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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS ( 06 ).

Ouço neste exato momento "Someday Never Comes" com o Creedence, muito apropriado para os dias deste ano. Pensando bem, para todos os dias da vida.

Uma pausa no segundo livro de anatomia para escrever estas palavras e descansar um pouco a mão de tanto segurar no lápis, não só a mão, mas todo o braço (e podemos acrescentar a cabeça). Parece que trabalho neste material a anos, foi assim com a biografia do Edgar Allan Poe também, não, parando pra pensar, nem se compara, o Poe levou por volta de seis anos para ter suas 160 páginas prontas. Soube recentemente que o Lucchetti passou dois anos escrevendo o roteiro. Puta merda! Espero que não leve agora 10 anos para ser publicado! Segundo soube, algumas editoras mostraram interesse no material, mas as condições deles não são muito satisfatórias para nós. Decidimos esperar a atual crise passar e ver se no que dá. Publicar quadrinhos no Brasil é isto mesmo, tem que ter paciência.

Não sou muito habituado a ler mangás mas dei início à série em 18 volumes de Monster" do Naoki Urasawa, agora que o irmão caçula da Verônica completou a coleção. Na verdade eu já tinha lido uns sete tomos mas interrompi por algum motivo e achei melhor só retomar quando estivesse concluído. Comecei do número um e como minhas leituras agora são nos breves intervalos de minhas tarefas vai demorar um tanto até que acabe tudo.

O mesmo acontece com o Dom Quixote, leio um pouco cada vez que posso e sempre fico impressionado como ele consegue aguentar tanta porrada, não só ele mas também o escudeiro. Personagens fascinantes!

E assim vamos tocando o barco, tentando remar em meio às corredeiras.


Mais uma imagem de Brás Cubas.

Nos vemos semana que vem? Eu espero vocês, se Deus quiser.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

NCT - NOVOS CLÁSSICOS DO TERROR.

Esta semana fui citado na fanpage do NCT - NOVOS CLÁSSICOS DO TERROR no Facebook como um dos participantes. Não dá pra não ficar feliz com as palavras generosas do capitão da empreitada, o mestre dos pinceis e do stotytelling, ALLAN ALEX.

Apesar da importância que me dão, a minha participação no projeto não é tão grande, trata-se de uma HQ curta inspirada em uma mítica figura brasileira já citada em pérolas da MPB. O roteiro é assinado pelo Alexandre Dassumpção e...  os desenhos estão parados!!! Todos os dias eu digo a mim mesmo que vou retomá-la, fazer pelo menos uns esboços e quando dou por mim o dia findou e eu, exausto, não tenho mais pique para outra obra, todas as energias físicas e mentais focam-se no atual álbum de anatomia (o segundo da série). Mas as vezes a inspiração bate tão forte que vou lá e faço mais um pouco da página e assim ela vai ganhando corpo até ficar pronta, afinal não é longa como a bio do Poe.

Por conta do que relatei acima, tive que pedir ao artista e brother Nestablo Ramos para me tirar da Expo Bond que vai se realizar agora em outubro em Brasília, infelizmente. Não posso encarar mais um trampo na atual crise. Respeito muito meu trabalho e meu público para criar uma arte nas carreiras.

Bem, reproduzo abaixo as gentis palavras do NCT ao meu traço e pessoa. Pode ser cabotinismo da minha parte mas se eu não o fizer quem fará, não é mesmo?

GRATO, amigo Allan!



" Mestre Eduardo Schloesser. 
Verdadeiro guerreiro dos quadrinhos nacionais, conseguindo unir Força criativa, técnica apurada, sensibilidade artística e empenho profissional em cada traço. Um dos primeiros Parceiros NCT, vestiu, de fato e de direito, a camisa do projeto NCT, acreditando numa nova proposta dentro de um conceito editorial diferente, ainda não usado num projeto nacional de quadrinhos que una tantos artistas talentosos, e com vontade de fazer seu melhor, numa só coletânea. 

Eduardo Schloesser, um Mestre, um Artista, um Guerreiro, um Amigo."  

Visite e curta a fanpage do NCT no Facebook, tem muita coisa legal e quando o álbum sair vai sacudir o mundo das hqs nacionais, não tenho dúvida, é muita fera reunida.

Bom fim de semana a todos e nos vemos por aqui semana que vem, permitindo Deus.
O link:
https://www.facebook.com/NCT.Novos.Classicos.do.Terror?pnref=story 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

UNA BELLA PORRADITA!


Amadas e amados, boa noite! Tava com saudades de vocês! Sentirei falta quando encerrar minhas atividades neste espaço. Aos que gostam dele, não se preocupem, não pretendo que seja tão logo, mas uma hora terei mesmo que fechar as portas. Tenho pensado muito na relevância das palavras e desenhos que posto e...não sei. Um cansaço toma conta de mim, na verdade acho que ele sempre existiu, só agora eu sinto a intensidade dele. Digo a mim mesmo que vai passar, que meu maior problema é o dinheiro, a falta dele, melhor dizendo, mas sei que não é isso, pelo menos não SÓ isso.
A escassez dele torna tudo mais sensível, o calor, o frio e até a solidão! Mas o frio, o calor e a solidão existem independente de quanto dinheiro se tenha.
Imaginem um cara que passou a vida toda ouvindo berros aos ouvidos, escutando impropérios ferindo sua alma, isto durante vinte, trinta, quarenta, cinquenta anos, sempre. Chegará um dia em que no silencio da noite um simples suspiro o fará acordar sobressaltado. Entendem o que quero dizer, onde quero chegar?

O desenho de hoje faz parte do novo álbum de anatomia que breve chegará às livrarias. Músculos em movimento é o tema, um assunto que me fascina. Procurei outra abordagem no texto deste livro, tentei ser informal, bater um papo com meu público. Ao invés de citar músculos e o porquê da ação de determinado membro eu falo um pouco daquilo que me estimula ao pegar no lápis e papel, sempre com algumas dicas. Não gosto de aulas, aquela coisa de mestre e aluno, prefiro uma conversa entre duas pessoas, onde uma delas com um pouco mais de experiência tenta transmitir aquilo que a vida lhe ensinou. E o que aprendi é visualizado - para quem tem sensibilidade de perceber - em meus traços.


Durante a minha existência levei alguns socos na cara. Posso afirmar que é bem diferente dos filmes. Quando você é atingido em cheio, no primeiro segundo não há espasmo, mas algo que eu definiria como surpresa, a tontura vem antes da dor, logo o local afetado incha e aí, só sendo forte para ficar em pé.
A melhor lembrança que tenho disso foi quando fazia a quinta série, eu estudava na Escola Classe 104 Norte, em Brasília, devia ter uns 13 anos. Um encrenqueiro lá vivia provocando quem ele achava que era mais fraco que ele. Eu era um alvo fácil por ser bem mirrado e geralmente afastado de todos. Onde eu estava aquele imbecil ficava próximo, sempre na hora do recreio, visto que ele era de outra turma (se não estou enganado era da sexta série) e na entrada e saída raramente eu o via. Um colega que eu chamava mentalmente de "Cara de Peido" vivia me atiçando: "Cara, vai lá e quebra as fuças desse sujeito, vai ser moleza pra tu!" Mas eu fingia que não percebia os esbarrões, os pisões no pé, os apelidos bizarros, as chacotas doentias na frente das meninas e tudo mais. Só que tudo tem um limite e eu não lembro mais qual foi a gota que fez o copo transbordar, mas disse ao cara algo assim: " Tá legal, meu, cê tá pedindo, vai ter o que quer, a gente se vê na saída!" Não recordo se senti medo, mas ao encarar o valentão de frente, de peito estufado como um galo no terreiro, sorrindo debochadamente, sequer dei a ele chance de esboçar reação, parti para cima; trocamos socos que atingiam hora o vazio, hora costelas e braços, nada que machucasse muito. Devo lembrá-los aqui que pirralhos quando brigam se agarram e se arrastam no chão, não foi assim naquela ocasião, eu e o biltre parecíamos dois boxeurs num ringue. Num dado momento agarrei seus braços e o empurrei contra a parede do colégio, ali me dei conta de que apesar da valentia o cara não passava de um bosta, um fracalhão; ficou à minha mercê com olhinhos assustados, era pra eu ter esmurrado ele ali mesmo mas tive pena, não o fiz. Tudo isto que contei durou menos que um minuto e a "turma do deixa disso" que nos circundavam resolveu nos separar, me agarraram de cima dele e me imobilizaram, mas não seguraram o oponente. A pena que tive dele ele não teve de mim, vi-o fechar o punho direito e a porrada veio com tudo. Faltou forças nas pernas e o olho inchou na hora. Dilatado com a vitória o valentão tripudiou e se afastou dali com os colegas e meninas que faziam parte do seu séquito.
Humilhado, fui pra casa com uma beterraba no lugar do olho esquerdo. Inventei para meus pais que durante a brincadeira de pique-pega no recreio eu me chocara de frente com outro aluno. Aquele olho levou mais de dois meses para voltar ao normal. Curiosamente o provocador nunca mais olhou para mim, foi como se eu tivesse ficado invisível aos seus olhos.

Fim da história.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ZÉ GATÃO - CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO RELEMBRADO.



O EVERTON VERAS É UM CARA MUITO LEGAL E ARTISTA DE MÃO CHEIA! ELE CRIOU A TIRA GIL ASTRO, COM HISTÓRIAS BEM DIVERTIDAS QUE ME REMETEM AOS SERIADOS SI-FI SETENTISTAS. 

ELE VEM RESGATANDO MEUS ANTIGOS ÁLBUNS EM ÓTIMOS TEXTOS PARA O BLOG CYBER AEON.                   

BRIGADÃO, EVERTON!


CONFIRAM:

 ZÉ GATÃO – Crônica do Tempo Perdido


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Oi gente, como prometido, segunda postagem sobre o personagem Zé Gatão e seu criador, o mestre Eduardo Schloesser! Depois de “A Cidade do medo”, lançado em 1997 e que falei na postagem anterior, ele conseguiu lançar “Crônica do Tempo Perdido” em 2003, editado pelo competente Jotapê Martins e sua editora, a Via Lettera. Continuava a luta de um autor nacional para levar seu personagem e suas desventuras a um público cada vez mais focado nos comics, que já vinham às enxurradas nos anos 1990 e, agora, fascinado pelos mangás, que dominam as bancas desde então. Ainda em 1998, Eduardo e Jotapê se encontraram em um evento e daí surgiu a oportunidade para este álbum.
O sofrido processo de “gestação” de Crônica do Tempo Perdido é contado pelo autor em diversas postagens e também nas publicações, e tudo serviu de base para este post. Dificuldades financeiras e editoriais, além de problemas familiares, o desestimulariam e muito… mas não o impediram de trabalhar suas HQs. Eduardo é um lutador. Uma das histórias mais auto-biográficas onde enfia o Zé Gatão foi desenhada em sulfite, numa prancheta, com esferográfica e caneta de retroprojetor! Chama-se “Palavras venenosas” e é uma das histórias mais intimistas do personagem, feitas num dos piores períodos da vida do autor. Não há como não admirar e entrelaçar criador e criatura lendo o Gatão, mas nesta HQ, principalmente, isso salta à percepção.
“Crônica” difere do primeiro título em muitos pontos. A capa já chama atenção por ter sido feita para ser o perfeito oposto da anterior: aqui, vemos Zé Gatão de frente em fundo preto – como este álbum também é conhecido. O estilo de arte foi o que mais me fisgou. Além da evolução no traço ser nítida, há ainda a variedade de técnicas. Fora a esferográfica citada acima, Eduardo melhorou desenho e arte-final (destaco “As noites do Texugo”) e ainda nos trouxe belas pin-ups e toda uma história finalizada somente à lápis (“Nada pessoal”). Particularmente, essas são as artes dele que mais curto: Schloesser é FODA no uso do lápis. Entre suas influências ele cita Richard Corben, Tanino Libertatore e Frank Frazetta.
Mas nem só de arte vive esse quadrinho: o texto também é importante, e aqui contou com a edição de Jotapê, que disse a Eduardo que algumas coisas deveriam ser cortadas para que pudessem publicar o álbum. Algumas histórias, infelizmente, ficaram de fora, e o autor optou por não publicá-las mais (pena!). As selecionadas tiveram o texto cuidado pelo editor, e na minha opinião, isso foi positivo, deixando as HQs mais ágeis (pois Eduardo não apenas desenha muito, mas também escreve: seus balões e recordatórios normalmente são repletos de texto). Também havia a questão do conteúdo adulto: violência extrema e sexo explícito. Pessoalmente, acho bobagem, visto que é um material pra adulto ler mesmo! Não tem nada de infantil em Zé Gatão, mas as editoras tem certo receio, como se fosse chocante demais e não vendesse. Eu pergunto então: se materiais estrangeiros, tão ou mais violentos e abertamente pornográficos tanto quanto o Zé gatão, vendem, porque diabos esses editores acham que ele não venderia?
Ainda sobre o texto, as histórias trazem o Zé naquela situação que falei anteriormente: as vezes ele é mais coadjuvante do que protagonista, o que dá ao autor a oportunidade de contar outro tipo de HQs, mais contidas. Este álbum, assim como o da PADA (que eu ainda não tenho! me ajudem aí, pessoal!) é composto por histórias curtas, mas nem por isso menos interessantes. Sobre o formato, ele tem mais páginas que o álbum branco, que tem cerca de 70 (este tem umas 120), porém perdeu em tamanho, que é próximo ao formato americano, enquanto o anterior era tipo magazine. Sobre as histórias:
“A rádio maldita”: trabalhando numa rádio pirata, Zé narra ascensão e queda de uma banda. zc2
“Nada pessoal”: Zé se vê entre uma esposa infiel um marido traído! Arte fenomenal à lápis, numa das melhores HQs do gato, contada sem texto, apenas com narrativa.
“Galo de briga”: trabalhando numa pedreira, Zé Gatão tem seu primeiro contato com insetos.
“Crônica do tempo perdido”: Mais uma experimentação, esta é a menor HQ da edição, onde o Zé relembra seus fracassos amorosos na forma de belas pin-ups.
“As noites do texugo”: a maior história, ultra-violenta, conta a saga de um assassino que encontra em Zé Gatão o único capaz de lhe dar uma morte digna.
“Palavras venenosas”: misto de autobiografia e ficção, põe Zé gatão no papel de seu autor. Tem a arte mais crua da edição, feita à duras penas por Schloesser.
É isto por ora, gente. Não deixem de conferir o novo livro em quadrinhos de Eduardo Schloesser com o Zé Gatão: “Daqui para a eternidade”, já á venda nas livrarias e comic shops! Vamos prestigiar o quadrinho nacional de qualidade!
Até a próxima!
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terça-feira, 8 de setembro de 2015

ZÉ GATÃO - DAQUI PARA A ETERNIDADE ( A GÊNESE DE UMA CAPA )


Um amigo do Facebook visitou a bienal do Rio e se fotografou no estande da Devir com meus livros nas mãos. Fora isto não tenho a menor ideia de como anda minha última publicação, se está sendo comentada por aí a fora, se está vendendo e talz. Uma coisa eu sei, a dita mídia especializada não se pronunciou; também, pra ser sincero, já foi o tempo de me incomodar com isto.

Vamos agora abordar a capa. Desde o princípio eu já tinha em mente o que queria, só não sabia se seria aprovada pelo editor. Mas antes da falarmos sobre a arte, vamos comentar o título.

DAQUI PARA A ETERNIDADE não foi minha primeira opção. Na verdade os dois tomos lançados pela DEVIR eram pra sair num único volume, trata-se de uma única história, e por motivos que só a editora pode explicar foi dividido em duas partes, dai eu queria usar o mesmo conceito nas capas dos dois livros, então como MEMENTO MORI é uma frase em latim eu queria usar uma outra expressão latina no segundo volume. Minha ideia era que fosse TAPETUM LUCIDUM, a camada de células que os felinos possuem no fundo dos olhos permitindo visão noturna (fato abordado no corpo da história). Entretanto me pareceu pouco sonoro e eu me veria obrigado a justificá-lo de alguma maneira (detesto entregar tudo de bandeja para o leitor). Minha segunda alternativa foi Daqui Para A Eternidade, um título que sempre me martelou a cuca. Embora eu tenha sido informado posteriormente que existem músicas gringas com o mesmo nome, a minha inspiração foi o filme clássico "A Um Passo Da Eternidade", com o Burt Lancaster e Deborah Kerr (na verdade o nome original é "From Here To Eternity"). Sempre achei muito legal essa coisa de dar dimensão épica para  uma obra. Todavia ainda tive dúvidas entre as duas escolhas e abri votação entre meus irmãos e o editor Leandro Luigi Del Manto. ETERNIDADE ganhou de lavada, só o André optou por Tapetum Lucidum.
Beleza, escolhido o nome, agora era hora da ilustração da capa. Voltando à questão do conceito, se em Memento Mori eu usei o recurso de rostos esculpidos em pedra, o segundo deveria seguir a mesma linha; meu pensamento era algo como escultura em baixo relevo.

Fiz alguns esboços - que não consegui localizar para colocar na postagem - e cheguei mais ou menos onde queria.

Este foi o esboço criado para o editor ter uma ideia do que estava na  minha mente.


Um trabalho a lápis mais bem elaborado para ver se a coisa era mesmo viável.


Aprovado pelo editor, comecei a preparação da tela com a arte já desenhada no suporte.


Marcando os traços com tinta acrílica.


Banhando a tela com acrílica.


Iniciando a pintura a óleo.



Pintura antiga usada para a capa de trás.


Pintura pronta. Bastante elogiada pelo Leandro. Esta seria a capa.


Porém o diretor editorial da Devir não gostou muito e propôs mudanças, o que obrigou o Leandro a criar algo para fazer um upgrade.

A solução que ele criou para que não eu não tivesse que trabalhar em uma outra ideia foi colocar um fundo preto para destacar as figuras no círculo.


Minha noção de conceito acabou indo pro espaço, mas não posso negar que a capa final deu um destaque muito maior na minha arte e ficou muito mais bonita.

Queria detalhar mais o desenvolvimento mas tem muito trabalho me esperando.

Até a próxima!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS ( 05 )


Há dias em que nos sentimos bem com nós mesmos apesar da maré contrária, há momentos porém em que o sol brilha radiante, tem muita comida na geladeira e a saúde está ok, mas existe uma estática nas ondas sonoras, algo imperceptível aos ouvidos comuns mas não passa despercebido aos de sentidos mais atentos, uma mancha quase invisível no branco do lençol que só uma olhada criteriosa poderia perceber, e isto faz com que fiquemos desconfortáveis. Eu pelo menos fico.

Tenho tido certo sucesso em dividir meu tempo para realizar as coisas que preciso. Demoro muito mais para concluí-los mas ao menos tiro alguns projetos da lista de espera. Minha prioridade é trabalhar no segundo álbum de anatomia, então dedico a ele boa parte do dia, logo em seguida esboço os quadrinhos para o NCT e depois vem meus rabiscos pessoais, estes que não tem gerado grana mas que me ajudam a relaxar e sentir que não sou um inútil completo para mim mesmo. É nos intervalos que consigo ler alguma coisa, o capítulo de um livro ou páginas de um gibi.
Em casa leio Dom Quixote (livro maravilhoso, mas que requer atenção, então saboreio com mais vagar), na rua leio algo mais ágil (como narrativas de aventura ou mistério).
As HQs que tem me acompanhado ultimamente são Juiz Dredd e Quarteto Fantástico - Inconcebível.
Não pude mais ir ao cinema (queria muito ter visto o último Missão Impossível, mas não deu).

Disse que tenho conseguido fragmentar meu tempo mas ontem não foi possível, entrei num Banco do Brasil por volta de três da tarde para pagar uma conta em atraso e só saí quando anoitecia.
Espaço lotado. Todos com senhas nas mãos, sem lugar para se movimentar, parecia os trens da Central do Brasil no Rio de Janeiro em horário de pico (eu costumo chamar de "pica"). Felizmente eu tinha Dashiell Hammett pra me fazer companhia. Mas tava difícil me concentrar na leitura de O Falcão Maltês, procurei um local mais isolado perto das mesas que faziam seguros e abertura de contas mas apareceu um velho com as reclamações de praxe, tive que escutar e assim que ele dirigiu seus desgostos para um outro infeliz mudei de posição ficando um pouco mais afastado perto da guarita do segurança, mas uma moreninha de óculos se aproximou arrastando seu filho birrento e presepeiro impedindo que eu pudesse mergulhar nas agruras de Sam Spade e suas datadas desventuras detetivescas. Minha bexiga, que não é cem por cento, começou a incomodar e me dirigi ao banheiro que ficava próximo, mas uma outra morena - também de óculos - leu meus pensamentos e se adiantou à minha frente. A gente respira fundo e se conforma.
Porque o assombro? Eu e todas aquela pessoas lutávamos pela vida, e, claro, não se pode vencer, mas nem por isto devemos desistir. Nesta trajetória não há lugar para bundamolice.
E assim foi, entre fechado em mim mesmo, falando com Deus sobre um fardo que eu e Verônica carregamos pelo caminho - que só Ele pode nos livrar (ou ajudar a carregar) - e as amareladas páginas de um pulp, fui finalmente atendido, literalmente o último cliente do banco.

Mas o ruído que inaudivelmente perturba a suave melodia em alguns momentos da vida não provinha de uma gigantesca fila de banco e suas consequências, essas coisas são necessárias para testar nossa paciência dia-pós-dia. Não, era outra coisa impossível de precisar com exatidão. Sei que a resposta está no livro de Eclesiastes e nem por isto deixo de estremecer ante a futilidade e imutabilidade de tudo.


Não consigo me lembrar exatamente para qual cena do clássico do Machadão eu fiz este desenho, minha memória não tem me ajudado nestes últimos anos. Observando-a noto um bom equilíbrio na composição, equilíbrio este bem mais difícil de conseguir na vida.