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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

TENTATIVA PARA A VEGETARIANA.



Prezados e prezadas, bom dia. Como puderam notar dei um tempinho nas postagens, mas foi mais para conceder, a quem fosse interessante, o tempo de ler o conto do universo Zé gatão, Cloaca Dos Mares, que, reconheço, ficou longo.
Mas voltando, as artes de hoje foram as primeiras tentativas que fiz de ilustrar a capa de um livro chamado a Vegetariana. Na versão abaixo a personagem está deitada sobre a sombra do observador numa tentativa de dar à coisa um tom surreal. Inclusive já postei um outro esboço a um tempo atrás.
Este livro, pelo que fiquei sabendo, foi um puta sucesso na sua terra de origem, a Coréia, tanto que virou filme. Depois de alguns sketches como estes, a editora, pressionada pela autora e mais uns tantos palpiteiros (pelo menos foi isto que entendi) optou por usar uma foto ao invés de uma pintura.
Mais uma vez trabalhei a toa, sem nenhuma compensação. Sei que isto faz parte do processo, mas comecei a refletir sobre estas questões neste último fim de semana; tive o prazer de assistir a dois documentários muito interessantes sobre dois autores que admiro muito, Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, ambos gênios e influentes que viveram na merda. Lovecraft nem tanto, mas Poe é sabido que passou necessidades por demais. Os contos policiais e de terror que ele modernizou não lhe rendiam quase nada, eram muito bem aceitos pelo público em geral mas eram desprezados pela crítica especializada. Nenhuma novidade aí, os tempos de Poe eram muito complicados, mas o meu ponto é este: ele ganhou mais dinheiro como crítico literário, não exatamente com suas histórias.
Lovecraft foi mais ou menos parecido, as histórias que ele publicava nas revistas pulp lhe rendiam uma miséria, ele recebia um salário melhor como ghost writer.
Longe de me comparar a dois escritores ícones, mas não é a mesma situação que passo? Não sei quanto a outros artistas, mas eu não ganho nada (ou quase nada) com meu trabalho pessoal, para sobreviver eu tenho que ilustrar livros, desenvolver tomos de como aprender a desenhar e ainda assim são muito mal pagos. Desta feita tenho que me atulhar de serviço para ter grana que dê para pagar todas as minhas contas. Não sobra muito tempo para meus desenhos escapistas. Com relação ao valor pago por ilustração sei bem que tem vários especialistas dando dicas e tudo mais, mas se não aceito o que me empurram pela minha garganta não pago o meu aluguel e plano de saúde, nem faço compras no mercado.

Bem, amadas e amados, nem era minha intenção discorrer sobre isto aqui, uma palavra levou a outra e pronto: mais um desabafo. É que as editoras resolveram me deixar de molho neste início de 2014 e a barra tá pesando. Mas vai dar tudo certo no final.

Meu amigo e grande artista José Roosevelt sintetizou tudo muito bem na última mensagem que me mandou:
"Estamos aqui para dar ao mundo um pouco de beleza e não para receber glória e riquezas, que são passageiras e ilusórias".
E com esta máxima me despeço, contando com vocês para a próxima postagem.


8 comentários:

  1. Também gosto do Poe e do Lovecraft, Schloesser. Com o Poe, sei que você já está trabalhando. E quanto aos monstros do Lovecraft? Já desenhou algum? Pena que os coreanos mudaram de ideia. O desenho estava ótimo. Abraço!

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    1. Oi, Carla, obrigado pelo elogio e comentário.
      Sabe, neste documentário do Lovecraft, há um depoimento do cineasta John Carpenter que é muito pertinente, ele diz que as criaturas do H. P. são mais interessantes e assustadoras quando lidas, uma vez que alguém as desenha elas perdem o impacto por soarem um tanto ridículas, afinal muitas são moluscos ou pepinos com asas e tentáculos, coisas assim. Mas acho a figura do Cthulhu horripilante.
      Na verdade nunca desenhei nada deste autor, mas está nos meus planos fazer uma ilustração para o "Herbert West Reanimator" e uma para "A estampa Da Casa Maldita". É só sobrar um tempo.
      Grande abraço.

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  2. Oi Eduardo e boa noite. Também gostei do desenho e realmente a tantos por menores que nos roubam tanto tempo, que não nos permite fazer tudo o que precisamos, o que dirá fazer o que queremos, o fato é que nós somos severamente lesados pelo fato de artistas tão brilhantes quanto você e tantos outros, que por estarem lutando pela sobrevivência com outros projetos e trabalhos, ficam restringindo as suas incríveis obras à escapadelas de tempo vez ou outra, quando deveriam viver desse talento tão maravilhoso que vocês tem. Bom é isso, boa noite.

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    1. Caro Adalberto, agradeço muito suas palavras sempre tão gentis.
      Sabe, já perdi a conta do número de ideias que tive que abortar por não ter mercado ou mesmo falta de tempo para desenvolve-las, já citei muito exemplos aqui. Mas algumas a gente vai fazendo uma forcinha pra não deixar passar batido. Mas é duro realmente, as vezes bate desânimo, mas admiradores como você sempre sopram nos ouvidos: vamos, levante-se, o round ainda não acabou, lute! E assim prosseguimos.

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  3. É,meu nobre,é barra,bem sei. Sempre fico entre a necessidade e a alma,e admito que as vzs opto pela alma,em detrimento à aluguel,contas e até as vzs comida mesmo. Mas sei que o que eu faço da minha vida quando to só,é diferente de quando tem alguém ao meu lado. Nossos companheiros de labuta sempre dizem que o melhor é o meio termo. Ganhar dinheiro,e com esse dinheiro,sobreviver para criar,pois se para o artista a arte é o ar que respiramos,a grana é um bom ventilador pra fazer esse ar circular. Bem,isso é o que nossos companheiros de desenho falam. Eles até tem sua razão sim,mas por mim,sabe o que acho? Se Deus fala através de nós,aos seus filhos,os ouvidos mais próximos dos lábios de Deus sempre serão os nossos. Então que amemos nosso fardo,pois,apesar de todo o peso a carregar,o maior prazer sempre será o nosso. O trabalho está fantástico,amigo. se eles optaram por usar uma fotografia,você é quem ganhou. Agora você tem mais uma grande obra para,junto a outras,num futuro próximo,publicar um livro de suas ilustrações ,num nível artístico que só quem é a voz de Deus é capaz de criar. Paz e força em nossos corações,nobre Eduardo Schloesser.

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    1. Suas palavras me trazem um grande conforto, Allan, obrigado.
      Por acaso vivo nestes dias, onde os trabalhos escasseiam, as editoras lhe põem na geladeira e se tem que recorrer à família e aos amigos para ter uns trocados emprestados para as coisas básicas, é nisto onde sinto bater mais forte esta coisa complicada de ser um artista sem sucesso comercial. Mas tudo bem, é uma fase, e como todas, elas passam e nós temos que continuar vivendo. Como você sabiamente comentou, amemos o nosso fardo e criemos obras que nos impulsione - e se no caminho mais alguém for impulsionado por elas, então tudo terá valido a pena. Dinheiro é uma coisa que vem e vai, o que criamos fica por mais tempo.
      Grato por sua visita, prestígio e comentário.
      Grande abraço.

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  4. Oi, Eduardo! O Adalberto conseguiu expressar o que sinto em relação às suas palavras. Infelizmente sei que essa situação não muda a curto prazo no Brasil.
    Mas força aí,
    Um grande abraço

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    1. Pois é amigo Gilberto, os desabafos se fazem necessários e hoje, diferente dos tempos de Poe e Lovecraft, temos a tecnologia que nos permite desfiar nossos rosários e receber palavras de incentivo
      por parte de amigos, fãs e até outros artistas. Isto ajuda muito, pode ter certeza. Sei bem que o que vivo relatando aqui não é uma realidade pra todos os que vivem de arte, mas sei que é pra maioria. Uns talvez tenham mais sorte ou consigam vender melhor seu produto, vai saber. Mas estamos no jogo.
      Abração e obrigado.

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