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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

EU E AS CORES.

O QUE VOCÊ VAI SER QUANDO CRESCER?
Acho que todo mundo já ouviu esta pergunta, mas me parece que ela era mais comum antigamente. A resposta pelo menos parecia mais simples em tempos passados. A criança respondia de tudo, desde ser professor a astronauta. De presidente da república a jogador de futebol. Hoje a molecadinha quer ser webdesigner, ator, modelo, ou algo assim.
Meu amigo Luca na tenra idade queria ser oceanógrafo (isso ainda existe?) e acabou virando professor de história. Eu? Eu nunca quis ser merda nenhuma, virei desenhista, ou seja, atingi o meu objetivo.

QUAL A SUA COR PREFERIDA?
Esta também hoje me parece um tanto demodê, sei lá, posso estar enganado, mas quem liga? O fato é que já me perguntaram muito. A resposta sempre foi O AMARELO, amarelo-ouro de preferência. Dizem que é cor de egomaníaco. Será? Tanto faz, o caso é que ela me fascina.

Sabiam que sou daltônico? É sério. Certa vez, estava fazendo um retrato a óleo do meu irmão, e ele com seu jeito típico, me perguntou por que eu fiz o seu cabelo de tons esverdeados. Como? Tons esverdeados?!? Eu estou usando tons de marrom, preto e sombra queimada. De fato, olhando bem, eu usei verde achando que era outra cor.
Uns anos mais tarde, quando meu outro irmão estudava medicina, ele fez uns testes comigo e alguma bolinhas coloridas no meio de tantas outras de cores diversas, eu não consegui perceber.
Acho que não há remédio quanto a isto, de qualquer forma isto nunca me impediu de pintar, só tenho o cuidado de na dúvida entre alguns matizes, perguntar a minha esposa se tal cor é a certa.

Mas o que me fez abordar este assunto hoje, foram algumas cores que ficaram em minha memória e ainda me causam encanto e euforia.

Era o início dos anos 70, em Pirituba (SP), por volta da hora do almoço, eu havia chegado a pouco da escola, um dia nublado e frio, quando uma menina saiu de sua casa portão afora com uma bonequinha Suzie na mão. A Suzie, vale lembrar, era a concorrente da Barbie no Brasil.
O que me chamou a atenção na tal boneca foi a cor dos cabelos. Era um laranja avermelhado, de um tom tão particular que nunca mais vi igual. À visão daquela cor, todo o resto pareceu-me perder o brilho, o dia ficou mais opaco e cinzento. Nunca me esqueci. É difícil explicar, mas até a lembrança daquela tonalidade vermelho afogueado me trás uma emoção cálida.

Uns anos depois eu lia uma revistinha dos Sobrinhos do Capitão (estes ao lado de Tintin, estão entre meus personagens prediletos da infância) e o menino de cabelos louros numa das páginas teve sua cor mudada  por um erro de impressão, para uma cor alaranjada, semelhante àquela dos cabelos da Suzie. Mas não era algo para se comparar.
Com isto quero dizer que não procuro obsessivamente aquela tonalidade, pelo menos não conscientemente, mas é lamentável que não ter sentido de novo aquela comoção.

Saltando muitos anos no tempo, eu estava em Brasília, no início da Asa Norte, numa tarde tormentosa de nuvens escuras e baixas, quando um raio faiscou bem ao meu lado (este, mais um dos tantos livramentos que o Senhor Jesus me deu), e após aquele clarão intenso, tudo ao meu redor tornou-se em tonalidades lilases que duvido qualquer pintor reproduzir por mais habilidoso que seja. Esta é outra cor que não me sai da memória, e talvez nunca mais vá ver de novo.

Estes dois momentos singulares foram os únicos em que estas cores, uma quente e outra fria, me causaram impressões tão distintas e tão poderosas. Acho que sei como se sentiu o personagem do Umberto Eco, no romance A Ilha Do Dia Anterior, ao observar aquele pássaro de um azul nunca antes imaginado.  

Bem, em relação a arte de hoje, devo dizer que o desenho não é meu, é do mestre Rodolfo Zalla. Pintei em cima dos seus traços. Seria a capa de um livro, mas creio que não aprovaram, afinal nunca me deram retorno.
Sendo assim, fica exibida aqui.

Um bom fim de semana a todos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ESBOÇO


Preciso parar de rabiscar em qualquer papel, este eu esbocei atrás de uma nota fiscal. Vai que o desenho fique bom, aí ele estará comprometido.
Só estou postando este para o dia não passar batido aqui no blog.

A gente se fala depois.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

MAIS POE.


Estou postando de uma lan house, a agitação destes dias, pelo menos no processo mental, tem me causado estranheza. Preciso superar isto. Mas alguns projetos que estavam parados começam a ressuscitar, como a "encantada" biografia do poeta americano Edgar Allan Poe. Já comentei que a demora para finalizar este trabalho se deve ao fato de que a técnica utilizada demanda tempo e um cuidado maior, e ninguém está me pagando para faze-lo como foi prometido no principio. Aliás, nem tenho tido contato com as pessoas envolvidas. Devem estar pensando que desisti dele. Mas não desisto não. Enquanto puder vou com ele até o fim.

Estou a espera de mais dois clássicos da literatura para fechar a coleção, enquanto isto não acontece, só me resta a preocupação com a rapidez com que meu dinheiro está acabando e dar continuidade aos trampos encostados. Aos poucos eles vão saindo das sombras.          

terça-feira, 27 de setembro de 2011

OLHOS IRRITADOS, BÁRBARO E OBRIGAÇÕES.




O marasmo que tomou conta de mim semana passada, deu lugar a uma vontade louca de trabalhar logo no domingo pela manhã. Resolvi dar sequencia ao Edgar Allan Poe, já que reclamo quase sempre que esta HQ está atrasada demais, desenhei a página 46 quase sem esboços, só falta finaliza-la, isto porque bastou emergir a disposição para as tarefas, que surgiram juntos vários compromissos que me impediram de continuar. Hoje fui ao oftalmologista fazer uns exames, amanhã será a segunda etapa. Mas já sei que precisarei usar óculos. Hum, só faltava isto para eu parecer um vovozinho completo. Paciência, a saúde antes da aparência. Só não sei com que grana mandarei confecciona-lo. Bem, uma coisa de cada vez.

Ontem, segunda, fui logo de cedo ao centro de Recife resolver umas coisas, tava um tempo estranho (sol e chuva) mas também uma sensação indecifrável de me sentir como um alienígena caminhando entre as pessoas, algo como se eu não pudesse ser compreendido ou mesmo aceito por elas. Como eu tinha um convite para assistir o novo filme do Conan, fui até o shopping mais próximo para conferi-lo. Cheguei no exato momento em que um baita temporal começou a cair; a fila para comprar ingressos estava repulsivamente longa, faltava 20 minutos para começar a cessão, apresentei o convite na entrada e me falaram que eu deveria troca-lo por um ingresso na bilheteria. Ao ver a fila, quase desisti. Lá fora chovia, eu não tinha mais nada para fazer aquela hora a não ser voltar para casa. Enfrentei. Meia hora depois, ainda me sentindo um corpo estranho no meio de todos aqueles jovens (é, só tinha mocinhos e mocinhas naquele lugar, uns mais idiotas que outros) peguei meu bilhete, ciente que o filme já tinha começado. Na tela, uma mulher agonizava, dando a luz a um menino em meio a uma batalha. A sala tava lotada, me senti um pateta tentando encontrar um lugar para sentar. Necas, tive que me contentar em assistir a película sentado na escada.

Jasom Momoa é o novo Conan? Bem, só se for uma versão adolescente (ainda que um tanto bombada) do bárbaro cimério. Me desculpem os que curtiram o filme, mas acho que o Schwarza (para o bem e para o mal) corporificou o personagem.
Pra dizer a verdade, nem achei o filme ruim, é assistível, uma razoável fita de ação, do tipo que se faz hoje, com sequências vertiginosas, uma atrás da outra, sem dar tempo pro cara pensar que está sendo enganado com um enredo fraco e previsível. Não acho que a culpa seja do ator principal, nem do diretor. Momoa se esforça, as cenas de batalha são bem encenadas, a era hiboriana retratada na tela convence, o problema mesmo é o roteiro, a mim não prendeu. Quem o escreveu conhece pouco do universo retratado nos livros do Robert E.Howard. Pra se ter uma ideia, o bárbaro não cita uma única vez o nome Crom. O vilão é um tanto caricatural, tanto ele quanto sua filha feiticeira. No clássico de 1982 dirigido pelo John Millius, o clima era pesado o tempo todo, como se não houvesse lugar seguro em parte alguma, a narrativa carregada de frases grandiloquentes, e a música... ah, a música! Ela falava mais que tudo nas longas cenas de silêncio dos personagens. Quem ligou para a canastrice do Arnold? Bastava ele empunhar a espada. O resto é o resto.
Quem sabe se neste novo filme eles tivessem cruzado duas aventuras clássicas do bárbaro como A Torre do Elefante e Inimigos em Casa, não teria sido bem melhor, ao invés de mostrar o jovem Conan como um rebelde sem causa na adolescência e depois um adulto querendo vingança de novo? Acho que dá pra passar uma chuva. Pra mim foi só.

Acho que deu para sacar que estes dois desenhos foram feitos sem auxílio da borracha, este abaixo foi feito dentro do ônibus.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

UM CONTO DE ZÉ GATÃO ( Escrito por Luca Fiuza e ilustrado por Eduardo Schloesser )



             SECA CRUEL Uma aventura do personagem de Eduardo Schloesser.
 Escrita por Luca Fiuza. / 22/08/2011.
Texto original: 20/09/1997.



     A camiseta amarelo-ouro estava ensopada de suor, tornando o contato com a pele bastante desagradável. A calça azul, velha e desbotada apertava a virilha de maneira incômoda, não havendo posição sobre o escaldante selim da moto que trouxesse algum alívio. Os pés no interior das botas negras e empoeiradas pareciam estar em brasa e apesar do vento que agitava o rabo de cavalo cinzento bem amarrado atrás da cabeça, tal aragem mais se assemelhava ao causticante e fétido hálito de um dragão resfolegante.
 Todos estes fatos, porém, não importavam a Zé Gatão. Estava preparado para suportar as intempéries do clima estoicamente, acostumado que estava mais à frugalidade do que à abundância.    Pilotava uma possante moto, própria para longas jornadas, especialmente para regiões desérticas como a que estava atravessando. Trazia consigo farta provisão de água e comida. Acelerando sempre, disparou pela enorme reta de asfalto negro a se perder em meio aquela paisagem desolada.    O ousado felino cinzento se dirigia para o leste, fugindo da seca violenta que há muito castigava a região. Morria de sede nas cidades ressequidas grande quantidade de animais, a comida rareava, tendo ocorrido em muitos lugares casos de canibalismo.
Dizia-se que nas grandes cidades do leste, junto ao mar, havia fartura de alimentos e chuvas regulares.    Muitos como ele partiram das cidades calcinadas do norte, lançando-se nas estradas que cortavam aquele imenso deserto. A maioria, no entanto, veio a morrer em meio ao trajeto, vencida pelo ambiente hostil ou assassinada por bandos de desesperados que infestavam a região, em número sempre aumentado pelas condições reinantes de penúria extrema.
Zé Gatão sabia possuir os requisitos necessários para atingir seu objetivo, além de ser um sobrevivente nato, o fato de ser mestiço de lince tornava-o capaz de resistir melhor ao deserto do que muito de seus congêneres felinos. Sua natureza híbrida permitia que suportasse relativamente bem extremos de calor e frio tão comuns naquelas plagas. Quanto à comida, se viesse a faltar não haveria criatura comestível ou não que escapasse de suas garras. A água...este seria de fato um problema.   Fazendo as paradas estritamente necessárias para comer e descansar, o gato pilotou até o fim do dia sem avistar ninguém naquela amplidão.
Pouco antes do pôr-do-sol, observou pelo retrovisor da moto que estava sendo seguido por três jipes que se aproximavam velozmente. Em seu interior estavam os temidos lagartos do deserto, conhecidos por atacarem de devorarem viajantes incautos.


Disposto a não se tornar vítima dos ferozes sáurios, Zé Gatão acelerou a moto ao máximo. Por um breve instante deixou os perseguidores à distância, mas seus jipes turbinados logo diminuíram a diferença.    Logo começaram a disparar tiros. As balas sibilavam por sobre a cabeça do gato. Desesperadamente, com os braços hercúleos retesados, Zé Gatão acionou a turbina especial que imprimiu à moto uma velocidade vertiginosa.


Como que por encanto, os veículos inimigos ficaram para trás. Contudo, antes de perdê-los de vista, viu um clarão pelo canto do espelho retrovisor esquerdo e em um instante de horror, uma explosão tremenda se seguiu à sua frente, ao mesmo tempo em que uma enorme e profunda cratera se abriu na estrada, pronta para engoli-lo. Alucinado, deu uma guinada na moto, cortando neste ínterim o funcionamento da turbina. Descontrolada, a moto tombou para a direita. Porém, antes que a máquina tocasse o solo, Zé Gatão deu um salto acrobático. O grande felino realizava seguidas piruetas no ar para reduzir a aceleração do próprio corpo. Devido à inércia, ele foi lançado para frente. Contorceu o corpo mudando a trajetória para o lado, o que o fez passar por cima do acostamento, indo precipitar-se após mais duas cambalhotas em uma duna de areia. Seu corpo enorme ficou ali estendido, enquanto a moto se arrastava pelo asfalto até ruidosamente espatifar-se naquela cratera monstruosa. Após isto, só o lúgubre silêncio reinava no lusco-fusco do poente.



Ao despertar, Zé Gatão viu-se acorrentado solidamente à haste central de uma imensa barraca. Lamparinas a óleo iluminavam precariamente o ambiente. Em meio aquela penumbra mal se notava o grupo de lagartos reunidos em um canto mais afastado.Apesar de estarem cochichando, a apurada audição do gato ouvia tudo. Os terríveis sáurios tencionavam assassiná-lo e em seguida devorá-lo. Realmente seu destino estaria selado naquele instante, se um irado guincho não interrompesse um dos lagartos que se aproximava de sua vítima indefesa, já com o facão erguido.
- Pare réptil! Esqueceu as ordens do chefe?! – Quem pronunciou estas palavras em tom agudo foi um pequeno e atarracado rato do deserto.
Seu manto púrpura balouçava ao sabor do vento e sua nojenta figura na entrada da tenda recortava-se contra o céu estrelado na fria noite do deserto.
- Está frio! – Retrucou o lagarto em tom ameaçador – A carne deste gato nos dará o calor que precisamos para resistir a esta noite.
- Idiota! – Os malévolos olhinhos do rato faiscavam. – Você sabe muito bem que o chefe tem planos para ele! Deixou tudo muito claro antes de se retirar após a captura do felino.
- Não sei de nada! Só sei que o chefe saiu e só chega amanhã cedo! Não sei o que me impede de te matar também e incluir você em nosso repasto noturno! – Vagarosamente, salivando abundantemente o lagarto começou a erguer o facão.
- Se me matar o chefe trucida todos vocês! Experimentem rebelar-se e verão! – A voz esganiçada daquele roedor começou a irritar Zé Gatão. Se estivesse solto, o calaria a pontapés.Após um breve momento de hesitação o lagarto guardou o facão na bainha, não sem antes soltar um sibilo agudo de raiva e frustração. Vendo aquilo, Zé Gatão sorriu ironicamente. Tendo notado o flagrante ar de deboche de sua quase vítima, o lagarto foi tomado por enorme fúria e sem refletir lançou-se sobre o gato disposto a rasgar sua jugular a dentadas. Contudo, um novo guincho de advertência o fez voltar-se contra aquele rato petulante.
- Pare! Mais um passo e arrebento seu cérebro fedorento! – Como que por encanto apareceu na mão do rato uma Magnum 44. Os outros lagartos ergueram-se. Surpresos e enfurecidos, dispostos a dar uma lição definitiva naquele mamífero abusado foram se acercando do rato.
- Parem! Eu mato vocês! Estouro a cabeça imunda de cada um de vocês! Saiam todos daqui! – O timbre de voz do rato era quase histérico.Os répteis estacaram.  Aquele que quisera matar Zé Gatão e avançar no rato retrucou – Tá bom! Nós vamos sair. Na outra tenda há bastante caldo para nos alimentar e aquecer por esta noite. Mas você ainda vai pagar, roedor maldito!
- Vá se foder, filho da puta! Suma daqui antes que eu arrebente seu cu escamoso à bala!!!! – Apesar do frio, a testa do rato estava molhada de suor. Os lagartos se retiraram bufando, deixando um rato do deserto ofegante e suarento a sós com seu prisioneiro.
- Mandou bem, nanico! Botou todas aquelas lagartixas para correr! Queria ver se não tivesse maquinado! – O tom de voz do felino era tão irônico que o roedor sentiu seu sangue ferver.
- Cala a boca! Se não fossem as ordens do chefe eu já teria te matado!
- E quem é teu chefe, dentuço?
- Amanhã você vai descobrir e vai lamentar!
- Eu já lamento não poder encher teus cornos de porrada agora mesmo! Vai! Te arranca que eu quero dormir pra amanhã  poder mijar no teu chefinho assim que ele mostrar as fuças!
- Ele vai te matar!
- Ele e quem mais ô meia-foda? Você?!
Tremendo de ódio mortal o rato sai abruptamente da tenda. Tendo ficado só, Zé Gatão procura descansar para o dia seguinte.


 Com a chegada do amanhecer, o frio intenso da noite foi substituído por um calor abrasivo. Durante a madrugada o leve sono do gato foi interrompido algumas vezes pelo rato que vinha experimentar as correntes que cingiam o felino e alimentá-lo com um estranho caldo que além de restaurar-lhe as forças, aquecia-lhe o corpo possibilitando que suportasse melhor as baixas temperaturas daquela tardia hora.Assim, naquele início de manhã, Zé Gatão já com o rosto molhado de suor estreitou os olhos amarelados tentando identificar as silhuetas que adentraram no interior mal-iluminado da tenda.
- Levem ele pra fora acorrentado! O chefe chegou! – Ordenou o roedor em tom incisivo. Entre silvos e rosnados, os lagartos obedeceram de má vontade.
Lá fora, meio ofuscado pela intensa claridade que havia se instalado após o nascimento do sol, Zé Gatão encarou uma figura que parecia saída de um pesadelo. Era um escorpião enorme de linhas esguias. Sua couraça preta e amarela brilhava ao sol em tons metálicos. Sua cauda maciça oscilava ameaçadoramente, enquanto quatro pernas fortes sustentavam seu corpo poderoso, e quatro braços gesticulando de forma vil.  A visão se tornava ainda mais terrível devido às enormes pinças que abriam e fechavam com um estrépito lúgubre. A cabeça inteiriça, sem pescoço cheio de olhos pretos e duros fitou o felino taciturno dardejando de ódio incontido.
A simples presença daquela bizarra criatura joga uma forte dose de adrenalina na corrente sanguínea de Zé Gatão, eriçando os pelos da sua nuca e enrijecendo sua potente musculatura ao máximo fazendo os grilhões que o envolviam estalar.
- Sua constituição física é impressionante mamífero! – Disse o monstruoso ser com uma voz de entonação estranha que feria os ouvidos - Conseguirei uma boa soma vendendo você aos ricos mamíferos do sul para entretenimento em suas arenas de luta! – O felino nada diz. Um sorriso irônico brinca por um breve instante em sua face.
- Soltem este porra de sangue quente! Se sobreviver a mim, poderei pedir um alto preço por ele a Gordus, o suídeo para que o exiba em sua arena de morte.
Logo que foi libertado, Zé gatão iniciou uma série de movimentos para reativar a circulação sanguínea nos membros dormentes. Pacientemente seu oponente aguardou o aquecimento do grande felídeo.
- Como é seu nome, mamífero? – Indagou o escorpião em um tom assustadoramente suave para uma criatura daquele tipo.
- Seu pior pesadelo, filho da puta! – Se fosse possível, o aracnídeo teria sorrido. Respondeu simplesmente:
- O meu é Tanatos.
- Foda-de.
Repentinamente, o escorpião atacou com um  golpe de cauda, apontando seu ferrão venenoso para cravá-lo na carne de Zé Gatão.Com incrível agilidade, o felino evitou o tremendo golpe desferido por Tanatos. Como uma continuação do movimento de esquiva, Zé Gatão lançou um chute brutal que veio a se encaixar na área abdominal do escorpião, no preciso instante em que ele começava a se aprumar após sua investida inócua.  A violência do impacto estourou seu exoesqueleto naquele ponto, por onde suas entranhas, expelidas aos borbotões esguichavam caindo ao solo e seu corpo enorme era projetado para trás pela fúria da pancada.Mal aquela carcaça desarticulada tocou o solo, foi coberta por botinadas fortíssimas, esmigalhando-a completamente, sem dar tempo de o infeliz aracnídeo defender-se. O grande gato estava tomado por uma fúria cega, bestial! A face transfigurada, chutando e pisando sem cessar até reduzir o até então perigoso adversário a pó.
Arfando ruidosa e penosamente, ele parou. A seus pés uma massa informe misturada à areia formava uma papa abjeta. Era tudo o que restava de um outrora poderoso e temível escorpião.Os lagartos e o rato estavam estupefatos, completamente sem ação. Neste ínterim, Zé Gatão estudava a situação, procurando meios de sair dali com vida.
De repente, tudo se precipitou. Fortes explosões se fizeram ouvir, transformando o local em uma praça de guerra. Em meio ao caos, o rato se pos a correr, não sem antes fazer um sinal para Zé Gatão que não pensou duas vezes e também começou a correr. Os dois subiram em um dos jipes parados a poucos metros dali e partiram deixando atrás de si morte, lamento e destruição.
- Não seremos perseguidos? – Indagou o felino que ia de carona.
- Não poderão! Armei estas bombas de tempo ontem à noite.  As explosões atrairão o exército de elite de Tanatos e...
- Idiota!
- Deixe-me acabar de falar, porra! Este exército é formado por tarântulas que ao depararem com o chefe morto vão chacinar os lagartos sobreviventes sem esperar explicações. – Um sorriso mal aflorou aos lábios do roedor descobrindo o grande incisivo. Daí a poucos minutos, uma gargalhada ferina e esganiçada enchia os ares. O nojo que já tinha daquele roedor maldito quase levou Zé Gatão a achatar o crânio daquele bosta ali mesmo, conteve-se, porém. Encerrado em um mutismo obstinado, ignorou as tentativas do feioso roedor em entabular conversa. O resto do trajeto foi feito em um silêncio pesado. Por fim, após uma hora o rato disse:
- Sugiro que a gente vá para Ictiópolis, uma cidade litorânea bem próspera. Tenho parentes lá. – O felino retrucou entre dentes - Então pisa fundo, meia foda! Quero chegar lá este ano, ainda!
Levaram dois dias e meio para chegar a Ictiópolis, consumindo neste meio tempo toda a provisão de água e comida que havia no jipe.
Chegando ao cais do porto separam-se sem se despedir. O rato foi embora no jipe e Zé Gatão hospedou-se em uma fétida pensão nas imediações do mercado de peixe e ali passou a noite. Dormiu um sono leve e agitado. Teve o cuidado de trancar bem a porta e as janelas do quartinho imundo, uma vez que a clientela por ali não inspirava confiança. Qualquer um deles mataria a própria mãe por alguns níqueis ou uma garrafa de rum barato.No dia seguinte foi procurar emprego nas docas. Ao meio-dia estava subindo a bordo de um velho e maltratado navio mercante cujo nome gravado na proa lhe chamou a atenção: Cloaca dos Mares. A tripulação era variada. Os oficiais eram felinos e entre a marujada tinha de tudo, a escória do mundo se concentrava ali.
O felino taciturno estava chegando ao convés quando uma hiena munida de um esfregão e fingindo limpar o piso encardido riu ironicamente enquanto vomitava as seguintes palavras:
- Hee...! Carne nova na área! – Zé Gatão se virou para ele e retrucou ameaçadoramente em tom baixo:
- O nome deste barco é sugestivo, hiena! Cê já abriu sua cloaca podre. Fica fria que ganha em saúde e conserva os dentes!
A hiena eriçou o pelo das costas, ia avançar sobre o abusado felino cinzento, mas a chegada de um oficial a fez dominar-se a custo. Em meio a olhares hostis daquela corja de marujos que enchia o convés fingindo trabalhar, Zé Gatão foi conduzido pelo imediato do barco até uma cabine com um beliche de madeira meio podre junto à vigia circular de vidro sujo. Um cheiro de arenque deteriorado inundava aquele espaço exíguo.Uma hora depois, o navio zarpou e desapareceu na imensidão azul do mar.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DESPRETENSIOSO.

Meu plano hoje era postar a continuação do relato dos dias que vivi no Rio, mas não me sinto muito animado. Sorry folks, principalmente os que curtem as coisas que escrevo, mas esta semana, após a conclusão de mais um livro, minha criatividade parece esgotada, as energias drenadas. Francamente não costuma ser assim, principalmente com boas notícias chegando por e-mail. Acho que tenho dormido pouco. Talvez ansioso demais? Saudades da minha mãe e irmãos? Pode ser.

O calor está chegando aos poucos, inclusive está atrasado, não que eu reclame, mas o tempo está muito doido, e cá pra nós eu também.

Quero agradecer a todos pelas visitas, se der, e Deus permitir, volto amanhã, senão a gente se esbarra mais pra frente.

Tenham todos uma boa noite.

Ah, o desenho de hoje? Nada não, coisa rápida, peguei uns lápis de cor e comecei a esboçar e saiu isto.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILICIAS ( 02 )

Boa noite a todos.
Hoje concluí as ilustrações de O CABELEIRA, e há tantos projetos pessoais, tanto o que fazer enquanto a editora não manda os dois livros restantes da coleção que não sei o que pego primeiro, se é a quadrinização do Poe, se dou andamento a dois contos começados e nunca concluídos ou inicio alguma coisa nova de Zé Gatão - uma vez que estou no pique por causa do novo livro que deve estar indo para a gráfica, e também do conto que não consegui postar (mas hei de conseguir). Contudo, porém, entretanto, sinto-me sem forças para estas atividades; algo assim, como se eu tivesse de ressaca. Pode ser o estresse destes últimos dias. Amanhã, se Deus quiser, acordo melhor e vejo o que faço.
Bem, para o dia não passar batido, deixo com vocês mais uma cena de Memórias...
So long.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

ALGUMAS PEQUENAS COISAS.

Ontem foi um dia estressante, tudo por causa da minha frustrada tentativa de publicar o conto SECA CRUEL.
Na verdade estes últimos dias tem sido assim, complicados, solitários e cansativos.
Hoje o dia trouxe algumas boas surpresas. O trabalho rendeu, estou quase no fim das ilustrações do livro O CABELEIRA de Franklin Távora; com a mão cansada me sentei em frente ao computador para verificar meus e-mails e me deparei com uma mensagem do Leandro (editor da Devir) com a capa de ZÉ GATÃO-MEMENTO MORI, para eu conferir. Pessoal, tá muito legal. Breve este livro deve estar ganhando o mundo.

No Zine Brasil, da doce Michelle Ramos foi publicada uma entrevista comigo, quem quiser conferir, é só acessar  tp://zinebrasil.wordpress.com/ , boa matéria. Ok, sou suspeito pra falar, mas acho que vale a pena.

A noite chegou fresca, fui à padaria sentindo o vento que vem da praia, no quarteirão além da minha casa, uns cinco vira-latas descansavam refestelados na poeira da rua. Alguém deve ter alimentado eles. Já sei que não sairão mais dali, esses tipos são iguais a alguns seres humanos, faça um favor e nunca mais você se livra deles. Obviamente não são vacinados, tomara que não mordam alguma criança. Se for pra dar o alarme na calada da noite ou morderem algum ladrão metido a esperto, então tá liberado. Pra bandido todo castigo é pouco.
Na volta do comércio, o ar que respirei não era tão salutar, um forte cheiro de maconha. Três jovens típicos, bermudão, tatoos, piercings, cabelo escovinha, arrogância total, vindos da praia, tragando na boa, sem preocupação alguma. Por algum motivo me senti de novo como uma espécie em extinção.

Este desenho eu achei na web por acaso. Foi feito pelo Braga, um dos membros da P.A.D.A. Estava no Fotlog dele. Achei um estilão assim, desenho animado.
Grande Braga! Valeu a homenagem brother. Obrigado.

É, hoje o dia foi legal, como todos que o Senhor nos dá.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

JUSTIFICATIVA.

Boa noite pessoal, enfrentei alguns problemas para postar o conto do Zé Gatão "SECA CRUEL". E pelo visto as dificuldades continuam. Algumas pessoas me contataram para dizer que não estão conseguindo visualizar o texto em seus computadores, visíveis mesmo somente as artes. É, assim fica difícil. Vou tentar remediar isto e posta-lo novamente assim que eu conseguir deslindar este mistério, pois no meu PC ele está claríssimo.
O chato é que eu passei link pra uma pá de gente em redes sociais afim de divulgar ao máximo este trabalho.
Mas vamos ter calma, devagar se chega lá.
Até qualquer momento.
Abraços a todos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ADIADO O CONTO DO FELINO.

Hoje seria o dia de publicar aqui um conto do Zé Gatão escrito por um amigo de infância. Ele o fez no mesmo ano em que o primeiro álbum veio a público; naquela época eu tinha na mente um projeto de trabalhar com alguns amigos, eles escreveriam o roteiro que bem quisessem para o gato e eu faria as artes. Cheguei mesmo a conversar com alguns astros consagrados da nona arte brasileira como Shimamoto, Cariello, Marcatti, Colin (que gentilmente recusou), entre outros, para criar umas pin ups que intercalariam com as HQS.
Apenas dois roteiros foram escritos, um foi de um talentoso escritor radicado em Brasília chamado J. G. Pinheiro e outro do meu amigo Luca. Meu irmão Gil teve uma ideia legal mas não chegou a desenvolver. Bem, a coisa, como muitos planos que eu tinha na época, não vingou. Estava tão atarantado naqueles dias que fui adiando, adiando, e....a coisa morreu antes de nascer.
O texto do Pinheiro era divertido, mostraria uma outra faceta do personagem, um lado pouco visto que era o do humor. Nunca pude desenha-lo. Pena. Já o texto do Luca, ah, este ficou na minha cabeça por anos a fio. Ele entrou com perfeição no universo caótico e violento do personagem! Uma narrativa a "la Mad Max", cheia de diálogos de efeito. Não queria substituir as palavras que só ele sabe usar por desenhos, então pensei em mante-lo como foi concebido e desenhar algumas cenas para ilustrar. Outra ideia que foi sendo adiada, adiada.....até que ficamos sem nos falar por uns anos. Não pensei mais no assunto até restabelecermos contato. Ele lembrou da história e tudo recomeçou. Reescreveu o argumento tornando-o mais enxuto e eu, apesar da falta de tempo, me esforcei para desenhar alguns momentos da ação. Ficou tudo pronto. Só que não consigo salva-lo no blog. Por isto eu disse que hoje SERIA o dia de posta-lo. Na verdade já me aconteceu antes. O conto do anão publicado dias atrás, foi sendo escrito em partes no gmail. Eu ia enviando pra mim mesmo. Depois de concluído, eu selecionei, cliquei "copiar" e depois dei "control V" no blog. Já tinha feito isto antes sem problemas, mas desta vez o que se viu foi uma massa onde deveriam estar os textos. Resolvi o entrave, mas pra dizer a verdade foi sem querer, Não sei que botão eu apertei ou o quê. O fato é que o mesmo se repetiu em relação ao conto  do gato, só consigo visualizar os desenhos.
O negócio é que até hoje não sei mexer direito neste blog. Vou quebrar a cabeça aqui, apesar de estar com alguns prazos apertados, para ver se na segunda que vem, finalmente este conto vá ao ar.
Até lá, bom final de semana pra todos vocês.



Ah, a arte de hoje? Foi uma tentativa de fazer um desenho pra uma revista de colorir para os kids. Chinfrim, né?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

BIRDS


Gustavo Duarte é o único quadrinista desta nova geração com quem tenho contato, e cá pra nós, tá de bom tamanho. Com raríssimas exceções, não costumo simpatizar com estes artistas. Falta humildade em boa parte deles. Conversei um pouco com o Caco Galhardo em Brasília num evento comemorativo sobre Dom Quixote faz uns anos e não gostei do cara. Sei lá, acho que boa parte destes cartunistas, talvez pensem que publicando um ou dois livros com suas tiras os tornem superiores ao demais mortais. Bom, vai ver eles são mesmo e eu, um bobão, não consiga perceber.

Encontrei o Gustavo quando estive em Sampa em fevereiro deste ano e tomamos uma cerveja, na verdade cerveja é modo de dizer, ele tomou uma caipirinha de vodca e eu uma coca com gelo e limão (acho que o mestre Shima se enganou quando disse que eu era o Bukowski dos quadrinhos). O cara é simpático, bem antenado, transborda bom humor e talento pelos poros. Pessoas assim faz um bom contraponto com um cara "seco" como eu.

Seu terceiro álbum independente, BIRDS, fez sensação quando foi lançado nos EUA, e aqui pelo que soube não foi diferente. Muito merecido. O caminho dele já está traçado, é sucesso sem sombra de dúvida, e vamos ouvir falar muito nele ainda.

Birds, assim como seus dois projetos anteriores, CÓ e TAXI, são narrativas mudas, com tons surreais e por vezes pontuados por um humor macabro. Dá gosto sorver aqueles traços limpos e elegantes. Ele manda muito bem, e olhe que curto muito caras como o Peter Kuper, mas confesso que em algumas histórias mudas dele, eu tive que ler até duas ou três vezes para captar a ação, inclusive na série Spy x Spy da Mad. Até agora o Duarte não deixou a peteca cair.
Seus antropomorfos são um espetáculo à parte.

Recebi a minha Birds esta semana, veio com um brinde muito legal (brigadão brother).
Se você ainda não conhece, sugiro que corra atrás, a Có está esgotada, as outras duas, eu creio, vão pelo mesmo caminho.
Só tem um problema, a gente chega no fim da história querendo mais. E que venham mais.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

MAIS UM ÁLBUM DE JOSÉ ROOSEVELT.


Já disse isto antes mas não custa repetir: não consigo entender como um artista do quilate do José Roosevelt ainda permanece desconhecido do público brasileiro, digo desconhecido por saber que nenhum dos seus álbuns foi publicado em editoras tupiniquins. Não me digam que os editores nunca ouviram falar dele, estes caras são, imagino, antenados. Pensando bem talvez não sejam. Ah, deixa pra lá. O importante é que este maravilhoso artista continua criando suas soberbas pinturas surrealistas e produzindo seus fantásticos álbuns de quadrinhos para alegria dos europeus. Nós aqui ficamos só na vontade. Mas uma hora, tenho certeza, esta falha será corrigida. Quem sabe amanhã eu receba a visita de um advogado dizendo que um tio que eu nunca conheci, faleceu e me deixou uma herança milionária? Eu abriria uma editora e publicaria todos os álbuns dele. Pagaria uma boa grana ao Arthur Garcia para ele fazer o álbum que quisesse, mas primeiro nós republicaríamos em álbuns de luxo a PIRATININGA e AS AVENTURAS DO RENATO CAIRO. Teríamos também o PET do Nestablo. Só cara fera e gente boa, nada destes quadrinistas bundões presunçosos.
Meu, como é bom sonhar!
Mas voltando à realidade, fiquem aí com algumas páginas do novo álbum do José Roosevelt.
Abraços fraternos pros rapazes, e beijos (de irmão) pras gatinhas.
Até.






domingo, 11 de setembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILICIAS ( 01 )


Sei lá, existem personagens que mesmo sendo um merda cativa a gente. Por exemplo, no cinema temos o Tuco, aquele sujeitinho execrável que rouba a cena no clássico O BOM, O MAU E O FEIO ( Três Homens Em Conflito, como foi chamado aqui), o Alex, do memorável LARANJA MECÂNICA (livro e filme), os personagens de John Voight e Eric Roberts no EXPRESSO PARA O INFERNO, o coronel nazista malucão de BASTARDOS INGLÓRIOS, e... bem, a lista é grande. Os quadrinhos estão abarrotados de elementos assim; eu diria que o Justiceiro, Wolverine e Kraven são do tipo. Agora existem personas com as quais não simpatizo de jeito nenhum, o cara é um bosta e fico torcendo para que ele se lasque da pior forma possível. Lembro de um álbum do espanhol Jaime Martin chamado VIDA LOUCA (lançado no Brasil pela Conrad), tem uma ótima história, mas o protagonista pra mim é um verme. Não sei, não aceito o camarada se enveredar pela vida do crime com a justificativa de que não teve outra escolha.
Um personagem que nunca gostei foi aquele do John Travolta em PULP FICCION, criatura insuportável, já o do Samuel L. Jackson no mesmo filme é um tipo cativante.

Em Memórias De Um Sargento De Milicias, do Manuel Antonio De Almeida, temos o menino Leonardo, um tipinho que odiei da primeira à última linha. O romance é soberbo, mas a figura central desde a sua infância à vida adulta não me despertou nenhuma simpatia (não posso dizer o mesmo do pai dele).
Acho que tenho estas impressões porque conheci muitos sujeitos (e sujeitas) assim durante a minha vida. Parasitas, espertalhões, gente que apronta das suas e te empurra pro buraco no lugar dele.

Minha primeira memória de uma pessoa assim, data de bem cedo, no início dos anos 70. Um primo que convivi durante na tenra idade e tornou a minha infância um inferno (pelo menos no período em que fui obrigado a partilhar espaço com ele). Não foi fácil.

Ouso dizer que infelizmente o mundo sobeja este tipo de ser humano, e até mesmo de animais (podem acreditar).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

MAIS UMA CAPA REJEITADA.

Boa noite pessoal. A passagem por aqui hoje é rápida, foi um dia atribulado com várias pequenas coisas para fazer, e ainda não acabaram, sem contar que preciso terminar uma ilustração até a hora de me recolher.

A reedição do livro DESENHANDO ANATOMIA - FIGURA FEMININA ( esgotada faz tempo ) breve estará disponível numa versão revisada e ampliada. Para tanto me pediram uma nova capa, a primeira que fiz foi recusada por estar sensual demais, fiz uma segunda tentativa ( esta que apresento hoje ) e nem me deram retorno. Pelo visto não curtiram.
A capa terá a mesma arte da primeira edição com algumas mudanças nas letras e diagramação. O livro está de encher os olhos. Muito bacana mesmo. Eu aviso aqui quando ele estiver disponível para venda.

Se Deus quiser, semana que vem pretendo postar um conto do Zé Gatão escrito por um amigo de infância e ilustrado por mim. Yeah baby, diversão garantida com o felino sombrio, animais cheios de testosterona  chutando o pau da barraca!
Até lá.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

MEA CULPA

Eu tinha 17 anos quando sai de casa. Eram meados do ano de 1979. A expressão mais correta, embora me cause desconforto admitir, era fuga. Sim, eu fugi de casa. Porquê? Durante muitos anos eu enganei a mim mesmo que foi por causa da primeira mulher que eu amei. Ela era capixaba, mas criada no Rio de Janeiro. Era mais velha que eu oito anos. Eu estava completamente apaixonado e sei que ela me amava também.
Dois anos antes eu tinha ido à chamada Cidade Maravilhosa visitar uns amigos, foi quando a conheci. Romântica, imatura, sonhadora e muito inteligente, alegre, espirituosa. Tendencia a engordar, cabelos negros lustrosos e fartos, sempre perfumada e com lábios doces como o mel. Eu, como alguns indivíduos nesta faixa de idade, sonhava com um amor perene. Foi uma cilada na minha vida. Ficamos amigos a princípio. Passeios na Quinta da Boa Vista, cinema, nada de praia. Falávamos dos nossos anseios e o que nos frustrava. Ela, traída por um noivo do sul, eu, da primeira menina que despertara meu interesse na escola, na quinta série.
Numa noite fria no ponto de ônibus, ela ofereceu os lábios, eu, tímido, fingi que não percebi. Podia ser que eu estivesse enganado.
O primeiro beijo de fato aconteceu um bom tempo depois, quando ela veio me visitar em Brasília durante a Semana Santa. Foi um fim de semana apenas, mas parece que durou uma vida. Nos beijávamos tanto que fiquei com os lábios sensíveis e doloridos. Nos correspondíamos semanalmente. Enumerávamos as cartas. Eram missivas de quinze, vinte páginas, uma que ela mandou continha trinta páginas, descrevendo sua rotina e muitas, muitas promessas de amor. Certa vez ela me ligou. Era pra ser rápido. Durou mais de quarenta minutos num tempo em que tarifas telefônicas eram caríssimas. Ouvir aquela voz cristalina quase me fez desfalecer. Foi nesta ocasião que a família dela soube que ela tinha um romance com o rapaz da Capital Federal oito anos mais novo. Começaram as pressões.

Minha relação com meu pai sempre foi muito delicada. Havia muita tensão. Naqueles idos de 70, eu já não conseguia mais viver dentro de mim. Me sentia terrivelmente solitário após a morte da minha avó. Num certo dia, apoiado pela amada, comprei uma passagem de ônibus, arrumei umas peças de roupa e me evadi de casa, sem nenhum tostão no bolso. Deixei uma carta para meus pais dentro do cofre. Eu ia ligar  assim que chegasse ao meu destino. É curioso, naquela época eu ouvia muito Beatles em fitas cassete num velho gravador (não tinha dinheiro para comprar os álbuns) e um dos principais era o "Sargent Peppers", em particular a faixa She´s Leaving Home. A melodia me entristecia muito.
Se minha ligação com meu velho era difícil, o mesmo não se podia dizer da minha mãe, embora não fôssemos tão próximos naquela época como somos hoje. Mas o que me destroçou de verdade naquela fuga foi me separar dos meus irmãos. Eles eram tão novinhos e pareciam me admirar tanto. Eu fiz todo o trajeto entre Brasília e o Rio com os olhos banhados de lágrimas. Embora eu saiba que Deus, em Jesus Cristo, nos perdoa todas as faltas, eu não consigo me perdoar por ter me afastado deles aqueles anos, num momento em que minha presença era muito importante,  principalmente ao ligar da Rodoviária Novo Rio para minha mãe e avisar que me encontrava em outro estado, informar que estava bem, havia uma carta explicando minhas motivações e que não voltaria da mesma forma que saí. Eu não conseguia parar de chorar, mas estava determinado a dar um rumo na minha vida, pegar as rédeas do meu destino e muda-lo na marra.
Vou poupa-los da situação difícil que se seguiu até que aceitassem o fato que eu naquele instante estava fora.
Fiquei na casa de um amigo, seria por pouco tempo até que eu me acertasse. Meus planos consistiam em arrumar um emprego, continuar meus estudos e nunca me separar da namorada.

Fui vela apenas na segunda de manhã bem cedinho quando ela se dirigia ao ponto de ônibus para trabalhar. Eram umas seis da manhã, com os olhos inchados de sono, ela ficou chocada de me ver ali. Acho que não pensou que eu tivesse coragem de fazer o que eu dizia nas cartas. Fiquei desapontado, esperava que ela se atirasse nos meus braços e mitigasse a minha sede dos seus beijos. Não foi assim, mal deu pra conversar, seu ônibus se aproximava, ela se foi com a promessa de ir em casa à noite. Assim o fez, mas algo havia mudado. Ela me propôs que ali próximo de onde morávamos, nos comportássemos como amigos apenas, longe, seríamos nós mesmos, viveríamos o nosso idílio. Concordei a contragosto. Certa vez na faculdade em que ela estudava, ela me apresentou aos amigos como um amigo de Brasília.
Era o começo do fim, mas não deste relato. Brevemente voltaremos a ele, se Deus quiser.