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terça-feira, 1 de setembro de 2015

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS ( 05 )


Há dias em que nos sentimos bem com nós mesmos apesar da maré contrária, há momentos porém em que o sol brilha radiante, tem muita comida na geladeira e a saúde está ok, mas existe uma estática nas ondas sonoras, algo imperceptível aos ouvidos comuns mas não passa despercebido aos de sentidos mais atentos, uma mancha quase invisível no branco do lençol que só uma olhada criteriosa poderia perceber, e isto faz com que fiquemos desconfortáveis. Eu pelo menos fico.

Tenho tido certo sucesso em dividir meu tempo para realizar as coisas que preciso. Demoro muito mais para concluí-los mas ao menos tiro alguns projetos da lista de espera. Minha prioridade é trabalhar no segundo álbum de anatomia, então dedico a ele boa parte do dia, logo em seguida esboço os quadrinhos para o NCT e depois vem meus rabiscos pessoais, estes que não tem gerado grana mas que me ajudam a relaxar e sentir que não sou um inútil completo para mim mesmo. É nos intervalos que consigo ler alguma coisa, o capítulo de um livro ou páginas de um gibi.
Em casa leio Dom Quixote (livro maravilhoso, mas que requer atenção, então saboreio com mais vagar), na rua leio algo mais ágil (como narrativas de aventura ou mistério).
As HQs que tem me acompanhado ultimamente são Juiz Dredd e Quarteto Fantástico - Inconcebível.
Não pude mais ir ao cinema (queria muito ter visto o último Missão Impossível, mas não deu).

Disse que tenho conseguido fragmentar meu tempo mas ontem não foi possível, entrei num Banco do Brasil por volta de três da tarde para pagar uma conta em atraso e só saí quando anoitecia.
Espaço lotado. Todos com senhas nas mãos, sem lugar para se movimentar, parecia os trens da Central do Brasil no Rio de Janeiro em horário de pico (eu costumo chamar de "pica"). Felizmente eu tinha Dashiell Hammett pra me fazer companhia. Mas tava difícil me concentrar na leitura de O Falcão Maltês, procurei um local mais isolado perto das mesas que faziam seguros e abertura de contas mas apareceu um velho com as reclamações de praxe, tive que escutar e assim que ele dirigiu seus desgostos para um outro infeliz mudei de posição ficando um pouco mais afastado perto da guarita do segurança, mas uma moreninha de óculos se aproximou arrastando seu filho birrento e presepeiro impedindo que eu pudesse mergulhar nas agruras de Sam Spade e suas datadas desventuras detetivescas. Minha bexiga, que não é cem por cento, começou a incomodar e me dirigi ao banheiro que ficava próximo, mas uma outra morena - também de óculos - leu meus pensamentos e se adiantou à minha frente. A gente respira fundo e se conforma.
Porque o assombro? Eu e todas aquela pessoas lutávamos pela vida, e, claro, não se pode vencer, mas nem por isto devemos desistir. Nesta trajetória não há lugar para bundamolice.
E assim foi, entre fechado em mim mesmo, falando com Deus sobre um fardo que eu e Verônica carregamos pelo caminho - que só Ele pode nos livrar (ou ajudar a carregar) - e as amareladas páginas de um pulp, fui finalmente atendido, literalmente o último cliente do banco.

Mas o ruído que inaudivelmente perturba a suave melodia em alguns momentos da vida não provinha de uma gigantesca fila de banco e suas consequências, essas coisas são necessárias para testar nossa paciência dia-pós-dia. Não, era outra coisa impossível de precisar com exatidão. Sei que a resposta está no livro de Eclesiastes e nem por isto deixo de estremecer ante a futilidade e imutabilidade de tudo.


Não consigo me lembrar exatamente para qual cena do clássico do Machadão eu fiz este desenho, minha memória não tem me ajudado nestes últimos anos. Observando-a noto um bom equilíbrio na composição, equilíbrio este bem mais difícil de conseguir na vida.

10 comentários:

  1. Falando em cotidiano... hehe!
    Hoje voltei à Faculdade de Odontologia da UFRGS (Porto Alegre).
    Há 1 semana, tive uma consulta marcada pra extrair um dente esquerdo do fundo da mandíbula, que cresceu e deitou por dentro da minha gengiva. Mas parte dele ficou de fora. Me senti um experimento, nas mãos daqueles estudantes. O cheiro da broca me lembrava serralheria. Por mais de uma hora, fiquei cansado de ficar deitado na cadeira. E dá-lhe anestesia! Foi uma cirurgia. Tiveram que partir o desgraçado, que virou 3 cacos. O triste é quando a anestesia passa e a dor vem. Me senti um Don Corleone vampirizado, com um gosto salgado na boca.
    Fiz por 3 dias, a dieta da sopa, pirão (uma mistureba que lembra purê), batida (ou vitamina) e sorvete. O remédio era um composto de Paracetamol com um cloridato de não-lembro-o-quê, mais compressas de gelo e mastigar só pelo lado direito. Nada de antibióticos e não tive febre.

    No ônibus, li a graphic novel Pétalas, uma fábula de Gustavo Borges (roteiro e arte) e Cris Peter (cores), que peguei na ComicCon RS 2015. Tive que me controlar pra não chorar.
    A retirada dos pontos não foi demorada, mas foi incômoda e sem anestesia.
    Pelo menos, não preciso extrair mais nada, nem ciso... por enquanto.
    Já tive minha cota de perder sangue.

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    1. Rapaz, que relato, hein! Histórias de dentistas dariam verdadeiras obras de suspense e terror. Tenho certeza que quem criou a franquia Jogos Mortais deve ter passado maus bocados em cadeiras de dentista ou cessões de fisioterapia. Eu mesmo tenho uns causos cascudos, mas não vou contar agora. E a recuperação de uma jornada dessas, então? Felizmente pra você, tudo acabou bem.

      Ouvi falar desta graphic novel mas pra mim é meio difícil ter acesso a material independente. É complicado pra mim adquirir coisas por correio. Se tivesse em livrarias....

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    2. Mas Pétalas, vai estar em livrarias e revistarias. O autor confirmou.

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    3. Ah, bom! Sendo assim, graças a sua recomendação, vou dar uma conferida, se aparecer na Cultura ou Saraiva.
      Valeu!

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  2. Oi, Schloesser! Acho que vou adotar sua atitude filosófica em relação a filas de banco, essas provações modernas. Perder as estribeiras e ir embora não adianta. Ficar reclamando com os colegas de martírio, também não. O negócio é tentar ter calma, aproveitar o tempo com outras atividades e, sempre que possível, reclamar do atendimento nos órgãos competentes. Haja paciência! Os desenhos continuam ótimos. Abraço!

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    1. Sim, Carla, paciência, se possível, é o único remédio. Ler ou ouvir uma boa musiquinha no Ifone ajudam. Agora, reclamar nos órgãos competentes acho que seria outra provação, né não?

      Obrigado e um grande abraço.

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  3. Oi, Eduardo! Essas idas aos bancos tb me assombram, às vezes. Procuro evitar ao máximo, mas nem sempre dá.
    Assisti Missão Impossível e achei ótimo! Sou fã de carteirinha. Sei que é uma doidera atrás da outra, mas é como dizem: "Massaveio", sei lá...
    Suas composições são sempre muito equilibradas, e as texturas, invejáveis.
    Um grande abraço!

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    1. Ah, Gilberto, os bancos, as filas, as pessoas, os ônibus e metrôs lotados, o corre-corre nos grandes centros...! Não dá mesmo pra evitar na maioria das vezes. É como eu disse, tentar driblar a coisa e tirar proveito do tempo que irá gastar lendo um bom livro ou ouvindo boa música.

      Queria muito ter visto Missão Impossível 5, mas não deu mesmo! Também sou fã. Agora só baixando da net.

      Obrigado pelos elogios e volte sempre.

      Abração.

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  4. Muito Bom!! fico feliz em saber que você se dedica a este Blog. Você é um verdadeiro artista. Parabéns!!!

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    1. Muito obrigado, Lucas.

      Ouço falar da morte dos blogs a um certo tempo e eu mesmo me vejo tentado a dar um fim neste aqui quando não me sinto inspirado para dizer algo que, acredito, seja relevante. Mas é um espaço onde me acostumei a desabafar quando há necessidade ou contar uma novidade, embora o público seja pequeno. Quero mantê-lo em respeito aos que me prestigiam e fazem a gentileza de acessá-lo.

      Grande abraço.

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