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quarta-feira, 28 de março de 2012

O MESTRE DA MERDA SECA.

Foi mais ou menos assim que a palavra "mestre" começou a me incomodar: a alguns anos passados conheci em Recife, durante um evento de quadrinhos, um rapaz que se dizia fã do Zé Gatão, ficamos próximos e algumas vezes pediu-me para avaliar alguns trabalhos que ele tinha feito. Nestas ocasiões a Verônica tirava um sarro da minha cara, chamando-me de mestre (ela brinca comigo até hoje usando esta expressão quando me indaga se alguma coisa está do meu agrado). Depois alguns admiradores virtuais do meu desenho me saudavam nas mensagens que deixavam me alcunhando de mestre. Ouve um inclusive que era tão efusivo no uso desta palavra que dava a nítida impressão que estava sendo irônico, que estava zoando. Na boa, não ligo pra isto não, sei que a maioria das pessoas usa a palavra com respeito e admiração pelo que faço e eu humildemente agradeço, só que penso que um mestre numa determinada arte é aquele que domina como ninguém os rudimentos do seu trabalho, vive bem do seu ofício e tem 99% (senão 100%) de aceitação e respeito de seus pares. O Eisner era alguém que poderíamos chamar de mestre, o Moebius era outro, só para citar dois. Evidentemente tem aqueles que só são reconhecidos via de regra muitos anos depois de terem morrido, e suas obras sobrevivem ao tempo e vão influenciando outros artistas; como exemplo cito Kafka, Mozart e Van Gogh.
Temos também estes que mesmo sem o devido sucesso comercial, ainda assim é referência e com justiça são homenageados nos festivais, como é o caso do querido Júlio Shimamoto.
Em tudo o que citei, evidentemente não me encaixo em nenhuma categoria.
A título de brincadeira, como faz minha esposa, tudo bem, mas aceitar o epíteto de forma natural, me envaidecendo, acreditando que possa ser verdade seria muita cara de pau da minha parte.
As vezes eu me pergunto se não passo de uma farsa. Pensando assim, dentro do que faço em termos de arte, fica mais fácil aceitar as minhas inúmeras limitações e inseguranças.

Como não devo aparecer por aqui até a próxima segunda, desejo a todos bom final de semana.

segunda-feira, 26 de março de 2012

RICOS ESTÉREIS X POBRES ESTRESSADOS.


Outro dia destes li uma frase do David Lee Roth, vocalista do Van Halen, que dizia mais ou menos assim: "Já experimentei a pobreza e a riqueza, claro, que ser rico é bem melhor." Uma reportagem da Veja que li a muitos anos atrás tratava do mesmo assunto afirmando que a estimativa de vida do rico era bem maior que a do pobre pelos motivos óbvios. E pensem bem, meus amados e amadas, nós que vivemos de forma remediada - falo por mim pelo menos - nem imaginamos o que é a verdadeira riqueza material. Dormimos, certamente, em camas limpas e cheirosas, mas o que dizer daqueles lençóis dos quartos de hotéis onde se hospedam os magnatas do petróleo? Soube que o Sylvester Stallone, aonde quer que vá filmar, leva seu exclusivo chef de cozinha para fazer os pratos que ele gosta com baixa caloria, porém saborosos.
Semana passada fui a um laboratório de imagem fazer um raio-x dos quadris e um ultra som do ombro esquerdo. Acho que os anos em que fazia musculação e excedia nos pesos resolveram cobrar a fatura agora que vou entrando na casa dos 50. O tal laboratório ficava em Boa Viagem, área nobre de Recife, assim que cheguei o cara da segurança abriu a porta para mim, retirou uma senha e me entregou. O clima ali dentro era mais que agradável, um ar de limpeza se destacava no local. Fui prontamente atendido e encaminhado à sala do exame. Aparelhagem moderna ambiente à meia luz, médico polido, enfim, dá pra acostumar mal.
Em contrapartida, o luxo parece tornar alguns homens mais fracos, sobretudo no caráter. Nunca fui rico, mas se um dia eu chegar a ser, com certeza não pedirei as pessoas pra fazer coisas que eu possa fazer primeiro, isto é certo.
Meu irmão certa vez comentava comigo sobre uma matéria científica que provava que algumas agruras na vida, como fome por exemplo, parecia aumentar a fertilidade. Pesquisas feitas com cobaias em laboratórios demonstravam que aqueles que passavam mais privações fecundavam muito mais do que aqueles que viviam abastados. Seria por isto que os pobres fazem filhos a rodo e alguns ricos chegam até a pagar fortunas para para adotar uma criança?
Certa vez num programa de tv cujo o tema era ejaculação precoce e impotência, entrevistaram um cara bem magro numa favela, o cara dizia que esse negócio de brochar era coisa de rico, com ele não tinha esse negócio não, tanto que "comparecia" todos os dias e fizera cinco filhos com mais um a caminho, mostraram o barraco maltrapilho do cara, sua esposa, rebentos e tal.
A frase que diz que dinheiro não trás felicidade é certa apesar do clichê, mas uma graninha ajuda muito, sobretudo nos momentos de doença, onde o indivíduo morre até com mais conforto.
Bem, tudo o que disse aqui pouco importa, mas é um caso a se pensar (ou não), acho que em qualquer situação, o legal é manter a integridade e o coração puro.

As ilustras de hoje fazem parte da peça "As Casadas Solteiras" do Martins Pena. Gostaram? Então cartas para a redação.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O PERDEDOR (Um conto por Eduardo Schloesser)

Macedo era um merda, um perdedor que cultivava secretamente a ideia de matar a esposa. Tinha trinta anos e enquanto ficava debruçado sobre o mesmo balcão da tabacaria onde trabalhava ao longo de quatro anos desde o acidente que limitou sua vida, ele passava o tempo imaginando um sem número de modos de tirar a vida daquela companheira que outrora era tão dedicada e amorosa, mas no presente, indiferente e mau humorada. Tiro na cabeça, bem na nuca, no preciso momento em que entra em em casa e ela nem se dá ao trabalho de olhar para ele. Outras vezes imagina estar degolando-a quando ela na cama, dorme a sono solto sem nem perceber que ele está ali ao lado. Ela era uma bela mulher, professora de nível fundamental, sempre comendo sozinha em frente a tv, peidando e reclamando de cefaleia. Era como se ele morasse só na pequena casa que ficava nos fundos da tabacaria.
A vida de Macedo nem sempre fora este marasmo, jovem, bonito e inteligente, foi um prodígio na escola de música onde desde cedo mostrou ser um virtuoso no violão flamengo, não gostava de pop ou rock, seu sonho era integrar uma filarmônica e escrever suas próprias peças. Tudo apontava para isto até que conheceu Isabel, sua primeira e única namorada e dali a pouco tempo, esposa. Ela, bem mais extrovertida, vivia tirando-o dos estudos para aproveitar a vida. Acampamentos, canoagem, montanhismo e essas coisas. Foi numa destas que aos vinte e cinco anos sofreu uma queda feia e teve inúmeras fraturas do lado esquerdo, só no braço foram quatro, com uma séria lesão num tendão do indicador que o tirou definitivamente do sonho de ser destaque no violão. Poderia não tocar mais tão bem, mas nada o impediria de escrever uma sinfonia para o instrumento, mas a partir daquele acontecimento algo mudou em seu interior, travou seu talento natural, e embora as pessoas o vissem com o mesmo semblante bonito e sorridente de outrora, em seu interior ele se tornou amargo, rancoroso, culpando intimamente Isabel por sua desdita, esperando o dia em que um ato insano como um assassinato com requintes de crueldade pudesse liberta-lo da prisão, onde ele, e só ele, se via trancafiado.
Imerso numa depressão que muitos julgavam justificada, abandonou a música e coisas relacionadas, demonstrando apatia por tudo.
O sogro, uma boa pessoa, o colocou para tomar conta de uma tabacaria de sua propriedade, achando que assim ele teria seus próprios recursos para ir tocando a vida até que estivesse disposto a alçar voos mais altos. No princípio, os diversos aromas de fumo até lhe agradavam, trazendo um aconchego misterioso no meio do mar de revolta que sentia por tudo e por todos, mas com o passar do tempo aquilo também simbolizaria seu túmulo, uma vez que sabia que nunca sairia daquela vidinha de vendedor de cigarros e charutos.
Ele simpatizava com o sogro, um baixinho que mesmo aos sessenta anos exibia um físico musculoso de fisiculturista. Era endinheirado e dado a contar piadas sujas, vivia reclamando da mulher, afirmava que era uma megera  que o repudiava, ela vivia dizendo que ele só pensava em sexo, o que era verdade. Pra distrair a cabeça aquele homem pegava seu veleiro e passava várias semanas no mar, vivia de uma renda que Macedo nunca soube exatamente de onde vinha; ele não precisava prestar contas dos rendimentos da tabacaria, desde que não deixasse faltar nada para a filha e que cuidasse de Kratus, o imenso rottweiller que ficava no quintal da casa. Ele não suportava o cão, mas fazia seu papel. Todos os dias colocava a focinheira e levava o imenso e arredio canídeo negro para passear, limpava seu covil e o alimentava como a um filho. O animal gostava dele, praticamente urinava de prazer ao velo pela manhã. Tinha instantes em que ele ficava selvagem ao extremo, latindo ao ponto de escumar a boca. Macedo demorou para perceber que esta reação era uma resposta a um determinado aroma de fumo. Toda vez que um cliente vinha comprar aquele tabaco e acendia seu cachimbo, o bicho se transformava e parecia que derrubaria a cerca.
Como tinha uma compleição franzina, Macedo tinha sido assaltado a caminho do hipermercado próximo à sua residencia três vezes, parecia ser alvo fácil para as "hienas" que infestavam aquele bairro antigamente tão seguro e calmo, fruto da precária política de segurança pública de uma prefeitura corrupta. Fora abordado sempre  pelo mesmo meliante, um indivíduo mulato, careca, magro, faltando dois dentes frontais, com tatuagem de cadeia nos braços. Na primeira vez, o bandido lhe apontou um trinta e oito e surrupiou-lhe o relógio e a carteira, apenas subtraiu o dinheiro e devolveu a bolsa de couro atirando-a com toda força na sua cara. Na segunda vez o biltre vinha de bicicleta, parou ao seu lado e apenas levantou a camisa mostrando a arma na cintura. Desta vez levando seu celular e o dinheiro para a mercearia. "Tu nunca me viu rapá", e desferiu-lhe um violento tapa na boca, arrancando com a bike a toda. Na terceira vez o malaco nem se deu ao trabalho de mostrar a arma, levou o dinheiro e a sacola com as compras. Ao relatar os incidentes em casa só recebeu o olhar indiferente de Isabel.
Macedo temia sair de casa sem levar Kratus, mas nem sempre podia faze-lo. Por duas vezes tinha visto o mesmo assaltante passar de bicicleta em frente ao seu estabelecimento, outra vez vira-o na fila da padaria logo à sua frente, apavorado, tentou se esconder, mas o salteador parecia tranquilo, alheio a tudo.
Certa tarde, imersos em seus pensamentos sombrios, não prestou atenção à pessoa que entrava na tabacaria,  "Tem 'róliudi' aí ô chefia?" Ao olhar para o rosto de quem lhe perguntava, quase caiu de costas, tratava-se do homem que o assaltara três vezes.
"Que foi rapá? Viu um fantasma? Tem róliudi ou não?"
Macedo tentou se recompor depressa.
"Hollywood? N-não temos...."
"E malboro?"
"T-também não."
"Porra, tu não vende cigarro nesse caralho?"
"É... não este tipo de cigarro. Nossos produtos são importados, vendemos charutos e cigarrilhas."
"Sei, tem algum com sabor de menta aí?
"T-temos este aqui." Macedo mostrou-lhe uma pequena embalagem de cartão prateado.
"Quanto é a bagaça?"
"Cinquenta e dois reais."
"Cinquenta e dois reais?!? Tá maluco mano? Isso é roubo! Hei, num te conheço de algum lugar?"
Sem saber o que responder, Macedo engoliu seco, o marginal certamente não se lembrava dele.
"Tem nada mais barato não? Assim, uns cinco paus? Tô no veneno de fumar alguma coisa!"
"É, deixa eu ver..." O marginal deu-lhe as costas olhando a variedade de tabacos na vitrine à esquerda, neste momento Macedo divisou embaixo do balcão um aparelho de eletrochoque que seu sogro lhe deu, de uso exclusivo da polícia, exatamente para o caso de algum assalto. Um pensamento negro se desenhou na sua mente e ele começou a tremer e suar de nervosismo.
"Tá passando mal aí chefia? Te incomodo?"
"N-não, não é nada, é...é minha úlcera, hoje tá me atacando, mas vai passar."
"Sei, toma um anti-ácido aí, com essas coisa num se brinca. Bem, já vi que isso aqui é loja de burgueis, tem nada pra mim aqui não, vô nessa."
"Espera, tenho algo ali em cima.É coisa fina e custa apenas cinco reais."
"Onde ?"
"Ali, bem acima dos charutos. Você que é alto poderia pegar pra mim, por favor?"
"Tá, é bom que seja coisa boa mesmo...."
Enquanto o mulato ficava de costas para ele tentando alcançar o maço de cigarrilhas, Macedo aproveitava uma oportunidade que nunca mais apareceria e rápido como um gato pegou o aparelho, ligou-o, atravessou o balcão e eletrocutou o velhaco no exato instante que ele se voltava. Ele tombou ao solo estrebuchando com espasmos, da sua boca saía uma saliva grossa, porém diferente dos filmes, ele não perdeu os sentidos, mas fez menção de se levantar.
"C-ca-caralho...que qui tu feiz.. mano..? Ficou louco?
Macedo, com um surpreendente sangue frio, aumentou a voltagem e aplicou-lhe novo choque, tendo o cuidado de não tocar nele. O cara deu um urro e começou a tremer, porém mais uma vez não tinha perdido a consciência, mas parecia fraco demais para oferecer resistência. Pensou em chamar a polícia, contudo era questão de tempo até o marginal estar de novo nas ruas e voltar para mata-lo. Desperto com o grito do patife, Kratus começou a latir no quintal. Macedo não pensou, pegou o pote com o fumo que irritava o cão e despejou o tabaco fedorento no pescoço do assaltante, em seguida arrastou-o pelas bermudas encardidas  em direção ao covil, mal abriu a portinhola e o rottweiller cravou as poderosa mandíbulas no rosto do malandro, que ainda consciente, gritava como um porco no abate. Em poucos segundos estava morto, com a cara e o pescoço totalmente dilacerados.
O jovem voltou para a loja ofegando. Trancou a porta para que não aparecesse algum cliente e discou o 190, relatou o assalto informando que o bandido tentou fugir pelo quintal e fora atacado pelo cão. Enquanto aguardava as autoridades guardou o aparelho vingativo. Olhou pela janela nos fundos da loja e viu o enorme cachorro negro sentado ao lado do cadáver lambendo o sangue da bocarra. O carnificina parecia te-lo acalmado.
Macedo sentia-se estranhamente leve. Já não tinha desejo de assassinar a esposa, afinal a amava. Decidiu que iria reconquista-la.
Pegou o telefone e discou um número:
"Alô? Por favor, poderiam me informar o preço de uma Viola Alhambra Clássica importada?"

terça-feira, 20 de março de 2012

ANATOMIA DE CAVALO.


Meus amados e minhas amadas, cá estou depois de uns dias afastado deste nosso espaço, é que ando numa correria louca para cumprir meus prazos e infelizmente com meus pagamentos irregularizados, o que só  me dá transtornos e dor de cabeça. Mas não desanimemos, a luta continua e ainda temos o escudo e a espada nas mãos. 

As artes de hoje são dois esboços para um curso de desenho que projetei. 
Abração a todos.




Ah, sim, para aqueles que curtem (será que alguém curte mesmo?) os contos que escrevo, estou com um novo que bolei meio de última hora, só falta dar uma revisada e posta-lo aqui.
A gente segue se falando.









quarta-feira, 14 de março de 2012

A TERRA MACULADA.


Ao me sentar diante do monitor eu tinha uma série de coisas para dividir com vocês hoje, mas ao tentar escolher o tema por onde começar, ponderei. Se insistir em certos assuntos eu vou ficar parecendo (se é que já não pareço) um cara que a medida que envelhece vai ficando mais ranheta. Mas talvez seja esta a qualidade de um indivíduo que viveu e sobreviveu aos assaltos da vida e tenta traduzir em palavras as sensações que o mundo lhe trouxe. Será?

Eu pretendia comentar sobre uma reportagem que li, de um linguista americano, missionário, que pretendeu levar a Palavra de Deus aos índios brasileiros lá nos confins da Amazônia (me esqueci de qual tribo) e que foi questionado, confrontado, ameaçado, quase morto por eles e no fim das contas se tornou ateu. Queria argumentar que tal intelectual/linguista/pregador da Palavra, jamais teve um encontro real com Jesus, nunca sentiu a Paz que só é capaz de sentir aquele que pela fé creu de fato que o Cristo prometido por Deus nas escrituras tinha na verdade vindo ao mundo e foi crucificado pelos homens e ressurgiu após três dias e assunto aos céus, há de voltar em breve. Pois se este homem tivesse realmente caminhado com Ele, experimentado a comunhão com Ele, não O abandonaria assim, por mais que as dúvidas assaltem e as complicações da presente era nos façam pensar que estamos sozinhos. Não estamos.

Era minha intenção dizer que triste da terra por estar contaminada com homens que batem nas mulheres, maltratam os animais, cerceiam a liberdade do outro, escarnecem daqueles que julgam inferiores, vitimam as crianças.
Queria filosofar que a maldade começa cedo, na tenra infância, atingindo seu apogeu na adolescência, ali o ser humano toma como alvo para exercício de sua perversidade aquele que usa óculos, que é dentuço, que tem pernas tortas, que é muito branco, que é gordo, muito alto ou muito baixo, tem nariz chato ou língua presa. Alguns sobrevivem a isto, outros tornam-se inadequados aos meios sociais. Como diz o título (o título, não a letra) de uma música do Metallica, Sad but True.

Tencionava falar que hoje mais que nunca os brutais (que na verdade são grandes covardes) quando atingem o poder, guardados atrás dos seus muros sólidos, porém ilusórios, pervertem as leis, tornam o que é branco em negro e o que é certo em errado, pretendem abolir os crucifixos das paredes mas permitem o véu, debocham do cristianismo mas temem as fatwas. A nós, só resta resistir e aguardar.

Para contrabalançar um texto azedo, as ilustrações da comédia do Martins Pena, " As Casadas Solteiras" um texto cheio de clichês, mas divertido e leve.
Salve a arte que torna o planeta mais suportável.

domingo, 11 de março de 2012

MOEBIUS, ADEUS.

  

Jean Giraud, mais conhecido como Moebius, nos deixou.
Este nosso pobre mundo ficou mais carente de universos fantásticos. Ele sabia retrata-los como nenhum outro através de sua pena e suas pinturas acrílicas. A lacuna que ficou nunca será preenchida, pois com raríssimas excessões, não houve um artista tão versátil e imaginativo quanto ele.


O primeiro contato que tive com este que foi um dos mais influentes artistas do século 20, foi no fim dos anos 70 na lendária Heavy Metal. Desde então, ao lado de monstros sagrados como Corben, Wrightson e Liberatore, foi um dos que me acompanharam na minha (se posso chamar assim) evolução como desenhista. Houve uma época que ele influenciou fortemente minha arte, tanto que tenho várias ilustrações com aqueles mesmos temas que eram obsessivamente perseguidos por ele.


A imprensa, os sites e blogs que versam sobre hqs e arte estão prestando seu tributo, eu não poderia deixar de comunicar o meu pesar, pois penso que ele nos deixou cedo demais, ainda tinha muito chão pra queimar.


Obrigado Sr. Jean por nos proporcionar tanta arte, fantasia e inspiração.



quinta-feira, 8 de março de 2012

RETRATOS NA RUA.

Sempre tive muita admiração pelos artistas de rua. Sério. No Rio ou em São Paulo eu sempre perdia um tempinho pra ver os lutadores pularem através de uma roda de bicicleta cheias de facas ou rolos de arame farpado; tinha um tiozinho que pregava o Evangelho de Jesus no Largo São Bento (SP) equilibrado numa cordinha mequetrefe.
Certa vez no Largo da Carioca (RJ), um grupo de capoeiristas faziam uma exibição, a turma que assistia jogava uns trocados, os caras davam um salto mortal para trás e pegavam o dinheiro com a boca plantando bananeira, até que um deles, sei lá, talvez com os braços já cansados da proeza, caiu de boca no chão arrebentando os dentes, se vê de tudo numa situação assim.
Perto da Praça da República (SP) um trio de crianças negras (duas meninas, uma na guitarra, outra no baixo e um gurizinho na bateria) faziam um rock´n roll maneiro, executando na boa o hit Stand By Me popularizado pelo John Lennon; tempos depois vi essas crianças tocando no programa do Gugu.
Agora o que dizer dos artistas que fazem retratos e caricaturas na rua? Andando pelas avenidas do centro velho de São Paulo, tipo, Avenida Ipiranga, Rua 24 de Maio e outras, era muito comum ver aqueles caras retratando quem se dispunha a pagar o preço pra levar seu rosto feito a lápis ou carvão para casa. Certo, nem todos eram tão bons, mas só o esforço e cara de pau de alguns já merecem crédito.
Houve uma época na minha vida que eu estava completamente quebrado de grana, não tinha nem um real pra comer um churrasco grego na Avenida São João, pensei seriamente em me aventurar fazendo retratos nas praças, só não me arrisquei por que também não tinha cavalete, nem folha, nem carvão. E também porque sempre morri de vergonha de desenhar com pessoas me observando. Uma vez uma pessoa me disse que meu estilo realista de pintura seria bem recebida na Europa. Lá, segundo ela, artistas compunham suas telas pintando nas calçadas, o Velho Continente respirava arte. "Será mesmo?" Pensava eu.
Relembrando isto agora, me veio à mente um período muito tenso em casa, em que eu sem emprego, recebia recortes de jornal do meu pai quase todas as manhãs, coisas como balconista de lanchonete e atendente de não sei o quê, cheguei a responder a alguns daqueles anúncios, mas as vagas estavam preenchidas. Eu me sentia um merda. Meu pai devia estar muito ansioso pra se ver livre de mim naquela época, ele propôs me mandar pra França com passagem só de ida. A ideia era comprar uma passagem a prestação, eu destacaria algumas telas das armações, coisas que tinha pintado anos antes e colocaria num cone pra não ocupar espaço, uma vez lá eu poderia vende-las e ir me mantendo enquanto produzia novos trabalhos e assim sucessivamente. Um plano perfeito, enfim. Visto, passaporte e outros detalhes  pareciam não ter importância. Eu nunca pude dizer não,  e nem me atrevia, só que a coisa era sempre falada mas nunca levada a cabo. Eu já sabia por artistas que moravam na França, Espanha e Suíça, que não era nada fácil se destacar sem ter um lugar para morar. Mas eu estava disposto a tentar, nem que fosse pra morrer de fome e de frio, era melhor que a imagem de vagabundo que sempre me acompanhou. Sinto esse estigma até hoje.
Atualmente, ao caminhar por Recife vejo uns caras nas calçadas exibindo retratos de Elvis, Madona, Roberto Carlos e outros, alguns muito bem feitos e me pergunto se não estão passando pelos mesmos momentos complicados que passei um dia. Como nada posso fazer, mentalmente peço que Deus ajude esses artistas de rua a vencerem na profissão, sei que muitos não escolheram este caminho, foram escolhidos.
Este retrato que fiz a carvão foi para explicar a técnica passo a passo, este e outros exemplos devem estar chegando nas bancas em breve.

terça-feira, 6 de março de 2012

A CIGARRA E A FORMIGA ( CENAS FINAIS ).


 Há uma expressão aqui em Pernambuco quando algo é complicado: TÁ PAU! ou, É PAU! Tipo, alguém fez uma bobagem qualquer ou é frequente nas merdas que executa, "FULANO É PAU!" O ônibus tá atrasado? TÁ PAU!
Pois é, pensando nisto hoje, me dei conta de que vai fazer nove anos que estou exilado aqui. Quando cheguei, imaginava que ficaria o mínimo, achava que em um ano ou dois eu estaria de volta a Brasília, ou São Paulo. Todo ano eu pensava: Será o último. Até que o tempo foi me vencendo e eu parei de me preocupar. Algumas decepções que sofri com o mercado de arte/hq no início de 2004, mais a solidão que senti ao aportar nesta terra quente, gerou um amargoso álbum com histórias ultrapornoviolentas que ainda permanece inédito, e mesmo ele não foi capaz de dar vazão ao meu grito.
Quando me perguntam se gosto daqui eu respondo que me acostumei. Se eu dissesse que é ruim eu estaria mentindo, mas eu gostaria de voltar a Brasília. Na verdade eu queria voltar no tempo. Precisamente os meados de 1980. Queria estar com meus irmãos de novo, mas sem as angústias do presente. As dificuldades que enfrentávamos naquela época eram dureza mas estávamos juntos. Éramos como uma corda bem entretecida. Separados, parece que ficamos mais frágeis. Eu pelo menos me sinto mais enfraquecido.
Nove anos aqui. Só sentado dentro do meu quartinho produzindo rotineiramente desenhos que os outros me encomendam. Como passou rápido! Rápido como um tiro na nuca. Não, na nuca não, na barriga. Uma bala na nuca você apaga no ato, já nas tripas você perece devagar curtindo cada segundo de sofrimento. Hemorragia e a merda se misturando à corrente sanguínea provocando uma avassaladora infecção.


A cigarra cantava ao invés de trabalhar, chegou o inverno e ela não tinha onde se abrigar nem o que comer, a formiga trabalhou duro provendo a ela e a toda sua comunidade substância para os dias maus. Há quem diga que a cigarra com sua arte deu alento às trabalhadoras durante sua labuta. Será?
Enquanto vou produzindo estes desenhos que pela misericórdia de Deus me encomendam, não posso nem me dar ao luxo de, como Carolina, olhar a vida passar na janela. É PAU!


quinta-feira, 1 de março de 2012

ZÉ GATÃO ( AQUI E AGORA)


 Pelo que fui informado, a edição especial da P.A.D.A. com Zé Gatão, esgotou sua pequena tiragem inicial. Se farão uma nova impressão ainda não sei, mas na ocasião do lançamento alguma pessoas me perguntaram se a hq "Righ Here, Right Now" teria num futuro próximo uma publicação no seu original em cores. Respondi que não havia planos para isto naquele momento. Pra quem não sabe, esta história saiu em preto e branco no álbum.
Bem, como a revista não está mais circulando, então não vejo problema em posta-la aqui (inclusive com meu letreiramento à lapis, não reparem).
Esta hq foi um dos tantos experimentos de cores, lápis e papéis que fiz quando ainda tinha saco pra isto. Na verdade não deixa de ser uma sátira aos programas pseudo-jornalísticos policiais apelativos de fim de tarde.