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domingo, 25 de janeiro de 2026

RÉQUIEM PARA O POETA DO CAOS

 


 Não tenho escrito muito neste blog, falta-me força, falta-me vontade. Achei que a idade me faria escrever melhor, mas a insistência de certas situações em me sufocar, principalmente dentro de casa, no dia-a-dia, a eterna luta para matar os gigantes da semana, drenam toda a inspiração para a escrita e para o desenho (o que para mim é quase a mesma coisa). A fonte está prestes a secar, o que brota dela é uma água barrenta, salobra. E esse produto - tóxico, eu diria - é de que me sirvo para comentar sobre meu amigo e sócio Luis Carlos Girassol Cichetto, mais conhecido como Barata.

As dezenas de lives que fizemos durante o ano de 2025, conhecida como Lanchonete do Barata poderiam falar por mim muito melhor que minhas pobres palavras, lá estão descritos pelo próprio Barata como nos conhecemos, nos tornamos chegados, como criamos a Lanchonete e editamos alguns dos meus títulos pelo seu selo, mas convinha que eu desse um depoimento sobre essa ligação que durou tão pouco e ao mesmo tempo valeram por uma longa vida.

Sou amigo de uma pessoa que foi próximo do Barata por muito tempo, esse parceiro tinha uns canais sensacionais no YouTube e eu sempre deixava um comentário nas postagens. Junto a mim, as opiniões de um certo Barata Cichetto. A alcunha já me chamou a atenção e também as análises dos vídeos que batiam com as minhas.

Pois bem, esse camarada em comum falou ao Barata sobre uma obra minha em parceria com o lendário escritor de pulps, Rubens Francisco Lucchetti, "A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE"; bem, os que foram próximos ao poeta já o ouviram falar sobre isso inúmeras vezes, ele comprou o livro, se indagou como nunca tinha ouvido falar de mim antes e etc. Ele solicitou minha amizade no Facebook (fato do qual não me recordo até hoje, mas isso é normal, alguém fala comigo e no dia seguinte já não lembro). Me escapa agora como ficamos mais próximos, mas creio que ele encontrou o meu blog e começou a ler algumas postagens e chamou a atenção dele os contos que o Luca Fiuza escreveu sobre o universo antropozoomorfo que criei e pediu permissão para reproduzir em seu site, o Barata Verso. Eu disse que me sentiria honrado e ele assim o fez, sempre divulgando como podia.

Ele era sócio do poeta e escritor lusitano Luis Roxo num projeto - se podemos chamar assim - intitulado POETURA, onde uma revista eletrônica do mesmo nome trazia diversos escritores e poetas contemporâneos com artigos do Barata. Em uma das edições o Zé Gatão foi capa e nela fui entrevistado. 

 


Vale ressaltar que neste período (2024) ele trocava muitas ideias com o Luca. Até que no fim do ano, num estalo, ele resolveu publicar de forma impressa todos os contos do Zé Gatão num belo livro intitulado ZÉGATÃOVERSO, primeiro em preto e branco e depois uma versão colorida. Só mesmo uma pessoa como o Barata com coragem para cometer tal loucura, por na praça um tomo de um personagem incompreendido em sua mídia de origem, os quadrinhos. Não foi surpresa constatar que o ZéGatãoVerso vendeu pouquíssimas unidades. 

 

A ideia da Lanchonete do Barata veio através de uma conversa que tivemos certa noite (sim, conversávamos por horas, tarde da noite, sobre os mais diversos assuntos) e eu disse a ele que me frustrei ao ver uma entrevista que o Luis Roxo fez com ele numa live que durou menos de duas horas pois percebi que ele tinha muito mais a dizer. Somado a isso comentamos sobre os tempos em que uma galera ia ao cinema e depois se sentava numa hamburgueria e batia papo sobre o filme e aleatoriedades. E se fizéssemos algumas lives com convidados ligados às mais diversas atividades artísticas para falar sobre suas produções, mercados e tutti quanti? Ele curtiu a ideia e batizou a coisa de Lanchonete do Barata e assim foi, entre muitos erros e alguns acertos a nossa trajetória nessa coisa de youtuber, minha conexão com a internet sempre era precária e eu vivia caindo, as vezes, por problemas pessoais, eu não podia participar e embora ninguém soubesse, isso muito o irritava. Acho que 80% dos convidados foram artistas ligados aos quadrinhos, pois eram os meus chegados, pessoas que eu admiro, ele queria chamar outros artífices mas só um ou outro do conhecimento dele aceitou participar. Mas foi um período bom, que trazia a ele uma certa ansiedade e muita alegria por mais um convidado que se tornava amigo.

Eu não sei dizer bem como era a vida do Barata antes da nossa parceria, mas me parecia que ele estava um pouco isolado, ele reclamava muito que ninguém mais lia poesia nos dias de hoje, o site que ele se orgulhava tanto, rico em artigos, matérias de convidados, gente muito capacitada e talentosa, não era visitado, não era comentado; eu compartilhava essa frustração pois também lutava duramente para ter meu trabalho reconhecido e eu sentia que estava limpando carvão. 

O que sei dizer, e sinto orgulho disso, é que eu o introduzi no mundo das artes gráficas e isso o encheu de ânimo, ele ficou conhecido pela galera dos quadrinhos, frequentou lives, participou de grupos ligados ao tema, fez amigos, alguns ele fazia questão de dizer que eram os "novos melhores companheiros de infância", virou editor e roteirista de HQs, era reconhecido nos podcasts pelo seu jeitão de poeta/roqueiro desbocado e ele curtia muito isso, tanto que não levava em conta os muitos percauços que este meio tem para oferecer. Por fim ele acabou virando personagem de aventuras quadrinísticas nos contos do Baratex criado pelo talentoso escritor Vinícius Pereira.  

Se tive participação nessa nova vida do Barata eu ganhei muito com isso, por conta da sua intrepidez eu pude realizar alguns sonhos como ver chegando ao público, ainda que muito limitado, o já citado ZéGatãoVerso, o CRAZY SKETCHBOOK, meu livro de rascunhos e o DESENHANDO PALAVRAS, meu tomo de contos numa fabulosa edição impressa que não  despertou a atenção de ninguém (acho que não sou tão bom quanto ele pensava que eu era). E o livros do Zé Gatão lançados pela Devir ganharam novas edições com novos  formatos para um novo público. Projeto que, embora cansativo, o encheu de orgulho, cada mimo criado para os apoiadores foi feito por ele com muito carinho. Essas coisas todas não tenho palavras para expressar minha gratidão.

Não pude conhecer (ainda) em toda extensão a obra do meu amigo, os únicos livros dele que possuo são NEVERMORE: UM GATO CHAMADO NUNCAMAIS e O POETA XINGOU MINHA MÃE DE PUTA E EU LHE DEI UMA PORRADA. São fortes, incomodos, não próprios para qualquer público. É a mais pura arte, pois te tira da zona de conforto e te põe a refletir.

Todo ser é único, eu sei, mas alguns, são mais únicos que outros, o Barata é destes que surgem um a cada século, não só pelo seu visual ou jeito de ser, mas pelo inegável talento para a escrita.

Haviam muitos projetos meus com o selo que ele criou chamado LÂMINA 44, para 2026: VENUS E VENENUS, republicação de ZÉ GATÃO-CRÔNICA DO TEMPO PERDIDO e PHOBOS E DEIMOS, além de um livro contendo minhas crônicas e reminiscências e se desse tempo, este ano ainda, o álbum de HQs curtas e inéditas do Zé Gatão. Não teremos essas obras, infelizmente.

Sim, eu já tinha dois convidados para a Lanchonetes já neste mês de janeiro.

Zé Gatão-Siroco no limbo, talvez abortado, não sei ainda.

Falei com ele no dia 30 de dezembro, exortei para cuidar da saúde, ele disse que estava bem, desejei um feliz ano novo, ele retribuiu. 

O ano de 2026 para mim começou com fúria demoníaca, talvez o pior dos meus 63 anos, um acontecimento nefando durante a queima de fogos na praia...... noite sem dormir, passei o dia primeiro como um zumbi e só visitei as redes sociais no começo da madrugada do dia dois quando vi mais de 60 comentários no grupo do Zé Gatão que ele criou no WhatSapp, pensei: o que é isso tudo? Entrei e veio a pancada.

Fica aqui, na alma, como um selo, essa imensa saudade.

OBRIGADO POR TUDO, BARATA! 

Arte através de IA criada pelo cartunista Du Oliveira

 

 

  

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

DESABAFO E DESESPERO.

 ATÉ O PRESENTE MOMENTO O ANO DE 2026 TEM SIDO PÉSSIMO PARA MIM, MAS CALMA, AINDA ESTAMOS NA PRIMEIRA QUINZENA, AS COISAS PODEM MUDAR. 

NÃO SOU O MAIS OTIMISTA DOS HOMENS, MAS PENSAR EM REVIRAVOLTAS PARA O MELHOR AJUDA NA DURA CAMINHADA.

EU ACHO QUE JÁ ESTAMOS VIVENDO O QUE JESUS FALOU EM MATHEUS 24.

SENHOR, TENHA MISERICÓRDIA DE NÓS!


 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ADEUS 2025!

 

 Vocês já perceberam que há muito tempo eu não exibo uma arte particular neste blog?

Tenho trabalhado muito e não tenho tirado momentos para mim, para os desenhos pessoais, aquelas coisas que reunidas viraram o Crazy Sketchbook editado pelo Barata Cichetto, por exemplo. A questão de tempo é muito forte, mas tempo sempre foi algo que arrumei quando a necessidade de desabafo se tornava insuportável. Hoje, a demanda por gritar por meio de traços e palavras é mais sólida que nunca, mas cheguei a um ponto que joguei a toalha e julgo que não vale a pena mais, aquele velho cansaço que sempre expressei em meus textos chegou a tal ponto que lancei os dados esperando o que o acaso me trará. O blog continua porque acredito em ressurreição, vai que aconteça algo que mude todo o quadro da minha vida e eu vou querer transmitir aqui.

O sketch do Zé Gatão exposto acima para coroar a despedida deste ano tão cheia de altos e baixos foi uma encomenda, só para deixar claro.

Como dito, 2025 foi aquele ano complicado (como todos, né?) mas que me trouxeram breves momentos de alegrias, como aquele oásis num deserto vasto, inclemente. Não sei claramente se esses momentos pesaram positivamente na libra, tenho a tendência a recordar mais os pontos negativos, ou pelo menos, senti-los com mais intensidade, pois a violência psicológica de certos acontecimentos foram (e ainda estão sendo) truculentos como nunca. É certo que não é coisa nova, mas a medida que envelheço sinto as desditas com mais vigor. Mas deixemos, por um instante, os queixumes, e vamos ao balanço desse ano.

Como ponto positivo tenho que destacar o lançamento da Bíblia em Quadrinhos pela Editora Ciranda Cultural. Material que trabalhei febrilmente e demorou para chegar ao público. 

 

O já citado CRAZY SKETCHBOOK, veio em seguida, um livro sensacional - falo sem a mínima modéstia - incrivelmente editado pelo poeta Barata Cichetto. Tenho orgulho deste tomo; como sempre afirmo, nele contém os meus mais honestos traços.  

 

Não citei o ZÉGATÃOVERSO porque este foi lançado no finzinho de 2024. 

 DESENHANDO PALAVRAS, livro que reúne todos os contos que cometi ao longo desses mais de 15 anos, também sob a batuta do Barata, foi outro sonho realizado, ter impresso minhas impressões sobre a vida em forma de letras era algo ansiado mas sem perspectivas para fazer acontecer.

 

Verdade que esses livros venderam quase nada, nada mesmo! mas isso não tira o brilho da coisa.

O ponto negativo neste raciocínio é que os planos que eu tinha de reunir em alguns volumes, muitos dos meus textos deste blog - crônicas, memórias do passado e coisas tais - ficam sepultados, é muito claro que ninguém está interessado no que eu escrevo, então, melhor economizar energia, expectativa, papel e tinta.

Outro acontecimento que merece destaque, que saiu pelo Barata Verso foi o Retorno do Guerreiro, republicação de MEMENTO MORI e DAQUI PARA A ETERNIDADE, os dois livros lançados pela Devir anos e anos antes. Uma campanha de financiamento coletivo que foi um tour de force tanto para o editor quanto para mim, que tive que criar mais de 40 artes novas para brindar os apoiadores. Mas valeu a pena, álbuns no formato A4, capa dura envoltos numa luva feita artesanalmente pelo Barata.

 

A campanha foi vencedora, mas não nos trouxe lucro algum, contudo, concordamos que se não deu prejuízo, já foi vitória certa. Esses dois livros há muito esgotados na Devir, chegaram a mais uns 40 leitores.

E chegamos ao final do ano com a republicação de SIROCO, também capa dura, 80 páginas a mais e nova arte na embalagem para atender leitores que cobravam essa edição que, em sua primeira prensagem, não passou de umas 40 unidades. Tivemos poucos pedidos até o momento.

 

Quero ressaltar que todos esses produtos podem ser comprados no site do Barata:   https://barataverso.com.br/?s=eduardo+schloesser

Como bônus de final de ano, saiu também o Baratex - Lendas de um Velho Cowboy Filosófico, livro de contos concebido pelo jovem escritor carioca Vinícius Pereira, onde o personagem José Cat é uma clara homenagem à minha criação. Fiz a capa (com cores do artista Louis Mello), como forma de mostrar gratidão.

    

Indo para o lado negativo do ano, além das tempestades que há uns vinte anos assolam a minha existência, o dinheiro começou a ficar curto depois de abril, mas tão curto que eu tive (tenho) que sobreviver de ofertas de pessoas de coração generoso, uns pedem encomendas de desenhos, outros simplesmente fazem algum depósito na minha conta. 

Pra não dizer que não fiz atividade formal, criei a capa de um livro de memórias de um autor mineiro para uma editora de Brasília, e quadrinizei 8 páginas do roteiro do Barata para o gibi Mestre Makabro.    

E nos últimos tempos tenho sido acometido de dores nos dentes, um fraturou, outro amoleceu. Vá ao dentista, oras! Sim, e cadê grana para ao menos pegar os três ônibus até o centro onde existe pronto socorro público?

Esse foi o primeiro Natal que não tivemos ceia mas muita pressão dentro de casa. 

E assim, falido, insultado, mastigando com dificuldade e dor, mas contente por ter tido livros publicados, fecho o ano de 2025.

Alguns podem perguntar: onde está esse Jesus que você insiste tanto em falar que é a solução para todas as coisas? Respondo: eu estou vivo, não? Creiam, não era mais para eu existir; este não é lugar de descanso, é um planeta comandado pelo malígno, nesta terra farta de injustiça e iniquidade ainda tenho as ferramentas para lutar e tentar reverter o quadro. O apóstolo Paulo não teve vida fácil após se tornar cristão.

Não sei o que nos espera no ano que chega, certamente não coisa boa pelos prognósticos de especialistas em geopolítica, mas quero pensar que as pequenas alegrias que hão de acontecer, equilibrarão o embalo. Lutemos para que assim seja sem nos corromper.

Fé, saúde, trabalho e perdão, sempre!

FELIZ 2026 A TODOS VOCÊS!  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

ZÉ GATÃO-SIROCO NOVAMENTE EM CAMPO DE BATALHA

 

 Sim, sim, amados e amadas, estou em falta com vocês (falo com os que gostam dos meus desabafos), há tempos planejo vir aqui me abrir um pouco convosco mas a roda da vida, como costumo chamar, tem girado muito rápido e todas as vezes sou atropelado por ela, de modo que até meus desafogos não são permitidos. Bem verdade que não é só a questão do tempo, mora em mim um certo cansaço da vida (sim, hoje em dia mais forte), uma eterna indagação: O QUE FAÇO AQUI AINDA? Essa é uma questão que só Deus pode responder, e se ainda caminho por esse vale de lágrimas deve ter um forte propósito e não cabe a mim questionar. Esse enfado me leva ao recolhimento das minhas emoções e poupar quem quer que seja das minhas lamúrias, até porque elas não são novas, vivo ainda matando vários gigantes todo mês, o ciclope do aluguel, da conta de luz, água, internet, compras semanais para abastecer a dispensa. Ainda continuo sem contrato com editoras (que sempre foram as que me permitiram viver com menos peso nos ombros) e tenho vivido de pequenas comissões aqui e ali e também, da generosidade de alguns que mesmo não me conhecendo direito me encomendam artes.

Meu intuito era vir aqui falar sobre umas novelas gráficas que reli há algum tempo (HQs ainda é assunto que me motiva, e não é o quadrinho mainstream, mas aqueles autorais e/ou biográficos) mas vou ter que adiar, hoje quero falar sobre o Zé Gatão - Siroco, material bem conhecido dos leitores deste blog. Já destrinchei essa saga à exaustão, além das várias resenhas de leitores.

No entanto esse material retorna agora um pouco mais elegante. Ele vem com nova arte em capadura (obra minha com Vinicius Caldas e Murilo Freitas), 80 páginas de extras, usamos dois desenhos nas guardas que não foram aproveitados na primeira edição. Prefácio do artista fodabagarai Nestablo Ramos.

A pré-venda (preço promocional) está valendo até 08/01/2026 nohttps://editora.barataverso.com.br/produto/eduardo-schloesser-ze-gatao-siroco/?fbclid=IwY2xjawOxYOJleHRuA2FlbQIxMABicmlkETF4bjNMYWJSbVlWbXBmNmdQc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHtf7tv9IA4Nj8avPLTLcd1F2-cF16lBbz-44LpStQsbO-m_Ph4LC-6NBg5-T_aem_ZsQdD8K3PQ0Em4gSFMGuyw

Siroco foi lido por umas 40 pessoas no máximo (não conto com o PDF ou se alguém emprestou para um amigo), acho que isso merece chegar a outros leitores, por isso eu e o Barata nos lançamos nesta jornada. Conto com o apoio de vocês.

Volto aqui para desejar Feliz Natal, se Deus quiser.

Beijos e abraços. 


 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 2 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A BUSCA – Capítulo 2:

O crepitar da fogueira era o único som audível, no silêncio da
gélida noite do deserto. Sua luz bruxuleante, iluminava o rosto
sombrio do felino casmurro. Ter ficado no interior daquelas ruínas
foi a melhor coisa que o Gatão fez. Apesar de estar bastante frio,
era melhor do que dormir ao relento, no interior de uma tenda
rústica. Pouco antes da chegada da noite, o Gatão revistara
cuidadosamente, aquele destroço, um dia uma cidade próspera e
movimentada. Encontrou o esconderijo usado pelos chacais. Havia
uma preciosa caixa de mantimentos, cheia de latas de ração de
sobrevivência, uma mochila maior que a sua e pastilhas de água
desidratada em grande quantidade. O felino verificou que todo
aquele equipamento era pertencente ao Exército. Intuiu que
destacamentos dispersos desta Força Armada, erravam pelas
cercanias e com certeza, aconteciam escaramuças entre estes
pequenos destacamentos militares e as hordas de desesperados
como aquela que ele, Gatão tinha eliminado! Bem, aqueles chacais
não eram exatamente uma horda e sim, um bando minúsculo,
comandados por uma fêmea de miolo mole!

O felino juntou o que pode daqueles itens e os levou para seu
acampamento, em outra parte das ruínas! Resolveu conservar o
alfanje! Era uma ótima arma de ataque e defesa! Seria inútil contra
armas de fogo, mas ele sabia se virar! Para não dizer que não
havia outros artefatos interessantes, encontrou um rifle de
repetição, em bom estado e três caixas pequenas de munição!
Apropriou-se disto, também! No entanto, só usaria o rifle em último
caso! Munição era algo escasso naqueles tempos e o Gatão não
sabia quando e se a encontraria, outra vez! Portanto, a ordem era
ser parcimonioso! Assim que amanhecesse, ele partiria sem
demora daquele antro, onde o cheiro de dor e morte eram
incomodativos, de tão intensos! Estava cansado! Nem tanto
fisicamente! O cansaço era mais mental! Resolveu recolher-se.
Deixou o alfanje ao alcance da mão, fora da bainha trabalhada que
seria depois presa ao lado do corpo por uma cinta vermelha, com
motivos dourados, de sabor oriental.
Pouco antes da aurora, um leve som despertou o felino! Era o
arrastar sinuoso de um corpo pesado! Uma cobra! E das grandes!
O corpo do felino retesou-se, como que atingido por uma forte
descarga elétrica. Sua mão segurou firme, o cabo do alfanje!
Repentinamente, ele rolou para o lado direito e ergueu-se de
pronto! O enorme réptil levantou o corpanzil poderoso! Em seus
olhos frios, um lampejar de decepção! Esperava atacar sua vítima
e eventual repasto, durante o sono! Seu olhar era magnético! Sua
voz, um chiado suave e estranho aos ouvidos do Gatão!

– Felinoss…não queirass me enfrentarss! A resistência é inútil!
Conforme-sess! Sujeite-ses a meu venenoss e ao abraçoss de
meus anéiss! Prometo-lhe uma mortess rápidass e quasess
indolor!
– Foda-se, você! Vai ter que me tomar a vida! Não será fácil!
– A resposta do ofídio foi um silvo enfurecido! A criatura viperina
percebeu o alfanje na mão firme de seu contendor! Notou que ele
não era uma das tantas presas aterrorizadas que a peçonhenta
matara e comera, ao longo de sua longa existência! Seria portanto,
uma luta de vida e morte! Coleando o rajado corpo musculoso, a
cobra atacou na diagonal, em uma tentativa de confundir o Gatão!
Seus olhos reptilianos faiscavam, buscando mergulhar a pretensa
vítima em um sortilégio mortal! Pobre tola! Não sabia com quem
estava lidando! Ousadamente, o felino gris avançou, em um
movimento veloz e sinuoso! Estendeu o braço e sua mão agarrou o
corpo da cobra, junto a cabeçorra monstruosa! Apertando-o com
força titânica! A cobra sentiu instantaneamente a falta de ar! Não
conseguia respirar! O corpanzil estremeceu, lutando para supri-lo
do oxigênio faltante aos pulmões convulsionados! Dava para ver
seus dentes pontiagudos, pingando um veneno de cor amarelada,
a escorrer de maneira inócua pelas comissuras daquela boca
nojenta!
– Quess sser fantásstico era estess gato que tinha o poder de a
dominar daquela forma, terrível?! - perguntava-se o réptil,
encarando nebulosamente aquele felino gigante que estava prestes
a tirar-lhe a vida! Nem conseguia enlaçá-lo em seus palpitantes                                                          anéis de carne escamada, pois uma fraqueza imensa, dominava
seu organismo! Não queria morrer, assim! Precisava se soltar!
Necessitava desesperadamente sorver o ar para vivificar seu corpo
combalido! O coração batia violento, como um martelo
descompassado! A língua bífida, cor de carmim, se projetava à
frente, oscilando convulsivamente! E a dor! A dor extrema
provocada pelo aperto brutal era algo insuportável! Na cabeça,
uma sensação de inchaço, como se ela fosse um balão cheio de
hélio, bombeado incessantemente, a ponto de quase explodir! O
corpo da cobra estrebuchou, sem coordenação! A consciência e o
discernimento foram fugindo célere daquela mente em disrupção! A
visão do ofidiano escurecia rapidamente! Este, conseguiu, com
grande esforço, divisar um vulto! Notou fracamente, um movimento!
Era a lâmina gélida do alfange! Não sentiu o golpe! Sua cabeça foi
arrancada e voou para longe, enquanto o corpo do réptil, solto pela
mão de seu executor, caía, estertorando violentamente no solo
poeirento! Fim da contenda! Baixava com estrépito, mais uma vez,
a cortina do Teatro da Vida, manchada de sangue!

Desta vez, o Gatão estava verdadeiramente esgotado!
Afastou-se do canto, onde lutara pela própria vida! Cambaleando,
um pouco caminhou e foi sentar-se junto à fogueira! Tinha fome!
Pegou uma das latas de ração! Apertou uma reentrância, em seu
topo. Dentro da lata, o conteúdo desidratado começou a se
modificar! Desta forma, graças aos prodígios de uma tecnologia,
não mais existente, a lata se abriu, revelando uma deliciosa e
quente sopa de legumes temperados! O Gatão retirou a colher de
carbono localizada no lado esquerdo da lata e comeu com apetite
evidente, deixando a lata vazia! Este tipo de ração, usada pelos
militares em suas andanças em terrenos desérticos supria o
organismo de vitaminas e sais minerais, além de substituir a água,
hidratando integralmente o corpo! De fato, estas latas de ração
eram de último tipo e muito superiores aquelas ofertadas a ele por
Lena! Isto explicava a aparência saudável e bem alimentadas dos
chacais. Como será que estes malditos animais conseguiram
emboscar e superar militares treinados e possuidores de armas de
grosso calibre? Pensando bem, chacais eram conhecidos por
serem ardilosos e da mesma forma que atraíram a abutre e seu
filhote a uma armadilha, aqueles traíras deviam ter feito o mesmo,
com os milicos! Que se fodam todos eles, chacais e milicos! No
fundo, farinha do mesmo saco!

O Gatão deitou-se e estendeu o corpo, no sentido de
descansar por algumas horas. O sol já havia se levantado no céu,
quando o felino começou a adormecer, lenta e suavemente. Então
aconteceu! Embora estivesse dormindo, não era sonho! Ao felino
cinzento, pareceu que seu espírito estava sendo arrancado do
corpo físico! Neste estado, ouviu nitidamente uma voz! Esta voz o
chamava! Um som que já ouvira antes, mas quando? Com a
percepção do espíritos desencarnados, o Grande Gato sentiu que
não estava só! Uma figura longa, sinuosa e diáfana dele se
aproximou! Como se um véu fosse levantado diante de si, o felino
tristonho reconheceu a imagem da Serpente Gigantesca! Um ser
profundamente poderoso e sapiente que há muitos anos, o Gatão
encontrara na vetusta selva virginal, conhecida como o Inferno
Verde!

– Grande felino de outras terras! Me é prazeroso saber que
ainda vives! Não tentai replicar, pois a fala é propriedade da
carne! Escutai, filho meu! Tu passaste pela tribulação das
tribulações e esta ainda não findou! Ainda há de vir situações
muito piores! Momentos, os quais nem você poderá resistir e
sobreviver! Este mundo em que pisas está condenado!
Contudo, para ti haverá salvação! Deves levantar-te, levar
contigo o expressamente necessário e seguir para o sul. Não
temais, pois em tua mente o rumo certo a seguir implantado
estará! Encontrarás a passagem escondida para um mundo
dentro do mundo! Neste paraíso estarei eu à tua espera, bem
como, uma tua amiga felina que há muito não vês! Venhas,
corajoso felídeo! Venhas, se quiseres continuar vivo! Se não
crerdes ser capaz de arrostar os perigos e sofrimentos de tua
jornada, deixai-te ficar, para perecer com o resto dos que ainda
vivem…!

O Grande Gato despertou, sobressaltado! A face                                                                             banhada de suor! A cabeleira acinzentada em desalinho! Ficou por
um momento parado, a refletir profundamente! Esta pausa foi
momentânea, porém! Resolutamente, ele arrumou seus pertences
e partiu, sob o sol inclemente do deserto. Ter uma motivação, um
objetivo mudou completamente o estado de espírito do felino! Se
ele existia, até aquele momento, por assim dizer, no automático,
agora sabia para onde ir e que havia uma luz brilhante, no fim do
túnel, até então, um abismo muito profundo! O Gatão não
continuaria, apenas pelo mero instinto de sobrevivência! Ele                                                    prosseguiria numa busca! Uma busca baseada em uma louca
experiência transcendental! Fantástica, sim! Mas era a única
certeza que hoje tinha, de recomeçar uma vida que julgava
perdida!

domingo, 26 de outubro de 2025

UNBOXINGS DE ZÉ GATÃO, O RETORNO DO GUERREIRO.

 O  poeta, escritor e editor Barata Cicheto batizou a campanha das reedições de MEMENTO MORI e DAQUI PARA A ETERNIDADE  de "Zé Gatão, O Retorno do Guerreiro". Foi uma corrida dura, sofrida e que ao final, mesmo tendo sido vitoriosa, não rendeu frutos monetários nem para mim e nem para ele. Para este autor foi sucesso pois eu não esperava muita coisa, as campanhas de financiamento coletivo anteriores do felino não foram lá muito bem, esta, ao contrário, teve adesão significativa. Claro, eu queria que tivéssemos uns mil apoios, mas em vista da merda em que o país está mergulhado, sem dinheiro circulando nas mãos de quem trabalha de fato, até que ajudaram bem. O apoio premium foi o que mais me surpreendeu, por conta disso tive que abandonar todos os projetos em que eu trabalho para me dedicar aos sketches e artes exclusiva para os auxiliadores. Foram 21 esboços e 21 artes a nanquim onde dei o melhor de mim. Fiz cada uma delas como que contando uma nova história para o aposentado gato mestiço.

Memento Mori e Daqui Para A Eternidade, editadas há muitos anos pela Devir e esgotadas oficialmente chegam para novos leitores; bem verdade que é um número pequeno, mas sendo bem sincero, eu prefiro qualidade à quantidade e pelo contado que tive com alguns deles, percebi que são jovens de bom gosto e que entendem dessa arte e me pareceu que vão espalhar sementes.

Claro, tive apoio de fã antigo também. 

Agora que todos receberam seus pacotes, damos a coisa toda como missão cumprida. Todo trabalho executado pelo Barata e por mim nos deu a sensação de uma tarefa hercúlea muito bem feita e entregue no prazo. Alvíssaras!

Pedi aos fãs antigos e novos do Zé Gatão que realizassem um vídeo no ato de abrir as caixas com os livros e os brindes. A maioria o fez, outros não puderam, infelizmente. 

Aos que fizeram a gentileza, quero honrá-los publicando aqui.

Como poderão observar, dois deles estão no YouTube. O vídeo do Leandro Luigi Del Manto, que foi o editor original desses livros e grande colaborador nessas novas edições (também autor da ideia da pata do gato na numeração das páginas), excedeu o tamanho que o blog comporta e por isso não consegui subir para cá. O mesmo aconteceu com os vídeos do grande artista Andrios e do amigão Vinnie Blues. Uma pena, testemunhos muito legais mas estou sujeito às limitações dessa plataforma. Mas fica aqui a minha imensa gratidão a esses irmãos do peito e a todos que apoiaram essa campanha permitindo assim a volta do felino casmurro. 

Havendo depoimentos e resenhas, pretendo publicar aqui. 

Um abraço a todos e vamos aos vídeos:    


 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

RÉQUIEM PARA O POETA DO CAOS

   Não tenho escrito muito neste blog, falta-me força, falta-me vontade. Achei que a idade me faria escrever melhor, mas a insistência de ce...