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domingo, 9 de dezembro de 2018

A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE FINALMENTE PUBLICADO!!!!


Boa tarde a todos!

Pensem em um cara cansado: esse sou eu!

Hoje acordei perto de 5 da matina; acordei não, me acordaram. As lutas do dia a dia - e noite a noite -  não cessam. Mas ok, vamos seguindo sempre em frente.

Esta é a coleção do Matheus Garcia, que escreveu a minha biografia e a do Lucchetti no livro do Poe.

A boa notícia é que a campanha pela biografia do Edgar Allan Poe em quadrinhos foi muito bem sucedida, a meta foi triplicada, graças a Deus! O livro já está impresso, só não recebi ainda, deve demorar um pouco, mas a editora já começa o envio para as pessoas que contribuíram.

Uma coisa quero que fique bem clara, a campanha foi feita pela Editora Clepsidra, não por mim, então, não respondo por isto.

Mais uma etapa vencida na minha vida, glórias a Deus!

Ainda existem álbuns de quadrinhos com minhas artes a sair, estou aguardando e trabalhando em uma nova aventura do Zé Gatão (que está estacionado de novo).

Por hoje é isto.

Abraços e beijos pra vocês!

domingo, 2 de dezembro de 2018

A VELHA GUARDA.


Houve uma manhã esta semana, não lembro exatamente qual, acordei com o dia raiando, os primeiros lumes do sol expulsava a madrugada. Precisava ligar a bomba d´água, Vera toma banho logo cedinho. Caminhei até o portão, vinha um vento fresco oriundo da praia que fica a umas três quadras de onde moro. Observei o céu que prometia mais um dia quente e me veio à memória as palavras do salmo 121: "Elevo os meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que criou os céus e a terra".
Preciso deste socorro estes dias mais que nunca. Mas tenho que esperar com paciência, tudo acontece no momento certo.

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Qual será a música mais famosa dos Beatles? Yesterday? Hey Jude? Help? Eu diria que é Yesterday. E dos Rolling Stones? Satifaction? Lady Jane? Angie? Eu penso que seja Satisfaction.
Vou falar abreviadamente de música hoje, uma das poucas coisas, além do desenho, que me acalmam a alma. Mas não de música gringa, mas das canções que ouvi quando moleque.

Minha avó ouvia sertanejo de raiz, Tonico e Tinoco, Trio Parada Dura, Cascatinha e Inhana e muitos, muitos outros. O rádio de pilha vivia ligado. Ela acordava muito cedo, tipo as 4 da manhã para fazer café e era nestes momentos que eu ouvia as músicas de viola caipira com mais frequência.

Eu falei de Beatles acima não foi? Pois bem, acho que em 1968 eu ouvi Hey Jude. O longo refrão "Hey Jude, da, da, da, dá...." vinha de alguma casa onde o rádio estava ligado na maior altura. Lembro de ouvir também o Brucutu na voz do Roberto Carlos, aliás, quase tudo que tocou dele e de outros da Jovem Guarda.
Durante os anos 70, além dos gibis eu era viciado em rádio, ouvia de tudo, os bregas eram muito frequentes naquele período: Vanderley Cardoso, Jerry Adriani, Nelson Ned, Odair José e etc. Houve uma invasão muito grande de músicas internacionais no Brasil no período de regime militar, não só de língua inglesa mas muita coisa francesa e italiana, muita mesmo.
Acho que isso desenvolveu em mim um gosto bastante eclético, não tenho preconceito em relação a este ou aquele estilo musical, existe sim a música que nos soa bem à alma e outras nem tanto, refinamento é algo muito particular.

Mas quero comentar aqui sobre os anos de 1975 e 1976 onde tocava muito na vitrola de casa alguns discos que meus pais gostavam de curtir. Minha mãe ficava com Ângela Maria, Orlando Silva, Ataufo Alves, Sergio Bittencourt, Agnaldo Rayol, entre outros e meu pai com Nelson Gonçalves, Noite Ilustrada e mais alguns que me fogem da memória agora. Eu gostava também daquelas letras cheias de romantismo e poesia. Eram cantores de verdade, não os enganadores da chamada MPB (se bem que eu gostava do Caetano e do Gilberto Gil). Mas teve uma época em que comecei a ouvir rock pra valer em que eu reneguei isso tudo. Coisa de adolescente descolado que se julgava antenado e essas velharias era coisa de gente quadrada.
Certa vez meus pais deram uma festa em casa para seus amigos (nossa casa na SQS 202 era frequentada pela nata da política brasiliense, até um ministro não sei das quantas aparecia em nosso apartamento. Era muito comum receber visitas ilustres, aqueles coroas com sua mulheres distintas, perfumadas e cheias de joias para tomar uma sopa de cebola que fez minha mãe famosa entre eles). Em muita dessas ocasiões eu e meus irmãos ficávamos no quarto com minha avó vendo tv.  Bem, o caso é que nesta festa em particular o som era alto, os sofás foram afastados e a dança rolava solta na voz de caras como Cauby Peixoto. Era comum a moçada mais nova entrar de penetra onde rolava uma festinha na quadra. Então eu vi uns caras que eu conhecia entrando pela porta sorrindo debochadamente do estilo musical que rolava. Caramba, pensei, esses caras vão me sacanear pelos séculos dos séculos, doravante. Morri de vergonha. Não ficaram muito, logo se mandaram. Nos dias seguintes ninguém comentou nada, provavelmente não se ligaram que era a minha casa.
Sendo bem sincero, eu não ouço mais essas músicas, só gosto de me ligar em algumas criações do Lamartine Babo que sempre achei um gênio. Mas sei que artistas como aqueles hoje não existem, não há lugar para eles, letras e melodias como aquelas não fazem mais. O axé, o funk e o sertanejo universitário tomaram conta de tudo.

Os nordestinos tiveram um papel importante nos fins de 70 na minha vida: Luiz Gonzaga, Zé Ramalho, Ednardo, Belchior, Fagner, Raul Seixas (bem, Raul veio bem antes).

Neste fim de ano de fel eu quis relembrar aqueles tempos mais amenos. Só isso.

Apesar de tudo, meu trabalho prossegue, executo uma pintura de matizes bem complicados para um amigo e o resultado tem me agradado bastante.

O desenho de hoje foi uma encomenda, um lápis simples.

 

domingo, 25 de novembro de 2018

ZINE CABAL


Ah, fazer tudo que planejo, tomara fosse possível! A mente não para, não repousa, elabora coisas, imagens, palavras.... os vendavais de sentimentos que pedem um corpo na branca imagem do papel (ou da tela). E onde encontro tempo para que estes fantasmas ganhem alguma estrutura? São tantas pequenas coisas do dia a dia, a labuta pelo pão nosso....e a fadiga preenche tudo!

Tenho tirado o pé do acelerador...não vale tanto a pena o esforço praticado. Arte, pra maioria das pessoas, não acrescenta nada. E o que é verdadeiramente arte? Aquela que disputa os olhares das pessoas nas paredes dos museus, podemos dizer? Guardando as devidas proporções, o que falar dos desenhos postados em blogs ou páginas de redes sociais? Eu realmente não sei.

Como posso, da maneira que posso, minhas ideias vão ganhando carne, compleição, robustez ao lado dos trabalhos que colocam comida na mesa. Sei que muitas dessas quimeras se perderão com o tempo, como foi com tantas outras ao longo dos meus anos, algumas viraram almas penadas que as vezes vem me assombrar, mas estão fragmentadas demais para que eu possa reconstituí-las, dar a elas uma imagem a ser visualizada por alguém.

As vezes eu paro na estrada em que caminho, olho em redor, não há nada além de mim (nem poderia). Observo às minhas costas, o caminho longínquo, cheio de junções se mostra difuso, embaçado, perdendo totalmente o colorido. À frente, apenas vislumbres do que poderá ser, em meio a escuridão. Prossigo, com extremo cuidado um passo após o outro.

Comentava com um amigo que seu eu pudesse pleitear algo em particular agora que vou entrando nos dias de velhice, seria um pouco menos de pressão na lida cotidiana, um tempo para mim, para pintar minhas telas a óleo, produzir algumas esculturas em argila, um lugar sossegado para ler meus livros e gibis, um toca disco para ouvir meus vinis. Pode não parecer, mas eu acho que é pedir demais.



Existem muitas vantagens de ser um ilustrador querido por algumas pessoas, além do carinho das mensagens para meus desenhos, recebo presentes em casa. Livros, revistas e prints.


CABAL é um fanzine muito caprichado. Material de ótima qualidade, não só na impressão como no conteúdo. É um quadrinho que me lembra muito umas publicações que eu via em bancas nos anos 70. Naquelas edições, fosse a narrativa de faroeste, detetive ou terror, a única preocupação era contar uma boa história, nada de ideologias; os desenhos, uns muito bons, outros mais amadores, deixavam entrever o esforço do artista em se mostrar claro ao leitor. Hoje muito disso se perdeu, infelizmente.


O responsável pela publicação é o Clodoaldo Cruz - a quem agradeço o carinho em me enviar as edições - e, como não podia deixar de ser, é uma publicação mix; tem de tudo um pouco, ficção científica, terror, noir, pin ups e entrevistas com autores e desenhistas veteranos e novos (teve uma edição muito boa com o lendário Júlio Shimamoto).


O carro chefe da publicação tem como tema histórias detetivescas em uma cidade chamada CAT'S CITY, onde um felino assassino é o protagonista. Não há outros antropomorfos, apenas gatos. Há um "Q" de Zé Gatão ali? Pode ser. Mas o tema é diferente, a filosofia da coisa é diversa.


O fanzine, na verdade uma revista que poderia muito bem ser vendida em bancas do país, é muito bem editada e conta com roteiristas e desenhistas muito competentes. Como eu disse, ela me recorda as HQs de um tempo menos corrido e concorrido.


Tem um um e-mail no expediente da revista, imagino que se alguém se interessar possa escrever para lá. É: zinecabal@gmail.com


MEUS PARABÉNS A TODOS OS ENVOLVIDOS NA PRODUÇÃO DA CABAL e que ela tenha longa vida e possa chegar às mãos de mais pessoas.

E vamos em frente!

sábado, 17 de novembro de 2018

COMENTANDO NOVAMENTE SOBRE A HISTÓRIA DA ÁGUA.


Na minha existência eu fiz inúmeras tentativas de viver dignamente da arte. Numa outra vida - porca vida - eu pintei uns pequenos quadros de paisagens e cavalos em sua vida selvagem e temas religiosos em papel camurça para vender na Praça XV, no Rio de Janeiro. Neste mesmo tempo, executei cenários e paisagens nas paredes de casas e igrejinhas evangélicas. Nunca levei mais que alguns trocados.

Pintei retratos por um tempo mas foi um serviço muito inglório, além de nunca pagar muito. Fora os trampos que fiz de graça para ver se eu "aparecia" para o público.

Trabalhei também para agências de publicidade, naquela época, meados dos anos 80, como eu era amador nunca recebi um salário digno, eu era sempre o "auxiliar de desenhista", ou arte finalista, como queiram chamar, além de ser um ofício dos piores que já enfrentei, um dia conto com mais detalhes, UMA POSTAGEM PRÓXIMA SOBRE ISTO PODE SER UMA BOA!

Pintei enormes painéis de mulheres em poses sensuais em cinemas que exibiam putaria no centro velho de São Paulo e só me renderam fadiga e uma grana minguada.

Quadrinhos? Isso não dá dinheiro no Brasil, já disse e repito: eu só faço por ser uma eficaz forma de desabafo.

Eu me saí melhor ilustrando livros. Isso deu um dinheiro razoável e quando se tem tempo e liberdade para fazer é algo prazeroso, mas durou pouco.

Nunca tive competência para me vender ou autopromover.

Fiz também algumas tentativas de mercadejar material didático para empresas governamentais. Uma delas foi para a Compesa aqui de Pernambuco. Não deu certo também. Mas ainda acho a ideia muito boa.

Fiz uma postagem sobre isso lá nos meus primórdios deste blog (19 de maio de 2010, pra ser exato), que reproduzo abaixo.

O mais triste disso tudo é que os originais que criei como modelo do que eu tinha em mente foram perdidos na burocracia desta merda toda. O que ficou foram as imagens em baixa resolução exibidas aqui.

Beijos a todos e até semana que vem, se eu ainda estiver vivo!

A HISTORINHA DA ÁGUA

"Nunca me senti a vontade trabalhando com material infantil. Acho extremamente delicado, e tem sempre um monte de pedagogo dono da verdade dando pitaco. Geralmente essas pessoas subestimam a inteligencia dos miúdos e não entendem nada de arte.
 Mas indo ao que interessa, recebi uma proposta de criar um gibi educacional para a cia. de águas aqui de Pernambuco. O empreendimento envolvia criação de personagens e tal. Bem, mergulhei de cabeça na ideia e fiz estas quatro modestas páginas e alguns esboços de personagens pra ver no que
dava. Não é nada novo, mas achei legal a ideia da própria água vir defender o seu peixe. Minha concepção para o programa, era de um gibi de vinte paginas exortando para os perigos do desperdício e sugerindo formas de se preservar o meio ambiente. Teríamos também passatempos e etç.
 As quatro páginas vistas aqui eram apenas um layout do que seria o trabalho como um todo.
Infelizmente, como tantos outros intentos, este também não aconteceu.
Mas se tivesse dado certo provavelmente a personagem água não teria tantas curvas,"os donos da verdade" alegariam que não é legal pra molecada ou que ela é muito agressiva em suas argumentações.  Estariam eles certos?"






terça-feira, 13 de novembro de 2018

ECOLINE (revisitado)



Atire a primeira pedra aquele que nunca usou material ou equipamento da empresa em que atuou para fazer um trabalho pessoal. Quê?!? Você nunca fez isto? Putz, então eu devo ser o único!

 Foi assim, eu sempre tive vontade de trabalhar com ecoline mas este produto era caro demais (não sei se ainda é), nunca pude comprar. Durante quatro anos atuei como desenhista numa empresa em Brasilia e lá no departamento de arte, aqueles vidros de ecoline ficavam olhando pra mim como quem olham para um abismo, implorando pra serem usados, para cumprirem a função para a qual foram criados e eu resistindo a tentação. 
Perguntei para o meu chefe quando iriamos usar o ecoline e ele displicentemente respondia que um dia qualquer quando houvesse uma arte em que ele fosse necessário. Obviamente aquilo nunca ia acontecer pois o máximo que eu fazia era ilustrar apostilas, criar cartazes , folders e mala direta. Nunca criava um desenho artístico pra valer.

Certa tarde, sozinho na sala, não suportei mais e parti pra cima do ecoline. Com roupa e tudo. Bem, o resultado da travessura foi a arte que vocês conferem nesta postagem. Divertido e ao mesmo tempo desafiador, um tanto complicado, devo admitir.

O rosto do tiozinho foi feito com guache, no total acho que levei uma meia-hora pra terminar. Foi a unica vez que usei esse material. 

Senti que por isso merecia registro.

EXCELSIOR!


ADEUS, STAN!

BOM DESCANSO, MEU CARO!



domingo, 11 de novembro de 2018

REFLEXÕES SOBRE ANGÚSTIA, MEDO E MORTE ( parte um de três ).


Ed Palumbo tinha mais de sessenta anos, era desenhista, ele mesmo não sabia se era dos bons ou daqueles que se achavam bons e na verdade não passava de um merda como muitos que ele conhecia. Muitas vezes ele pensava que era ruim porque nunca obteve o sucesso comercial e vivia na pindura, mas por outro lado conviveu com muitos artistas medíocres que fizeram sucesso e tinham fama e grana. Sabia que esse negócio de grana e fama era algo relativo e não tinha como ser medido, mas na profissão dele, triunfo era viver sem pensar nas contas, ser convidado para eventos internacionais, viajar, ser tratado com respeito e isso nunca aconteceu com ele. Palumbo nunca foi mencionado nos canais direcionados às novelas gráficas, nos sites especializados e tutti quanti. Teve, em tempos passados, quando publicou alguns quadrinhos de aventuras, notas nos jornais, quando estes ainda tinham seu prestígio, mas as novas gerações não estavam nem aí. Talvez estivessem certos. Fosse como fosse, para ele não fazia mais diferença. O que o permitia viver sem mendigar em alguma esquina era um grupo de fãs dos seus traços e cores, pessoas que o acompanhavam de longa data e encomendavam artes particulares a um preço que o permitia seguir sua existência.

Ed vivia num pequeno apartamento de um pequeno prédio sombrio situado numa pequena rua deserta de uma cidadezinha decadente. Neste período do ano entrava pela fresta de sua janela um vento gélido que o fazia pensar nos tempos difíceis, no aluguel, na morte e contas atrasadas. O antídoto contra isto era se sentar em sua minúscula prancheta e trabalhar em seus desenhos, sempre ligado a um pequenino aparelho de som e ouvindo músicas românticas antigas, jazz de outrora e música clássica. Tinha um aparelho de televisão mas raramente assistia alguma coisa, a programação das tvs abertas eram uma bosta e ele já tinha perdido tempo demais na vida.

O seu edifício era composto de um térreo e mais dois andares. Ele morava no segundo. No terceiro vivia um casal de idosos, que eram os síndicos e viajavam muito. No térreo morava um bonachão aposentado chamado Bonifácio, que vivia só e não se metia com ninguém, raramente era visitado por sua filha e um casal de netos que eram umas pestes e faziam uma algazarra maldita, mas como já foi dito, muito raramente. Ou seja, um ambiente perfeito para o ilustrador que sempre foi misantropo e nunca se adequou a um meio.

Num certo dia ouviu movimentação no apartamento defronte ao seu. Muito barulho, móveis arrastando e pessoas subindo do térreo para o segundo andar quase a tarde toda. Morador novo, pensou Ed, tomara que sejam pessoas que não acabem com o resquício de paz que aquele imóvel possuía.

Naquela mesma noite ouviu o som de uma música, cuja batida era frenética, as guitarras totalmente distorcidas, sem acordes definidos e um som gutural saindo da garganta de algum roqueiro careca, barbudo, gordo, cheio de piercings e tatuagens com cruzes de cabeça para baixo. Era assim que Ed supunha pois já conhecera bandas podreiras desta natureza. Mal sinal, pensou ele.

Ao sair pela manhã para fazer umas compras, a tal música continuava, a porta do apartamento defronte estava aberta, ele não olhou para dentro e desceu as escadas rumo ao portão da rua. Parado, lá estava um cara de uns trinta anos, rosto de bom aspecto, cabelos muito curtos, espessa barba, físico privilegiado, pernas bem grossas, camiseta sem mangas, bermudas e chinelas. Fumava um cigarro. O cara o olhou. Ed cumprimentou-o e passou pelo portão. O rapaz respondeu e estendeu a mão:
- Falaí, prezado, pode me chamar de Psico!
Ed apertou a mão frouxa e suada do barbudo.
- Prazer, eu sou Ed Palumbo.
- Tua cara não me é estranha, já te vi em algum lugar, já teve na cadeia?
- Não!
- Bem, com certeza eu já te vi....porra, mas onde? Vou me lembrar...
- Ok, desculpe mas tenho que ir.
- Vai pela sombra, mermão! Nos falamos depois! Putz, onde já te vi?
Por algum motivo além do óbvio aquilo não causou boa impressão no desenhista. Afastou-se apressadamente dali com as batidas do maldito rock metal podreira martelando seus ouvidos.

Compradas as coisas que necessitava para aquela semana o velho ilustrador retornou para casa. Entrou, colocou dois ovos para cozinhar e água para fazer um chá. Estava separando os pães para sua torrada quando ouviu sonoras batidas na porta. Quem, raios, poderá ser? se perguntou. Abriu a porta e lá estava o tal de Psico.
- Falaí, cara! Já sei de onde te conhecia, rá, nunca esqueço um rosto! Dizendo isto o cara colocou uma revista de variedades na mão de Ed e foi entrando.
O velho ainda um tanto surpreso folheou a revista e lá estava uma matéria de uma página com uma entrevista que fizeram com ele a muitos anos atrás. Na foto onde ele aparecia, o rosto não havia mudado tanto, apenas os cabelos longos e o cavanhaque não eram brancos. O texto falava sobre caricaturas e ilustrações para embalagens de cereais que Ed criara e que fizera muito sucesso outrora. Quanto tempo tinha isto? Trinta, quarenta anos? Ele nem sabia mais.
- Como isto foi parar nas suas mãos? indagou ao rapaz.
- Meu velho tinha coleção de gibi e revista de desenho, havia um monte de bagulho teu lá. Ed Palumbo! Ele curtia muito teus desenhos. Pessoalmente acho tudo isso perda de tempo, coisa de criança ou de adulto retardado como meu pai, mas na boa, não tenho preconceito.
- Puxa, que alívio!
Diante da observação irônica de Ed, Psico fitou-o de modo sério por uns segundos.
- A matéria da revista pinta você como um cara muito foda, do tipo que faz sucesso e muita gente idolatra. O que aconteceu? Como veio parar neste cu de mundo?
- Não sei, acho que escolhas erradas, pensar na arte como coisa romântica e não comercial, não me prostituir para o sistema...realmente não sei.
O cara se sentou na poltrona e ligou a tv. Ed continuou em pé.
- Sei como é. No rock também é assim. Sabe, tu tem cara de quem estudou um bocado para ser bom. De que adianta isso se hoje qualquer pau no cu ganha um grana preta borrando qualquer merda em uma tela? Pra que estudar música se tem neguinho fazendo funk carioca?
- Você é músico?
- Bem que eu tento. Toquei baixo em algumas bandas de metal de garagem, mas de boa, os caras achavam que eu era louco e indisciplinado demais e me expulsaram. Bando de cuzões! Escuta, tu tem cerveja?
- Não, não suporto álcool. 
Psico fitou Ed sombriamente de novo.
- Porra, tu não tem tv a cabo? Só esse lixo?
- Não gosto de televisão, tenho essa aí porque minha última namorada gostava de novelas.
- E onde está ela?
- Terminamos faz tempo, ela se foi e deixou o aparelho. Escute, Psico, não é? Desculpe, mas vou tomar banho, comer algo e trabalhar.
- Tá, saquei, foi mal aí se te atrapalhei. Pode ficar com a revista. A gente se fala.
O moço saiu com ar de contrariado sem olhar para Ed.
Ainda perplexo com a visita repentina, o artista lavou as mãos, descascou os ovos, fez torradas, preparou o chá e comeu sem vontade. O roqueiro tinha de fato estragado sua noite.

Após um péssimo sono Ed levantou-se cedo para desenhar, no entanto sua mente estava inquieta, os esboços não respondiam, tímidos, relutavam em dar forma ao que o ilustrador tinha na cabeça. Lá fora a luz do sol não chegou, no lugar dela uma nuvem negra descarregou suas lágrimas. As gotas batiam com força na janela. Ele se sentiu estimulado a voltar para a cama mas não conseguiu dormir, pensava muito no passado, numa época em que tinha todas as esperanças no futuro: trabalhar firme, constituir família com a mulher dos sonhos, ter muitos filhos e netos, uma boa aposentadoria e terminar seus dias num lugar aprazível fazendo suas pinturas e esculturas em argila. Não parecia pedir e ansiar muito mas nada disso aconteceu por mais que ele tentasse. Cochilou por um tempo e foi acordado pelo som do celular.
- Ed?
- Ele mesmo!
- Tudo bem, cara?
- Tudo. Quem fala?
- É o Vlad.
- Opa, como vai?
- Tô de boa. Olha, finalmente arrumei uma grana e vou poder te pagar por aquele quadro do Krazy Kat.
- Sim, uma boa notícia!
- Deposito naquela conta de sempre?
- Claro, por favor!
- Vou querer outra encomenda, desta vez é o Sobrinhos do Capitão, óleo sobre tela. Capricha!
- Pode deixar, faço uns sketches e envio por e-mail pra você aprovar.
- Beleza. Vou transferir a grana. Abraço e desculpa a demora!
- Sem problema, abraço!

Realmente este dinheiro vinha mesmo a calhar. Turbinado por esta boa nova o desenhista tomou um banho, aparou o cavanhaque grisalho, amarrou os longos cabelos esbranquiçados em rabo de cavalo e resolveu fazer os esboços dos Katzenjammer Kids. Já riscava uma ideia legal no papel quando ouviu um alto som de rock pesado. Puta merda, pensou, já a esta hora???? Tentou ignorar e continuou seus traços quando bateram de forma deseducada na porta. Deve ser aquele maluco, intuiu, não vou abrir nem fodendo! As batidas se tornaram mais fortes e isto, por algum motivo o deixou apreensivo. Esse cara não é normal, já conheci muitos doidos, mas tem algo neste que não me desce. Procurou fazer silêncio. Uma forte trovoada estremeceu o prédio, a chuva caiu com mais intensidade e em seguida as luzes se apagaram. Comum nesta região. Tempestades provocam a queda de energia.
- Porra, que merda! Vociferou do lado de fora a voz peculiar de Psico, em seguida entrou em seu apartamento batendo violentamente a porta.
Aquilo tudo tinha expulsado a inspiração de Palumbo, sem fazer barulho ele foi para o quarto e deitou-se tentando se desligar da estranha situação de angústia que o dominava. Sentia-se oprimido, vazio, uma tristeza que desde sempre o acompanhava se instalou em seu peito e ali ficou meio que dificultando sua respiração. Pouco a pouco o barulho do aguaceiro caindo lá fora trouxe uma réstia de paz e ele dormeceu.

Despertou com sons de risadas. Confuso, notou que elas vinham do apartamento de Psico, ele falava alto e era respondido por uma gargalhada feminina. A chuva tinha parado e a luz tinha voltado. Quando tempo estivera dormindo? Consultou a hora na tela do celular: quase 16 horas! Dormira muito! Mas ele precisava deste repouso. Sentia fome, estava com pouco dinheiro mas ficaram de fazer o depósito para ele, então decidiu comer na rua. Colocou suas roupas surradas e abriu silenciosamente a porta. O som de guitarras distorcidas vinda do apartamento em frente não abafava os ruídos de sexo, era um tum, tum, tum de uma cama batendo contra a parede.
- E aí? Tá gostando? Tá bom assim?
Tum, tum, tum.
- Aaaah, sim, vai...mais forte....assim...vai, vai....
Tum, tum, tum
- Isso, cavalga, cavalga!
Tum, tum, tum, tum, tum!

Notou que a janela de Bonifácio estava fechada, o que não era comum. Teria ele viajado? Não, dava pra ver que havia luz dentro do apartamento e o som de tv ligada bem baixinho, o que também não era comum. Pensou em bater na porta e perguntar se ele precisava de alguma coisa da rua, mas desistiu, tinha fome e por algum motivo inexplicável ele queria evitar chamar a atenção do novo vizinho.

Na rua empoçada um vento lúgubre o encontrou, sentia-se estranho. Ao chegar na avenida que o conduziria a um hipermercado onde haviam os caixas eletrônicos viu um mendigo revirando lixo. O vento trouxe às suas narinas o odor daquele indivíduo, suor, fezes e mijo concentrados à décima potência. Bradava altos palavrões enquanto retirava os sacos com os dejetos dos containers e os lançava na rua, chutava e rasgava os sacos e espalhava o lixo na rua e na calçada:
- Veados filhos da puta! Vão todos tomar no cu! Seus filhos da putaaaaa!
E toda aquela imundície espalhada pelo chão.

A única vantagem de ficar velho, pensava Palumbo, é já ter visto este filme centenas de vezes. Vivia-se atualmente na época da relativização, do politicamente correto, não existia o bem, assim como o mal, esses conceitos eram relativos. O caralho, pensou o ilustrador, ele sabia muito bem que existiam pessoas boas, capazes de atos de misericórdia inexplicáveis e existiam pessoas más, que praticavam maldades contra seus semelhantes, maldades contra crianças, velhos e mulheres. E isso independia de posição social, sexo ou nacionalidade. Aquele mendigo era uma pessoa má. Tom de cinza? Foda-se o tom de cinza, aquele indivíduo, que era pura revolta, era como tantos outros que ele testemunhara no passado, indivíduos, que cortavam os outros com cacos de garrafas quebradas, que esmagavam crânios com tijolos de construções. Párias castigando outros párias por pura maldade, por saberem que a lei não os atingiria, quem se importa com o que um desgraçado sem identidade faz com outro?

Ainda com essas conjecturas, entrou no mercado, sacou o dinheiro, foi à lanchonete do local e serviu-se de um belo sanduíche com batatas fritas e suco de melancia. Depois comprou algumas coisas para a casa, produtos de limpeza e higiene. Comprou também um rolo de salaminho para Bonifácio, sabia que o velho gostava.

Chegou no prédio e logo bateu à porta de Bonifácio. Não houve resposta.
- Vamos Boni, abra a porra da porta, sei que você está aí. Está se escondendo do quê?
- Ed?
- Sou eu, vai abrir ou não?
A porta se abriu e o idoso fez um gesto para que ele entrasse rápido.
- Algum problema, Boni?
O macróbio falou quase num sussurro:
- Shhhh! Não quero que aquele maluco saiba que estou aqui. Ele me assusta!
- Qual maluco? Fala do novo morador?
- Sim, sinto medo daquela criatura, Ed, juro por Deus!
- Ele te ameaçou ou fez alguma coisa?
- Não, mas só a presença dele já me arrepia todo. Ele é um sociopata, eu sinto isso.
-Tenha calma, Boni, não é pra tanto.
- Liguei pra minha filha e pedi pra ficar com ela uns tempos. Ela disse que virá, mas só poderá na semana que vem.
- Hei, isso é bom, ficar um tempo com sua filha.
- Não é não, gosto de ficar no meu cantinho assistindo minhas novelas e meus filmes, mas não quero ficar aqui enquanto este indivíduo estiver no prédio.
- E como vai fazer? O contrato dele deve ser de pelo menos um ano.
- Sei lá, vou ganhando tempo.
- Bem, vou indo, tenho trabalho para fazer. Tome, comprei este salame para você.
- Oooh, obrigado, Ed, você é um bom amigo!
- Imagina. Até mais!
- Ed, tome muito cuidado com esse rapaz, por favor!
- Ok, deixa comigo. Te cuida!

Pobre Bonifácio, mas Palumbo sabia como ele se sentia.

Ao retirar sua chave do bolso, a porta vizinha se abriu e surgiu Psico só de bermudas, exibindo um ventre generoso de cirrose e muitas tatuagens pelo corpo, estava abraçado a uma moça de uns vinte anos, gordota, cabelos multicoloridos e também muitas tatoos e piercings. Usava saia jeans bem apertada, uma miniblusa preta com estampas de caveiras e nos pés um All Star preto de cano longo.
- Grande Ed, como tu tá, meu nobre? Falou Psico visivelmente embriagado.
- Vou bem, disse Palumbo abrindo a porta. Não teve tempo de fechar e foi seguido pelo casal.
- Cara, tenho te procurado e você não atende!
- Mesmo? Não devo ter ouvido, tenho o costume de trabalhar ouvido música com headphones. Com licença, tenho que ir ao banheiro, estou apertado. Na verdade ele não estava, mas falou isso para ver se eles se mancavam e davam o fora. Fechou a porta e ouviu:
- Psico, quem é esse velho?
- Um desenhista famoso.
- Desenhista? Isso é profissão?
- Claro que é gata, tô pensando em pedir a ele para pintar um retrato seu.
- Mas olha essa casa, cheira a papel velho, olhas essas revistas empilhadas, esses gibis todos são desse cara? Adultos leem essas porcarias? Ele não tem mulher?
- Parece que não. Ei, que tal a gente apresentar ele para aquela sua tia solteirona?
- Tia Magda? Nah, ela gosta de foder hard, com machos de verdade e este velho tá caindo aos pedaços! E ela curte grana também, esse cara aqui parece totalmente falido!
- Kkkkkkkkk, porra tu é má, hein baby!
Ed deu a descarga e saiu do banheiro.
- Escutem, tenho muito o que fazer e não posso perder tempo, se me derem licença....
- Hei cara, não seja um babaca!
- Não, na verdade estou sendo muito gentil. Estou pedindo educadamente que saiam pois preciso trabalhar.
Psico o olhou com firmeza, de forma rancorosa, mordeu o lábio inferior contendo uma fúria interna.
-Vamos embora, este velho não quer a gente aqui, disse a gordinha.
Psico deu uma cuspida no chão em sinal de desprezo, encarou o desenhista e deu meia volta.

Sentindo um certo alívio Ed limpou o cuspe do rapaz de seu assoalho, sentou-se na sua prancheta, colocou seus fones e botou antigos sucessos gringos pra rodar e viajar no tempo enquanto fazia seus esboços.

Depois de algumas horas ele já tinha material suficiente para apresentar ao cliente. Os olhos ardiam e as costas também reclamavam. Resolveu ir para a cama. A temperatura ambiente estava agradável, pedia um bom cobertor. Comeu uma maçã, colocou uma colher de sopa de bicarbonato de sódio em um copo de água, bebeu e arrotou. Foi ao banheiro, mijou, deu descarga, lavou as mãos, escovou os dentes, despiu-se e se enfiou debaixo das cobertas. Ficou imaginando que era um desenhista famoso e discutia com produtores e um diretor de renome sobre um documentário sobre sua vida e assim o sono o envolveu pesadamente.

Foi acordado por gritos furiosos do lado de fora de sua casa.

- Puta do caralho!!!! Sua putaaaaa! Eu vou te quebrar de porrada, sua puta! Cadela sem vergonha! Volte aqui, volte aqui, porraaaa!

Os outros sons eram de porta batendo, soluços, respiração ofegante, passos na escada! Isso tudo em meio aos berros de um selvagem.

Ed ouvi-o gritar até o portão que dava acesso à rua. Depois os sons de quem retornava para casa. Um homem chorando e soluçando. "Aaaaaah! Aquela puta....quem ela pensa que é, porra?"

Depois de um tempo, o silencio. Mas Ed pressentia que Psico estava parado no corredor. Então um estrondo em sua porta. Uma forte batida, seguida de várias outras.

- Abra, seu merda! Abre essa porra! Quem tu pensa que é, seu merda! Seu arrombado! Quem tu pensa que é? Acha que é superior a mim pra me expulsar de sua casa? Seu arrombado de merda!!!!

Ed se vestiu, mas não era louco de abrir a porta para um bêbado descontrolado. Os fortes chutes na sua porta continuaram juntos com os insultos.
- Abre, seu covarde!!!! Não é homem para me enfrentar? Seu desenhista de merda! Seu bosta! Arrombado!!!!!

Quando o trinco começou a ceder, Ed pegou o celular para ligar para o 190, mas o aparelho estava com 1% apenas de bateria. "Merda", pensou. Teclou os três dígitos mas antes que chamasse, o telefone morreu.

- Sei que tu taí, filho da puta! Arrombado! Venha me enfrentar, covarde, diga na minha cara que é superior a mim, que não sou digno de entrar na sua casa! Venha!!!!

 Como se fosse vencido pelo cansaço a voz foi morrendo e as batidas ficando mais fracas.
Ainda gritava enquanto descia as escadas: "filho da puta, covarde, desenhistazinho de merda! Fracassado! Covarde!!!"

As injúrias agora eram debaixo da sua janela. Uma forte pedrada ecoou mas por sorte o vidro não quebrou.
- Desce aqui, seu bosta! Venha me enfrentar! Vou te espancar tanto que você vai me pedir de joelhos para eu parar de te surrar! Arrobado de merdaaaa!!!!

Um minuto de silencio e ouviu o troglodita falar: "e você aí ô vovozinho noveleiro! tá espiando o quê? Quer levar porrada também?" Então começou a esmurrar a janela de Bonifácio. Sorte que tinham grades do lado de fora senão tinham se partido no primeiro golpe.
Diante desta covardia, Ed abriu a porta e desceu descalço, de camiseta e bermudas.
- Deixe ele em paz, é um pobre idoso que sofre de hipertensão!
- Ah, o desenhista fracassado de merda apareceu! Ficou valente agora, filho da puta? Dizendo isso o enorme homem veio com tudo para cima de Palumbo numa velocidade impressionante para um cara embriagado, sem tempo de reagir, o ilustrador se viu imprensado entre o agressor e a parede. Dois violentos socos pipocaram no concreto ao lado de seu rosto.
- Acha que pode comigo velho?!? E se ao invés d'eu esmurrar a parede fosse em sua cara de merda, hein?! Hein?! Quero você de joelhos me implorando perdão, seu arrombado! Tu acha que pode comigo? Tu não passa de um velho!!!
O bêbado deu uma grossa cusparada no rosto do desenhista.
Nisto, a porta se abriu, Bonifácio, trêmulo surgiu com um telefone sem fio na mão.
- C-cha-chamei...a a po-po-lí....cia....
- Boni, volte para dentro! gritou Ed.

Psico olhou furioso para o ancião mas não fez nada, estava bêbado mas não era burro. Deu um violento chute nas costelas de Palumbo que se dobrou para a frente sem ar.
- Isso não acabou! Não acabou! Só acaba quando um de nós morrer!!! E evadiu-se dali.

- Venha, Ed, acha que quebrou alguma coisa? Você está pálido!
- N-não, tá meio...difícil de respirar mas penso que não quebrei nenhuma costela, senão eu estaria bem pior.
Bonifácio o deitou em seu sofá, "vou pegar água e um analgésico."
Ed tomou o remédio e ficou deitado, aos poucos a respiração foi voltando ao normal, uma dor forte na lateral do corpo foi o que ficou da agressão, mas nada mais grave.
- Porque aquele homem te odeia, Ed?
- Sei lá, esse filho da puta é louco!
Nisto ouviu-se uma sirene de polícia no portão. Ainda um pouco tonto, Palumbo se levantou e foi até eles. Um cabo e um soldado muito educados ouviram todo o relato.
- O senhor não sabe onde pode estar o indivíduo? Poderia ter ido para a casa de algum conhecido dele?
- Cabo, eu mal conheço o cara, ele se mudou a uns dias atrás e cismou com a minha fuça, é só o que sei.
- O senhor gostaria de prestar queixa?
- Com certeza.
Os policiais o levaram até uma delegacia num município vizinho. Ed fez o B.O. Conduziram-no até o IML para fazer exame de corpo e delito. Uma feia mancha roxa nas costelas e era só.
Os mesmos agentes da lei o trouxeram de volta. Eles conversavam nos bancos da frente da viatura, o rádio a todo momento soava uma ocorrência naquele som típico, monótono.
Amanhecia, pássaros gorjeavam anunciando um dia de sol, o desenhista estava alheio a isto tudo, um vazio do tamanho do firmamento o consumia, não havia mágoa, desilusão nem expectativa, só era lembrado que vivia pela dor ainda presente nas costelas.
Lembrou-se da infância pobre mas com muitas esperanças num amanhã, da medalha que ganhou aos oito anos na escola por ter feito uma bela redação ilustrada com um desenho elogiado por todos os professores, inclusive pela diretora. Veio-lhe à mente as mulheres que amou e que o fizeram infeliz, os tempos de faculdade onde ele nunca se sentiu adequado, as primeiras exposições de pinturas a óleo e nenhum quadro vendido, as primeiras revistas em quadrinhos publicadas mas com pouco sucesso.....tudo passou tão rápido! O que são seis décadas? Dez vezes seis, parece que é muito, mas não é nada! Pouco tempo para ser feliz e muito tempo para sentir solidão e desamparo.
Chegaram finalmente, os policiais deram uma busca no prédio, bateram na porta do Psico. Nada! Bonifácio disse que não teve sons suspeitos durante aquelas horas. O pobre idoso estava trêmulo e com olhos fundos.
Os PMs disseram que iam dar uma busca nos arredores baseados na descrição feita do marginal, voltariam com certeza mais tarde para uma nova abordagem.
Ed os levou até o portão. Agradeceu e se despediu. Não era intenção dele ficar ali enquanto não prendessem o maluco. Tinha que ir embora daquele lugar, mas primeiro deveria levar o Boni até a casa da filha.

Entrou em casa, não havia fome, despiu-se. Tomou um longo banho. Arrumou os longos cabelos grisalhos em rabo de cavalo. Colocou um jeans surrado e uma camisa branca de mangas dobradas quase até os cotovelos, calçou sua bota preferida, pegou a carteira, verificou os documentos e o dinheiro. Deu uma boa olhada na sua sala com suas estantes de livros e gibis, nas revistas empilhadas em diversos lugares, na cômoda onde estavam centenas de artes originais e suspirou profundamente.
O plano era chamar um Uber e levar Bonifácio até a casa da filha, depois ele decidiria o que fazer da sua vida dali em diante.

Fechou sua porta e quando virou-se em direção à escada viu Psico parado fitando-o com um olhar maligno e um sorriso malévolo, tinha uma garrafa de cachaça na mão direita. Antes que ele pudesse esboçar movimento o grandalhão, rápido como um bólido, atingiu o artista em cheio na cabeça. O casco não se quebrou, mas abriu um enorme veio no crânio por onde jorrou um sangue espesso que num instante cobriu todo o rosto de Ed, que tombava como se estivesse em câmera lenta.
Ao ver o corpo do desenhista desabar de frente sonoramente no chão, o sangue ainda sendo esguichado de sua cabeça, o agressor puxou um ruidoso catarro da garganta e cuspiu no corpo já sem vida. Em seguida desceu as escadas e desapareceu.

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Não havia quase ninguém no enterro de Ed, apenas Bonifácio e sua filha com o esposo, os síndicos e só.  Era uma manhã chuvosa.

O assassino nunca foi localizado.

Passado uns dias, a filha do desenhista, que morava na Inglaterra com o marido e não via o pai a muitos anos, chegou com olhar impassível, conversou com o médico que lhe dava o atestado de óbito. Ele dissera que se Ed sobrevivesse à pancada, ficaria tetraplégico, pois a força do golpe tinha esmagado duas vértebras cervicais. Ela nada respondeu. Doou os livros, quadrinhos, CDs, DVDs e artes originais para uma biblioteca pública e vendeu os poucos móveis para pagar as despesas do apartamento.
Nenhum obituário no jornal ou em redes sociais.
Foi ao pobre cemitério local e divisou a pequena cruz branca com o nome de seu pai e as datas de nascimento e falecimento escritos com tinta vermelha por alguém que mal sabia o português. 
Caía uma garoa fina. A bela moça não verteu lágrima, apenas suspirou profundamente e afastou-se dali. Tinha toda uma vida feliz para viver num outro país.