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sábado, 25 de fevereiro de 2017

A ESCRAVA ISAURA (CENA 4)

Hoje foi um daqueles dias que passou eu nem percebi. Foi um dia bom, sem incidentes, não há credores batendo na porta, tudo está em paz. Há trabalho, mas me sinto improdutivo. Tenho levado muito tempo para concluir uma ilustração. A gente envelhece e pensa que o artista está no melhor de sua fase, produz a melhor música, pintura ou poesia, em tese é assim, afinal ele adquiriu experiência, viveu muito, amou, decepcionou-se, reagiu, o abismo não o tragou e ele ficou mais forte, mais sábio, produz o fruto da sua vivência. Não é assim comigo, ou eu sou uma farsa, como sempre desconfiei, ou há algo muito errado. Me sinto velho, cansado, mastigado, sugado e cuspido, meus desenhos atuais me soam sem força, sem emoção, sem vida. Nem meus sketchbooks (nome elegante para uns caderninhos vagabundos de desenho) tenho tido coragem de prosseguir fazendo. Olho para o branco do papel e me vem um embotamento e há prazos a cumprir. Alguns dirão: "é uma fase, vai passar". Pode ser, já tive momentos assim, mas nunca duraram tanto. Outros acrescentariam: "você precisa de umas férias". Verdade, queria muito sair um pouco da rotina, não pensar em prazos ou responsabilidades. Mas é impossível largar tudo. Há uma guerra em andamento, eu sou soldado e general do meu exército, não posso abandoná-lo, pessoas dependem de mim. Não sei. Durmo e desejo não acordar. Acordo e respiro fundo e tento me encher de coragem para encarar o dia.
Claro, eu penso assim por que não sou uma das vítimas de guerra da Síria, não perdi familiares em acidentes trágicos, não sou vitimado pela seca do sertão nordestino. Eu tenho consciência de que sou mimadão, tenho muito e pareço dar pouco valor. Mas saber que sou um bem aventurado no que diz respeito a ter o básico necessário para vida (a custa de muito trabalho, insisto) não diminui esta tristeza que me abate de vez em quando e me faz ter a coragem de verbalizar aqui.
Meu irmão é médico, vê pessoas morrerem todos os dias. Uma amiga minha é enfermeira na Alemanha e me disse a mesma coisa. Pensando sobre isto, a mente fica turbada, mas sabem, nada que eu já não soubesse e a Bíblia já não tivesse alertado em quase todos os livros que a compõe.

Conclusão? Nenhuma. Apenas mais um dos meus desabafos. Como sempre resta somente o prosseguir. Sempre em frente.
                                                          
Mais uma imagem para A Escrava Isaura.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

MAIS UMA ENTREVISTA.



Fizeram mais algumas perguntas para este vosso desenhista, respondi com a sinceridade de sempre.
Quem quiser dar uma conferida, é só acessar o link:

http://www.desenhoonline.com/site/eduardo-schloesser-em-entrevista-exclusiva-ao-blog-desenhoonline-com/

Há muito o que dizer mas ainda tenho que cuidar de algumas artes urgentes, então fica, quem sabe, para a próxima semana.

Até lá, se Deus quiser! Cuidem-se!


domingo, 12 de fevereiro de 2017

A MORTE DO ZÉ GATÃO.



Eu acredito que toda boa história deva ter um começo, meio e fim. Nascemos, vivemos e morremos. Deveria ser assim também com personagens fictícios? Eles devem perecer? Talvez sim, porque não? Eu, particularmente nunca fui muito fã dessa história de matar, pode parecer romântico demais da minha parte mas quando você cria um herói de papel você está dando uma alma a ele, uma personalidade, uma vida. Eu me apego a certos personagens. Fiquei triste, muito triste com a morte da Gwen Stacy, a namorada do Homem Aranha, até hoje acho que aquela menina nunca deveria ter morrido, poderia até ter sido a tia May, mas não a Gwen.
Na literatura, Conan Doyle matou o Sherlock Holmes, não  deveria ter feito, afinal, cedendo à pressões editoriais teve que ressuscitá-lo. O Robert Crumb matou o gato Fritz, uma história boa mas com um desfecho totalmente sem glamour (talvez tenha sido proposital). O Angeli matou a Rê-Bordosa. Nos quadrinhos de heróis as personagens vivem morrendo e voltando da morte, já não tenho mais paciência para isto.

Eu nunca pensei em matar o Zé Gatão, só que certa vez eu estava me afogando em uma  depressão que parecia não ter fim, a ideia de suicídio me perseguia a todo instante, como uso o felino como válvula de escape, imaginei uma HQ bem barra pesada, onde ele era amaldiçoado por uma bruxa, um mago ou algo assim e teria sete vidas, seriam sete histórias bem cascudas onde ele deveria morrer tragicamente no final de cada uma, sempre retornando da morte na hq seguinte. Como minhas narrativas, embora fantásticas, tem um pé bem fincado na realidade, eu achei que tudo isso seria irreal demais e por outros motivos que não convém declinar aqui eu nunca desenvolvi um roteiro, jamais coloquei no papel e também, confesso, me faltou coragem para submeter o gato a tais torturas. Engavetei a ideia como aconteceu com tantas outras.

Mas existem personagens que morrem sem que ninguém os tenha matado, como o Fantasma, o Mandrake, Rip Kirby e tantos outros, pois caem no ostracismo, fenecem na memória do público e são lembrados apenas por saudosistas como eu. Melhor teria sido se tivessem tido um final glorioso onde sempre fossem lembrados por este último ato heroico? Fica a dúvida.
Para quebrar meu argumento alguém poderia dizer que estes protagonistas continuam sendo publicados nas tiras de jornais, como o Príncipe Valente e Flash Gordon; pode até ser, mas são sucesso ainda? Outros dão as caras em edições especiais ou revivals, mas competem em pé de igualdade com X-Men e Batman?

No caso do Zé Gatão ele não é um personagem de sucesso, acho que nunca será, depois de tanto esforço da minha parte ele ainda é um completo desconhecido, o número de pessoas que o conhece e gosta é reduzido demais. Na verdade, me corrijo, acho que ele é até conhecido, mas não lido, não compreendido. Já vi idiotas discutindo o assunto na internet, sempre levantando a bola de que o nome é pouco comercial, ridículo, até, e o aspecto macho da obra é uma forçação de barra; teve quem afirmasse que ele é a junção de outros personagens como o gato Fritz e o Leão Negro. Outros detestam animais humanizados ou simplesmente não gostam de mim.

Não sei, é bem possível que Zé Gatão esteja sepultado sem que eu tenha dado um fim à sua vida. Tivemos cinco álbuns e vários contos publicados neste blog e isto me fez pensar que ele teve uma vida plena. Acho que não teve. Acontece. E se ele morreu (ou desapareceu, dá no mesmo quando se trata de um personagem de quadrinho) vai continuar defunto porque a possibilidade de novas edições é remota. As editoras hoje só publicam o que é venda líquida e certa, não se arriscam mais. O financiamento coletivo não se mostrou uma via de acesso e não tenho grana para me auto publicar.

Talvez ele viva para mim e mais uma meia dúzia que goste bastante dele se eu puder fazer mais algumas aventuras, mas seria como ele viver num cativeiro, como tantos animais em via de extinção.












domingo, 5 de fevereiro de 2017

OLHANDO PARA OS MONTES.



Senhor, onde estás?
Deus grandíssimo, impossível de mensurar e explicar, que a tudo criou e mantêm sobre controle, o que sou eu? Apenas um pedaço de carne sustentado por ossos, com alguma consciência e que tem a pretensão de ser algo além disso?
Tem misericórdia de mim, ó Deus, pois a vida é breve por demais, tão fugaz quanto a nuvem levada pelos Teus ventos e eu me vejo num labirinto escuro. Existe saída?
Que triste mundo é este, meu Senhor, onde necessito de um pedaço de papel pintado para provar que eu sou eu e onde o dinheiro, outro papel pintado, determina que um é melhor que outro?
Onde está o amor, esta flor bela e delicada, mas tão frágil que morre ao som de uma palavra mal colocada, mal interpretada, que se transmuta em indiferença ou ódio? Existe? Bem sei que o amor só reside em Ti e ele foi manifesto na Pessoa de Jesus, que é um contigo, o resto é ilusão. Feliz daquele que cedo aprende esta verdade e foge do laço e armadilha.
Bem sei que não sou digno que olhes para mim, Senhor, mas a minha estrada da vida se encurta e o fim pode estar em qualquer esquina, com Tua poderosa mão sustenha firmemente a minha, pois sem Ti não posso caminhar.
Senhor, não te escondas de mim, por favor.