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domingo, 26 de março de 2017

O TEMPO EM QUE VIVI TEMENDO QUE O CÉU DESABASSE SOBRE MINHA CABEÇA.




Amadas e amados do meu coração, boa noite.

O título da postagem de hoje não quer dizer que eu me sinta um gaulês (entendedores entenderão), mas faço uma recordação de certo tempo em Brasília. Eu já não suportava mais viver em São Paulo, aquilo estava me enlouquecendo. Era o ano de 1998, e um um amigo, recém conhecido, fez a sugestão de eu voltar a Brasília, não importava que eu não tivesse suporte, ele me ajudaria, como pudesse, a arrumar um emprego. Em tempos anteriores em que voltei para visitar meu irmão (que ainda residia lá) eu tinha recebido vários convites de velhos amigos para me hospedar na casa deles. Liguei para um em particular, por quem nutria grande afeição, falei do meu intento e ele disse: "venha, aqui você tem um lugar." E acrescentou: "você vai me decepcionar muito se voltar atrás!" Munido de certa coragem eu decidir arriscar tudo mais uma vez. Conversei com minha mãe e filha (nesta época ela era uma adolescente e morava comigo). Apoiado por elas e meus dois outros irmãos eu fiz as malas levando algumas roupas, uns livros e material de desenho e pintura. Não disse nada ao meu pai, eu queria evitar um possível conflito.

A Verônica tinha voltado para Pernambuco em 1997, nossa relação se deu à distância, sempre usando telefones públicos e fichas em todo este tempo.

Cheguei na Capital Federal otimista e com apenas uns 30 reais no bolso.

Devo sublinhar aqui que meu irmão que morava em Brasília vivia um momento delicadíssimo em sua vida e eu não iria ser um peso extra em sua amarga existência. Por isto não fiquei na casa dele. Fui até o amigo que jurou abrigo ao telefone. É nestas horas que a gente vê como é duro viver de caridade. A princípio, tudo correu bem, mas foi só nos primeiros dias. Eu tinha como meta ser o menos pesado possível, por isto só chegava na casa dele na hora de dormir. Ele morava com uma magricela e brigava com a moça o tempo todo, até batia nos cachorros dele. Sou meio debiloide e a ficha comigo demora a cair, mas notei que toda aquela agressividade foi porque havia um intruso ali - EU - e ele fez tudo o que pode para me expulsar sem usar as palavras. Entrar em detalhes demoraria e eu iria parecer exagerado, além de reviver humilhações que me doem lembrar.

Durante o dia eu saía a procura de emprego, as vezes sozinho, a pé ou de ônibus, as vezes de carro com o conhecido que me prometeu auxílio nesta empreitada. Meu irmão me dava dinheiro para eu comer. Fui em muitos lugares, agências de emprego, agências de publicidade e até em supermercados para ver se trabalhava como cartazista. Nada!

Meu irmão me chamou várias vezes para eu ir para a casa dele, mas eu queria evitar a todo custo sua mulher, que na época, me detestava. Como disse, ele não vivia bem e minha presença só faria abrir ainda mais uma ferida já gangrenando.

O tal "amigo" por fim conseguiu me por pra fora da casa dele certa noite e eu só não dormi na rua porque o Ricardo Bermudez, um brother que era músico, me acolheu na ocasião. Foi aí que um antigo colega do SENAC me convidou a ficar com ele até que eu conseguisse algo. Aceitei. Ele morava na Ceilândia, uma das cidades satélites de Brasília, um lugar muito longe que dificultava ainda mais a procura por trabalho.
Ali fiquei bem, apesar daquela eterna sensação de ser pesado, de estar invadindo espaço alheio. Ele chegava muito tarde do trabalho e era gentil em trazer pizza, lanches do Mac e essas coisas para mim de vez em quando. Uma grande alma. Não cito o nome dele aqui pois acho que ele não iria gostar.


Nesta época eu só tinha o primeiro  álbum do Zé Gatão e parte do material que comporia o segundo. A história "NADA PESSOAL" eu criei ali, na Ceilândia.
Teve episódios tragicômicos em meus trajetos entre o Plano Piloto a aquela periferia, mas não estou com paciência para os detalhes.

Continuava usando os orelhões e cartas para me comunicar com a Vera.

O trem não andava. Nada de emprego. Eu já estava desistindo, devia mesmo voltar à São Paulo, ao caos cotidiano, aos fantasmas opressores do lugar, até que uma luz no fim do túnel surgiu. Um cara de uma comic store tinha falado de um workshop na UNB para recrutar artistas de quadrinhos para trabalhar numa empresa que estava se formando. "Me diga, por favor, como faço para entrar em contato com os responsáveis." pedi ao cara. "não vai adiantar, isto foi na semana passada, o quadro já está completo", me respondeu ele. "Vou tentar mesmo assim!" "Fale com o Lima." O Lima era um desenhista que trabalhava com ele e tinha passado pelo crivo dos caras da tal empresa. Perguntei a ele e consegui um telefone. Falei com uma moça apática, ela me deu um endereço que ficava no setor hoteleiro norte.

No lugar, de posse do meu portfólio, fiquei esperando para falar com o big boss. A moça apática era a secretária e já havia me advertido que o quadro de desenhistas estava completo. "Falo com ele mesmo assim, se não for hoje, volto amanhã ou depois de amanha e ainda depois, se preciso for," afirmei.  
Fui atendido primeiro pelo gerente de produção, um negro arrogante que mais tarde eu descobriria que não passava de um bosta. Ele não ligou para as imagens do meu portfólio mas se impressionou com álbum branco do Zé Gatão. Pegou o livro e pediu para eu esperar um instante e entrou numa sala. Voltou uns minutos depois e pediu para eu entrar. Me deparei com um cara de meia idade, grisalho, baixinho de olhos verdes, bem apessoado, muito eloquente e disse que nem precisava analisar minha arte, bastava ele por a vista em mim para saber que eu tinha talento e caráter (tá! pensei ironicamente). Ele estava dando início ali a uma empresa que rivalizaria com a do Maurício de Souza Produções. Ok, disse a mim mesmo, isto é muito interessante, mas e a porra do emprego?
Como se lesse minha mente ele falou que me queria no setor de quadrinhos instrucionais. Contudo, eu só começaria em abril, quando seria inaugurada a nova sede da empresa. Nós estávamos, se não me falha a memória, no fim de fevereiro.

A secretária apática me deu endereço e telefone do novo lugar e era para eu estar em abril, sem falta, lá.

Ainda tive um mês para amargar, sem eira nem beira, pelo Planalto Central.

A minha estada na casa do amigo do SENAC acabou logo, a mãe dele vinha visitá-lo e ficaria lá por longo tempo.
Saí de lá e fui incomodar meu amigo Luca e sua esposa Lurdes. Depois fiquei na casa do Ariel, um conhecido de infância, cuja mulher, que antes era toda sorrisos comigo e muito simpática quando me via, passou a me olhar como se eu fosse um cagalhão fresco caído no tapete da sua sala. Tudo aquilo foi demais para mim, engoli a seco o meu orgulho e fui ao meu irmão. Fiquei na casa dele, e foi o melhor período. Eu devia ter ficado lá desde o princípio.

Como eu comecei na Mix Comunicação é uma narrativa que ficará para uma futura postagem. Por hoje chega de reminiscências.

Só encerro dizendo que hoje, com tudo o que tem acontecido, parece que o céu ameaça desabar sobre a minha cabeça de novo. É uma sensação estranha, mas eu sei que a solução virá. Deus é Deus e Ele tem o tempo certo para tudo.

Os rabiscos de hoje, claro, são aqueles feitos para os fãs do Zé Gatão.

Até a próxima e fiquem bem.












domingo, 19 de março de 2017

MAIS UMA BELA HOMENAGEM.


Meu barco continua no meio do oceano. As velas não se agitam, não há vento que me leve a um porto seguro, a nau continua parada, balançando ao sabor das águas. Menos mal, pelo menos não há tempestades e ventos furiosos.

Esta semana tive a grata satisfação de receber a homenagem de um artista muito talentoso, o cartunista Evandro Luiz. É sempre muito bom saber que outros feras do traço admiram meu trabalho.
Ele criou esta divertida charge.


Valeu mesmo, Evandro! Fiquei feliz!

Para conhecer mais um pouco sobre ele é só acessar a página dele no Facebook:
https://www.facebook.com/Evandro-Luiz-Cartunista-318069661929570/?pnref=story

Eu continuo batalhando em cima da HQ "O Bicho Que Chegou À Feira". Mais um pouco e eu termino o capítulo quatro.
Aqui tem uma mostra de como ela está ficando.


Abraços e beijos para vocês e se tudo der certo nos falamos de novo na próxima semana.
Até lá!

domingo, 12 de março de 2017

A ESCRAVA ISAURA (CENA 5).

Fazia tempo que a gripe não me pegava. Ontem (sábado) foi um dia daqueles. Acordar muito cedo, retirar o parco dinheiro de um trabalho muito custoso, fazer compras do mês, encarar filas, calor e sol brutal. Chegando em casa suando em bicas ligo o ventilador para sentir a refrescância (isto pode ser fatal). Penso que a perpétua pressão que sofro tem baixado as minhas defesas. Falam que gripe é doença de pobre. Logo meu corpo se recupera, eu vou tentar colaborar com ele tomando bastante água e me alimentando bem (nada posso garantir quanto ao repouso, se eu paro um dia, a roda deixa de girar).

Um breve comentário aqui sobre a produção de quadrinhos (again). Eu costumo dizer que criar HQs é tarefa de um masoquista incurável. Sempre falei por mim, mas tive a certeza que acontece com todos lendo o livro "Marvel Comics - A História Secreta". É uma tarefa inglória principalmente em países onde não existe mercado, inexiste público consumidor do seu produto, não há investimento nem divulgação, tampouco editoras que se arrisquem em obras que não tenham pedigree. Porque fazer quadrinhos que quase ninguém lê, nem dá a mínima? Só pode ser por muito amor à coisa, e aí me vem uma metáfora: o cara que investe em narrativas gráficas no Brasil é como aquele sujeito que ama uma mulher que o despreza. Ela diz ao infeliz que não o ama, desfila na frente dele com outros, mas ele continua mandando flores e presentes na esperança de que um dia ela reconheça que ele é o homem de sua vida, mesmo sabendo lá no fundo que tal não acontecerá.

Reflito muito sobre isto. Porque faço o que faço a essa altura da vida? Já publiquei os álbuns que queria, mesmo que não tenham tido sucesso. Porque continuo? Para deixar algumas obras póstumas? Seria uma reposta, mas não faz sentido. A razão eu já esmiucei aqui - HQ é minha única forma que tenho de desabafar devidamente, mas só seria viável se publicada, fazer para deixar guardado é como conversar com um poste.

O que me levou a falar sobre isto mais uma vez foram duas postagens feitas por uns amigos do Facebook que vi por acaso. Na primeira, o colega perguntava: "Você compraria produtos licenciados de personagens dos quadrinhos brasileiros?" O que me chamou a atenção foram as respostas (teve muitas!). Ninguém dá a menor bola para o que é produzido aqui, as HQs tupiniquins são tratadas com desprezo e escárnio. Claro, exceções feitas sempre aos mesmos, os tais medalhões que brilham de longa data.

É chato falar, mas o principal responsável pelo insucesso das obras nacionais na minha opinião é o público que sempre se mostra viciado no que vem de fora e é preconceituoso em relação ao que se faz em sua terra. O cara não leu e não gostou. "É quadrinho feito por brasileiro? Não quero nem saber!" É lógico que tem muita porcaria sendo lançada com acabamento de luxo por editora de renome, gibis superestimados de carinhas que acham que inventaram a roda e não entendem nada de narrativa gráfica, anatomia, perspectiva e etc, mas envernizam seus projetos com a desculpa que o traço é expressionista. Mas em contrapartida temos autores e obras que são sensacionais, mas ainda permanecem como pérolas jogadas no meio do cascalho.

Na segunda postagem o feicibuquiano perguntava na seca: qual o seu desenhista brasileiro de HQs preferido? Eu já sabia o que diriam as inúmeras respostas: artista fodões que trabalham para a Marvel e DC.

É isso, pura e simples, quadrinho nacional nunca vai dar aquele passo além.

Ok, senhor Eduardo Schloesser, o senhor tá com dor de cotovelo por que seu nome nunca é citado como um dos fodas do meio, tampouco suas obras são comentadas e quando são, pelos ditos entendedores do assunto, é sempre de forma dúbia. Eu digo que não é isso. Eu tenho o meu público, que de tão pequeno, não me permite viver disso, mas que de tão especial, faz toda a diferença no meu ego.
O que eu lamento é que personagens legais como a Mirza, Velta, O Judoka, o Raio Negro, O Morto do Pântano, O Garra Cinzenta, sejam tão pouco conhecidos, e obras como Zoo, Zona Zen, O Cabeleira, FDP, Wander, Herói Por Que Sim, O Hotel do Terror, A Revolta Da Chibata, Fantasmagoriana e muitas outras, hoje ainda, sejam totalmente desconhecidas da maioria dos leitores brasileiros de gibis.

Fecho com mais uma imagem de A Escrava Isaura.


domingo, 5 de março de 2017

ZÉ GATÃO - O FOSSO.


Tudo relativo ao personagem Zé Gatão está parado, suspenso, congelado.
Um motivo para isto (o principal) é que não tenho tempo para produzir material novo, seja um conto, uma arte e muito menos uma HQ. E também, com o total descaso do público em relação ao último livro (ZÉ GATÃO - DAQUI PARA A ETERNIDADE) e o fiasco da campanha para a republicação daquele especial PADA, confesso que fiquei desmotivado. Queimar os neurônios numa nova saga cheia de ação e banhos de sangue (como pretendo que seja a próxima aventura - já tenho o roteiro completo pronto) para depois levar anos para publicar, e quando o fizer, não ver a coisa decolar, desanima um bocado.

Contraditoriamente, eu tenho muita vontade de criar novas aventuras, possuo várias ideias forçando a porta da minha cabeça querendo sair. Três histórias mais longas, pelo menos, eu vou me esforçar para colocar no papel. Para vocês terem uma ideia, existe um álbum de hqs curtas do gato - 80% delas são inéditas, as restantes já deram as caras na web - tá prontinho faz uns bons anos. Quem sabe não lançam postumamente?

Uso o personagem como forma de desabafo, como um comprimido contra a depressão ou (mais de acordo) um laxante. Com  ele e seu universo violento eu posso contar vários tipos de histórias, que vão do puro escapismo ao que costumo chamar de forma bem pretensiosa de existencialista.


A arte de hoje foi elaborada a pedido do lendário editor e amigo, Leandro Luigi Del Manto para um card game. É quase uma releitura de uma obra do mestre Caravaggio, na qual me inspirei.

Esta seria uma das aventuras escapistas que nunca foram para o papel. Neste tipo de narrativa eu imagino o felino taciturno como um herói pulp, um explorador, num estilo Doc Savage, sempre com a camisa rasgada, enfrentando mil perigos.

Tenho vários esboços para pinturas descompromissadas como esta, aos poucos vou dando vida a elas, enquanto não consigo voltar a trabalhar nos meus saudosos quadrinhos.

Fui.