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sábado, 26 de agosto de 2023

ZÉ GATÃO, OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM PERSONAGEM INCOMPREENDIDO

 PINTURA DE GUERRA devidamente impressa já chegou à ATOMIC EDITORA, junto com os cards e posters que acompanham um determinado combo da campanha no Catarse.

Os pacotes com o carro chefe, SIROCO, já começam a ser enviados esta semana.

Alvíssaras! Já posso comprar as bebidas e os charutos para comemorar mais um ciclo de vida vencido que deixou profundas cicatrizes.

A vida segue.

 

 


quinta-feira, 24 de agosto de 2023

ALMA QUEBRADA

 

 Quero perdoar a mim mesmo, esquecer o passado, mas o ontem sempre volta para pisar meu coração e escarrar em meu rosto, não deixando nenhum futuro onde eu possa projetar meus sonhos. É tarde demais para os sonhos, é tarde demais para qualquer projeto de felicidade nesta vida.

Há um medo que toma conta do meu peito e me flagela noite e dia, sem descanso. Eu acordo, faço minha higiene, minhas refeições, sento para trabalhar e trazer o sustento para casa e lá está ele me torturando, o medo, sempre o medo....

Tenho sentido uma solidão avassaladora, palpável, como um manto negro e frio que me cobre da cabeça aos pés, e nada, nem amigos ou família conseguem me livrar dela. Eu peço socorro a Deus mas a solidão continua presente, como um espectro vindo das profundezas.

DEUS pode me livrar disso, do medo e da solidão, basta ELE perdoar os meus pecados (dos quais eu sinceramente me arrependo) e tornar as minhas vestes alvas como a neve para eu mergulhar no sono do esquecimento e acordar para aquele grande banquete que ELE preparou para todos os que creem no Verbo da Vida. Lá verei minha mãe e irmão.

Fora isso, nada há o que ser feito neste plano de existência. 

 

domingo, 20 de agosto de 2023

AINDA NÃO FOI POSSÍVEL VIRAR A PÁGINA

 

 Desde a última postagem informando que Zé Gatão - Siroco chegara da gráfica, minha intenção era voltar logo em seguida para avisar do envio aos apoiadores, mas para isso teria que esperar a chegada da PINTURA DE GUERRA - revista com duas HQs coloridas do felino, mais o conto Seca Cruel, escrita pelo Luca Fiuza e ilustrado por mim - um item destinado a uns poucos que apoiaram um combo específico. A tal revista demorou para chegar e quando se deu, veio com um erro grosseiro da gráfica, ou seja, mais demora. Achei que a coisa se resolveria essa semana mas qual o quê, corrigida, as revistas foram enviadas por SEDEX à Atomic, mas sabemos como funciona o Correio hoje em dia, né? Esta empresa, que no passado foi uma das melhores do mundo hoje não passa de uma gigantesca bosta. Mas, tendo novidades, eu volto para comentar.

Foto tirada pelo editor da Atomic. Material a ser enviado aos apoiadores. Livro, revista e posters. A Pintura de Guerra mostrada aí é a que veio errada da gráfica.  

 

Bastante descoroçoado esta semana, comentei com uns chegados que sinto cheiro de cova funda para os autores de quadrinhos no Brasil, onde, claro, me incluo. Ouvi diversas réplicas, a maioria, felizmente, um tanto otimistas, que existem alternativas, que tenho talento diferenciado, que não se deve desistir e tal.

Tais palavras dão um alento, é como os últimos passos de uma maratona onde os gritos de incentivo ajudam o atleta a romper a linha de chegada.

Não obstante eu tenho motivos para pensar que a coisa vai mal. Não é novidade para vocês o que penso sobre mercado de quadrinhos autorais no Brasil, mas quando se tem a dificuldade financeira esmurrando a porta como um lobo ensandecido, boletos atrasados, emails a torto e a direito oferecendo acordos e não se vê luz no fim do túnel, sendo pressionado em casa, dá pra ficar um pouco desesperado, concordam? Tudo isso, além dos três projetos que toco (o que recebo por eles não estão sendo suficientes pois são valores defasados) me obrigaram a sair à caça de outros e quando dou a sorte do editor se dizer muito honrado em trabalhar comigo a cifra oferecida por ele não vale nem o rascunho de um boneco de palito. Falo sério! Um outro é aquele velho esquema do "vamos elaborar um projeto legal e depois  de pronto vamos procurar onde publicar ou vamos tentar a sorte num financiamento coletivo". Isso não dá pra mim. Tenho urgência, não precisam me pagar uma fortuna, mas preciso que paguem na pronta entrega por uma arte que tem meu selo de qualidade, mas só o que ouço são elogios. 

Seria muito bom se eu conseguisse vender algumas artes originais, mas não tenho um NOME forte para tanto, como acontece com umas feras dos comics de super-heróis. Ou seja, tenho trabalhado como um louco mas só vou receber por eles em setembro e eu preciso de dindim agora! 

Aos que creem, peço que orem por mim (sim, mais uma vez), a Bíblia  diz que "a oração de um justo pode muito em seus efeitos" e eu estou muito longe de ser justo. Não quero grana de brinde, só quero receber o que é justo pelo meu trabalho.

Obrigado, boa noite a todos e até a chegada da Pintura de Guerra!

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 31 de julho de 2023

ZÉ GATÃO - SIROCO JÁ É UMA REALIDADE

 

 

Esse blog existe há 13 anos. Comecei em 2010 e a ideia antes rejeitada por mim ganhou força quando eu estava na redação da Editora Construir, lá um dos gerentes fez um esboço no computador dele para mostrar que não era um bicho de 7 cabeças. Ter um espaço a mais para expor meu trabalho, de um momento para outro me pareceu sedutor. E com o tempo, não só os desenhos mas também meus pensamentos. Ele acabou se tornando uma espécie de diário onde eu me sentia mais e mais a vontade para me expor com meus frequentes desabafos. Ainda me lembro do meu texto de estreia, foi fraquinho e tímido; já pensei em refazê-lo, mas deixo assim, seguindo a ordem natural de todas as coisas. Isso aqui já foi bem mais frequentado, tive acessos bem grandes, postagens com muitos comentários, hoje boa parte dos que me acompanhavam não me visitam mais (se continuam a fazê-lo se escondem atrás do véu do anonimato, o que não faz o menor sentido), as visualizações são pífias, só uns poucos chegados comentam meus escritos e na maior parte do tempo eu me sinto desmotivado a continuar. Pensei (penso ainda, pra ser sincero) num texto de despedida e fechar as portas. Mas  sei lá, o que tenho a perder? Não há obrigação de vir aqui sempre e quando a necessidade de falar para uma plateia ignota se fizer premente posso abrir o computador e falar/digitar; sempre tem  algum rabisco a ser compartilhado e um alguém para fazer eco, ainda que eu não ouça a resposta. Então sigamos apesar do pó que se acumula.

Hoje tive que resolver um negócio chato na rua, passando pelo Shopping Guararapes entrei na Livraria Imperatriz - tenho esse hábito, não posso ver um local de venda de livros que sinto impulso de entrar, olhar as capas dos tomos, ler as orelhas, assim como casas que vendem material de arte, é como um fetiche - me alegra saber que algumas resistem onde tantas feneceram, como a Saraiva, a FNAC e Cultura. Fui até o setor de quadrinhos, como sempre, e é interessante o que é exposto ali. Muitos mangás e títulos das editoras mainstream, tinham até alguns de editoras menores, muitas desconhecidas do grande público; as HQs resistem apesar de muitos acharem que elas vão morrer na versão impressa, houve mudanças sensíveis nestes últimos 30 anos, elas gourmetizaram, migraram das bancas para as livrarias a preços que valem um rim, mas continuam a encantar novos e velhos, ainda que esse número se reduza dia a dia, mas sempre vão se reinventar. Nada vai extinguir o desejo de contar/escrever/desenhar histórias e aqueles  que gostem de ouvi-las/lê-las.

ZÉ GATÃO - SIROCO saiu da gráfica, existe, ainda que para apenas 40 pessoas. Quando comecei a trabalhar neste universo antropomorfo eu tinha muitos planos e concepções, pensava num álbum por ano ou um a cada dois anos. O tempo foi passando e eu fui deletando essas  abstrações, as decepções foram se acumulando e gerando enfado. Cheguei num ponto que não aguento mais criar algo só pelo prazer de criar. Siroco é o ápice desse cansaço. Foi finalizado no final de 2020, tempos onde minha mãe e irmão ainda estavam comigo. O álbum finalmente contempla a luz e eu dou minha missão como autor de quadrinhos - adultos, podemos dizer - encerrada. Não que não tenha amor por minha criação, mas deu o que tinha que dar. Se me pagarem, volto a conceber novas sagas, mas não com o Felino. Ele faz parte do tempo onde meu mundo tinha cores, hoje isso não existe mais.

Sim, ainda tenho vários enredos curtos do Gato guardados nos envelopes, há planos de soltar esse material em revistas de antologias (se elas tiverem fôlego neste mundo cada dia mais estranho). Veremos.

Se alguém que apoiou o Siroco estiver lendo isso, minha sincera gratidão! 

Devo voltar a esse assunto, divulgar é preciso. Beijos a todos!



 

 

 

 

 

 

 

domingo, 16 de julho de 2023

O CAPOEIRISTA NANICO

 Boa noite, como vão vocês?

Eu nem sei dizer exatamente como eu estou. Pela fé eu digo que estou bem (PELA FÉ, ENTENDAM, a prova de que receberei as coisas que anseio) mas ainda continuo navegando no mar revolto, embora o barco no momento NÃO esteja fazendo água. Minha vida financeira está numa crise que nem queiram saber. Pra vocês terem uma ideia, me encomendaram dois trabalhos, uma capa de livro e várias ilustrações de um mesmo tema e não muito tempo depois os clientes cancelaram dando uma desculpa qualquer, eu desconfio que perdi esses trabalhos (que me ajudariam muito, muito mesmo!) para a IA. Bem, ainda pela fé, aguardo novos trampos melhor remunerados para vencer esta situação penosa. 

Dito isso, as notícias são as mesmas, continuo trabalhando na HQ Rastreadores de Algures (já na segunda parte), em paralelo faço o último volume de Os Mitos Gregos e nos intervalos ainda realizo aquele quadrinho que tem a ver com um filme de terror em produção (temo que nessa toada, o filme seja lançado e eu ainda esteja labutando em cima da HQ, pois por mais que eu me esforce, não consigo ser mais rápido). 

Na real, nem era para eu estar postando hoje, queria vir aqui só quando tivesse novidades sobre ZÉ GATÃO - SIROCO, mas fora a informação de que estaria sendo impresso ainda neste mês, não soube de mais nada. Como não quero deixar este blog pegando poeira, vamos à umas reminiscências do passado; na verdade não é nada demais, só um fato pitoresco que me lembrei dia desses. 

Era o início dos anos 80 e eu morava nesta época no Rio de Janeiro (já disse e insisto, foi um período ruim na minha vida). Vez por outra, nesse tempo, eu viajava para São Paulo para visitar uns conhecidos da minha avó materna. Para preservar o protagonista deste relato, não revelarei o nome dele, nem a cidade onde o conheci. O caso é que nessas andanças por aquele município paulistano eu travei amizade com um rapaz negro a quem chamaremos VENTANIA, era de baixa estatura e jogava capoeira muito bem, na verdade toda a família dele, tinha três ou quatro irmãos, se me lembro direito, mas ele era o mais talentoso na luta (ou seria dança? ou esporte? até hoje não ficou claro para mim).

Ele tinha uma mulher mais alta que ele e um filho. Eu achava fabuloso vê-lo na roda como se fosse um grilo saltitante. 

Eu devia ter um bom físico porque depois que o cara me conheceu ele resolveu aumentar a massa muscular, vivia fazendo flexões e construiu pesos de cimento para ficar mais forte e dizia que queria ser igual a mim (eu achava meu corpo uma merda), da minha parte eu sabia que nunca teria habilidade para ser capoeirista.

Andávamos por aquelas estradas de chão a noite conversando sobre a vida, íamos àqueles parquinhos itinerantes para rodar naqueles brinquedos e ver Monga, a Mulher Gorila (até hoje estou devendo um post sobre a primeira vez que vi uma mulher se transformar num macaco). Era um cara legal e demonstrou ser um bom amigo, me alertando pra não confiar numa menina que eu estava namorando naqueles dias, pois ela brincava com os sentimentos dos outros. Não dei ouvidos a ele e me lasquei, mas isso é uma outra história.

Certa vez, e isso me lembro bem, pois era uma tarde em que eu rumava para a rodoviária de São Paulo para voltar ao Rio, eu descia a avenida para pegar o coletivo que me deixaria na cidade e encontrei Ventania totalmente alterado, havia alguma coisa errada com as roupas que ele estava vestindo. 

Tá vindo de onde, meu? Com um ar bem aborrecido ele me respondeu que tinha ido ao Centrão de Sampa, mais especificamente na Praça da Luz, para pegar uma putas. Uma em particular, a que ele achou mais gostosa - segundo ele - o levou para um hotel, transaram gostoso e entrou com ele no chuveiro, ela saiu e ele ainda ficou no banheiro para dar uma mijada, foi coisa de menos de três minutos, mas tempo suficiente para a vadia sumir levando a carteira dele e as roupas, deixando as dela no lugar. 

Rapidamente vestiu a calça dela, que era muito maior que ele, e saiu furioso à cata da mulher. Por sorte ele tinha pagado o quarto de hotel antecipadamente. Claro que ele não localizou a puta e uma alma caridosa pagou a passagem de ônibus para ele poder voltar para casa.

Como vai explicar para sua mulher essa blusa estranha e essa calça vagabunda que tem duas vezes o seu tamanho? perguntei. "Ah, sei lá, Edu, só sei que aquela preta filha da puta me levou um casaco de couro que eu paguei caro por ele e minha calça Levis original, quando eu encontrar ela de novo eu vou matar ela. PRETA FILHA DA PUTA!!!! 

E foi isso.

Vocês sabem, sempre gosto de deixar uma arte para acompanhar as palavras, mas não tenho criado desenhos novos para me divertir, vou ter que me valer de uma das ilustrações antigas que fiz para os didáticos.

É isso, meus queridos, pela maravilhosa graça de Jesus Cristo ainda estou aqui, não dá para saber por quanto tempo, mas é um prazer escrever pra vocês. Obrigado pelas visitas e por lerem minhas histórias.

Se cuidem!
 

 

 

 

terça-feira, 4 de julho de 2023

ZÉ GATÃO-SIROCO CADA DIA MAIS PERTO.

 Boa tarde, amadas e amados!

Meu último projeto em quadrinhos laboriosamente criado no período em que minha vida tinha cores está entrando na gráfica e breve, muito breve, estará disponível no site da Editora Atomic numa tiragem limitadíssima, e quando falo limitadíssima, falo sério (menos  de 20 unidades). 

Num total de 50, os apoiadores da campanha serão privilegiados, os poucos volumes restantes estarão à venda e depois disso, não creio que será reimpresso (só se um mercado propício para os quadrinhos autorais no Brasil finalmente se abrir, o que não creio de forma alguma).

Como de costume, devo demorar mais um pouco para tê-lo em mãos. Depois disso, dou como cumprida a minha missão de ser um autor de HQs. Doravante, como ocorre agora, só se me pagarem.

Voltaremos a este assunto.

Té mais!



sexta-feira, 16 de junho de 2023

O AMARGO ANO DE 1977

 Aconteceu mais ou menos assim, sem precisar o mês e o dia, no ano de 1977, devia ser umas cinco da manhã, a alvorada ainda não tinha chegado. Meu pai me acordou aos cutucões. "Levante, vamos sair"; Assim mesmo, sem explicações, nem justificativas, como foi toda a vida dele, estava acostumado a ser obedecido, se eu ousasse sequer perguntar aonde íamos arriscava tomar um bofetão. Após um café da manhã bem frugal, saímos. Morávamos em Brasília, na SQS 202, caminhamos em direção à rodoviária vendo o dia raiar. Isso talvez explique minha total e irrestrita ojeriza em acordar cedo. Caminhamos em silêncio na manhã fria. O desprezo que ele nutria por mim era bem evidente mas nunca pude discernir naqueles dias, o medo que eu sentia dele era tão gigantesco que nublava tudo ao meu redor. Pegamos um ônibus lotadíssimo em direção à Asa Norte indo pela W3. Descemos na 711. Andamos em direção às casas que ficavam naquelas quadras e nos detivemos em frente a uma banca de jornal de formato quadrado, cor vermelha. Ele tirou as chaves dos bolsos e abriu o imenso cadeado. "Arrendei esse local de um amigo, vamos fazer dinheiro, você vai trabalhar aqui." 

As bancas de jornais de Brasília naqueles anos não eram como em São Paulo, por exemplo, não tinham design arrojado, eram de formato cubo, entrava-se por trás e abria-se - como posso dizer? - uma espécie de enorme janela na frente e a parte de baixo dessa "janela" servia de balcão onde eram colocados os jornais, revistas e tudo o mais. Claro, as paredes interiores também eram forradas com os mais diversos títulos. 

Meu pai me mostrou um caderno onde eu deveria anotar cada item vendido. Perguntou se eu sabia fazer conta rápido e eu, como de costume, gaguejei: "s-sim, acho que sim." "Acha?" "é..e-eu, sei, sim". Ele me testou, me deu uma nota qualquer e pegou uma revista de tal valor. Com as mãos trêmulas eu devolvi o troco não muito certo se estava correto, eu estava nervoso demais, o medo que eu sentia era absurdo. Vendo que eu dava conta do recado, deixou várias moedas para troco dentro de um copo plástico e foi para o ministério dizendo que voltaria na hora do almoço para que eu fosse comer e depois me encaminhar para a escola, que ficava na 304 Norte.

A banca ficava de frente para a quadra e de costas para a avenida W3, o que era um enorme erro estratégico e estivera fechado muito tempo, as revistas existentes ali eram de muitos meses atrás, não havia muito o que fazer, organizei tudo como podia e fiquei lá, perplexo, tirado da cama sem conversa e colocado ali para executar uma tarefa, em teoria simples. Mas para vender o quê? A mercadoria defasada. Para quem? Os possíveis clientes não deveriam sequer saber da reabertura. Àquela hora da manhã não passava por ali viva alma. Só me restava uma coisa a fazer: ler, algo que adorava. Comecei com os quadrinhos, os poucos que tinham, gibis da bloch, O Planeta dos Macacos, O homem de Seis Milhões de Dólares (cito esses por estarem bem frescos em minha mente), depois parti para as revistas, Manchete, Ele Ela, Lui (foi ali que vi uma ilustração do mestre Vargas pela primeira vez), fotonovelas Jacques Douglas, Lucky Martin e Sétimo Céu. Eu lia de tudo.

Meu pai voltou na hora do almoço, me deu dinheiro para comer um lanche num bar ali perto e como já tinha trazido minha mochila com cadernos e livros, fui caminhando a pé até a escola, sempre me perguntando - também ao cosmos (eu ainda não conhecia a Jesus) - o que eu estava fazendo naquele mundo, uma vez que tudo para mim era estanho e eu me sentia um completo solitário. 

Voltei no final da tarde. Meu genitor me falou que já estava em negociações com as distribuidoras para pagar as dívidas da banca e recomeçar a ter as novidades, assim como os dois jornais da cidade, o Correio Brasiliense e o Jornal de Brasília. Com o passar do tempo teríamos nos fins de semana o Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e o Globo. Assim os clientes começaram a reaparecer e o trabalho que parecia fácil começou a ficar complicado, lidar com o público requer um tato especial, uma paciência não natural para aturar pessoas que se julgam superiores, malucos, zombadores, enrolões, os que desperdiçam tempo com conversa fiada e até pedófilos, creiam, fui cantado umas duas vezes por uns velhos nojentos, eu tinha 14 anos!

A rotina era essa, acordar bem cedo (para quê? o movimento naquele fim de asa norte só começava por volta das dez da manhã), tomar o ônibus lotado, abrir o estabelecimento, montar os cadernos dos jornais, espanar a poeira das revistas, ler tudo o que fosse possível (principalmente heróis Marvel da bloch e Tex) pra não sufocar de tédio, morrer de medo da chegada do meu pai, comer no bar, pegar a mochila e ir para escola, um local que muito me soava como uma prisão e eu não sabia o que aprendia ali. Ao final, retornar à banca umas 16 hs, fechar as 18:30 e pegar o ônibus de volta para casa.

Nem sempre meu pai podia ficar no local durante a tarde, na maioria da vezes minha mãe vinha me render, e eu sempre me alegrei muito ao vê-la, estar com ela, por mais fugaz que fosse, era um deleite. Pensando hoje, eu nunca pude tê-la por completo, ela sempre pareceu um passo à frente do meu toque. Minha vó ficava com Agildo, André e Rodrigo, que tinha um ano apenas. E assim foi aquele ano.

Ao sentar aqui eu planejei contar uns casos pitorescos daquele lugar, daqueles tempos. Narrar sobre a máfia local, a pressão dos outros proprietários das bancas das quadras próximas que faziam terrorismo, como colocar Durepox nos nossos cadeados durante a noite, velas de macumba ao redor da banca.  Falar sobre como era duro para mim vir com caixas muito pesadas da distribuidoras em ônibus lotados na hora do rush, dos esporros homéricos que eu recebia do meu pai na frente de estranhos quando eu demorava para chegar, por conta de um coletivo que parava no trânsito ou quando eu esquecia, por sempre ser muito distraído, de anotar alguma venda no caderno.                                                                     

Mas para dar detalhes eu teria que ficar aqui mais tempo e os anos chegaram cobrando a fatura, sofro de dor nas costas, nas pernas, vivo à base de analgésicos, muitas horas na prancheta deixam meus pés inchados.

Mas posso dizer que quase não lembro com quem estudei aquele ano, ninguém marcou,  mas ficou na memória uma morena linda que sentava nas carteiras à frente, falei com alguém sobre ela e foram contar, ao que ela disse: com aquele baixinho eu jamais namoraria.

Recordo das músicas que eu ouvia naqueles tempos: Tonight´s the Night, do Rod Stewart, Dancing Queen, do ABBA, Hotel Califórnia do Eagles entre outras. Lembro de ter lido "Olhai Os Lírios Do Campo, do Érico Veríssimo e alguns contos do Machadão. Na TV eu assistia Kojak, Baretta e filmes de terror tarde da noite com Christopher Lee e Peter Cushing. No cinema rolava Contatos Imediatos do Terceiro Grau (filme chato), Uma Ponte Longe Demais, Equus (incômodo), Os Duelistas (filmaço), O Homem Que Amava As Mulheres, A Garota Do Adeus, 007, O  Espião Que Me Amava e aquela merda de Os Embalos De Sábado À Noite.

Por essa época eu estava cada vez mais encantado com a Kripta da RGE e isso meio que moldou o que eu faria nas HQs uns 15 anos à frente.

Mas tenho que destacar O Voo do Dragão com Bruce Lee, filme que devo ter visto no cinema, só naquele ano, umas vinte vezes (número que chuto aqui, deve ter sido bem mais que isso) e por consequência O Mestre do Kung Fu, com argumento do Don MacGregor e arte de Paul Gulacy no ano seguinte, isso tudo embalado ao som dos Stones com Fool To Cry, muito Beatles e a banda disco Santa Esmeralda que eu ouvia de madrugada com o radinho debaixo do meu travesseiro.  

São as lembranças que eu tenho daquele ano. 

Queria ilustrar esse post com algumas fotos tiradas da banca em 77, mas devem estar (se não foram perdidas) em álbuns antigos da minha saudosa mãe.

Não posso encerrar sem dizer que nunca recebi dinheiro algum nos meses que lá trabalhei. Como aquilo terminou? Fica para, quem sabe, um futuro texto, já sinto comichões em meus pés (que mais parecem balões).  

Pra essas lembranças não ficarem sem uma arte, posto aqui mais uma imagem que fiz para um didático que dizem, será publicado em algum tempo.

 


Obrigado por me suportarem mais um pouco.  

 

 

 

 

 

     










ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 7 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A Busca – Capítulo 7: Ao saírem pela boca da passagem, por onde tinham palmilhado, por um tempo impossível de determinar, a morceguinha e o...