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terça-feira, 28 de outubro de 2014

VOLTANDO ATRÁS.





Já escrevi sobre meu álbum intitulado Phobos e Deimos aqui no blog, se quiserem ler um pouco a respeito dele e ver umas imagens é só dar uma conferida no link:  http://eduardoschloesser.blogspot.com.br/2010/06/phobos-e-deimos.html  

Assim como os outros álbuns que criei, este também é a manifestação das minhas insatisfações, é fúria pura. Amargo e desesperançoso, reflete bem o que eu sentia no período que o criei. Visualmente não tem nada a ver como o universo antropomorfo de Zé Gatão.

Ficou guardado na minha gaveta por quase 10 anos e ao longo deste tempo mostrei fragmentos dele para algumas editoras e sequer recebi retorno, a HQM se interessou e ficou de publicar, mas depois de mais de um ano de indecisão resolveram desistir. Normal, a situação não está boa pra ninguém e não convém se arriscar a por na praça um livro, digamos, "duvidoso". E por falar em situação ruim acho que vai piorar mais daqui pra frente.

Chega no cenário uma nova editora, chama-se MINO, pelo pouco que vi dela no Facebook parece que vão lançar uns materiais nacionais muito expressivos, coisa boa mesmo! 
Entrei em contato. Pediram pra eu enviar imagens do livro para dar uma analizada. Ok.
Selecionei 10 páginas de cada história, escrevi minha defesa do projeto e enquanto as imagens carregavam no e-mail, aproveitei para ler uma entrevista que fizeram com os editores. Caso queiram ler também o link é este: 

http://www.oesquema.com.br/vitralizado/2014/10/17/editora-mino-e-o-festival-de-bandas-punk-que-e-o-mercado-brasileiro-de-quadrinhos/

Legal demais a ideia de pegar autores ainda sem os "ranços" profissionais, entendi que é meio que exibir um diamante ainda em estado bruto, gosto dessa ousadia, a falta de refinamento muitas vezes trás o que o artista tem de autêntico. 

Seguindo na leitura, num determinado ponto, algo inesplicável me bateu, não sei dizer o que era. Imediatamente interrompi o carregamento das imagens e joguei na lixeira a mensagem que tinha escrito. Desisti de enviar o Material pra Mino. Sei lá, não é pra mim, não faço parte disso, não poderia. Não saberia explicar mas Phobos e Deimos não seria aceito. 
Estive já em muitos festivais de quadrinhos e em todos eles me senti um corpo estranho, eu não pertencia àquele meio, mesmo produzindo hqs, tive a mesma sensação ao ler a entrevista com a editora.   

No fundo, sinto que Phobos é algo que eu mesmo deva fazer, como o meu primeiro Zé Gatão. Sei que algumas imagens soarão agressivas aos olhos incautos, principalmente as de sexo. Ainda há muita resistencia a certos temas e uma editora não se arriscaria, assim como fez a HQM (e olhem que o editor da HQM é meu chapa!). 

Quando vendo meu primeiro Ze Gatão hoje, eu aviso ao comprador o que ele vai encontrar na obra. Creio que eu tenha que fazer o mesmo com Phobos e Deimos. Como colocarei na praça? Não sei. O ideal seria eu mesmo pagar uma tiragem baixa, mas não disponho de recursos, por mais que as condições para auto-publicação sejam acessíveis hoje em dia. Financiamento coletivo? É uma opção, mas só usaria como último recurso. Veremos. Espero que eu não leve outros 10 anos para retirar essas velhas e já amareladas histórias da gaveta.

As artes de hoje foram feitas para um livro infantil.

Aperto de mãos para os amados e um cheiro gostoso para as amadas. 



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ZÉ GATÃO: DIES IRAE.


Ah, pelo caminhar da carruagem tão cedo não volto aos meus quadrinhos pessoais. Realmente não dá, não é só exatamente uma questão de tempo, mas de paz de espírito e momentos de contemplação para elaborar a coisa como gosto. Não se esqueçam que tenho um álbum prontinho (PHOBOS E DEIMOS) já vai fazer uma década e ainda não tenho a menor ideia de quando isto virá a público, ele ficou quase um ano na HQM sendo cozido e no final acharam que era arriscado demais para a editora. Pena, pra mim este livro embolorou faz tempo, mas ainda gostaria muito de trabalhar em um novo material nos mesmos moldes, histórias que se cruzam, relacionamentos mal resolvidos, sonhos desfeitos, ação, violência e todas as coisas que se tornaram marcas do meu trabalho. Tenho a coisa toda na mente, mas precisaria me concentrar e colocar no papel. Mas primeiro preciso acabar a bio do Poe, dar continuidade ao NCT (que está parado), isto sem contar que preciso desesperadamente de uma linha de serviço que me dê certa tranquilidade financeira, do contrário estrei sempre com a cabeça neste caos. No passado estes vendavais foram forças motrizes para que muitas das minhas hqs ganhassem vida, hoje, com as responsabilidades como chefe de família não é mais possível. As energias se esgotam com o avanço da idade.

Tudo isto, sem contar com o Zé Gatão, tenho uma hq nova dele que está incompleta. Bateu uma vontade doida o ano passado e comecei a trabalhar, depois de umas 10 páginas precisei interromper e nunca mais pude pegar de volta, esta eu terei que concluir, mas para publicar aonde? Não podemos nos esquecer que ZÉ GATÃO- DAQUI PARA A ETERNIDADE ainda está esperando ser lançado pela Devir.
Ainda tenho dois projetos com este felino, mas sinceramente não sei se será possível corporifica-los. Talvez sim, talvez não. Enquanto isto, fiquemos com cenas como esta, que poderiam ter feito parte de uma bela e horripilante história.


Nos vemos semana que vem, se Deus quiser.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

AMARGOS TEMPOS IDOS.



As dificuldades dos dias presentes me reportam aos anos 90 em São Paulo. Lá, durante quase toda a década, foram dias de muita labuta e quase nenhum dinheiro. Trabalhei como capista para algumas editoras e fiz diversas ilustrações para outras tantas, todas publicadoras pequenas (bem, com exceção da Escala, que de pequena nunca teve nada, mas pagava como se minúscula fosse), então grana para dar aquele pulo mais alto nunca foi uma realidade naqueles tempos. Fiz artes para serigrafia e criei estampas para camisetas. Pintei retratos a óleo e tentei fazer a vida com comércio arrendando uma banca de jornal (fiz um post sobre isto) mas nada deu resultado. Nem posso dizer que hoje mudou tanto. Acabei construindo um nome que me permitiu ter acesso a outras portas, em parte por causa de Zé Gatão e também por conta dos álbuns onde eu ensinava a desenhar, que me levaram ao ramo de ilustrações de livros, e isto sim me permitiram ter uma vida menos estafante, pegar uma coleção de muitos títulos dá pra fazer algum planejamento, mas acontece de alguma coisa falhar, como por exemplo mudanças de direção da empresa, ou o autor do livro quebrar o braço e coisas assim. Nem sei bem o que aconteceu nesses últimos meses, e aí é como se eu voltasse no tempo.

Em Sampa, não lembro exatamente quem me apresentou a um gringo, e até hoje não sei exatamente qual a nacionalidade do cara, se era chileno, boliviano ou uruguaio, sei lá, o cara trabalhava confeccionando placas e toldos, fazia um trampo muito caprichado. Ele tinha um personagem de histórias infantis muito expressivo e precisava que eu desse corpo às suas ideias. Fiz umas aquarelas que chamaram muita a atenção de editoras mas parece que o texto dele precisava ser burilado e a coisa deu em nada. Não vi cor de dinheiro com aquilo, exceto uns trocados que ele me levou umas duas vezes para me estimular a fazer o meu melhor. Quase tudo que eu ganhava com meus frilas eu mandava pra Samanta, minha filha. Sempre paguei os estudos dela, aliás, a única coisa que pude fazer.

No período deste gringo eu já namorava a Verônica, mas um pouco depois destes acontecimentos ela voltou para Pernambuco e o gringo me procurou para falar de um outro trabalho. Um coroa, muito distinto assumira um dos tantos cinemas de putaria do centro da cidade, reformou e tentou torna-lo um local decente (se é que dá pra chamar assim) para assistir um pornozinho, contratou seguranças para fiscalizar e impedir que os veados ficassem se pegando no banheiro ou no escurinho da sala de projeção. Nesta época muitos cinemas desta natureza não usavam mais o bom e velho projetor de 35 milímetros, mas um sistema de projeção em VHS, ou seja, numa cabine o vídeo cassete rodava o filme e de uma forma que não saberia explicar, o filme era projetado no telão.

O referido cinema (que não lembro mais o nome - me perdoem) ficava no Largo do Paissandú. Exatamente nesta rua à direita de quem vem do Anhangabaú.

O coroa planejava decorar as paredes dos corredores do cinema com figuras de mulheres bonitas e o gringo me indicou como a pessoa certa para a tarefa. Como estava precisando muito de dinheiro, aceitei a mixaria que me ofereceram. Já tinham até os modelos a serem retratados, todas de revistas eróticas. Executei, se não me falha a memória, umas dez pinturas naquelas paredes, todas entre dois e três metros. Eu misturava corantes na tinta acrílica branca, própria para pintar casas e assim ia encontrando os pigmentos. Era uma trabalheira do cacete, o gringo fazia as misturas, mas depois de um tempo vi que o cara tava perdendo o tempo dele, ele ganharia mais fazendo seus toldos, dispensei-o e fiquei lá sozinho, perdido nos meus pensamentos, me perguntando porque não virei, sei lá, biólogo, astronauta ou oceanógrafo. Minha alquimia me permitia encontrar com relativa facilidade o tom de pele, mas o mais difícil era desenhar na parede e deixar o desenho proporcional, eu subia e descia uma escada vacilante mil vezes até que estivesse do meu agrado, só então eu começava a pintura.
Sabia que ninguém se interessaria por perfeição naquelas obras, mas eu nunca consegui fazer algo que não estivesse bom o suficiente, se a arte não presta, vai pro lixo. Eu tinha que ilustrar aquelas beldades o mais próximo da realidade que me fosse possível com aqueles parcos materiais. Sem modéstia, alguns ficaram muito bons, outros não consegui, mas depois de uns dez dias (eu pintava um painel por tarde) cheguei a um ponto em que tive que me dar por vencido e não caprichar demais, não seria valorizado e o dindim não compensava.
Quando pintei as modelos próximo à entrada do estabelecimento fiquei com medo de ser visto pelo meu pai, ele sempre passava por aquela rua em determinada hora da noite quando voltava do escritório de um amigo dele, não seria legal ele me ver num ambiente daqueles, mesmo que fosse apenas a trabalho. Mas felizmente nunca aconteceu.

Enquanto executei o serviço aconteceram uns fatos pitorescos. A moça que ficava na bilheteria era uma morena alta e bonitona, sempre que ela tinha um intervalo vinha bater papo comigo e me cobrir de elogios pelas pinturas, pra desespero de um dos seguranças, que mesmo sendo casado dava em cima dela. A esposa do cara tinha dado luz a uma menina e ele não sabia que nome daria à criança. Sugeri um nome comum, é melhor que ficar inventando. "Estou pensando em chamar de ANANA." disse o infeliz. "Não, cara, Anana rima com banana, não faça isso com a sua filha"- disse eu, mas foi o mesmo que falar com uma porta.
Uma noite entrei na cabine onde estava a morena, para tomar um copo de água e ela assistia o filme pelo monitor. A cena mostrava uma loirinha bombada sendo possuída por trás por um cara cavaludo, com boa dose de fúria. "Como alguém pode aguentar uma coisa dessas?"- perguntei. "Um sexo selvagem as vezes é muito bom!"- respondeu ela. Eu estava sentado ao lado dela e ela apertou o meu joelho levemente. Tentação grande, mas eu acredito em fidelidade, fiz que não percebi e voltei ao trabalho.
A garota não foi mais falar comigo. Perguntei se tinha acontecido alguma coisa e ela respondeu que estava chateada comigo porque eu não havia dito que era casado e que tinha três filhos. Meu primeiro impulso foi dizer que não tinha satisfações a dar a ela, mas apenas respondi que não era casado e só tinha uma filha que morava no Rio de Janeiro. "Ué, mas o segurança me garantiu que você era casado e traía a sua esposa!" "Bem, o cara é um puta mentiroso, mas que diferença isso faz?" Evitei contato o máximo que pude, aquilo não podia dar boa coisa.
Havia um outro segurança lá, um cara alto, gordo e imbecil, com uma voz bonita pacas. Era locutor de rádio, mas estava na merda, como eu. O cabelo do cara eu preciso descrever aqui: era comprido mas com as orelhas de fora, no topo da cabeça era como se fosse o ninho de um condor. Na boa, nunca vi um sujeito pra falar tanta bobagem. Eu o evitava como a uma praga.

Uma vez o meu empregador veio com uma foto da escultura do Príapo, aquela figura bizarra de tranças na barba e patas de bode com um enorme pênis em riste e pediu-me para pinta-lo na parede do corredor após a roleta. Era um local mais discreto. Fiz a contra-gosto. Procurei na net uma imagem da estátua pra postar aqui mas mudei de ideia por ser de muito mau gosto.
Recebi pelo trabalho e me fui com mais esta experiencia nas costas.
Não posso negar que toda vez que passava pelo Paissandú eu ia rever as minhas pinturas. Ficaram boas. E com desgosto eu notava que vândalos pichavam  caralhinhos na direção das nádegas das moças, balões de pensamento com frases obscenas e por aí adiante. O segurança devia estar pegando a morena para não ver isto. Ao fim de alguns meses, as pinturas estavam bem sujas e maltratadas.
Pena que só existe uma foto meio desfocada que o dono do cinema tirou de mim no topo da escada malemolente enquanto eu passava tintas num dos desenhos, mas ela deve estar num dos álbuns da minha mãe.

Tempos depois recebi um recado do dono do cinema para procurar uma certa mulher num prédio que ficava na Avenida São João, próximo da Galeria do Rock. Lá, todo um enorme apartamento estava sendo reformado para virar uma casa noturna, na verdade, um puteiro. Fui atendido por uma moça coxuda, de shorts curtíssimos, puta toda vida, que dizia ser a gerente do local. Queria que eu pintasse uns casais transando nas paredes. Tinha que ficar tudo pronto em três dia para a inauguração, a grana era ainda menor do que haviam me dado no cinema e eu já estava de saco cheio daquele tipo de coisa. Falei que tinha outro trabalho e não poderia atende-la. Ela perguntou se eu não indicaria alguém. Falei que não conhecia ninguém. Me mandei, pra mim tinha sido o suficiente.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

NUMA E A NINFA ( CENA 6 )


Prezados e prezadas, muito bom dia.

Fiquem com mais uma cena deste clássico.
Seguimos nos falando.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CROWNDFUNDING.



Bom dia, amados e amadas.

Parece que não tem jeito mesmo, acho que daqui até o dia da minha partida vou andando sempre em ritmo acelerado, não consigo mais sentar aqui com calma e elaborar um texto com tranquilidade, assim como as artes são sempre urgentes, sempre pra ontem e aquelas que me nascem da alma, que namoro um tempo antes de acha-las dignas de serem públicas, vão morrendo nos esboços ou dentro da minha mente. Dada a pressa, pois tenho coisas urgentes pra fazer daqui a pouco, vou digitando e sem fazer revisão, então se encontrarem muitos erros, relevem, please.

Pois é, o Crowndfunding, né? Parece uma coisa muito legal (e é, de fato), mas nunca achei que fosse válido para mim. Entrando em qualquer destes sites de financiamento coletivo, onde o Catarse parece ser o mais popular, encontramos inúmeros projetos legais precisando de apoio, fica até difícil selecionar um para abraçar. Em se tratando de histórias em quadrinhos, então, nem se fala! Um melhor que o outro. O que são 10, 20 ou 30 reais? Com este valor você come num fast food e olhe lá! Estes valores podem tornar realidade o sonho de um artista em ver seu trabalho publicado e nas mãos do público. E aí vem o meu porém: vejamos, tenho um projeto em mente, convoco o público interessado a bancar a produção. Preciso de X em dinheiro para lançar um número Y de exemplares. Se a cota alcançada for no limite do que se tinha imaginado, os contribuintes receberão o item em casa com alguns bônus exclusivos. Muito justo, eu que me interessei pelo projeto, paguei por ele, recebo por ele. O problema é que não criamos um mercado. O material não circula, não fica exposto nas prateleiras das livrarias, bancas e etc, não atingem um público amplo. Imaginemos que a cota alcançada supere o que eu tinha sugerido, posso imprimir um pouco mais e comparecer nos eventos para vende-los e tals, ou mesmo pela internet, mas esbarra-se sempre na questão da divulgação e distribuição que é sempre precária. É certo que o SEU público, havido por ler suas obras, pagaria para tê-lo em mãos com muita satisfação, principalmente com a comodidade de rebe-lo em casa, autografado e com desenho exclusivo, mas um possível novo leitor, creio, nem fica sabendo da empreitada. Quantos já foram publicados sob este sistema e nem sabemos que existem? Eu mesmo me espanto com a quantidade de coisas que saem desta maneira e só vou tomar conhecimento por um destes canais sobre HQs do Youtube.

Acho então inválido o sistema de financiamento coletivo? De forma alguma, pelo contrário, é uma forma legítima de publicar seu material, de atingir ou formar um público, ainda que reduzido, em certa medida. É uma forma de realizar o sonho de ver suas ideias compartilhadas por outros. Só acho uma pena que tenha que ser assim, você ter que bater nas portas das pessoas, fazer campanha quase como um político, para arrecadar grana e trazer seu trabalho à tona.

Fica evidente que temos produção, a qualidade chega a surpreender de tão boa, material de todo tipo, e parece não ter público para estimular editoras a fazer o que elas deveriam fazer e assim ter um terreno extremamente fértil de quadrinhos até para exportar.

Muitos já me sugeriram o sistema crowndfunding; ao invés de esperar as editoras publicarem meu Zé Gatão e outros álbuns, eu deveria publica-los eu mesmo com a ajuda do público.
A ideia me passou pela cabeça, mas não sei, esbarro em dois problemas: falta de tempo para administrar a divulgação que é necessária e a execução dos prêmios aos contribuintes, além de gerenciar toda a produção do álbum, papel, gráfica, envio pelo correio e por aí vai. Tem também a questão da minha autoestima, tenho sérias dúvidas se eu alcançaria a cota almejada. Até mesmo os livros que ainda são disponíveis no mercado, muitas pessoas próximas a mim não compraram, que dirá pagar por algo que ainda será produzido.

 
Disse isso tudo porque recebi uma ligação de um dos membros da PADA. Estão interessados em relançar aquele álbum do Zé Gatão que eles colocaram na praça em tiragem limitadíssima em 2011, desta vez pelo sistema de financiamento coletivo (conheço gente, fã do felino cinzento, que vai dar mil pulos de alegria).
Respondi que só concordaria se pudesse adicionar algumas histórias extras no volume, duas delas coloridas. Vamos marcar uma reunião para acertar tudo. Se rolar, só vou topar porque eles é que vão tratar de toda a produção e divulgação do álbum, eu me ocuparei de ceder as histórias e confeccionar os brindes, que penso serão desenhos originais (terei que dar nó em pingo d´agua) e camisetas com estampas exclusivas, mas vamos ver, até lá muita água vai rolar debaixo da ponte.


Bom fim de semana a todos.    

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ZÉ GATÃO POR ALLAN ALEX.


Sempre achei muito espinhoso o caminho trilhado por aqueles que pretendem viver de arte. Viver mesmo, falo daquele que tira seu sustento da sua escrita, de suas cores e pinceis, ou instrumentos, melodias, de suas histórias em quadrinhos, da lente de sua câmera ou de sua poesia, não me refiro aquele que faz arte por passatempo (na falta de palavra mais adequada). Isto porque a arte, embora de suma importância para a vida, não é devidamente compreendida e aceita por todos num determinado momento e ainda poderia se argumentar que é supérflua; em outras palavras, dá para viver sem imagens e cores, mas não se vive sem pão nem água. Arte é algo que não tem preço mas não custa barato. Quem consome arte é quem tem grana para gastar, o artista gosta é de dinheiro, não dá pra ser muito romântico quanto a isto. É bem verdade que ele faria arte mesmo passando fome (Van Gogh, Mozart, Poe) mas se puder se alimentar dos frutos de seu ofício, melhor, claro.

Mas comecei a divagar, como sempre, o que pretendia mesmo dizer é que apesar dos reveses da vida de artista pobre existem muitas satisfações. Deixando de lado as óbvias, uma delas é quando encontramos no caminho outro visionário com quem nos identificamos, não exatamente o traço e as ideias mas na forma em comum de ver a vida e tentar corporifica-la no branco do papel.
Eu já tinha ouvido falar no Allan Alex, mas nunca tinha lido nada dele até que tive nas mãos O Cabeleira, adaptação em quadrinhos da obra do Franklin Távora. Na minha opinião uma das melhores hqs de todos os tempos. Uma narrativa e ângulos de câmera que me faltam palavras para descrever de tão brilhante. Virei fã no ato.

O livro O Cabeleira, que ilustrei, nos aproximou e nos tornamos amigos. Tudo que meu pobre vocabulário pode afirmar é que o Allan não é só um grande artista, um dos maiores (sem o devido reconhecimento, evidentemente), mas um ser humano na mesma proporção. Talento e humildade, duas qualidades cada dia mais raras neste meio.

Semana passada este fabuloso ilustrador me presenteou com esta pinup do meu personagem. Ela fala por si só.

Recebo este carinho sabendo que não sou merecedor, mas muito agradecido.
Deus te abençoe, meu irmão de pincéis e lutas.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Um conto sobre o Universo Antropomórfico de EDUARDO SCHLOESSER escrito por LUCA FIUZA.



A PONTE TRÁGICA

 Em um vilarejo interiorano sem luz e sem os confortos da vida moderna residia uma comunidade canina simples e ordeira que vivia dos produtos da terra. A única sombra de progresso que havia surgido há alguns anos era a linha férrea que trazia uma fumarenta e ruidosa locomotiva atrelada a velhos vagões de carga. Todo fim de mês a mesma parava na pequenina, mas bem construída estação para recolher os frutos do suor daqueles animais. Estes produtos livres de agrotóxicos iam abastecer as cidades da região. O lucro deste comércio não era muito. Contudo, era suficiente para aquelas criaturas simplórias terem uma vida decente dentro dos padrões a que se achavam acostumados.

Tempos depois surgiu nas cercanias um gigantesco Dogue Tedesco de índole má. Corpo musculoso de cor branca com manchas pretas. Voz trovejante e baba farta escorrendo pelas comissuras dos lábios frouxos, olhinhos brilhantes e cruéis. O indivíduo cismou em se postar o dia inteiro no meio da pequena ponte de pedra sobre o rio. Esta ponte separava o vilarejo da estação de trem. O brutal canídeo vociferou estático em sua posição que só passaria quem conseguisse vencê-lo em um duelo. O gigantesco canino portava um estadulho, pedaço de pau nodoso com o qual moía os ossos dos tolos que tentaram desafiá-lo. E houve muitos. Facilmente o monstruoso Dogue atirava seus oponentes com ossos quebrados nas águas geladas do rio abaixo da ponte. Em um destes embates um cachorrão forçudo que era o ferreiro do vilarejo aceitou o desafio. Este deu um pouco mais de trabalho ao Dogue, mas um certeiro golpe no meio do crânio atirou-o às águas, onde desapareceu para nunca mais ser encontrado.
Então, proibidos de atravessar a ponte, os pobres habitantes do vilarejo viram seu meio de sustento cortado, uma vez que não podiam mais levar seus produtos para o trem que parava mensal e religiosamente na pequena estação. Nem os protesto do maquinista, um porco grande, rosado e balofo, valeram de alguma coisa, Foi expulso a pauladas pelo grande Dogue que gargalhou até quase rebentar. Nem à noite era possível atravessar a ponte. O enorme cão aparecia não se sabe de onde e punha para correr o atrevido. Tentaram atacá-lo em grupo, mas seu nodoso estadulho girando em suas mãos como uma hélice espancou duramente os infelizes que acharam que podiam dominá-lo. A sombra da penúria pairava sobre o vilarejo e o pior de tudo é que os habitantes da malfadada vila eram forçados a pagar tributos em gêneros e toda a semana mandar uma cadelinha nova para saciar o inesgotável apetite sexual daquele que os tiranizava.

Certa manhã, um estranho apareceu na vila vindo do norte. Era um enorme gato extremamente musculoso, cinza, as suíças e os pelos nas pontas das orelhas denotavam que era um mestiço de gato e lince. Tinha um ar grave e era de poucas palavras. Mesmo assim, procuraram tratá-lo bem, desculpando-se pela frugalidade da refeição que foi oferecida na casa da esposa do ferreiro morto. Cochichando, contaram ao felino seus dissabores. Em princípio, o gato pensou que não era assunto seu, mas quando viu algumas mães tristemente escolhendo suas jovens filhas para serem entregas em holocausto aquela fera, o sangue lhe subiu a cabeça.
Em passos decididos, o felino cinzento foi até a ponte e caminhou por ela parando no meio bem de frente para o Dogue colossal que o encarava de cenho fechado.  O tom de voz do Dogue parecia um ronco e tinha um forte sotaque quando indagou rispidamente:
- Que querr aqui, gato?! Veio desafiarr a mim?
- Vim arrebentar tuas fuças e te deixar mais feio do que já é! – O canídeo riu estrondosamente.
- Onde estarr sua estadulho? Pensarr poderr vencerr a mim com seus mauns nuas? Tomarr este faca e corrtar uma estadulho parra focê! – Desdenhosamente, o enorme cão atirou um facão que trazia à cinta aos pés do felino taciturno. Sem nada dizer, tomou-o e habilmente cortou um galho de uma árvore próxima desbastando-o até confeccionar um estadulho rijo semelhante ao do oponente.
Os adversários não trocaram mais nenhuma palavra. Partiram para o embate duro, encarniçado, brutal! Os habitantes da vila foram chegando aos poucos enquanto o combate recrudescia. O som dos estadulhos se chocando era alto e assustador. De repente, o Dogue deu um golpe inesperado e animalesco, só não atingiu o felino devido a sua presteza em bloquear o formidável ataque. Golpes em cima de golpes eram aplicados, mas os dois combatentes mostravam que não eram principiantes e não se deixavam atingir, bloqueando, embaixo, em cima, saindo de uma investida lateral, o suor porejando em bicas, os rostos convulsionados, respirações sibilantes.
Inesperadamente, uma forte paulada atingiu de raspão as costelas do grande gato fazendo-o grunhir de dor.Tomado de dor e fúria mas decidido a não se dobrar, o felino avançou desferindo uma sequencia de golpes que atingiram a lateral do tronco do oponente, seguida por uma pancada na cabeça que fez o gigante curvar-se já vendo estrelas. Sem piedade, o mestiço invocado malhou o lombo do infeliz cachorro até que ele caísse vencido, ganindo penosamente - um ganido grosso e desesperado. Uma baba grosa lhe caía pelos lábios frouxos molhando-lhe o peito. O gato se quisesse poderia dar o golpe final naquela fronte derreada, mas conteve-se. Os dois ficaram se encarando longamente. Num átimo, o canzarrão mexeu-se ofegante de dor e se atirou nas águas do rio. Ali sumiu para nunca mais ser visto outra vez.
  O felino sorumbático partiu sem esperar agradecimentos daqueles animais simples e bondosos. Passou como uma sombra naquela comunidade, mas ficou para sempre lembrado como aquele que viera na hora mais sombria para libertar do calvário aquela vila esquecida.

Luca Fiuza em 30/07/14.