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terça-feira, 7 de julho de 2026

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 5 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 

– No capítulo anterior, o Gatão mais uma vez, mostrou-se um sobrevivente nato! Enfrentou e matou uma das mais perigosas e mortais criaturas do deserto! A grande busca continua!

INÍCIO: 27/09/25. Término: 18/12/25.

A Busca – Capítulo 5:

        Assim que o sol se pôs, o felino levantou acampamento. Naquela noite avançou incansavelmente, por trinta quilômetros, ou mais, realizando paradas rápidas somente para alimentar-se! Felizmente, aquelas rações enlatadas especiais, além de supri-lo de nutrientes básicos e necessários, também substituíam a necessidade de água, sendo ricas em sais minerais essenciais à vida! Realmente, as Forças Armadas atingiram seu auge, em relação a seu equipamento padrão de sobrevivência em áreas inóspitas! Era um dos últimos resquícios de alta tecnologia que hoje beneficiava o felino, em um mundo que havia regredido praticamente à barbárie!

        Alta madrugada! O Grande Gato é atraído pelo som de vozes, no silêncio opressivo do deserto! Por falar em militares, ao aproximar-se silenciosamente e sem ser notado, divisou em um acampamento montado, no meio das ruínas de um antigo vilarejo, um destacamento de uns dez indivíduos! Enormes mastins de ar empedernido e brutal! E militares era modo de dizer! Não havia mais Forças Armadas constituídas! Na verdade, quem deles sobreviveu ao caos, formavam pequenas hordas! Aqui e acolá! Os cães estavam de fato, a caráter! Uniformizados, mas eram roupas sujas e suadas, sem a notória e costumeira impecabilidade dos milicos de outrora! Estavam bem armados e possuíam farta munição, em grandes caixas! Parecia ser um grupo coeso! Isto explicaria o fato de estarem ainda vivos e suas coisas não terem sido tomadas por outras hordas errantes, bem como também suas peles! Na realidade, o que atraiu o Gatão foi a visão de um veículo que estava estacionado atrás de um resto de parede baixa e carcomida, a qual, não ocultava aquele artefato completamente! Era um flutuador! Um veículo comprido feito de carbono metalizado! Para se locomover, não possuía rodas ou esteiras, tipo as de um tanque! Sob ele, um campo antigravitacional o elevava acima do solo, deixando-o destituído de peso, quando em funcionamento! E o melhor! Era alimentado por acumuladores solares! Não precisava de combustível, tendo autonomia, portanto, ilimitada! Atrelado à sua traseira, um tipo de reboque (alimentado pelo mesmo princípio do flutuador), carregado de grandes caixas de munição! Por sorte, Zé Gatão sabia manejar aquele aparelho! Embora, nunca tivesse uma única vez em sua vida servido às Forças Armadas, tinha estudado e tido contato com seus equipamentos, em um dado momento de sua vida! Apesar de sua notória aversão a cães, em especial a milicos havia tido alguns poucos bons amigos caninos, nesta área específica e aprendido com eles, o manejo de armas variadas, bem como a condução de uma miríade de meios de transporte militares! O Gatão, imóvel, próximo aos dois sentinelas que vigiavam o flutuador, esperou os outros membros do destacamento irem dormir! Aguardou mais uma hora e satisfeito, viu os sentinelas distraídos, jogando cartas!

        O felino cinzento preparou-se para anular os dois sentinelas! Contudo, sem matá-los! Não havia motivo! Se agisse com calma, nem seria percebido pela milicada! Pegou uma zarabatana que havia feito de uma espécie de planta local que tinha conformações que se assemelhavam a canudos! Ele produziu dardos de espinhos de cacto e embebeu as pontas com uma seiva soporífera, provinda das próprias plantas canudo! Tinha preparado a zarabatana e os dardos anteriormente, por precaução! Não sabia que usaria estes artefatos, tão já! Cautamente, o felino casmurro se aproximou dos sentinelas caídos! Notou que estavam entregues ao sono dos narcotizados! Roncando, até! Desconectou o reboque! Não precisaria dele! Da grande caixa pegou algumas embalagens de cartuchos e um fuzil-metralhadora de último tipo! Depois, calmamente, o Gatão subiu no espaçoso flutuador! Ativou-o! Como não tinha motor, não fazia ruído algum, ao ser ligado! Saiu logo dali, planando! Luzes apagadas! Gostaria de ver a cara dos militares, quando descobrissem o furto! Bom, este é um prazer que nós teremos, no lugar do Grande Gato!

        Logo ao raiar do dia, o comandante do destacamento canino, acordou, meio mal-humorado e assim que deu falta do flutuador e viu os dois sentinelas estirados de barriga para cima, a roncar barulhentamente, explodiu em ira! Não latiu de raiva! Urrou, fazendo a soldadesca pular que nem pipoca na panela quente!

– Que merda aconteceu aqui? Não acredito! Roubaram nosso flutuador! E debaixo dos focinhos de dois idiotas! Vamos! Acordem estes biltres! Andem! Mexam-se bando de moloides! Quero explicações! E já!! - Os pobres sentinelas foram acordados a base de chutes e palavrões! Em seguida, estavam enfileirados com os outros soldados diante de um comandante furibundo! Os dois infelizes ainda estavam meio grogues e isto apenas serviu para enfurecer mais ainda, o superior! - Vocês dois! Como é que dormiram em serviço?! Eu devia estourar o crânio de vocês à bala! Como foi isto? Andem! Expliquem-se, antes que eu os mate, aqui e agora!

É claro que os dois coitados, não souberam explicar como caíram no sono, durante a vigília! Só se lembravam que estavam jogando cartas e…! O comandante estrilou: - Imbecis! Néscios! O dever de vocês era vigiar e não jogar carteado durante o serviço! Maldição! Agradeçam por eu não ser como um oficial que já trabalhou comigo, chamado Coronel Brutal (vide Siroco)! Se fosse ele, em meu lugar, o cara fuzilaria vocês, cretinos, sem hesitação! Diabos! Mas não pensem que vão ficar sem castigo! Pendurem estes dois bastardos! Chamem o sargento Pederneira! Tragam o chicote! Andem, seus moles! Mexam estas suas bundas inúteis! - Mesmo naquele momento quase insano, um tenente caiu na besteira de perguntar se o comandante ainda tinha contato com o referido oficial! O mastim explodiu: - Nunca mais o vi e quero mais que ele se foda! Era um grande filho da puta! Espero que esteja agora, catando carvão no Inferno, onde é o seu lugar! E pare de falar idiotices, tenente! Traga logo o sargento e não esqueça do chicote!

 Ao serem bem amarrados, meio pendurados, os dois sentinelas, caídos em desgraça, olharam para seu comandante com os olhos marejados de lágrimas, em uma súplica muda! Insensivelmente, o oficial resmoneou: - Não sei como dois cachorros aviadados como vocês conseguiram ser aceitos por uma tropa de elite como a nossa! Ambos deram o rabo pra quem?! Hein?! Já chegou, sargento? Cinquenta chicotadas no lombo destes dois maricas! E com vontade! Quero ouvi-los ladrar, fui claro?! - O sargento não se fez de rogado! Chicoteou impiedosamente as costas dos dois sentinelas e seus uivos, misturados com ganidos de uma dor indescritível, atroaram à distância e este fato alegrou por demais, o pervertido coração do comandante!

        Ao mesmo tempo, o Gatão já se encontra a muitos quilômetros longe do palco da tragédia, a qual tivemos o privilégio de assistir! O flutuador era facílimo de manejar e sua cabine hermeticamente fechada e refrigerada trazia ao felino, um frescor e uma tranquilidade, normalmente desconhecidas, ao ar livre! Além disto, o aparelho possuía sensores direcionais que o guiavam perfeitamente para a direção que o Grande Gato pretendia seguir! Porém, como diz um velhíssimo ditado, “tudo o que é bom dura pouco!” Repentinamente, uma luz de alerta se acendeu no painel de controle! Ao que parece, algum problema mecânico estava fazendo o flutuador falhar! O Gatão resolveu aterrar e foi bem na hora! Assim que tocou no solo, o painel se amagou! Não havia nada a fazer! Não havia mecânicos, ou peças de reposição em lugar algum do mundo e muito menos oficinas do Exército!

O felino tristonho deixou o aparelho, exatamente onde havia pousado, não muito longe de uma cordilheira montanhosa que significava o fim do deserto! Faltava uma hora para o anoitecer. Se andasse logo, o Gatão poderia acampar ao sopé da cordilheira! Com certeza ali, a natureza seria menos hostil, quem sabe? Pôs-se a caminho.

 Quando a primeira estrela da noite cintilou no firmamento, Zé Gatão alcançou o sopé da cordilheira. Encontrou um trecho de mata agreste, arbustivo. Adentrou naquela área e levantou acampamento no interior de uma pequena caverna que encontrou. O local era habitado por morceguinhos amarronzados que voaram assustados, para o alto das estalactites que se projetavam do teto como dentes de uma grande fera! Somente uma daquelas criaturinhas não fugiu! Era uma fêmea e de uma fenda próxima na parede, observava o intruso, com os olhinhos arregalados e brilhantes! Em um dos seus raríssimos sorrisos, o felino chamou-a para aquecer-se junto à fogueira, afirmando que nada temesse! Ele não lhe faria mal! Ela se aproximou, meio ressabiada! Incrivelmente, surgiu uma instantânea empatia entre aqueles dois seres! Tanto que quando a morceguinha perguntou o que ele fazia ali, o Gatão, sem reservas contou-lhe sua história e o motivo de sua jornada! A pequenina sorriu contente e disse que já ouvira falar deste mundo perdido dentro do mundo! Perguntou se podia acompanhá-lo, dali por diante e o Grande Gato aquiesceu! Ele estivera sozinho tempo demais, até para seus padrões de ser solitário! Estava cansado de brigar e muitas vezes matar, toda vez que encontrava algum ente em seu caminho! Ficaram amigos! Ela chamou seus inúmeros parentes! Eles saudaram o Gatão, mas não quiseram seguir naquela estranha jornada. Antes de partirem para seu voo noturno fora da caverna, conversaram muito com o felino e o seu falatório alegre, trouxe descontração ao coração do Gatão! A morceguinha não foi! Preferiu ficar ao lado do novo amigo!

 O novo dia se apresentou ensolarado, mas diferentemente da área desértica, uma brisa agradável vinha da cordilheira! Era ótimo não sentir mais o constante e pesado calor que só desertos podem proporcionar durante as longas horas de claridade! Também dentro da caverna, onde havia se abrigado na noite anterior, o clima era meio geladinho! O Gatão despertou faminto! Acabou devorando duas latas de ração específicas que diziam em suas informações nutricionais – concentrado! Olhou casualmente para o teto e viu bandos de minúsculos morcegos adormecidos e pendurados às estalactites que enchiam a cave! Procurou, Bella, a morceguinha com a qual havia contraído recente amizade e a viu pendurada numa estalactite bem acima de onde o felino estava. Seu ronquinho sutil podia ser ouvido facilmente no silêncio daquele ambiente cavernoso! O felino gris a encarou com um incomum sentimento de ternura! Sim! Nunca gostara tão facilmente assim, de alguém! Achava inclusive, a criaturinha alada engraçadinha e graciosa, com seus olhinhos vivos e vozinha firme! Parecia ser muito inteligente e destemida! Deixou-a e aos seus semelhantes dormir tranquilamente e procurou não fazer barulhos desnecessários! Cerca de uma hora depois, Bella acordou e seu bom dia feliz, foi respondido com desusado entusiasmo pelo Gatão, em voz baixa devido ao seu timbre de voz mais grave! O felino perguntou se ela estava com fome! A resposta foi afirmativa e ela comeu com apetite um restinho de ração que ainda sobrara!

 Duas horas depois, a inusitada dupla deixou a caverna! A pequena ia agarrada às costas amplas de seu mais novo amigo, sedenta de aventuras, segundo ela! O felino expressou um leve e fugidio sorriso! Não deu infelizmente, para se despedirem dos outros morceguinhos! Contudo, o clã já havia aprovado ontem, a partida de Bella! Seguindo de forma ascendente, o Gatão se movia, se agarrando a cada reentrância rochosa! Sua enorme força, guindando-o, palmo a palmo, apesar do peso da sacola de armas e munições bem atravessada em seu corpo muscular e a pesada mochila em suas costas! Movia-se rápido e facilmente pelo costado da enorme montanha! Ao fim de duas horas de escalada, o felino e sua pequenina companheira de viagem atingiram o topo da montanha! Seguiram por uma trilha entre as rochas, se detendo em um platô, no intuito de descansarem um pouco, em meio a uma mata mais densa! O felino sentiu o cheio de água e descendo um aclive encontrou um regato murmurejante, de água limpa e fresca! Ao que parece, aquela cordilheira distante, não havia sido afetada pelos horrores da Guerra e sua toxidade mortal! O Gatão encheu seu grande cantil e dividiu seu conteúdo com Bella! Que delícia para o casmurro tomar água de verdade! Se sentiu revigorado!      Prosseguiram a caminhada! Bella agora voando juntinho do rosto do felídeo! Instantes depois, a minúscula quiróptera mostrou-se alarmada e Zé Gatão indagou o motivo! Ela respondeu que estavam se aproximando do território dos três leões! Era um trio de irmãos extremamente territorial que dominava aquelas cercanias!

A morceguinha tirou da cabeça do Gatão, qualquer possibilidade de negociação! E o pior! Não havia rota alternativa, já que tudo ali pertencia aquelas grandes feras! O Gatão acalmou-a, dizendo que dariam um jeito qualquer! Pararam para almoçar, quando a fome bateu e aproveitaram para descansar um pouco! No princípio da tarde, antes de levantar acampamento, o vento trouxe às narinas ultrassensíveis do felino acinzentado, cheiro de leões! E forte! Dali a instantes, três formidáveis felinos surgiram no acampamento! O que parecia ser o chefe possuía uma enorme juba negra! Trajavam roupas inteiriças feitas de fibra vegetal! A cintura cingida por grandes cintos semelhantes aos de antigos gladiadores de épocas passadas! Braçadeiras trabalhadas, enfeitavam os pulsos! Os corpos musculosos e bem formados denotavam força e brutalidade quase palpáveis! O Gatão não se impressionou e os olhou tranquilamente! A calma do amigo reduziu um pouco o medo da morceguinha que estava encolhida, bem agarrada ao pescoço dele! Então o líder se pronunciou! Voz forte, altiva de tom bastante profundo e grave: - Você está invadindo nosso pedaço, meio lince! Levanta, venha me enfrentar, se é macho!

 O felino cinzento retrucou, com desdém: - Esta terra é livre, cabeludo! Precisamos seguir em frente, entendeu, ou quer que eu desenhe?! Caia fora, ou vou ter que te amaciar na base de muita porrada!

A risada grossa do de juba negra ecoou pelas cercanias!

– Tás de sacanagem, parceiro! Cê é grande pra caralho! Nunca tinha visto igual! Mas não sabe com quem está se metendo! Acho que achei um novo tapete para enfeitar minha casa, não é rapazes?! - Os dois irmãos de juba acobreada riram, o bom rir! O Gatão não riu, mas retrucou: - Vamos combinar! Se eu amassar este seu focinho feio, eu e minha amiguinha teremos livre passagem por estas plagas das quais você se diz o mestre e senhor! De acordo? - O leão gigantesco riu até quase vomitar de tanto gosto! Nenhum animal, que ousara passar por ali, o pudera vencer! Colecionava em sua habitação, cabeças, chifres e ossos dos que tentaram! Que troféu magnífico seria a cabeça daquele meio lince, acinzentado na parede da sala! O Gatão mediu seu adversário de alto a baixo! Parecia ser um elemento perigoso! Mas tal constatação, não fez seu metabolismo acelerar, nem um tiquinho! Era só ser prudente e saber aproveitar qualquer chance a seu favor que surgisse durante o combate! O Gatão não era nenhum novato! Pelo contrário! O leão também percebeu que seu oponente ia dar trabalho! Isto só o estimulou e acirrou-lhe o instinto sanguinário! Se achava tão foda que a seu ver, aquela luta só ia se prolongar um pouco mais! Bom! Faria aquele felino cheio de marra implorar! Faria o louco iludido sofrer, antes de tirar-lhe a vida! Quanto à morceguinha, ela seria um novo brinquedo para seu prazer pessoal!

        Os dois contendores mediram-se! Começaram a mover-se, um em torno do outro, de maneira concêntrica! Pareciam estar em um ringue sem cordas e sem delimitações físicas! Estudavam-se, procurando brechas e pontos vulneráveis, a explorar! Como um relâmpago, o leão de juba negra e basta atacou, aplicando uma saraivada de jabs, os quais o Gatão evitou com a facilidade e experiência do exímio lutador que era! O leão ainda tentou um murro no plexo solar do adversário e sequencialmente, um soco de cima para baixo, com uma precisão incrível! Isto, se tivessem atingido seu alvo! Percebendo uma brecha para atacar e um momentâneo desequilíbrio do corpo do oponente, em razão de seu deslocamento natural, durante o combate, o felino aproveitou para oscilar, confundindo o êmulo! Em seguida, se projetou à frente, conseguindo encaixar um murro explosivo na face de um surpreso panthera leo! A boca do indivíduo, simplesmente explodiu em sangue e sua dentadura, assim como a mandíbula, só não foram seriamente danificadas, por conta de serem excepcionalmente fortes! No entanto, o impacto devastador, lançou o musculoso ser, brutalmente ao solo como se ele fosse um encardido pano velho jogado fora, com displicência! Os irmãos do atingido gritaram sonoramente, sem crer no que viam e Bella, dependurada em uma árvore arbustiva, próxima bateu suas asinhas de contentamento! Ao chão, estonteado, o leão resmungou: - Porra! Pela juba de meu avô! Nunca ninguém conseguiu me derrubar até hoje! Nem os maiores animais! Puta que me pariu!

        Os seus irmãos, furiosamente instaram para que o leão de juba negra, revolta se levantasse logo! Da boca deste irmão mais velho escorria sangue! Profuso e vermelho! Zé Gatão estava à espera! Descontraído, mas alerta! Então, como um bólido, o enorme leão ergueu-se! Porém, antes que pudesse mover um músculo, tomou um poderosíssimo chute lateral que quase arrancou sua cabeçorra fora! Desta vez, o felino gris não deixou que ele caísse de novo! Agarrou-o com a mão esquerda e enterrou o punho direito, com toda a força, no bucho do desgraçado! O infeliz gritou de dor! Um lamento sufocado, que mais parecia o cacarejo de um galináceo e não o bramido altivo e ameaçador de um leão! Uma, duas, três vezes, o Gatão esmurrou fundamente! Bateu sem dó, no estômago de seu contrário! O ar já não entrava livremente naqueles pulmões, convulsionados! Para finalizar, um novo murro no meio da cara atirou o pobre leão no mundo dos sonhos! Ficou esticado igual um amontoado de merda! Ali, quietinho, a esperar que o recolhessem para jogá-lo na privada mais próxima, mesmo se sabendo que não mais as havia!

        Os irmãos do de juba negra estavam estupefatos! Não podia ser! Seu irmão foi derrotado como um principiante! Correram a acordá-lo sacudindo-o e estapeando seu rosto arrebentado! Foi preciso jogar água na face dele, diversas vezes! Gemendo penosamente, ele despertou, estremunhado! Olhou em torno, e viu o felino que o espancara tão facilmente, sentado em uma pedra, a conversar com Bella! Esta não se cabia de contente e dava gritinhos, voejando em torno da cabeça do felino cinza!

 – Você é extraordinário, cara! Eu nunca fui derrotado! Nunca, até hoje! Como foi possível? - As palavras do leão eram sinceras! O Gatão o encarou com sobriedade e respondeu, categórico:

– Fácil de explicar, amigo! Você lutou de forma descuidada! Foi prepotente! E o mais importante! Seu coração não estava no combate, entende?

– Mas como assim?

– Você sempre foi acostumado a porrar seus oponentes, sem dificuldades! Você era mais habilidoso do que todos eles! Não importava o tamanho! Só que eu, saio na porrada desde que precisei aprender a me defender dos valentões que me espancavam quando eu era filhote! Depois, estudei a fundo a Arte do Combate físico! Tive excelentes professores! Participei de lutas profissionais e não-profissionais! Misturei várias técnicas clássicas à luta de rua (esta não tem regras)! Acima de tudo, aprendi a usar a cabeça, além dos punhos! E foi o que você viu! E agora? Vai cumprir sua promessa, ou vamos continuar nossa pendenga? Você quem sabe!

– Vou cumprir minha promessa, meio lince! Você é um animal honrado e quero que a gente seja amigo! - Os irmãos mais novos do leão de juba negra protestaram, aos gritos e o mais velho ordenou que se calassem! Eles atenderam, contrafeitos! Se voltou para o felino gris, dizendo: - Me chamo Léo Grandi e estes dois bobalhões são meus irmãos menores: Sid Léo e Mik Léo!

– Eu sou Zé Gatão e aquela é Bella! Minha amiga e companheira de jornada! - A morceguinha se sacudiu faceira, empoleirada no ombro de seu amigo!

– Prazer! Ei, vocês dois! Vão apertar a mão do Zé Gatão, ou tão precisando de uns cascudos pra ter educação? Andem, vamos!

Sid e Mik, o fizeram meio ressabiados, mas logo esqueceram as desavenças e ficaram mais sociáveis! Até pediram que o Gatão os ensinasse a lutar. O felino deu um breve sorriso sem mostrar os dentes, acrescentando:

– E para quê? Para você matarem animais, como seu irmão mais velho?

– Ora, por que você luta? Não é para isto? - indagou Sid!

– Por acaso, eu matei o irmão de vocês?

– Eles estão certos, Gatão! De que vale lutar, sem matar o adversário? Você nunca matou ninguém?

– Não nego! Já matei! Mas diferentemente de você, eu luto para me defender e não necessariamente para matar! Você não está vivo? - Bella olhou para os três leões, com certa ironia!

– É verdade, só não entendo porquê você não me matou!

– Eu não tinha e não tenho razão para tirar sua vida! Não vou afirmar que nossa luta não foi empolgante, de certa maneira! Mas eu pessoalmente estou de saco cheio de lutar e mais ainda de matar! Mas fique certo! Se minha vida, ou a de Bella estivesse em perigo, nenhum de vocês estaria mais respirando! - Sid e Mik quiseram protestar! Porém, o olhar severo de Grandi, os fez calar! O Gatão continuou: - Não tenho nada a ver com o que vocês fazem! Então, me digam! Qual é o sentido de desafiar animais que passam por “suas terras” e simplesmente matá-los? Acho uma pura criancice! Quem determinou que vocês têm este direito? Vocês mesmos, imagino! Não sei se sabem! Mas a civilização como a conhecemos foi destruída por uma grande Guerra! Não há mais cidades, dinheiro, sociedade organizada e muito menos Governo!

– Nós não sabíamos! Viemos para cá há muitos anos para fugir da pobreza, da fome e da violência das grandes megalópoles! Redarguiu Grandi. Seus irmãos confirmaram!

– Sei! E estabeleceram aqui seu pequeno reino de violência…! Escutem, só quero que reflitam! Querem tanto lutar com os animais que aparecem? Ótimo! Porém, não precisam matá-los, se não for absolutamente necessário!

– Mas então, eles vão atravessar nossas terras, livremente!

 – E que mal há nisto? Eles são tão livres como vocês! E tem mais! Eu cheguei e venci a luta contra o Grandi, aqui! Pode muito bem aparecer hordas agressivas de chacais, lobos e hienas, vindas do deserto que não hesitarão em estripar vocês três a frio, ou encher vocês de chumbo grosso! Não duvidem! Eu estive lá! - Os três irmãos leoninos ficaram pensativos! - falaram em uníssono:

– O que acha que devemos fazer? Arregar? Nem pensar!

 – Eu penso que vocês poderiam ser mais atentos! Só lutem se for para se defender! Não deem na vista! Sejam mais cautelosos!

        - Hey! Não quer ficar aqui conosco e nos ensinar a sermos mais cautelosos, como você diz? - perguntou Sid.

 – Não podemos ficar! Temos que seguir viagem! Amanhã cedo, nós iremos!

– Sim! Então, fiquem conosco, hoje e partam mesmo, amanhã! Daqui a pouco vai anoitecer! - asseverou, Mik. Assim foi feito. O felino gris e a morceguinha se hospedaram na casa onde Grandi morava com os dois irmãos. Envergonhado, o leão de juba negra retirou seus troféus da sala de estar e os guardou em outro aposento! Passaram aquele princípio de noite em animada conversa, durante o jantar, em um espaçoso refeitório! O Gatão ofereceu como complemento à gostosa comida preparada pelos irmãos, alguns de seus enlatados doces, como sobremesa e todos comeram as iguarias com redobrado prazer! A loquaz tagarelice da morceguinha alegrou ainda mais o ambiente e até o Gatão permitiu-se a sorrir, parecendo um pouquinho menos casmurro, do que o usual! Duas horas após a janta, foram para cama e pela primeira vez, em muito tempo, o felino cinzento dormiu despreocupado! Ainda que seu sono fosse leve, como de costume!

        No dia seguinte, ao fim do café da manhã, Zé Gatão e sua companheira de viagem partiram! Léo Grandi e os irmãos, os fizeram prometer que passariam por ali, na sua volta! Intimamente, o felino acinzentado sabia que não mais veria os três leões, mas nada disse! Se contasse o objetivo de sua jornada, os irmãos o considerariam um louco varrido!

 

 


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ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 5 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

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