Total de visualizações de página

domingo, 21 de maio de 2017

ABRAÇADO PELA SOLIDÃO.



Era muito cedo e ele já estava acordado, não dormira bem as últimas noites, na verdade ele não se lembrava da última vez que tivera um somo tranquilo e reparador, havia em seu universo um sem número de elementos que provocavam o caos, pequenos asteroides que promoviam o desequilíbrio e sua impotência em ordenar as coisas lhe traziam aflição à alma. Ele sorria, mas era um movimento de músculos faciais forçado, muito mais fácil era verter grossas lágimas, lágrimas de arrependimento, lágrimas por desejar que o impossível se tornasse possível. Ele tinha consciência de que seu lugar no mundo não era dos piores, haviam criaturas, milhões delas, em situações abjetas, mas isso não lhe servia de consolo e este egoísmo também lhe pesava na alma. A arte, esta grande irmã, que tantas vezes o tirou do lodaçal, parecia agora impotente, ausente.
Mas a tristeza, essa amiga que tantas vezes o inspirou no ato de criar, naquela manhã em particular doía-lhe no âmago.

"Podemos conversar um pouco?" Perguntou à esposa.
"Tem que ser agora? Estou ocupada com tais afazeres."
"Não, tudo bem, não é nada importante." Respondeu ele.

Pensou em falar com a mãe e os irmãos, mas o telefone que tinha em casa não permitia chamadas interurbanas e depois, imaginou: eles também estão cheios de problemas, não precisam de mais um.

Não muito tempo depois, encontrou uma amiga querida.
"Que bom te ver!"
"Digo o mesmo, mas eu preciso ir, meu companheiro me espera!"
"Por favor, fique mais um pouco, só cinco minutos, por favor!"
"Não posso, ele já me observa da varanda! Me ligue e conversamos, ok?"
"Ok."

Ele lembrou-se de um tempo em que viveu numa grande cidade cosmopolita. Tantas pessoas nas ruas, nas praças, nos trens, todas alheias, mergulhadas em si mesmas e ele acossado pelo abatimento.

Foi assim no passado, era assim no presente.

O dia seguiu seu curso, com todos os obstáculos físicos e imateriais que o impediam de se dedicar ao seu ofício. Olhou decidido para a estrada que tinha a sua frente, respirou fundo e seguiu por ela de mãos dadas consigo mesmo.

domingo, 14 de maio de 2017

MÍSTICA.


Os dias estranhos continuam sua caminhada firme e inexorável nesta etapa da minha vida sem dar demonstrações de que vai parar para recuperar fôlego. Pudesse eu falar de tudo que me atormenta, muitos entenderiam porque eu afirmo que esses últimos meses têm sido carrascos. Na verdade eu já deveria estar acostumado, passei pelas mesmas situações na juventude e não sei como suportei. Existem pessoas capazes de sobreviver às maiores tragédias e no fim ainda dar uma lição de vida. Definitivamente não sou esse tipo de pessoa.

Hoje, entediado, após terminar uma página A3 toda aquarelada para o novo livro infantil que estou fazendo, pensei: mais uma para ficar esquecida numa pasta, mais uma para se juntar a tantas outras numa pequena literatura que fará parte de uma coleção que ninguém saberá onde encontrar para ler, sequer saberão que existe, a menos que eu a exponha numa rede social e diga: ARTE PARA LITERATURA INFANTIL e meus admiradores, que não são tantos assim, dirão: "Uau! Que ilustração bacana!" e depois esquecerão dela. Sim, você está certo, eu reclamo de barriga cheia, afinal, depois de suar a camisa por anos, consegui dar algumas soluções para o problema do branco do papel, como preenchê-lo com traços e cores e dar uma alma ao que ali vai sendo formado. Esta alma não será do agrado de todos, certamente, mas ainda assim ela estará viva e provocará reações e isto eu sei, não e para qualquer um. Muitos ainda labutam sem conseguir dar vida e personalidade aos seus desenhos mas conseguem enganar bem as pessoas, alguns até ganham bastante dinheiro. Pensando bem, esse negócio de alma na arte é uma questão de ponto de vista. Eu posso achar que os meus traços, por mais toscos que possam me parecer, tenham o poder de tocar o coração de alguém, outros acharão que meus desenhos não tem brilho algum..... Ok, ok, vou parar, eu sei que como filósofo eu sou de uma mediocridade de dar dó!

Eu deveria ter continuado trabalhando, afinal, como sempre, esses projetos tem prazos apertados, mas parei para comer algo e depois fui ver um episódio de uma série e em seguida procurar uma arte que foi comprada por um admirador. Abri muitas caixas e envelopes e fiquei perplexo com a quantidade de desenhos que já fiz nessa vida. Muitos permanecem inéditos do grande público, principalmente uma série para livros didáticos que nunca foram publicados. Como sonhar ainda não paga imposto, pensei: "Cara, se um dia meu nome se tornar alguma coisa além de que é atualmente e eu morrer, minha família pode faturar uma boa grana num desses leilões da vida, pois o que não vai faltar é desenho para vender ou publicar postumamente." Ah, como estou cansado! Mas não dá pra parar e beber um pouco d´água, simplesmente porque não há água, tampouco onde sentar. A vida exige que eu continue ininterruptamente e assim faço.

Não lembro exatamente porque fiz esse desenho da Mística (vilã mutante dos X-MEN que no cinema transformaram em heroína), mas aí está.


Hoje foi Dia das Mães, eu deveria ter vindo aqui mais cedo fazer uma postagem que falasse disso, mas pensando bem, dizer o quê? Agradeço a Deus que minha mãe está viva e bem. Meu beijo a todas as mamães que me visitam aqui.

Ainda não consegui colocar as mãos em meus desenhos pessoais mas hei de fazê-lo. Não sei até quando vou suportar a pressão, mas não vou desistir, essa palavra não existe em meu dicionário.

domingo, 7 de maio de 2017

A ORIGEM DO NOME ZÉ GATÃO.

Aconteceu algo estranho esta noite, acordei como se alguém tivesse tocado um interruptor dentro da minha cabeça. Uma forte tontura me fez ter a sensação de que a cama girava numa velocidade incrível. Eu tenho labirintite já faz muito tempo, até me acostumei com ela, as vezes quando estou andando pelas ruas, se movo a cabeça muito rápido para o alto ou para os lados, eu caminho como um ébrio,  depois me recomponho. Já tomei algumas medicações mas não resolveram. Porém esta noite a coisa foi feia. Com um certo custo me levantei e fui ao banheiro aliviar a bexiga. Retornei e me enfiei debaixo do lençol. Mas era tarde. O sono havia fugido e eu sei que ele não iria voltar. Eram quatro horas da madrugada. Me levantei com cuidado para não acordar a Vera e vim para o estúdio trabalhar. Porém, não me senti estimulado a pegar no lápis. Eu não queria fazer nada, sentia-me cansado, mas não com sono. Resolvi responder a uns e-mails e depois comecei a organizar meus desenhos que vão se acumulando dentro de envelopes. Lá eles ficam como eu, esquecidos, amarelando. Isto não me incomoda. Enquanto ia executando esta tarefa trivial, eu matutava umas questões.

Antes deixem-me dizer que a sensação de vórtice que me acordou, bem pode ter sido um sonho e na hora eu não me dei conta, devia estar naquele limbo esquisito entre o sono e o despertar.

Bem, vamos às minhas reflexões: Porquê batizei meu personagem de Zé Gatão? Porque foi o primeiro nome que me veio à mente e também porque eu iria usá-lo como um personagem de tiras cômicas (pra ser sincero, na época, eu não estava certo se usaria ele em algo além do que tinha feito). Acho que já disse que o protótipo deste antropozoomorfo foi usado em uma ou duas estampas de camisetas para uma confecção de um conhecido de Brasília chamada Fast Cat. Ele era bem diferente, assemelhava-se ao gato Tom, só que era mais bombadão. Não tinha nome e não pensei mais nele até criar a primeira HQ onde, ao invés de situações cômicas, o que se viu foi violência, dor e tristeza. Na verdade eu nem lembro direito porque me veio na cabeça Zé Gatão; havia em Brasília um fisiculturista local, bem conhecido que tinha o apelido de Zé Gatão e antes disso ainda parece que era o nome de um personagem de um programa infantil na TV Brasília nos moldes de Bambalalão, mas também não tenho certeza. Se colocarmos no Google vocês verão algumas referências ao bodybuilder, ao meu personagem e sobre uma dupla sertaneja.

A primeira HQ foi puro desabafo, uma resposta à imensa depressão que me engolia em 1992. Nunca pensei em publicar. Está esquecida ou desaparecida em algum lugar, mas o nome do gato ficou.

Uns artistas que conheci dizem que o nome era bem apropriado, simples, direto, fácil de lembrar e era bem brasileiro: um zé qualquer, como Zé Carioca. Outras pessoas disseram que era uma alcunha muito idiota para um personagem tão rico.

Dia desses numas postagens de uns caras no Universo HQ, li comentários sobre isto. "Nome de gosto duvidoso."  "Um personagem com nome assim não tem como vender, eu não conheço e não compro." e outras coisas mais. Semelhante a isto foi um certo cara no Facebook que falou que um nome legal ajuda a vender um gibi, este não poderia vender pois o nome não combinava com os aspecto vigoroso do personagem.

Bem, se eu tivesse que mudar hoje, eu nem sei que nome colocaria. Me acostumei com este.

Um amigo meu ao ver uma arte do felino que fiz a caneta, falou: "O seu José ficou bem forte, aí!" Acontece que o nome dele não é José. Ou pode até ser. O fato é que eu não sei o nome dele. Zé Gatão é  um apelido, obviamente, o nome de fato eu nunca criei. Isto é citado duas ou três vezes na saga Memento Mori e sua continuação. O felino nunca revela seu verdadeiro nome, gerando assim um mistério a mais.

Bem, gostando ou não, gerando controvérsias, o fato é que o personagem é conhecido como Zé Gatão, algo difícil para os estrangeiros pronunciarem, visto que a terminação ÃO é complicado em outro idioma que não seja o nosso, o que dificulta uma tradução gringa.

Bem, é o que eu tinha para falar sobre o nome deste incompreendido e tristonho protagonista.