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domingo, 29 de novembro de 2015

LÍGIA - Um conto sobre ZÉ GATÃO escrito por Luca Fiuza e ilustrado por Eduardo Schloesser.

CAPÍTULO 1 – O VALE

Zé Gatão nunca foi do tipo de ficar lamentando o que passou. Não indefinidamente. Certa manhã levantou da cama, comeu de maneira frugal e resolveu partir. Juntou seus poucos pertences, deixando sem olhar para trás a cabana que habitara por várias semanas. No caminho, passou na cabana do velho alce não muito distante da que fora sua, pagou o aluguel e seguiu viagem, internando-se na floresta. Envergava um casaco grosso bege e uma camisa azul escura surrada. Usava uma calça azul de sarja e calçava botas pesadas de couro cru.
Ao por do sol, o felino cinzento chegou a um belo vale florido e adentrou pela rua principal de uma pequena cidadezinha de lenhadores. A luz avermelhada do sol poente atingia o cimo das montanhas nevadas ao fundo, fazendo a neve cintilar como cristais cuidadosamente polidos. Um rio de águas turbulentas não tão distante corria pelo leito pedregoso desaparecendo na fímbria da floresta de coníferas que cercava o vale.

Ao entrar na única hospedaria ainda na rua principal, percebeu a hostilidade no ar. Só havia ursos ali. Ao que parece, não gostavam de estranhos. Foi atendido de maneira rude e displicente por uma enorme ursa de óculos, provavelmente a dona do estabelecimento. Ela trajava um pesado casaco de frio preto. O felino taciturno assinou o registro e então a chave esverdeada pelo azinhavre do quarto que ocuparia foi jogada grosseira e ruidosamente no balcão. O gato retirou-se sem uma palavra, sentindo a antipatia de todos aqueles olhares sobre ele.
No dia seguinte, após o café da manhã foi procurar trabalho na serraria que vira ao chegar à pequena urbe.
Um urso gigantesco veio atendê-lo. Em sua voz não havia calor, mas uma frieza glacial.
- Sou o capataz Rotundo. O quer aqui, felino?
- Trabalho. – Respondeu Zé Gatão lacônico.
A risada alta e profunda do enorme urso atraiu a atenção dos lenhadores que chegavam para a labuta. Todos eram ursos grandes, feios e com caras de poucos amigos. Ainda rindo, Rotundo disse:
- Você até que tem um físico impressionante, felino! Mas ser lenhador é bem mais que braços grandes e peito largo! Você quer trabalhar aqui? Bem, está vendo aquele pinheiro ali? Tome este machado e bote ele abaixo se puder! – O urso riu de novo e todos os outros com ele.
Sem nada retrucar, Zé Gatão tirou o casaco e o jogou ao chão. Pegou o pesado machado das mãos de Rotundo.


O felino caminhou até o pinheiro e após algumas sonoras machadadas, a enorme árvore como que ferida de morte tombou ao solo com estrépito. Impressionado, Rotundo dirigiu-se a Zé Gatão em um tom menos frio, mas seco:
- Está contratado, gato. Você entende do riscado. Vá com o pessoal. Eles vão te explicar a cota diária de madeira que tem que ser levada à serraria. O almoço será naquele galpão ao lado da serraria. É só. – Retirou-se abruptamente.

Zé Gatão e os demais trabalharam a manhã inteira, derrubando árvores e serrando madeira. Os companheiros de trabalho não o tratavam mal, mas eram secos e monossilábicos. Somente um deles foi um pouco mais loquaz, dando explicações detalhadas sobre o trabalho, regras, horários e pagamento. Tendo terminado sua explanação, passou a ter com a mesma postura distante dos demais. Zé Gatão não se importou. Não estava ali para fazer amigos e sim para trabalhar. Além disso, preferia a solidão e o isolamento.
Na serraria, a sirene soou para chamar os trabalhadores para o almoço. Era uma comida simples e saborosa, enviada pela ursa dona da hospedaria. Todos comeram em silêncio e o pouco que se falou foi apenas para que alguém passasse o sal ou alguma travessa de comida mais distante. O clima era pesado e Zé Gatão o atribuiu à sua presença. Logo que juntasse algum dinheiro partiria para nunca mais voltar deixando cair no total esquecimento aquela estranha comunidade de ursos que vivia enfurnada naquele vale. Depois de uma pequena pausa após o a almoço o trabalho foi retomado e durou até o fim do dia. Assim foi a semana inteira.


        No princípio da noite de sexta-feira, um Zé Gatão limpo, cabelo amarrado no costumeiro rabo de cavalo, casaco cinza escuro, camisa quadriculada, estilo lenhador, calça de brim marrom e botas pretas sentou-se à mesa no amplo salão de um bar não muito longe da hospedaria. O local estava cheio de ursos grandalhões, a maioria trabalhava na serraria com Zé Gatão. Conversavam baixinho entre si, ignorando completamente a presença de Zé Gatão. Este nem dava pela coisa, mergulhado que se achava em seu mundo interior. De repente uma voz forte e profunda despertou o felino de seu devaneio:

- Posso me sentar aqui? – Zé Gatão encarou seu interlocutor e reconheceu o urso Rotundo, capataz da serraria. O felino cinzento respondeu em tom neutro: - Por que não? Se estiver a fim de se encrencar fique à vontade. – O urso riu da observação do gato.

- Você é perspicaz e gosto disto! Posso te pagar uma cerveja? Como você já notou, o povo daqui é esquisitão e não gosta de estranhos. Eu já morei em outras paragens mundo a fora por algum tempo. Expandi meus horizontes mentais. Ao contrário de mim, meus concidadãos são tradicionais, e avessos a mudanças. Pode estar certo que vão me ver com fumaça nos olhos por ter me sentado à sua mesa.

- Você não me pareceu muito diferente deles esta manhã.

- Velhos hábitos são difíceis de mudar completamente! – Riu Rotundo, piscando um olho. – A verdade é que simpatizei contigo. Sabe trabalhar e sabe ficar na sua. Notou, não? A turma está nos olhando feio! Eles que se fodam! Joel traga a cerveja! – Gritou Rotundo para um urso velho atrás do balcão.

- Tem certeza, Rotundo? Não estou muito a fim de servir esse estranho! – Rotundo ergueu a manopla direita e vociferou:

- Traga essa bosta agora ou eu mesmo vou aí pegar e de brinde te afundo o crânio!

- Está bem, está bem! Não precisa se enervar! – E correu logo a servir dois canecos de cerveja fresca a Rotundo e a Zé Gatão. Rotundo olhou ameaçadoramente em volta e urrou:

- E vocês bando de idiotas?! Parem de me olhar como se nunca tivessem me visto! O gato é meu convidado e quero que ergam um brinde a ele agora mesmo! – O brinde foi feito com muita relutância e em lugar de vivas, resmungos guturais foram proferidos pelos presentes, enquanto erguiam seus canecos de cerveja de má vontade.

- Considere isso uma ovação, felino! Para estes palhaços essa merda que fizeram já é muita coisa! Aqui somos todos aparentados! A dona da hospedaria é minha prima em terceiro grau! Deixe comigo que esse grupo de imbecis vai melhorar contigo. Principalmente a minha prima.

- Não precisa se incomodar. Não vim aqui para ser o queridinho de ninguém! -Falou Zé Gatão com certa ironia, bebericando sua cerveja, a qual quis pagar do próprio bolso. Rotundo não questionou, mas um brilho fugaz em seu olhar revelou sua contrariedade. Zé Gatão aparentou nada perceber.

- Faço questão! Chegou a hora de essa turma ser um pouco mais civilizada para variar!

Zé Gatão decidiu encerrar a conversa naquele instante. Pediu licença e se retirou. Estava intrigado. Por que contra todas as expectativas, Rotundo se aproximara de maneira amigável? Soava estranho. Quais seriam as verdadeiras intenções do urso?



        Amanheceu um ensolarado sábado de outono. O ar estava frio, mas não muito. O céu sem nuvens. Zé Gatão pulou da cama cedo. Tomou um canecão de leite quente grosso e devorou uma pilha de panquecas com mel silvestre. A dona da hospedaria tratou-o de maneira afável, mas o esforço que fazia para ser gentil era evidente. O felino cumprimentou-a rapidamente e logo saiu daquele ambiente desagradável. Dirigiu-se à beira do rio caudaloso, de águas agitadas em busca de tranquilidade.


CAPÍTULO 2 – À BEIRA DO RIO

     
       Caminhando despreocupadamente em direção ao rio, o felino sorumbático viu uma silhueta feminina sentada em uma pedra junto às águas. O fato de ser uma felina o surpreendeu, pois não esperava encontrar um membro de sua espécie naquelas plagas. Ela estava de costas para ele, encarando o leito do rio, completamente absorta em seus pensamentos. Quando notou a presença de Zé Gatão sobressaltou-se, e um gritinho de susto escapou-lhe dos lábios. Virou-se. Era de uma beleza quase angelical. Cabelos fartos e escuros que desciam em ondas por seus ombros estreitos, pele de alvura intensa, olhos de um verde esmeraldino cintilante. Um suéter de lã vermelho, calça azul de brim e botinhas marrons completavam seu visual suave e delicado.

- Desculpe, senhorita. Não pretendia assustá-la, eu...! Espere! Eu conheço você! Lígia? É você mesma?

- Zé Gatão? Não acredito! – Os dois se abraçaram ternamente. Na adolescência tinham sido amigos e tiveram um rápido namorico. A família dela era rica e de muitas posses. O felino cinzento conheceu Lígia em uma festa na mansão dela, onde seu amigo Félix o levara certa vez. A afeição entre os dois surgiu naturalmente. Ele frequentava a casa dela ocasionalmente e os pais da jovem gostavam muito dele. Um dia Lígia e sua família tiveram que partir.  Zé Gatão nunca mais teve notícias deles nos anos que se seguiram. Agora naquele fim de mundo a encontrava outra vez.
- Ouça, gato, precisamos recuperar o tempo perdido, venha nos ver, meu pai vai adorar revê-lo. Almoce conosco amanhã, pode ser?
-Olha, Lígia, não sei...
-Que isso? Sem graça conosco? Não aceito não como resposta. Venha amanhã as 13 horas, É só seguir por esta trilha e você verá um casarão. É o único nesta direção, não tem como errar.
-Tudo bem então, vou tirar a folga amanhã no segundo período. Será mesmo bom conversar com amigos generosos pra variar. Agradeço muito.
A fêmea sorria e olhava ternamente o felino mestiço, se perguntando porque aquele relacionamento afetivo, hoje tão distante, entre eles, não seguiu adiante. Talvez não fosse pra ser. Ao fitá-lo e tentar sondar os mistérios daquele guerreiro sentiu que com ele ela poderia ter sido feliz de verdade. Ao seu lado sentia-se segura.
- Preciso ir agora - disse o felino - nos vemos amanhã, então?
- Combinado, esperarei ansiosa.

Capítulo 3

Na hora marcada, Zé Gatão tocava a campainha da elegante mansão construída em estilo antigo e clássico, bem ao gosto do senhor Edgar, pai de Lígia. Foi recebido pelo mordomo, um dálmata muito alto e magro, usando a costumeira indumentária dos mordomos, um fraque cinza impecavelmente bem passado. O felino mestiço foi conduzido a uma ampla sala onde Lígia e o senhor Edgar esperavam. Este era um felino alvo como a filha, um tipo largo, denotava energia física e mental.
Recebido com efusão por pai e filha, Zé Gatão sentiu uma paz de espírito que a muito tempo não experimentava.  Um serviçal, um gato preto gordo atarracado de terno branco chamou-os para o almoço. A sala de refeições era portentosa. A imensa mesa de banquete estava repleta de iguarias finas e variadas. Sentaram-se em cadeiras macias de espaldar alto. O mordomo sempre a postos os serviu com diligência
O almoço delicioso, regado por duas garrafas de um bom vinho tinto suave, foi saboreado com vagar e prazer pelos comensais. A conversa era fácil e descontraída. Junto com um monumental pudim de leite de sobremesa foi servido um licor de doze anos, envelhecido em barris de madeira e produzido pelo próprio senhor Edgar em sua propriedade. Após a refeição foram para a biblioteca e ao pé da lareira acessa, se acomodaram, Zé gatão e Lígia num macio sofá de veludo vermelho e Edgar numa poltrona do mesmo material.
- Lígia comentou que o senhor trabalha hoje mais do que nunca! Comentou o mestiço com um sorriso afável no rosto.
- De fato. Produzo uma variedade de artigos, até mesmo material bélico para o Governo, mas depois abandonei o ramo. Como poderia eu coadunar com os horrores da guerra e ganhar dinheiro com isto? Um verdadeiro absurdo, não?
- Realmente é difícil para mim vê-lo como um belicista.
-Na verdade nem eu mesmo sei como entrei nesta história, acho que fiquei embriagado com os lucros que se obtém criando armas, foi a convite de um amigo, mas me livrei disso assim que foi possível!


Lígia a tudo ouvia com atenção, concordando silenciosamente com seu pai, olhando-o com indisfarçável orgulho e muita ternura. Lentamente, se ergueu da poltrona onde estava sentada e disse: - Vou providenciar um chocolate quente para nós. – Zé Gatão e o senhor Edgar concordaram. Enquanto a jovem saia para providenciar a feitura, os dois continuaram conversando animadamente.

- Vim para cá há alguns anos com Lígia e encontrei esta estranha comunidade de ursos vivendo em condições precárias. Investi no corte de madeira e na produção de artigos feitos deste material. Mandei construir a serraria, a cidade, a hospedaria e dei emprego para todo mundo. No início me rejeitaram, mas como provei minhas boas intenções fui aceito como membro honorário da comunidade.
- É...! A turma aqui é bem hostil.

- No fundo são bons quando se aprende a conhecê-los. Amanhã haverá um tradicional almoço na hospedaria da velha ursa e eu gostaria que você estivesse presente, Zé Gatão. Por sinal, amanhã você vai ficar hospedado aqui casa. Eu e Lígia gostaríamos muito.

- Não quero incomodar.

- Não diga bobagens! Você é sempre bem-vindo.

- Obrigado, senhor. Sinto-me em casa aqui.

- Esta é sua casa.


CAPÍTULO 3 – CAFÉ DA MANHÃ NA HOSPEDARIA

Amanheceu um domingo cinzento e muito frio. Zé Gatão apareceu no refeitório às 10 horas da manhã e tomou com prazer a lauta refeição que a velha ursa serviu. Ela parecia um pouco mais bem humorada naquela manhã e até serviu uma quantidade extra de panquecas e mais de uma vez encheu a caneca do gato de leite quente e fresco. Havia vários ursos de diferentes idades nas diversas mesas. Todos expressavam um desusado bom humor, rindo e falando alto Até cumprimentaram Zé Gatão com uma certa efusão. De repente, Rotundo adentrou no refeitório, saudou a todos e foi sentar-se à mesa do felino taciturno.
- Você deve estar se perguntando que bicho mordeu todo mundo, não é? Hoje é o dia do nosso almoço anual. Até aquela minha velha prima dona desta bosta melhora a cara neste dia! Além disso, todo mundo ficou sabendo que você é amigo do nosso benfeitor! Isto marcou ponto para você na longa estrada da aceitação.
- Assim você me faz chorar!

- Felino! Sua ironia me agrada! Realmente me agrada! Por aqui ninguém sabe o que é isso! Todos! Sem exceção!  São abrutalhados! Para eles é oito ou oitenta! O Edgar e sua filha trouxeram um pouco de civilização que respingou um pouco nessa súcia de broncos! Aprenderam com pai e filha rudimentos de boas maneiras! Você vai ver esses boçais se desmanchando em salamaleques e rapapés quando nosso benfeitor e sua cria aqui chegarem. Verdadeiros arremedos de Ladies e Gentlemen! Tragicômico!
- Você fala como se fosse diferente deles. – Observou o felino cinzento olhando o urso no fundo dos olhos.
- Na essência sou a mesma merda, mas eu vivi um tempo fora daqui. Tive acesso a outras experiências, as outras ideias!
- E isto o torna melhor do que eles, em sua opinião.
- De certa maneira sim, meu amigo. Tanto é que eu fui o único além de você que foi convidado a visitar a mansão de Edgar e passar o dia com ele e a menina Lígia. Qualquer outro urso ou ursa daqui que fosse seria como um elefante em uma loja de cristais! Um desastre total!


CAPÍTULO 4 – A CONFRATERNIZAÇÃO

         A hospedaria possuía um salão de eventos contíguo ao refeitório. O grande almoço seria realizado lá. Uma enorme mesa de banquete estava sendo arrumada sob a supervisão cuidadosa da dona do local.
        Ao terminarem o café, Zé Gatão, Rotundo e alguns ursos se acomodaram em uma espaçosa sala de estar aquecida por uma lareira acesa. Toras de madeira chiavam baixinho no fogo e exalavam um perfume amadeirado bastante agradável. A conversa corria solta e alegre da parte dos ursos. O felino taciturno denotava uma postura mais reservada, considerando intimamente que naquele momento achava seus interlocutores quase simpáticos. A gargalhada alta de Rotundo enchia o ambiente e de todos os presentes era por quem Zé Gatão sentia certo apreço.
        Eram quase onze e meia da manhã daquele dia soturno de céu encoberto, quando o senhor Edgar chegou com Lígia à hospedaria. Foram introduzidos na sala de estar e foram recebidos com deferência pelos presentes. Edgar sorriu e disse: - Deixem dessa formalidade, meus amigos. Não sou político e nem quero ser tratado como se fosse. Sirvam-nos um bom conhaque! Está malditamente frio lá fora! – Lígia saudou a todos. Sua postura graciosa e cheia de simpatia encheu de calor e ternura aqueles corações rudes. A conversa prosseguiu mais animada ainda.  Edgar quis saber como andava a produção de madeira, especialmente a que iria servir de lenha. Era preciso fazer um bom estoque, pois ao que parecia, o inverno iria chegar mais cedo este ano.
        O almoço transcorreu no mesmo clima alegre e descontraído. A farta refeição foi consumida, assim como a sobremesa, uma bela torta de amoras silvestres. Foram servidas também bebidas quentes como chá, leite e chocolate. Foi uma farra. Como de costume, Edgar entregou uma extensa lista de compras a ser feita no dia seguinte na cidade mais próxima, de modo que não passassem necessidade durante o inverno que naquela região era bastante rigoroso. Ao fim do almoço, Zé Gatão e Lígia saíram para dar uma volta e Edgar reuniu-se com os ursos e as ursas, de novo na sala de estar, para tratar de assuntos mais sérios referentes à comunidade.
        Lígia e Zé Gatão foram para a beira do rio, ficando no mesmo local onde tinham primeiramente se avistado. Momentos depois, durante uma conversa amena, cada um falou um pouco sobre si e Lígia com os olhos brilhantes revelou que estava noiva de um jovem gato membro de uma rica e importante família do leste, um antigo namorado dos tempos de Ensino Médio. Os dois se reencontraram em uma viagem no exterior pouco depois do falecimento de da mãe de Lígia, fato que entristeceu Zé Gatão ao saber da terrível e incurável doença que a vitimara. Nunca esquecera os cuidados que ela sempre lhe dispensara como se ele fosse seu próprio filho.
O jovem nubente se chamava Jonas. Ele estava se formando em medicina na cidade onde nascera. Na primavera viria buscar Lígia. Casar-se-iam ali. Depois partiriam para viver na cidade natal de Jonas. Zé Gatão ficou feliz pela querida amiga, mas alguma coisa lhe dizia para não estar mais ali quando o pretendente à mão da jovem voltasse.


CAPÍTULO 5 – INVERNO

        Como previsto, o inverno chegou mais cedo aquele ano. Veio rigoroso e gélido. Zé Gatão estava hospedado na casa de seus amigos o senhor Edgar e Lígia.  Aqueles dias pareciam um idílio sem fim. Colocaram muita conversa em dia e Zé Gatão ampliou seus conhecimentos com aqueles papos edificantes.  Também Lígia e Edgar beberam na fonte de conhecimentos do felino sobre a vida dura nas cidades, as diferenças sociais e culturais, os preconceitos, a dificuldade de preencher as necessidades básicas e toda a conturbada vivência dos mais desfavorecidos dos quais a classe mais abastada a que pertenciam Edgar e Lígia só tinha um pálido vislumbre. É claro que viver mais simplesmente não era apenas um repositório de sofrimentos. Havia também a liberdade de ir e vir, novas experiências a cada dia.

        Quando o tempo melhorava, Lígia e Zé Gatão iam passear nas imediações ou patinar no lago gelado que se situava atrás da propriedade. Em uma dessas oportunidades, Lígia falou mais um pouco sobre seu noivo e disse que gostaria que Zé Gatão o conhecesse. O felino replicou gentilmente que partiria assim que o inverno findasse. A jovem pediu que ele ficasse. Seu tom de voz sentido e o brilho das lágrimas que começavam a brotar de seus olhos fez com que o gato com pena da amiga querida, reconsiderasse. Seu sexto sentido dizia para que partisse, mas seu coração falou mais alto. Patinaram mais um tempo no lago congelado e até brincaram de guerrinha de neve como duas crianças. Às quatro horas da tarde começou a escurecer e o frio aumentou. Era hora de voltar a casa. No horizonte uma tempestade de neve se avizinhava.

        À noite, junto ao fogo de uma boa lareira em uma saleta aconchegante, enquanto a nevasca rugia lá fora, os três conversaram sobre Literatura, Cinema e Música. Neste particular, Zé Gatão contou sobre sua amizade com o famoso guitarrista Marco Catnopler e suas várias experiências como DJ em rádios, discotecas e inferninhos. Pai e filha também tomaram conhecimento o período em que o felino trabalhou para o mega empresário da música Ovinus Lanosowick. Começou tudo muito bem. O trabalho era interessante e bem remunerado. Depois descobriu a apavorante verdade por trás da aparente normalidade de Ovinus. A terrível luta com o glutão para escapar daquele covil emocionou Lígia e Edgar. Os dois observaram que Zé Gatão poderia ter perdido a vida ao enfrentar uma fera tão monstruosa. A jovem felina e seu genitor se impressionaram muito com o desfecho da narrativa e lamentaram que um indivíduo de tal proeminência como Ovinus, desperdiçasse sua vida perdido em sua melagomania destrutiva.


CAPÍTULO 6 – PRIMAVERA

        O longo inverno chegou ao fim e a primavera despontou festiva. Clima ainda um pouco frio, mas bastante agradável se comparado com as baixas temperaturas da gélida estação que findava. Zé Gatão resolveu voltar à hospedaria, pois no dia seguinte recomeçava o trabalho na serraria. Além disso, uma carta de Jonas comunicava a Lígia de que ele chegaria dali a três dias. Lígia queria que o felino cinzento aguardasse a chegada de Jonas na propriedade, mas o grande gato fez com que Lígia percebesse que não ficaria bem que seu noivo encontrasse outro macho por ali. Ele poderia interpretar mal. A jovem felina concordou a contragosto. Edgar elogiou a sensatez da decisão de Zé Gatão. Quando o jovem chegasse seriam devidamente apresentados, de modo a evitar qualquer interpretação errônea relativa às relações entre Zé Gatão e Lígia. Edgar acrescentou que achava o futuro médico um indivíduo bastante ponderado. Zé Gatão pareceu tranquilizar-se, mas não completamente.
        No dia seguinte, Zé Gatão e os ursos trabalharam forte, derrubando árvores, cortando madeira e levando as toras para a serraria através das agitadas águas geladas do rio. O clima entre o gato e os ursos estava bastante amistoso. Tanto é que depois do trabalho o chamaram para tomar umas cervejas. Ao que parece, sua amizade com o senhor Edgar, o benfeitor deles ajudou a quebrar o gelo.

         Em uma tarde relativamente mais quente, Jonas chegou e foi direto para a casa do senhor Edgar. Naquela noite foi oferecido um banquete para comemorar a chegada de Jonas. Todos os habitantes da comunidade foram convidados. Zé Gatão teve a honra de se sentar à direita de Edgar. Durante a farta refeição, o pai de Lígia ergueu um brinde aos prometidos. A sala estremeceu com os gritos entusiasmados. Ao fim da festa todos se retiraram menos Zé Gatão que permaneceu a pedido de Lígia e Edgar. O felino cinzento foi devidamente apresentado a Jonas como um grande e querido amigo da família.  Jonas foi polido, mas Zé Gatão sentiu nele uma animosidade camuflada, fruto de ciúme. Logo, o grande gato arranjou uma desculpa para retirar-se. Estava decidido. Trabalharia mais uns dias, pegaria seu dinheiro e partiria. Não sem pesar, pois adorava estar com Lígia e Edgar. No entanto, para que correr o risco de inadvertidamente causar uma briga entre Lígia e o noivo? Era o que ia acontecer de uma hora para outra. Guardou em sua retina o sorriso de despedida de Edgar, a face interrogativa de Lígia com sua rápida partida e a expressão contrafeita de Jonas, a boca em um beiçinho de contrariedade como um filhote mimado.

           Meio da tarde de mais um dia de trabalho, Zé Gatão havia se afastado dos demais. Em uma pequena clareira encontrou um pinheiro não muito grande e bastante interessante. Seu tronco era um pouco mais claro e suas folhas de um verde intenso. Quando se aproximou para derrubá-lo, sentiu uma presença. Voltando-se, viu Jonas se aproximando. Estava usando um casaco leve marrom claro, camisa de mangas compridas de cor azul marinho, calça e botas pretas. Era um tipo espadaúdo, físico atlético. Parecia forjado cuidadosamente em academia.  Dirigiu-se a Zé Gatão em tom meio ríspido:

- O que há entre você e minha noiva?
- Somos apenas bons amigos.
- Não me venha com essa! Quando ela fala de você os olhos dela brilham e...!
- Olha aqui, rapaz! Entre eu e Lígia não há nada mais além do que eu disse e além do que ela deve ter lhe dito. Ela é a pessoa mais sincera que eu conheço e para ela não existe outro! Só você!
- Sim, ela falou dessa amizade entre vocês dois! Mas a mim não engana! Ela me contou que você está aqui há muito tempo e passou todo o inverno na casa dela, passearam, patinaram juntos! Como é que ela pode fazer isto comigo?



- Não seja infantil...Jonas, não? Se ela estivesse te traindo não seria tão aberta com você. Não acha? Pense um pouco!
- E ela ainda troca confidências com você! Eu exijo satisfações! Quero um duelo!
- Não diga asneiras, menino!
- Não aceito sua recusa, covarde! Eu vou...! – Jonas avançou em Zé Gatão de maneira tresloucada, o felino taciturno o evitou facilmente e com um forte cascudo no alto da cabeça botou o esquentadinho para dormir. Rotundo e os demais se divertiram ao ver o gato chegar carregando Jonas inconsciente nas costas. O felino, no entanto, não estava achando graça nenhuma.

- Levem o garoto para casa do senhor Edgar. Digam a Lígia para colocar uma bolsa de gelo na cabeça dele. Vai precisar quando acordar. – Saiu para voltar ao trabalho sem esperar resposta. Estava contrariado. Poderia ter evitado o jovem sem bater nele, mas também no fundo o boboca merecia.

Ao despertar no princípio da noite, Jonas fez um escarcéu. Lígia não conseguiu acalmá-lo nem acabar com suas suspeitas infundadas.  Edgar o levou a seu gabinete. Ficaram fechados por mais de duas horas. Edgar conversou seriamente com ele, procurando chamá-lo à razão. O futuro médico saiu do local de cara fechada. Foi se desculpar com Lígia, mas passou o jantar trombudo respondendo de forma monossilábica quando se dirigiam a ele. Zé Gatão mergulhou no trabalho e achou melhor se afastar para não piorar a situação. Lígia compreendeu. Da parte dela, precisava convencer seu noivo de que ela realmente o amava.

        Uma semana se passou. Zé Gatão já havia acertado com Rotundo que no fim da semana seguinte pegaria seu pagamento e partiria. Porém, na véspera de sua partida, Edgar e Jonas apareceram na serraria na hora do almoço dizendo que Lígia havia ido passear na beira do lago com Jonas já mais calmo e disposto a conversar quando alguém agrediu Jonas por trás e levou Lígia. Um bilhete foi deixado no lugar em que ela estivera. Em linhas datilografadas pedia um resgate de alentado valor. O sequestrador deixara a marca de uma pata como assinatura. Era a sinistra assinatura de Garra, o lobo. Era um criminoso solitário que sequestrava só quem podia pagar seus fabulosos resgates.

         Toda a comunidade se mobilizou. Jonas e Edgar estavam desesperados. As buscas foram inicialmente infrutíferas. Edgar resolveu logo levantar a pequena fortuna e viajou às pressas para a cidade mais próxima. Enquanto Edgar estava fora, as buscas se intensificaram. O bandido de acordo com o bilhete dera três dias para que o resgate fosse pago. Edgar levantou o montante em um dia. Com sua volta, ele, Zé Gatão e Rotundo organizaram um plano para emboscar o sequestrador quando ele fosse pegar o dinheiro. Matreiro, o meliante conseguiu ludibriar seus adversários e fugir com o dinheiro na noite da entrega. Porém, o lobo não conseguiu escapar do cerco promovido pelos ursos e acabou capturado em uma trilha aparentemente pouco palmilhada. Sob a ameaça dos ursos ferozes, contou aterrorizado onde escondera Lígia. Zé Gatão pensou consigo que se estivesse no lugar daquele infeliz também falaria como um papagaio.
Lígia foi encontrada amarrada em uma velha cabana não muito longe da propriedade paterna. Foi solta por Jonas. Chorando ela se abraçou ao noivo.
Ao raiar do dia o lobo foi trazido da hospedaria onde estava preso e aprisionado em um poste. Um tribunal foi formado rapidamente na beira do rio. Todos estavam presentes. Alarmado, Edgar perguntou:
- O que está havendo aqui, Rotundo? Pensei que este bandido ia ser entregue à Justiça.
- A Justiça será feita aqui mesmo, Edgar! Aqui somos a Lei. Nós julgaremos e condenaremos este esterco que se atreveu a ameaçar a paz deste vale!
- Ei! Vocês não podem fazer isto! Conheço a Lei e conheço meus direitos! Vocês não podem...!
- Cala a boca, verme! Condenamos você à morte por crime de sequestro! Amordacem esse maldito! – O lobo foi brutalmente amordaçado.
- Você ficou louco, Rotundo?! Isso é assassinato!
Zé Gatão não conseguia crer no que estava presenciando.
- Quietos...! Não ousem tentar obstruir a Justiça ou teremos que considerá-los cúmplices deste bastardo! Levem Lígia, Edgar e Jonas para a hospedaria. Você fica felino! É durão o suficiente para assistir a execução. De todo modo, é bom segurá-lo se ele resolver bancar o herói.
- Não precisa urso...!  Nunca pensei que você e os seus fossem assassinos impiedosos!
- Não espero que você entenda! Não acreditamos nas Leis lá de fora! Não acreditamos nos ditos Governantes! Sempre tivemos nosso modo de viver, nossa cultura! Aqui é olho por olho, dente por dente! Esse lobo é um parasita que já desgraçou muitas famílias. Veja o que ele fez com nossa querida Lígia por dinheiro!  Coloquem a lenha! Acendam o fogo e tirem a mordaça! Quero ouvir os gritos deste lobo! – A lenha é jogada na base do poste e a mordaça é retirada. O lobo grita a plenos pulmões:
- Não! Esperem! Eu fui pago para vir aqui!
- Como?! – Rugiu Rotundo.
- Aquele gato Jonas me pagou para sequestrar a noiva!  Ele queria bancar o herói diante dela salvando-a! Ele sabia de tudo! Depois dividiríamos o resgate!
- Tragam Jonas aqui! – Urrou Rotundo. Jonas foi trazido não muito delicadamente e inquirido a respeito da acusação do réu.
- É mentira! Nunca vi esse lobo na minha vida!
- Rotundo! Abra os olhos! Não Vê que esse julgamento é cheio de falhas? Não dá pra saber quem está falando a verdade! Envie esses dois para uma cidade onde poderão ter um julgamento justo. Haverá uma investigação para descobrir a verdade. – A firmeza com a qual falou Zé Gatão calou fundo em Rotundo, mas a turba enraivecida começou a gritar: - Morte ao lobo e ao gato traidor!
Dentro da hospedaria, Lígia e Edgar pediam a seus captores que parassem aquele horror. Um silêncio obstinado foi a única resposta.
As coisas se precipitaram. Zé Gatão e Jonas foram seguros por dois ursos enormes. O lobo bramia
tentando se soltar. O fogo foi aceso aos pés do poste e atiçado. Assistir o lobo ser queimado vivo era grotesco demais. Seus uivos alucinados enchiam os ares e Zé Gatão desviou o rosto, enquanto o cheiro de carne queimada invadia suas narinas. Jonas desfaleceu de medo. Edgar e Lígia não viram, mas ouviram e estavam paralisados de terror.

O tribunal decidiu que Zé Gatão, Ligia, Edgar e Jonas deveriam deixar o vale para sempre. Jonas teve o benefício da dúvida que seus pares decidissem o que fazer dele. Teriam uma hora para reunir seus pertences e partir. Mais tarde, quando Lígia e Edgar arrumavam suas coisas no andar superior, Zé Gatão ficou sentado na sala com Jonas em silêncio. Não havia nada a dizer um ao outro. De repente, Lígia apareceu. As marcas das adversidades recentemente vividas estavam em seu rosto, mas ela estava calma. Jonas a olhou com ar assustadiço e choramingou:
- Lígia, você não acredita que eu...!
- Jonas, eu não sei o que pensar. O Jonas que eu conhecia não seria capaz de fazer algo assim. Mas o que realmente importa é que você não acreditou em mim. Você duvidou do meu amor e de minha sinceridade. Nosso noivado está desfeito.
- Mas...! – Nesse ínterim, Edgar apareceu.
- Lígia tem razão, rapaz. Um relacionamento se baseia em confiança e você demonstrou não ter confiança em minha filha, embora ela tenha sido sempre sincera com você.
- Mas eu...! A culpa de tudo é de Zé Gatão!
- Não, rapaz! A culpa é de sua imaturidade! Você não passa de um garoto mimado que tem ainda muito que aprender! – Disse Zé Gatão olhando seriamente para seu interlocutor.
- Ora seu...! – Jonas precipitou-se sobre Zé Gatão que o dominou facilmente.
- Você não aprende moleque! – Disse Zé Gatão torcendo o braço direito do encrenqueiro.
- Deixe-o. Não vale a pena se desgastar com ele. Não passa de um meninão sem juízo. – Replicou Lígia penalizada. De repente, Edgar gritou:
- Vejam quem veio nos buscar! Rotundo!
- Vim levá-los para os limites da floresta. Saibam que apesar de tudo, não queremos mal a você Edgar, muito menos a sua filha e também acabamos simpatizando com você Zé Gatão. Já a esse Jonas se quiserem deixá-lo aqui podemos assá-lo em fogo lento. – Jonas se encolheu amedrontado. O urso piscou um olho para os demais que suspiraram aliviados.
- Cuidei da sua criadagem, Edgar - falou o urso - coloquei-os em um trem que faz parada na cidadezinha mais próxima.  Eles já devem estar te esperando em uma de suas propriedades.
-Muito obrigado, Rotundo! Respondeu o gato.
Ninguém se despediu deles. Horas mais tarde guiados por Rotundo saíram da floresta diante de uma estrada onde o mordomo os aguardava com um luxuoso carro.
- Obrigado por tudo que nos deu Edgar. Obrigado Lígia pelo seu carinho e seus ensinamentos. Desculpem os outros! Não passam de uns broncos! – Lígia pediu que o enorme urso se abaixasse e beijou-o na bochecha.
- Deixei alguns livros para você, Rotundo. Filosofia, Direito, Existencialismo. Quem sabe poderão ajudar? - Observou Edgar apertando-lhe a manopla.
- Obrigado. Serão úteis para mim, mas se acredita que podem mudar as coisas por lá, desista. – Disse o urso sorrindo.
- Quem sabe, urso? Eu até posso entender a maneira de vocês pensarem. Mas pense nisso. Da mesma forma que vocês julgaram poderão ser julgados. Qualquer um de vocês um dia pode se ver um dia diante do mesmo tribunal inflexível que condenou aquele lobo e pense bem, pode ser uma criatura inocente. O modo de vida daqui de fora é imperfeito, mas tem seus méritos e pelo menos em muitos casos funciona.
- Vou pensar sobre isto. Talvez vocês todos tenham razão. Vou ler bastante e pensar.
- Menos mal! Há luz no fim do túnel! – Sorriu Lígia.
O gigantesco urso se despediu e apesar de tudo que acontecera, nem Zé Gatão e os demais não podiam deixar de gostar dele.

Deixaram o ex-noivo e o felino mestiço na cidade mais próxima. Como não havia a certeza de sua culpabilidade, Jonas foi mandado embora para que fosse se enforcar onde bem entendesse.

Zé Gatão se despediu de Lígia e de Edgar. Tristonhos, pai e filha entenderam que o lince taciturno não podia ficar com eles. Era um andarilho errante e para ele seria impossível fixar raízes em um só lugar. Havia um posto de gasolina a uns cem metros, ali foi a última vez que o viram.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

PRIMEIRO EVENTO DE QUADRINHOS EM JABOATÃO DOS GUARARAPES.



Amadas e amados, muito bom dia!

Há tanto o que falar e eu pra variar estou sob o peso do volume de trabalho. Bem, na verdade não é volume de trabalho exatamente, mas é um único livro que tarda em ficar pronto e eu tenho que dar conta dele para ter grana na minha conta. Na verdade é a velha história de sempre e eu não vou repetir a ladainha.

A hq para o projeto NCT? Parada! Material novo para Zé Gatão? Nem comecei ainda! A biografia em quadrinhos de Edgar Allan Poe? Continua no limbo!

Mas a novidade é que nesta quarta começa O JABOATÃO POP e fui convidado para participar de uma mesa redonda no dia 26, as 19:00 horas.

Quem puder apareça lá para ouvir um pouco sobre quadrinhos e bater um papo com a gente. Tenho certeza que será legal.


Semana que vem, se nada der errado, teremos mais um conto de Zé Gatão escrito pelo meu velho brother Luca, com algumas ilustrações minhas. Tenho certeza que vocês não vão querer perder (assim espero).

Então, até lá!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

AMOR E DOR ( Um conto de Luca Fiuza sobre o UNIVERSO ANTROPOMORFO criado por Eduardo Schloesser)


AMOR E DOR

Seis meses haviam transcorrido e a vida de Zé Gatão seguia normal, sem sobressaltos. Era da casa para o trabalho e do trabalho para casa. O felino, no entanto, se mantinha alerta. A calmaria aparente poderia se converter a qualquer momento em uma tempestade mortal.
        Meio-dia. O felino cinzento almoçava em seu canto. Mastigava sem vontade. Na verdade, não sentia fome. Notou um jovem contínuo, um camundongo simpático, aproximar-se. Trazia um envelope. Ao recebê-lo, o felino macambúzio notou o perfume delicado que exalava do singelo envelope cor de rosa. Zé Gatão agradeceu ao jovem roedor que se retirou sorrindo um pouco, decerto pensando alguma bobagem. Abriu o envelope e tirou dele uma carta escrita com esmero. As letras pareciam desenhos artísticos. Leu com atenção as seguintes palavras:

 Meu querido,
Custei a encontrá-lo. Tenho observado você de longe. Sei onde mora, onde trabalha e a que horas entra no serviço...o momento exato em que volta para casa. Você é uma criatura excepcional! Apesar de meus cuidados,vejo que mesmo não tendo me visto ou ouvido você se porta como se sentisse estar sendo observado! Temos que terminar aquele nosso assunto. Encontre-se comigo no parque esta madrugada. Estarei à sua espera.
Com amor, sua tigresa fatal.

Zé Gatão não conseguiu decifrar o que havia por trás daquelas palavras. Estaria a felina selvagem gracejando? Brincando com seus sentimentos, talvez? O coração do gato batia descompassado. Em sua mente havia medo de seus próprios sentimentos e dúvidas atrozes Não sentia raiva. Apesar de tudo, nunca sentira. Iria ao encontro guiado por um desejo desenfreado que nem ele compreendia.
Três horas da madrugada. Uma lua pálida iluminava o céu estrelado. Alguns postes de luz lançavam uma luz amarelenta sobre bancos quebrados, mal destacando o piso de pedra desgastada que cobria o parque em quase toda a sua totalidade. Estava quente. Zé Gatão usava uma camiseta vermelha. Calça preta e botas de cano curto marrons completavam sua indumentária.
De repente, ela surgiu das sombras. Bela, altiva. Camiseta preta e curta sem mangas, revelando o ventre firme e musculoso. Calça estilo militar de um azul escuro. Na cabeça uma faixa vermelha cingia os cabelos fartos amarelos e entremeados de listras negras. Calçava um par de botas pretas pesadas. Aproximou-se lenta, como se estivesse se acercando da presa. Zé Gatão ficou imóvel à espera. A felina parou diante do grande gato e disse numa voz cristalina:
- Estou desarmada. Antes de qualquer coisa, temos que falar. – Sentaram-se em um dos bancos.
- Estou ouvindo. – Respondeu lacônico, o felino taciturno. – Ela prosseguiu:
- Fiz parte de um comando das Forças especiais da Marinha. Realizava missões secretas e não oficiais para o Governo. Em certa missão a mando de meus superiores, assassinei um governante de um país inimigo. A coisa toda foi descoberta e só eu paguei. Fui expulsa da Marinha e presa por 15 anos. Eu era muito jovem naquele tempo. Quando fui libertada não tinha perspectiva alguma. Minha vida não tinha qualquer sentido. Então conheci você.
- Por favor, me diga! Você realmente sente alguma coisa por mim? Seja sincera! Eu amo você! Por isto fui com você naquela noite e por isto estou aqui. – O rosto dela se tornou extremamente terno. Zé Gatão sentiu-se desabar.
- Eu te amo grandão! Mais do que possa imaginar!
        O felino sentiu sua alma se iluminar. Ela continuou:
- Zé...! Carrego em minha consciência o remorso pelos crimes que cometi em nome do meu país, das vidas que tirei. Sei que deixei muitas famílias sem pai! Fêmeas sem marido! Eu mereço ser punida! E ninguém melhor do que você que conquistou meu amor e adoração para finalmente redimir meu espírito!
- N-não posso fazer isto! Olha, você se arrependeu! Vamos começar uma vida nova! Só você e eu. Eu te amo, minha tigresa!
- Também te amo, Zé Gatão! Você é muito mais que eu mereço. Por isto, ou você me mata ou eu te mato! 
Subitamente, ela saltou sobre o felino cinzento tentando cingir seu pescoço em um aperto mortal. A custo, Zé Gatão evitou o golpe e derrubou-a ao solo. Em um átimo, ela se ergueu. Zé Gatão a olhava suplicante. Nos olhos dela, ele viu uma determinação pétrea, mas também um amor pungente, verdadeiro.
Lutaram ferozmente. Era a técnica de combate dela contra a luta de rua dele. Afastaram-se um do outro por alguns segundos. Ela saltou. Aproveitando a força do movimento da opositora, Zé Gatão atirou-a para trás e ela foi se chocar violentamente contra um poste próximo. Com um grito sufocado ele correu até ela. Estava seriamente ferida. A tigresa morreu nos musculosos braços de um Zé Gatão desesperado. O felino percebeu um lampejo de agradecimento nos olhos mortiços da amada. Abraçado ao cadáver, chorou como nunca em toda sua vida.



terça-feira, 10 de novembro de 2015

A NOITE DA TIGRESA ( Um conto de Luca Fiuza sobre o UNIVERSO ANTROPOMORFO criado por Eduardo Schloesser)


A NOITE DA TIGRESA 
        
Fazia quase um ano que Zé Gatão estava trabalhando naquela fábrica de alimentos da rede Appetito, grande fornecedora de supermercados, restaurantes e bares da cidade de FENELONIA, dos mais chiques aos mais popularescos. FENELONIA era uma cidade industrial média, poluída e fedorenta que também concentrava fábricas de automóveis e algumas importantes refinarias químicas. As águas dos rios próximos eram poluídas e mortas. A água consumida pela população tinha que ser processada mil vezes antes que se tornasse algo potável. Do solo estéril nada mais frutificava há muito. Verduras, frutas e outros gêneros de necessidade eram importados e caríssimos. Appetito fornecia alimento fresco para seus clientes endinheirados, dentre eles o Governo a preços superfaturados. Um grupelho saía sempre ganhando. Para o povo que não podia comprar comida de verdade sobrava um alimento sintético vendido a preços módicos em supermercados populares da mesma rede Appetito que tinha o nome irônico de hipermercados A Boa Mesa, já que a tal comida sintetizada de refugos artificiais era uma imitação barata da comida verdadeira.  Como não conhecia outra coisa, o povo comia sem reclamar e até gostava.
Zé Gatão conhecera há algumas noites uma belíssima tigresa em um dos muitos barzinhos da cidade que frequentava com colegas de trabalho depois do expediente. Ela era de fora da cidade. Gato e tigresa passaram a sair juntos. Vários gatos que trabalhavam e saíam com o felino taciturno na noite ficaram enciumados e cortaram relações com Zé Gatão, o que no fundo para ele era um favor. Em sua maioria aqueles felídeos não passavam de um bando de desmiolados que ficavam mais idiotas ainda depois de uns copos de cerveja.
Na noite em que o felino macambúzio conheceu a tigresa ele estava com uns colegas  de trampo entornando umas cervejas em um dos barzinhos mais movimentados da cidade. A postura circunspecta e ponderada de Zé Gatão chamou a atenção daquela gata selvagem e imponente. Corpo ágil, forte e musculatura trabalhada sem grandes exageros. Usava uma blusa verde justa de mangas curtas que delineava suas formas. Um colete de brim azul escuro completava sua indumentária. Levantou-se de brusco. Uma calça preta justa mal escondia a poderosa musculatura de suas pernas. Sua figura respirava sensualidade e autodomínio. Ela logo se aborreceu com as pilhérias e a abordagem barulhenta dos colegas de Zé Gatão que se aproximaram da mesa dela sem convite. Sua cauda oscilava como sinal de sua irritabilidade.  Zé Gatão não acompanhou os indelicados e turbulentos colegas, ainda vestidos em roupas de trabalho que evidenciavam sua musculatura pesada de trabalhadores braçais. O felino cinzento deixou-se ficar no balcão bebericando sua cerveja estupidamente gelada. Notara o olhar daquela fêmea interessante em direção a ele, devolveu o olhar, mas manteve-se em uma postura discreta. Falando alto e soltando muitos palavrões, os companheiros de trabalho de Zé Gatão cercaram a mesa da tigresa, convidando-se desaforadamente para sentar com a linda fêmea. Com um olhar granítico, ela avançou e passou entre dois dos inconvenientes felídeos demonstrando a intenção de ir ao balcão. Uma mão rude a segurou pelo braço e com um tom de voz sarcástico indagou onde “a gatinha pensava que ia”. Era um gato malhado de físico quadrático e largo. O bafo de cerveja misturado com cigarro barato era nauseante. A tigresa nem se dignou a olhar para aquele néscio. Em um movimento rápido deu uma violenta torção na braçola daquele infeliz, fazendo-o curvar-se enquanto um urro feio escapava de sua goela. Calou-o com uma cutilada na nuca que atirou aquele palhaço no mundo dos sonhos! Surpreendidos, os amigos do desafortunado pensaram em dominar aquela fera e dar-lhe uma boa lição, mas o olhar penetrante e feroz que a tigresa lhes lançou, amedrontou-os profundamente. Tal fato soltou inesperadamente os esfíncteres daquela súcia, forçando-a a correr imediatamente ao mictório do estabelecimento.
Zé Gatão observou tudo e não deixou de impressionar-se com os movimentos, a segurança e a habilidade da fêmea de tigre que caminhava maciamente em direção a ele. Pelo seu estilo de luta, ela provavelmente pertencia ou pertencera às Forças especiais de alguma das forças armadas. Zé Gatão ficou ainda mais interessado naquela fera sensual. Conversaram um pouco e resolveram procurar outro local. O felino não deu ouvidos ao chamado dos colegas que queriam saber aonde ele ia. A tigresa perguntou se aqueles imbecis eram seus amigos. Zé Gatão respondeu laconicamente que não e dali saíram para uma boate barata, onde tomaram um vinho tinto vagabundo e comeram daquela comida sintética que engoliram com grande esforço.
Estavam namorando há quase um mês. Certa noite, a tigresa convidou o felino taciturno a ir a um motel de luxo. Constrangido, Zé Gatão disse que não tinha dinheiro para pagar uma noite em lugares assim. A tigresa riu e disse que ela pagaria. Zé Gatão objetou veementemente. A tigresa disse para ele deixar de ser antiquado. Puxou-o pelo braço. Tomaram um táxi e se dirigiram para os bairros nobres.
Em meio a lençóis limpos e perfumados os dois se amaram intensamente. Esgotados, dormiram profundamente, abraçadinhos.
Por volta das quatro horas da manhã uma estranha sensação acordou Zé Gatão. Alerta ao máximo, sentiu um corpo pesado sobre o seu. A tigresa estava em cima dele no escuro. A visão aguçada do felino percebeu o braço erguido no escuro que trazia na mão uma enorme faca de caça. Instintivamente, o felino segurou aquele braço, dono de uma força impressionante. Lutou desesperadamente, enquanto a lâmina se aproximava de sua garganta. Empurrou com força e lançou sua atacante para longe si. Ouviu-a cair no chão fora da cama. Em um movimento brusco, o felino acendeu o abajur de cabeceira e sua luz iluminou fracamente o ambiente. Neste ínterim, a felina feroz já estava de pé. Zé Gatão estava também em pé na cama, ambos nus. Duas figuras vibrantes de energia e tensão. A tigresa saltou na cama de faca em riste. Zé Gatão evitou o golpe e a derrubou na cama, ficando por cima dela. A tigresa era uma profissional em luta corporal e tentou dar uma cutilada no pescoço do gato. Mas ali não havia nenhum amador. Ele a dominou rapidamente, cingindo-a em uma mata leão poderoso, tirando violentamente o ar dos pulmões de sua oponente.
Afrouxando um pouco a pressão, o felino quis saber o motivo do ataque. A resposta da fêmea feroz foram roncos sufocados. Zé Gatão voltou a pressionar, privando por instantes preciosos que o ar enchesse os pulmões da tigresa e oxigenassem seu cérebro. Debateu-se forte e inutilmente. Logo perdeu os sentidos.
Quando acordou estava manietada à cama com lençóis e a boca amordaçada com a fronha de um dos macios travesseiros.  Rapidamente, a mordaça foi tirada da boca da tigresa e falou mais com tristeza do que com raiva:
- Por que fez isto? Pensei que a gente se amava.
- Zé...! Me mata!
- Que?! Você é louca?! Vou deixar você aqui. Quando vierem limpar o local vão te achar.
- Se você não me matar agora, vou te caçar até no Inferno! – Zé Gatão não respondeu, Recolocou a mordaça e saiu silenciosamente do o hotel e da cidade. Uma tristeza profunda era sua única companheira.
  Em uma nova cidade cujo nome não importava, Zé Gatão despertou em seu quarto pequeno, abafado e malcheiroso da sórdida pensão em que vivia há semanas. Ficava em um bairro de má fama de ruas sujas, estreitas e mal iluminadas à noite. O dia acinzentado e frio aumentou o estado depressivo que havia tomado o espírito de Zé Gatão desde o episódio com a misteriosa tigresa. Foi para o trabalho sem vontade. Por ele teria ficado indefinidamente na cama, mas precisava trabalhar para sobreviver. Apesar do desânimo, assim que chegou, bateu o ponto e desempenhou com afinco sua obrigação, manejando com destreza a empilhadeira, transportando as pesadas sacas de café para uma área determinada de armazenamento.
 Na hora do almoço, comeu como sempre, solitariamente. Preferia assim, e os colegas não o incomodavam. Achavam-no estranho e reservado. Evitavam-no. No entanto, Zé Gatão trabalhava bem e o patrão não tinha queixas dele. O salário não era dos melhores, mas acostumado à frugalidade, o felino taciturno sobrevivia razoavelmente bem dentro de suas precárias condições.
  
Ao fim do expediente, tomou o ônibus que o levaria ao bairro tristonho onde se localizava a pensão abjeta. O felino trazia sob o braço um jornal que comprara pela manhã no caminho do trabalho, mas que não tivera tempo de ler. Entrou na pensão e mal cumprimentou a senhoria, uma velha cadela de roupas encardidas, lenço na cabeça e ar antipático. A velha rosnou algo incompreensível em resposta ao arremedo de saudação do inquilino e cada qual foi para o seu canto, o mais rapidamente possível.
A principal manchete do jornal falava do estranho caso de uma bonita e atlética tigresa que fora encontrada amarrada em um dos quartos de um luxuoso motel de um dos bairros nobres da cidade de FENELONIA. O mais impressionante foi que ao ser solta pelo camareiro que a encontrou ao amanhecer, este foi brutalmente morto por um golpe na garganta que triturou sua traqueia. Depois deste ato insano, a felina bestial desapareceu sem deixar vestígios. O camareiro era um peru. Deixou viúva uma fêmea e três filhos sem pai. A família ficou na miséria, pois seu magro salário mal dava para sustentar a ele e aos seus, enquanto o desafortunado vivia. Falou-se da presença de um grande gato cinzento que chegara junto com a tigresa, mas sobre este indivíduo também não havia nada de concreto. Desaparecera e supostamente havia amarrado a felídea à cama. Uma faca de caça foi encontrada no local e as digitais da tigresa estavam nela. A polícia não tinha pistas e se achava totalmente perdida.
Zé Gatão terminou de ler a matéria, boquiaberto com a ineficiência da polícia de FENELONIA. Melhor para ele! Não seria procurado, já que nem fora adequadamente identificado. O perigo maior residia na estranha felina que com certeza acabaria por encontrá-lo. Bem, desta vez não fugiria.  Enfrentaria seu destino de cabeça erguida.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS ( 07 )


No momento trabalho no terceiro livro da nova série de anatomia. Ainda estou procurando me organizar. Sempre tive este defeito, não encontrar o caminho certo depois de um tempo parado; tento ter uma espécie de cronograma mental, tipo acordar tal horas e labutar até a hora do almoço; nos intervalos regulares, que duram em média uns 15 minutos, ler alguma coisa ou rabiscar um desenho pessoal, voltar para o tema principal, que é aquele que paga as contas e por aí segue. Claro que as atenções para a Vera e as pequenas obrigações em casa estão anexadas, mas tem vezes que algo me tira do eixo. Esta manhã acabei passando mais tempo que devia ao telefone tentando contato com uma editora e acabei perdendo "a mão" no serviço, ele não rendeu, apagava mais que o devido e fiquei procurando desculpas para não pensar nele. Uma ida ao mercado agora a tarde não estava nos meus planos e isto também atrapalhou bastante, eu e a esposa trazendo sacolas pesadas neste clima quente tira o ânimo para algo delicado como o desenho. Na verdade andei lento desde que voltei de Brasília, é natural (acho) e já recupero o pique, felizmente.

Tem dois contos do Zé Gatão escrito pelo brother Luca já a algum tempo (só esperando algumas ilustrações da minha parte) prontos para serem publicados aqui. Um deles, na verdade, tem duas partes e era pra ser postado esta semana mas não consegui tempo para colorir o desenho, mas se Deus quiser, semana que vem a primeira parte da Tigresa estará aqui.


Hoje, fiquem com mais um momento de Brás Cubas.

Espero que todos vocês estejam bem. Beijos e abraços a todos.