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quinta-feira, 17 de abril de 2014

UMA MONTANHA NO CAMINHO.




As vezes acontece isto: um desenho empaca. Porque ocorre? Uma série de fatores. Comigo o motivo mais comum é o fato de não estar satisfeito com ele por alguma razão. A saída mais coerente seria partir para outra, mas quase sempre o material já vai bem adiantado para voltar atrás, aí aquilo que desagradava começa a saltar às vistas. Ele empaca exatamente na tentativa de corrigir o que aos meus olhos não está legal. Com frequência descarto a arte e faço outra. Entretanto a razão para uma ilustração ou página de quadrinho não colaborar é o fato d´eu demorar nela, ou melhor, abandona-la por uns tempos por uma razão qualquer, daí o retorno é complicado. Sei que é uma coisa da minha cabeça, mas é assim que a coisa é, entre eu e o material ergue-se uma barreira que demoro a transpor.


Atualmente trabalho numa história bíblica em quadrinhos CAIM E ABEL para a HQM Editora, por esta causa abandonei a bio do Poe mais uma vez numa página já preparada para a finalização. Pensava comigo: vou pegar nela um pouco toda a noite, mas a urgência de grana me fez priorizar a narrativa do primeiro homicídio cometido na terra, agora pra eu finalizar a dita página do Poe tá complicado, já tentei, mas ela parece não avançar. Não há nada ali que eu já não tivesse feito milhares de vezes, mas a mão titubeia na hora de dar os efeitos chiaroscuro, como se eu estivesse tímido em passar as mãos pelas coxas de uma namorada com quem já tenho muita intimidade.


Lembro particularmente de uma página para a hq de Zé Gatão-Daqui Para A Eternidade, o próximo álbum do felino macambúzio a ser editado pela Devir, era uma sequencia comum, nada de ação mirabolante ou ângulos difíceis, mas a danada da arte teimava em demorar para ficar pronta só porque eu demorei uns dias para retoma-la. No fim eu a terminei com sucesso, mas ficou marcada como um momento na história em que a coisa não rolou como eu tinha planejado na minha mente.
Acontece o mesmo com esta prancha do Poe, há uma montanha cada vez mais alta entre nós. Mas está chegando o momento de respirar fundo, tomar distância, acelerar e transpô-la.
Um problema também é que pelos motivos já descritos aqui tantas vezes, este projeto tarda demais, o roteirista é bem avançado em idade e está ansioso por vê-la terminada, tem a pressão para que o número de páginas não fiquem tão grande e outras chateações que faz a coisa se cristalizar na minha cabeça.


Mas enquanto a hora não chega, Caim e Abel segue sendo trabalhada com carinho.

Tenham todos uma ótima Semana Santa.



 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

DESENHANDO ANATOMIA - ANIMAIS (Edição revisada e ampliada)




Domingo passado (sim, domingo!) o correio me chamou no portão. Depois de um longo inverno (não, verão é mais apropriado) chegaram às minhas mãos meu mais recente filho, o álbum de Anatomia de Animais relançado pela Editora Criativo.


Eu digo relançamento por que a primeira versão deste trabalho saiu pela finada Editora Ópera Gráphica. Fui ao zoológico aqui de Pernambuco e à biblioteca da Faculdade Rural pesquisar as imagens para o mesmo.


Mas esta edição da Editora Criativo, além de seu charme personalíssimo, contém tantas artes e informações extras que nem associo ao primeiro livro (que teve algumas páginas com saturação na tinta). Não é caça níquel, fui informado que está difícil encontrar este álbum na praça, esta nova versão vem preencher a lacuna. Ficou mesmo muito bonito.


Bom, deixo vocês com estas imagens e vou cuidando de outros afazeres, não consigo trabalhar direito já faz uns três dias, tenho que botar o pé no acelerador. As contas não querem saber se minha concentração sofre interferências ou se estou cansado, como de costume.


Alguns de vocês vão poder dar uma relaxada boa neste fim de semana? Que bom! Fiquei com inveja. Aproveitem.


Até semana que vem, se Deus quiser.


PS - A quem possa interessar este material pode ser adquirido nos links a seguir:


http://www.comix.com.br/advanced_search_result.php?keywords=Eduardo+schloesser&x=0&y=0


http://www.artcamargo.com.br/advanced_search_result.php?keywords=Eduardo&x=-946&y=-79


http://busca.livrariasaraiva.com.br/search#?p=Q&lbc=saraiva&uid=225032341&ts=ajax&w=criativo&isort=score&method=and&view=grid&af=autor:schloessereduardo editora:criativo

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O HOMEM SEM RUMO.




Amadas e amados, estive sem internet durante quase dois dias, nada grave, apenas uns probleminhas no quarto onde fica o modem, mas foi interessante notar que aos poucos vou me desconectando destes confortos da nova civilização, ou seja, a web não me fez a falta que pensei que fosse fazer. Não sei se é a entrada na velhice ou fruto do cansaço que sinto em relação a quase tudo, ou o quê, mas no passado, na época da internet discada, onde os computadores que acessava eram de meus irmãos, namoradas de irmãos ou amigos, eu passava muito tempo visitando sites que tinham alguma relação com artes e quadrinhos. Como um junkie, eu salvava imagens criadas por artistas que admirava e buscava matérias sobre eles de maneira quase febril, e assim que adquiri meu próprio pc (foi em 2008? 2009? Nem sei mais!) eu, a todo momento, verificava e-mails. É claro que a coisa faz falta, meus contatos de trabalho, principalmente, se dão todos através desta ferramenta, a pesquisa para uma arte e coisas do tipo, são imprescindíveis, mas me surpreendo com meu desapego a certas coisas. Se vou ficar sem net por um longo tempo, tudo bem, depois faço minha postagem no blog, quando for possível vejo se tem alguma mensagem importante no Facebook. Aproveito para ler mais ou então relaxar um pouco. Minha cabeça anda tão cheia, meu Deus, que nem sei! O mais importante é a saúde, principalmente a saúde e bem estar da minha família, esposa, pais, irmãos, filha, sobrinhos, cunhadas e os poucos amigos - sem esquecer dos amigos virtuais - que sempre me mandam a maior força e admiradores anônimos que ficam na torcida pelo meu sucesso e bem estar. Todos estão sempre presentes em minhas orações. Mas estou mudando o rumo da prosa, o que eu queria mesmo era dizer que todo este progresso é muito importante e saudável, mas dá para viver sem ele sem sofrer.
Na boa, o pior é ficar sem luz. Na noite passada (dia 8) por volta das nove horas, estava finalizando uma página da minha última obra ( a história bíblica de Caim e Abel para a HQM Editora) quando a luz começou a oscilar, a força do ventilador diminuiu. Como já passamos por isto, corri e desliguei a geladeira e outros aparelhos. Havia energia no corredor do prédio, na garagem e na rua. Contatei o vizinho, temendo que o problema fosse só no meu apartamento mas suas luzes também estavam fracas, até que tudo se apagou de todo.
Liguei para a Celpe e ficaram de mandar técnicos para ver o que tinha acontecido, o prazo para tanto era de no máximo umas quatro horas. Notei que algumas garagens de prédios próximos também estavam às escuras.
Olhem, ficar sem eletricidade por algum tempo é normal, mas no calor úmido que faz neste lugar é uma verdadeira provação, a gente sua em bicas. Só antes de deitar (com as janelas todas abertas e sem brisa), tomei uns três banhos e a água descia morna. Foi impossível conciliar o sono. A Vera conversava, ouvi atento, mas no fundo eu só queria ficar quieto, tentar transportar minha cabeça para um local verde, florido, tranquilo, fresco, onde o sol fosse morno, longe de toda a pressão, a minha ideia de paraíso particular. Entre conversas e cochilos, travesseiros molhados de suor, notamos que os galos e pássaros do final da madrugada já começavam seus acordes quando os técnicos chegaram finalmente. Eram quatro e quarenta da manhã. Observei eles subirem o poste e mexerem no transformador e irem embora. Liguei a geladeira e o ventilador, Verônica pode dormir e eu fui tomar mais um banho. Quando me deitei, a luz da manhã forçava sua presença no quarto. Minhas pálpebras estavam pesadas mas não consegui dormir direito. Levantei umas oito e meia com uma forte dor de cabeça. Comi algo rápido e fui terminar minha página. Depois fui para a a cidade resolver umas coisas, um sol sádico e matador rilhava seus dentes.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

WILL EISNER - UMA VIDA EM QUADRINHOS.




Finalmente me sento em frente ao computador para fazer minha postagem. Trabalho e mais trabalho, coisas bobas pra resolver na rua e mais coisas bobas pra resolver na rua. Não há mais tempo para mim mesmo. Exercícios? No more. Cinema? No money e no time. Adoro ler e leio nas carreiras, na fila, na privada, até mesmo um gibi só consigo ler no finzinho da noite, bocejando como um porco maluco. Verônica fala que tenho roncado como um trator em fim de carreira. Engraçado? Não, triste. Mas não há muito o que eu possa fazer no momento.

Mas a vida não é só essas chateaçõezinhas, há alguma alegria também, por exemplo, quando recebi este livro do mestre supremo dos quadrinhos (ao lado de Hergé e Jack Kirby) Will Eisner. Um livrasso de capa dura e 500 páginas. Um belo presente do Carlos (Mann) Rodrigues, o editor dos meus álbuns de anatomia (Brigadão, Carlos!).


Já comentei aqui que teve duas pessoas responsáveis por eu querer fazer quadrinhos, uma foi o amigão Luca e a outra foi o Eisner com a lendária Gerard Schnoble. Se vocês notarem bem, verão que embora gostasse muito de super-heróis na adolescência, nunca criei um cara fantasiado com super poderes, nem robôs, embora curtisse de montão os desenhos animados e seriados japoneses como Ultraman, Ultraseven e outros do tipo. Não, meu primeiro personagem foi um detetive chamado Cobra, que pra não ficar igual ao Spirit do Eisner, tive que omitir a máscara, mas coloquei óculos escuros no lugar (que ele nunca tirava), mas o terno azul e outras coisas estavam todas lá. Depois, por causa daquele filme ruim do Stallone tive que mudar o nome do personagem para Lobo, mas aí já não tinha mais interesse num alter ego que não passava de uma cópia requenguela de outro.

Acho que todas as histórias semi-biográficas do Will são reunidas neste volume. Uma melhor que a outra. Se já li? Mano, e eu tenho tempo de ler tudo assim de uma vez? Vamos com calma! Mas boa parte deste material eu já conhecia, inéditas mesmo só duas narrativas e estas eu já papei.

O tomo é uma publicação da Criativo que fez um trabalho primoroso. Custa 90 reais e você encontra na Comix e na ArtCamargo. Na Saraiva está com uma boa promoção. Imperdível!

Um beijo a todos vocês e tenham todos um excelente final de semana.



quarta-feira, 2 de abril de 2014

ANTIGA MATÉRIA SOBRE ZÉ GATÃO-MEMENTO MORI NO MDM.

QUANDO FINALMENTE SAIU PELA DEVIR O AGUARDADO ÁLBUM ZÉ GATÃO-MEMENTO MORI, FIQUEI SURPRESO COM O SILÊNCIO DOS SITES ESPECIALIZADOS EM QUADRINHOS, NEM UMA CRÍTICA OU RESENHA. O "UNIVERSO HQ" PUBLICOU UM PRESS RELEASE NA SUA PÁGINA PRINCIPAL QUE FICOU NO AR DURANTE UMAS SEMANAS, MAS FOI SÓ. 
TEMPOS DEPOIS PIPOCARAM NA WEB UMAS RESENHAS BASTANTE POSITIVAS. A MAIS LEGAL FOI ESTA DO SITE "MELHORES DO MUNDO", QUE REPRODUZO AQUI. A MATÉRIA É DE 2011 E FOI ASSINADA PELO "BUGMAN". 

PELO QUE POSSO LER NOS SINAIS DE FUMAÇA, O MERCADO NÃO ANDA (DE NOVO) MUITO BOM PARA OS QUADRINHOS NACIONAIS, E MESMO QUADRINHOS DE UM MODO GERAL, AS EDITORAS NÃO TEM LANÇADO NADA (SINAIS DA CRISE - MAQUIADA PELO GOVERNO - QUE AÍ ESTÁ?), DESTA FEITA, NÃO HÁ NOTÍCIAS DE "ZÉ GATÃO - DAQUI PARA A ETERNIDADE", A CONCLUSÃO DA SAGA.
SÓ RESTA ESPERAR.
ENQUANTO ISTO, LEIAM (OU RELEIAM) A MATÉRIA:

A GENTE LEMOS: ZÉ GATÃO - MEMENTO MORI - MELHORES DO MUNDO

.

A gente lemos: Zé Gatão - Memento Mori Tweet
Eduardo Schloesser é muito mais que um sobrenome difícil de se pronunciar. No país em que leitores preconceituosos dizem que não há quadrinhos brasileiros com ação e aventura de qualidade, seu Zé gatão sempre foi superior a boa parte do que vemos nas unlimited series dos Comics. Sem um pingo de ufanismo.
[Mais:]
Schloesser talvez pague o preço por termos tantos fanzines e outras iniciativas ambiciosas que façam barulho na base da brodagem de resenhas chapa branca em diversos espaços por aí. Normal, mas inaceitável. No mundo do quadrinho brasileiro muita gente costuma julgar os artistas brasileiros por gente que se diz artista, mas tem como profissão ser "mimimidor". Ou simplesmente, bancar a vítima de um mercado que ainda tem muito potencial.
E anos atrás, quando havia muito mais preconceito, não tinha internet e você ouvia muito mais que "HQ é coisa de criança" o Zé Gatão foi criado. Era 1992, quando o Flamengo se sagrava pentacampeão em cima do Botafogo, e ele só conseguiu publicar seu primeiro álbum em 1997. Zé Gatão - Memento Mori é um lançamento da editora Devir que o artista só terminou em 2003. É um álbum precioso que faz jus a um dos trabalhos mais importantes do quadrinho sul-americano da última década. Confira a sinopse da editora:
A expressão latina “memento mori” significa, literalmente, "lembre-se da morte", ou, mais profundamente, algo como "lembre-se de que você é mortal; lembre-se de que você vai morrer".

Assim, como um presságio, o título deste livro prepara o leitor para acontecimentos trágicos e marcantes nessa aventura vivida por Zé Gatão, criação do artista Eduardo Schloesser. Vivendo num mundo antropomórfico que lembra muito a nossa própria realidade, Zé Gatão se vê envolvido (contra a sua vontade) 
numa trama cheia de traição, violência e morte!
Este livro, ZÉ GATÃO - MEMENTO MORI é uma fábula grotesca sobre tirania e revolta, castigo e luta por redenção contada através da arte inigualável de Schloesser, cujo traço detalhista e dinâmico dá vida e ação aos seus personagens. Com uma trama repleta de mistérios e ação ininterrupta, este livro é um verdadeiro épico em quadrinhos!
Nesta edição de colecionador, há ainda diversos pin-ups, páginas deletadas e um final alternativo da história, além de esboços e comentários do autor!
Na história, o protagonista ainda atravessa sua longa estrada tentando salvar a si e seus amigos Leo Banana (um simpático Chimpanzé) e a gata Alice. Nessa estrada, Zé Gatão precisará ainda pedir ajuda a estranhos e descobrir a sua sina.
A arte de Schloesser consegue antropomorfizar qualquer mamífero em figuras com muito mais movimento e força do que estamos acostumados. O desenhista mantém o nível no roteiro. É raro ver um artista dos quadrinhos de ação tão completo. Os Comics nos apresentaram John Byrne e Frank Miller, roteiristas e desenhistas ao mesmo tempo, na mesma época em que o jovem Eduardo iniciava sua carreira por aqui.
É inútil comparar até porque os EUA já tinham um mercado bem mais maduro, mas poucas vezes vi um nome que me fizesse ficar confuso entre dizer que é um desenhista que escreve ótimos roteiros ou um roteirista que desenha muito bem. Seus personagens são intensos, nada bidimensionais e têm uma personalidade bem delineada. Zé Gatão é muito mais do que qualquer personagem de Bruce Willis.
A ação de Zé Gatão - Memento Mori lembra bastante os velhos filmes de ação com muitas explosões e cenas massas, véio... Mas seus momentos dramáticos soam muito melhor do que os filmes de Schwarzenegger (em alguns momentos, Memento Mori me lembra o clima desesperador de Vingador do Futuro). O clímax desesperador, sem nenhuma luta final e apenas mais transparência da alma felina do herói, deixa a expectativa pelo próximo lançamento. Será que demora?
Em seu blog, Schloesser afirma que "se haverá uma nova aventura deste felino invocado, vai depender muito da receptividade de Memento Mori". Todos nós temos preconceito. Todos nós avaliamos precipitadamente alguma coisa ou alguém. Seria bom que nos próximos meses, Zé Gatão - Memento Mori recebesse uma chance. OsR$32,90 do álbum são um valor mais do que justo para a qualidade e conteúdo. Economize seu dinheiro, peça de natal... Enfim, dê uma chance para este excelente álbum de um personagem que tem bem menos fama do que merece.
Nota: 9
Zé Gatão – Memento Mori
Preço: R$32,90
História & Arte: Eduardo Schloesser
Acabamento: Brochura com laminação fosca com reserva de verniz e orelhas
Miolo: 256 páginas P/B em papel off-set 90g/m²
Formato: 16,0 cm × 23,0 cm 
Bugman sempre foi fã de antropomorfos

domingo, 30 de março de 2014

OS BRUZUNDANGAS ( 02 ).


Olá! A muito tempo não posto aos domingos! A razão disso não é que eu use este dia para o descanso, pelo contrário, é aos domingos que trabalho mais, é um dia mais silencioso e pacato. A vizinhança vai à praia, ou sei lá pra onde e levam seus cães barulhentos e não ouvem suas músicas de merda no último volume. Como disse um velho amigo: sou como esses portugueses antigos, a venda tem que abrir nos fins de semanas e feriados até tarde da noite. Meu trabalho não é um fardo, antes de tudo é uma terapia e um prazer, principalmente se é bem remunerado (o que nunca acontece) e não há pressão de tempo (idem). Contudo, usando aquela conhecida frase de um filme sombrio: "All work and no play makes Jack a dull boy", então penso em como eu poderia maneirar. Por hora estou acorrentado à prancheta.
O motivo de me ausentar daqui nos fins de semana é porque diminuí o ritmo das postagens para dar tempo aos leitores e visitantes para assimilar melhor as minhas bobagens (vide o tamanho da última).
Hoje tive que abrir uma exceção, a postagem programada para segunda (ou terça) antecipo por ter meus próximos dias comprometidos na rua com afazereschatosbagarai. E, amados e amadas, desanimo não só por conta da tortura de ter que enfrentar ônibus, trânsito, sol forte e pessoas, é que minhas artes ficam totalmente paradas. Mas que fazer?

Deixo com vocês mais uma arte para o clássico do Lima Barreto.
Beijos, abraços e apertos de mãos.


terça-feira, 25 de março de 2014

SOZINHO NO MEIO DA MULTIDÃO.



Há quem afirme que toda experiência é valida, que tudo serve para nosso aperfeiçoamento e aprendizado. Será mesmo? Uma certeza eu tenho, tudo o que plantamos, colhemos. Só não estou seguro se é na medida certa. O triste mesmo é trabalhar na colheita dos outros. As vezes parece que pagamos muito além ao devido e que determinados pecados cobram um preço muito acima do que seria imaginado.
Os motivos que me levaram a sair de casa ainda na fase final da minha adolescência foi parcialmente contada numa postagem antiga:  http://eduardoschloesser.blogspot.com.br/2011/09/mea-culpa.html . Usei a primeira namorada como desculpa para fugir do jugo do meu pai. Olhando hoje, fazendo justiça, não era uma carga tão pesada assim. Eu tinha sobrevivido até então, como sobrevivi até hoje. Acho que eu queria fugir de mim mesmo. Minha família está tão enraizada em mim que para me ausentar do que sou, eu tinha que estar longe de tudo aquilo que era mais caro. Uma forma de auto punição, talvez. Minha saída do lar paterno só me trouxe solidão e fracasso. Quase quatro anos de perda de tempo.

Por motivos óbvios, vou omitir e substituir nomes.
Fui acolhido no Rio de Janeiro por um conhecido da família, um sargento da polícia militar (a quem chamaremos Verdugo) que morava com a mãe num subúrbio da zona oeste.
Minha meta era estudar, trabalhar, me casar com Tininha (que é como chamaremos a minha namorada), simples assim, eu já tinha tudo planejado. Para levar estes planos a cabo eu só contava mesmo com minha força de vontade, que na época tinham as mesmas dimensões da convicção de uma lesma com muletas.
A frieza com que ela me recebeu na manhã seguinte à minha chegada na Cidade Maravilhosa foi o primeiro sinal de que eu me equivocara em relação aquilo tudo.
Conversaremos depois que eu voltar da faculdade, ela disse. Alguém falou que o inferno não é tão ruim quando se está apenas de passagem. A pobre moça, ao me escrever todas aquelas cartas apaixonadas, dizendo que queria que eu estivesse ao lado dela, custasse o que custasse, jamais poderia suspeitar que eu seria louco o suficiente para cumprir o que prometia nas missivas. Mas eu, como um grande idiota que sempre fui, tive que manter a palavra.
Nosso colóquio não se deu exatamente naquela noite como fora planejado, ela chegara dos estudos mortalmente cansada, acho que dialogamos daí a uns três dias depois, e não foi uma conversa como havia sonhado, eu esperava uma chuva de beijos e abraços e muita força, afirmações que confirmariam as promessas de que ela me ajudaria a suportar tudo o que viria dali para frente, que estaria comigo nos bons e maus momentos, afinal o sentimento consciente era que eu havia abandonado minha família e meu mundo para estar ao lado dela. A coisa foi morna, quis saber como eu estava, como meus pais tinham reagido e tal. Não fiz nenhuma cobrança, não é do meu feitio pressionar, antes deixo a poeira baixar, depois raciocinar e agir com calma.

A primeira coisa sensata a fazer seria dar continuidade aos estudos. Meus pais, ainda compreensivelmente magoados comigo, enviaram minha transferência. O sargento Verdugo conhecia umas pessoas que me conseguiram uma bolsa no Pentágono, um dos pré-vestibulares mais "puxados" que se tinha notícia. Não tinha certeza se aquilo era uma boa ideia. Prezados e prezadas, estamos falando do final dos anos 70, naquela época o sistema educacional para quem ingressava no segundo grau era o que chamavam profissionalizante, o aluno fazia uma opção por contabilidade, enfermagem ou desportos. Como sempre gostei muito de esportes optei por esta última. Mais uma escolha equivocada. No meu primeiro ano no Colégio Santa Rosa em Brasília, além das matérias básicas como português, matemática, ciências e história (não lembro se havia geografia, acho que não) eu tinha todas as matérias referentes a esporte. Além de aulas teóricas havia muito futebol, vôlei, basquete, handebol, esses esportes em equipe que eu odiava com todas as forças da minha alma, não só por eu ser péssimo em todos eles, mas porque eu não me adaptava entre as pessoas. Eu só gostava das corridas que fazíamos duas vezes por semana porque me era possível isolar a mente de todo o resto.

Aqueles fins de 79 foram carregados de acontecimentos terríveis, o principal deles foi a morte da minha avó materna. Comecei a pensar ali numa mudança de vida. Ir para o Rio para ficar com a Tininha era uma opção. Não demoraria a perceber que aquele foi, talvez, o maior erro da minha vida.
Começar o segundo ano do segundo grau no Pentágono com matérias sendo jogadas na cara, como química, física, biologia, geometria e sei lá mais o quê, sendo que no ano anterior eu não tinha estudado nada disto foi como tentar pegar carona num carro de Fórmula 1 na sua velocidade máxima. Me arrebentei todo.
Meu namoro com Tininha seguia tão morno quanto água deixada no sereno. Um beijinho na entrada e outro ao nos despedirmos. Ela alegava cansaço do trabalho seguido das atividades da faculdade. Eu era maduro o suficiente para compreender isto, mas sabia que havia mais alguma coisa, só tinha medo de perguntar e acelerar um fim que parecia inevitável. Ela mal queria ouvir as minhas queixas com as dificuldades que eu estava enfrentando no colégio.

Eu tinha dois professores que nunca esqueci, e estes NÃO vou chamar por nomes fictícios, o de português e literatura se chamava Camanho e o de geometria espacial era Cataldo.
Português nunca foi complicado para mim mas o professor não ajudava muito, era um tipo grandalhão, meio gordo e mal ajambrado, agressivo toda a vida. Certa vez ele começou a escrever algo no quadro e uma menina indagou ingenuamente: "Camanho, é pra escrever no caderno?" Ele respondeu: "No meu rabo é que não pode ser, né minha filha!" O som das gargalhadas dos outros alunos foi estrondoso e ele se "sentia" com aquilo. Quando ele botava no quadro uma frase complicada e perguntava qual o sujeito oculto eu olhava pro meu caderno com medo que eu fosse o escolhido para responder, pois não tinha a menor ideia. Mas eu ia levando. O problema foi com o Cataldo. Ao contrário do outro, era mais baixo e magro, um tipo de bom aspecto, diria até que era bonito, tenente da aeronáutica. Só o discurso inaugural dele já deu pra antever que teríamos problemas. Nunca vou esquecer. Disse ele: "Eu não preciso desta merda pra viver, ganho um excelente salário como militar, eu sou professor porque amo dar aula, e não estou aqui para brincadeiras, portanto é melhor vocês se esforçarem em aprender porque senão terei um imenso prazer em reprova-los!"
Me recordo do primeiro dia de aula, fazia um calor dos diabos, no intervalo as panelinhas se reuniam para fofocar ou comer na lanchonete. Eu não conhecia ninguém e muito menos gostava de fofocar, de bom grado eu teria ido à lanchonete, mas não tinha dinheiro, só o da passagem de ônibus. O estabelecimento tinha muros altos, parecia uma prisão, mas um trecho do muro estava arrebentado como se tivesse sido posto abaixo por uma bomba. Como estava muito quente, tirei a camisa e me encostei nos escombros do muro.
Fiquei ali de olhos fechados sentindo o calor do sol carioca. Não demorou nem um minuto e veio um guarda da prisão e disse: "Não é permitido ficar sem camisa no pátio. Vista sua camisa." "Ok, desculpe", disse eu.

Passado um mês e pouco o Cataldo entrou em sala e anunciou uma prova surpresa para testar nosso aprendizado. "Tô fodido", pensei, e não deu outra. Da primeira à ultima questão eu não sabia nadicas de nada. Mas tentei fazer a prova usando uma certa lógica. Todos aqueles triângulos e números deram um nó na minha cabeça e o resultado não poderia ter sido outro: tirei um baita de um zero. O professor corrigiu as provas ali mesmo. Eu não era o único asno da sala, outros também não sabiam ou não estudaram, aliás, quase ninguém teve média satisfatória. O Cataldo, é claro, não perdeu a oportunidade de tripudiar, para cada aluno ignorante ele tinha uma torrente de comentários mordazes que seriam até engraçados se a situação não fosse grave. "Quem é Eduardo?" Perguntou ele. Como não havia outro Eduardo na sala, somente eu levantei a mão. Ele se aproximou trazendo minha prova na ponta dos dedos fingindo repulsa e falou: "Isto aqui, cara, me dá nojo! Ouviu bem? Nooojooo!" E soltou os papéis que dançaram no ar até cair no chão.
Depois disto fiquei marcado por ele. Sempre que havia uma questão complexa no quadro negro eu era chamado para tentar resolver, é claro que eu não conseguia, na verdade eu não passava de uma escada para o cara transmitir seu humor famigerado. Embora eu ficasse nervoso e amedrontado, talvez até por lembrar de algumas situações muito similares com meu pai, eu no fundo não ligava muito, eu havia apanhado um bocado (literalmente) de uma professora no terceiro ano primário, então aquelas humilhações não eram lá grande coisa. Outra vítima dele era uma menina muito bonitinha que sempre voltava do quadro segurando as lágrimas, um dia ela não conseguiu e teve uma crise de choro convulso.
O ápice daquela situação se deu certo dia quando fui chamado à frente da turma para resolver um problema. Eu disse a ele que não sabia resolver a questão. Ele sempre explicava mas a coisa não entrava na minha cabeça. " Sabe porque você não aprende Eduardo? Porque você é burro!" Eu acho que ele estava coberto de razão, mas mesmo assim eu respondi: "Burro não professor, a diferença entre nós dois é que você possui algumas informações que não farão a menor diferença na minha vida prática!"
Parece até texto decorado, não é? Mas posso lhes garantir que foi assim, sem tirar nem por. Nunca esqueci estas palavras que proferi. Sem uma resposta a altura ele me mandou pra fora da sala. No mesmo dia fui chamado à secretaria. Queriam saber se eu estava com algum problema. Eu respondi que não, mas que não tinha condições de seguir o programa, pois boa parte daquelas matérias eu não tinha tido no ano passado. A opção lógica seria eu repetir o primeiro ano, mas estava farto, decidi me desligar do colégio. Ficasse mais tempo naquele lugar eu iria enlouquecer de vez.
O sargento Verdugo me passou um daqueles sermões sobre responsabilidade, ética e que ali, se eu quisesse ficar, não teria a mamata a que estava acostumado com meus pais e todas essas coisa bacanas de se ouvir. Voltar para casa àquela altura estava fora de cogitação, eu não tinha outro lugar para ir. Prometi que aquilo não voltaria a acontecer, mas ficou claro que aquele ano estava perdido para mim, pelo tempo que eu já havia perdido eu não seria aceito em outra escola. Até tentei mas não haviam vagas nos colégios públicos da região. Mostra que comecei minha vida no Rio de Janeiro muito bem. Teria que mentir aos meus pais, e isto me arrasava mais e mais.

O sargento Verdugo gostava de pintar nas horas vagas, ele ganhava um extra pintando um rostos de Cristo de perfil com guache em papel camurça preto que eram deixadas em consignação em casas que vendiam materiais de arte no Largo da Carioca. Para colaborar eu pintava umas paisagens que eram vendidas na Praça XV aos domingos ou na Faculdade Símonsen às terças feiras, tiveram tão boa aceitação que tive que aumentar a produção, pintava também cavalos, que eram bem requisitados. Me senti bem, embora não pagasse minha estada na casa daquele senhor, eu não viveria de favor integralmente.
Era complicado morar ali. A mãe do sargento era muito religiosa e não admitia televisão em casa, nem quadros nas paredes, o som 3 em 1 era só para ouvir músicas religiosas antigas.
Certa vez tomei um pito por estar assobiando uma música. Assovio remetia ao Saci que era uma das manifestações do diabo, segundo o que ela herdara da família. Mas não tinha maiores problemas com ela, eu a tratava com muito desvelo e com o tempo ela passou a gostar muito de mim.

Algumas lembranças ficaram vivamente gravadas na minha memória outros ficaram embaçados, então não posso afirmar categoricamente se a cronologia dos acontecimentos está correta. Impossível afirmar agora se Tininha rompeu comigo durante ou depois destes acontecimentos todos, mas o caso é que o temido dia chegou. Nosso namoro chegava ao fim. Como gostasse muito de mim ela queria ficar ligada comigo, queria minha amizade. Claro, disse eu, mas a verdade é que eu passei a evita-la de todos os modos, como se ela tivesse uma doença. Não atendia às batidas dela na porta e fazia um outro caminho onde eu não corresse o risco de cruzar com ela na rua, afinal morávamos próximos. Vou poupa-los de ler o melodrama de como aquilo impactou minha vida naqueles tempos. A primeira namorada, com quem perdi minha virgindade e idealizei todo um futuro, tudo aquilo escorria por um ralo como água suja.

Eu fiz amigos por lá, uma família em particular que por respeito a eles não farei muitas citações (acho que não iriam gostar) me recebia muito bem, vez ou outra eu estava lá para almoçar. Passava tardes conversando com a matriarca, que se tornou uma mãe para mim. Rememorando hoje, sei que fui para aqueles queridos um mala sem alça, eu era intransigente, não gostava de nada e sempre era franco em deixar isto claro. Por exemplo, a filha mais velha da família gostava do Sítio do Pica-Pau Amarelo que passava na Globo, assistia novelas e eu achava tudo aquilo uma bosta. Ela curtia de paixão o mpb Milton Nascimento e eu não suportava o cara e nem os amigos viados que ela tinha. Na verdade eles tiveram muita paciência comigo. A única coisa que me resta, é que se um dia lerem isto, saibam que peço desculpas e sei que se causei alguma mágoa, não há nada que possa ser feito para reparar os danos.

Mas a maior parte do meu tempo era passado em solidão, o sargento Verdugo tinha problemas cardíacos sérios, vivia de licença e passava longos períodos viajando pelo interior de Minas Gerais eu em Friburgo, no interior do Rio. A mãe dele também ficava a maior parte do tempo em Miguel Pereira na casa das filhas. Ficava incumbido de cuidar do lugar.
Eu me exercitava e lia muito. Fuçava os sebos no centro da cidade e vinha pra casa com contos do Edgar Allan Poe e os livros da Agatha Christie. Li a Divina Comédia e gostei, mas não consegui absorver o Don Quixote (tenho que tentar de novo) nem o Corcunda De Notre Dame. Mas três livros mexeram muito comigo, tanto que os reli uma infinidade de vezes: Olhai Os Lírios Do Campo, Meu Pé De Laranja Lima e Doidinho. Este último então, nem se fala. Nos quadrinhos eu lia Tex e Ken Parker, aliás, era dali que eu tirava referências para os cavalos que pintava.
Aproveitava a ausência dos donos da casa para ouvir música. Eu comprava discos dos Beatles, Queen e Pink Floyd e deixava eles bem escondidos, aquela música profana não seria admitida naquele lar.

Meus exercícios físicos eram feitos da seguinte forma, como não dispunha de pesos e nem dava pra ir a uma academia (lembrem-se, naquela época não era moda fazer musculação, uma academia assim era muito difícil de se achar, se é que existiam, e mesmo que existissem eu não tinha grana pra frequentar), eu usava bujões de gás (vazios ou cheios) para fazer agachamentos ou "força militar" para os ombros. Fazia séries e mais séries de flexões e abdominais e só contava quando os músculos começavam a doer. Havia uma barra fixa num bairro próximo chamado Sulacap, eu ia até lá correndo, fazia os treinos e voltava na carreira.
Corria todos os dias, com sol ou com chuva, geralmente por toda a vila militar até Marechal Hermes.
Ter um porte atlético me afastava de encrenqueiros, mas também era chamariz para alguns outros. Eu tinha um conhecido, um rapaz negro de quase um metro e noventa que praticava judô. Certa tarde quente na casa dele enquanto rolava um Fagner no som, ele veio com esta afirmação:
- Me falaram que cê fez karatê!
- É.
- Até que faixa?
- Até a amarela.
- Só?!?
- É.
- Mas porquê?
- Eu não tinha grana pra pagar exame de faixa.
- Ah, então tá explicado. Escuta, cê é bom mesmo?
- Sei lá.
- Aposto que cê é forte pra caralho.
- Não sei não.
- Olha Edu, tô afim de lutar com você pra ver quem de nós é o mais forte.
- Qualé cara, sai dessa, arruma uma namorada!
Mal acabei de dizer isto e o cara pulou pra cima de mim, o impacto me fez cair no chão e bater com a cabeça violentamente no assoalho. Ele tentava me imobilizar numa chave de braço e eu procurava uma forma de pegar na garganta dele, quem assiste MMA hoje em dia pode imaginar a cena. Sei lá por quanto tempo aquela situação ridícula se prolongou, o fato que eu não tinha instinto assassino o suficiente para machucar o rapaz, embora por uma ou duas vezes a chance tivesse se apresentado. Ficou claro para mim que eu não sairia daquela situação, o cara realmente tinha energia e estava afim de provar algo a si mesmo, pra acabar logo com aquilo deixei que ele me imobilizasse o braço e pedi água.
Ofegante ele disse;
- Eu sabia que esse negócio de karatê não servia pra merda nenhuma.
- É.
Sai de lá assim que pude, minha cabeça latejava e havia um galo no local da pancada, meu nariz começou a sangrar copiosamente. Quem me via na rua fazia cara de espanto.
Uns anos antes, em Brasília, um primo do Luca, que tinha o apelido de Lilico, teve a mesma atitude, queria provar que era mais forte do que eu, só que este não conseguiu.
Certas coisas nunca mudam, pensei.

Minha produção de quadros não parava, pintava minhas pequenas paisagens em papelões e pedaços de eucatex. Não usava modelos, eu tinha que usar a criatividade, pessoas pescando, passeando, andando a cavalo, casinhas no alto do morro, geralmente lugares onde eu sonhava estar com minha mãe e irmãos. Fazia a limpeza da casa e lavava minhas roupas com sabão artesanal que alguém por lá fabricava.

Teve uma garota por quem me interessei chamada Marlene que trabalhava em uma papelaria. Era uma baixinha muito bonita com belas pernas e quadris largos. Ela não quis nada comigo. Soube depois que ela pensava que eu era meio doido da cabeça. Teve uma magrinha que trabalhava num supermercado próximo, chamei-a para ir ao cinema e ela me rejeitou por pensar que as corridas que eu fazia a té a Sulacap era pra fumar maconha. O local era muito frequentado por maconheiros e também associavam o rock que eu ouvia a drogados. Se soubessem como eu desprezava as drogas e seus usuários....
Mas havia uma garota chamada Sol que ia pra cama comigo bastando apenas eu estalar os dedos. Ela não era gorda mas tinha uns seios enormes que fora dos soutiens iam parar próximos ao umbigo.  

Fui dispensado do serviço militar, não sem uma grande luta, mas conto isto talvez numa outra oportunidade.

Sempre que podia eu ia até Madureira e Realengo assistir algum filme. Cinema naquela época era barato.
Como podem ver, fora as pinturas que fazia para ajudar nas despesas eu estava vivendo como um vagabundo. Minha mente vivia num caos e perpétuo sentimento de culpa arrasador.

No ano seguinte eu voltaria a estudar, mas foram quase quatro anos na mesma situação sem dar sinais significativos de progresso. No final de 1980, pouco depois da morte do John Lennon eu voltei a Brasília para visitar meus pais e irmãos. Pensei em ficar ao lado dos que amava mas as situações com meu pai continuavam difíceis, mais que nunca depois da minha evasão, então eu voltei ao Rio pra tentar mudar os rumos do meu destino.

Algumas situações pretendo narrar aqui em outras postagens, mas tem uma que vale a pena contar só pra encerrar:
Não morei num único lugar, num dos prédios onde fui residir, havia um cara que se achava o dono do pedaço. Era um tipo baixo, atarracado, de compleição endomórfica, respiração ruidosa, barba rala e cabelos encaracolados na altura dos ombros, o hálito do cara fedia como um urubu canceroso. Andava armado com um 38. Diziam que era pedófilo e assassino. Assassino não sei, mas pedófilo, mais tarde foi comprovado. Era casado com uma loirinha magricela.
Ele já havia me visto por ali, sabia que eu morava naquela pocilga de dois andares, mas certa noite ao abrir a porta da rua e subir as escadas, de repente me surge à frente aquela imensa figura de compleição suína a me apontar uma arma na testa. "Parado aí!" Parei e levantei as mãos. "Ah, cê é o cara novo que mora ao lado do meu apartamento, né?" "Isso mesmo", assenti. "Cuidado, cara, cê quase toma um tiro nas fuças entrando sorrateiro deste jeito no MEU prédio! Faça mais isto não!" O bafo do cara era de matar, passei por ele e segui pelo corredor. "Hei, cara!" chamou ele, me virei e ele deu dois socos poderosos na parede como se fosse derruba-la. "Agora cê tá sabendo quem manda aqui, né?" Sinceramente, apesar da arma e do aspecto de hipopótamo furioso com pimenta no cu, não senti medo dele, balancei a cabeça em sinal de afirmativo e entrei.
Dias depois eu voltava cansado de uma corrida, ele me vendo de sua porta aberta, saiu e bradou: "Ei, cara, cê tem um físico legal, bem proporcionado, levanta pesos?" "As vezes", respondi. "Levanta mais de cem quilos?" "Nunca tentei". Passei por ele sem nem olhar sua cara redonda com barba falhada. "Não me dê as costas, porra!" Dizendo isto ele muito rápido agarrou minha mão direita e começou a torce-la, num puxão mais rápido ainda, me livrei do seu aperto mas ele me agarrou o outro braço redobrando a força. Bem a exemplo do negão judoka e do primo do Luca, me vi de novo naquela situação ridícula, tentando me livrar de um macho querendo provar superioridade física e mais uma vez notei que me faltava o instinto assassino, vocês podem não acreditar mas naqueles segundos que se passaram eu estava calmo o suficiente para raciocinar que com a minha mão direita livre eu poderia tentar vazar os olhos do infeliz, ou dar-lhe uma cutilada no pomo de adão esmagando-lhe a traqueia, o que provocaria morte por sufocamento, sabia que tinha rapidez suficiente para isto, ou ainda dar-lhe uma cabeçada no nariz esmagando-lhe o septo nasal. Mas não fiz nada disso, resignei-me e deixei ele me torcer o braço até as minhas costas e pressionar seu joelho na minha lombar e seu antebraço na minha nuca forçando-me contra a parede. Era apenas um idiota querendo mostrar que era o galo que cantava mais alto no terreiro. "Fica frio e não se meta comigo, valentão, cê pode ter um físico de Tarzan, mas pra mim cê num é nada!" vociferou ele. "Ok, agora me solte!" Ele largou e eu prossegui para meu quarto sem nem olhar para trás. Curiosamente, após aquele incidente o cara nunca mais me incomodou.
Certa noite barrei com ele no mercado, me cumprimentou e em seguida foi espancar um sujeito que naquele preciso instante mexia com a mulher dele. Vi-o atirar o infeliz no meio da rua. Imediatamente uma grande multidão se concentrou ali naquela esquina. No meio da balbúrdia ele me procurou com os olhos para ver se eu tinha testemunhado seu feito. Estufou o peito pegou na mão de sua esposa e saiu dali munido das compras ignorando o cara caído e ensanguentado no asfalto.

É muito difícil resumir quatro anos em apenas uma postagem, mas alguns fatos senti necessidade de registrar, outros, relatarei quando houver ocasião.

Eu ainda veria Tininha algumas vezes e por duas, ensaiamos nossa volta, mas não permiti que acontecesse. Eu não faria nenhum bem a ela. Minha mágoa ainda era grande. Estava a beira de um colapso nervoso, sem nenhuma perspectiva de vida, como se o mundo todo fosse uma prisão e só houvessem cães à minha volta. E eu não estava errado.