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segunda-feira, 30 de abril de 2012

GRANDE BIRA DANTAS!





 Tive a honra e o prazer de encontrar o grande caricaturista Bira Dantas faz um pá de ano quando ainda morava em São Paulo, pra falar a verdade já estava de mudança (de novo) para Brasília. Foi na noite da pizza, ou pizzada como chamavam, não sei se este evento (parecia um evento, pelo menos) ainda acontece. O dono do lugar, fã de desenhos, hqs e caricaturas, promovia no seu estabelecimento (ficava próximo da Av. Paulista) uma noite onde vários profissionais, fanzineiros e entusiastas da nona arte, comiam pizza de graça, desenhavam num imenso mural e trocavam idéias.
Nesta noite esbarrei por lá com o Marcatti, Junião, Fabio Moon (ou seria o Gabriel Bá?) Maringoni, Gual e Dani, Jotapê Martins, Cariello e muitos outros, afinal o lugar estava lotado. Revi velhos amigos e travei contato com outros tantos. Entre eles o Bira, que eu já conhecia pelas suas caricaturas.
Alguns podem até pensar que é babação da minha parte quando me refiro a determinado artista como grande, ou fabuloso, ou imbatível e outros tantos adjetivos, mas quem me conhece bem sabe que eu só uso tais predicados para quem de fato admiro, não apenas o trabalho, o talento, mas acima de tudo o caráter e a humildade. Conheço artistas com traço e criatividade de fazer inveja, mas que não valem merda.
O Bira, pelos breves momentos que conheci é um destes caras sorridentes, amáveis, de bem com a vida, transbordando talento por todos os poros. Sua produção é impressionante, charges, caricaturas, hqs e o que mais vier pela frente ( vale a pena visitar o blog dele, http://caricasdobira.blogspot.com.br/ ).
Acho que ele já fez caricaturas de todos que conhece, tava faltando a minha, mas a lacuna foi competentemente preenchida, com se nota nesta postagem. Detalhe: como eu disse, ele só me viu uma vez, quase não tem foto minha circulando por aí, e ele foi brilhante ao captar meu meio sorriso de cara sem graça e braços cruzados, meio que levantando barreira entre mim e quem me observa, algo característico em pessoas inseguras e arredias. O cara é um gênio. Ele nasceu no Brasil (sorte nossa) se fosse em outro país ele teria o mesmo status de um Mort Drucker ou um Don Martin.
Eu disse antes e repito:
BIRA, CÊ É O CARA!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

EL VÍBORA




 Se ontem tivemos uma boa notícia com a chegada de mais um álbum do genial Nestablo Neto, hoje a nova é péssima, pois faleceu no dia 24 de abril último, Josep María Berenguer, o criador da lendária revista espanhola El Víbora.
Pra ser sincero não conheço muito sobre Berenguer, senão o que está descrito nas wickipédias da vida , mas sempre tirei o chapéu para ele, pela sua ousadia de publicar uma revista de HQs que de certo modo vão na contramão da história.
A primeira vez que folheei uma El Víbora foi no início dos 80, numa das visitas que fiz a São Paulo. Confesso que fiquei um tanto escandalizado com aquele conteúdo erótico e violento, eu estava acostumado com histórias da Marvel e DC, no máximo uma Heavy Metal ou algo do Crumb, mas ali eu vi que era possível fazer quadrinhos sem as amarras do pseudo bom senso. Contudo não pensei mais na revista até me mudar de novo para Sampa e criar o Zé Gatão como forma de dar vazão às coisas que me sufocavam, foi com publicações como El Víbora, Caniballe e Frigidaire que me senti a vontade para criar meus quadrinhos sem me preocupar em agradar ninguém. Paguei o preço por isto? Certamente. Na verdade ainda pago, se tem algo que sou é ingênuo, pensei que haveria um público amadurecido para encarar meus rompantes de fúria, me enganei e acho que isto de alguma forma me estigmatizou. Hoje já não me importa mais.
Muitos importantes nomes dos quadrinhos alternativos passaram por esta publicação.
O que me leva a abordar o assunto é que aquelas histórias pesadas (na sua maioria) da El Víbora, são extremamente atuais, e ao compara-las com o que se vê hoje, dá uma puta saudade, vejo muito brilhantismo mas pouca ousadia. O mundo gira, estamos numa época de alta tecnologia e temos que nos adaptar aos novos tempos, as hqs evoluíram, são como todas as artes, o reflexo do seu tempo, e eu ainda não me sinto muito a vontade no mundo atual.
Teria mais para comentar mas infelizmente o tempo curto me impede, eu encerro dizendo que não estava ligado na El Víbora a muito tempo, parece que a revista parou em 2005, mas acho que a morte do seu fundador encerra definitivamente um ciclo. Pior para os inconformados.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

P.E.T.




 Hoje eu tenho uma boa e uma má notícia. A má fica para a postagem de amanhã, agora nos concentremos na excelente nova: o genial artista e quadrinista Nestablo Ramos está colocando na praça a sua mais nova criação, trata-se de "Os Protetores", pela LER Editora.
O site para divulgação do livro e personagens, bem como matérias exclusivas sobre proteção aos animais e preservação do meio ambiente já está no ar:   http://www.osprotetores.com.br/   não deixem de conferir, vale a pena.

O referido álbum de quadrinhos ainda não li, por isto não posso comentar, mas algumas artes, que eu já conhecia quando o Nestablo ainda trabalhava nas etapas finais (privilégio de quem é amigo íntimo de um artista), me deixaram boquiaberto. A cada obra, tenho o prazer de notar a sutil evolução artística deste cara que além de soberbo ilustrador, tem um caráter e coração somente à altura de seu bom humor.


Falam que os ventos que sopram pra as hqs brasileiras é mais que favorável. Será? Porque então um quadrinista do quilate do Nestablo ainda não faz parte do panteão de autores badalados pela dita mídia especializada? Porque esta mesma mídia insiste em ignora-lo? Dirão, talvez, que é por que ele mora em Brasília, não em São Paulo. Conversa. Muitos artistas não moram em Sampa e são sempre matéria nos sites mais populares. Será, quem sabe, porque ele não paga jabá? Porque não é chegado à bajulação e nem faça parte de panelas? Vai saber. Mas persisistindo, comendo pelas beiradas e não parando de produzir material de qualidade, logo, logo, tenho certeza, ouviremos muito falar dele, e não será só por blogs que insistem em pregar no deserto.





domingo, 22 de abril de 2012

PUBLICIDADE.




 Eram os duros anos 90. São Paulo. Morávamos na Rua Guainazes, bem ali no centrão velho da cidade e embora eu ainda não tivesse conhecimento, aquela região era também conhecida como "cracolância".
Lembro que não tínhamos telefone nesta época, então, quando necessário, deixavámos o número de um vizinho nosso, compadre do meu pai. Em 1994, bem tarde de uma noite particularmente gelada, ele batia em nossa porta dizendo que havia alguém ao telefone querendo falar comigo. O cara estava de pijamas, olhos sonolentos, muito sem graça o acompanhei me perguntando quem poderia ser tão inconveniente. Era um conhecido (também desenhista) me informando que um amigo dele, dono recente de uma agência de publicidade, precisava de um  artista pra continuar tocando o negócio. Naqueles dias, mais que nunca eu matava cachorro a grito e jacaré a beliscão, fazia muitas ilustrações pra revistas mas era uma situação tão irregular que o dinheiro não rendia. Perguntei quem eu precisaria matar pra não perder a vaga. Ele deu-me um número pra eu ligar assim que fosse possível e acertar uma entrevista. Logo de manhã, munido de algumas fichas fui ao orelhão da esquina e falei com a esposa do cara. Combinei de passar na tal agência naquele mesmo dia. Ficava num local distante pra burro, perto de Interlagos, mas isto não me impediu de chegar na hora marcada acompanhado da minha fiel pasta preta onde guardava minhas artes, ela era tão grande e pesada que era um transtorno carrega-la em coletivos.
Naquela tarde brilhava um sol frio, indiferente, assim como a esposa do publicitário e co-proprietária da tal agência. Era uma mulher jovem, bonita, fútil e com minhocas no lugar do cérebro, trajava uma blusa de lã, salto alto e micro-saia pra exibir os pernões, olhou minhas ilustrações fingindo que entendia daquilo, falou que eu era muito bom mas que quem decidia era o marido que encontrava-se em viagem. Eu teria que voltar num outro dia mas precisaria ligar antes. Aquela idiota podia ter me poupado tempo me informando que ela não apitava nada, mas tentei não me aborrecer.
Liguei de novo e falei com o dono a quem chamaremos de "V". Prático, disse que ouvira da mulher (que chamaremos de "C") que eu era talentoso e que confiava na opinião dela, não precisaria levar portfólio, caso quisesse mesmo me unir ao time era só levar meus documentos e começar a trabalhar. Boa, pensei.
Em Brasília eu trabalhei numa agência de publicidades por alguns meses e admito ter odiado cada minuto, mas eu precisava de algo que me permitisse ter algo todo final de mês.

Minhas lembranças agora são um pouco difusas, confesso. Pouco me recordo dos meus primeiros dias, mas uma insegurança muito grande me embotava o raciocínio e a criatividade. Para minha sorte o "V" entendia de propaganda tanto quanto eu entendo de geometria espacial.
"V" era um negro magro e alto, feio, mas simpático, com uma voz grave e muito agradável, aliás, esta era sua verdadeira vocação, radialista. Ele apresentava um programa de músicas sertanejas numa rádio. Eu nunca senti, mas as meninas que trabalhavam lá diziam que ele tinha mau hálito, não sabiam como a "C" aguentava.
Combinei com ele de trabalhar somente na parte da tarde, pela manhã eu cuidave de outras artes encomendadas. Almoçava cedo e as onze horas caminhava até o Largo São Francisco pra pegar o ônibus até à Nossa Senhora do Sabará, não podia chegar atrasado, mas era algo quase inevitável, afinal, o ônibus emperrava na altura do Aeroporto de Congonhas, o que com o tempo me rendeu uma chamada ríspida por parte do "V", envenenado por "C". Muito tempo depois eu descobri que aquela mulher já tinha me apelidado de Hulk e era assim que as pessoas lá se referiam a mim quando eu não estava por perto.

Ele tinha alguns clientes fixos, o que mais requisitava trabalhos era um sacolão de legumes e frutas, minha função era criar visual para as promoções do lugar. Fazia também muitas ilustrações para "raspadinhas", cês sabem, aqueles bilhetinhos que dão prêmios. Certa vez cheguei a executar uma capa de disco infantil com musiquinhas cantadas por um palhaço, não lembro o nome dele, infelizmente.

"C" estava sempre lá, fazendo nada, trajava-se dia sim e o outro também com vestidos e saias justíssimas e curtas. Quase sempre ela vinha se sentar perto de mim quando o "V" estava ausente, pra me ver trabalhar. Ficava lá, exibindo aquelas coxas grossas. Eu era uma uma espécie de asceta, só sendo assim mesmo pra resistir a tamanha tentação, afinal eu estava solteiro fazia um bom tempo. Se debruçava sobre minhas costas, colocava a basta cabeleira com mechas loiras no meu rosto perguntando se estava cheiroso, que tinha usado tal shampu aquele dia e essas coisas.
A telefonista também era uma mulata de parar trânsito, lábios hiper grossos, fofoqueira até não poder mais, falava da vida de todo mundo. Eu ficava na minha, nunca dava muito papo. Ela saiu um tempo depois para se casar, no lugar dela contrataram uma garota de dezoito anos que também fazia um lobo uivar. Eu a chamava secretamente de "lolita". Ela e outra garota nerd, casada, que ficava no computador eram as únicas pessoas com quem gostava de conversar, lindas, simpáticas e viviam me adulando. Certa vez a lolita (que não por acaso era noiva do irmão do "V") deixou escrito na minha prancheta: "você é um tesão", li, fiquei na minha, desci pra lanchar, quando voltei a fraze estava riscada.
Eu chegava por volta da hora do almoço, num dia a cozinheira estava em prantos. O que houve? Perguntei. Ela chorava pela morte do Ayrton Senna. Ah, fiz eu. Me encaminhei ao banheiro para lavar o rosto e as mãos como sempre fazia antes de me sentar à prancheta e o local, todas as vezes - aquela hora - fedia horrívelmente. Intrigado, comentei com a garota do computador: "Su, acabo de vir do banheiro, não é de hoje que aquilo está com um insuportável cheiro de merda!" Ela riu e respondeu baixinho, "Ah, você não sabe quem deixa o banheiro naquele estado? É a esposa do chefe, invariavelmente ela termina o almoço e corre pra lá. Ela é bonita mas tem os intestinos apodrecidos".   

Devo dizer que o serviço era moleza, eu recebia direitinho, era exatamente no período de implantação do Plano Real. Obviamente aquilo em termos de agencia não funcionava de acordo. As vezes eu passava tempos sem ter o que fazer, isto porque o material gráfico era preterido em função de uma dupla sertaneja que "V" estava empresariando, jurava que ia leva-los ao programa do Faustão e que os tornaria tão célebres quanto Chitãozinho e Chororo, coisa que, é claro, nunca aconteceu, não que faltasse talento à dupla, ou que "V" não se empenhasse, mas sabemos que nesta vida nem tudo depende somente de esforço e trabalho. Tem que existir o fator sorte envolvido, somado a uma cadeia de acontecimentos que fazem a roda girar a seu favor. Mas estou divagando, vamos terminar isto.

"V" inaugurou um novo escritório e com aquela ampliação muitos planos foram feitos, não sei se ele conseguiu realiza-los, não muito tempo depois fui chamado a sala dele ("C" estava lá em pé me observando), fui dispensado das minhas funções, ele disse que seria temporário, mas eu sabia que aquela conversa era pra coisa não ser traumática (achei até legal da parte dele).
Lolita e Su ficaram tristes, na verdade eu também fiquei, não era pelo emprego em sí, mas naqueles dias era bom ter algo no que me apegar.
Foi nesta época, quando chegava do trabalho, que comecei a desenhar o "Zé Gatão - Cidade do Medo", agora eu teria mais tempo para me dedicar aquela que viria ser a minha primeira obra em quadrinhos e que só seria publicada anos mais tarde.

Tenho muitos fatos pitorescos pra narrar sobre este trabalho e aquelas pessoas, mas o bom senso me aconselha a omiti-los.

Olhando para trás hoje, posso dizer que foram bons tempos. Tardes mornas, noites frias. Saudades de Su e lolita. 




quinta-feira, 19 de abril de 2012

ZÉ GATÃO PELA P.A.D.A. EM NOVA TIRAGEM.


Esta semana fiquei sabendo que este independente de Zé Gatão pela PADA ganhou uma nova e limitadíssima tiragem. Legal, desde que esgotou a primeira edição, imaginei que o Léo, Sandro, Milson e toda a turma tinham desistido disso, afinal meu felino não é o que pode ser chamado de sucesso de vendas. Mas os caras lá são assim como eu, não desistem fácil, aliás, eu acho até que já desisti; digo isto porque em mim a muito esmoreceu o desejo de criar quadrinhos pelo simples prazer de velos prontos, mas aí já é outra história.
Caso você tenha interesse em adquirir é só entrar em contato com o Léo Santana pelo link http://www.bodegadoleo.com/.

E se você está chegando agora e quer mais detalhes sobre este álbum, fiz umas postagens sobre ele em agosto do ano passado, é só procurar nos arquivos do blog, infelizmente até hoje não sei como fazer link para as páginas do passado. Sorry.

Um beijo a todos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

UMA PALESTRA COM UM CARTUNISTA FAMOSO + UM CARTUNISTA MENOS BADALADO MAS IGUALMENTE FAMOSO E O QUADRINISTA QUE BREVE VIRARIA UM ESCRITOR FAMOSO.


Com o risco de parecer prepotente, não costumo frequentar blogs, é mais por uma questão de tempo mesmo, pois como me disse certa vez o mestre Shimamoto, internet é muito legal mas costuma te roubar horas preciosas do seu dia, daí o porque d´eu não seguir esta ou aquela página de artistas que até gosto muito, inclusive, mesmo estas que recomento aqui no nosso espaço, passam meses até que eu me atualize. Mas outro dia quase sem querer fui parar no blog de dois irmãos quadrinistas que estão arrebentando no mercado gringo (e por aqui também). Um parentese: opto por não citar nomes, achando que alguns artistas já são badalados o suficiente, não precisam do meu aval e na verdade estão cagando montes, prefiro ressaltar os cobras dos quais realmente aprecio o trabalho sem ressalvas.
De volta ao ponto, o texto, muito bem escrito e lúcido, falava sobre o  HQ Mix, parece que este ano mudaram alguns critérios para a escolha dos indicados, mas não importa, o parágrafo que me chamou a atenção e que só confirmou algo que na verdade eu já sabia, foi mais ou menos nestas palavras: criar uma hq não basta, o problema é faze-la chegar até o leitor, distribuição é um problema muito grande (sempre foi). É necessário se fazer ver e ouvir, tem que ir a eventos, palestras, lançamentos, se mostrar o tanto quanto possa que você existe e produz, é a forma mais eficaz para se tornar conhecido. Só assim seu trabalho chegará ao grande público, finaliza dizendo que a internet não é garantia de sucesso, ter milhares de seguidores e visualizações não quer dizer que seu álbum será sucesso de vendas.

Estas seriam então uma das razões pelas quais eu não poderia ser um quadrinista de sucesso, não vou a eventos ou palestras, raramente sou convidado pra estas coisas, lançamento então nem se fale, tive umas duas experiencias negativas. Não disponho de tempo e meios de me locomover até os festivais de hqs Brasil a fora, então fica mesmo difícil, fora que eu não gosto mesmo de estar em lugares assim, pelo menos não como uma espécie de atração. E olhem que no passado eu já tentei muito me encaixar, "aparecer", como recomendam.

Isto me lembrou um fato ocorrido a muito tempo em São Paulo, a Devir promoveu uma palestra com alguns dos autores que mais vendiam pela editora na época. Sem citar nomes, dois deles eram cartunistas bem famosos (um deles bem mais novo que a atração principal) e o outro era um quadrinista que viraria escritor de sucesso um tempo depois.
O tal evento seria num lugar de difícil acesso para mim e eu me encontrava totalmente sem grana, desmotivado. Meu irmão, que hoje é médico, me aconselhou que fizesse um esforço e fosse até lá, que seria importante eu conhecer os caras, me apresentar como quadrinista e tudo mais. Tudo bem, disse eu, vamos lá.
Seguindo o conselho do meu brother, coloquei numa pasta uns exemplares do primeiro álbum do Zé Gatão para dar de presente aos caras e lá fui pra Livraria Cultura do Shopping Vila Lobos. Peguei um busão na Praça da Bandeira e depois de sei lá quanto tempo, o cobrador me indicou o melhor lugar para descer. Era um local ermo e escuro. Seguindo pela marginal com carros tirando fino da minha pessoa, consegui chegar ao meu destino. O local da palestra estava mais ou menos cheio, haviam ali algumas figuras conhecidas, os tipos que costumam frequentar estes lugares, vocês sabem, os nerds de sempre, aliás o editor da Via Lettera, que tinha se comprometido a publicar meu segundo álbum estava por ali.
A palestra em si foi um porre, já fui em algumas que chegaram até a ser divertidas, as perguntas pretendiam ter um "Q" de intelectuais, as respostas eram blasé na maioria das vezes. O cartunista titular era o que mais falava, ia muito além do que era perguntado, o outro cartunista sequer olhava para platéia, ficava de cabeça baixa escrevendo ou desenhando alguma coisa, ficava assim até mesmo quando lhe indagavam algo. O quadrinista/escritor parecia desconfortável, como se estivesse sentado num barril de pólvora.
Por fim acabaram as explanações, as perguntas e respostas, e foram para o verdadeiro objetivo daquele encontro, vender álbuns de hq. Embora não estivesse interessado e com meu dinheiro bem reduzido, comprei um álbum de cada cartunista para ter um motivo de me apresentar. Havia uma fila, em volta dos caras, alguns puxa-sacos, eu iria dar meus álbuns no momento em que eles autografassem os que acabara de comprar, estava nervoso como se fosse cometer um crime, como se furtasse algo numa loja cheia de câmeras de segurança, minhas mãos suavam e por um momento quase mandei tudo aquilo às favas. Me aproximei dos dois cartunistas, os puxa-sacos observando, apertei a mão do famoso cartunista, era uma mão branca e pequena que sacudi com vigor; o artista, muito educado e agradável, era o total oposto do que ele deixava transparecer em seus quadrinhos, dei meu álbum de presente, folheou, elogiou dizendo que o desenho era poderoso. O cartunista menos badalado foi indiferente. Neste momento apareceu outro cartunista, um que hoje em dia se veste de mulher, fora prestigiar seus pares, dei o último exemplar do meu álbum pra ele também e este cara embora brilhante, pra mim foi uma decepção, parecia arredio, desconfiado, sei lá.
O quadrinista/escritor já me conhecia, tinha meu álbum e eu os dele. Se eu fosse apostar, diria que aqueles caras iam jogar meus livros na primeira lata de lixo que encontrassem, posso estar enganado, mas o tipo de hq que faço jamais seria a praia deles.
Conversei um pouco com algumas pessoas por ali e dei no pé com uma grande sensação de alívio. Voltar pra casa foi complicado mas cheguei ao lar bem tarde da noite com dois álbuns da Devir autografados que só iria ler muito tempo depois que aquele gosto de barata saísse da minha boca.

Não dá pra dizer que não segui as regras impostas de estar nos lugares, mostrar trabalhos, sorrir, apertar mãos e colher elogios. Muitos anos depois minha vida continua a mesma coisa.
Lembro que cheguei em casa aquela noite com uma baita depressão, pudera, tinha sido uma noite de merda.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AS MAIORES HQS DE TODOS OS TEMPOS - OS COMPANHEIROS DO CREPÚSCULO.

Ontem pela manhã encerrei a leva de ilustrações para os contos de Humberto de Campos e já tem mais um Machado de Assis na fila, tiro hoje um dia de folga para desenhar a pin up para o aniversário de "Os Carcereiros" do Nestablo Ramos Neto e também para comentar sobre uma das maiores hqs de todos os tempos.


Desgostoso (como sempre) com o panorama de hqs no Brasil - porque não dizer no mundo? - é quase um alento saber que um dia editaram "Os Companheiros do Crepúsculo", escrita e desenhada pelo francês François Bourgeon . Eu me atreveria dizer que é um material para quem esta cansado de heróis uniformizados, humor politizado e mangás. Hoje em dia tá muito na moda quadrinhos autobiográficos (alguns realmente muito bons) eu mesmo sigo por esta vertente embora recheie com cenas de ação num universo antropomorfo. A obra citada aqui não tem nada a ver com isto, trata-se de uma  aventura ambientada na idade média, um retrato quase fiel do período, eu digo quase por que os dois primeiros volumes da série tem como coadjuvantes alguns seres fantásticos muito populares no velho continente, seria algo como o saci para nós. Bem diferente, o terceiro álbum (mais longo), é recheado de suspense e tramas políticas.


As edições que tenho são da finada Meribérica, uma excelente editora portuguesa que faz muita falta. Quando comprei estes álbuns na década de 90, eles já estavam esgotados em Portugal, eu vi a primeira edição ainda em 1988 numa feira de quadrinhos promovida pela Livraria Presença em Brasília, aquela moçinha pendurada de cabeça para baixo e aquele cavaleiro em armadura rapidamente me chamaram a atenção, entretanto o alto valor do gibi não me permitiram compra-lo, só pude faze-lo alguns anos depois em São Paulo.


Fascinado que sou por sagas medievais (cruzadas, templários, o Nome da Rosa e coisas tais) esta se tornou uma das minhas séries favoritas em quadrinhos.
Eu não diria que Francois Bougeon seja um exímio desenhista de figuras humanas, vejam bem, nada errado com elas, muito ao contrário, são realistas, nada idealizadas, me lembram, inclusive um pouco Brueghel e Bosch, o que confere ao tema uma maior força, mas elas acabam perdendo um pouco a vitalidade quando comparadas aos cenários e adereços, esses sim as grandes virtudes deste artista. Soube pelo Arthur Garcia que ele se valeu da maquete de um castelo para poder desenha-lo sob diversos ângulos em "O Último Canto Das Malaterre", tomo que fecha a obra.


Ressalte-se que este autor gosta de protagonistas femininas a  julgar por suas outras séries de quadrinhos, elas são fortes em sua fragilidade, astuciosas e ingenuas, valendo-se de inúmeras artimanhas para sobreviver num mundo repleto de injustiças, estupros e toda sorte de violência física e moral (acho que fui redundante).
Não posso afirmar que seja uma leitura fácil, o texto original francês é arcaico, como se falava mesmo no século XIV, traduzido para um português medieval te obriga a uma leitura atenta.  


Está na moda hoje discutir se quadrinhos é literatura, como que para tentar dar ao mesmo legitimidade, respeito como forma de comunicação, como se eles precisassem se impor por comparação. Bobagem, "Companheiros Do Crepúsculo" prova que as HQs é uma forma de arte autônoma e poderosa.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

APRENDA A DESENHAR - PRIMEIROS PASSOS.


Queridos e queridas, a Editora Criativo teve mais uma vez a ousadia de colocar um novo material meu nas bancas, recebi hoje pelo Sedex as minhas unidades e faço aqui a minha modesta divulgação.
Eu disse que o material era novo mas isto não é inteiramente verdade, trata-se de uma compilação de temas que já foram tratados naqueles módulos de desenho da Escala. Embora em preto e branco (com algumas páginas em azul e vermelho) o livro de 80 páginas ficou muito caprichado. O editor me pediu algumas pequenas mudanças para o formato e, ao contrário dos exemplares da Escala, este não tem problemas de revisão.
Então, se você não pode acompanhar aquelas antigas edições, taí uma nova chance.
Abaixo, alguns exemplos do que você encontrará no volume.
Boa noite a todos.



segunda-feira, 9 de abril de 2012

NADA DE NOVO NO FRONT.



É incrível, ao inaugurar este blog pensei em atualiza-lo todos os dias nem que fosse para dar apenas um oi em consideração a quem se dá ao trabalho de acessar a página, na verdade eu até consegui por um tempo, mas naqueles dias eu estava com muito gás, então apesar dos apertos eu me esforçava para estar mais presente, em não parecer repetitivo. Com o tempo, de posse de algum conhecimento das ferramentas que o blog me possibilita, pude notar que algumas postagens são muito visitadas e outras totalmente ignoradas, daí vieram as dúvidas, vale tanto assim a pena o trabalho? Quem me segue ou me visita esporadicamente está mesmo interessado nas coisas que escrevo?
De qualquer forma, estes dias tem sido complicado me sentar aqui e achar fluidez para me abrir, a mente parece embotada, há sempre uma preocupação irracional com as horas e prazos cada dias mais apertados.
Pra variar, hoje não é diferente. Mais do que nunca virei escravo da minha pranchetinha, nela mantenho o padrão de vida ao qual me acostumei, um trem que corre cada dia mais rápido, e saltar fora não é uma opção.
Sei que tenho um público que mesmo não se manifestando gosta de ver meus desenhos, outros de ler minhas memórias ou comentários sobre algum assunto, há aqueles ainda que curtem ambos, por isto pretendo voltar as certos temas que infelizmente tive que deixar de lado por um período, como por exemplo, a série dos lobisomens gigantes (só faltam dois) e "as maiores hqs de todos os tempos", vou tentar me organizar melhor e ver se consigo uma atualização mais constante.
Até lá, fiquem com uma arte e os esboços do livro de contos do Humberto de Campos.
Vamos nos falando na medida do possível.


terça-feira, 3 de abril de 2012

RABISCOS DESCOMPROMISSADOS.



Pelo jeito estes dias só teremos mesmo esboços aqui no blog, estes são aqueles que faço direto na caneta num bloquinho que tenho para rabiscar aleatoriamente.
Quem sabe na sexta não aparece uma arte mais elaborada?


segunda-feira, 2 de abril de 2012

ESBOÇOS PARA UM NOVO TRABALHO.

Semana passada dei inicio ao novo livro que estou ilustrando, trata-se de uma compilação dos contos do escritor, jornalista e político Humberto de Campos. A editora não me deu maiores informações sobre a obra e nem tive tempo de pesquisar a respeito dela no Google, mas a maior parte das narrativas parecem anedotas (ou sátiras) que tive oportunidade de ouvir algumas vezes (versões diferentes, claro, mas a mesma base); aí vem uma pergunta, teriam sido criadas pelo autor e foram incorporadas à cultura popular ou ele ouviu estes "causos" durante sua vida e agregou-os ao seu repertório?
De qualquer forma o conto intitulado "O Monstro" é uma obra prima, uma obra poética que rivaliza com alguns textos dos melhores escritores do estilo gótico.
Está sendo muito divertido ilustra-lo, é como um bálsamo, principalmente neste período de tensão que tenho vivido desde que começou 2012.
Enquanto não encontro tempo para meus projetos pessoais que me ajudem a fazer catarse ou uma nova fase de vida se inicie, é o melhor que tenho, e estou aproveitando.