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quarta-feira, 20 de junho de 2012

PICADINHO A COPACABANA.

O ano era 1975 e lembro que assistia ao filme "A Volta ao Planeta dos Macacos" pela enésima vez, só que agora na televisão, quando meu pai chegou de uma viagem de um mês que ele havia feito a Brasília. Como eu perceberia muitas e muitas vezes ao longo de nossa convivência, ele deu a boa nova assim a seco, decisão tomada sem consultar ninguém: "Vamos morar em Brasília!" Acho que era o mês de fevereiro - não estou bem seguro - ele deveria retornar ao Planalto Central em pouco tempo para dar continuidade ao trabalho que foi incumbido pelo Ministério da Fazenda. Como o ano letivo estava para começar e não seria legal eu perder aulas, e nem seria interessante começar a estudar em São Paulo e pedir transferência daí a dois meses, ficou acertado que eu iria na frente com ele. Claro que não gostei da idéia, ficar longe da minha mãe, avó e dois irmãozinhos menores (o caçula não havia nascido ainda) era algo com o qual não contava. Contava menos ainda que a dita mudança seria para dali a dois dias.

Não muito tempo antes, tínhamos feito uma viagem de trem ao interior de São Paulo (menos meu pai, que ficou trabalhando). Fomos conhecer as cidades da infância de minha avó e mãe: Assís, Salto Grande e Ourinhos. Aqueles quinze dias me causaram ótima impressão, posso mesmo afirmar que nunca tinha sido tão feliz como fui naquela última semana na fazenda dos Cândidos em Ourinhos. O plano era voltar pra lá assim que possível, na minha mente infantil, eu me casaria com aquela garotinha que gostou de mim, e viveria naquele lugar, entre bois e boiadeiros, sendo feliz para sempre.
E foi assim que, ainda sob os efluvios daquela viagem recente, eu me vi no interior de um ônibus rumo à Capital Federal com o coração aos pedaços, e sem o direito de verter uma lágrima, eu não ousaria faze-lo na frente do meu pai, não seria permitido.

Cheguei em Brasília num dia claro, como quase todos os dias o foram naqueles primeiros meses. Uma claridade até então inédita na minha vida, um céu de azul límpido, nuvens baixas e uma luminosidade  ofuscante que me causou perplexidade e estranheza. Não dava pra discernir se gostava ou não. Mas o que mais me impactou foi a monumental sensação de distanciamento, não apenas de pessoa pra pessoa, mas da pessoa para com tudo mais. A amplidão dos espaços, a capacidade de vislumbrar o horizonte não importando em que ponto da cidade eu estivesse me impressionou desde o princípio. Pudera, São Paulo, a megalópole, com os seus espigões, seus múltiplos tons soturnos de cinza, o fluxo interminável de pessoas, a  umidade e a garoa foram como uma potente droga que me mantinham narcotizado. Brasília, me pareceu um outro planeta, um mundo estranho, agradavelmente alienígena. Acima de tudo, o silêncio da cidade, se comparado a São Paulo, era quase corpóreo.

Não fui direto para o hotel onde meu pai estava hospedado, com muita coisa a fazer, já sendo colocado a par pelo motorista que lhe designaram, ele achou por bem ir rápido para o ministério.
Uma vez lá, enquanto meu pai esbaforido tentava pôr ordem no que parecia ser um ambiente caótico, fiquei sentado numa mesa diante de uma máquina de datilografar, achavam que eu poderia treinar com ela mesmo sem ter nunca tido qualquer tipo de experiência. Meus dias no planalto já começaram assim,  muito semelhantes a vários períodos em São Paulo ao lado daquele homem que poderia ter sido o meu melhor amigo. Mas o tédio era abrandado pela visão privilegiada e franca que tinha da janela, dali eu podia ver com toda alumiação e singularidade parte da Esplanada dos Ministérios e a Catedral tantas vezes contemplada através de cartões postais.
Almoçamos no restaurante da repartição, nada demais. A noite finalmente chegou e rumamos em direção ao Brasília Palace Hotel, que ficava próximo ao Palácio da Alvorada, onde residia o General Esnesto Geisel, então Presidente da República.

Até hoje nunca entendi bem porque aquele hotel era o preferido da maioria das pessoas, parece-me que mesmo em 1975 ele já era considerado obsoleto, decadente. Mesmo sob o verniz de modernidade que tranparecia, suas comodidades estavam longe de ser as ideais, não posso falar pelos outros hotéis da Capital Federal, mas aquele só tinha uma televisão que ficava próximo à copa, num salão mediano onde os hóspedes tomavam café da manhã, almoçavam e jantavam. A certeza quase absoluta, era de que a preferência se dava pela sua localização. Próximo ao lago, era permitido a um indivíduo de temperamento calmo desfrutar de solidão e paz bastante singulares. Aquilo me pareceu o paraízo a princípio.
A tal única televisão existente no hotel era umas das tantas coisas legais que aquele lugar, além da inesquecível piscina oval, poderiam me oferecer, pois era colorida. Vamos, meus queridos e queridas, estávamos em 1975, tv a cores existia em pouquíssimos lares brasileiros de classe média. Eu, que adorava as séries Kung Fu, com David Carradine e Viagem ao Fundo do Mar, me maravilhava nos poucos momentos que me sentava em frente a ela.

 
Mas passado o primeiro impacto, tudo aquilo me causou uma sensação de solidão e abandono muito forte, como se eu jamais pudesse fazer parte de um lugar como aquele. Acima de tudo sentia uma saudade avassaladora da família. Soube que minha mãe, avó e irmãos tinham voltado ao interior de São Paulo, aos lugares que tinham me encantado não muito tempo antes, escrevi uma carta melodramática à minha genitora, num estilo semelhante ao do menino Vanka Júkov, personagem de Tchékov, implorando pra que ela viesse me buscar.

O pior foi o primeiro dia de aula, acostumado que estava ao Caetano de Campos em Sampa, com seus costumes rígidos, a Escola Classe 104 Norte me lembrou quase um pequeno clube, desorganizado e sem disciplina. Não havia um uniforme regular, apenas uma camisa com um emblema da escola bordado, se me lembro bem. O sinal de entrada, ao invés das badaladas de sino, característico dos colégios paulistanos, lembrava uma sirene de ambulância. Tudo me pareceu sem ordem, a maioria dos meninos não respeitavam os professores, as matérias pareciam defasadas em um ano.

Uma lembrança vívida daqueles dias, foi do assassinato do rei Faisal, da Arábia Saudita, pelo seu sobrinho, também as vitórias de Mequinho, o melhor enxadrista brasileiro de todos os tempos.


 A primeira coisa que me recordo com prazer do Brasília Palace Hotel, era a piscina. Eu adorava nadar, gostava de faze-lo principalmente a noite quando não havia ninguém, a segunda era o Picadinho a Copacabana. Foi assim, quando certa noite meu pai me ligou dizendo que chegaria tarde, era pra eu jantar algo a minha escolha. Apontei um nome qualquer no menu e veio aquela iguaria deliciosa. Na verdade era apenas uma carne macia picada com milho verde, o segredo estava naquele molho saboroso. Gostei tanto que toda vez que tinha oportunidade (o que era raro) eu fazia aquele pedido.
Me lembro que um dia meu pai e eu fomos almoçar na beira da piscina, ele estava com gravata e as mangas da camisa branca dobradas na altura dos cotovelos, era um dia quente e muito claro, estávamos numa mesa debaixo de uma árvore, ele me estendeu o cardápio e disse-me pra eu pedir o que quisesse (normalmente ele fazia a escolha, ou seja, eu comeria o que ele iria comer). Surpreso, exclamei: "Qualquer coisa?!?" Ele me fitou com uma expressão de desprezo em seus olhos verdes e bradou: "É, qualquer coisa, você é burro ou o quê!?". Foi a única vez que comi o tal picadinho sem prazer algum.  

Não demorou muito tempo e eu fiz algumas amizades. Primeiro foi com o filho do gerente. Depois com duas meninas, duas irmãs, Cynthia e Carry Ann, esta última era mais novinha e desprezada pela mais velha. Eram filhas de uma brasileira e um americano (ou seria o contrário? Não lembro mais). A Cynthia era muito bonita e inteligente,  falava um inglês/português perfeito, talvez por isto ela fosse insuportavelmente arrogante na maioria das vezes. Eu era um caipira, mas não me dava conta disso, as meninas pareciam gostar da minha companhia. Logo fiquei colega do filho do dono do hotel. Era um garoto de 15 anos, gordo, dentuço, asmático e usava óculos de fundo de garrafa, um nerd clássico, mas de um magnetismo a toda prova. Apesar de eu ter três anos a menos, nos dávamos bem, curtíamos as mesmas músicas, séries de tv e gibis.
Foi naquele hotel que vi uma revista pornográfica pela primeira vez na minha vida. Confesso que fiquei escandalizado.


Muitas vezes ao sair da escola eu tinha que ficar esperando mais de uma hora pelo Ribamar, o simpático rapaz que era motorista do meu pai, quase sempre ele estava atrasado, eu ficava lendo meus gibis, sentado na pomta do bloco "C", naquela época minha coqueluche eram os heróis da Marvel publicadas pela Bloch, principalmente o Quarteto Fantático, Mestre do Kung Fu, Namor e Homem de Ferro.
Sempre pedi muitas coisas a Deus, naqueles dias secos e quentes, meu desejo era que o motorista me levasse direto para o hotel, queria nadar na piscina, depois ir para o quarto e encher a banheira com água quente e ficar lá até o estado de lassidão. Doido, né? Eu me refrescava na piscina, depois, com frio, corria para o apartamento e entrava na água quente da banheira. Fazia esta operação umas três vezes seguidas nos dias mais frios, sorte não ter pego uma baita gripe. Almoçava o tal picadinho e a tarde comia mixto quente com suco de frutas. Entretanto, isto nem sempre era possível, muitas ocasiões as coisas estavam a mil no ministério, não havia tempo para me levar, eu tinha que ficar naquela mesa, fazendo o dever de casa, fingindo datilografar na velha máquina e testemunhando cenas de estresse total protagonizado por meu pai e seus funcionários. Pelo que entendi, ele e o delegado do ministério eram pessoas odiadas, com frequência eu via os nomes deles escritos de forma desairosa nas portas do banheiros. Ossos do ofício, aquilo, antes do meu velho era um reduto de vagabundos, gente que fingia trabalhar, uns batiam ponto por outros e coisas do tipo. Soube que havia até uma boca de fumo camuflada na garagem do prédio. Ele fez uma limpa, moralizando o lugar. Teve um tempo que andou com seguranças. Nesses dias, para meu desprazer, só chegávamos no hotel tarde da noite. 

Eu tenho muitas histórias sobre aqueles meses para contar aqui, como os trocados que ganhei engraxando sapatos de alguns clientes do hotel, um garçon cujo apelido era 21, porque ele tinha 21 dedos, alguma travessuras maldosas do filho do dono onde fui cúmplice, e muitas outras coisas, mas eu ficaria muito tempo rememorando nesta postagem e não quero cansar vocês, mas alguns fatos merecem registro, tipo, os artistas que conheci naquele lugar.
Muitos cantores se hospedaram por lá em 75, eram os populares da época, alguns de épocas passadas, mas ainda com grande sucesso, como Agnaldo Rayol, Luis Ayrão, Claudete Soares, Vanderley Cardoso, Odair José (que não vi), Luis Gonzaga (que também não vi) e vários outros que agora me fogem da memória. Antigamente o Silvio Santos fazia shows em diversas partes do país e muitos artistas o acompanhavam. O "homem sorriso" foi uma das personagens mais marcantes daqueles dias. Alto pacas, com uma voz inesquecível.
Certa manhã, com o local lotado de hóspedes ilustres na copa, durante o café da manhã, faltou talheres e eu atrasado para a aula, comia uma fatia de melancia com a faca, quando ouvi uma voz grave e afetada se dirigindo a mim: "Cuidado para não cortar a língua!" Era o Calby Peixoto. Acho que sorri sem graça.
Numa destas vezes, no saguão do hotel, eu conversei com o Raul Seixas, mas esta história eu deixo para uma próxima postagem.


Estas foram minhas primeiras impressões daqueles dias iniciais em uma cidade onde eu criaria raízes profundas. No mês de Abril, no dia 21 (aniversário da cidade), minha mãe chegava com minha avó e irmãos de ônibus. Eu estava lá na rodoviaria esperando. A imagem que ficou gravada em minha memória foi do meu irmão Gil sorrindo da janela do veículo quando me viu e sua expressão de vergonha infantil quando sorri de volta.
Lastimo não ser possivel voltar no tempo.








6 comentários:

  1. Gostei do texto de lembranças. É... mudanças de casa ou pra cidades distantes não são fáceis. JONNY QUEST que o diga. Hehe!

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  2. Pois é, minha relação com Brasília foi assim, não ia lá muito com a cara dela embora fosse muito bonita, me apaixonei quando a conheci melhor, namoramos e nosso amor foi avassalador, mas nunca pude me casar, ela, complicada e madura, eu, infantil e pobre, nunca pude acompamha-la. Nos separamos e voltamos algumas vezes, mas parece que nossos caminhos sempre divergem. Guardo-a na lembrança. Fui feliz com ela enquanto estivemos juntos. Isso que importa.
    Grato e um abração.

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  3. Bacana, Eduardo. Esse lance do Hotel e as pessoas passando, circulando à sua volta, me lembrou uma biografia de um escritor que li. Não me lembro qual escritor, mas havia esse lance de ele morar em uma pensão (que era de sua família) e, a partir do convívio com os hóspedes, foi tecendo seu repertório de histórias e personagens. Vc viu bastante coisa interessante e sei que isso é sempre boa base pra histórias. Que o diga o Zé Gatão.
    Abração,

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  4. Verdade, Gilberto, eu meio sem querer acabei me tornando um cronista da minha própria história, absorvendo o que acontecia (e acontece) ao meu redor, e acho interessante a sua sensibilidade para perceber os tons autobiográficos em Zé Gatão.
    Forte abraço amigo e bom fim de semana.

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  5. Ótima história. Quase pude sentir o cheiro daqueles tempos...

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  6. É, é verdade. Enquanto eu escrevia pude reviver um pouco daqueles longínquos dias de inocência.
    Faz uns 38 anos!

    Abraços.

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