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domingo, 22 de abril de 2012

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 Eram os duros anos 90. São Paulo. Morávamos na Rua Guainazes, bem ali no centrão velho da cidade e embora eu ainda não tivesse conhecimento, aquela região era também conhecida como "cracolância".
Lembro que não tínhamos telefone nesta época, então, quando necessário, deixavámos o número de um vizinho nosso, compadre do meu pai. Em 1994, bem tarde de uma noite particularmente gelada, ele batia em nossa porta dizendo que havia alguém ao telefone querendo falar comigo. O cara estava de pijamas, olhos sonolentos, muito sem graça o acompanhei me perguntando quem poderia ser tão inconveniente. Era um conhecido (também desenhista) me informando que um amigo dele, dono recente de uma agência de publicidade, precisava de um  artista pra continuar tocando o negócio. Naqueles dias, mais que nunca eu matava cachorro a grito e jacaré a beliscão, fazia muitas ilustrações pra revistas mas era uma situação tão irregular que o dinheiro não rendia. Perguntei quem eu precisaria matar pra não perder a vaga. Ele deu-me um número pra eu ligar assim que fosse possível e acertar uma entrevista. Logo de manhã, munido de algumas fichas fui ao orelhão da esquina e falei com a esposa do cara. Combinei de passar na tal agência naquele mesmo dia. Ficava num local distante pra burro, perto de Interlagos, mas isto não me impediu de chegar na hora marcada acompanhado da minha fiel pasta preta onde guardava minhas artes, ela era tão grande e pesada que era um transtorno carrega-la em coletivos.
Naquela tarde brilhava um sol frio, indiferente, assim como a esposa do publicitário e co-proprietária da tal agência. Era uma mulher jovem, bonita, fútil e com minhocas no lugar do cérebro, trajava uma blusa de lã, salto alto e micro-saia pra exibir os pernões, olhou minhas ilustrações fingindo que entendia daquilo, falou que eu era muito bom mas que quem decidia era o marido que encontrava-se em viagem. Eu teria que voltar num outro dia mas precisaria ligar antes. Aquela idiota podia ter me poupado tempo me informando que ela não apitava nada, mas tentei não me aborrecer.
Liguei de novo e falei com o dono a quem chamaremos de "V". Prático, disse que ouvira da mulher (que chamaremos de "C") que eu era talentoso e que confiava na opinião dela, não precisaria levar portfólio, caso quisesse mesmo me unir ao time era só levar meus documentos e começar a trabalhar. Boa, pensei.
Em Brasília eu trabalhei numa agência de publicidades por alguns meses e admito ter odiado cada minuto, mas eu precisava de algo que me permitisse ter algo todo final de mês.

Minhas lembranças agora são um pouco difusas, confesso. Pouco me recordo dos meus primeiros dias, mas uma insegurança muito grande me embotava o raciocínio e a criatividade. Para minha sorte o "V" entendia de propaganda tanto quanto eu entendo de geometria espacial.
"V" era um negro magro e alto, feio, mas simpático, com uma voz grave e muito agradável, aliás, esta era sua verdadeira vocação, radialista. Ele apresentava um programa de músicas sertanejas numa rádio. Eu nunca senti, mas as meninas que trabalhavam lá diziam que ele tinha mau hálito, não sabiam como a "C" aguentava.
Combinei com ele de trabalhar somente na parte da tarde, pela manhã eu cuidave de outras artes encomendadas. Almoçava cedo e as onze horas caminhava até o Largo São Francisco pra pegar o ônibus até à Nossa Senhora do Sabará, não podia chegar atrasado, mas era algo quase inevitável, afinal, o ônibus emperrava na altura do Aeroporto de Congonhas, o que com o tempo me rendeu uma chamada ríspida por parte do "V", envenenado por "C". Muito tempo depois eu descobri que aquela mulher já tinha me apelidado de Hulk e era assim que as pessoas lá se referiam a mim quando eu não estava por perto.

Ele tinha alguns clientes fixos, o que mais requisitava trabalhos era um sacolão de legumes e frutas, minha função era criar visual para as promoções do lugar. Fazia também muitas ilustrações para "raspadinhas", cês sabem, aqueles bilhetinhos que dão prêmios. Certa vez cheguei a executar uma capa de disco infantil com musiquinhas cantadas por um palhaço, não lembro o nome dele, infelizmente.

"C" estava sempre lá, fazendo nada, trajava-se dia sim e o outro também com vestidos e saias justíssimas e curtas. Quase sempre ela vinha se sentar perto de mim quando o "V" estava ausente, pra me ver trabalhar. Ficava lá, exibindo aquelas coxas grossas. Eu era uma uma espécie de asceta, só sendo assim mesmo pra resistir a tamanha tentação, afinal eu estava solteiro fazia um bom tempo. Se debruçava sobre minhas costas, colocava a basta cabeleira com mechas loiras no meu rosto perguntando se estava cheiroso, que tinha usado tal shampu aquele dia e essas coisas.
A telefonista também era uma mulata de parar trânsito, lábios hiper grossos, fofoqueira até não poder mais, falava da vida de todo mundo. Eu ficava na minha, nunca dava muito papo. Ela saiu um tempo depois para se casar, no lugar dela contrataram uma garota de dezoito anos que também fazia um lobo uivar. Eu a chamava secretamente de "lolita". Ela e outra garota nerd, casada, que ficava no computador eram as únicas pessoas com quem gostava de conversar, lindas, simpáticas e viviam me adulando. Certa vez a lolita (que não por acaso era noiva do irmão do "V") deixou escrito na minha prancheta: "você é um tesão", li, fiquei na minha, desci pra lanchar, quando voltei a fraze estava riscada.
Eu chegava por volta da hora do almoço, num dia a cozinheira estava em prantos. O que houve? Perguntei. Ela chorava pela morte do Ayrton Senna. Ah, fiz eu. Me encaminhei ao banheiro para lavar o rosto e as mãos como sempre fazia antes de me sentar à prancheta e o local, todas as vezes - aquela hora - fedia horrívelmente. Intrigado, comentei com a garota do computador: "Su, acabo de vir do banheiro, não é de hoje que aquilo está com um insuportável cheiro de merda!" Ela riu e respondeu baixinho, "Ah, você não sabe quem deixa o banheiro naquele estado? É a esposa do chefe, invariavelmente ela termina o almoço e corre pra lá. Ela é bonita mas tem os intestinos apodrecidos".   

Devo dizer que o serviço era moleza, eu recebia direitinho, era exatamente no período de implantação do Plano Real. Obviamente aquilo em termos de agencia não funcionava de acordo. As vezes eu passava tempos sem ter o que fazer, isto porque o material gráfico era preterido em função de uma dupla sertaneja que "V" estava empresariando, jurava que ia leva-los ao programa do Faustão e que os tornaria tão célebres quanto Chitãozinho e Chororo, coisa que, é claro, nunca aconteceu, não que faltasse talento à dupla, ou que "V" não se empenhasse, mas sabemos que nesta vida nem tudo depende somente de esforço e trabalho. Tem que existir o fator sorte envolvido, somado a uma cadeia de acontecimentos que fazem a roda girar a seu favor. Mas estou divagando, vamos terminar isto.

"V" inaugurou um novo escritório e com aquela ampliação muitos planos foram feitos, não sei se ele conseguiu realiza-los, não muito tempo depois fui chamado a sala dele ("C" estava lá em pé me observando), fui dispensado das minhas funções, ele disse que seria temporário, mas eu sabia que aquela conversa era pra coisa não ser traumática (achei até legal da parte dele).
Lolita e Su ficaram tristes, na verdade eu também fiquei, não era pelo emprego em sí, mas naqueles dias era bom ter algo no que me apegar.
Foi nesta época, quando chegava do trabalho, que comecei a desenhar o "Zé Gatão - Cidade do Medo", agora eu teria mais tempo para me dedicar aquela que viria ser a minha primeira obra em quadrinhos e que só seria publicada anos mais tarde.

Tenho muitos fatos pitorescos pra narrar sobre este trabalho e aquelas pessoas, mas o bom senso me aconselha a omiti-los.

Olhando para trás hoje, posso dizer que foram bons tempos. Tardes mornas, noites frias. Saudades de Su e lolita. 




4 comentários:

  1. Fala, Eduardo! Beleza de texto. E é muito ético de sua parte não dar "nome aos bois", é melhor do jeito que vc faz. E essas histórias têm um grande sabor. Não sei se é porque tb já vivi várias situações semelhantes ligadas a esse nosso tentar viver de arte, mas o fato é que é bem bacana ler seus relatos.
    Ótima semana pra vc e a Verônica.
    Abração,

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  2. Ah, rapaz, quanta coisa eu gostaria de relatar aqui, mas sou só um, e pensando bem, quantos estariam dispostos a ler? Mas aos poucos, quando a inspiração aliada ao tempo permitir, vou contando um pouco da minha história.
    Verônica agradeçe suas recomendações.
    Abraços.

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  3. Eu ri na parte do banheiro federento e na resposta de quem a deixava. "Intestinos apodrecidos"... credo!

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  4. Pra você ver, é o comentário de uma mulher sobre a outra. Ainda bem (para nós os homens) que elas não são unidas (só na aparência, claro).
    Pelo meu texto parece que eu tinha mágoa da mulher do chefe, né? E tinha mesmo, mas não é pra menos, tem que conhece-la pra saber como ela era venal.
    Abraços.

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