anos 90, cheio de expectativas e esperanças no futuro - parece que me abandonou para sempre. O que crio hoje não é exatamente um encargo, sinto prazer em ver uma página pronta, é de onde tiro meu sustento e procuro dar o melhor de mim, embora esse melhor jamais será satisfatório, mas tem sido uma sobrecarga pelo modo como vivo. Continuo com Os Mitos Gregos e Rastreadores de Algures, ambos, cada prancha mais perto do final. Principalmente os Mitos, fechando este, minha principal  fonte de renda acaba, estarei oficialmente DESEMPREGADO. Só os Rastreadores não é suficiente para o que preciso para sobreviver. Mas ainda não chegou lá, deixarei para temer na véspera, se for o caso.

Trabalho também na HQ baseada num roteiro de um filme de terror que deve ser lançado ano que vem, projeto este que se delonga, pelo qual já recebi e gastei o dinheiro faz anos. Tenho quase 170 páginas elaboradamente esboçadas as quais terei que finalizar ao final de tudo. Faço o que posso para produzir pelo menos duas folhas por semana, mas nem sempre consigo. Acredito que esse deverá fazer algum barulho quando vier a público por causa das pessoas envolvidas, mas sei lá, eu pensava o mesmo sobre a bio do Poe e passou praticamente invisível aos olhos dos consumidores de quadrinhos. Bem, veremos. 

Felizmente alguns fãs do meu traço encomendam algumas artes a preço módico, o que me permite pagar um boleto aqui, outro ali. E dessa maneira sigo na senda.

Minha saúde não anda muito boa, não é de hoje, mas cada dia que passa o peso sobre meus ombros me envergam mais. Stress, pressão, desilusões (que são inevitáveis) poucas horas de sono, medo, tudo isso baixam minhas defesas e me sinto a mercê dos espectros que rondam todos os viventes.

Meu irmão André ainda continua em situação crítica, mas agora, segundo as informações lacônicas que recebemos da mulher dele, respira por si mesmo e já sai da UTI e segue para um quarto. Não sei se já está consciente, este esclarecimento não temos. Mas é uma ótima notícia e eu quero agradecer de coração aos que se preocupam e oram por ele.  

Também não sei nada a respeito do aguardado (bem, aguardado por uns poucos, pelo que sei) Omnibus do Zé Gatão, a editora nunca mais entrou em contato comigo embora eu já tenha vários arquivos para enviar a ela. Aos poucos vou encontrando aquelas HQs antigas que eu nunca pensei que pudessem chegar a outros olhos que não os meus; difícil será achar aquelas que não estão em meu poder, mas hei de conseguir. Isso tudo me fez refletir sobre umas coisas. No princípio, logo que publiquei o Cidade do Medo, o Gil que me perguntou se neste universo eu só teria mamíferos ou haveriam outras espécies. Respondi que haveria tudo que é tipo de animal, aves, peixes, répteis e até insetos. Pra não ser algo genérico como as histórias do Blacksad onde os autores (muito competentes, devo ressaltar) colocam cabeças de bichos em corpos humanos simplesmente (embora com ótimas expressões), eu procurei uma fusão maior entre bicho e humano e pra evitar confusão eu dividi uma espécie de sistema de casta. Imaginei então uma enciclopédia explicando, por exemplo, que cada espécie animal elegeria cinco representantes para defender suas causas nas legislações (isso foi parcialmente abordado em MEMENTO MORI), mencionando também como eram confeccionadas as vestes, o buraco nas roupas por onde passam as caudas, falar um pouco sobre animais que possuem cascos e como seriam seus calçados, enfim, detalhes desse tipo, sem esquecer os meios de transporte, lembrem-se, não há montarias em Zé Gatão, ao contrario do Usagi Yojimbo, onde o coelho monta um cavalo; no Edmundo, o Porco, uma galinha é só uma galinha. Vejam, eu queria evitar aquelas merdas da Disney onde o Pateta, que é um cão, possui um cão chamado Pluto, e esse é um cão e age como tal. Queria fugir também daquela coisa de um animal namorar com gêneros de espécies diferentes como acontece na Disney, no Blacksad (de novo) e Fritz. Pra isso criei leis de restrição. Um ponto importante: do que se alimentam os carnívoros? Uma espécie devorar a outra não seria legal no meu universo, imaginei então um bichinho totalmente fictício que se reproduziria muito e forneceria uma polpa saborosa e nutritiva aos devoradores de carne, algo como existe no Li´l Abner (Ferdinando no Brasil) e os Shmoos. Cheguei a fazer vários esboços desses bichinhos. No entanto nunca levei isso a cabo, um dos motivos é que quando surgiram muitas dessas questões eu já havia publicado o primeiro álbum e de verdade, eu não pensei em sequências. Ao final de tudo, eu nunca elaborei a tal enciclopédia. Notei que daria um grande trabalho e ninguém publicaria; meu trampo com Zé Gatão nunca foi devidamente compreendido e quem ligaria para essas minúcias? Alguns que viram certo mérito na obra só estavam interessados nas tetas de fora e murros na cara, não todos, claro, mas uma parte significativa e eu acabei deixando esses detalhes pra lá. Comento com vocês aqui pois alguém pode se interessar por essas informações e quem sabe um dia isso não entre para a história?

Acho que é isso. O poeta Barata Cichhetto foi gentil em publicar no site dele todos os contos sobre o Felino escritos pelo Luca Fiuza, valorizando mais minhas ilustrações e colorindo digitalmente algumas delas, reli tudo e isso me trouxe uma onda de nostalgia bem forte (https://agulha.xyz/ze-gatao-por-luca-fiuza-e-eduardo-schloesser/). Logo minha mente começou a imaginar novas situações, mas não, aborto as ideias logo no início, melhor deixar o Gato descansar em paz, sofrer as agruras da existência já basta o criador. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 13 de maio de 2024

PINTURA DE GUERRA (a revista que veio de brinde num dos planos da campanha de ZÉ GATÃO - SIROCO) EM BREVE ANÁLISE, por Luca Fiuza.

 

  Li o material atentamente. Ele é fruto de um período específico.  A Arte também representa determinada época,  sendo como você disse, algo único. Um verdadeiro retrato de seu tempo ao final dos anos 90. Pintura foi uma história incompleta. Seria uma saga que terminou não acontecendo e seu enredo acabou não sendo desenvolvido como você gostaria, o que me parece acabou atrapalhando a fluidez da trama deixando várias pontas. O diálogo entre Marte e o Gatão ficou didático e superficial,  sem a profundidade psicológica que você decerto, pretendia ter colocado nas cenas. Se você tivesse escrito a trama hoje em dia penso que seria bem diferente do que foi. As razões, no entanto,  ficaram bem claras e compreensíveis na introdução de Pintura de Guerra. A breve aventura inicial foi bem direta e prosaica, mostrando que mesmo fazendo o Bem, Zé Gatão serviu-se de um subterfúgio até que meio duvidoso. Tal fato prova que ele não é nem nunca foi um herói clássico e sem defeitos.  Ele é a pessoa comum sujeita a acertos e a erros e está andando nas ruas das grandes cidades como cada um de nós, a viver um dia após o outro. As cores são vibrantes e o traço dos desenhos é o seu traço típico dos anos 90 e 2.000 até um momento mais adiante em que você passa para uma nova etapa artística, notória nos álbuns subsequentes.  Foi um belo mergulho em um tempo que já ficou para trás, meu velho.



 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

TODOS OS CONTOS DO ZÉ GATÃO ESCRITOS PELO LUCA FIUZA REUNIDOS


 

Amadas e amados, boa madrugada!

Apesar de todos os percalços que a vida (na verdade as pessoas) me impõe, as vezes sou afortunado por ter no rol de admiradores dos meus traços e letras, pessoas cujo talento são admiráveis; conheci, por intermédio do amigão Celso Moraes (outro artista de mão cheia, escritor, desenhista, ator, locutor e pensador) o poeta e escritor Barata Cichetto (mais uma fera que a chamada grande mídia ignora). 

De umas poucas conversas via rede social, ele resolveu publicar os contos que o Luca Fiuza escreveu faz alguns anos e eu ilustrei a maior parte deles.

Pessoal, foi muito legal reviver algumas emoções provocadas pela pena do Luca, havia conto que eu até tinha me esquecido!

Aos que curtem o Zé Gatão mas não conhecem ainda essas aventuras em prosa, acessem o site neste link: https://agulha.xyz/ze-gatao-por-luca-fiuza-e-eduardo-schloesser/ , os que já leram e assim como eu não lembram direito, releiam, estarão todos lá, o Barata vai publicar todos, um por dia. Se puderem comentar dando suas impressões o poeta, o ilustrador e o escritor vão apreciar.

Por hoje é só, volto ao trabalho, talvez até o dia amanhecer.....

Deus abençoe vocês todos! 




 

 

   


ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...