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sábado, 29 de agosto de 2020

O BÁRBARO (dois de três).


Este blog tinha prioridade até bem pouco tempo atrás, tudo o que eu criava era primeiramente mostrado aqui.
A prova de que isso mudou é que a arte postada hoje desta vez foi publicada antes na minha página principal do Facebook. Nenhum motivo especial para isto, é que o Face oferece uma possibilidade mais rápida e mais formal em minha relação com o público.
Queria me dedicar mais a este espaço mas realmente os tempos atuais tiram muito do meu espírito e consequentemente do meu universo particular, uma espécie de cansaço de tudo, principalmente das coisas relacionadas a mim mesmo. Mas ok, não quero me repetir. Vamos ao que interessa, que é falar mais um pouco do Conan. Tenho tomado uma, digamos, overdose do cimério. Tenho relido os contos originais escritos pelo REH para a Weird Tales na década de 30 e notando uns pontos muito interessantes que não tinha percebido nas leituras anteriores. Isto me fez querer reler os quadrinhos também. Separei aqueles publicados pela Dark Horse nos anos 2000 e tento devorar um por dia no final da noite ou no intervalo dos meus pagalugueis. Quando terminar estes eu passo para as antigas Espada Selvagem de Conan trazida a nós pela Abril nos anos 80.
Pretendo finalizar com os filmes Conan, o Bárbaro de 82 e talvez Conan, o Destruidor, de 84. Vamos ver.


A cena retratada hoje foi inspirada no conto, Inimigos em Casa.

Beijos para todos vocês. 
 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

YAKULT E CHANTILLY.



Hoje, vivendo mais uns dos meus dias amargos, ao passar pelo setor de frios num supermercado de bairro fui acometido de certa nostalgia. Isto por causa de uma embalagem de Yakult.
Em dias que mais parecem as lembranças de outra pessoa, nos anos 70, em São Paulo, nós, muito pobres, não tínhamos dinheiro para essas, digamos, guloseimas; entretanto, minha mãe não media esforços para que tomássemos, eu e mais dois irmãos menores, um frasquinho desta deliciosa bebida pelo menos uma vez ao dia. Se não me falha a memória, quem fornecia era uma senhora, não era um produto barato e minha mãe pagava por mês.

No mesmo período a tv exibia um comercial de chantilly (sei lá de qual marca), a pessoa apertava a lata de spray e saía aquela espuma cremosa num recipiente e jogava morangos em cima; dava água na boca. Isso era caro mesmo, para nossos padrões, e já nem lembro qual foi a primeira vez que experimentei tal coisa.

Hoje, ao ajudar a Verônica nas sobremesas de casa, preparo o nosso chantilly a partir de um pó, misturado com leite, ou, é fácil comprar uma lata de spray do negócio. O mesmo posso dizer do Yakult, é só pegar no mercado e beber quantos frasquinhos eu queira, sem o menor problema. Estou longe de ser rico, mas posso me dar certos luxos. Nem sempre foi assim.

Eu poderia falar também de sucrilhos, alguns gibis e tantas outras coisas que eram de difícil acesso naqueles anos mas creio que o chantilly e o yakult resumam bem.....e nem sei exatamente porque comento essas coisas, talvez por precisar escrever algo aqui para que este espaço não fique pegando poeira..... pode ser que um assunto prosaico como esse, estas lembranças de um tempo que já desbotou seja uma forma de inspirar fundo e expirar na vã tentativa de expulsar esta angústia do meu peito. 

Naqueles dias eu sentia muito medo e insegurança, hoje, sinto dizer, ainda tenho as mesmas sensações. A diferença é que no presente eu posso obter essas pequenas coisas outrora inacessíveis... e estou velho. Muito mais velho.

 

sábado, 15 de agosto de 2020

O BÁRBARO ( UM DE TRÊS )




Conan em domínio público? Segundo um amigo meu, só daqui a alguns poucos anos (não sei onde ele leu a respeito, para eu consultar). Sei que o nome Conan e de alguns personagens do universo Howardiano foram reivindicados por algumas empresas na Europa. No entanto, algumas histórias escritas por Howard já estariam em domínio público e são publicados em álbuns em quadrinhos pela editora Glenat, na França e o mesmo é feito pela italiana Weird Book.

Queria que o personagem estivesse mesmo liberado para que qualquer um pudesse produzir algo novo com ele, sendo fiel, claro, ao espírito do criador. Conan é um bárbaro da Era Hiboriana e para mim deve ficar restrito a este universo. O cimério sendo parte dos Vingadores, como anda fazendo a Marvel, pra mim não tem nada a ver. Sim, sou um purista reacionário.

Já expressei aqui que só me sinto motivado a trabalhar com três personagens alheios: Tex, Hellboy e Conan. 

Para o cowboy criado por Bonelli e Galep eu teria até um roteiro pronto (dentro da minha cabeça, bem claro). Mas nunca seria aceito por ser muito gore. 

Já, o Conan, fiz o esboço de um argumento anos atrás, nele eu envolveria elementos de Howard, Lovecraft e Clark Ashton Smith. Eu gostaria muito de trabalhar este quadrinho em meu estilo de lápis (como no modesto desenho postado aqui), só pelo prazer de ver pronto. Mas acho que é mais uma de minhas quimeras.

Vamos ver o que nos diz o futuro.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

INFERNO VERDE PARTE 6 ( Um conto do universo Zé Gatão escrito por Luca Fiuza e ilustrado por Eduardo Schloesser).

25/04 a 29/04/20.
Parte 6:

12o Dia:

       No mundo exterior a tarde ia morrendo, quando a viagem de canoa chegou a um ponto da extensa caverna, segundo Izayana, já próximo à saída. Na parte da frente da embarcação se achava fixado um archote, iluminando o ambiente de maneira tênue. Repentinamente, a líder felina fez sinais para se reduzir o movimento e o barulho dos remos na água. Silenciosamente, apontou para o teto. Para o horror geral, a luz palpitante da tocha revelou uma quantidade razoável de morcegos pendurados de ponta cabeça, as
>negras asas de couro envolvendo a frente dos seus corpos adormecidos, quase da altura de Zé Gatão, enquanto pendiam como estalactites vivas sobre a canoa que passava. Se conseguissem sair dali sem despertar as criaturas, tudo estaria bem. Por sorte, lograram evadir-se, com pouco ruído. O sol prestes a desaparecer, anunciava a chegada da noite, ao brilho de uma estrela solitária, em um céu opalino de nuvens esparsas. De volta, o intenso e opressivo calor da jângal.
Após puxar a canoa para o seco, os viajantes se reuniram à beira do rio a pedido de Izayana. A líder pintada recomendou que se preparassem para lutar. Logo os morcegos, ao despertar e abandonar a gruta os localizariam com seus gritos ultrassônicos. Izayana solicitou que de um bamburral próximo, bambus fossem arrancados, no sentido de servirem como armas de defesa. Mostrou que ao sacudir intensamente os bambus, as vibrações provocadas por este movimento tinham o poder de confundir o radar daqueles mamíferos voadores. Ela e o Gatão manejariam os bambus. As felinas restantes usariam as flechas envenenadas e Karoll se ocultaria no bamburral.
     De onde o grupo estava, podia vigiar a saída do antro. Dito e feito! Assim que escureceu, uma horrenda revoada de morcegos lançou-se aos ares. Os gritos estridentes ecoando pelas cercanias! Uma parte grande, subiu aos céus, desaparecendo nas sombras. Um bando menor dirigiu-se para o exato local onde estava a reduzida tropa felina! Empunhando os bambus, Zé Gatão e Izayana começaram a sacudi-los violentamente! Desorientados com a forte vibração, os morcegos mais próximos foram recebidos a golpes de bambu, e ao cair eram impiedosamente flechados pelas pintalgadas panteras, mortalmente precisas ao disparar as setas embebidas em curare! Com o radar comprometido, muitos dos quirópteros foram aniquilados, ao se chocarem de cabeça contra as árvores, tombando ao solo estrepitosamente como frutas podres! Alguns fugiram desnorteados! Um mais afoito, conseguiu se jogar em cima de Zé Gatão, rolando os dois no solo arenoso! O Gatão agitou-se com o morcego por cima dele, fauces escancaradas! Forçando caminho em busca da jugular pulsante do felino!
     
Em um esforço hercúleo, o Gatão conseguiu empurrar o terrível ser para longe de si. Ato contínuo, avançou, aplicando um pesado murro na cara do bicharoco, arrebentando sua dentadura em uma explosão sanguínea! E não parou por aí! Bateu tanto e com tal violência que em vez de cara, só havia um pudim de carne, onde antes uma face existira! A batalha estava terminada com a vitória inconteste para a hoste felídea! Resolveram acampar ali mesmo, realizando os costumeiros turnos de guarda. No entanto, a noite passou sem novas surpresas. Pela primeira vez em muitos dias, Karoll dormiu mais tranquila.

13o Dia:

      A pequena hoste felina, bem como Karoll, despertaram cedo, pouco antes da alvorada. Tomaram um desjejum mais substancioso que consistia das carnudas e nutritivas frutas locais, um chá forte feito de um cipó com propriedades energéticas e antimalária, cujo o sabor lembrava levemente o do quinino. Como complemento, alguns tubérculos de gosto semelhante ao da batata, cozidos em água fervente. Após a boa refeição, a fogueira foi apagada e a viagem retomada. Pelos cálculos de Izayana chegariam ao Reino no meio daquela tarde. O tempo estava bom e o sol radioso. Sob o constante e desagradável calor úmido reinante, mergulharam na penumbra da luxuriante selva, conhecida no mundo civilizado, sob o nome de Inferno Verde ou Hiléia da Perdição, de onde quem entra, não sai. Zé Gatão ouvira muito destas histórias e agora sabia que não eram mentira, nem exagero. Se fosse outro e não tivesse a companhia, primeiro da arara-vermelha e depois das gatas pintalgadas, já teria morrido há muito! Lembrou-se de casos de algumas expedições de pesquisa e de caçadores de tesouros que ousaram penetrar na jângal e desapareceram. Grupos de busca e destacamentos militares, simplesmente evaporaram naquelas matas selváticas! Pensou consigo que precisaria de toda a sua capacidade física e mental para superar os perigos sempre crescentes, caso quisesse sobreviver e encontrar a saída daquele verdadeiro orco de horrores sem fim!

        Ao fim da manhã chegaram diante de um extenso braço fluvial. Para atravessá-lo, construiu-se uma canoa de madeira comprida conhecida como piroga. As águas eram calmas e barrentas. Sem maiores dificuldades, alcançaram o lado oposto. Aproximando-se da margem, uma das guerreiras entrou na água para ajudar a melhor direcionar o barco no processo de atracação. Acidentalmente, a felina arranhou a perna em algum galho submerso, produzindo certa ardência local e um leve sangramento, não notado por ela ou por quem estava na piroga! Contudo, certos seres aquáticos perceberam de imediato a presença de sangue na água! Um cardume faminto de piranhas acorreu ao local e com a água já pela cintura, a guerreira, repentinamente desferiu um pavoroso urro de tormento, enquanto à sua volta, o fluído fervilhava como se estivesse em ebulição! Nada pode ser feito! Em segundos, a desventurada fêmea foi consumida até os ossos, indo seus restos arruinados, depositar-se mansamente no fundo do rio.
       Mesmo em choque profundo, os ocupantes da piroga tentaram manobrá-la para que sua proa encalhasse em terra firme e todos pudessem saltar sem perigo. Com certa dificuldade, felizmente, o conseguiram. Ficaram por algum tempo olhando as águas plácidas, sob as quais se escondia a própria Morte! Izayana se recriminava acidamente! Não deveria ter deixado sua subordinada entrar na água e se expor ao perigo! Poderiam ter aportado daquela maneira, mas não! Levianamente, condenara uma valorosa companheira de lutas a um tão trágico fim! Ninguém disse nada, pois não haveria palavras para consolar a líder guerreira, embora nenhuma culpa realmente lhe coubesse! Eram as onças filhas daquela terra e deveriam conhecer todos as agruras existentes naquele mundo de espantos!

      Tristemente, o grupo largou a canoa onde estava e continuou a jornada. A relativa tranquilidade de espírito e a animada tagarelice de Karoll do início da manhã foram substituídas por um silêncio pesado. De todas as guerreiras que havia, só uma restara ao lado de Izayana. Em outros tempos, ela não se importaria tanto com mais aquela perda. Porém, depois do contato com o felino taciturno e com a arara, alguns paradigmas mudaram em seu modo de ver as coisas. E silenciosamente pranteou a falecida confrade. Não podia, porém, entregar-se à autocomiseração! Não ali! Tinha seus deveres para com os vivos! Tinha uma missão, uma responsabilidade e daria conta desta incumbência dada por seu soberano e pelos sacerdotes da deusa ofídia, a terrível Bepnapatóchi, a Serpente Emplumada.

      Por mais algumas horas, o agora mais ainda diminuto grupo avançou pelos tortuosos caminhos da selva exuberante. Aproveitaram a pausa para o almoço para descansar um pouco em uma pequena clareira natural, banhada pela luz intensa do sol em pleno zênite. Não se demoraram mais tempo naquela área. No momento em que se preparavam para partir, um zumbido intenso se fez ouvir, enquanto do céu se precipitava uma libélula gigantesca, pronta para colher sua próxima vítima em suas poderosas garras, levá-la para onde pudesse melhor dominá-la e sugar suas entranhas liquefeitas por um potentíssimo solvente, biológico componente de sua saliva mortal. No fim, apenas uma casca vazia restaria. Era assim, no caso de insetos! Em seres de carne e ossos, o cadáver simplesmente se desmancharia em uma fétida papa carnosa, a qual serviria de pasto a uma miríade se insetos necrófagos, sempre próximos de onde havia libélulas se alimentando.

       Graças a sua impressionante agilidade, Zé Gatão rolou para o lado, evitando o terrível abraço daquelas garras preensoras! A libélula deu um rasante e elevou-se no ar num violento bater de asas. Fez uma curva ampla e voltou à carga, o corpo de um forte azul metálico rebrilhando ao sol! Em um átimo, o felino cinzento pegou do solo uma pedra. Neste ínterim, as duas guerreiras, Izayana e sua derradeira companheira de combates tentavam mirar na fera alada, no sentido de abatê-la a flechadas. Porém, a rapidez dos movimentos do inseto, impossibilitavam uma mira acurada! A criatura arqueou-se, preparando uma nova investida, quando ela começou a baixar, Zé Gatão atirou a pedra, a qual foi certeiramente furar um dos ciclópicos olhos vermelhos, multifacetados daquela deformidade voadora! O guincho daquela entidade foi semelhante ao desagradável som do giz passado em uma lousa por uma professora iracunda que deseja chamar a atenção de seus irrequietos e desatentos discentes! Só que mil vezes ampliado! Ainda assim, avançou caindo sobre o felino sorumbático. Este ainda conseguiu afastar a adversária com um chute forte no ventre! Em uma ação veloz, o gato arrancou o cardaço da bota direita, saltou no lombo da libélula e enlaçou sua cabeçorra com o cordel, puxando tão fortemente que obrigou a criatura num arranco, a se elevar para o alto em linha reta! Cega de dor, a libélula tentou desalojar o indesejado ginete! Sem sucesso, porém! Temendo ferir o grande gato, Izayana e sua guerreira desistiram de lançar as setas e rezaram aos deuses para que o felino gris escapasse com vida da ousada empreitada! Karoll lamentava a altos brados e como as outras, clamava a deuses grandes e pequenos pela salvação de seu único amigo!
     Entretido, no embate, Zé Gatão tentava forçar sua “montaria” a descer! Tanto fez que conseguiu obrigá-la a se dirigir a um grupo de árvores mais abaixo! Habilmente, guiou a libélula gigante, de modo a passar milimetricamente entre as árvores. O felino saltou, abandonando o inseto à própria sorte! Girou o corpo, agarrando-se em um galho e como um acrobata, foi cair no solo macio vários metros abaixo. Quanto à libélula, mergulhou estrepitosamente em um lodaçal, onde começou lentamente a ser sugada inexoravelmente pela lama fatídica! Já de pé, o Gatão julgou ouvir um angustiado grito de socorro! Uma voz macabra que parecia sair das vísceras ardentes do Tártaro! Era a libélula! Mas como era possível a Zé Gatão entender a incompreensível linguagem dos insetos? A única explicação possível era o efeito do sortilégio dos sacerdotes do Reino das Panteras Negras, o qual ainda estava agindo sobre o felino cinza! Cuidadosamente, ele aproximou-se da borda do atascadeiro, onde o infortunado ser freneticamente se debatia!
– Mamífero! Salva eu, mamífero!! Mamífero! Socorro!!
     O primeiro impulso do gato foi tentar fazer alguma coisa! Mas porquê tentar salvar alguém que pretendera matá-lo e depois devorá-lo? Os insetos eram temidos e odiados por todos os mamíferos e o Gatão não era exceção! Em sua vida e naquela selva, matara mais de uma vez para sobreviver! Não matava por gosto, mas sim para continuar vivo! Por que ter compaixão agora? Virou as costas e começou a se afastar, enquanto os apelos desesperados recrudesciam! Lembrou-se: “Sua mãe havia lhe dado uma educação refinada e com princípios sólidos, apesar das dificuldades e da pobreza que os assolaram em várias fases da existência.” Por estas razões, o felino voltou, contra todos os seus instintos naturais!
     Enquanto caminhava, ouviu o chamado de Karoll e das felinas, ergueu sem se voltar, um dos braços em um sinal de que estava tudo bem. À beira do lamaçal, arrancou de uma árvore um forte galho e o estendeu, firmando-se no chão, enquanto gritava: - Tente pegar a ponta! Eu te puxo daí!
    Agoniadamente, a libélula tentou alcançar a ponta de galho salvadora, mas estava exausta demais e a lama grudava-lhe no corpo e nas asas como cola, tampando os poros, impedindo que as traqueias absorvessem o oxigênio ansiado para suprir seu organismo. Por mais que se esticasse, o felino não conseguiu alcançar aquela vítima do atoleiro letal. O inseto deu um derradeiro brado, erguendo a cabeça para os céus em protesto! Afundou! Mais uma vida perdida para a selva desapiedada, onde os fracos não têm vez! Izayana e as demais viram os esforços do Gatão para salvar a algoz e quando o se aproximaram, esta já havia sido tragada pelo marnel! Ninguém entendeu a atitude do felino acinzentado! A título de explicação, este disse, apenas:
– Não podia simplesmente virar as costas a um pedido de socorro, por mais que detestasse aquela libélula, mesmo tendo a certeza de que teria de enfrentá-la quando a arrancasse da lama! - Sem mais nada dizer, afastou-se em direção à clareira ensolarada. Izayana, Karoll e a outra guerreira pintada ficaram olhando, tentando entender o comportamento inusitado do Gatão. Apenas Izayana, teve um vislumbre de compreensão, mas logo balançou a cabeça, contrafeita! Podia entender ajudar a amigos, aliados e consanguíneos! Mas inimigos? Era demais! Aquele felino de outras terras devia ser louco! Louco, talvez! Digno de admiração e respeito, também! Era muito mais do que um simples guerreiro! E Izayana gostava dele!
      O prosseguir foi tranquilo e não encontraram outras ameaças em meio as trilhas da jângal. Uma variedade de aves foram vistas nas árvores, olhando curiosamente, os viajantes. Um bicho-preguiça de ar simpático pode ser notado se movendo lentamente nas alturas do arvoredo. Parou um instante e olhou pachorrentamente aqueles seres terrícolas que perturbavam sua tranquilidade. Logo esqueceu-se daquilo e continuou no seu movimento ascendente que duraria horas!
     No meio daquela tarde, o grupo divisou os primeiros sinais do povo Jaguar, simbolizados por monumentais ídolos de pedra cheios de escritos hieroglíficos. Mais adiante, chegaram a um pequeno Teocali, onde dois alentados e espadaúdos guardas vigiavam o caminho. Ao divisar sua líder, acenaram amigavelmente. Em seguida, jogaram umas sementes pardacentas no braseiro, continuamente aceso. Uma densa fumaça preta ergueu-se. Era um comunicado que chegaria a outro Teocali do mesmo tipo que retransmitiria a mensagem para o próximo e assim por diante, até chegar à cidade santuário e consequentemente, a quem de direito.
     Tanto é, que felinos e arara, ao chegarem às portas da gigantesca cidade, incrivelmente populosa, foram saudados pelo toque vigoroso de gongos! O som cristalino encheu os ares, anunciando o fim da grande missão, iniciada há tanto tempo, em honra da grande deusa, protetora daquela nação felídea.
    Pela imensa rua principal, o pequeno séquito seguiu sob os olhares inquisitivos da população. Zé Gatão observou que eram bem alimentados e saudáveis, os moradores daquela imensa urbe, provavelmente com um milhão de habitantes ou mais, fazendo um cálculo aproximado.
    Adiante, erguia-se um monumental palácio de pedra, com certeza, o destino final da longa viagem. Neste ínterim, passaram por outra construção de rocha maciça, a Casa da Guarda, já que ali havia muitos guerreiros vestidos com armaduras leves, portando longas lanças. Na cinta uma espada curta, na verdade um gládio acondicionado em bainhas bordadas com fios de ouro puro. Pela porta saiu um grande e carrancudo jaguar que parecia exercer cargo de mando, pertencente às altas esferas militares daquela sociedade belicosa.
De cenho fechado, dirigiu-se à Izayana em tom áspero:

– Tardaste, tu a chegar, comandante! Enfrentaste dificuldades na jângal, imagino…!
– Verdadeiramente, enfrentamos nós percalços variados na mata, Capitão-mor. Pela clemência dos deuses, conseguimos os superar e cá nós estamos!
– Noto eu que o destacamento que partiu contigo voltou destroçado, pois! E pelos deuses, diga-me tu, a razão dos prisioneiros que trouxeste não estarem solidamente manietados! A ave vermelha não causa mossa! Mas o enorme felino cinéreo que trazes solto…! - Izayana exasperada, interrompeu a fala do outro, acrescentando:
– Capitão-mor! Só devo eu satisfações à Realeza e não a ti! Um subordinado meu! Não nos faça tu, perdermos mais tempo com tua inútil tagarelice! Nosso soberano e nossa rainha aguardam a mim para contas prestar! Some, pois de minha vista! Desaparece, antes que mande encarcerar-te por insubordinação! - O Capitão-mor deu a passagem exigida ao diminuto grupo, mas seu sangue fervia nas veias e o ódio quase o sufocava! Um dia, Izayana cairia do pedestal! Para isto, ele estava trabalhando na surdina! E quando ela finalmente caísse, ele estaria ali para fazê-la pagar! Ah! Pensou Zé Gatão: Muitas vezes nos enganamos, pensando que fora da Civilização existem mundos melhores e idílicos! Quão enganosa é esta ideia! Veja a selva, em sua beleza e biodiversidade! Na verdade é perigosa, insalubre e frequentemente mortal! E entre aquele povo de moldes antiquados? Pareciam donos de um misticismo que talvez os fizessem mais espiritualmente elevados. No entanto, ali há ódio, discórdia, a malquerença! No fundo não são tão diferentes dos animais que o felino gris encontrara ao longo de seu viver. Concluindo: há seres bons como Izayana, as guerreiras e Karoll e seres mesquinhos! Aquele sujeito era um dos mais ignóbeis! Como seriam os mandatários daquele Reino perdido?


Após arrostar inúmeros perigos, Zé Gatão e Karoll finalmente chegaram ao misterioso Reino Jaguar. O que realmente, os esperava? Saberemos na 7a parte.

domingo, 26 de julho de 2020

OCO.


Não ando dormindo muito bem. Na verdade, aquele sono reparador que costumam chamar "dos justos" eu tive poucos na vida. Mas o problema é que vou dormir muito tarde e acordo sempre cedo. Sou do tipo que precisa das tais oito horas de repouso para estar disposto.
Me sinto como uma casca vazia, cada dia mais! Não falo isso motivado unicamente pela depressão, afirmo porque boa parte das coisas que me davam prazer, hoje não me importam tanto. Até bem pouco tempo, mesmo nos dias de tormenta, com prazos curtos para entregar trabalhos, eu arrumava uma horinha para fazer uma arte que me ajudasse a desabafar, eu lia um gibi (eles e os livros sempre foram grandes escapismos), ouvia músicas que me transportavam para outros tempos. Hoje estas coisas não importam tanto. Mas eu atribuo isso a idade. Para uns a velhice da alma chega mais rápido, como se a tristeza que sempre acompanha desde o nascimento, não conseguindo fazer acabar com a própria vida, por vingança, tirasse os poucos prazeres que a existência possa ter. Sabe aquele velho casmurro que quer ficar isolado e não está mais afim de nada? Me vejo assim. O pior é eu não ter mais vontade de criar, não querer mais colocar no papel aquelas ideias que me vinham na mente. Pra quê? Para postar numa rede social, receber uns likes e depois ficar esquecida num envelope ao lado de centenas de outros? Antes eu pensava: ah, isso não tem importância agora, mas um dia irão descobrir isso tudo e darão o devido valor, vai gerar dividendos para a família. Nada! Não vai acontecer nada disso. Tudo bem, hoje penso nisso sem mágoa. Talvez a tal velhice sentida traga esse lenitivo, olhar para si mesmo e ter consciência da efemeridade sem vitimismo nem autodepreciação. É o que é e ponto final.
Lógico, os desenhos continuarão surgindo (falo dos encomendados), tenho que sobreviver e pessoas dependem de mim, mas eu sinto falta da velha chama. Rabiscar minhas neuras nos caderninhos com caneta, vir aqui e rememorar velhos acontecimentos, escrever meus contos, dar continuidade a trabalhos inacabados.
Não sei se a centelha vai se reacender. Eu pensava ser um homem do ontem, nunca do hoje. Mas nem no passado eu me situo. Esta semana um amigo me passou o link de uma live de uns editores de São Paulo com quem tive contato muito próximo. Era por ocasião do lançamento de um livro que conta a história de uma das mais importantes editoras deste país. Foram quatro lives até agora que ouvi enquanto ia trabalhando em meus pagaluguéis. Vivi de alguma forma o boom daquilo tudo, mesmo de longe. Entrevistadores e entrevistados (um deles o editor do Zé Gatão - Crônica Do Tempo Perdido) relembravam tempos áureos e tempos decadentes. Os ciclos da vida. Ouvir tudo aquilo só serviu para eu confirmar que nunca fui inserido naquele mundo de artistas e editores, sempre um corpo estranho, um inconveniente na casa dos outros, nas palestras, nas premiações, tentando fazer parte de um mundo onde era impossível eu ser inserido.
Está tudo bem.

Beijos a todos!

quarta-feira, 15 de julho de 2020

INFERNO VERDE PARTE 5 ( Um conto do universo Zé Gatão escrito por Luca Fiuza e ilustrado por Eduardo Schloesser).

21/04 a 24/04/20.
Parte 5:

11o Dia:

     Com o dia seguinte, veio um temporal violentíssimo iniciado às primeiras horas do amanhecer. Parecia o prolongamento de uma noite densa sobre a Terra. Coriscos faiscantes, iluminavam tudo em um tom azulado e fantasmagórico, seguidos de trovões retumbantes a sacudir as cercanias! Felizmente, uma hora depois, a tormenta cessou, para alívio de Izayana, ansiosa em prosseguir a longa jornada de volta ao lar. Dito e feito! Levantaram acampamento e em meio à cinzenta, quente e úmida manhã se puseram todos em marcha acelerada, no intuito de encontrar as misteriosas cavernas, mencionadas pela grande líder felídea.
    No início do entardecer, chegaram a um maciço rochoso localizado à frente, do outro lado de um rio caudaloso de águas esmeraldinas que sumia por uma reentrância no corpo da áspera penha. Seguindo as instruções de Izayana, foi confeccionada uma grande canoa de madeira, remos e uma boa quantidade de tochas. Também foram confeccionados vários recipientes de fibra vegetal para guardar a resina necessária para alimentar as tochas, pederneiras para acender os archotes. Arcos e flechas novos, aljavas, acrescidos de longas lanças pontiagudas. Por fim, uma boa provisão de curare e outras plantas venenosas, tudo amassado em forma de pasta, para embeber a ponta das setas mortíferas.
     A líder achou por bem entrarem grota adentro pouco antes do anoitecer. Explicou que não faria diferença esperar pelo raiar de uma nova aurora, passando a noite junto ao rio cor de esmeralda. No interior da caverna, a escuridão era eterna e os perigos não mudariam fosse noite ou dia do lado de fora. Portanto, a canoa foi colocada na água e braços fortes a impeliram à frente, enquanto lentamente o sol descambava no horizonte, emprestando uma luz difusa e avermelhada ao crepuscular firmamento acinzentado por pesadas nuvens plúmbeas.
    Adiante, erguia-se a entrada da caverna. Após ela, o manto da negridão os envolveu. Mesmo as tochas acesas, não conseguia perfeitamente dissipá-la. Karoll se achava no centro da embarcação, atrás do grande felino gris. A ave foi orientada a não remar, pois não tinha força e resistência para tal. Se achava aparentemente calma, mas um terror crescente inundava-lhe o espírito, à medida que mais penetravam nas trevas envolventes do buraco granítico.


   Remaram em silêncio por cerca de duas horas consecutivas. Por fim, no limite de suas forças, o pequeno grupo resolveu aportar em uma relativamente extensa área de rocha seca, semelhante a um arremedo de praia. Os archotes foram dispostos em um semicírculo, fincados em suportes previamente moldados, fincados em nichos naturais do solo. Acima, pendiam monstruosas estalactites, formadas muitas eras atrás pelo infindo gotejar de água através do teto cavernoso. Incrivelmente, era fresco naquele ambiente sepulcral, trazendo alívio ao calor perene da selva virgem. Turnos de guarda foram organizados, pois apesar da quietude e da tranquilidade, reinantes, a morte podia estar a espreitar em alguma concavidade daquele extenso mundo de permanente breu!
     O felino cinzento, pediu para fazer o primeiro turno de vigília junto com Izayana. Apesar de bastante cansado, não conseguia dormir! Uma apreensão mais forte do que a usual o dominava. Perguntou a líder guerreira, quais os principais perigos que poderiam ameaçá-los. Ela deu de ombros e calmamente as foi listando: no rio, peixes cegos carnívoros, e estranhos vermes aquáticos também cegos, grandes como cobras! Em terra seca, agressivos escaravelhos predatórios e do alto poderiam vir desde insetos alados a morcegos! Estes últimos os mais perigosos! O caminho que escolheram seguir era mais rápido, mas consequentemente, mortal! As poucas expedições que o utilizaram jamais voltaram. Somente o soberano e um séquito de guerreiros bem treinados o fizeram uma única vez! O monarca fez uma exigência: todos os oficiais teriam de decorar um mapa que ele confeccionou mostrando o trajeto, de forma que se o caminho tradicional pela selva estivesse impossibilitado de ser utilizado, haveria este, como foi o caso. Após este breve colóquio, o silêncio voltou a reinar. Felizmente, nada aconteceu ao longo da noite. Pelas contas, de Izayana, não faltava muito para o raiar do sol, lá fora. Ela e Zé Gatão foram descansar algumas horas, enquanto uma outra sentinela assumia o lugar de ambos. Mais tarde, após um frugal desjejum, a canoa foi colocada na água e em remadas poderosas se afastou do local de descanso noturno.

     Por horas a fio, só o som ritmado dos remos na estrada líquida quebrava o silêncio tumular que a tudo envolvia. De repente, um agitar espumante se formou alguns metros à frente e das águas ergueu-se um ser grotesco demais para ser perfeitamente descrito! A tez que o cobria era de um branco desmaiado, comum a seres despigmentados, afeitos aquele ambiente sem luz! O corpanzil era ofídico, embora fosse um helminte e não um réptil. Não tinha olhos! Sua boca bizarra assemelhava-se a uma ventosa entreaberta! Sua postura prenunciava um ataque rápido e brutal! Com a precisão das máquinas guerreiras que eram, Zé Gatão e as felinas malhadas tomaram do arco e flecha e lançaram uma saraivada dardejante contra aquela aberração! As setas penetraram na derme macia do invertebrado, inundando seu sistema nervoso de seiva de Kitay, planta, dona de intensa letalidade! A besta-fera se inclinou para trás enquanto um esturro impressionante lhe escapava da profundidade de suas timpânicas entranhas! Mais flechas foram lançadas e novos urros de dor sacudiram os ares! Como descrever as sensações que então acometiam aquele pavoroso ente? Para ele, era como se seu âmago estivesse derretendo por meio da ação de uma substância altamente tóxica. Seu padecimento ia além do explicável e do tolerável! Violentamente, mergulhou nas águas frias do rio, ansiando alívio para um inominável sofrimento, verdadeiramente cego! Sentidos completamente embotados em trevas mais pesadas do que as verdadeiras trevas que o circundavam! Sumiu no fluído e consigo, seu último berro de final agonia! Impassivelmente, o grupo, retomou os remos e prosseguiu a viagem. Só Karoll, paralisada pelo horror, carregou para sempre em sua memória aquela cena singular, para a qual seu espírito livre, a voar acima das copas das árvores sob a luz radiosa do sol, não se preparara!

    Em dado momento, um enorme peixe de aspecto disforme pode ser visto, movendo-se próximo à superfície. Para o gáudio dos navegantes, não molestou nem o barco e nem seus navegantes, deslocando-se ao largo. Rapidamente desapareceu nas profundezas desconhecidas!

     No suposto fim do dia, pelas contas de Izayana, pararam em um remanso que dava para uma pequena elevação rochosa à beira d’água. A aguerrida líder das felinas, aconselhou que pousassem sobre a elevação. Seria mais fácil de controlar a aparição de escaravelhos que viessem rastejando, protegidos pela escuridão. Felizmente, eles emitiam uma leve luminosidade amarelada da ponta das antenas, muito útil para atrair as presas. A visão apurada dos felídeos seria capaz de detectar esta bioluminescência natural. Quanto aos morcegos, como ficavam em áreas próximas à saída daquela cova superdimensionada, não eram preocupação imediata, mas ainda assim não podiam descartar sua aparição ao longo do caminho. Acampamento montado, turnos de guarda estabelecidos, recolheu-se quem ia descansar primeiro. Deitado ao lado de Karoll, o felino cinzento continuava desperto. Notou que apesar de silenciosa, a ave carmim se achava acordada. Dirigiu-se a ela, imprimindo à voz um tom tranquilizador:
– Tenha coragem, Karoll! Sairemos dessa!
– Ah, Gatão! Que adianta sobreviver à selva se você vai ser sacrificado em um altar e eu vou virar bichinho de estimação da família real jaguar?
– Você já me conhece o bastante para saber minha resposta, menina!
– Sou bem menos otimista do que você, gato!
– Não sou otimista e entendo perfeitamente o seu lado. Mas nunca fui do tipo de me entregar pura e simplesmente à morte, embora ao mesmo tempo a deseje de alguma forma!
– Como assim? Não entendi.
– Não vale a pena explicar, mocinha! É muito complicado. Vamos tentar descansar agora. Amanhã será um novo dia.
– Talvez o último…!
– Cale-se e durma!

   As horas passaram com impressionante lentidão naquele lugar, onde o tempo parecia não existir! O sono suave e irregular do felino taciturno foi interrompido por um arrastado som de proximidade. Izayana já estava a seu lado. Sussurrou uma única palavra: - Escaravelhos…! Todo mundo, menos Karoll, se muniu de pesados machados de pedra com cabo de madeira. Zé Gatão preferiu servir-se de seu fiel cajado. A um sinal de Izayana, o grupo se manteve silenciosamente à espera. Logo uma suave luminosidade amarelenta foi surgindo entre as formações rochosas do solo. Uma tropa de uns dez escaravelhos pode ser vista se achegando a passos lentos. As antenas de ponta luminosa se movendo, enquanto sondavam o ambiente, tentando confirmar a presença de criaturas do mundo exterior em seus domínios. Tinham em torno de 1, 40 metros de altura. Corpos cobertos por uma blindagem natural que consistia em seu exoesqueleto. Mandíbulas ameaçadoramente proeminentes! Eram albinos, devido à evolução da espécie naquela obscuridade eternal. O felino cinéreo foi o primeiro a cair do alto da elevação sobre os surpreendidos coleópteros do negrume sem fim, dispersando-os, seguido pelas indomáveis guerreiras, precedidas por Izayana! Com fúria arrasadora, os felinos distribuíram pancada!

      Zé Gatão e as onças atacaram sem dar tempo dos insetos se reagruparem ou reagirem! As machadadas, acompanhadas de cajadadas se sucediam, esmigalhando carapaças, expulsando explosivamente, o conteúdo interno daquela animália asquerosa! Um escaravelho saltou na tentativa alucinada de cravar as mandíbulas no pescoço taurino do gato! Em vez disto, recebeu uma cajadada brutalizada no corpo, seccionando-o em dois! Foi uma chacina! Dois tentaram ainda escapar. Contudo, o cajado do Gatão e o machado de Izayana bateram pesadamente em suas carcaças, quase esfarinhando-as devido ao impacto devastador! Os dois ex-fugitivos só puderam esticar os membros dianteiros descoordenadamente, antes de para sempre deixarem o mundo dos vivos, juntando-se aos restos destroçados da pequena horda, totalmente dizimada por aqueles mamíferos violentos! Invasores desalmados, privando os pobres insetos do direito de viver e se alimentar dos incautos visitantes, como sempre foi até agora!

      Após o cruento embate, o grupo viajantes resolveu abandonar aquele local funesto e seguir adiante. Velozmente, a canoa navegou, pelo rio escuro e por horas a fio os remos bateram ritmicamente em suas águas geladas, produzindo um som meio irreal naquele ambiente silente.

     No final daquele dia, acamparam em uma outra conveniente prainha rochosa. Izayana estava inquieta e o Gatão quis saber o motivo. A onça falou que estavam perto da saída da caverna, mas também do território dos morcegos. Talvez, segundo ela, fosse melhor que prosseguissem. Provavelmente, já deveria ser quase noite lá fora, quando os mamíferos alados saíam em busca de alimento em meio à selva. O felino taciturno discordou. Estavam todos muito cansados. Se prosseguissem poderiam dar com os morcegos ainda na caverna, ou mesmo ao sair dela e não teriam energia para enfrentá-los. Izayana pesou bem a situação e concordou. Pela primeira vez em toda a viagem pela negrura daquela lapa, Karoll falou, perguntando se não seria então melhor esperar pela noite seguinte. Izayana asseverou que de qualquer modo não haveria como evitar um encontro com os quirópteros. Até mesmo hoje, ou no mais tardar amanhã ao raiar do dia, quando voltariam à toca. A arara calou-se, desconsolada e retirou-se para tentar dormir. Zé Gatão nada disse.
    Terminadas as confabulações, o melhor a fazer foi se recolher e descansar com as valentes guerreiras.
O felino gris foi deitar-se cheio de cismas. Sobreviveriam? Só o tempo o dirá! Não percam a parte 6 de Inferno Verde!

sábado, 4 de julho de 2020

MAIS UM TEMA ADIADO.

Boa noite, meus queridos e queridas!

Ando um tanto sumido deste blog e do Facebook, os motivos são sempre os mesmos, o tempo exíguo para cuidar das tarefas cotidianas. Ando as voltas com algumas HQs de temas bíblicos, que são o que pagam as minhas contas atualmente. É um trabalho, diria, delicado, resumir algumas histórias longas do Antigo Testamento em 8 páginas. Requer mais atenção na elaboração do roteiro para não ficar de fora momentos chave para boa compreensão da narrativa (e claro, ser o mais fiel possível ao texto sagrado). Os quadrinhos também requerem pequenos detalhes que me tornam mais lento na execução. Tudo isto somado a um prazo um tanto apertado que me deixa um pouco tonto, sempre trabalhei com certa liberdade (nem sempre, claro, mas na maioria das vezes).

Eu programei hoje falar sobre Bernie Wrightson, um dos artistas que me influenciaram, comentar sobre seus traços e abordar a importância que teve no meu desenvolvimento como desenhador, mas vou adiar, não consigo a concentração que a coisa merece, isto porque sofro mais uma vez um pesadelo que tem sido recorrente na minha vida a vários anos, mas que nos últimos cinco, escapou totalmente ao meu controle (quisera poder falar sobre o que é). Nestas horas eu me sinto envolvido num torvelinho de angústias que me deixam num estado de depressão que mastiga, tritura. Penso que isto só acabará com a morte.

Ah, a morte, tantas vezes eu falei sobre ela em meus quadrinhos, em muitas aventuras do Zé Gatão (alguém aí leu a Cidade do Medo? Lembram do que está escrito na capa de trás?), é o tema central do álbum inédito PHOBOS E DEIMOS, também.

Em Brasília, eu era doador de sangue, tinha até carteirinha de doador, acho que tenho ela ainda em algum lugar; certa vez, fomos eu e meu irmão André realizar este gesto humanitário e ali, deitado ao lado dele, enquanto o fluído da vida escorria para a pequena bolsa, indaguei a ele o que aconteceria se a auxiliar de enfermagem nos abandonasse ali, não viesse parar o negócio. Ele disse que sentiríamos um formigamento, frio, sonolência e apagaríamos. Seria uma boa morte, pensei.
Acho que isso é um grave defeito da minha parte, pensar na morte desde sempre. Almejar o descanso, o não fazer mais parte de um mundo em que eu sou um total estranho a ele.

Mas, é isso, meus amados e amadas, por hora ainda estou vivo, tento guardar em meu coração os valores apreendidos durante meus quase 60 anos, que é conhecer, amar e servir a Deus e por consequência, fazer o bem ao meu próximo, trabalhar duro para não ser pesado aos outros e garantir o sustento àqueles que dependem de mim, mesmo que na maioria das vezes eu receba ingratidão e incompreensão. Vamos em frente, a arte ajuda um pouco.

Tenho que arrumar um tempinho para ilustrar a quinta parte de Zé Gatão - Inferno Verde. Não sei se será possível na próxima semana. Veremos.

Beijos a todos e até uma próxima vez, se o Senhor assim permitir.

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...