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segunda-feira, 10 de março de 2014

MARÍLIA DE DIRCEU ( CENA FINAL )


Raramente planejo o que vou escrever aqui, e quando eu o faço, não consigo realizar como gostaria. Estou com dois contos na cabeça e não tenho tranquilidade para dar vida a eles. Estas histórias pouco ou nada acrescentam à minha vida profissional, mas gosto de comete-las; dar vazão à minha veia criativa fora do desenho me faz sentir uma satisfação imensurável, é como uma outra espécie de desabafo. Os quadrinhos me permitem isto, mas trabalhar com palavras me desafiam a passar para o outro lado do espelho da minha vida. Pouco me importa se escrevo bem ou não, o que interessa é que se conseguir a atenção de alguém já me dou por satisfeito. Mas tudo a seu tempo.

Hoje me sentei diante do computador a fim de ler a descrição de uma imagem para o clássico de Machado de Assis, Esaú e Jacó, talvez o último livro que ilustro para esta editora. Continuar estes clássicos ainda é uma incógnita e pela maneira pouco respeitosa com que venho sendo tratado por eles é bem provável que nossa parceria não se renove. Mas foi pensando nestas coisas que larguei mão do trabalho e acessei este blog para atualiza-lo e colocar aqui alguns pensamentos. Não quero me repetir falando da ciclicidade dos tempos e da sua inexorabilidade, mas não há como evitar.

O Bukowski disse que o único problema com o dinheiro é quando você tem muito ou pouco. Eu estive sem dinheiro para nada acho que 90% da minha vida. As pessoas que olham minhas artes dizem não compreender como eu não estou rico, prestando trabalho para um multinacional e coisas do tipo. Se é verdade o que dizem, eu também não entendo, pois bati em muitas portas. Certa vez a secretária do André, meu irmão, ao folhear meu portfólio me disse: "Você não é rico porque não quer!" Pensei: "Eu não quero?!? Me diga, pelo amor da santa, o que devo fazer!?!"
Acho que não há o que fazer mesmo. Meu irmão sempre citou uma frase que dizia que o problema do pobre não é ser pobre, é ter amigo pobre. Pode ser.
Na verdade nunca pensei em ficar rico, só queria ter o suficiente para não ter que ficar pedindo grana emprestada para minha família e amigos de quando em quando.

Ouve um tempo em São Paulo, assim que nos mudamos de Brasília, que as coisas não iam bem. Zé Gatão não existia formalmente (cito o felino por considera-lo como membro da família e ser o meu porta voz para minhas insatisfações), todos nós, minha mãe e irmãos, passávamos por uma certa crise psicológica. Foi uma mudança de situação bastante peculiar. A mim, naqueles dias frios, o que incomodava como o zumbido de uma mosca impertinente, era a falta de dinheiro. Meu pai, recém transferido, só receberia seu salário no mês seguinte. Estava inconformado de não ter um real sequer para comer um mini churrasco grego nas minhas andanças pelo centrão velho da cidade e estava ciente de que meus pais não me deviam nada, já faziam muito em ter um filho adulto e sem emprego dentro de casa.

Certo dia, peguei minha pequena pasta de couro onde guardava centena de desenhos e pequenas pinturas no formato A-4 e ganhei as ruas determinado a não voltar pra casa sem um emprego - ou pelo menos algum dinheiro.
O primeiro lugar que visitei foi uma oficina (dentre tantas) de serigrafia que funcionava num dos pavimentos da Galeria do Rock na Rua 24 de Maio. Cheguei no balcão e vi um sujeito moreno, barbudo e atarracado
sentado numa mesa, fazendo não sei o quê. "Bom dia, amigo!" saudei. O cara não respondeu e continuou sua atividade. "Poderia falar um contigo?" Continuei. Ele me olhou com impaciência. Com uma voz que não era a minha (sim, não reconheço minha voz quando fico com vergonha) me apresentei como desenhista e que procurava trabalho, perguntei se ele poderia me indicar algo. "Você é desenhista?" indagou ele com interesse. "Sim", respondi. "Tem algo aí pra 'mim' ver?" Estendi meu mini portfólio e ele virou as páginas que continham belas mulheres nuas trabalhadas com carvão, aquarela e lápis de cor, imagens oníricas e mitológicas em diversas texturas, apressadamente, como se olhasse cartas de baralho. Eu já esperava os habituais elogios, quando ele me devolveu a pasta perguntando se eu sabia arte finalizar e se eu já havia trabalhado com letra tone. Eu trabalhara como arte finalista no SENAC de Brasília e a tal da letra tone eu só conhecia de ouvir falar, mas afirmei a ele que sim. Ele respondeu: "Pois é, eu tenho um arte finalista aqui mas o filho da puta tomou todas e hoje me deixou na mão, estou com um monte de serviço atrasado. Pago por arte. Topa?" "Quando começo?" "Pode começar agora."
Me sentei numa pranchetinha meio bamba, peguei o poliéster, os pincéis e o nanquim e mandei bala. Aplicar a letra tone era mais delicado e cansativo mas não esmoreci. Fiquei ali de manhã até a tarde, tive fome mas não dei pausa para comer. Ao término do serviço o barba antipático se mostrou satisfeito e me pagou na hora. Disse pra eu sempre passar por lá pois o desenhista dele era muito bom mas também irresponsável, sempre havia trabalho. Voltei pra casa com uma boa grana. Nas outras semanas eu ainda trabalhei para ele, o problema é que eu era muito lento, daí o tal arte finalista malucão sumiu de vez e ele arrumou outro mais responsável e me dispensou sem nem olhar direito na minha cara. Tudo bem, eu partiria pra outra e dali em diante eu só comprovaria que trabalhar com arte, em termos financeiros, é a mais inglória das tarefas. Em São Paulo eu trabalharia com editoras e até pintaria murais em cinemas pornôs, mas é história para uma futura postagem.

Esses dias me vejo de novo na mesma situação que aquela em Sampa no início dos anos 90 , com a diferença que hoje sou chefe de família e estou num ambiente totalmente diferente, a tecnologia avançou tornando as oficinas de silk praticamente obsoletas. Eu estou mais experiente, mais velho, óbviamente e beeeeem mais cansado. Como naquela época, sei que há trabalho, só não sei exatamente onde procurar.
Contudo, eu sou um homem que vive por FÉ. Aos olhos das pessoas mais pragmáticas, isto pode soar estranho, mas quem já viveu experiências diversas com Jesus, sabe o que estou falando. Eu continuo atrás das oportunidades, Ele não vai me deixar esta situação se prolongar. Creio firmemente nisto.


A arte de hoje é a cena final do poema Marília de Dirceu.

Legal que vocês estiveram aqui comigo.
Beijos nas gatinhas e um aperto de mãos para os gatões.


8 comentários:

  1. Oi, Schloesser! Não tenha dúvida de que os elogios das pessoas são sinceros. Seu talento é extraordinário mesmo. Talvez o que esteja faltando sejam contatos influentes. Amigos ricos também ajudariam, é claro. Então torça pra algum de nós ganhar na loteria. :) A situação de dificuldade financeira pela qual você passou lembra uns péssimos bocados que o Leroy viveu. A família dele perdeu a casa e passou fome. Metade foi morar com parentes, metade se abrigou numa construção. Ele tinha 20 anos e era o mais velho de seis irmãos. Para conseguir um emprego, concordou em trabalhar um mês sem salário, como experiência. Não foi fácil, mas tudo se resolveu. Tenha fé que as coisas vão se endireitar pro seu lado também. Abraço!

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    1. Grande Carla! muito obrigado pela força. Pode imaginar como isto é importante?
      Talvez faltem mesmo contatos influentes e amigos ricos, quem sabe? Talvez ser amigo do peito de um dono de editora que não se importe em ter nas mãos um título que não seja um sucesso comercial logo de cara. Mas eu acho mesmo que nosso país não valoriza a boa arte, não criamos aqui uma tradição em materiais com apelo fantástico, embora nosso folclore esteja apinhado de seres interessantes. Falta divulgação do produto, sem falar no publico que quando não é viciado em material gringo, não tem massa cinzenta para alcançar o que queremos transmitir com tal personagem, daí ele fica na obscuridade. Tem o problema do semi analfabetismo e a falta de grana para consumir, da maioria do povo brasileiro. Mas vamos lutando, uma hora a nave decola, se não decolar, não foi por falta de tentativa.
      A história de vida do Leroy parece ser muito interessante, gosto de gente que supera as adversidades.
      Um abração.

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  2. Oi, Eduardo! Sem demagogia, queria estar aí contigo para batermos um bom papo. Assim por escrito fica difícil conseguir se expressar. Só sei que você não deve esmorecer jamais. Toda vez que vc fala de suas experiências, notadamente as de São Paulo, é como se estivesse revivendo muitos momentos por que passei. Já passei poucas e boas por ir para o lado da Arte, já fiz serigrafia (até trabalhei 2 meses de graça só p/ aprender, em uma oficina!), já pintei escolinhas, muros, placas e faixas. Em suma, muita ralação.
    As palavras da Carla faço também as minhas para finalizar o comentário.
    Continue acreditando.
    Um grande abraço e mais uma vez, obrigado pela oportunidade desenhar e ver aqui em seu blog, publicado, minha versão do Zé Gatão. Valeu!

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    1. Caro Gilberto, muito obrigado pelo seu comentário e quem agradece sou eu a homenagem de ver meu personagem ser retratado por mãos tão hábeis.

      Existem dois motivos que me impulsionam a escrever estas experiências, uma é o próprio desabafo, que se faz necessário. Outra é que pode servir de exemplo a outros desenhistas, pois assim como você encontrou identificação, assim outros também podem se ver espelhados. Não tenho pudor em afirmar que viver de arte no Brasil é quase como pedir para passar por um vale seco, cheio de espinhos e serpentes, tentar produzir HQs então, piorou. Tá cheio de gente prepotente, picaretas, tubarões de toda a espécie, artistas que acham que valem muito mais do que pesam, um público preconceituoso e burro, mas a satisfação de encontrar no meio de todo este caldo as pessoas legais que existem para fazer exceção à regra e quando um trabalho é publicado e vemos a resposta do público, então sentimos que a caminhada valeu a pena. Daí recomeçamos tudo de novo. Esmorecer? Nunca!
      As coisas estão difíceis por aqui e eu sou muito manhoso, mas não é a primeira vez e com certeza não será a última. Seguimos lutando e agradeço de novo o apoio.
      Abração.
      PS - Repare como sua arte do Zé gatão consta das postagens mais populares aqui ao lado. Aliás, leu o novo conto?

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  3. Caramba! Não tinha reparado que tava nas postagens populares... E ainda não consegui ler o novo conto, Eduardo. Esses dias até colei no Word p/ imprimir, mas acabei não o fazendo. Mas vou ler breve...
    Abração.

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    1. Pois é, Gilberto, pelo menos aqui o felino é popular.
      Quanto ao conto, sem pressa, ele é longo mesmo. Mas é bem empolgante.
      Abração.

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  4. (desculpe a acentuacao, meu note esta com o teclado desconfigurado)
    Ola Eduardo, admiro seu trabalho, mais ainda a sua coragem e autenticidade em se expressar, sou seu contemporaneo e tambem desenho, pinto e batalho o dia-a-dia atraves da arte, cara, eh fogo mesmo! tenha animo e segure a onda! abracos Luiz

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    1. Opa, Luiz, brigadão pela força, rapaz!
      Se você desenha e pinta (vive disso?) sabe como é barra. Mas estamos na batalha.
      Se você tiver um blog ou um site, me passa o link para eu dar uma olhada em seus trabalhos.
      Abração e muito sucesso.

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