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segunda-feira, 29 de junho de 2015

DOCE VERÔNICA.


"Ouro e herdades são legados dos pais, mas a mulher virtuosa é herança de DEUS." Este trecho da Bíblia Sagrada se encontra em Provérbios 19:14.


Verônica. A família dela (e também a minha) a chamam pelo apelido de Vera, eu a chamo de Veroniquita. Nos conhecemos em fins de 1995. Éramos vizinhos de porta, quando morávamos no Edifício São Manuel, na Rua Guaianazes, no centro velho de São Paulo. Eu morava no apartamento 42 e ela bem em frente, no 41 (o local exato se vê na foto acima). Cruzávamos pelos corredores e elevadores, nos cumprimentávamos e trocávamos olhares. Eu sempre fui péssimo para discernir essas coisas, então não sabia se o olhar era "aquele olhar". Venci minha timidez depois que entabulamos algumas conversas e convidei-a para ir ao cinema já esperando que ela fosse recusar. Para minha surpresa ela aceitou. O primeiro filme que vimos foi "Assassinos" com o Sylvester Stallone e o Antônio Banderas. Convidei-a para lanchar mas ela não aceitou e assim timidamente começamos a namorar. A pernambucana e o paulista.

Temos história, quisera eu poder detalhar os altos e baixos pelos quais já passamos, mas é nossa saga, e embora eu não tenha pudores em relatar muitos momentos delicados da minha vida, devo respeitar a discrição dela, sim, pois uma das qualidades da minha esposa é: discrição.

Se contarmos o período de namoro já temos vinte anos juntos.


Milagrosamente ela permitiu usar algumas fotos para postagem, são antigas, do período em que moramos em São Paulo, mas tão valendo, ela não mudou nada.

Bem, minha intenção era de fato escrever sobre o amor e admiração que sinto por esta mulher, seu companheirismo e apoio todos esses anos de uma forma, digamos, mais poética, mas me faltam as palavras certas, em parte porque não existem palavras que possam traduzir certos sentimentos e também porque as tempestades dos últimos tempos roubaram boa parte da minha inspiração. Mas tão certo como Jesus vive (eu creio), estas tormentas vão passar, e o céu vai se abrir, revelando as estrelas em toda a sua beleza e plenitude.

Deus abençoe a Verônica. Deus abençoe a todos vocês.








sexta-feira, 26 de junho de 2015

RABISCO RAPIDEX.


O ano de 2015 está sendo mais ou menos como eu imaginei que seria. A crise que viveríamos já era vista no horizonte e para mim se confirmou com o resultado das eleições do ano passado. Viveríamos uma recessão violenta e assusta mais saber que ainda vai ficar um pouco pior. A corrupção institucionalizada como um meio de se chegar a um objetivo maior, o aumento assustador da violência, o total desrespeito pela vida e instituições, a vigilância do politicamente correto....está difícil a vida. A tv aberta mostrando a situação horrível na Venezuela...caminhamos para uma situação similar? Tenho algumas ponderações mas prometi a mim mesmo não fazer deste blog um espaço para falar destas coisas, então...
Enfim não há grandes surpresas, ainda assim dá pra ficar perplexo com alguns acontecimentos no que tange à vida doméstica, situações que não existe razão de ser. Eu e Vera lutamos uma luta desigual com gigantes que só são visíveis a nossos olhos. Mas este ano também me trouxe uma alegria: o tão aguardado desfecho de uma saga do Felino carrancudo iniciada no ano de 1997, e embora até esta droga já comece a perder os efeitos, ainda dá pra sentir a sensação de alívio e de dever cumprido. Falaremos novamente sobre isto em dias vindouros, se Deus quiser.

Voltei aos rabiscos no que costumo chamar de meus Crazy Sketchbooks. Mas ando tão pouco inspirado que até desanima, embora eu tente sempre fazer da melhor forma.


Tenho desenhado pouco se comparado a tempos passados, é como se um outro eu, muito mais amargo e cansado estivesse jogando a toalha. O atual trabalho que me renderá algum dinheiro segue lento, amparado tão somente pela necessidade de sobrevivência, mas não vou me dobrar às circunstâncias adversas. Paralelo a ele preciso retomar à HQ do projeto de terror do grande Allan Alex que ficou parada para fechar a bio do Edgar Allan Poe. E falando nisto, o projeto Poe continua no limbo. Está em fase de letreramento. Qual a casa que vai abrigá-lo ainda é uma incógnita.

Estive sem net esta semana. Se por um lado dependemos dela para o trabalho, fico satisfeito em notar que não me desespero, posso viver sem isso. Felizmente ainda temos cartas e telefones.
Mas que bom que a internet nos propicia a possibilidade deste contato, não é?

BOM FIM DE SEMANA A TODOS e até a próxima, se Deus permitir.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

ZÉ GATÃO - DAQUI PARA A ETERNIDADE (ALGUMAS IMAGENS)



Respeito muito o Odair José. Mas na verdade só tenho duas canções dele nos meus arquivos de música. Duas que gosto de verdade, uma delas é "Lembranças". Ela me reporta ao ano de 1974 em São Paulo, um tempo antes da vida mudar de forma radical. A letra, hoje, me fala poderosamente. E ela roda agora no Média Player enquanto digito com alguma dificuldade. Desde sábado a bursite que me incomoda já há algum tempo resolveu ficar crônica. Ontem, domingo eu não conseguia mexer o braço, o ombro esquerdo latejava penosamente. Não sou de me auto-medicar mas tive que apelar para um anti inflamatório. Meu plano de saúde foi pras picas, então já sabem, né?


Falemos um pouco sobre meu mais recente livro. Ainda não vi nenhum comentário em sites especializados, talvez nem veja. Estou fazendo minha divulgação como posso, postando imagens no Facebook e sublinhando que DAQUI PARA A ETERNIDADE é a conclusão da saga iniciada em MEMENTO MORI. Cenas como as que dão as caras por aqui hoje.


Bem, você que me lê aqui e não conhece as aventuras de Zé Gatão saiba que elas são bem cascudas sim, mas nada que a TV não passe na hora do almoço nos telejornais policiais, tem também cenas de sexo, elas tem uma razão de ser dentro da narrativa.

As edições podem ser encontradas nas livrarias e comic shops.

Bem, mesmo com o braço ainda incomodando tenho que desenhar. Ao trabalho, portanto.

Beijos a todos.














sexta-feira, 19 de junho de 2015

TERMINATOR.




Bom dia, amadas e amados!

Gosto muito de boxe. Não assisto mais, não sei quem é o campeão atual, se é que existe ainda um campeão de boxe. O tal de MMA zuou com tudo. Atualmente parece que os karatecas, mestres de kung fu e boxeadores acabaram. Curto pugilismo desde os anos 70, cheguei a praticar um pouco. Nos anos 80, na era Tyson, eu não perdia uma luta.
Gosto de metaforizar usando a chamada Nobre Arte. Vejo minha vida como um ringue. Nas duas últimas semanas eu só levei porrada, mas não aceito ser nocauteado. Mas não falemos nisto, pra não ficar repetitivo.

O QUE ESTOU OUVINDO - Todo mundo sabe que só ouço velharia. Bem, velharia é um termo grosseiro, digamos que eu goste das músicas de outros tempos, quando a mentalidade era outra menos frenética e menos eletrônica. Esta semana abri a minha pasta com canções do Nazareth. Só as baladas. Neste exato momento escuto Brian Ferry.

O QUE ESTOU LENDO - Ainda continuo com o Dom Quixote. Sei que não vou acabá-lo tão cedo, não é um livro para se ler no banheiro, precisa ser assimilado com cuidado. Mas procuro ler um pouco todos os dias.

O QUE ESTOU ASSISTINDO - Eu e a Vera terminamos de ver a terceira temporada de Vikings pelo History Channel. Muito boa! Agora partimos para a quinta temporada de Guerra dos Tronos. Não fui mais ao cinema, não há nada que me interesse tanto.


CINEMA E GIBI - O Exterminador do Futuro de 1984 é um dos meus filmes preferidos. Assisti dezenas de vezes. Gosto de todos da franquia. Mas o primeiro é um filme irretocável, com aquela aura depressiva de fim do mundo. Ali, erradicada a ameaça à mãe daquele que seria o líder da resistência contra as máquinas, restava à Sarah Connor aguardar seu destino. Anos depois o diretor James Cameron nos apresenta uma continuação com efeitos especiais de encher os olhos. Pra muitos o T2 é o melhor filme da série. Não concordo. É um ótimo filme, sem dúvida, mas senti que o Cameron matou a própria história que criou no primeiro. Ali ele modificou o futuro, tirou aquela atmosfera sufocante. O primeiro erro foi ter trazido o Schwarzenegger como a máquina boazinha que vem para proteger o garoto que será o tal líder da resistência. Tem uns lances piegas pra cacete, mas tudo bem, é Terminator, é Arnold. O terceiro e o quarto filmes são bons, na minha opinião, mas não se comparam aos anteriores. Agora chega em julho mais um. Todo mundo malhando sem nem ter visto o filme. Sinal destes tempos de twitter, MSN e o escambau. De experts em generalidades, de informados em desinformação. Acho que o próximo será como os filmes que são feitos hoje em dia, cheio de correria, efeitos, explosões e tals. Mas parece que vão brincar bastante com a questão das viagens no tempo e acho que será divertido.
Recebi do Carlos Costa, o editor da HQM e cara legal bagaray um pacote com alguns dos últimos lançamentos dele. Entre eles O EXTERMINADOR DO FUTURO 2029 - 1984, com roteiro de
Zack Whedon e arte de Andy MacDonald (nunca tinha ouvido falar de nenhum dos dois), e achei uma hq muito fera, só acho que existe em dois momentos uma certa, digamos, falha de narrativa. Mas nada que comprometa a obra no geral. Respeita bem a mitologia do Exterminador. Tudo gira em torno do primeiro filme. Nela, vemos mais viagens no tempo. Um amigo de Kyle Resse viaja logo atrás dele para livrá-lo de uma prisão e a Skynet manda mais um exterminador. Falar mais entregaria o enredo.


    
UM BOM FIM DE SEMANA PRA TODOS.  

terça-feira, 16 de junho de 2015

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS ( 01 )

Tenho um novo livro pra fazer. Na verdade já estou fazendo. Aos que curtem aquelas artes de anatomia onde tento demonstrar quais são os músculos acionados em determinados movimentos já podem se alegrar, logo, querendo Deus, teremos mais uns álbuns assim nas livrarias.

Mas sabem o que é trabalhar sem motivação? É assim que estou. Caramba, gosto do que faço, não sirvo pra outra coisa, mas me sinto exausto, acabado, emperrado, como se precisasse de graxa nas engrenagens e nunca houvesse graxa suficiente. Tem entrado pouca grana e isto tem incomodado, vamos aos mercados atrás das ofertas, o sol a pino ou a chuva caudalosa, parece não haver mais no mundo o meio termo, a vida insinuando que vai acabar a qualquer instante. O pior é que sempre existe aquele ser humano que poderia ajudar mas faz questão de ser um entrave, na verdade ajudaria muito não atrapalhando. Mas mesmo sob condições adversas o trabalho vai evoluindo.

Logo pela manhã fui até à imobiliária conversar sobre meu aluguel. Felizmente sou aquele tipo de cara que nunca atrasa os pagamentos e nas dificuldades isto é levado em conta.
Saindo de lá topei com um amigo, dono de uma academia de musculação - lugar pra levantador de ferro mesmo - e conversamos um pouco. Meus problemas pareceram pálidos perto dos que ele enfrenta.


A arte de hoje é uma imagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, um dos melhores livros que já li.
Tive muito prazer em receber semana passada uma mensagem do editor e amigo Leandro Luigi Del Manto perguntando sobre os direitos destas ilustrações que fiz para os clássicos da literatura brasileira. Ele pensou num belo tomo reunindo os melhores desenhos e um pequeno texto explicando as cenas. Logo me lembrei de uns volumes de luxo que lançaram nos States de um artista chamado Joseph Clement Coll, um grande ilustrador da Golden Age que muito me influenciou com suas hachuras nervosas, as artes que ele realizou para O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle, são impecáveis.
Mas porém, contudo e entretanto para mim isto seria impossível pois a Editora Construir possue os direitos e eles não liberam de jeito nenhum. E na boa, não fosse este entrave, teríamos um mercado para este tipo de coisa? Não quero menosprezar o brasileiro mas estamos mesmo interessados em arte? Seguindo esta linha de pensamento haveriam coisas mais a discutir mas não posso me delongar aqui. Melhor cuidar do que fazer. Ainda tenho assuntos a tratar na rua.

Beijos a todos.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SOBREVIVENDO ENTRE FACISTAS, NAZISTAS E RACISTAS.



No ano de 1982 eu ainda morava no Rio de Janeiro. Estava totalmente sem perspectivas. Os sonhos de moleque se dissiparam como fumaça no vento.
A história é verídica por isto altero nomes. Há detalhes que me escapam à memória, mas os mais importantes permanecem vívidos, como se tivessem acontecido ontem, mas não, se passaram numa outra vida.

Uma tarde, daquelas bem quentes, onde a solidão bateu mais forte que nunca, resolvi sair para visitar um amigo, uma pessoa que eu havia conhecido uns meses antes. Sobre ele? Vamos chamá-lo de Hans e para contar sua história, voltemos um pouco no tempo. O sargento Verdugo, o dono da casa onde eu morava de favor, como já relatei aqui, tinha sérios problemas cardíacos, vez por outra ele mesmo se internava no Hospital da Polícia Militar para repousar um pouco. Recebi de uns amigos próximos uma mensagem dele, era para eu ir até o referido hospital para levar a ele uma coisa qualquer, e eu, muito a contra gosto, fui. Chegando lá não o encontrei na enfermaria. Indagando sobre ele uma atendente no local tinha um recado para mim, era para eu encontrá-lo num certo apartamento ali naquele mesmo andar. Fui. Bati na porta e ouvi que era para eu entrar. No local estavam o sargento Verdugo sentado e uma senhora em pé alimentando um rapaz deitado na cama.
-Olha ele aí! Disse o moço, como se me conhecesse.
-Este é o Eduardo? Perguntou a senhora.
O sargento Verdugo fez as apresentações: Hans e a mãe dele, a quem chamaremos de Frida.
Pra ser sincero não lembro exatamente o que foi conversado naquele dia, mas ali mesmo, foi feita uma amizade que durou pelo resto de tempo que morei no Rio.

Hans ficou tetraplégico devido a um acidente de carro. Era oficial da PM e uma certa noite, ele e um amigo, também aspirante a tenente, a quem chamaremos de Pig, voltavam de uma festa (não lembro se alguém bebeu, mas apostaria que sim). Hans dormia no banco do carona e Pig também pegou no sono. Resultado: o fusca bateu de frente numa árvore e a tragédia aconteceu. Pig não sofreu nada mas Hans quebrou a coluna na altura da cervical, perdendo permanentemente os movimentos das pernas e parcialmente do tronco e braços.

Também me escapa à mente como foi que o sargento Verdugo conheceu aquela família, mas soube que ele passava várias horas do dia conversando com eles durante o tempo de sua internação. Fui embora naquela tarde e foi feito um convite para que eu retornasse breve. Pra ser sincero não tive vontade, hospitais e cemitérios definitivamente não me atraem. Mas precisei voltar e também não lembro o porquê, só que desta segunda vez aprofundamos, eu e Hans, um pouco mais os laços, tínhamos algumas coisas em comum, uma delas era a banda Pink Floyd, no caso dele, não era a banda em si, mas algumas faixas específicas dos álbuns Dark Side Of The Moon, Meddle e Wish You Were Here, que ele ouvia à exaustão numa fita cassete. Nos dias que viriam eu escutaria Echoes, Us and Them e Brain Damage até não poder mais.

Hans era um pouco mais velho do que eu uns três ou quatro anos, acho. Era um cara muito popular e extremamente inteligente, tinha uma memória prodigiosa. Ele era capaz de dizer exatamente qual avião sobrevoava os céus só de ouvir o som das turbinas; nos seus bons tempos era frequentador de cemitérios de aviões, onde passava horas admirando as sucatas, para desespero de suas inúmeras namoradas. Também entendia muito de carros, numa época em que eles eram bem diferentes entre si. Dizia sem erro o ano de estréia de tal veículo pela cor. Sim, eu aprendi com ele que um fusca amarelo de um determinado ano tinha uma tonalidade diferente de um fusca amarelo lançado num ano diverso. O mesmo valia para todas as marcas de automóveis.
Ele tinha a mania de batizar seus amigos, conhecidos e familiares com nomes que achava que tinham a ver com a pessoa, segundo o seu entendimento. Ele gostava de ser chamado pelo nome do cara que traiu Júlio César. Eu, por causa do meu porte, acabei conhecido pela alcunha de um personagem da literatura pulp, mas não vou usar este nome aqui, digamos que eu era He-Man - embora o desenho não existisse ainda naquela época.

Fui visitá-lo muitas vezes e passei ótimas horas com ele e com o Silas, um senhor franzino que o acompanhava. Havia também uma variedade de garotas bonitas e descoladas, amigas e ex-namoradas que assomavam àquele local. Posso dizer que aprendi um bocado de coisas com ele, a maioria inutilidades.
Mas estou me adiantando, antes dessa intimidade toda, teve um acontecimento que nos aproximou mais.

Como disse no início deste texto, naquela tarde em que sentia a minha introversão tomar proporções ciclópicas, achei que um papo com aquele amigo, ouvindo Echoes à meia luz, talvez fosse o lenitivo que buscava. Tomei um ônibus até a Tijuca e de lá peguei um metrô que me deixaria a uns bons quarteirões do HPM. Troquei minha identidade por um crachá no corpo da guarda e embora não fosse horário de visitas, o acesso aos apartamentos tava liberado. Eram mais ou menos umas 7 da noite.
O andar do trauma estava anormalmente agitado naquele dia. A porta do apartamento de Hans estava apenas encostada. Bati de leve. Não teve resposta, então entrei devagar, tava tudo escuro e um terrível cheiro de merda recendia no aposento.
Uma pessoa deitada na cama virou a cabeça com dificuldade. Era o Hans.
"He-Man, é você?"
"Sim, sou eu, cê tá bem, cara? Que diabos houve aqui? Cadê o Silas?"
"Aquele filho da puta aprontou de novo! Escuta, me faz um favor, acenda a luz e chame uma enfermeira?"
"Claro! Aguarde aí."
Deixei o quarto aceso e ganhei o corredor um tanto aliviado, aquele ambiente quente como uma sauna e aquele cheiro tétrico quase me fizeram vomitar. Encontrei uma enfermeira de meia idade e comuniquei que o paciente do quarto tal precisava de ajuda lá. Ela disse que mandaria alguém assim que possível. Voltei.
"Escuta, Hans, posso abrir as janelas?
"Claro, vá em frente."
Abri e sorvi ar fresco tanto quanto possível.
"O que aconteceu, afinal? Porque você está assim, sozinho?"
"Me ajuda aqui? Estou há horas nesta posição."
"Claro!"
O coitado estava de lado, todo suado e cagado. Mudei-o de posição.
"O Silas saiu ontem pra dar uma volta, era folga dele, você sabe que o cara só come puta, né?"
"Sei, e aí?"
"Bem, o cara bebeu além da conta e chegou na guarda totalmente embriagado, não permitiram que ele entrasse e o suspenderam por 10 dias."
"Puta merda!"
"Bem, a Frida teve que ficar comigo enquanto ele ia atrás das putas de rua. A gente discutiu e ela foi embora."

Realmente ele e a mãe não se davam bem, ela não gostava dos papos de revoltado do filho, não suportava as músicas que ele ouvia nem aquele quarto à meia luz. Brigavam feio quando ela queria levantar as persianas e abrir as cortinas. Certa vez presenciei este diálogo bizarro:
"Não, Fridaaaa! Deixe tudo fechado, este é meu quarto, porraaaa! Não desliga o som! Não, nãoooo!" Ele, coitado, não tinha pulmões para berrar, o som saía de sua boca assim, meio sufocado.
" Deixe a luz entrar neste lugar, dizia ela, deixa a tristeza sair e a alegria entrar!"
"Não! Nãoooo! Sua puta! Sua putaaaa!!!!!"
"Me respeite, senão eu te deixo aqui."
Daquela vez ela tinha deixado mesmo. Ela só não contava que o acompanhante não iria poder entrar e ainda seria suspenso por 10 dias.
Uma hora se passou, o ar estava menos infestado com as janelas abertas, mas a tal enfermeira não deu as caras. Voltei a procurá-la. Insisti que o paciente precisava de atendimento. Ela retrucou que os pacientes da enfermaria tinham prioridade e que não haviam auxiliares para atender todos naquele dia e que mandaria alguém assim que possível, doentes em apartamento tinham seus acompanhantes, para ele ter paciência.
Comuniquei a ele e esperamos. Pediu-me para ligar a tv. Era curioso, aquele quarto normalmente tinha sempre alguém parasitando ali, um amigo, uma garota ou pessoas pregando suas religiões. Naquela ocasião não havia ninguém, talvez fosse a hora e o dia.
Como a auxiliar não aparecia e o pobre rapaz estava em agonia, perguntei se eu poderia ajudar em alguma coisa.
"Você faria isso?"
"Claro, dê as instruções!"
Fui ao banheiro e peguei o material. Bastante algodão, bacia com água morna e Soapex. Com todo o cuidado possível virei-o de lado e iniciei a higiene do cara. Calcei luvas e removi a fralda. Havia bosta ali como eu nunca tinha visto na vida, até o saco do rapaz tava melecado. Limpei-o o melhor que pude. Parecia que os algodões empapados de sabonete líquido nunca saiam limpos. Por fim estava feito. Haviam escaras enormes nas nádegas e na região lombar. Troquei as luvas. Peguei gaze e mais gaze e apliquei iodo e outra substância, seguindo sempre a orientação dele. Feito os curativos passamos para a parte mais delicada, tirar a urina da bexiga cheia do moço. Troquei de luvas de novo. Coloquei xilocaína numa sonda e introduzi no pênis do rapaz. Foi delicado por vários motivos. Apertei a barriga dele na altura da bexiga e a urina ia saindo em profusão numa bacia (passei por isto em 2013 quando tive uma inflamação na uretra. É horrível!) Terminado esta fase, coloquei nova fralda. Sempre trocando ele de posição, coloquei lençóis novos na cama. Trabalho extremamente cansativo, principalmente para alguém inexperiente como eu.
Tudo limpo e ventilado. Depois de um tempo veio a refeição. Separei o que ele gostava de comer e levei a colher à boca dele. Depois a parte delicada que era escovar os dentes. Eu não acertava os movimentos direito e ele se irritava. Acabada também esta parte pude eu também finalmente tomar um banho e comer. Eu não contava com aquela situação, seria impossível voltar para casa aquela hora, era quase meia noite. Fui até a sala das enfermeiras e pedi para ligar. O sargento Verdugo não tinha telefone em casa, mas pedi a um amigo comum, que morava perto, para dar o recado que eu ficaria no hospital até o outro dia.
Coloquei o Hans na posição que ele normalmente dormia, em algumas horas eu teria que trocar a posição dele para evitar o agravamento das malditas escaras. Para isso havia um despertador. Serviço pesado esse!
Apesar de estranhar a cama que ficava ao lado da dele dormi pesado até acordar um tempo depois ao som do despertador. Coloquei-o numa outra posição e voltei a dormir para acordar novamente tempo depois para a mesma operação.

Logo cedinho veio uma enfermeira com medicamentos. Eu tava um caco. Tive vontade de perguntar porque ela não tinha vindo na noite anterior mas desisti, ela devia ser de um outro turno. Ele tomou o desejum do hospital, eu tive que me contentar com um requeijão e umas bolachinhas que haviam na geladeira.
Vieram médicos para visitá-lo, depois uma psicóloga bonita pra cacete. As manhãs naquele lugar eram bastante agitadas.

Minhas memórias se nublam em algumas partes, alguns acontecimentos e diálogos nunca me saíram da cabeça mas outros fatos não dá para ter certeza. Acho que a mãe, o pai e o irmão mais velho de Hans apareceram naquela tarde. Não recordo de como reagiram aos acontecimentos do dia anterior, creio que me agradeceram pela ajuda prestada. Como eles não tinham alguém para substituir o Silas nos dias de suspensão me prontifiquei a fazer o papel de acompanhante do rapaz. O irmão mais velho, a quem chamaremos Glasses e o pai, que alcunharemos de Mustache, me ofereceram algum dinheiro. Assim mesmo, não exatamente um salário, mas uma graninha, como uma gorjeta, para repetir por dez dias os feitos da noite anterior quando não houvessem auxiliares de enfermagem para tanto. Respondi que não, se fazia algo, não era por grana, mas para ajudar um amigo. "Oh, como ele é bonzinho!" disse Frida com ar de falsa comoção, e disso eu me lembro bem.
E antes que alguém pense que eu era muito altruísta, confesso aqui que aquilo me serviu como uma desculpa para sair um pouco do buraco onde eu estava enfiado desde que viera para o Rio e me afastar de todas as pessoas com quem fizera alguma ligação. Sabem, pensei, pra me livrar de uma merda, só encontrando uma merda maior ainda. Minha auto-punição por haver me afastado da minha família tinha chegado a este ponto? Talvez. Ou talvez eu gostasse mesmo de Hans e quisesse estar perto dele, penso que sentia muita empatia por quele moço, um amigo, ele aleijado no corpo, eu na alma.

Não sei mais como foram os dias após aquele, devo ter voltado à casa do sargento Verdugo, contado a situação e que eu ajudaria o Hans por uns dias até que o Silas voltasse. Deve ter achado que era uma boa ação que eu fazia, se tivesse havido pensamento contrário eu me lembraria. Só sei que nos dias que se seguiram me vi alimentando o rapaz, trocando fraldas, fazendo curativos, colcando sondas em uretra, ajustando almofadas de silicone debaixo dele. Conversávamos muito, sempre com pouca luz no ambiente, ouvindo sempre as mesmas canções do Pink Floyd. Eu falava sobre outros álbuns da banda dos quais gostava, como o Animals ou o Obscured By Clouds, mas era inútil. Paradoxalmente escutávamos algumas músicas do ABBA também. Mas isto tudo só ocorria quando não havia mais ninguém conosco. Normalmente aquele quarto sempre tinha visitas.

O meu gosto pelo desenho foi percebido, logo eu estaria fazendo uns rabiscos bastante bizarros, sob a orientação de Hans, cenas de violência explícita, normalmente praticada por nazistas contra o que hoje chamam de minorias. Eu, como um perfeito idiota, desenhava o que era sugerido, achando que aquilo era uma diversão de garotos, como aqueles desenhos entre amiguinhos na escola, fosse de herói ou de mulher pelada. Não era. Lembro de ter pensado que aquele cara estava irremediavelmente confinado a uma cama e aquela era a única forma de extravasar sua raiva. Acho que servi como cano de descarga e aquilo me justificava. Eu ouvia coisas da parte dele que me estarreciam como: "o maior erro de Adolf Hitler foi não ter dado cabo de todos os judeus". Na verdade não levei a sério, achava que essas coisas só poderiam mesmo ser ditas por alguém que não acreditava em Deus ou no inferno, já não tinha nada mais a perder e só restava mesmo chocar as pessoas, cuspir-lhes na cara, como elas fossem culpadas por ele estar naquela situação.
Os tais desenhos foram colocados nas paredes do quarto, para o deleite de alguns e horror de outros. Logo o responsável pela enfermaria veio cheio de decisão e tirou-os de lá, ameaçando comunicar aquilo à direção. Assim que o cara saiu do quarto colocamos de novo. A psicóloga bonita achou que eu era má influência para o paciente. Conversaram com Glasses e Mustache, mas eles não viram mal na coisa. Contudo aquilo logo perdeu a graça e ele não me pedia mais desenhos, mas guardou-os como relíquia e ele sempre os mostrava aos mais chegados que, ou riam ou se chocavam.

Um fato merece registro. Certa noite, por volta de umas seis horas, uma ex-namorada de Hans apareceu para uma visita e a chamaremos de Greeneyes. Tinha em torno de 1,72 de altura, muito bonita, olhos verdes, cabelos claros, gordota e muito animada. Era a simpatia em pessoa. Conversamos por muito tempo, ela acariciando os cabelos de Hans e quando eu tinha que fazer os serviços de acompanhante ela se afastava do quarto. Acabou que ficou muito tarde para ela ir embora e teria que pernoitar ali. Arrumei um daqueles pijamas de hospital no armário e ela foi tomar banho.
Hans me chamou fazendo um gesto com a cabeça:
"Olha, He-Man, hoje você vai comer essa gorda, tá legal?"
Aquilo pareceu uma ordem.. Ah, então era assim? Era estalar os dedos e eu teria que balançar o rabo? Não costumo discutir, deixo a pessoa pensar que está me manipulando. Não respondi, mas a verdade é que eu estava muito cansado. Fui a um quarto desocupado e peguei um colchão, lençóis no armário e os coloquei no chão, aqueles colchões eram muito confortáveis.
Greeneyes veio logo dizendo:
- Eu não vou dormir no chão!
- Eu tampouco, trabalhei o dia inteiro, tô cansado e tenho que acordar pelo menos umas três vezes a noite e fico na cama!
- Então teremos que dormir juntos - aí ela se aproximou do meu ouvido - mas vou avisando que estou menstruada!
- Não te perguntei nada, Greeneyes! Falei. Que patético aquilo tudo!

Hans, pediu para dormir de lado, voltado para a parede. Ele pensava mesmo que eu iria seduzir a moça quando ele estivesse apagado?
Deitei e me cobri. Greeneyes deitou-se aos meus pés. Ainda falamos um pouco, nós três, no escuro do quarto, depois acho que peguei no sono.
Acordei na alta madrugada com a garota passando a mão pela minha barriga, dando uns suaves beliscões. Ideias passaram pela minha cabeça, mas eu não teria condições com o ex-namorado doente dela deitado há menos de meio metro de nós. Preferi fingir que ainda dormia. Ela chegou a me sacudir de leve mas não me movi. Deve ter pensado que eu era veado e desistiu.

Não se dorme bem num lugar assim, até porque o despertador não deixa, nos momentos que ele tocou a gordinha ressonava.

Os dias que passei até o retorno do Silas foram rotineiros. Houve momentos de crises. Hans sentindo dores, muita depressão, imaginando formas de morrer sem sentir dor. Sempre falando mal dos negros e dizendo que pobre era uma espécie de câncer no mundo e tinham que ser tratados na porrada. Demonstrava admiração por Hitler e desprezava tudo o que não lhe fosse conveniente.
Quando estávamos a sós assistindo tv ou conversando era agradável, mas quando chegavam os visitantes, amigos e parentes de amigos, oficiais da PM, todos parecendo ser a fina flor da sociedade carioca, a coisa pra mim ficava insuportável, nunca fui muito sociável àquele tipo de gente pernóstica, altiva e cheios de insinuações, palpiteiros que nada sabiam da atual realidade daquele rapaz, mas fingiam que sabiam e se importavam. De toda a forma eu era ignorado, era apenas a porra de um acompanhante de doente.

O Silas voltou e me senti livre. Voltei para minha antiga vida, minhas corridas, minhas flexões, minhas pinturinhas, que eram vendidas em casas de materiais artísticos e às muitas cartas à família e ao Luca, que sempre as respondia com suas histórias e alegravam meus dias. Eu lia e relia aquelas missivas como se fossem remédios para uma moléstia fatal. Lembro da alegria sem fim quando recebia cartas da minha mãe com notícias dos meus irmãos.

Mas quase toda a semana eu ia ao HPM visitar o Hans, eu meio que me viciei naquele ambiente. Numa daquelas vezes Greeneyes apareceu, eram umas onze horas da manhã, ela me chamou num canto e me convidou para almoçar, mas não era pra eu falar nada ao Hans, ele poderia ficar enciumado. Tudo bem, disse eu. Ela saiu e eu fui um tempo depois. A encontrei no pátio do hospital. Tomamos um ônibus até a Tijuca.
- He-Man, como é seu nome de verdade? Quis saber ela. Falei.
- Você é muito sério, nunca vejo você rindo!
Almoçamos no Bobs e depois fomos ver Rocky 3. Nos divertimos aquela tarde. Sentamos numa praça e ela me contou fatos sobre sua vida. Nos beijamos e nos abraçamos muito. Acompanhei ela até sua casa e segui meu rumo, sentindo aquele grande vazio que sempre bate nessas horas.

Hans e Glasses eram muito parecidos fisicamente, o que os diferenciava era o bigode e os óculos do irmão mais velho, no entanto as semelhanças paravam aí. Glasses era mais tímido e reservado, Mustache, o pai, uma versão madura dos dois filhos, era um tipo grosseiro, mas fazia elogios rasgados à minha índole e disposição para resolver problemas. Sempre conseguia que um médico bastante requisitado fosse atender Hans em horários impróprios. Contudo eu ainda não era bem quisto por muitos dos que iam visitá-lo por causa dos malfadados desenhos que havia feito, ninguém sabia que tinham sido sugeridos por Hans, na cabeça deles, eu era o doente. Um bando de hipócritas, na verdade. Hans, o pai e o irmão referiam-se aos negros por um adjetivo que só era entendido por eles e uns tantos amigos. No princípio não compreendi bem aquilo. Havia lá uma enfermeira, uma mulata que se interessou por mim, um baita mulherão na verdade, separada e com um filho. Numa tarde em que ficamos de sair juntos ela deixou o garoto no quarto assistindo televisão. O menino havia dito que quando crescesse queria ser forte como eu. Todos riram. "Vai ter que comer muita Sustagem, moleque!" Dei um abraço no guri e lembro de Glasses dizer: "Olha como ele segura a cabeça do neguinho!" Soube depois que eles comentaram que eu era um acompanhante muito melhor que o Silas, mas meu defeito era gostar de negros. Uma das moças da Igreja Messiânica me segredou que Hans havia dito a ela que eu lhe sugava a mente com minhas conversas.

Videocassete era a novidade naqueles tempos. Eram os primórdios. Lembro do primeiro que vi, era da Sharp. O sonho de todo aquele que curtia filmes - meu, sobretudo. Glasses era capitão da marinha, em uma de suas muitas viagens ele trouxera de fora um da Panassonic que precisou ser transcodificado. Era um aparelho grandalhão, com enormes botões e a abertura para entrada da fita ficava em cima.
Hans tinha a mania de fuçar os classificados de jornal (algo pra mim extremamente aborrecido) na seção de eletrônicos, ele estava empenhado em comprar um PX, um rádio amador para se comunicar com pessoas ao redor do mundo. Aquilo pra mim não fazia o menor sentido, eu já não queria saber das pessoas vizinhas a mim, quanto mais conhecer gente distante. Numa dessas, havia o anúncio de um cara que gravava fitas de filmes e shows. O que interessou a Hans - e a mim - foi um especial com o ABBA.
Enquanto o Silas era o acompanhante, eu me tornei uma espécie de secretário de Hans, fiquei incumbido de ligar para o cara dos classificados e saber o que tinha do Abba na tal fita. O sujeito não deu muitas informações, talvez porque não as tivesse, naquela época uma pessoa reproduzia em fitas tudo o que fosse possível de um artista sem nem conhecer direito de quem se tratava. Fui até o local comprar o VHS do quarteto sueco e lembro que era num local longe pra caramba, mas era num prédio de classe média alta. Aquilo não custou barato. Tempos depois recordo que Hans não ficara satisfeito com a tal fita, acho que ele esperava que ela contivesse sucessos como Dancing Queen, Knowing Me Knowing You e etc, mas na verdade era material referente ao Visitors, o último LP lançado pela banda, com dois clipes e um show para a TV, coisas que eram desconhecidas ao meu amigo.

E assim foram meus dias naquele quarto de hospital com aquelas pessoas. Tantos fatos que se fosse mencioná-los todos não pararia de escrever tão cedo. O pior é que algumas pessoas tiveram relação afetiva comigo e eu sequer lembro o nome, como a enfermeira mulata e uma moça de cabelos negros bem lustrosos.
Apareceu por lá uma enfermeira da marinha, mulher de uns 30 anos, desquitada que tinha uma filhinha. Me envolvi com ela, um caso curioso que terminou de forma constrangedora para ambos, mas fica para uma futura postagem.

Foi um período que apesar de alguns momentos complicados me serviram como válvula de escape para a vida que levei naqueles tempos. O que foi bom durou pouco, Hans, bem melhor das escaras, recebeu alta e seguiu para o apartamento que a mãe e o irmão tinham na Penha. Eles contavam comigo para aparecer por lá quando eu quisesse. Ali o Silas não teria tanto o peso de suas obrigações, pensei, uma vez que a dona Frida estaria próxima e Hans teria uma cama moderna com todos os acessórios para atender melhor um paciente como ele. Qual o quê! Nas vezes em que fui visitar o rapaz notei finalmente que o pobre Silas era extremamente explorado, não só cuidava de Hans como tinha que fazer vários serviços no apartamento, inclusive compras. Certa vez Glasses e Mustache trocaram um chuveiro elétrico e pediram ao pobre do Silas pra tocar nos fios pra ver se estava dando choque. E estava! Fizeram os arranjos e era sempre ele que tinha que testar a coisa. Aquele homem envelheceu rápido ali.

No apartamento da Penha, tudo indicava que seria um ótimo local para se estar, teríamos a nossa disposição uma TV bacana, um vídeo cassete, fitas de shows, uma comida melhor e todas essas coisas que jovens normalmente gostam. Não foi nada disso, pelo menos não pra mim, nem de longe tínhamos a mesma liberdade e solidão. A mãe do cara, como que revelando sua verdadeira face se mostrou uma mulher dura, sovina e intransigente. Não na frente do filho, mas a minha frequência me pareceu desagradá-la. Comentei com Hans mas ele falou para eu não ligar, a mãe era uma pessoa amarga e quem mantinha o apartamento era o soldo dele e do irmão, ele não abriria mão da minha amizade por nada.

Agora finalmente com o rádio PX a casa vivia cheia de gente, pessoas que Hans ia conhecendo pelos contatos que fazia, rapazes e moças, uns tipos dos quais eu queria distância por serem uns babacas e que não conhecera o "entrevado" naqueles dias desditosos, não o encontraram na noite em que ficou abandonado no esucro, até pela mãe, para eles tudo era festa - literalmente! Mas nem todos eram assim, apareceu um cara lá que Hans chamava de Galo, nos demos muito bem, era uma espécie de enciclopédia de todo tipo de música.

Por esta época conheci Pig, o responsável pelo acidente que vitimou Hans. Um tipo forte, arrogante e presunçoso, sempre impecávelmente fardado, com pistolas nos quadris. A antipatia foi mútua. Ele e Hans eram chapas. Ele vivia me dando indiretas. Numa das vezes em que ele sugeriu que eu cansava mentalmente o doente com alguns questionamentos, decidi colocar aquele cara no lugar dele. Chamei-o até a varanda, que tinha um muro muito baixo, as pessoas lá embaixo eram diminutas. Falei:
- Cara, cê se acha muito foda com essa farda, não é? Muito sabichão para um caipira como eu, não é isso?
- Quê?!? Tá maluco?
Eu estava furioso, era capaz de cobrir o cara de porrada ali mesmo. Completei:
- Se eu disser que te acho um merda cê vai fazer o quê? Sacar a sua arma e me dar um tiro? Ou vai me levar preso?
Ele sorriu amarelo.
- He-Man, eu...
- Seguinte, jamais ouse me tratar como se eu fosse a porra de um capacho, você que deixou este coitado preso na cama, não eu, não venha agora bancar o superior pra cima de mim, seu bosta! Não me dirija nunca mais a palavra!
Não o vi mais depois disso.

Certa noite cheguei lá por volta das 19 horas para uma visita rápida. Frida me recebeu com aquela cara amarrada, mas não pela minha chegada, notei. No quarto de Hans havia música, fumaça de cigarro, birita e imagino que mais alguma  droga - não posso afirmar com certeza, pois não vi. Me limitei a entrar rapidamente e cumprimentá-lo. Hans gostava muito de vodca com fanta. Não me demorei ali, voltei logo para casa.
Sabem, naquela época, fisiculturismo não era bem visto pelas pessoas, um indivíduo de porte atlético, por ser bem diferente da maioria era como um alienígena; soube por uma menina, tempos depois, que aqueles novos "amigos" de Hans me apelidaram - uns de orangotango, outros de sapo, por eu ter um tórax largo. Não costumo ligar para este tipo de coisa, mas saber que Hans e seu irmão se divertiam com estas gracinhas pelas minhas costas me deixou magoado.

Mas estou me estendendo muito, o ocaso da minha amizade com Hans chegava. Neste período eu fui até Paty do Alferes - município da cidade de Vassouras, no interior do estado do Rio, para pintar uma grande paisagem num batistério de uma igreja evangélica que era frequentada pelo irmão do sargento Verdugo. Naquela cidade eu viria conhecer a mulher que se tornou a mãe da minha filha Samanta (mas este é um caso do qual não posso falar a respeito) e fiquei em trânsito durante um tempo.
O final do ano chegava e minha mãe veio junto com meus irmãos menores me visitar. Foi um ótimo período para mim e decidi que não ficaria morando no Rio de Janeiro por muito tempo mais.

Quem também me visitou naqueles tempos foi o Luca, e isto marcou o fim da minha amizade com Hans.

O Luca sempre ocupou um lugar especial em minha vida, mesmo no tempo em que ficamos longe eu recebia cartas dele com frequência, trocávamos histórias, enredos de aventureiros, lutadores e sobreviventes, esta era a nossa válvula de escape. Muitos meninos mal adaptados à realidade acabam se escambando por caminhos errados, fazendo parte de tribos de idiotas sem rumo certo na vida. Eu e o Luca enveredamos pelo caminho da fantasia, dos livros, dos quadrinhos, criamos nossos personagens e trocávamos narrativas. Nossas análises do trabalho um do outro eram verdadeiros tratados que preenchiam várias páginas. Vendo hoje, testifico que era uma coisa pueril, mas aquilo, principalmente para mim que estava longe da família, sendo apenas suportado por quem se dizia amigo, foi muito importante.
O que mais posso dizer a respeito do Luca? Um cara de ascendência negra, de boa família, classe média alta, tinha um padrão de vida muito melhor que o meu, alegre, sempre bem humorado, com uma inteligência rara e de um português impecável. Nunca o vi com maledicências e ao contrário de mim, sempre nota o lado bom das pessoas. Claro que não é nenhum santo, tem lá seus defeitos, mas o que sempre pesou favoravelmente na balança para mim fora as qualidades que citei.

É lógico que nutrindo estima pelo Hans e o Luca tentei fazer a ponte entre os dois. Levei o Luca à casa de Hans numa tarde. As parcas lembranças que tenho do encontro entre os dois foi a de alguma coisa agradável, divertida, com o Luca solto, fazendo suas graças, suas vozes sui generis de dublador de desenhos animados. Não notei desconforto por parte de ninguém.

Num dado momento fui até a cozinha a pretexto de tomar um copo de água ou algo assim. Frida serviu-me com uma cara medonha. De chofre lançou-me estas palavras no rosto:
- He-Man, você sempre será bem vindo em minha casa pelo que fez pelo meu filho, mas nunca mais traga este seu amigo!
Perplexo, perguntei:
- Ele foi inconveniente em alguma coisa?
- Não! mas eu não quero mais ele aqui!
Não sou idiota. Imediatamente notei que a zanga dela era por meu amigo ser negro. Imediatamente uma série de fatos me vieram à memória, de situações, gestos e palavras, não só dela, mas da família inteira confirmando que tudo aquilo não foram brincadeiras de mal gosto. Era sério e era pra valer!
A única coisa que pude responder para aquela senhora, que deixou o próprio filho aleijado naquela noite fatídica entregue à própria sorte, foram estas:
- Dona Frida, se o Luca não é bem vindo em sua casa eu também não sou!
Afastei-me dali e fui ao quarto de Hans onde também se encontrava Mustache com o Luca conversando animadamente. Interrompi e falei:
-Lucão, vamos embora daqui! Imediatamente!
Quiseram saber o que havia acontecido. Não escondi nada. Hans deu um sorriso dizendo: "A Frida é fogo!" Mustache, com ar de desaprovação falou: "Ela não pode fazer isso, vou falar com ela!"
"Façam o que quiserem, eu saio de cena agora!"
O pobre do Luca não compreendeu muito bem o que ocorria, achava que tinha sido indelicado por alguma coisa que dissera. Na rua expliquei para ele e ele foi incapaz de acreditar que haviam pessoas com tal tipo de preconceito. "Fodam-se eles!" pensei.

Por estar condenado a ficar numa cama pelo resto da vida tomei o Hans por inocente naquela história toda. Falei com ele pelo telefone algumas vezes e ainda voltei a vê-lo, obviamente sem me dirigir à Frida. Confesso que esperei uma retratação, um pedido de desculpas da parte deles. Nunca aconteceu. Era como se nada tivesse acontecido.
Soube pelo Hans que o Silas, que a tempos já não trabalhava mais ali, morrera no desabamento de um prédio abandonado. Parece que tinha virado morador de rua. As palavras do cara ao contar o ocorrido eram de deboche.

Ponderei todos os acontecimentos desde que tinha conhecido aquela família e decidi sumir e nunca mais dar notícias. Jamais ouvi falar deles novamente.

FINITO.

terça-feira, 9 de junho de 2015

NOITE NA TAVERNA (FINAL)



Enfim a última cena de Noite na Taverna. Evidentemente o livro que ilustrei tem mais desenhos, mas não costumo postá-los todos, afinal ainda não foi impresso. Bem, a maioria do que criei para esta editora ainda não passou pela gráfica. Tem a ver com o que é sugerido (ou solicitado, sei lá) no vestibular.

Bom, por motivos que nem me interessam mais saber, interromperam a coleção faltando, se não me engano, cinco títulos, dentre eles "O Cortiço" e "O Mulato", ambos do Aluísio Azevedo. O Mulato eu nunca li (tenho bastante curiosidade) mas o Cortiço eu já li algumas vezes ao longo da vida. Acho uma obra marcante. Algumas vidas são tão desgraçadas que a gente fica pensando que só uma mente muito imaginativa poderia conceber. Com o avanço da idade notamos que a realidade é bem pior na maioria dos casos. Teria sido um privilégio traduzir em traços cenas e personagens que ficaram impressos em minha mente, mas não foi possível.

Ilustrei 45 títulos, o que dá, no total, 720 desenhos, incluindo as capas.

Ainda tenho muitas artes de livros que não foram mostradas aqui, aos poucos vou sanando isso. Dá até pra escolher, tô pensando em postar o Memórias Póstumas De Brás Cubas ou Helena, próximamente. Vou decidir.

Após o Escrava Isaura a Editora Construir silenciou. Como tudo na vida o final sempre chega, as vezes de forma melancólica.