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sábado, 13 de julho de 2019

GALAXY TRIO


Aqui fala um indivíduo que é um dos últimos de sua raça. Um dinossauro. Sim, uma pedra que já rolou muito - não o suficiente, pelo visto, pois criou certo limo - e sente o enfado da fase atual. Viver nunca foi fácil, ao menos nos dias passados haviam grandes expectações e mais sentimentalidades.
Eu dialogava com uma pessoa próxima e afirmava que a minha geração foi, de certa forma, bem aventurada no quesito progresso da tecnologia e conhecimento. Eu penso que os nascidos entre os anos 50 e 70 foram privilegiados. A ciência se desenvolveu aceleradamente neste período; claro, sementes foram plantadas antes, mas a ampliação da sapiência se deu neste tempo. O homem no espaço, as vacinas, o avanço da medicina, televisão e tutti quanti. Óbvio que sempre existem os efeitos colaterais, com tal soerguimento cresceu também a paranoia e com ela a violência, a quebra de certos valores e costumes deixaram os pilares da sociedade mais frágeis. Mas o meu ponto é: em termos de cultura absorvemos o que de melhor se produziu no tocante a literatura, cinema, quadrinhos e principalmente música. Antes dos anos 50 havia o jazz e o blues mas era restrito. Com Elvis e os Beatles foram plantadas novas sementes (para o bem e para o mal) e o mundo nunca mais foi o mesmo. A literatura sempre foi um ponto forte no mundo, não dá para destacar um período que tenha sido mais fecundo que outro (minha opinião) mas creio que no tempo que eu destaco ela atingiu mais as massas com a abertura promovida pelos pulps. Nas HQs as histórias de terror e mistério da EC amadureceram esta forma de arte como nunca e com o surgimento da Metal Hurland nos 70 ela definitivamente deixou de ser coisa de adolescente e adulto infantilizado.
Hoje vivemos uma era tecnológica como nunca se viu e noto como o mundo ficou pequeno e estranho. Pessoas hoje se relacionam através de uma câmera de vídeo, parece não haver mais necessidade de contato físico. Isso me soa alienígena.
Lembro da época que numa festa de aniversário, casamento ou férias, tirávamos fotos e havia uma expectativa enorme para levar ao laboratório e aguardar para ver as imagens. Algumas saíam fora de foco, tremidas ou mal enquadradas (eu tinha uma tia que sempre cortava nossas cabeças nas fotos), mas as melhores eram guardadas em pequenos álbuns e viravam relíquias. E não era barato! Hoje este sentimento, esta expectação se perdeu. Com a modernidade tiramos instantâneos da vida por um aparelho que emite uma imagem em alta definição, se gostamos, enviamos por e-mail, salvamos e esquecemos numa pasta eletrônica. Se não gostamos, deletamos.
O mesmo posso dizer da emotividade em escrever e remeter cartas. A gostosa ansiedade pela resposta, a chegada do carteiro (este por quem tenho até hoje um profundo respeito), a esperança para ler as aguardadas palavras. Me lembra aquela música da Vanusa. Todas essas impressões quase que volatizaram pois hoje enviamos mensagens subitâneas, aceleradas, pelos mesmos mini computadores que trazemos nas mãos e que não deixamos nem nas horas das refeições.
Quando me referi acima como "mundo estranho" quis dizer também que até temo em passar a mão pela cabeça de uma criança e ser chamado de pedófilo. Não há como elogiar a beleza e elegância de uma mulher sem recear a acusação de assédio.
Mas claro que reconheço os enormes benefícios do tempo presente, não fosse isso eu não poderia transmitir essas ideias para vocês através deste espaço; meu trabalho, que sempre foi meio ignorado, não teria tido alcance nenhum. Sem falar no acréscimo dos anos de vida.


O Galaxy Trio são os antigos heróis da Hanna Barbera que dividiam o espaço com o Homem Pássaro nos idos dos anos 60. Recordo que o roteirista Leonardo Santana sugeriu que eu os retratasse pela minha ótica. Este valioso amigo saiu das redes sociais e faz falta.

Boa noite a todos e fiquem com Deus! 
Obs - Mais uma vez perdoem os possíveis erros, não fiz revisão.

sábado, 6 de julho de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 14 ).


Ah, como eu queria ser rico! Queria ter bastante dinheiro! Bem, quem não queria, né? Mas eu diria que meu caso é um pouquinho diferente. Se eu tivesse uma baita grana não gastaria com Ferraris ou mansões com 20 banheiros, não ia ficar torrando com cruzeiros inúteis. Em primeiro lugar eu deixaria a família bem de vida. Um bom lugar para morar com conforto e segurança é primordial, este seria o meu presente a eles. Para mim eu compraria um espaço para transformar em estúdio. Um local para armazenar meus companheiros, os livros, e, claro, minha prancheta. Ali também poderia ter um frigobar e um confortável sofá para repousar as costas depois da labuta. Nas paredes alguns dos meus trabalhos emoldurados, tímidos, ao lado de reproduções dos grandes mestres (nunca pude fazer isto nos locais onde morei, jamais consegui enquadrá-los). Este local poderia ser alguma das sobrelojas das comerciais da Asa Norte em Brasília, aquelas que ficam de frente para as quadras. Sempre achei estes espaços agradáveis. Seria o meu recanto de trabalho e repouso.
Mas acima de tudo eu gostaria de realizar os sonhos das pessoas, ou pelo menos prover um meio delas realizá-los. Nunca me esqueço de um moço batalhador que certa vez me falou que precisava fazer um curso para melhorar seu salário na empresa onde trabalhava. Tivesse eu o recurso eu teria pago o tal curso. Ou ainda aquele que precisa de veículo - carro ou moto - para trabalhar. Pensem, eu que amo esse negócio dos quadrinhos poderia dar uma força àquele que quer publicar sua obra para ver se isto o ajuda a entrar no mercado, ou mesmo pelo prazer de ver seu projeto circulando nas mãos dos admiradores. Eu queria ter dinheiro não para comer um bife de 500 reais na Argentina, mas para coisas como as que mencionei. Nada contra os milionários que torram muito com coleção de Harley Davidson, cada um cuida de fazer o que bem entende com o que é seu de direito, mas minha praia é outra; me visto de forma decente, porém simples, jeans, camiseta, ou camisas com as mangas dobradas na altura da metade do antebraço, tênis ou botas/sapatos esportivos, trajo basicamente aquilo que vocês veem nos desenhos do Zé Gatão (sem as camisas rasgadas, é claro). Gosto de comer bem mas nada dessas coisas sofisticadinhas francesas que aparecem no Masterchef, pratos que parecem uma pintura abstrata e que sugerem fome após a degustação. Se a cama é confortável e limpa, tá valendo, os lençóis não precisam ser de linho fino ou pura seda. Passei a minha vida inteira com muito, muito pouco, as vezes quase nada. No Rio de Janeiro eu dormia em cima de um tapete de couro de boi, coberto com um lençol simples e uma almofada forrada de uma planta chamada Marcela. Fazia refeições frugais, mas mantinha um espírito positivo apesar da depressão que sempre tentou me engolir por completo. Hoje sinto meu espírito quebrado, se dobrando a cada insulto e cusparada.
A bondade está escassa, mas em meio ao mar de lama Deus mostra que há flor no meio da urtiga; um dia desses procurava um telefone publico para ligar para casa - sem sucesso - e um senhor me estendeu seu celular dizendo: ligue do meu, fique a vontade.
E tem a bondade que vem acompanhada de interesse. Esta semana eu e Vera fomos às compras e eu estava sem crédito para solicitar um Uber. Perguntei se uma das pessoas ali no estacionamento do mercado poderiam rotear sua internet para meu aparelho apenas para eu pedir um carro e todos negaram. Mas um moço acompanhado de sua namorada disse: eu peço um Uber para o senhor. E assim o fez. Agradeci. Tomamos o veículo e então percebi que o motorista era amigo do cara que solicitou. Tudo estaria bem exceto pelo preço que ele cobrou pela corrida. Ficou, é claro, mais barato que um táxi, mas muito acima do que normalmente pagamos ao pedir pelo aplicativo.
Bem, se eu olhar com os olhos humanos, só verei as atuais circunstâncias, ou seja, jamais terei dinheiro para viver meus últimos dias com mais sossego e conforto. Possivelmente, pelos motivos que citei acima eu jamais farei fortuna, as pessoas bem sucedidas neste quesito pensam muito sobre este assunto, investem na bolsa, economizam, fazem aplicações financeiras. Fica complicado agir assim os que tem "devoradores" gravitando por todos os lados.
Hoje, mais velho, tenho vergonha de pedir dinheiro emprestado a amigos. Muitas vezes leio nos olhos deles algo como: porra, velho, tu nunca sai da merda? Se possível fosse jogariam a nota numa fossa para eu pegar. Nunca me esquecerei de um editor que certa vez me detratou pelo telefone em plena hora do almoço porque eu pedi um adiantamento do valor que ele me devia, ele disse que eu era uma pessoa nociva, eu iria receber na data combinada, solicitando adiantamento e ele impossibilitado de ajudar, se sentia uma pessoa má, eu o tornava mal.
Mas sempre tem os que entendem as situações difíceis e estendem a mão e ainda dizem para eu pagar quando possível, para eu não me preocupar com prazo. Que Deus abençoe a eles e também aos que fazem de má vontade ou nem fazem, afinal, o sol nasce para todos da mesma forma, não é?


A penúltima arte deste clássico.

Por conta da correria não fiz revisão de texto. Se houver erros (dever haver) queiram perdoar.

Até a próxima postagem, se o Senhor permitir!

sábado, 29 de junho de 2019

AINDA ESTOU POR AQUI.

Depois de mais de duas semanas afastado da prancheta, dos desenhos, das redes sociais e deste blog, retorno para minhas atividades. Volto aos lápis, papeis, pinceis e tintas; retorno à HQ Siroco e por fim à minha vida depois de um tempo onde tentei me desconectar de tudo. Tentei, porém não consegui. Me abstenho de falar sobre as aflições do tempo presente, elas são as mesmas desde sempre e uma nova chance parece quimera, não obstante eu admito que olho pelos olhos da carne, para as circunstâncias, não pelos olhos da fé - a minha parece ser menor que o grão da mostarda - senão eu me inspiraria nos acontecimentos que envolveram o José no Egito. Não conhecem a história? Se tiverem uma Bíblia em casa, leiam o capítulo 37 de Gênesis até o 46, na verdade podem ler até o final de Gênesis.

Não sei se as aflições atuais são piores que as do passado, parece que sim, pois lá, no ontem, pulsava a juventude e esperança de dias com sol mais ameno, ao entrar na velhice eu esperava dias de mais sossego e reflexão, qual agricultor que labutou duro em sua vinha e depois de longa batalha, esperou para poder comer o fruto da vide com satisfação - o que não é o caso. Entretanto, ainda não é tarde demais.

Já que citei o passado, hoje, por coincidência eu relia uma HQ escrita pelo Harvey Pekar e desenhada pelo Crumb, intitulada "AMERICAN SPLENDOR ATACA A MÍDIA". Na tal história, Pekar reclama de uma chance perdida de sucesso com a fracassada tentativa de ter uma página de seu gibi publicada no independente jornal novaiorquino The Village Voice. O cara só queria uma chance de brilhar, mostrar para um público mais amplo o seu trabalho e se viu iludido e ignorado. Parecia a história da minha vida. Houve um tempo que eu corria a cata de publicidade para meus talentos como desenhista, tentava as redações de revistas, jornais, ia aos eventos de quadrinhos e tentava me enturmar. Queria poder viver da arte, ilustrando livros ou fazendo álbuns de quadrinhos. Às duras penas consegui alguma coisa, mas nunca foi suficiente. O mesmo aconteceu com o Harvey Pekar, pelo que noto, mesmo ele tendo se tornado uma celebridade graças as conturbadas participações no programa do David Letterman.
A tal HQ onde ele se queixa do Voice é de 1983, nesta época, com 21 anos, eu estava de volta a Brasília depois de correr atrás de avião no Rio de Janeiro, tentava arrumar emprego para ajudar a família. Somar esforços, vocês sabem. Era uma dureza sem fim. Meu pai, naqueles tempos, tirou uma licença prêmio e foi para São Paulo em mais umas das suas inúmeras tentativas de fazer dinheiro e ficou vários meses sem dar notícias.
Havia na comercial da SQS 202 um horti fruti de um certo japonês chamado Maeda que minha mãe conhecia que as vezes nos dava umas sobras de frutas, dessas que estão perto de vencer. Ela serviu de babá para o neto do tal japa, por uns trocados. Alugou o quarto de empregada para um rapaz da igreja mórmon, enfim, tudo pela sobrevivência. Meus irmãos todos ainda muito novos. Eu lembro que certa vez fui atrás de um anúncio, o recém inaugurado Carrefour do Park Shopping precisava de funcionários em várias áreas. Passei horas em uma fila quilométrica debaixo do sol ouvindo as conversas dos outros desesperados por emprego perto de mim, uma bela moça se queixava que o namorado, por ser negro, sofria preconceito por parte da família dela. Na minha vez de ser atendido preenchi uma ficha e fui entrevistado por uma gorda. Estou esperando ser chamado até hoje.
Minha mãe conhecia muitas pessoas em Brasília, mas ninguém que pudesse ajudar efetivamente. Um conhecido de meus pais, que mais tarde viria a ser deputado, participava de um programa de TV local, destes comuns, como "O Povo na TV", onde pessoas com as mais diversas habilitações ofereciam seus serviços a quem interessar pudessem. Eu fui anunciado como desenhista e procurava trabalho em agências de propaganda e gráficas. Mas eu, desenhista? Naquela época eu fazia meus rabiscos em folhas de xerox com canetas bic. Havia pintado murais no Rio, mas em Brasília aquilo não existia.

Malgrado toda esta dificuldade, eu sentia grande prazer em estar junto a minha mãe e irmãos. Éramos como uma corda bem entretecida. Eu me sentia satisfeito com o céu, o por do sol do planalto, o vento e toda a natureza do Criador.

Minha vida estava para dar uma guinada - não exatamente para melhor, posso adiantar - quando fiz dois concursos públicos, um para o DASP (um órgão mais tarde extinto pelo Collor) e o outro para a Polícia Militar do DF, passei nos dois e tive que fazer opção por um. Comento sobre isto posteriormente? Quem sabe? Mais que nunca a existência é uma incógnita e eu ando muito exaurido até para escrever memórias aqui.

O Harvey Pekar teve seu brilho, seu quadrinho American Splendor deu origem a um premiado filme com o ator Paul Giamatti no papel de Pekar (filme muito bom, aliás, recomendo), mas será que ele pode saborear esta tardia vitória? Ele morreu de câncer em 2010.
Eu, até onde sei, continuo respirando, mas o "momento" mesmo ainda não chegou.

O Zorro postado abaixo é minha terceira incursão no personagem. Eu toparia fazer uma graphic novel dele.


Bem, sei lá se poderei estar aqui com vocês na próxima semana, mas desejo a todos tudo de bom.


sábado, 8 de junho de 2019

A LONGA NOITE ENTRE FELINOS E CUECAS.


Charles Bukowski e Zé Gatão.

Estafa: essa palavra me define. Ando outra vez com a difícil e humilhante tarefa de pedir dinheiro emprestado a amigos e conhecidos. Crise, esta velha conhecida que de tempos em tempos vem bater na porta, entra pela janela, se acomoda, esvazia a geladeira e bagunça todo o ambiente. Nunca foi diferente. Eu queria que em minha vida os momentos de bonança, paz e alegria pesassem mais na balança que os de tensão e depressão, mas não é assim.

Me recordo daqueles tempos em São Paulo, os anos 90, tudo era cinza, frio, eu quase podia ver os espíritos dos mortos vagando naquelas noites entre os arranha-céus, principalmente na primeira metade da década.

Certa noite, um conhecido que trabalhava criando embalagens, em um escritório que ficava na Rua da Consolação, me ofereceu um trabalho que ele recusou por por falta de tempo para executar. Naqueles dias eu pegava qualquer bonde que me levasse aonde tivesse alguns trocados. Ele me apresentou a um cara de aspecto delicado, eu teria que fazer uns desenhos para um catálogo de cuecas da Hering, coisa de umas duas horas de trabalho. Topei, claro, eu não tinha nada em vista. Fechamos um preço que a mim pareceu razoável. Eram umas 19 horas e marcamos para nos encontrarmos na frente daquele prédio e dali seguiríamos até a agência onde eu faria as ilustrações.

Voltei para casa e comi alguma coisa. Se não me engano meus pais estavam fora, em viagem.
No horário marcado lá estava eu, o fulano delicado e sua barbinha chegava uns minutos depois. Era uma noite muito gelada. Tomamos um táxi até um condomínio em Pinheiros. A tal agência de publicidade pertencia a uma mulher cujo nome não é possível recordar, mas chamaremos de Dark e funcionava no seu apartamento; na verdade uma quitinete. Ela vivia só, com três gatos siameses. Devia ter uns 40 anos e nos recebeu de roupão. Ela me explicou o que desejava, fazer alguns desenhos de rapazes de cueca para o catálogo de uma famosa marca, os esboços, digamos assim, era para ela montar um "boneco" do tal catálogo e ver se empresa aprovaria. Se fosse admitido, meus desenhos seriam substituídos por fotos.
Julguei que umas duas horas de trampo seriam suficientes, o barbicha delicado me pagaria o táxi de volta para casa. Tirei meu casaco e fui para um quartinho onde havia uma mesa e alguns alistamentos onde se viam rapazes de sungas dos mais variados modelos, para eu me guiar.
Rabisquei algumas coisas e Dark gostou. Você curte desenhar histórias em quadrinhos? Perguntou. Sim, respondi. Nota-se, ela disse. Muito bom, continue assim, estamos no caminho certo, falou, se afastando. Fiz uma série de desenhos a lápis de torsos masculinos de aspecto atlético procurando valorizar as sungas. Levei a ela e foram todos assentidos. Ela recortava as figuras e posicionava os desenhos no boneco do catálogo e discutia com o barbicha qual a melhor composição. Cada vez que eu fazia uma série, tentando não repetir muito as poses, ela substituía pelas anteriores e me pedia mais. Nisso, a madrugada ia alta, três, quatro horas; os felinos, de hábitos noturnos, com sua graça e agilidade, pulando do chão para minha mesa, da mesa para os armários, um atrás do outro, numa agilidade impressionante.
Haviam desenhos de homens de cuecas mais que suficiente para encher uns cinco catálogos daqueles e pareciam nunca ser suficientes. Estamos no caminho certo, quase lá, faça mais, ela pedia.
Meus olhos doíam, as costas reclamavam e minhas mãos quase não conseguiam mais segurar o lápis. O dia amanheceu e Dark, como uma louca, se angustiava por não encontrar o tom certo do que queria. Barbicha pacientemente fumava seu cigarro e dizia que já estava bom. Ela: não, isto pode ficar melhor, e se posicionássemos assim? ou assim? e se ele fizesse esses desenhos um pouco maiores pra colocar no início de cada página?
E assim prossegui, morto de exaustão, sem comer, até quase 10 horas da manhã. Eu calculo que devia ter feito perto de uns 300 desenhos, todos a lápis, com 10 cm de altura e Dark nunca estava satisfeita.
Por fim, ela disse: ok, acho que é isso, fechamos, me faça apenas mais uns 10 numa pose assim e assim para eu ter de reserva na hora de apresentar na Hering. Eu tinha chegado ao meu limite, inventei que tinha um compromisso inadiável para dali a uma hora e precisava ir embora. Me deixe pelo menos seu telefone, ela pediu, para o caso de eu precisar substituir alguma coisa. Eu falei que não tinha telefone (e isso era verdade). Pode me pagar, por favor? instei. Certo, quanto é? Falei o valor que havia combinado com o barbicha. Nossa!!! Tudo isso?!?!? ela se espantou e volutou-se ao amigo. Você definiu isso com ele??? Sim, o valor é justo, ele ficou aqui pacientemente a noite toda e fez um ótimo trabalho, asseverou o barbicha fumando languidamente seu cigarro. Concordo, falou Dark, mas eu ando com pouco dinheiro, você não podia diminuir o valor? Eu disse que infelizmente não era possível. Ela fez ar de resignada e perguntou se eu poderia segurar o cheque por uma semana. Concordei. Só queria ir embora dali. Como só tinha aquele cheque no bolso tive que pedir o dinheiro da passagem de ônibus ao barbicha para poder voltar para casa. Me despedi dos dois e ganhei as ruas movimentadas. Peguei um coletivo lotado para a Praça da República. No trajeto eu quase caí sentado de tanto sono umas duas vezes.
Finalmente cheguei em casa. Tomei um banho, comi alguma coisa e fui me deitar. Curiosamente não consegui dormir. Mas em uma semana eu teria dinheiro por algum tempo. 
 

sábado, 1 de junho de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 13 ).


Ei, estamos chegando quase ao final das ilustrações para os contos do Artur Azevedo! Agora eu já nem lembro direito quais foram os livros que ilustrei e postei os desenhos aqui, terei que fazer uma avaliação para exibir os inéditos. Lembrando que ainda faltam ser publicados metade dos livros que produzi para a Editora Construir, não falei mais com eles para saber, na última vez, disseram que entrariam em contato e até agora nada. Resta esperar.

Enquanto não dou continuidade aos relatos que comecei, vamos falar um pouco sobre o que anda me fazendo companhia.

QUADRINHOS:
Li Batman e Filho do Grant Morrison com arte do Adam Kubert. Trata da chegada do Damian Wayne na vida do morcegão, filho que ele teve com Talia, a filha do vilão Ra´s Al Ghul. Sinceramente eu esperava mais de um roteirista do calibre do Morrison. Um acontecimento desta natureza, um novo Robin que vai rivalizar com o atual, Tim Drake, merecia algo mais consistente, mais maduro, mais sombrio. A narrativa é falha e parece que o cara escreveu para cumprir uma agenda. O desenho é bem funcional mas peca em muitos pontos. Serve como entretenimento? Sim, mas como eu disse: é Grant Morrison, o cara que compõe uma trinca ao lado de Neil Gaiman e Alan Moore.

Partindo para a concorrente (Marvel), ainda estou lendo Homem-Aranha Percepções. Só não acabei ainda porque a leitura tem me dado sono. Peguei emprestado porque este volume é da fase do Todd MacFarlene, criador do Spawn, é bem famosa, vendeu milhares de cópias no EUA nos anos 90 e eu nada conhecia dela. Eu já sabia que o Todd desenhava mal, sua anatomia, mais falha impossível, mas é lá meio caricato e ele tem bom design de página, agora, é péssimo escritor. PÉSSIMO!!!! Pelo menos nesta primeira aventura onde o Aracnídeo se une ao Motoqueiro Fantasma para lutar contra o Duende Macabro. Espero que o próxima história ao lado do Wolverine seja melhor (trata-se de um álbum em capa dura).

Isto mostra que talvez eu esteja ficando velho para as HQs de heróis.

Remexendo em uma caixa antiga me deparei com um velho Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo, edição da Record intitulado Incubus. Reli. Tinha me esquecido o quanto este material é excelente, o que prova que as HQs europeias ainda dão um banho de qualidade e criatividade no comic americano.

LIVROS:
Acabei O Morro Dos Ventos Uivantes - que gostei muito - e parti para reler Hollywood do Bukowski - que nunca tem como dar errado - acabei e agora leio o tomo dois de As Mil e Uma Noites, curti demais o primeiro e o segundo continua no mesmo pique.

MÚSICA:
Tenho insistido nas velharias, nas coisas que produziram nos anos 50 (principalmente) e 60.

Filmes:
Capitã Marvel - diverte, achei bem feitinho, mas é com certeza o filme mais fraco da Marvel.
Aquaman - Me surpreendeu positivamente. Um personagem que nunca me chamou a atenção e era zoado por todos por falar com latas de sardinha nas animações e conseguiram fazer um filme decente, bem produzido. Ponto pra DC!

Tô ligado que o cinema não é só filme de herói e deve ter coisa bacana rolando por aí, mas tenho preferenciado apenas coisas que me relaxem.

SÉRIES: The Walking Dead - só tenho visto pra não morrer na praia. A nona temporada mostra que passou da hora de acabar.

Hells on Wheels - faroeste que trata da construção das ferrovias que ligarão o leste e o oeste americano. Sensacional as cinco temporadas! O final, os últimos 10, 15 minutos quase botam tudo a perder.

Guerra dos Tronos - O que dizer? Uma das melhores séries de todos os tempos! Até a sexta temporada, é claro. Na sétima, onde não era mais lastreada pelos livros, os roteiristas começaram a cagar tudo. A oitava eles cagam tudo, sentam em cima e limpam o cu com a bosta. Nem vou falar mais nada. Lamentável!

E é isso.

Será que nos vemos na próxima semana? Espero que sim.

domingo, 26 de maio de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 12 )


Depender das máquinas para atividades profissionais tornou-se um grande problema. Lembro-me de um amigo que eu tive bem no comecinho dos anos 90 onde a informática ainda dava seus primeiros passos na vida cotidiana das pessoas. Publicitário, trabalhava em casa e usava o computador para tudo, fazer suas artes, logos e jingles. Muito requisitado por sua competência, teria ganho muito dinheiro se soubesse cobrar bem pelos seus serviços, este é meu problema também, com a diferença de que ele era funcionário público de um ministério em Brasília e usava seus dons apenas por paixão e para complementar sua renda, eu, além de não ser tão disputado como ele, não sei fazer mais porra nenhuma na vida a não ser desenhar.
Bem, o caso é que certo dia o PC dele começou a travar e por fim brecou de vez. Poucas vezes o vi tão raivoso e depois depauperado mentalmente. Levou o aparelho para consertar e eu o acompanhei nessa via crúcis. Não haviam tantos profissionais em computadores neste período, teve que trocar placa e sei lá mais o quê, levou mais de uma semana para pegá-lo de volta.
Esta introdução foi para comentar que eu também ando tendo dor de cabeça com os eletrônicos que hoje já fazem parte total de nossas vidas. No meu caso, vivo bem sem redes sociais, embora elas desempenhem um papel fundamental para eu ganhar dinheiro, mas não é só isso, tenho que escanear imagens, fazer pesquisas, enviar e responder e-mails e etc e o funcionamento limitado dos aparelhos me impedem inclusive de fazer uma postagem mais bacana aqui.
E já que mencionei este blog, vocês sabem que comentei várias vezes minha intenção de finalizá-lo. Tenho pensado insistentemente nisto por vários motivos: o primeiro deles são as baixas visualizações, tem a minha falta de motivação, noto que estou soando repetitivo a bastante tempo, motivo pelo qual muitos talvez tenham debandado. Acho que minhas palavras soam cada dia mais insossas, sem a alma de outrora. Pode ser minha fadiga mental, o tempo sempre muito curto ou eu não tenha mais o pique, vai saber.
Entretanto, algumas pessoas curtem minhas linhas, pedem para eu continuar e muitas até já pediram para publicar minhas crônicas, memórias e contos em papel. É muito lisonjeiro mas vocês sabem, não sou escritor, me sinto um analfabeto funcional, não escrevo direito, não sei bem o uso de vírgulas e todas essas coisas da língua portuguesa, o que faço aqui é usar essa ferramenta do Google como um diário, um veículo além de minhas artes e HQs para me comunicar com um público. E duvido muito que algum editor vá se arriscar numa furada dessas. Só se eu fosse o Eisner ou o Kirby.
Eu não tenho mais visitado os blogs que curtia, muitos de artistas dos quais sou fã, e boa parte deles também abandonaram seus espaços para se concentrar em páginas no Facebook, Instagram, Twitter e o que mais tiver a disposição.

Bem, já falei o que tinha pra falar hoje. Agora é arrumar tempo para a segunda parte da saga do Ed Palumbo e as memórias com Alvarado em meio as artes que tenho que entregar e os percalços com computadores lentos.

Mais uma arte para o conto do Artur Azevedo.





















sábado, 18 de maio de 2019

MINHAS BOAS LEMBRANÇAS DE ALVARADO E MEMORIAS AMARGAS DO DEPUTADO ( Parte 1 de 2 ).


Essas recordações me alcançaram e me abraçaram esses dias sei lá porque. Foi logo nos primeiros anos de nosso retorno a São Paulo. 92? Por aí. Comumente faço nesses relatos eu altero nomes para evitar possíveis dissabores.

Uma noite qualquer daqueles dias frios, o Dr. Rui (esse nome é real e ele nunca foi doutor, só era conhecido assim) convidou-nos, meu pai e eu para uma palestra a ser realizada em um lugar - que agora não lembro onde - sobre o Amazonas. Seria naquela noite mesmo. Estou em dúvida aqui se o Rodrigo (meu irmão caçula) e minha filha também foram, creio que sim, mas isto não é relevante. A tal palestra foi de uma chatice de dar dó e eu, como sempre, não sabia o que fazia ali, imperava em mim desde sempre aquele desejo de estar só comigo mesmo, lendo ou ouvindo música, com sorte, desenhando; a arte em mim só era prazer quando ela vinha exigindo ganhar vida.
Muito se falou naquela noite sobre os perigos que a Amazônia sofria nas mãos dos gringos que vinham explorá-la e toda a discussão que segue até hoje. Eu, depois de um tempo, em situações assim, me desligo, olho e ouço as pessoas, entendo o que elas falam mas meu espírito começa a viajar para outros lugares buscando oxigênio. Discorreu muito, um cara que se dizia político combatente contra o regime militar, deputado por um partido que não lembro mais qual era, um tipo forte, cabeça branca, eloquente e natural do norte, claro, que alcunharemos de Osmário. Ele era sempre acompanhado de uma moça loira muito bonita que dizia que era filha dele. Terminado sua preleção, tomou a palavra um indivíduo alto, magro, de óculos de grau forte com cabelos pintados de preto e penteados de lado com gel, a quem chamaremos de Alvarado. Usava sempre uma luva na mão esquerda (penso que era a esquerda, mas podia ser a direita, me perdoem). Acho que outros também tomaram a palavra. O que lembro é que meu pai pagou um mico dos grandes naquela noite, ele ficou em pé no meio da plateia presente e propôs que os poucos presentes se apresentassem, dissessem seus nomes, onde moravam e o que faziam, isto, claro, para tornar aquela reunião menos formal. Começou por ele e após a sua apresentação ficaram todos em silêncio olhando-o, sem dizer palavra, então ele se sentou todo sem graça.
Ao final, fomos apresentados ao Osmário e sua filha que conheceremos por Taty. Todos estavam entusiasmados, meu pai, inclusive, por ser natural do Pará, para salvar a Amazônia. O papo pós-palestra era sobre isto. Eu fui introduzido a eles como um artista dos grandes - o exagero de sempre - ao que Osmário replicou que minha arte seria muito bem vinda no projeto de conscientização da proteção do Estado do Amazonas. Só eu não estava convencido disso. Em tempos anteriores eu já havia conversado com pessoas da Funai em Brasília sobre as dificuldades junto às entidades de fazer qualquer coisa em prol disso tudo; eu já me via trabalhando de graça por algo que daria em nada. Mas contrariar meu pai era o mesmo que pedir para o sol não nascer. Por insistência dele, Osmário e Taty vieram parar em nosso pequeno apartamento, na "boca do lixo", naquela mesma noite, para avaliar meu portfólio. Meu pai sempre farejou grana onde não havia nenhuma, mas repito, não era possível dizer isso a ele.
O tal deputado falava sem parar, sempre se justificando, sempre culpando o passado pelo presente ser uma bosta. Argumentava como se discursasse num palanque, sempre com ar muito sério. E a moça bonita do lado dele, empertigada, ouvindo com respeitosa submissão. O cara olhou meus desenhos que naquela época ficavam numa bela pasta para guardar ilustrações em tamanho A4, ou seja, as dimensões de uma folha de xerox, eram artes que eu fazia para estudar, até aquele período eu havia publicado pouquíssima coisa. Olhou, fez elogios mas confessou não ter competência para dizer se meus dons tinham qualidades para figurar no tal projeto, eu seria avaliado pelo Alvarado, que também era artista e este sim, dos bons, segundo ele.
Alvarado veio uns dias depois, não lembro se só ou acompanhado do tal político, ele era bem mais simpático, se dizia pintor primitivista, criador de muitos logotipos de sucesso, inclusive do bombom Sonho de Valsa, fizera no passado capas para as revistas de maior circulação no país, a Veja era uma delas. Mas ele se gabava mesmo era de ter feito uma animação sobre a Amazônia, na verdade a primeira animação sobre o assunto e executara sozinho, levara seis anos na empreitada. Hoje, pesquisando na internet, nada vejo sobre ele e seu trabalho, apenas a informação de que o longa sobre a Amazônia chamado "Sinfonia Amazônica" é da autoria de Anélio Latino Filho. Mas o fato é que eu vi a tal animação certa noite na casa do Alvarado, um filme antigo, preto e branco, celuloide sofrido que emperrava na projetora a todo instante, era amador toda a vida, mas feito com garra, dava pra notar. Mas estou saltando a frente no tempo. Alvarado se impressionou com meus trabalhos e disse que eu era muito bom. 
Osmário estava sempre em casa por aqueles dias, numa dessas ele trouxe um calhamaço escrito a mão, poesias sobre a cidade de Brasília e me pediu para ilustrar. Um grande problema aí: não falou em dinheiro, e esta é a palavra chave que move o artista a dar corpo às ideias de outrem, não a fama, não o prestígio, não a parceria com quem quer que seja, mas o dim dim!
Ele tinha um projeto de se lançar em uma navegação pelo rio Amazonas dentro de uma caravela, se me lembro bem havia algum patrocínio para isto. O objetivo, creio, seria chamar a atenção para as belezas da Amazônia e alertar para os perigos que a floresta sofria nas mãos de exploradores gringos. Queriam me levar neste "passeio" de todas as formas e embora eu ficasse tentado pela aventura, havia muito em jogo, uma filha sempre precisando de dinheiro, no Rio de Janeiro, por exemplo, então declinei. Mas ele deixou seus manuscritos comigo para que eu ilustrasse. Eu juro, não tive interesse na coisa. Não funciona assim comigo, ou me pagam bem (pelo menos 50% adiantado) ou a obra tem que "mexer" comigo para criar de graça e embora eu tenha paixão por Brasília, não nutri simpatia pelo escritor daqueles versos. No entanto, dei uma lida naquelas poesias, não me recordo se eram boas, minha mente tentou esboçar algo para dar um visual àquilo mas meu poço estava seco. Deixei para depois.
A tal viagem pelo grande rio, segundo os planos deles, deveria levar seis uns meses. Saíram de nossas vidas por esse tempo.
Mas o nosso contato com Alvarado se aprofundou. Fomos até a casa dele que ficava (se não estou estupidamente enganado) na Alameda Dino Bueno. Era uma casa de dois andares. Tudo ali cheirava a decadência, a tempos antigos mofados e embrutecidos. Uma bagunça generalizada; o que mais se via eram revistas e jornais velhos empilhados por todos os lados. Para sentar no sofá, cujas molas tentava escapar, tinha que empurrar um monte de revistas Manchete, Cruzeiro e Realidade para o lado. Evidente que faltava a mão de uma mulher ali. Alvarado tinha vários filhos, uns seis, creio, um com cada mulher que passou por sua vida. Naquela casa eu conheci uns quatro, dois homens e duas mulheres, todos adolescentes. O cara tinha sérios problemas de saúde, sendo o mais grave, um diabetes muito alto. A luva que ele usava mesmo no calor era para esconder um dedo amputado por uma trombose.
Seus quadros a óleo estavam pendurados pelas paredes, todos com motivos da Amazônia, por quem Alvarado, nativo de lá, era totalmente apaixonado. Paisagens, lendas e etc. Não fiquei impressionado, como eu disse, respeito a pintura primitivista, mas não é a minha praia, Volpi, pode ser cool para muitos, não para mim. 

Cheguei a fazer duas viagens de carro com ele e alguns de seus filhos, uma para o Rio de Janeiro e outra para Brasília. Mas é tema para a segunda parte desta postagem. Até lá!

domingo, 12 de maio de 2019

DEFUNTOS

Hoje é dia das mães e eu não queria ser mórbido - falo por causa do título - mais apropriado seria um texto leve, otimista e bem humorado. Na verdade não me ligo muito em datas, mas claro, respeito o Natal, a Páscoa e o Dia das Mães. Alguém dirá que são datas para alavancar as vendas do comércio. Claro! Mas o que seria de nós se não fosse o capitalismo, não é mesmo? O legal é que nessas datas refletimos um pouco e especificamente esta, aquele filho ou filha que não dá um alô para a mamãe já há algum tempo, vem e almoça com a família, trás um presente ou dá uma ligadinha. É válido também por este motivo.
Liguei para minha mãe logo cedo, estamos muitos quilômetros distantes. Ela está avançada em idade, enxergando cada dia menos e é o melhor exemplo de sobrevivente que eu conheço. Um post sobre ela qualquer dia antes de eu encerrar este blog de vez? Taí uma ideia. Só não fiz ainda porque ela não gosta de falar sobre seu passado, muitas desditas na vida são como cicatrizes que ela quer esconder...bem, mudemos de assunto. Nem era pra falar sobre feriados ou minha mãe, eu planejava comentar mais uma vez do porque uma pessoa se torna desenhista, ou pintor, ou ilustrador, ou quadrinista ou o que mais o ato de dar formas num pedaço de papel - ou tela - possa envolver, mas seria texto longo, então vou adiar. Pensei também em falar sobre um conhecido que partiu para sempre lá no começo dos anos 90, mas também deixa quieto, fica pra uma próxima.
O segundo ato do conto com Ed Palumbo também vai sendo adiado. Assim como muitas coisas que queria retomar, a série Famous Monster é um exemplo. Bem, não sou mais o mesmo e isto está claro. Vamos ver o que dita o tempo, eu cansei de amargurar com coisas que não posso controlar. Vou vivendo um dia de cada vez.

Como não sabia o que postar no dia de hoje, me veio a ideia de rememorar cenas de velórios e mortos que ilustrei para os livros clássicos (apenas as que acho mais interessantes, ok?). Todos já deram as caras no blog, mas repostar é sempre bom, acho que muitos dos que aqui vêm, não pesquisam posts antigos. Me perdoem mas não lembro o nome de uma das imagens para dizer de que livro faz parte e eu estou sem tempo de pesquisar.

Até breve, se DEUS quiser, folks!

Helena

Noites na Taverna

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Conto de Artur Azevedo, mas não lembro o nome.

Dona Eulália 

Este não lembro, mas acho que também é um conto do Artur Azevedo.


domingo, 5 de maio de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 11 )


A vida é uma luta. Onde está a novidade nisso? Mas existem pessoas que não pensam desta forma. Conheço alguns que olham o lado bom de tudo (que Deus os abençoe! Precisamos de gente assim, que diga: tudo está bem, tudo vai ficar bem, senão seria o negrume total). Certamente esses não são os poetas, nem os músicos, nem os desenhistas, eu acho. O poeta precisa da dor como matéria prima para seus versos, e as canções mais tocantes são aquelas geradas por saudade ou coração partido. A literatura se alimenta do sofrimento para ter alma e corpo. Dom Quixote não me deixa mentir, as notas de Chopin não me deixam mentir, Florbela Espanca não me deixa mentir, nem os quadros mais intimistas de Rembrandt me deixam mentir. É a dor transformada em arte para que outros encontrem nelas um alívio para suas existências atormentadas. A Bíblia assevera em Eclesiastes capítulo 7 versículos 2 e 3: "Melhor é estar na casa do luto que na casa onde há banquete, porque ali se vê o fim de todos os homens; e os vivos aplicam ao seu coração. Melhor é a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração."
Certamente sem o sofrimento não teríamos os belos versos de Carinhoso, de Pixinguinha; nem a força da escrita de Guimarães Rosa para a narrativa "A Hora e a Vez de Augusto Matraga. O cinema? Ah, sabemos que o cinema sempre se apropriou das outras artes para se sustentar, quando raramente trás algo de si mesmo no que diz respeito aos sentidos do ser humano - a tal percepção sensorial - não raro, são obras enfadonhas.

Mas porque digo isso? Não sei. Hoje a Vera perguntou, vai escrever sobre o quê? Eu respondi que não tinha nada planejado, que ao me sentar diante do notebook eu veria. Assim me veio a lembrança de um episódio que presenciei ontem a tarde (sábado) na lotérica para pagar uma conta; quando deu 16 horas a porta de ferro abaixou anunciando que o  expediente havia encerrado. Num dado momento uma idosa, incapaz de se abaixar muito, obrigou uma das atendentes a levantar mais um pouco a grade para ela sair e nesse momento, muito espertamente, umas quatro pessoas aproveitaram para entrar. Mas detalhe, foram rápidas e furtivas e mesmo assim não escaparam aos olhos das funcionárias que advertiram: "vocês que entraram agora, não serão atendidos, o último da fila é aquele rapaz de camisa vermelha." Os 'espertos' fingiram que não era com eles, ficaram na fila mesmo assim, entre eles uma senhora de uns 60 anos.
Paguei a minha conta e enquanto conferia os valores e o documento vi o rapaz de camisa vermelha ser atendido e em seguida as moças dos caixas encerraram os serviços para revolta dos que chegaram uns minutos depois do horário de fechar. Seguiu-se ruidosa discussão. Principalmente por parte da senhora que usava sua idade como argumento e era rebatida pelas funcionárias que diziam não ganhar hora extra, horário é horário. Abaixei-me, passei pela porta de ferro e sai para o calor da tarde sem saber como terminaria o imbróglio.

Voltei para casa pensando no assunto, situações difíceis. Entendo as moças dos caixas e também já me vi na situação de chegar no banco para pagar uma conta no dia do vencimento e ficar de fora por um mísero minuto.
Um conhecido meu, boa praça, está usando uma sonda na uretra, algo que causa grande desconforto, por causa de cálculos nos rins, uma pedra obstruiu o canal urinário. Passei por algo semelhante e posso afiançar que faz sofrer.
O que fazer para ajudar? Nada! Palavras tem pouca força nessas horas. Eu oro no silêncio do meu estúdio esperando que o Senhor responda.
Nos últimos meses, ando mais sorumbático que nunca, trabalhos escassos, contas que podem atrasar.....e os velhos prazeres nas pequenas coisas parece que vão diminuindo a cada dia. Sinto falta da família. Alguns amigos (artistas e editores) da área dos quadrinhos sumiram, não respondem às minhas mensagens. Também eles estão ficando velhos e tem seus problemas.
Talvez por isto eu tenha iniciado este post de maneira um tanto amarga.

ZÉ GATÃO - SIROCO segue vagarosamente sendo trabalhado tendo a atmosfera desses ventos estranhos. Não há um roteiro formal, há uma linha narrativa mental que tenho e por ela vou me norteando, não faço tumbnails para me direcionar, mas faço vários esboços para as as cenas de ação e sangue e quase nunca fico satisfeito - o que atrasa bastante o material - e assim vou desenhando e colocando os diálogos. Os cenários são mínimos e saibam que não é preguiça, é uma espécie de homenagem a Krazy Kat com aqueles panoramas quase oníricos de planícies. Intento o máximo de organicidade a este projeto. Quero que ele saia sem que eu tenha que raciocinar demais, sem o planejamento costumeiro, sem a preocupação de agradar ou não. Ela está sendo gerada como um espirro, onde você não sabe quando vai sair, mas quando sai não há como evitar. Mas os que são fãs, não se preocupem, não é como a Garagem Hermética do Moebius, Siroco tem começo, meio e fim, é linear, só não tenho certeza se é bem contado. Isso veremos no final. E falando em final, nem sei como será publicado. Mas vou deixar para pensar depois. Uma coisa de cada vez.

Mais uma arte para o clássico de Artur Azevedo. Sabem, tenho saudades dos tempos que ilustrava esses livros.



Será que tudo vai melhorar? Esperemos em Deus que sim.

Abraços a todos!




segunda-feira, 29 de abril de 2019

O GUERREIRO DA ESTRADA.


Sobre o que falar? Minhas postagens aqui geralmente são feitas aos domingos, mas só pude me dedicar ao blog hoje. Ultimamente as coisas mais prosaicas não tem sido fáceis de realizar. Sei que falta administração de tempo da minha parte mas não é só isso, careço de uns momentos de silêncio e solidão, aquele breve instante de paz de espírito que nunca mais tive. Artistas nunca se aposentam, eu penso, mas homens de guerra também não. Guerra não é só aquela situação de pegar em armas e digladiar com o inimigo, existem fatores na vida contra as quais guerreamos, lutamos uma batalha invisível contra o mundo espiritual da maldade mesmo que não nos demos conta disso. Então, eu que sou chamado de artista e a vida toda tive que me bater contra os muros, não me iludo que as coisas irão serenar agora que vou ficando velho. Os fatos comprovam: a saúde capenga, o prédio onde moro, que sempre teve seus problemas, agora chegou num ponto em que dá dor de cabeça quase diária - detalhe, não tenho condições de mudar agora - os trabalhos cessaram de vez, o dinheiro sumiu, olhem, é melhor eu parar de enumerar....não quero reclamar a postagem inteira.
Então, sobre o que falar? Guerra dos Tronos? Melhor esperar terminar a última temporada. Vingadores Ultimato? Não vi ainda e talvez não vá tão cedo (sem grana), tenho evitado os comentários na internet, hoje todos adoram entregar os enredos dos filmes. Falamos sobre o tempo? Nah, todos sabem que aqui é um calor que incomoda até o próprio sol.
Como não sei sobre o que escrever, melhor eu encerrar por aqui.


O desenho de hoje foi um desses momentos nostalgia que as vezes me acomete, quando tenho esses flashes de inspiração eu executo no menor tempo possível, se passar de 20 minutos ou meia hora e capricho demais, a coisa começa a perder a graça pois fica parecendo que quero agradar mais ao público que a mim mesmo e para estes rabiscos não é a minha intenção.

Beijos a todos e hasta la vista!

domingo, 21 de abril de 2019

DANTE E VIRGÍLIO.


Os livros e gibis sempre foram meus grandes companheiros. Ao entrar neste pequeno quarto onde trabalho sinto-me saudado por eles e de certa forma, confortado. Eles me levaram a outros mundos, muitas ideias, me afastaram de algumas realidades amargas, me permitiram fugir para outros universos concedendo lenitivos mais poderosos que o dos filmes  e até, arrisco dizer, das músicas. Neste estúdio eles estão às minhas costas, ao meu lado direito e esquerdo, muitos deles empilhados em caixas, pois nunca consegui comprar mais estantes para colocá-los, acomodá-los como merecem. Muitos book arts que adquiri a custa de sacrifício hoje são itens raros só encontrados ao olho da cara no e-bay e olha que talvez, nem lá. Sempre fico pensando que quando eu não existir mais neste mundo o que será deles. Queria que meus sobrinhos herdassem este patrimônio, mas terão eles interesse? Aglutinariam em seus armários? Todo este tesouro em papel cabe em um programa de computador portátil, quem, na real, liga? Pensar nisto é perda de tempo, o que tiver de ser, será.

Curiosamente alguns livros que muito me marcaram na infância e adolescência eu não possuo, como "Olhai os Lírios do Campo" do Érico Veríssimo (foi-me recomendado pelo meu brother Luca), "Doidinho", de José Lins do Rego e "Meu Pé de Laranja Lima" de José Mauro de Vasconcelos (um romance que me verteu muitas lágrimas, até mesmo na vida adulta onde o reli algumas vezes. Sempre me recusei a ver as adaptações para a TV). São histórias que tenho na memória e até hoje trazem um aroma de saudade.

Um dos poucos orgulhos que me dou ao luxo de ter na vida foi ter ilustrado 45 livros clássicos brasileiros. Pena que a metade deles ainda não foi impressa pela editora. Dramático, como costumo ser, fica até parecendo que eles estão esperando eu morrer para publicá-los. Nada, devem ter seus problemas de dinheiro, como todo mundo. Ou não estão nem aí, visto que o foco deles não é este. Pelo menos foi o que me disseram quando liguei dia desses. Indaguei se eles tinham planos para o Monteiro Lobato, afinal, este ano as obras do criador do Sítio do Pica Pau Amarelo entram em domínio público e me falaram que não vão fazer nada a respeito, o carro chefe da editora são os didáticos. C´est la vie.


Esta semana a figura austera de Dante Alighieri me veio à mente assim do nada. Rapidamente peguei no lápis e esbocei este desenho antes que a inspiração desvanecesse. Foi um exercício rápido, de uns 20 ou 30 minutos (não conto o tempo, mas atualmente, com minha mente febricitada, se demoro demais, o rabisco começa a perder a força).
Lembro quando li a "Divina Comédia", eu devia ter uns 17 anos, morava no Rio de Janeiro e fiquei encantado com as imagens do Doré, eram poderosas demais - até hoje me assombram - naquele período as gravuras eclipsaram o texto do poeta italiano. Mas eu gostei da escrita, muitos não conseguiam compreender a profundidade da poesia e abandonaram a leitura logo nos primeiros cantos. Preciso reler agora que fiquei mais velho; se bem que eu pouco evoluí mentalmente de lá pra cá, minha alma ainda é a de um adolescente sonhador. Eu comecei a ler Edgar Allan Poe aos 16 e os sentimentos que ele me desperta ainda são os mesmos da juventude.

Beijos a todos e, quem sabe, até a próxima semana. Putz! Tenho que escrever o segundo ato das desventuras do meu alter ego, Ed Palumbo, não tenho encontrado tempo nem motivação, entretanto vou fazer um esforço, devo isto a mim mesmo.

domingo, 14 de abril de 2019

SEM TÍTULO APROPRIADO.




Alexandre Ostan

Domingo de sol, calor, mas dentro de casa o clima está agradável, as fortes chuvas de sexta-feira ajudaram a combater um pouco a quentura, pelo menos dentro de nossas paredes.

Tinha em mente um outro tipo de texto para hoje, mas infelizmente sou obrigado a abortar meus pensamentos e desabafos, certas situações sufocam minha inspiração para a arte e escrita. Fica para um outro dia quando eu estiver mais animado.

Ontem teve a Feira Asgardiana, foi muito bom rever alguns amigos de profissão, os incansáveis batalhadores pelos quadrinhos de Pernambuco. Que Deus os abençoe e os mantenham sempre famintos, pois eu já me sinto sem gás. Foi tudo ok, o que atrapalhou é que agora instalaram umas caixas de som executando trilhas sonoras de filmes de heróis (com destaque para o Batman, que comemora 80 anos) num volume que impediu as conversas com os colegas sem ter que gritar.
Teve palestras sobre o Morcegão e o papel das mulheres nos quadrinhos.
Eu só tinha quatro exemplares de A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE para divulgar e vender. Voltei com a mochila vazia, felizmente. Só tirei duas fotos com uns conhecidos, mas ainda não me enviaram. Fico devendo.

Fabio Hasmann

Não tenho criado artes pessoais, a minha fonte esta seca por esses tempos, mas espero que ela volte a jorrar. Deixo algumas imagens de três artistas que leram a obra e aprovaram.

Até nosso próximo encontro, se Deus quiser.

Flavio Calazans

domingo, 7 de abril de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 10 )

Ontem, o sábado trouxe um sol esplendoroso, assim como hoje, mas não tem sido dias bons. Boxeadores velhos ou músicos esquecidos se apresentam em clubes de Las Vegas para continuar vivendo. Me sinto assim. Sigo a existência como se uma mosca me azucrinasse a todo instante.
Se eu não dependesse apenas da arte para pagar as contas seria hora boa para uma aposentadoria. Falo isso sem tristezas e mágoas. Todo mundo tem que saber a hora de parar, mas eu ainda não tenho outra via de acesso, então tenho que enfrentar os dragões com uma espada partida.

Meu desabafo hoje é curto.

Outra imagem deste clássico escrito por Artur Azevedo.


Fiquem todos bem.

domingo, 31 de março de 2019

ETRIGAN VERSUS HELLBOY



Está chegando mais um filme do Hellboy e pelos trailers já deu para notar que terá muita comédia. Eu gosto dos filmes anteriores com o Ron Perlman e sob a batuta do Guilhermo Del Toro, mas na real ele não foi assim tão fiel ao personagem dos quadrinhos, pelo menos não na personalidade do vermelhão. E tenho visto em bancas um ressurgimento de uma das criações do Jack "King" Kirby, Etrigan, o demônio que fala tudo rimando. Fiz uns esboços destes personagens demônios se confrontando. Quem venceria? No Facebook as apostas são para o HB, talvez por ele ser mais famoso. Eu não curti muito esses desenhos, mas fica aqui o registro.

Eu fico me perguntando se alguém consegue mesmo viver de arte pura e simples. Não digo só no Brasil, mas no mundo, na vida. Talvez na publicidade, nos games, designers de cinema e tv, bem, esses devem mesmo ganhar uma bela soma e ter uma vida legal. Mas será que isto os realiza interiormente? Nas HQs, eu sei que é pouca gente que consegue mesmo aliar aquilo que chamamos de passar sua alma através de seus traços e personagens para o público e ganhar dinheiro com isto. Na verdade, mesmo eles licenciam suas criações para outros meios (filmes, desenhos animados, jogos, bonecos, capas de caderno e etc). No Brasil os exemplos mais conhecidos são o Maurício de Souza e Ziraldo. Tivemos também os cartunistas que explodiram na revista Circo mas este é um outro caso.

Eu, pela muita misericórdia de Deus, consigo pagar minhas contas executando minha arte. Pago o aluguel, faço a feira mensal, água, luz e internet (e não raro, minha família me ajuda). Mas nunca consigo programar um passeio ou comprar um tênis novo. Eu deveria (E SOU!) grato pelo que tenho, mas a fadiga mental e física se faz notar mais do que nunca. Não sinto mais prazer em rabiscar meus desenhos malucos em meus sketchbooks, nem pintar uma arte do Zé Gatão apenas para satisfação pessoal. O que faço ainda é pela urgência em continuar sobrevivendo. Talvez isto seja só um reflexo dos momentos difíceis que tenho vivido, pode ser.

Não sei se tivemos sempre muitos e muitos desenhistas e eles estavam escondidos e agora as redes sociais tiraram o véu, sei lá, o caso é as vezes eu vejo no Facebook anúncios de escritores solicitando portfólio de desenhistas para ilustrar seus escritos e surgem dezenas e dezenas de artistas. Todos querendo uma chance, todos precisando de trabalho. Não falo de concorrência, sempre há espaço para todos, mas é um meio bastante difícil de trilhar e eu me sinto triste por eles. Triste por meu amigo da Suíça, um dos maiores pintores que tive o prazer de conhecer pessoalmente, falando em aposentadoria. Tantos e tantos anos na Europa produzindo arte e HQs de altíssimo nível e nunca conseguiu efetivamente viver de arte sendo ainda desconhecido do grande público.

Nunca me esqueço das palavras de um colecionador de quadrinhos, um cara muito inteligente, uma espécie de doutor no que se refere ao quadrinho nacional e também esteve a frente do prêmio Ângelo Agostini: "Gostei do seu álbum Zé Gatão, tio (ele me chamava assim, mesmo sendo mais velho que eu), mas esse negócio de ter prefácio do Arthur Garcia no livro, isso é coisa para quem tem nome, é famoso, você não é e nunca será, você sempre será um NADA!!!!"  Eu não respondi mas lutei muito para desmentir a ele e aos caras do Artcomix. Depois de tantos anos, eu noto que eles tinham razão. Sempre bati com a cara no muro chamado INCOMPREENSÃO.
Estou velho demais para me entristecer com este pensamento, aceito o que é. Meu irmão médico disse sabiamente certa vez que perdoar não é esquecer, mas lembrar sem mágoas. E eu não nem tenho o que perdoar àquelas pessoas. O que passou, passou. Mas eu confesso que queria ter vencido na vida. Só para poder envelhecer sem tantos percalços.

Mas ok, continuamos na batalha.

Ainda não consegui tempo para continuar a saga do Ed Palumbo. Nem sei se vale a pena, o último conto não rendeu quase nenhum comentário, salvo do Luca, que é suspeito.

Abraços e beijos a todos.


domingo, 24 de março de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 09 ).

A minha alma está salva. É uma questão de fé e na verdade é o que importa. Mas meu corpo está em perigo, na verdade sempre esteve, mas após passar por inúmeras situações de forte estresse sinto isto com mais rigor. Não falo metaforicamente, meu corpo está em perigo de fato. Mas não importa. Tudo deve terminar um dia. Tudo passa, tudo passará.
Houve um tempo na vida em que eu tinha grandes sonhos e projetos, eu não era um desenhista tão bom, nem sei se hoje eu sou tão bom, talvez as pessoas que tem simpatia por minha pessoa veja nos meus traços e estilo algo mais do que são na verdade, vai saber. Hoje eu já passei daquela fase de achar que se não obtive sucesso com minha arte é porque ela não presta. Nem tudo que é sucesso é bom de fato. Tem obras por aí (música, livros, filmes e HQs) que rendem muita grana mas para mim não passam de uma bela bosta. E tem coisas que não tem como fazer sucesso porque é uma merda mesmo.
Mas eu dizia do tempo em que eu tinha esperanças e muita disposição. Eu quis, assim que cheguei a São Paulo em 1992, inspirado por uma exposição de fotografias sobre a Guerra de Canudos, criar uma saga em quadrinhos sobre o assunto. A tal guerra completava 100 anos e o Estadão nos brindou com um caderno cheio de informações sobre. Mas foi num tempo pré Arthur Garcia e Zé Gatão, onde eu tinha desenho mas não uma boa arte final, muita energia mas pouco planejamento para algo tão ambicioso. O tempo passou e a ideia morreu. Perdi o interesse. 
Outra era fazer uma grande aventura no período colonial do Brasil (sempre tive este fraco por sagas históricas). Um remanescente das cruzadas viria numa das caravelas dos portugueses atrás de um desterrado para consumar uma vendeta. Esta realmente eu quis fazer a sério, eu já tinha publicado quadrinhos e meu nome já circulava na boca de alguns, mas os inúmeros entraves, a falta de mercado no país, a sempre luta pela sobrevivência foi enterrando o entusiasmo e a coisa morreu na minha cabeça. As vezes eu penso nas cenas que idealizava e hoje elas não me parecem tão sedutoras. Foi assim com muitas aventuras de Zé Gatão, não pude por no papel e ficou no limbo. SIROCO foi destas que surgem de repente e eu comecei a esboçar as páginas meio só de diversão e tratei de desenhar antes que ela fenecesse. Mas estou fazendo sem ter exatamente um roteiro a seguir, as ideias vão surgindo e eu vou ilustrando. Claro, eu tenho em mente o que quero e sei qual o final da história, mas o bacana é como você vai desenvolvendo entre o início e o término, sem encheção de linguiça. Mas eu penso que este, como o primeiro álbum é algo menor dentre as minhas obras. Ela me serve como purgante mais do que nunca.
Phobos e Deimos nunca foi publicado e eu acho um dos meus livros mais legais. Será que sairá postumamente? Acho que não.
A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe saiu sem nenhum alarde e baixas vendas.
Prometem "O Bicho Que Chegou à Feira" para este segundo semestre.
Tenho planos para uma graphic novel intitulada "A Mulher do Karateca" e mais umas duas aventuras HQs curtas ou médias de Zé Gatão, mas são apenas planos, se eu conseguir, ótimo, senão, dou minha missão como cumprida.

Eu queria comentar sobre uns artistas que conheci nos anos 90 em sampa, mas fica para outra postagem, quem sabe, não dormi esta noite e há uma forte tensão no ar. Melhor encerrar, por hora.

Como não tenho nenhuma arte particular para postar vamos de mais uma para um clássico.


Escrevi apressadamente sem revisão, queiram perdoar possíveis erros.

Fiquem com Deus! 

domingo, 17 de março de 2019

AMOR POR ANEXINS E OUTROS CONTOS ( 08 )

Estou atravessando uma maré terrível. Se puxo pela memória não consigo me lembrar de momentos tão perturbadores! Mas houve, sim, na minha vida trechos bem complicados, principalmente no Rio de Janeiro. Talvez a diferença é que naquela época eu era bem jovem, mesmo sem discernir, havia todo um tempo pela frente, tempo hoje que eu sei que não tenho. O que acontece não pode ser descrito aqui.

Tenho mais uma encomenda para entregar, fora isso, não tenho mais trabalho. Existem algumas possibilidades mas falta concretização. É esperar.

A arte de hoje é mais um momento deste clássico do Artur Azevedo.


Não tenho mais ido ao cinema. Minha maior diversão e isso parece que se apagou da minha vida. O último filme que assisti foi o Venon com meu irmão André em Brasília, apesar do massacre da crítica ele fez sucesso e eu gostei, talvez por ficar tanto tempo sem ver algo em tela grande.

Terminei de ler O Morro Dos Ventos Uivantes, baita livro! Acho que minha atual existência se fundiu ao clima sombrio da narrativa, todas quelas intensas e sofridas emoções me trouxeram identificação.
Meu obrigado ao - sumido - Matheus Garcia por tê-lo me dado de presente.
Começo agora a leitura de SOBREVIVENTE, do Chuck Palahniuk. Tomara que este seja bom, desde o Clube da Luta, passando por Cantiga de Ninar e No Sufoco, este autor se repete, parece que leio o mesmo livro, só mudam os nomes dos personagens. É bem escrito, mas acho que as situações são muito inverossímeis, sei que faz parte da prosa dele, mas até agora não curti. Aí fica a pergunta, se você não gostou do que o cara escreveu até agora, porque continua lendo? Tenho duas respostas: acho que tenho uma inclinação para bizarrices e o ASSOMBRO é bom, tem contos sensacionais ali e eu fico na expectativa de que ele repita aquelas doses.

Quadrinhos? Terminei de ler A GARRA CINZENTA, gibi da década de 30, gênero terror policial e suspense (algo bem comum na época) que o André me presenteou no mesmo dia que fomos ao cinema. Muito, muito bom. Realmente as atuais HQs - lacradoras em sua maioria - estão enterrando as boas aventuras em quadrinhos.
Estou esperando ter dinheiro para comprar o Akira 3 e continuar a leitura.

Fora alguns episódios da oitava (ou nona?) de The Walking Dead, não vejo nenhuma série.

Ontem, dominado por uma violenta tensão que culminou em forte tristeza, eu fui caminhar no calçadão da praia de Candeias, quase Piedade. A noite estava estrelada (temos sido torturados por um calor anormal para esta época do ano, com muitas quedas de energia, o que é um terror) e observei todas aquelas pessoas com seus filhos e cães, todos aparentemente levando vidas normais. Me fez um certo bem. Sentei um pouco num lugar aprazível. Um totó com formato de uma pilha e basta pelagem branca e um focinho como ponta de lança veio timidamente e cheirou o meu pé (não tenho odores nos pés, que fique claro), depois, ainda próximo de mim, deu tuas voltas em torno de si mesmo e fez cocô, o dono dele, um jovem senhor do tipo mignon, recolheu os dejetos. Muito bem, meu caro! Se todos seguissem seu exemplo, teríamos um Jaboatão com menos merda nas ruas!
Como não tinha vontade de voltar para casa, caminhei até Barra de Jangada, pelas três faixas, fui bem além do trecho a que estava acostumado. Eu só queria sentir o vento, andar e andar sem rumo. As pernas estavam cansadas e meus pés doíam, eu estava de chinelos - não te tênis - mas não me importava. Voltei pelo mesmo caminho e segui em direção oposta. Parei em frente a um bar em que uma banda tocava músicas regionais na calçada. O que me chamou a atenção não foi a cantora de corpo sensual, mas a técnica e destreza do baterista, que era muito bom! Como não sou fã deste tipo de canção, segui meu rumo. Parei em frente ao Walmart e sentei um pouco, massageei meus pés empoeirados e segui em frente. Num certo ponto, minhas lombares começaram a reclamar decidi voltar para casa. O retorno era longo mas eu só queria que o tempo passasse. Entrei. Vera estava preocupada, mas eu falei que precisava do ar noturno. Tomei um banho, um copo de leite, escovei os dentes e fui tentar dormir. Passava da uma da madrugada.

domingo, 10 de março de 2019

COMENTÁRIOS SOBRE A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE NO YOUTUBE.



A Editora Clepsidra foi ousada e corajosa em publicar a biografia do Poe em quadrinhos. Mais uma vez a minha gratidão por terem feito um projeto gráfico com tão bom acabamento.

Confesso que pensei que este álbum fosse ser bem comentado nas mídias e que seria resenhado pelos "especialistas" do meio . Tentei fazer a minha divulgação como pude e creio que a editora (que não é de quadrinhos) fez a sua parte, no entanto, mais uma vez foi solenemente ignorado por todos, salvo pelos que de fato são fãs do Edgar e tiveram acesso a este material.

Esta semana perguntei ao editor como estava sendo a aceitação do público na loja dele e a resposta foi que há uma resistência grande em relação ao livro por ele ser em quadrinhos, ou seja, ainda há muito preconceito por parte dos leitores de livros no Brasil em relação aos gibis, mesmo os que curtem gótico e terror. Pena.

Bem, acho mesmo que isto encerra minha carreira neste cenário, que nem sei se fato existe aqui nesta parte da América Latina. Há uma crise no mercado editorial, ouço falar, e o dinheiro anda curto.
E quando eu digo encerrar minha carreira como quadrinista, não quero dizer que vá parar de elaborar meus projetos, faço quadrinhos de forma catártica e também para me divertir um pouco, colocar para fora certos demônios, mas as minhas criações doravante não terão a pretensão de serem publicadas, não vou mais bater nas portas da editoras. Se for publicar algo (Zé Gatão - Siroco segue lentamente sendo produzido), será de forma independente, com grana do próprio bolso, como foi o álbum branco, talvez com uma tiragem baixíssima como foi o Zé Gatão PADA. Quem sabe uma parceria com os fãs? Existem alternativas, nenhuma fácil, é verdade, mas os tempos hoje são outros. O que não dá mais é para dar murro em ponta de faca, mesmo sendo realista em relação ao mercado editorial brasileiro de quadrinhos, sempre existe uma expectativa lá no fundo e quando ela não se concretiza a decepção incomoda. Bem faz o meu old pal Arthur Garcia que nunca fez quadrinhos em que não recebesse por eles.

Não sei se teremos segunda, terceira edição do Poe, acho que vai demorar para esgotar esta pequena primeira tiragem....mas quem leu gostou muito e isso me  deixa feliz de verdade.

Bem, é isso. Deixo com vocês duas resenhas de canais do YouTube.

Grande abraço a todos e se eu puder, semana que vem nos vemos de novo.


sábado, 2 de março de 2019

REFLEXÕES SOBRE ANGUSTIA, MEDO E MORTE ( PARTE DOIS DE TRÊS ).


JÁ FAZ UM TEMPO QUE MINHA MENTE FERVILHA PARA CONTINUAR A ESCREVER AS DESVENTURAS DO DESENHISTA ED PALUMBO. COMO PODEM INTUIR, TUDO A RESPEITO DELE É BASEADO EM EXPERIÊNCIAS QUE VIVI AO LONGO DO QUE PODEMOS CHAMAR DE "MINHA CARREIRA DE ILUSTRADOR". SERIAM TRÊS CONTOS, CADA QUAL COM UM FINAL DISTINTO E TRÁGICO. ESTA PARTE DOIS COMEÇOU A FICAR MUITO EXTENSA E OS VÁRIOS PROBLEMAS QUE ANDAM ME ACOMETENDO ME IMPEDEM DE ME DEDICAR A ELA COMO GOSTARIA, E TAMBÉM, PENSO, FICARIA MUITO LONGO PARA VOCÊS LEITORES, ENTÃO ME OBRIGO (MUITO A CONTRA GOSTO) A DIVIDI-LA EM DUAS PARTES. PRETENDO CONTINUAR ESTA SAGA ASSIM QUE PUDER.

                               Reflexões Sobre Angústia, Medo e Morte (parte Dois De Três).
  
                                                               PRIMEIRO ATO.

Tudo isto aconteceu quando o desenhista Ed Palumbo estava prestes a completar 50 anos. Os ventos frios da grande cidade não lhe sopravam bons augúrios, antes, traziam os odores de desalento e fracasso. As contas não paravam de chegar e os trabalhos fugiam dele como se ele fosse um maldito cobrador. Cansado de andar de ônibus e metrô, batendo na porta de todas as editoras que ele conhecia, com seu enorme portfólio debaixo dos braços, ele decidiu aceitar o convite do Prattes, um amigo, para tentar a vida na famosa cidade litorânea, batizada de "maravilhosa".
"- Cara, tu é um artista do caralho! Deixe essa cidade fria e cinzenta e venha passar um tempo comigo, procure emprego por aqui, mude de ares, eu te ajudo, pelo menos teto e comida não vão te faltar. Será uma honra hospedar um dos meus ídolos em casa, ela é modesta, mas é sua também!"
O ilustrador nunca gostou de ser pesado a ninguém, mas um tanto constrangido, resolveu se mudar. Combinou  tudo certinho com Prattes, vendeu, a preço de banana, seus muitos livros de artes e gibis raros num sebo, quitou o aluguel, entregou o minúsculo apê que mantinha na "boca do lixo", rapou suas minguadas economias, comprou uma passagem e lá foi, na esperança de finalmente ser contratado por uma empresa que assinasse sua carteira afim de que ele pudesse ter uma aposentadoria e envelhecer com mais tranquilidade. O tempo de ser ambicioso, sonhar com grandes feitos e fama haviam passado.
Tinha com ele apenas uma pequena mala com poucas roupas e uma pasta emborrachada contendo seus melhores desenhos e pinturas.

Foi uma viagem noturna exaustiva, ele estava do lado da janela, um gordo, cheirando a pano mofado,  sentado ao seu lado, o pressionava, devia estar morto de cansaço, a cabeça pendia como se não estivesse conectada ao corpo, babava e roncava sonoramente. Uma mulher loura oxigenada e alta andava pelo corredor do veículo cochichando nos ouvidos de alguns homens, alguns se levantavam e iam com ela para os fundos do carro, ouvia-se barulhos discretos de estalo de língua.
Palumbo cochilou algumas vezes, mas despertava sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Com certa dificuldade, acordou o imenso companheiro de viagem, que fazia um sacrifício enorme para se levantar e ceder passagem.
- Escute, para não incomodá-lo, você não quer dormir próximo á janela? Perguntou ele?
- Porra nenhuma, cara, só viajo no corredor! Respondeu o gordo fedido com ar de irritação.
- Ok!
Quando caminhou para o banheiro a mulher alta veio em sua direção. A enorme cabeça loira, de um perfume adocicado, bafejou em suas orelhas: "benzinho, eu chupo seu pau bem gostoso até cê gozar,  por 10 pratas."
- Desculpe, coração, mas estou liso.
- Vai tomar no cu, sua bichona! E se afastou. Só então Palumbo notou que se tratava de um travesti.
Ele nem estranhou que este tipo de coisa ocorresse num ônibus interestadual, hoje acontecia de tudo.
Entrou no reservado e urinou com prazer, mas pouco, perto do que parecia ser. Aquilo não era natural, nos últimos tempos acontecia com muita frequência, precisava, urgente, se consultar com um urologista. Mas não podia ser pelo Sistema Único de Saúde, aquilo não funcionava, pelo menos, não certas especialidades.

Chegou na rodoviária com atraso, perto de seis da manhã. Teve certa fome e foi até uma lanchonete que tinha na estação.
- Por favor, meu amigo, poderia me fazer um misto quente e um suco natural de laranja?
- Nah, a chapa tá bichada e a laranja acabou!
- Ora essa, tem algum outro lugar onde se comer por aqui?
- Procura, ô coroa, não sou guia turístico!
 Com essa, Ed desistiu de se alimentar e foi até um ponto à cata de um ônibus que o deixasse na casa.
de Prattes.
Ao sair com a multidão da rodoviária, vários homens, de todas as idades perguntavam:
- Táxi?
- Vai um táxi aí doutor?
- Lotação? Temos os melhores preços.
Ignorando, Palumbo foi até um PM negro e grande como uma casa e pediu informação. Era um pouco complicado, teria que pegar três ônibus, mas ele chegaria.

Três horas e três ônibus depois, sob um sol escaldante, Palumbo finalmente chegou até o endereço dado pelo amigo. O apartamento ficava na parte superior de uma farmácia, a porta velha e descascada que ficava ao lado do estabelecimento estava cerrada. Após vários toques da campainha o desenhista, sem que fosse atendido, começou achar que o endereço poderia estar errado. Foi até a farmácia e viu do outro lado do balcão um homem de baixa estatura, cabeça grande, com um nariz parrudo, que devia compôr setenta por cento do seu rosto, os olhos miúdos pareciam ainda menores repousados sobre o imenso nasal, abaixo dele um bigode grisalho que escondia o lábio superior.
- Pois não?
Ed pousou sua malinha e sua pasta de desenhos no chão, apoiados ao balcão
- O senhor conheceria por acaso um cara chamado Prattes?
- Prattes? Claro! Gente muito boa, morava em cima da minha farmácia.
- Morava? Sabe se ele saiu? Cheguei de viagem e ele deveria estar me esperando. Toquei a campainha várias vezes, ela deve estar com defeito.
- Meu caro, o Prattes teve um problema....
- Problema? Como assim?
- Bem, não sei se devo falar....não gosto de me meter em assunto alheio....
- Olhe, desculpe, mas não sei se me fiz entender, eu vim de mala e cuia de outro estado e deveria ser recebido pelo Prattes, que problema ele teve? Doença? O que houve afinal?
- Ele teve uma briga feia com a namorada, não quero fofocar mas ele descobriu que ela o traía com um garoto de 18 anos.
- Como é?!?
- Isso mesmo, foi ontem a noite. Foi uma baixaria só. Teve até polícia! Vi quando ele pegou as malas e saiu furioso.
- Poxa...é mesmo? Ele deixou algum telefone, endereço?
- Não sei nada. O garoto que a namorada dele tava saindo é do tipo barra pesada, aquela mulher não sabe no que está se metendo.
- Poxa....que merda!
Palumbo sentiu uma espécie de vertigem, talvez fosse o calor, talvez fosse a decepção. Ele se sentiu enganado, ignorado, jogado num canto qualquer como um trapo imundo.
- Escuta, amigo, tem certeza que ele não deixou um telefone para eu localizá-lo? Ele sabia que eu viria. Acertamos isso.
- Sinto. Nada! Espere, um cliente, finalmente!
O cabeçudo foi atender uma senhora, Ed olhou em volta; nas prateleiras do estabelecimento havia poucos medicamentos, algumas fraldas descartáveis, produtos de higiene e mais nada. O baixinho narigudo devia estar passando por uma crise. Mas nada que se comparasse às suas dificuldades. Com pouca grana e sem um lugar para morar o que ele ia fazer? Uma angústia começou a apertar sua garganta com mão cadavérica, um cansaço desumano o abraçou com sanha.
O baixinho vendeu um envelope de aspirina a uma senhora e o encarou com olhinhos curiosos. Ed perguntou:
- Por favor, como é o seu nome?
- O meu?
- Sim, o seu.
- Milton.
- Poderia, por favor, me dar um copo de água, Milton?
- Claro, mas a água do filtro acabou. Pode ser da torneira?
- Claro, pode sim.
O homenzinho foi até uma salinha, provavelmente onde se tomam as injeções, sempre olhando para ele, talvez temesse que ele roubasse alguma das poucas coisas existentes ali e voltou com um copo médio de vidro, desses de geleia, com água.
Bebeu sofregamente. A tontura se intensificou.
- Poderia me dar outro?
- Pois não.
Mesmo procedimento.
- Escute, Milton, como pode notar, estou numa merda de fazer inveja a um norte coreano, poderia me indicar alguma pensão por aqui? Alguma que não cobre tão caro?
- Não há pensões neste bairro, sinto muito. Mas....bem, se você é mesmo amigo do Prattes, então deve ser de confiança, se quer um lugar para ficar por uns dias eu tenho um quartinho ali nos fundos da farmácia e um banheiro ao lado, só não tem chuveiro. Fecho a loja as nove horas em ponto e abro as sete da manhã, portanto na hora de fechar você deve estar aqui.
- E quanto isso me custaria?
- Cinquenta reais por dia.
- Bem, o que eu tenho aqui deve dar para ficar por uma semana.
- Coloque mais cinco e eu te dou o almoço. Minha patroa cozinha muito bem, peço a ela para fazer uma marmita reforçada para você todo dia.
- Combinado. Posso ver o tal quartinho? Ed mal podia esperar para se deitar e ficar a sós com sua comiseração.
- Claro, vamos lá.
O tal lugar era lúgubre, pequeno e cheirava a formol, umidade. Só tinha uma cama com umas caixas sustentando uma das pernas. O colchão era velho e cheio de manchas. Decerto, se falasse, relataria anos de fodas homéricas.
- Como pode ver, não tem travesseiro nem lençol, mas trago amanhã cedo, eu nunca imaginei que fosse alugar este quarto para alguém.
- Tudo bem, isso até combina comigo. Mas, se não há chuveiro, como posso tomar banho?
- Bem, terá que pegar água de uma torneira que há no pátio aqui, colocar naquele balde, usar essa metade de garrafa pet para se banhar, sabonete e xampu tem na farmácia.
Ed olhou um pequeno pátio que era o fundo do estabelecimento. Altos muros com cacos de vidro guarneciam o lugar. Uns gatos dormiam preguiçosamente no chão cheios de garrafas vazias, caixas,  ampolas e frascos de injeções usados.
Ok, disse Ed, tudo bem. Você tem algo para comer aqui?
- Não, minha mulher já trouxe o almoço e eu comi tudo. Mas você pode fazer uma boa refeição barata no Teófilo, fica na esquina descendo a rua. Amanhã minha mulher trás o almoço para nós dois. A propósito, qual o seu nome?
- Ed Palumbo.
- Prazer! Milton estendia sua mão. Era um aperto de mão forte. O desenhista viu isso como um bom sinal.
Palumbo comeu, voltou, Milton fazia palavras cruzadas, ninguém parecia saber da existência daquela farmácia. O banheiro era imundo, fedia a mijo com um poder sem igual, o fundo da privada era mais preto que o destino de algumas crianças indígenas. A descarga não funcionava, teria que usar o balde. Urinou com dificuldade. Lavou como pode o banheiro para poder se higienizar. Tomou banho sentindo a frieza da água devolver-lhe parte das forças. Estendeu sua toalha sobre o colchão imundo e deitou-se fazendo cara de nojo, mas não podia se dar ao luxo de ter escrúpulos. Em vista de tudo o que aconteceu, este muquifo tétrico até que lhe pareceu um quarto de hotel em Dubai. Exausto, não tardou a pegar no sono.

Ele acordou repentinamente ao som de uma porta de ferro sendo abaixada, decerto era o Milton indo embora, se ele fosse pontual então deviam ser nove horas. Cedo. Usando algumas de suas roupas para apoiar a cabeça, virou de lado e continuou a dormir. Teve um sonho estranho, estava num território maléfico onde almas perdidas gemiam clamando perdão por inúmeros pecados. O lugar era úmido e cheirava a formol, com seus pés presos num lodo fedorento, Palumbo despertou molhado de suor. Por um instante não conseguiu se localizar no escuro, tampouco sabia onde estava, segundos depois veio à memória o sumiço do Prattes e o quarto da farmácia. Ficou no escuro com a garganta seca, ansiando por um pouco de água e com uma louca vontade de mijar. Um ruído estranho, quase imperceptível se fazia ouvir. Um som como pequenas arranhaduras na parede. Levantou-se e tateou procurando o interruptor. Acendeu a luz e divisou inúmeras baratas nas paredes e no teto alto. Ficou paralisado um tempo vendo os asquerosos insetos caminharem apressadamente sobre a superfície manchada de umidade, logo se esconderam nas frestas. "Porra! Nem fodendo que volto a dormir com esses bichos imundos ao meu redor!"
Saiu do aposento e um golpe de ar frio lambeu sua pele suada. Apesar da idade e todas as suas desditas Ed Palumbo tinha boa compleição, musculatura privilegiada e magra. No banheiro, também infestado de baratas, a ereção noturna foi cedendo e o desenhista urinou como se a cada jato expelido, a vida voltasse a ele. Depois bebeu água da torneira com prazer inigualável. Os felinos estava agitados no escuro, mas a luz da lua minguante mostrava um enorme gato malhado, de orelha decepada, devorando o pescoço de uma grande ratazana. O bichano o fitou desconfiado, boca cheia de sangue e os olhos como tochas. "Esse é o meu garoto!" Pensou Ed.
Voltou ao quarto. Só se via as antenas dos rastejantes nas frestas das paredes. Consultou seu relógio e marcava 3 e 40 da madrugada. Olhou em volta de si e não pode deixar de pensar que sua situação era parecida com a do Raskolnikov, personagem de Dostoievski em Crime e Castigo. Teorias apontam que o ambiente sórdido em que o jovem vivia, embora fosse um intelectual, exercia influência negativa em seu comportamento.
Receoso em apagar a luz e voltar a dormir com aqueles bichos repelentes, Ed se encolheu e começou a ruminar sua infelicidade. Seu talento para o desenho e a pintura o alçou por um breve tempo ao estrelato, fez algumas exposições de seu quadros com motivos marítimos em coletivas e individuais que lhe renderam prêmios importantes, medalha de ouro no Salão da Marinha e entrevistas para revistas, jornais e programas locais de televisão. Mas sem dinheiro suficiente para ir para a Europa, onde seria mais bem aceito, foi se desenvolvendo nele uma espécie de aversão à vida. Em sua ânsia de encontrar a alma gêmea, sempre se meteu em relacionamentos com mulheres complicadas, ora independentes e soberbas, ora ciumentas e pegajosas demais, casos que terminavam de maneira melancólica, acentuando sua síndrome de rejeição. A ideia de suicídio sempre o perseguiu como uma sombra nefasta. Frequentemente se imaginava sendo atingido de frente por um ônibus ou um caminhão, mas ele não se via esmagado sob as rodas, antes, jogado longe, chocando seu crânio contra o asfalto, onde ele morreria instantaneamente, tudo se apagaria e o esquecimento e descanso seriam o prêmio por seus esforços infrutíferos. Outras vezes ele se imaginava tendo sua jugular retalhada por uma mulher ensandecida e sangrava até não restar mais nada.
O ramo das ilustrações para livros, revistas e histórias em quadrinhos trouxeram uma fama breve, mas ninguém se alimenta de elogios, menções e apertos de mãos de fãs, a maioria composta de indivíduos esquisitos que só sabiam falar de Tony Stark, Hans Solo, Daeneris, C3PO, Família Soprano, Darth Vader, Coringa, Arlequina, God of War e todas essas coisas mas não tinham tostões no bolso. Aliás, tinham, mas nenhum disposto a pagar uma certa quantia em seu Sketchbook, preferiam, ao invés disso, comprar três gibis encadernados do Homem Aranha.
Houve uma época em que ele conseguia vender seus originais, seus quadrinhos autorais em eventos ao redor do país, mas depois, os antigos foram sendo substituídos por uma geração mais nova, o mercado foi encolhendo, a moda dos grandes festivais foram passando ou dando lugar a um novo tipo de entretenimento, como vídeo games e séries  de televisão.
Cansado, Ed se deitou. Não tinha desejo de nada. Aliás, tinha sim, queria morrer, fechar os olhos e não abri-los nunca mais. Mas não queria que fosse naquele quarto fedorento cheio de bichos repulsivos. Com isso em mente, não viu quando Morpheus o abraçou.

O artista, morto de fadiga, não ouviu o dono da farmácia abrir o local. Acordou como que de ressaca, um gosto amargo na boca, dor de cabeça e aquela sensação anormal de bexiga cheia. Levantou-se e deu de cara com o imenso nariz do Milton.
- Salve, seu Ed! Bom dia!
- Ah, bom dia, Milton!
- Servido um café? Tem ali na minha térmica.
- Não obrigado, não gosto de café, me dá azia. Que horas são?
- Quase 10 horas!
- Nossa! Já? Ei, que barulho é esse? Essa movimentação lá fora!?
- Ah, hoje é quinta, dia de feira...até as duas da tarde a rua fica interditada. É bom pra mim, a freguesia aumenta!
- Poxa, que bom! Vou comer um pastel com caldo de cana como desejum. Toda feira tem uma barraca de pasteis.
- Mas a Edilsa vai trazer o almoço as 12 horas!
- Edilsa?!?
- Edilsa é minha mulher.
- Sem problema, eu almoço as 12 horas, sou bom de garfo!
Ed foi ao banheiro e urinou como se não fosse um ato natural. Escovou os dentes, calçou seu tênis, colocou uma camisa e saiu para o burburinho da calçada. Gostava daquela agitação, os pregões dos barraqueiros anunciando seus produtos e suas ofertas fazia-o se sentir anônimo, como, se ao se misturar na multidão a depressão e o desespero não o encontrassem.
Não demorou muito localizou a barraca de pasteis. Comeu dois de palmito e bebeu um belo copo de caldo de cana gelado. O calor estava forte, a sensação térmica era de uns 40 graus, ele calculou. Andando pela massa de pessoas ele viu maracujás doces, difíceis de achar. Eram caros mas ele comprou cinco. Comeu uma suculenta fatia de um abacaxi bem doce. Encaminhou-se para o fim do alvoroço, sabia também que esse tipo de comércio costumavam ter um cara vendendo gibis usados, isso era muito comum nas feiras cariocas. Dito e feito, lá estava um senhor barrigudo, bigodes brancos e fartos pitando um cigarro de palha. Ed sondou o acervo do velho pançudo. Muito Marvel e DC, como sempre.
- Bom dia!
- Dia, moço!
- O senhor teria quadrinhos nacionais?
- Sim, tenho alguns de terror aqui guardados, mas nem exponho pois ninguém se interessa.
Enquanto falava o ancião tirava vários exemplares de uns gibis antigos de dentro de uma caixa de madeira.
Uau! Calafrio, do Zalla, material do Júlio Shimamoto, Flávio Colin, Colonnesse, Rodval Mathias e outros! Ed conteve seu entusiasmo para evitar que o velho cobrasse mais caro pelas revistas.
- Por quanto o senhor vende isso?
- Tenho a muito tempo mas ninguém compra, vendo ao senhor dez reais todo o lote.
- Ok, Fechado! E esses Tex, aí?
- Bem, esses vendem legal, se bem que muitos só querem fazer troca. Eu troco dois por um.
Ed separou algumas unidades com histórias fechadas do cowboy e pagou.
- Esses gibis são para o senhor?
- Sim. Na verdade já criei algumas histórias em quadrinhos.
- Ora, é mesmo? Interessante. Eu tenho um neto que também desenha.
- Verdade? Que idade ele tem?
- Vinte e cinco.
- Ora, eu estava pensando que era um garoto começando a desenhar!
- Nada! Ele faz faculdade de web designer.
- Legal! E ele atua na área?
- Sim, foi estagiário em uma agência de publicidade.
- Foi? Não é mais?
- Ele não gostou.
- Sei como é, também trabalhei por dois anos em uma agência e não tenho boas lembranças.
- Semana passada ele participou de uma seleção para desenhistas de quadrinhos e desenho animado para atuar em uma empresa que está abrindo na cidade.
- Mesmo? O senhor teria como me arrumar o contato desta empresa? É que sou novo na cidade e estou a procura de um emprego e esta poderia ser uma oportunidade.
- Bem, não sei de nada, mas se o senhor vier as 14 horas pode falar com meu neto, ele vem me buscar de carro.
- Ótimo! Venho as 14 horas então. Obrigado!
- De nada.

Ao voltar para a farmácia encontrou Milton conversando com um rapaz com aspecto de anão, devia ter 1,70 de altura, um pouco mais baixo que Ed, mas toda a compleição era de um anão.
- Senhor Palumbo, este é meu sobrinho, Florêncio.
- Opa, como vai Florêncio?
- Bem, e o senhor?
Ed apertou a manzorra um tanto deformada. Um aperto frouxo.
- Tio Milton me contou que o senhor é amigo do Prattes, quem poderia imaginar que ele fosse corno, hein?!? O senhor conheceu a namorada dele? Uma potranca e tanto, mulher de parar o trânsito, meio coroa, mas gostosa pra caralho!
- Não, não conheci, na verdade ele nunca me falou que tinha namorada, se soubesse não teria feito a loucura de vir para cá.
- Sei como é.
- Bem, se me der licença, vou tomar um banho, o calor está de matar!
- Está mesmo, vai nessa.
O desenhista nunca gostou de pessoas que falavam demais. Apressou-se em ir para os fundos. Começou a encher o balde de água e lá veio aquela figura de enorme tronco e pernas curtas.
- Ei, o tio Milton já te falou da gostosa que vem aqui todas as quintas? Ele aplica injeção de anticoncepcional nela. Tem o maior rabo que eu já vi. E ela adora mostrar. Para tomar a injeção basta apenas descer um pouco a calça, mas ela faz questão de descer tudo. Uma bunda enorme e bem feita. Venho todas as quintas só para vê-la.
- É mesmo? Não sabia.
- Sim.
- Bem, eu...
O rapaz aproximou a enorme cabeça comprida como um obus e falou em um sussurro: "sabia que tenho um pau de 25 centímetros? Vou mostrar para ela qualquer hora. Já imaginou minha enorme pica no bundão dela?"
- Olha, Florêncio, né? Dá licença que preciso tomar meu banho.
- Quer ver?
- Ver o quê?
- Meus 25 centímetros?
- Ficou louco, cara?!?
- Ih, foi mal, aí, mas tu falou pra mim que ia tomar banho e tal, achei que cê fosse veado. Ainda mais com esse seu cabelo comprido amarrado atrás....
- Cara, vaza daqui!!!
O anão gigante se afastou constrangido.

Dentro do reservado Ed jogava a água fria com a metade da garrafa de pet sobre a pele bronzeada. Esfregava-se com o sabonete fajuto imaginando assim estar purificando a alma do contato de pessoas como esse tal Florêncio. Quimera!

Milton tinha trazido um travesseiro e lençóis limpos, com a cama devidamente forrada ele deitou-se um pouco. O idiota do sobrinho do farmacêutico, aquelas paredes emboloradas, as baratas a noite, sua condição de vida que nunca mudava de forma significativa geravam uma depressão que o sondava de perto, como uma puta de esquina piscando o olho lascivamente.....todo ganho e pequeno sucesso parecia migalha que ele recolhia do chão. Durante uns anos negros de sua vida ele pensava em como dar cabo dela. Forca? Não! Ele vira um filme quando criança certa vez onde um homem era enforcado, os olhos quase pulando da face, a enorme língua projetando-se boca a fora, o pescoço lacerado e torto. Nunca queria morrer desta forma.
Pular de um prédio bem alto? Ele morria de medo de altura. As vezes pensava, será que a pessoa desmaiava durante a queda? Morria no trajeto ou ficava lúcida vendo o chão se aproximar? Haveria alguma dor ao atingir o solo ou o choque seria tão violento que transformaria o corpo em pasta de forma tão instantânea que nem teria tempo para sentir nada? Bem, ele não queria saber.
Procurou afastar aqueles pensamentos lendo alguns dos gibis que tinha comprado.
Batidas na porta. Era o Milton trazendo um prato de comida que continha arroz, feijão preto, um bife de fígado com cebolas. Ele agradeceu.
- Ei, gibis do Tex! Apontou o baixinho narigudo.
- Cê gosta?
- É a única coisa que leio em quadrinhos. Me empresta?
- Bem, esses eu ainda não li, mas pode levar.
Só, novamente, o desenhista começou comer. Faltava sal, mas melhor que nada. Depois pegou um maracujá, fez um furo no bico e sugou as sementes adocicadas. Aquele sabor trazia memórias da infância sofrida.
Continuou sua leitura. Cochilou um pouco. Tempo depois olhou o relógio e viu que faltam quinze para as duas, resolveu ir até o velho antes do prazo para garantir que ele ainda estaria lá.
Ao passar pelo quartinho das injeções ele viu uma moça de belas nádegas com o vestido levantado sendo atendida pelo Milton e o idiota do grande anão ao lado observando hipnotizado. Realmente a natureza tinha sido generosa com aquela jovem, uma bunda grande, carnuda, lisa, bem proporcionada à cintura fina e às grossas coxas. Fartos cabelos castanhos claros encobriam-lhe o rosto. Mas isto não importava a Palumbo, o tempo de se interessar por essas coisas tinha passado, não estava morto, mas tudo lhe parecia efêmero, volátil. Ganhou a rua sem pensar o quão abjeto lhe parecia uma garota com a bunda de fora sendo observada por dois marmanjos lúbricos.

As barracas de legumes e frutas eram desmontadas, o refugo oriundo da feira infestava a rua e a calçada, restos e mais restos de pomos e hortaliças atraíam moscas e deixavam no ar um cheiro característico de melancolia.
O velho também guardava seus quadrinhos usados em caixas e os colocava no bagageiro de um carro velho, auxiliado por um rapaz gordo, de óculos, alto, de barba rala e longos cabelos amarrados em rabo de cavalo, assim como Ed. Trajava uma camiseta preta com uma estampa do Batman de Neal Adams e uma calça jeans surrada que parecia querer cair a qualquer momento, um tênis All Star preto concluía a imagem.
- Salve! Vejo que não se esqueceu de vir - saudou o simpático ancião com um sorriso ocultado pelo farto bigode - veio comprar mais alguma coisa?
- Não, já gastei a minha cota por hoje, semana que vem, quem sabe? Rebateu Ed.
- Ei, você não é o Ed Palumbo? Perguntou o rapaz gordo.
- Sim, você me conhece? De onde?
- Ora, eu vi várias entrevistas que você deu nos anos 90 pra algumas tvs locais falando sobre métodos de ilustração, no You Tube e li também seus artigos para uma revista de arte que teve breve circulação. Tenho alguns quadrinhos seus que são verdadeiras relíquias!
Apertaram as mãos. O gordo suava em bicas.
- Poxa, por esta eu não esperava! É bom saber que algumas obras minhas ainda são lembradas.
- Cara, tu é referência pra muita gente, muito conhecido meu na faculdade fez seus TCCs baseado em seus trabalhos.
- Poxa, que bacana!
- E aí, o que você tem feito?
- No momento procuro emprego, e é isto o que me trás aqui. Supondo que você é o neto deste senhor.
- Como assim?
- Mencionei a ele sobre você e a empresa que procurava desenhistas de quadrinhos. Falou o velho.
- Ah, sei. Mas, cara, tu é ídolo de muito carinha que eu conheço, você sumiu, pensávamos que cê tinha ido pra Europa ou pra América onde seu talento seria reconhecido.
- Bem, muita gente pensou isso.
- Você fazia parte de uma revista que vendeu muito, mais do que qualquer uma antes e depois, porque ela acabou tão cedo e repentinamente?
- Bem, digamos que os editores eram idealistas e não eram bons empresários, e um tinha o ego maior que o do outro, dinheiro e sexo corrompem pra valer, pode acreditar.
- Sexo?
- Isso, um dos caras ficou a fim da mulher do outro, mas não quero falar disso.
- Sei...pô mas que merda, não?
- Ô, nem me fale!
- ......
- Mas, voltando sobre a empresa que estava fazendo a seleção, poderia, por favor, me dar o telefone ou o endereço?
- Já fizeram a seleção e já fecharam o quadro, eu nem fui selecionado.
- Poxa, que pena!
- Pois é, só contrataram moleque novo, uma moçada muito boa!
- Bem, mesmo eles já tendo contratado e tal, eu gostaria de tentar um papo com eles, não tenho muitas alternativas, pode acreditar.
- Bem, eu tenho o telefone aqui, mas você vai perder o seu tempo.
Ed viu naquele olhar e tom de voz um certo despeito, uma inveja que já lhe fechou muitas portas, mas insistiu.
- Por favor?
- Bem, ok,
O gordinho tirou uma carteira sebenta do bolso e sacou um cartão amarfanhado.
- Toma, pode ficar, já fizeram a seleção, não vai me adiantar de nada mesmo, e nem pra você, tenho certeza.
- Obrigado! Fico te devendo.
- Ora, cê vai voltar aqui semana que vem pra comprar mais gibis do meu vô?
- Pode ser.
- Se eu trouxer os seus quadrinhos você dedica para mim?
- Claro!
- Faz um sketch massa também?
- Com certeza!
Com um largo sorriso por parte do gordo, Palumbo agradeceu ao neto e ao avô e saiu dali. Foi direto a um orelhão e se frustrou ao ver que não funcionava.

Voltou à farmácia. Vazia, apesar do Milton dizer que em dias de feira tem mais clientes. Ele estava sentado junto ao balcão e lia Tex.
- Milton, eu poderia usar seu telefone por um instante?
- Cara, não leva a mal, mas você paga pelo quartinho e já faço muito, não comece a abusar.
- Ok, desculpe.
O narigudo ainda ia dizer alguma coisa mas Ed deu as costas e voltou para a rua. Havia um mercadinho numa rua paralela. Dirigiu-se até o corredor de produtos de limpeza e encontrou o que procurava, no rótulo dizia: "Mata Baratas!!!! Mata na hora!!! Uma borrifada e continua matando por duas semanas!!!" É isso mesmo que eu quero, pensou. Foi ao caixa. Uma mocinha bonita, magra, de reflexos nos cabelos, lixava as unhas.
- Por favor, vocês colocam créditos no celular?
- Não!
Ed bufou e vociferou:
- Porra, que merda! Ok, tudo bem...
- É ligação local, senhor?
- Sim, claro!
- Então use o telefone que está no balcão, pode pedir ao gerente.
- Obrigado!
Ed ligou para o número que o desenhista gordinho tinha lhe dado. Ocupado. Pediu licença ao simpático gerente do mercadinho e ligou de novo. Atenderam.
- Boa tarde, é a respeito da seleção de desenhistas para sua empresa.
- A seleção já foi feita, o quadro está completo - disse uma apática voz feminina do outro lado.
- Estou sabendo, mas mesmo assim gostaria de falar com o encarregado, mostrar meus trabalhos, talvez ele possa me indicar um outro lugar, sei lá, poderia me por em contato com ele?
- Um minuto, por favor.
- Ok.
Passou-se um tempo.
- Olhe, este tipo de coisa é só com o Adalberto, o dono da empresa e ele está viajando.
- E quando ele volta?
- Um minuto.
Passou-se outro tempo, o simpático gerente agora o olhava de uma forma menos simpática.
A apática voz retornou:
- Pode passar aqui na segunda a tarde, tipo 14 horas?
- Posso sim. Qual o endereço?
Tudo anotado, Palumbo agradeceu ao gerente e a moça do caixa, pagou pelo Mata Baratas e voltou à farmácia sempre vazia.
Milton continuava lendo Tex.
O ilustrador passou por ele sem dizer nada e o outro falou:
- Ei, cara, foi mal o que eu disse sobre o telefone, se quiser pode usar, se for local.
- Ah, tudo bem, valeu! E seguiu para seu quarto.
Borrifou abundantemente o inseticida em cada buraco e fresta na parede, no chão e no ralo do banheiro. Esta noite quero dormir, pensou Ed.
- Ei que cheiro horrível é esse? Veio Milton com a mão na frente do nasal.
Um nariz desse tamanho deve mesmo sentir os aromas com mais intensidade, pensou Palumbo.
- Inseticida para matar baratas.
- Baratas? Mas não há baratas aqui!
- Tá de sacanagem, né? Olha esse entulho que cê acumula aqui nos fundos, olha o ralo do banheiro sempre aberto! E saiba que baratas atraem escorpiões!
- Mas este cheiro vai espantar a freguesia!
- Freguesia? Cai na real, Milton! E o cheiro passa logo.
O outro virou as costas e retornou à sua leitura.

Ed dormiu melhor aquela noite, apesar do calor. Passou a sexta e o sábado no tédio, lendo Tolstói e seus gibis de terror, fez vários esboços em papel sulfite, cochilou muito ao longo dos dois dias e ruminou sua vida precária, principalmente no domingo onde ficou trancado no estabelecimento. Neste dia em específico alimentou-se de frutas e água e distraiu-se brincando com os gatos que ele batizou de a turma do Manda Chuva.

OBRIGADO POR LEREM ATÉ AQUI E AGUARDEM A CONTINUAÇÃO DESTA PARTE DOIS DE TRÊS.