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domingo, 16 de setembro de 2018

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS (04).

Não sei exatamente como me definir, só sei que não sou uma pessoa boa, até que eu tento, procuro ser, mas no fundo no fundo eu me engano. Não fui bom filho, não fui bom pai, não fui bom irmão e não sou bom marido e nem um bom amigo. Sim, eu cumpro as minhas responsabilidades, luto para não deixar nada faltar em casa, pagar minhas dívidas e tento tanto quando possível ser educado e atencioso com todos que tem para comigo uma atitude de respeito e carinho, no entanto eu sei que isto não me torna uma pessoa boa. Eu tenho minha própria definição do que é ser bom e não vou traduzir aqui, não importa e dentro da minha definição, eu não me enquadro. Talvez por isto os bons moços, os bem sucedidos nunca me interessaram (meus irmãos não contam, meu amor por eles fala mais alto, eles sim são pessoas boas, tanto que me ajudam até hoje).
Sempre me senti menos desconfortável ao lado dos perdedores, dos refugos, não exatamente vítimas, mas aquelas pessoas que debaixo da casca de normal é um ente excluído. Vejam bem, não falo aqui de mendigos,  aleijados, negros ou homossexuais, estas coisas não me importam, não presto atenção nisto, gente é gente, não importa opção, cor ou deficiência, eu me refiro àqueles que não se enquadram no sistema cotidiano de vida, falo daqueles que nunca são convidados para as festas e fotos.
Tenho um profundo desprezo por drogados, bêbados, pedófilos, ladrões, valentões, assassinos e toda a sorte de filhos da puta. Eu conheci alguns e por força da circunstâncias tive de conviver por algum tempo mas só de ouvi-los falar já me embrulhava o estômago. Os altivos, os arrogantes, engravatados, que se orgulham do seu dinheiro e título de doutor eu sempre quis distância. Boa parte da minha adolescência eu vivia cercado de tipos assim, os meninos mimados, gordinhos filhos da vovó. Adoravam exibir seus brinquedos caros, suas roupas de marca, suas viagens ao exterior, mas ao levar um escorregão e esfolar o joelho choravam aos berros como se a perninha estivesse sendo amputada.

Hoje eu me lembrei do Jerry. Em 1978 meu primeiro ano do segundo grau foi um dos períodos mais estranhos que eu tive na vida. Antes éramos aquele grupo de três ou quatro que não fazia parte dos bem sucedidos e sonhávamos com nosso futuro brilhante ao lado das meninas que cada um estava a fim, e elas, claro, nem sabiam que nós existíamos mas nós nos enganávamos que éramos amados por elas. Já no segundo grau era diferente, na idade de 16, 17 anos, a inocência nos abandonava, já dava pra discernir mais ou menos como eram de fato aqueles que nos circunvizinhavam e noventa e nove por cento me causavam repúdio. Foi o primeiro ano em que estudei em um colégio pago, era o Santa Rosa de Brasília e era uma empresa de freiras. Foi um inferno na minha vida (não pelas freiras, que fique bem claro). Eu vivia com vergonha pois as mensalidades estavam sempre atrasadas, meu pai em sua dureza habitual não conseguia dar conta de atualizar, mas eu sempre era chamado na diretoria para levar carta de cobrança pra casa.
Em algum post passado eu comentei que naqueles tempos o segundo grau no Brasil era "profissionalizante", se me recordo bem haviam três modalidades a escolher: enfermagem (parece brincadeira), contabilidade (era isso mesmo?) e desporto. Como eu gostava de artes marciais (embora fosse bunda mole), levantar pesos e correr, optei por este último. Todos os esportes ensinados e praticados eram os de equipe: futebol, voleibol, basquete e handebol. Eu odiava a todos. Nunca me dei bem em grupo. Eu e a bola sempre fomos inimigos um do outro. Talvez eu tivesse algum problema de coordenação motora, sei lá, mas eu não conseguia dominar aquele objeto esférico em nenhum dos esportes onde ela era o foco. Eu era muito ruim e não sabia trabalhar em equipe por mais que eu tentasse. Sempre era um dos últimos a ser escolhido para os times e rezava para que a maldita bola não viesse até mim, quando acontecia eu procurava me livrar dela o mais rápido que podia, jamais conseguiria uma finalização então não me metia a besta. Meu time quase sempre perdia, embora ninguém me acusasse - afinal eu era um zero para eles - eu me sentia culpado por não contribuir efetivamente. Raramente haviam provas de circuíto ou corrida de longa distância, sempre que íamos para a quadra ela para pegar na bola e para mim isto era um tormento. Havia uma piscina lá mas nunca se falou em natação, não sei porque. Outra tortura era aprender as regras daquilo tudo, afinal o profissionalizante era um antepasso para a faculdade de Educação Física. Dividiam, claro, os times em masculinos e femininos.

Eu só tinha dois amigos, bem, amigos é modo de falar, eles colaram em mim, meio que nos atraímos uns aos outros, dois perdedores e imbecis como eu, um deles que quase não falava com ninguém, um tipo meio índio que apesar da baixa estatura tinha um físico privilegiado e jogava futebol muito bem, podia ser um dos garotões populares se não fosse meio doido da cabeça. Num dia conversava normal, no outro parecia zangado e amuado como se algum de nós tivesse feito mal a ele. Era burro demais pra estudar e vivia colando nas provas, ele conseguia escrever capítulos inteiros dos livros em minúsculos papeis que ele colocava entre os dedos. Sempre tirava notas boas (menos em matemática) e nunca sabia nada de coisa alguma. Eu já citei este cara em posts passados. O outro sujeito definitivamente era um fodido na vida, baixinho, magrelo, óculos de grau, falava muito mas nada que fosse relevante. Todos nós usávamos moletons esportivos com tênis e ele vinha com sapatos vulcabras. Era zoado até pelos moleques do primário. Eu, se possível fosse, ficaria invisível na sala. Sentávamos nas últimas carteiras. Éramos os desprezados. Lógico, haviam outros Zés Manés, mas existem muitos tipos de medíocres, nem todos combinam entre si.

Certo dia surgiu o Jerry. Bom aspecto, falante, parecia inteligente e com boa educação, logo se tornou a atração da sala, as meninas sentavam perto dele e logo se enturmou com o "bocão", "camelo", "minotauro", Marco e Paulo, esses os fodões do primeiro ano (não recordo dos demais). Tinham duas meninas que se destacavam na sala, a Márcia e a Chilena, obviamente a chamavam assim por seu país de origem, era magra e tinha um lindo rosto e cabelos negros longos e lustrosos, ela nunca sequer olhou na minha cara. Márcia era mais baixinha com quadris largos, cabelos castanhos bem claros na altura dos ombros. Ela, por motivo que desconheço, gostava de conversar comigo. Sempre que ela vinha falar, eu discretamente colocava uma das mãos à frente do nariz para não sentir seu forte hálito matinal.
Certa manhã ela bocejava muito e exibia um aspecto de fadiga.
- Tudo bem, Márcia?
- Que nada, não consegui dormir.
- Porque?
- Passei a noite cagando! Comi um sarapatel e não caiu bem, fiquei a madrugada toda mijando pela bunda!

O Jerry se ufanava de ser bom nos esportes e tudo mais, no jogo de futebol ele vinha todo paramentado, com uniforme de seu time, joelheiras, caneleiras e chuteira oficial. Nunca acertava um drible, um passe, muito menos um gol. Eu lembro bem que ao tentar uma jogada de craque ele conseguiu dar uma bolada na própria cara, até hoje rio sozinho rememorando o fato. Pouco a pouco as pessoas foram percebendo a farsa do Jerry. Suas bravatas e mentiras. Em suma, ele chegou todo cheio de banca mas não passava de um bosta. Não demorou para o desprezarem. Não era mal aluno, mas em pouco tempo ele migrou das primeiras carteiras para as últimas onde ficávamos. Me dava bem com ele. Com o mínimo de conversa não precisei ser psicólogo para perceber que apesar de ser classe média aquele garoto era carente. Filho único, não tinha atenção dos pais. Não era a minha situação mas eu me identificava com ele, muito mais do que com o Paulo ou o Marco, caras que falavam comigo mas eram de uma outra linhagem, dos populares e bem quistos pela maioria. Jovens que tinham um futuro meio planejado. Aposto que viraram funcionários públicos ou bancários. Eu não jogava neste time, no time dos que iam às reuniões de família ou confraternizações de fim de ano da firma.

No final daquele ano minha vida iria piorar muito. Eu iria embora de casa para me aventurar no Rio de Janeiro atrás da primeira namorada. Mas esta história eu já contei.


A arte de hoje é mais uma do livro de contos do Artur Azevedo.

Boa noite e boa semana a todos!

domingo, 9 de setembro de 2018

FAMOUS MONSTER E O MUSEU NACIONAL.



Abro esta postagem com meu mais recente Famous Monster: O Misterioso Caso do Doutor Jeckill e o Senhor Hide. A matéria prima para minha releitura foi o clássico filme de 1932 interpretado por Fredric March. No cinema tivemos boas adaptações da obra de Robert Louis Stevenson (se você não leu o livro, corra atrás) mas de longe, a de 32 foi a que mais me marcou embora eu lembre muito pouco deste filme, afinal eu vi na adolescência.
Ressalto que na minha página do Facebook esta arte foi a que menos teve likes e comentários, não sei porque. Coincidentemente vou perdendo o gás para outras homenagens, mas quero ainda fazer mais umas quatro ou cinco, acho que elas merecem.

De um modo geral estou totalmente sem inspiração para realizar as minhas artes pessoais, luto para fazer um pouquinho cada dia da nova HQ do Zé Gatão - a ser publicada de forma independente, se Deus quiser - e não está fácil. Penso que é uma fase passageira, talvez provocada pela aridez da vida nesses últimos tempos. Felizmente sou um profissional e continuo dando o meu melhor nas artes encomendadas, breve teremos novidades por aqui, incluindo um novo Zorro.

O PASSADO E A CULTURA VIRARAM CINZAS.

Estou de luto pelo povo brasileiro que aprecia história e cultura, o Museu Nacional do Rio de Janeiro incendiou e seus inúmeros itens, incluindo vasta biblioteca e pinturas, viraram cinzas. Nem sei bem o que dizer, tenho certeza que muitos escreveram sobre o assunto nos inúmeros meios de comunicação que a internet oferece hoje em dia e eu sou apenas um desenhista emotivo e ignorante. O que tenho a dizer são duas coisas:

1 -  Nem tudo foi ruim no período que morei no Rio de Janeiro. Vi bons filmes nos cinemas de lá e ia sempre à Quinta da Boa Vista em São Cristóvão. Eu chegava de trem, era fácil. Foi lá que beijei a primeira mulher que amei de verdade na vida, aos dezesseis anos, debaixo de uma chuva fina. Foi um beijo tímido, um encostar de lábios apenas, mas que me marcou até hoje.
Ir ao museu era uma constante e eu, muito mais que as ossadas dos dinossauros, me impressionei com as múmias que existiam ali, em particular uma, conhecida por Kherima, que dizem, já provocou alucinações nas pessoas. O que me chamava a atenção nela, era que seus pés não eram enfaixados. A última visita ao lugar foi no início dos anos 80 quando minha mãe e irmãos foram me visitar. Eu
sempre planejei voltar se uma oportunidade se oferecesse. Sempre que retornei ao Rio foi um tanto as pressas para visitar a filha e nunca tive ocasião. Agora nunca mais. Lamentável.
Li em algum lugar que o Museu do Louvre, em Paris, recebeu muito mais visitantes brasileiros que o Museu Nacional.
A Pinacoteca do Estado em São Paulo me trás boas recordações também, espero que não esteja entregue às traças como muitas casas de cultura Brasil afora.

2 - Raramente uso minhas páginas virtuais para pregar minha fé e inclinações políticas, as vezes não consigo evitar. Um amigo do Facebook me perguntou se eu não recebia convites para os grandes eventos de cultura pop do país por sofrer embargo das empresas sendo eu reaça de direita (palavras dele) e ser cristão. Respondi que não era nada disso, eu não era convidado por ser um total desconhecido de todos eles. As grandes figuras que são a nata deste meio nem sabem que eu existo e pra mim está tudo bem.
Contudo, hoje vou comentar aqui que acho que não é por acaso que o responsável pela manutenção do Museu Nacional é o reitor da UFRJ, um indivíduo que afirmou em vídeo que o MST pulsa cultura - e dá, assim, seu irrestrito apoio ao movimento - está ligado ao mesmo partido em que esteve vinculado o marginal que esfaqueou um candidato a presidência da república esta semana. Se não estamos nas mãos de uma quadrilha então não sei o que é. Desvio de verbas públicas e violência. Detenção de poder por todos os meios. Protegem bandidos e sacrificam cidadãos. Essas pessoas me lembram muito aquelas citadas em Isaías 5:20, 21.

Deixo com vocês um vídeo que mostra um pouco do que nós perdemos e que a maioria da população brasileira nem sabia que existia. A TODOS VOCÊS, UM GRANDE BEIJO e obrigado por me visitarem aqui!





















 

domingo, 2 de setembro de 2018

A TRISTE FIGURA DE UM PROFESSOR.


Era um amigo do meu pai. Nós o conhecíamos como Professor Sérgio. Se não estou enganado ele era italiano de nascimento, um homem culto e educado, artista dos bons. Este senhor é uma das minhas lembranças taciturnas de uma São Paulo fria e cinzenta. Todos os anos que passei lá na primeira metade da década de 70 hoje me são rememoradas com cores opacas, mortiças, como uma gravura que estivesse muito tempo exposta ao sol e seus pigmentos tivessem desbotados.
Hoje não lembro mais a origem do Professor Sérgio, como ou de onde me pai o conheceu. Era da idade, talvez, de uns 40 anos, sua tez era morena, bem bronzeada, cabelos lisos e escuros com grandes entradas, nariz aquilino, lábios finos. Corpo bem magro. Não era muito alto e não tinha boa postura, sempre meio encurvado para a frente. Duas coisas nunca esqueci naquele homem, seus imensos olhos escuros tristes, de uma tristeza que comovia e as mãos grandes, um tanto deformadas. Ele era um bom artista, semanalmente nós o recebíamos em casa pois era lá que ele deixava algumas de suas obras que eram expostas na chamada "feira hippie"que acontecia na Praça da República aos domingos. Ele, se me lembro bem, morava na Lapa e seus quadros eram bastante pesados para trazer em ônibus, então, possivelmente, a convite dos meus pais, os deixavam num canto do quarto onde eu dormia com a minha avó materna e os irmãos mais novos. A técnica dele era a seguinte: ele elaborava seus temas num papel e os reproduzia desenhando com papel carbono azul sobre grandes chapas de metal - cobre, se não estou enganado - depois com um instrumento de ponta grossa ele forçava aqueles traços de forma que eles ficassem em relevo do outro lado da chapa. Eram detalhes minuciosos e que exigiam grande esforço, motivo pelo qual seus dedos eram meio tortos dando à mão um aspecto de deformidade. Lembro da Santa Ceia do Leonardo Da Vinci que ele reproduzia nesta técnica, não só Leonardo, aliás, mas muitos temas religiosos de outros grandes mestres, em cobre, assim como cavalos correndo pelo campo e escudos (destes que as famílias tradicionais colocavam em suas paredes). Se a memória não me trai a venda dessas obras era sua única fonte de renda e ele não vendia tão bem. Meu pai ajudava a divulgar e transacionar aqueles quadros metálicos entre seus contatos no ministério.
Todos os domingos pela manhã, lá estava o professor nos saudando com seu sotaque forte já preparado para pegar aqueles quadros pesados e eu, um gurizinho, o ajudava a levar até a praça. Me recordo que aquele lugar aos domingos era tomado por uma multidão de pessoas onde mal se podia andar. Muitas vezes eu ficava por ali assistindo ele comercializar seus trabalhos. Não era uma vida fácil, assim como a da nossa família também era cheia de aflições.
Numa dessas ocasiões, sofri um assédio por parte de um senhor baixinho que usava chapéu e tinha uma cicatriz de lábio leporino. Ele me disse bem baixinho: deixe eu ficar encostado em você, não fale nada pra ninguém e eu te dou um cruzeiro e ficou colado em minhas costas, comprimindo algo entre minhas omoplatas, me seguia por aquele caminho até o local onde o professor tinha seu espaço de exposição. Claro que naquela época eu não sabia do que se tratava aquilo, para mim era apenas um cara chato que não desgrudava onde quer que eu fosse e o compacto bloco daquela procissão facilitava tudo para ele. O professor ia à frente, suando, levando seus pesados quadros, eu, com os objetos menores um pouco atrás e o lábio leporino logo desapareceu. Nunca contei isso a ninguém, por algum motivo aquilo me pareceu muito errado. Hoje a petizada sabe de tudo, mas eu, naqueles dias, era um total ignorante em relação a quase tudo. Muitos anos depois eu vi aquele sujeito em Brasília, no Setor Comercial Sul, bem em frente ao Shopping Pátio Brasil com uma barraquinha de doces, bem envelhecido, de chapeuzinho e a cicatriz debaixo do narigão. Tentei não pensar mais naquele assunto até que me lembrei hoje.

Algumas vezes fomos visitar o professor em sua casa, eu, minha mãe, avó e irmãos pequenos. A esposa dele era uma mulher problemática, meio louca, até. Falava muito e falava alto, ao contrário do marido que era circunspecto. Eles tinham um filho pequeno, quase da idade do meu irmão Gil - talvez mais velho um pouco - chamado Gino. Um pirralho magrinho com uma enorme cabeleira toda cacheada que chegava até as nádegas. A mãe fizera uma promessa a um santo de não cortar as madeixas do menino até que ele completasse uma determinada idade. Um troço bem doido.
Numa dessas visitas àquela casa eu desenhei uma figura do Super-Homem num caderno e aquela senhora me passou um longo sermão, como se aquilo fosse um pecado, dizia que o desenho nunca me traria felicidade se eu continuasse nesse caminho. Durante um tempo eu fiquei sofrendo de culpa por gostar de desenhar.
Parece, não tenho bem certeza, que o Sérgio tinha sido padre - ou fazia seminário - e abandonou a batina para se casar.
Bem, era visível que aquele homem não era feliz. Muitas dificuldades financeiras, nunca reconhecido por seu talento e cultura, sem sex apeal e uma relação conjugal infeliz.

Eu sempre me senti pressionado, solitário, poucos amigos e muito bullying na escola. Em casa vivíamos tensos por causa do humor tempestivo do meu pai. Naquela época eu brincava com soldadinhos de Fort Apache ao lado de um garoto (não sei se seria legal citar o nome dele, acho melhor não). Era um menino vivaz e muito comunicativo, muito protegido pela mãe, o pai frequentemente chegava bêbado em casa. Soube uns anos mais tarde que aquele senhor morrera atropelado por um ônibus.
A mãe do menino mantinha a casa impecavelmente limpa. Na hora de almoçar, claro, parávamos a brincadeira, eu, as vezes era convidado, as vezes, não, mas ficava ali ao lado observando ela colocar a comida na boca de um pirralho que já tinha idade mais que suficiente para comer sozinho. Numa dessas situações ela o deixou com um copo de limonada e foi para a cozinha. Em dado momento, acidentalmente, o copo virou e molhou todo o chão. Temendo a surra que a mãe lhe daria tentou ajeitar a merda que fez pegando um pano no banheiro para limpar a sujeira. Tinha piorado, era visível a mancha no soalho encerado. Ele colocou um tapete em cima (era o couro curtido de um bovino malhado, lembro bem) e achou que tudo estava ok. A brincadeira continuou. Logo a gorda senhora veio pegar o copo para lavar e, lógico, notou a travessura. "Fulano, o que foi que você fez?" O pivete ficou pálido como se a vida lhe faltasse, sem delongas a mulher pegou-o pelo braço, sacou seu tamanco e deu-lhe com fúria na bunda e nas pernas. Eu fiquei petrificado ouvindo os berros: Aaaaaiii, mãe!!! Não, mãe...aaaaaiiii! Num me bate, mãeeeee, aiiiiii!!!!! Me levantei e saí da casa com o choro gritado do menino soando pelos corredores daquele prédio soturno.

Acho tudo isso muito triste. Triste como a figura do professor Sérgio.

Nos mudamos para Brasília e nunca mais ouvimos falar dele.
Meu pai, em meados dos anos 80, certo dia, recebeu uma carta do professor Sérgio - até hoje não sei como ele nos localizou, talvez algum amigo em comum - e a mensagem era tão triste quanto sua figura, nela ele falava um pouco de sua vida, que continuava a mesma luta inglória, pedia que meu pai respondesse a ele. Não sei se ele o fez. Uma segunda carta com apelos mais desesperados onde se lia: "Por favor, escreva...escreva...escreva...por favor, escreva!" E depois, nunca mais.

Não sei porque me lembrei do professor Sérgio nesses dias. Há em mim uma sensação de ocaso. De fim da linha, embora eu saiba que o porvir só a Deus compete. Eu sei que obtive mais sucesso que o triste professor, mas não consigo evitar de me comparar a ele, de me solidarizar com sua história. Acho que ela merecia registro aqui. Não sei se o Sérgio vive ainda, provavelmente não. A ele minha admiração e minha homenagem. Até um dia, professor!
           









domingo, 26 de agosto de 2018

FAMOUS MONSTER - A NOIVA DE FRANKENSTEIN


Hoje a minha homenagem aos famosos monstros do cinema vai para o clássico de 1935 dirigido por James Whale, A Noiva de Frankenstein. A primeira personagem feminina inclusive.


Estou chegando na reta final desta minha série, devo fazer mais uns quatro ou cinco. Confesso que depois de um tempo começo a perder o pique sobre um tema, principalmente se fico longo tempo sobre ele. Não aconteceu isto com "O Misterioso Caso dos Lobisomens Gigantes", lembram? Foram seis desenhos que fiz numa boa pois realizei quase numa sequencia, Famous Monster já dura anos e parei por muito tempo, as releituras de personagens da Hanna Barbera também tive fôlego curto, mas devo compor mais algumas se bater inspiração. Esta no entanto me obrigo a ilustrar as pérolas que me eletrizaram na adolescência, então, o que falta? Homem Lobo? Criatura da Lagoa Negra? Elvira? Certo, vamos a eles.

Até uma próxima, meus amados! 

domingo, 19 de agosto de 2018

JUNGLE KAMEN



Boa tarde a todos!

Acho que não é segredo que as histórias em quadrinhos hoje publicadas pelas editoras não me estimulam a comprá-las. Não me agradam os desenhos, tampouco os temas, que sempre partem para pseudo biografias com ênfase em algum absurdo. Mas as vezes me deparo com algo gratificante, que me remete às HQs que eu lia na infância, narrativas escapista, divertidas, cujo objetivo não é doutrinar, mas entreter (e isto não quer dizer que não tenha profundidade). É o caso de Jungle Kamen da autoria de Fabio Hasmann.

Pinup com a qual contribuí para Jungle Kamen

Também já comentei que o tempo que me vi envolvido com autores de quadrinhos (famosos ou não) minha decepção com eles foi marcante, a maioria se julgava muito mais do eram na verdade. Poucos eram os simpáticos e humildes. O Fabio Hasmann, que conheço via Facebook, sempre mostrou o perfil de cara gente boníssima, talentoso desenhista, educado e com disposição para dividir generosamente seus espaço com outros autores (coisa bem incomum, a maioria prefere te ignorar, são incapazes de um elogio, quanto mais alardear o trabalho alheio).
Para minha grata satisfação descobri que ele também sabe contar uma excelente história. Jungle Kamen é sua entrada neste metiê. A narrativa é bem amarrada, tem um saboroso gosto de aventura juvenil (nem por isto pouco violenta). Ele é muito bem sucedido na criação de sua própria mitologia.


Entendo muito pouco de mangás, games, robôs e monstros no estilo Jaspion (há um nome específico para esta vertente japonesa mas me esqueci agora) mas a influência em Jungle Kamen é patente - pelo menos para meus olhos - e ele consegue imprimir um forte estilo pessoal. Não vou dar sinopse da história, há canais no Youtube para isto, tampouco sou crítico de gibis, eu falo daquilo que gosto e eu li as duas partes quase numa tacada só.


O Fabio me falou que sou uma inspiração para ele. Logo eu? um desenhista desconhecido que nunca alcançou sucesso comercial? Não deveria ser um Mozart Couto? Um Mike Deodato ou Ed Benes? Mas eu fico agradecido pelo carinho e prestígio dele.


Valeu por tudo, meu caro Fabio, pelas palavras de encorajamento, sketches e dedicatórias!


Desejo sucesso absoluto em todos os seus projetos e vida longa a Jungle Kamen! Avante! 


domingo, 12 de agosto de 2018

ENCOMENDAS RÁPIDAS,


Parece até mentira que já estamos em agosto! Você para um instante para tomar um fôlego na corrida da vida e paft!, o tempo já te deu outra bofetada no rosto e não há reflexo que possa evitá-lo. Logo completo 56 anos e ainda me pergunto o que realizei na minha existência....eu diria que quase nada! Quero desesperadamente fazer algo que me permita pensar, putz, isto valeu a pena! Mas malditamente nunca consigo. Nunca é o dia. Tudo o que faço é trabalhar para ter o que comer e onde morar. Já é alguma coisa? Muitos diriam que sim, eu sempre afirmo que poderia fazer mais, só não sei o que nem quando. Bem, são pensamentos inúteis.

Costumo dividir com vocês o que ando absorvendo enquanto o tempo vai me devorando, né? Então vamos lá:

O que eu assisti? Vi o "Deadpool 2". Gostei, mas preferi o primeiro, talvez pela novidade; neste, quiseram fazer igual, só que com mais piadas, citações e ação. Achei que forçaram a barra em muitos momentos. Assisti também "Um Lugar Silencioso". Bom; mas pelos comentários eu esperava mais.

O que li? Queria muito reler "O Morro dos Ventos Uivantes", procurei o livro em todo lugar aqui no meio da minha bagunça e não achei, ou perdi ou está com algum dos meus irmãos. Terei que comprar de novo. Li então "No Sufoco" do Chuck Palahniuk; não gostei, é muito parecido com o livro anterior dele, "O Clube da Luta"; ali, a prosa dele era uma novidade, no que acabei de ler é tudo repeteco de situações absurdas e bizarras.

Quadrinhos? Terminei a saga do "Blade, A Lâmina do Imortal". Bom pra caramba, embora as sequencias de ação sejam as vezes confusas assim como as tramas políticas! Na verdade os japoneses incorrem muito neste "problema", na minha opinião.

Série de tv? Eu e Vera assistimos a primeira e a segunda temporada de "Fargo". Recomendo demais!


Bem, por hora é isto, só. As artes de hoje foram duas encomendas rápidas que um amigo me fez de personagens dos jogos que ele desenvolve. Ah, as personagens não são assim "fofas", foram sugeridas neste estilo, ok?

Boa noite, boa semana e fiquem bem!




domingo, 5 de agosto de 2018

O IDIOTA DE UM PASSADO INÚTIL COM FUTURO NEBULOSO.


A avó entregava o indicador para o menininho e ele com seus dedinhos minúsculos segurava o dedão que, de tão grosso, a mãozinha quase não abarcava todo e assim caminhavam pelas poeirentas ruas de uma Guarulhos dos idos de 60. O dedão que trazia segurança era da mesma mão que o espancava quase todos os dias, as vezes sem motivo, muitas vezes só para extravasar a frustração, assim como um rinoceronte que em seu acesso de fúria, sem saber como liberar a raiva, investe sobre uma árvore ou um cupinzeiro. Certa vez o gurizinho, tolinho toda a vida, encontrou no quintal barrento de uma amiga da avó uma nota de um cruzeiro e sem saber o valor daquilo pegou o dinheiro lamacento e fazendo um rolinho, envolveu com a mãozinha suja desconhecendo que estava incorrendo num crime que lhe custaria caro, carregou-o assim, consigo. Ele não dimensionava a distância de casa da amiga da avó até a sua, talvez fossem apenas uma quadra ou duas, mas em seu cérebrinho idiotinha aquilo parecia muitos e muitos quilômetros. A avó vendo o pequenino punho cerrado perguntou o que ele segurava, ele, abrindo a garrinha, mostrou a cédula amarrotada. Onde você achou isso? Ele respondeu verdadeira e inocentemente.


A avó tomou aquilo como obtenção indevida de propriedade alheia. A manzorra desceu violenta sobre seu rosto. Incapaz de se conter, a senhora, cujo rosto parecia um pergaminho e tinha um olho cego, mordeu a língua e aplicou-lhe um novo bofetão. Talvez o choro do imbecilzinho aumentasse o furor da mulher, sabe-se lá, mas ela pegou uma vara e dava na bundinha e perninhas do pirralho dizendo que não suportaria a vergonha de ter um neto ladrão e foram devolver o dinheiro, o trajeto todo tomando sova, ora com varadas nas pernas, ora com tapões no cachaço. Os passantes olhavam indiferentes. Na vida adulta ele nunca conseguiu compreender porque, apesar de tudo aquilo, ele amava aquela mulher com amor incondicional e sua morte em 1977 deixou nele um vazio que nunca mais seria preenchido.

As jornadas pelas casas dos conhecidos eram longas e nas noites de lua cheia, o merdinha olhava para o alto e via aquele imenso olho gelado e prateado a fitá-lo. Ele corria o mais veloz que podia para fugir daquele olhar, mas não havia como se esconder, o olho o perseguia implacavelmente e seu encéfalo de minhoca não entendia: por mais rápido que corresse, a lua estava sempre ali, no alto, sondando-o.


Passou a infância com medo, não tanto pelos defuntos que ele via nos caixões, muitos quase escondidos entre cravos e rosas, mas das surras sem motivo aparente antes de dormir, ao levantar ou durante o correr do dia, dependia muito do humor da velha senhora. Os medos das surras só eram suplantados pelos constrangimentos provocados pelos desmaios da avó nas casas onde ela frequentava. Talvez eles fossem reais, talvez ela só provocasse a piedade alheia. Ele nunca soube. Todavia os castigos infringidos por ela nunca se comparariam aos do pai que viriam algum tempo depois.

Uns anos mais tarde, no início dos anos 70, o palerminha vê um comercial na tv de um certo produto de limpeza: uma mulher perplexa com a sujeira de sua cozinha, daí surge o Ajax com seu grande furacão branco, e dona retira a tampa e um tufão sai do recipiente limpando toda a imundície do local. Num belo dia a mãe do bocózinho compra o tal Ajax. Ele nada fala mas fica na expectativa de vê-la abrir a tampa do involucro e soltar o vendaval que há nele. Quando ela finalmente abre, nada acontece, nada de furacão, nada de ciclone, nada de turbilhão! O tontinho pensa: será que veio com defeito?

O lerdinho foi crescendo ouvindo dos priminhos que era feiosinho, das priminhas, que era baixinho e dos amiguinhos na escola, que era burrinho, assim, levando pancada dos meninos bem nutridos, com pais bem sucedidos, começou a pensar que não pertencia a este mundo, que não queria existir nele, descobriu que tinha incapacidade de se sentir bem em grupo. Vivia com quimeras e devaneios, sempre tristinho e com medo, sempre tentando parecer fortinho. Até que Deus, em quem ele acreditava, sem saber como nem porque, fê-lo descobrir que sabia desenhar e isto aliviou um pouco o fardo, fazendo-o escapar para outros mundos, mundos tristes que ele imaginava e criava, onde ele por mais surrado e pressionado que fosse, sempre saía vencedor no final.

O basbaquinho foi ficando velho no corpo mas por dentro nunca mudou. Continuou sendo um idiotinha, sempre fazendo as escolhas erradas. Nunca conseguiu mudar. Chegou a conclusão de que o amor eros é uma armadilha, um cárcere, o pior deles; descobriu que o que vale temporariamente é o amor philos e concluiu que o amor Ágape é o que preenche, é eterno e que torna a vida na terra suportável. E assim prossegue até o dia derradeiro em que toda vã filosofia vire poeira e seja dispersada pelo vendaval do tempo.