Total de visualizações de página

domingo, 4 de fevereiro de 2018

UM NOVO ZÉ GATÃO QUE MOROSAMENTE VAI GANHANDO FÔLEGO.



Nasci em São Paulo no ano de 1962. Meus primeiros anos de vida foram vividos com meus avós maternos pois meus pais, sem uma casa, ainda lutavam duro pra nos trazer o sustento a cada quinze, vinte dias.
Meu avô veio de Strasburgo (França) logo depois da primeira guerra e se estabeleceu no interior paulista construindo casas. A lembrança que tenho dele é que era calado e rude com minha avó. Esta por sua vez não perdia a oportunidade de me castigar com surras fosse pelo que fosse. Ela tinha a mania de frequentar velórios e eu sempre era levado junto. A morte, parece, sempre me acompanhou de perto. Mesmo assim eu amava esta avó com amor incondicional.
Meu pai também se revelou um pesadelo assim que fui morar com ele. Por tudo isso, eu penso, me tornei arredio e tímido, com grande dificuldade de me adaptar em qualquer meio. Na infância os valentões (sempre eles) eram como cardos dentro dos sapatos. Eu odiava a escola. Meus primos diziam que eu era baixinho e feio. Vivia apanhando dos professores e dos meninos mais velhos. Eu nunca dizia nada em casa. Achava que estava sozinho no mundo.

As histórias em quadrinhos entraram cedo em minha existência e foi ali que descobri uma forma de escapar da vida. As primeiras edições que tive acesso foram as HQs da Disney e do Maurício de Souza. Não tardou para chegar às minhas mãos as publicações da Ebal, uma editora maravilhosa que nos trazia Tarzan (o meu preferido), Lone Ranger, Cisco Kid, do argentino José Luis Salinas, Príncipe Valente, de hal Foster, Jim das Selvas e Flash Gordon de Alex Raymond, além dos heróis da Marvel e DC. Isso sem falar das publicações da Globo, a maior concorrente da Ebal, com histórias do Spirit, Fantasma, Mandrake, Dick Tracy, Sobrinhos do Capitão e muitos outros. Não sei qual editora publicava Riquinho, Tininha, Bolota e Brotoeja, mas eu devorava esses gibis, juntamente com Gasparzinho e Brazinha. Sim, claro, Luluzinha e Bolinha!

Claro que eu nunca tinha dinheiro para comprar isto, eu lia na maioria das vezes na cara dura na própria banca de jornal no centro velho de São Paulo ou quando alguém menos cruel se dispunha a me emprestar.

Com Tintim (que eu lia numa biblioteca pública) eu viajava o mundo e até ia para a lua, então surgiu o terror da Kripta e não muito depois os mundos fantásticos da Metal Hurlant. Eu me divertia com Mortadelo e Salaminho, Asterix e Mad (sempre lendo as edições dos poucos amigos que tive).

Talvez por não morar em São Paulo eu não tive acesso ao que era produzido no Brasil com suas HQs de terror e sexo. As edições da Spektro e Calafrio eu só vim conhecer melhor nos fins dos anos 80.

Isso tudo, acredito, me incentivou a desenhar, mas eu fazia coisas só para mim mesmo e uns pouquíssimos companheiros de escola, nunca me imaginei fazendo disso uma profissão, acho que por esta razão eu nunca me preocupei em me lapidar cedo, buscar recursos, desenhar melhor, eu comecei muito tarde nisto tudo.

Foi nos tormentos da vida no Rio de Janeiro que passei a me preocupar com o que eu faria do meu futuro e foi na arte que encontrei um rumo. Eu comecei a ter melhor noção de anatomia, luz e sombra, dobras de tecido, reproduzindo a lápis modelos de revistas de moda e maquiagem. Em contrapartida nunca me preocupei com perspectiva (algo que ainda hoje me dá dor de cabeça), prédios, carros e essas coisas. Nunca tive paciência para desenhar instrumentos musicais, móveis, mesas e cadeiras. No estúdio do Edgar Cognat esta paciência teve que ser duramente desenvolvida, eu precisava de disciplina e ali encontrei alguma. Mas não durou muito.

Tive meus momentos de "artista" trabalhando no SENAC em Brasília, mas foi quando finalmente eu regressei a São Paulo e me dar conta de que haviam quadrinistas talentosos que me senti desafiado a ser melhor do que eu pensava que eu era. Foi um duro caminho. E para cada um artista gente fina que eu encontrava (Arthur Garcia, João Pacheco, Franco de Rosa) eu me esbarrava com um bando de prepotentes que se achavam deuses. Com o passar do tempo vi que isso não se limitava só aos desenhistas, mas também editores e jornalistas especializados no assunto.

Mesmo com isso me retraindo eu procurei fazer meus quadrinhos nas frias madrugadas paulistas (neste tempo já influenciado pelo underground europeu - tá, um pouco de americano também, Crumb, por exemplo) sempre tentando aprimorar minhas narrativas.


Terminei meu último Zé Gatão (DAQUI PARA A ETERNIDADE) em 2003 e depois disso fiz umas poucas HQs curtas com o personagem e mais nada! Hoje, volto a trabalhar em uma nova aventura do felino nos meus intervalos de pagaluguel, tento fazer da mesma forma instintiva que fiz o meu primeiro álbum, tendo um texto como fio condutor e inventando pelo caminho, tentando me divertir e desabafar no processo criativo.
Nesta postagem, alguma cenas do que venho produzindo.


Vejo alguns programas no Youtube que falam sobre quadrinhos nacionais para me sentir antenado e noto que o que vem sendo publicado hoje é bem diferente do que eu lia na infância. Tudo tem veia de adulto, de autobiográfico, com desenho tosco, cartunizado. Não tenho vontade de ler.


No meio disso tudo sinto que não há publico e espaço para mim, mas mesmo assim eu vou fazendo um quadrinho hoje, outro na próxima semana, quando der. Um dia fica pronto. Talvez eu publique eu mesmo uma tiragem pequena para quem quiser ler.


Um fã me procurou para perguntar porque eu não compareço no FIQ ou na CCXP. Ele queria saber se eu sofria alguma perseguição por ser cristão e reaça de direita. Eu respondi a ele que não era isso, não, eu não era convidado pra esses lugares porque os organizadores não sabem que eu existo, nunca ouviram falar de mim e que isto não me importava. Não me sinto inserido neste mundo, não faço parte dele, nunca fiz. Os quadrinhos nacionais que são publicados hoje pelas editoras nada tem a ver com o que eu procuro fazer em Zé Gatão. Eu ainda sofro as influências de Corben, Wrigtson e Liberatore. Os atuais gibis tem muito pouco disso.


Será que nos encontramos na próxima semana? Deus sabe.
Beijos a todos!

     





















12 comentários:

  1. Ao ler o seu desabafo descobri que além de artista magnífico é um grande escritor. Sua estória é muito interessante. Descobri também que temos alguns personagens em comum:Luluzinha, Bolinha, Bolota, Riquinho e Tin Tin também fizeram parte da minha vida e me acompanham até hoje quando preciso de refúgio. Além de Tininha, A turma da Mônica, Madame Mim . Se não me engano era a Editora Record. Percebi também que tens uma grande sensibilidade e que poderia ter optado por seguir qualquer profissão pois tens competência. Ainda bem que escolheu nos encantar com a perfeição das suas criações. Grande abraço. Da sua sempre fã.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Legal ler seu comentário por aqui, Márcia, obrigado!
      Os quadrinhos me ajudaram a atravessar a infância, e olhe que eu nem mencionei Krazy Kat, Recruta Zero, Charlie Brown e Dick Tracy!

      Interessante você dizer que eu tenho competência para qualquer profissão, agradeço mas não sei, minha inadaptabilidade sempre me impediram de exercer qualquer atividade que tivesse que envolver outras pessoas; na verdade eu até me saía bem, mas com o passar do tempo eu sentia que morria por dentro. Desenhar é solitário mas estou inserido nos mundos de sonho e fantasia e isso me ajuda a prosseguir.

      Grande abraço!

      Excluir
  2. Como sempre meu amigo Luca escreve comentários muito pertinentes sobre minhas postagens em meu e-mail. Com a permissão dele, transcrevo aqui:

    "Velhão, boa noite. Apreciei muito o texto desta postagem. Nele você fez uma bela retrospectiva de sua infância e adolescência de maneira concisa, direta, objetiva e cheia de maturidade, contendo uma forte dose de consciência tanto da sua própria realidade existencial como de forma lúcida demonstrou de que maneira essas vivências foram a gênese de sua Arte e sobretudo do surgimento e delineamento psicológico de Zé Gatão. As dores e as dificuldades foram o tempero que o moldou como pessoa adulta com as características que tão bem conhecemos. Mas foi justamente por obra e graça de seu talento como desenhista e contador de histórias, talento este desenvolvido a custa de muito esforço e estudo que você encontrou seu caminho e a sua profissão. Congratulo-me contigo por isto. Apesar de nossas similaridades em diversos aspectos, inclusive no quesito artístico, nossos rumos foram outros e embora eu tenha andado à margem do mundo artístico, comendo do mingau bem pelas bordas, também me desnudei de sonhos e quimeras quanto a possibilidade de viver da escrita, ao menos como complemento, enquanto exerço minha profissão principal, a de professor. Daqui a poucos anos vou me aposentar e não tenho mais intenção de dar aulas. Estou ficando velho e estou cansado física e mentalmente e acho que não aguento mais os arroubos desta nova geração que aí está. Penso ao me aposentar, em dedicar boa parte do meu tempo a escrever pequenos contos e quem sabe de vez em quando histórias mais longas. Acredito ser difícil publicar e ter ganhos advindos desta atividade. Não sei e não quero mais ficar alimentando sonhos. Em minha vida a escrita terá o papel que sempre teve no sentido de ser uma distração e um lenitivo. E para mim já está de bom tamanho.
    Grande abraço.
    Lucão."

    Agradeço muito, meu bom amigo Luca.
    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  3. Gosto das suas postagens autobiográficas, Schloesser. Também tive uma infância traumática. Ninguém vira artista por excesso de felicidade, né? Queria saber como são desenhos "cartunizados". Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Carla!

      Cartunizado seria aquele desenho que parecem esses cartuns relaxados, como aquelas tirinhas que não tem compromisso com a estética, onde as formas apenas sugerem personagens. Sabe, nada contra se é um estilo que o artista usa para expressar uma ideia em particular, mas em muitos casos dá pra ver que o cara desenha mal mesmo e não se preocupa em fazer direito (minha opinião).

      Grande abraço!

      Excluir
  4. Essa hq eu faço questão de comprar, muito fã do felino,porém dificilmente aparece quadrinhos do zé gatão aqui em bauru!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa! Muito obrigado, Rita! Feliz com isso! Sobre os livros do Zé Gatão já lançados, experimentou procurar na Amazon ou nos sites da Cultura e Saraiva?

      Abração!

      Excluir
    2. achei na loja comix book shop,o daqui pra eternidade e memento mori,agora e so apreciar,valeu!!!!!!!!!

      Excluir
    3. Que legal, Rita, espero que goste! Considero estes dois álbuns os meus melhores trabalhos. Obrigado!

      Excluir
  5. UM BELO COMENTÁRIO DO ARTISTA RAFAEL ANDERSON, DE RECIFE

    "Excelente ilustração para variar, Eduardo. O texto nem se fala, um grande relato. Sempre que estudo a vida dos grandes mestres dos quadrinhos, em boa parte as hqs tiveram papel importante como válvula de escape para uma realidade nem sempre confortável.

    Concordo plenamente com você quando diz que o mercado de quadrinhos mudou, assim como os autores. Hoje em dia grande parte dos autores nem sequer leem quadrinhos, muitos entraram na moda atual de fazer hqs. Já vi vários ilustradores e designers que se dizem quadrinistas por achar que basta apenas ilustrar para se denominar como tal.

    As temáticas nem se falam, há muito as hqs deixaram de inspirar ou de ser apenas uma boa e simples diversão, para "Lacrar", "emponderar" e ter uma pseudo "representatividade" cheia de ódio e rancor.

    A questão da qualidade dos desenhos e roteiros também é um fato, porém não diz respeito apenas as hqs ao meu ver, "a produção cultural" em geral virou uma ode a mediocridade. Onde pessoas sem nenhuma qualidade são superestimados na contrapartida de que pessoas virtuosas são desmerecidas, vide a música como um exemplo fácil de observar.

    Me sinto um velho em relação ao que consumo, atualmente grande parte do que leio, assisto e ouço geralmente foi produzido quando eu nem era nascido. Por isso acredito que todo produto tem o seu publico, a grande questão é acha-lo (até hoje procuro o meu) .

    E como cristão, gostaria de te dizer que Deus sempre olha por nós, basta persistir (como você já vem fazendo) e que no momento certo tudo chega.

    Abraço e continue nos abrilhantando com o seu trabalho!"

    MUITO OBRIGADO PELO SEU PRESTÍGIO, RAFAEL!

    ResponderExcluir
  6. Confesso que só descobri Tintin, The Spirit e Mortadelo & Salaminho, por exemplo, no bloco sobre quadrinhos do extinto X-Tudo.
    Também sou um dos muitos que cresceram às voltas com as criações do Maurício de Sousa e da Disney. Eu lia além disso, as hq's dos Trapalhões, mas aquela versão infantil da Abril. Fora que assistia muita TV. Adotei o desenho como passatempo e posterior fonte de renda.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também gostava dos Trapalhões em formatinho, na verdade bem mais que o programa de tv.

      Excluir