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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

ZÉ GATÃO - A BUSCA - Parte 2 (Um conto escrito por Luca Fiuza)

 A BUSCA – Capítulo 2:

O crepitar da fogueira era o único som audível, no silêncio da
gélida noite do deserto. Sua luz bruxuleante, iluminava o rosto
sombrio do felino casmurro. Ter ficado no interior daquelas ruínas
foi a melhor coisa que o Gatão fez. Apesar de estar bastante frio,
era melhor do que dormir ao relento, no interior de uma tenda
rústica. Pouco antes da chegada da noite, o Gatão revistara
cuidadosamente, aquele destroço, um dia uma cidade próspera e
movimentada. Encontrou o esconderijo usado pelos chacais. Havia
uma preciosa caixa de mantimentos, cheia de latas de ração de
sobrevivência, uma mochila maior que a sua e pastilhas de água
desidratada em grande quantidade. O felino verificou que todo
aquele equipamento era pertencente ao Exército. Intuiu que
destacamentos dispersos desta Força Armada, erravam pelas
cercanias e com certeza, aconteciam escaramuças entre estes
pequenos destacamentos militares e as hordas de desesperados
como aquela que ele, Gatão tinha eliminado! Bem, aqueles chacais
não eram exatamente uma horda e sim, um bando minúsculo,
comandados por uma fêmea de miolo mole!

O felino juntou o que pode daqueles itens e os levou para seu
acampamento, em outra parte das ruínas! Resolveu conservar o
alfanje! Era uma ótima arma de ataque e defesa! Seria inútil contra
armas de fogo, mas ele sabia se virar! Para não dizer que não
havia outros artefatos interessantes, encontrou um rifle de
repetição, em bom estado e três caixas pequenas de munição!
Apropriou-se disto, também! No entanto, só usaria o rifle em último
caso! Munição era algo escasso naqueles tempos e o Gatão não
sabia quando e se a encontraria, outra vez! Portanto, a ordem era
ser parcimonioso! Assim que amanhecesse, ele partiria sem
demora daquele antro, onde o cheiro de dor e morte eram
incomodativos, de tão intensos! Estava cansado! Nem tanto
fisicamente! O cansaço era mais mental! Resolveu recolher-se.
Deixou o alfanje ao alcance da mão, fora da bainha trabalhada que
seria depois presa ao lado do corpo por uma cinta vermelha, com
motivos dourados, de sabor oriental.
Pouco antes da aurora, um leve som despertou o felino! Era o
arrastar sinuoso de um corpo pesado! Uma cobra! E das grandes!
O corpo do felino retesou-se, como que atingido por uma forte
descarga elétrica. Sua mão segurou firme, o cabo do alfanje!
Repentinamente, ele rolou para o lado direito e ergueu-se de
pronto! O enorme réptil levantou o corpanzil poderoso! Em seus
olhos frios, um lampejar de decepção! Esperava atacar sua vítima
e eventual repasto, durante o sono! Seu olhar era magnético! Sua
voz, um chiado suave e estranho aos ouvidos do Gatão!

– Felinoss…não queirass me enfrentarss! A resistência é inútil!
Conforme-sess! Sujeite-ses a meu venenoss e ao abraçoss de
meus anéiss! Prometo-lhe uma mortess rápidass e quasess
indolor!
– Foda-se, você! Vai ter que me tomar a vida! Não será fácil!
– A resposta do ofídio foi um silvo enfurecido! A criatura viperina
percebeu o alfanje na mão firme de seu contendor! Notou que ele
não era uma das tantas presas aterrorizadas que a peçonhenta
matara e comera, ao longo de sua longa existência! Seria portanto,
uma luta de vida e morte! Coleando o rajado corpo musculoso, a
cobra atacou na diagonal, em uma tentativa de confundir o Gatão!
Seus olhos reptilianos faiscavam, buscando mergulhar a pretensa
vítima em um sortilégio mortal! Pobre tola! Não sabia com quem
estava lidando! Ousadamente, o felino gris avançou, em um
movimento veloz e sinuoso! Estendeu o braço e sua mão agarrou o
corpo da cobra, junto a cabeçorra monstruosa! Apertando-o com
força titânica! A cobra sentiu instantaneamente a falta de ar! Não
conseguia respirar! O corpanzil estremeceu, lutando para supri-lo
do oxigênio faltante aos pulmões convulsionados! Dava para ver
seus dentes pontiagudos, pingando um veneno de cor amarelada,
a escorrer de maneira inócua pelas comissuras daquela boca
nojenta!
– Quess sser fantásstico era estess gato que tinha o poder de a
dominar daquela forma, terrível?! - perguntava-se o réptil,
encarando nebulosamente aquele felino gigante que estava prestes
a tirar-lhe a vida! Nem conseguia enlaçá-lo em seus palpitantes                                                          anéis de carne escamada, pois uma fraqueza imensa, dominava
seu organismo! Não queria morrer, assim! Precisava se soltar!
Necessitava desesperadamente sorver o ar para vivificar seu corpo
combalido! O coração batia violento, como um martelo
descompassado! A língua bífida, cor de carmim, se projetava à
frente, oscilando convulsivamente! E a dor! A dor extrema
provocada pelo aperto brutal era algo insuportável! Na cabeça,
uma sensação de inchaço, como se ela fosse um balão cheio de
hélio, bombeado incessantemente, a ponto de quase explodir! O
corpo da cobra estrebuchou, sem coordenação! A consciência e o
discernimento foram fugindo célere daquela mente em disrupção! A
visão do ofidiano escurecia rapidamente! Este, conseguiu, com
grande esforço, divisar um vulto! Notou fracamente, um movimento!
Era a lâmina gélida do alfange! Não sentiu o golpe! Sua cabeça foi
arrancada e voou para longe, enquanto o corpo do réptil, solto pela
mão de seu executor, caía, estertorando violentamente no solo
poeirento! Fim da contenda! Baixava com estrépito, mais uma vez,
a cortina do Teatro da Vida, manchada de sangue!

Desta vez, o Gatão estava verdadeiramente esgotado!
Afastou-se do canto, onde lutara pela própria vida! Cambaleando,
um pouco caminhou e foi sentar-se junto à fogueira! Tinha fome!
Pegou uma das latas de ração! Apertou uma reentrância, em seu
topo. Dentro da lata, o conteúdo desidratado começou a se
modificar! Desta forma, graças aos prodígios de uma tecnologia,
não mais existente, a lata se abriu, revelando uma deliciosa e
quente sopa de legumes temperados! O Gatão retirou a colher de
carbono localizada no lado esquerdo da lata e comeu com apetite
evidente, deixando a lata vazia! Este tipo de ração, usada pelos
militares em suas andanças em terrenos desérticos supria o
organismo de vitaminas e sais minerais, além de substituir a água,
hidratando integralmente o corpo! De fato, estas latas de ração
eram de último tipo e muito superiores aquelas ofertadas a ele por
Lena! Isto explicava a aparência saudável e bem alimentadas dos
chacais. Como será que estes malditos animais conseguiram
emboscar e superar militares treinados e possuidores de armas de
grosso calibre? Pensando bem, chacais eram conhecidos por
serem ardilosos e da mesma forma que atraíram a abutre e seu
filhote a uma armadilha, aqueles traíras deviam ter feito o mesmo,
com os milicos! Que se fodam todos eles, chacais e milicos! No
fundo, farinha do mesmo saco!

O Gatão deitou-se e estendeu o corpo, no sentido de
descansar por algumas horas. O sol já havia se levantado no céu,
quando o felino começou a adormecer, lenta e suavemente. Então
aconteceu! Embora estivesse dormindo, não era sonho! Ao felino
cinzento, pareceu que seu espírito estava sendo arrancado do
corpo físico! Neste estado, ouviu nitidamente uma voz! Esta voz o
chamava! Um som que já ouvira antes, mas quando? Com a
percepção do espíritos desencarnados, o Grande Gato sentiu que
não estava só! Uma figura longa, sinuosa e diáfana dele se
aproximou! Como se um véu fosse levantado diante de si, o felino
tristonho reconheceu a imagem da Serpente Gigantesca! Um ser
profundamente poderoso e sapiente que há muitos anos, o Gatão
encontrara na vetusta selva virginal, conhecida como o Inferno
Verde!

– Grande felino de outras terras! Me é prazeroso saber que
ainda vives! Não tentai replicar, pois a fala é propriedade da
carne! Escutai, filho meu! Tu passaste pela tribulação das
tribulações e esta ainda não findou! Ainda há de vir situações
muito piores! Momentos, os quais nem você poderá resistir e
sobreviver! Este mundo em que pisas está condenado!
Contudo, para ti haverá salvação! Deves levantar-te, levar
contigo o expressamente necessário e seguir para o sul. Não
temais, pois em tua mente o rumo certo a seguir implantado
estará! Encontrarás a passagem escondida para um mundo
dentro do mundo! Neste paraíso estarei eu à tua espera, bem
como, uma tua amiga felina que há muito não vês! Venhas,
corajoso felídeo! Venhas, se quiseres continuar vivo! Se não
crerdes ser capaz de arrostar os perigos e sofrimentos de tua
jornada, deixai-te ficar, para perecer com o resto dos que ainda
vivem…!

O Grande Gato despertou, sobressaltado! A face                                                                             banhada de suor! A cabeleira acinzentada em desalinho! Ficou por
um momento parado, a refletir profundamente! Esta pausa foi
momentânea, porém! Resolutamente, ele arrumou seus pertences
e partiu, sob o sol inclemente do deserto. Ter uma motivação, um
objetivo mudou completamente o estado de espírito do felino! Se
ele existia, até aquele momento, por assim dizer, no automático,
agora sabia para onde ir e que havia uma luz brilhante, no fim do
túnel, até então, um abismo muito profundo! O Gatão não
continuaria, apenas pelo mero instinto de sobrevivência! Ele                                                    prosseguiria numa busca! Uma busca baseada em uma louca
experiência transcendental! Fantástica, sim! Mas era a única
certeza que hoje tinha, de recomeçar uma vida que julgava
perdida!

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