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domingo, 5 de agosto de 2018

O IDIOTA DE UM PASSADO INÚTIL COM FUTURO NEBULOSO.


A avó entregava o indicador para o menininho e ele com seus dedinhos minúsculos segurava o dedão que, de tão grosso, a mãozinha quase não abarcava todo e assim caminhavam pelas poeirentas ruas de uma Guarulhos dos idos de 60. O dedão que trazia segurança era da mesma mão que o espancava quase todos os dias, as vezes sem motivo, muitas vezes só para extravasar a frustração, assim como um rinoceronte que em seu acesso de fúria, sem saber como liberar a raiva, investe sobre uma árvore ou um cupinzeiro. Certa vez o gurizinho, tolinho toda a vida, encontrou no quintal barrento de uma amiga da avó uma nota de um cruzeiro e sem saber o valor daquilo pegou o dinheiro lamacento e fazendo um rolinho, envolveu com a mãozinha suja desconhecendo que estava incorrendo num crime que lhe custaria caro, carregou-o assim, consigo. Ele não dimensionava a distância de casa da amiga da avó até a sua, talvez fossem apenas uma quadra ou duas, mas em seu cérebrinho idiotinha aquilo parecia muitos e muitos quilômetros. A avó vendo o pequenino punho cerrado perguntou o que ele segurava, ele, abrindo a garrinha, mostrou a cédula amarrotada. Onde você achou isso? Ele respondeu verdadeira e inocentemente.


A avó tomou aquilo como obtenção indevida de propriedade alheia. A manzorra desceu violenta sobre seu rosto. Incapaz de se conter, a senhora, cujo rosto parecia um pergaminho e tinha um olho cego, mordeu a língua e aplicou-lhe um novo bofetão. Talvez o choro do imbecilzinho aumentasse o furor da mulher, sabe-se lá, mas ela pegou uma vara e dava na bundinha e perninhas do pirralho dizendo que não suportaria a vergonha de ter um neto ladrão e foram devolver o dinheiro, o trajeto todo tomando sova, ora com varadas nas pernas, ora com tapões no cachaço. Os passantes olhavam indiferentes. Na vida adulta ele nunca conseguiu compreender porque, apesar de tudo aquilo, ele amava aquela mulher com amor incondicional e sua morte em 1977 deixou nele um vazio que nunca mais seria preenchido.

As jornadas pelas casas dos conhecidos eram longas e nas noites de lua cheia, o merdinha olhava para o alto e via aquele imenso olho gelado e prateado a fitá-lo. Ele corria o mais veloz que podia para fugir daquele olhar, mas não havia como se esconder, o olho o perseguia implacavelmente e seu encéfalo de minhoca não entendia: por mais rápido que corresse, a lua estava sempre ali, no alto, sondando-o.


Passou a infância com medo, não tanto pelos defuntos que ele via nos caixões, muitos quase escondidos entre cravos e rosas, mas das surras sem motivo aparente antes de dormir, ao levantar ou durante o correr do dia, dependia muito do humor da velha senhora. Os medos das surras só eram suplantados pelos constrangimentos provocados pelos desmaios da avó nas casas onde ela frequentava. Talvez eles fossem reais, talvez ela só provocasse a piedade alheia. Ele nunca soube. Todavia os castigos infringidos por ela nunca se comparariam aos do pai que viriam algum tempo depois.

Uns anos mais tarde, no início dos anos 70, o palerminha vê um comercial na tv de um certo produto de limpeza: uma mulher perplexa com a sujeira de sua cozinha, daí surge o Ajax com seu grande furacão branco, e dona retira a tampa e um tufão sai do recipiente limpando toda a imundície do local. Num belo dia a mãe do bocózinho compra o tal Ajax. Ele nada fala mas fica na expectativa de vê-la abrir a tampa do involucro e soltar o vendaval que há nele. Quando ela finalmente abre, nada acontece, nada de furacão, nada de ciclone, nada de turbilhão! O tontinho pensa: será que veio com defeito?

O lerdinho foi crescendo ouvindo dos priminhos que era feiosinho, das priminhas, que era baixinho e dos amiguinhos na escola, que era burrinho, assim, levando pancada dos meninos bem nutridos, com pais bem sucedidos, começou a pensar que não pertencia a este mundo, que não queria existir nele, descobriu que tinha incapacidade de se sentir bem em grupo. Vivia com quimeras e devaneios, sempre tristinho e com medo, sempre tentando parecer fortinho. Até que Deus, em quem ele acreditava, sem saber como nem porque, fê-lo descobrir que sabia desenhar e isto aliviou um pouco o fardo, fazendo-o escapar para outros mundos, mundos tristes que ele imaginava e criava, onde ele por mais surrado e pressionado que fosse, sempre saía vencedor no final.

O basbaquinho foi ficando velho no corpo mas por dentro nunca mudou. Continuou sendo um idiotinha, sempre fazendo as escolhas erradas. Nunca conseguiu mudar. Chegou a conclusão de que o amor eros é uma armadilha, um cárcere, o pior deles; descobriu que o que vale temporariamente é o amor philos e concluiu que o amor Ágape é o que preenche, é eterno e que torna a vida na terra suportável. E assim prossegue até o dia derradeiro em que toda vã filosofia vire poeira e seja dispersada pelo vendaval do tempo.

6 comentários:

  1. Fala, Eduardo! Profundo!! O passado muitas vezes nos molda, mas só de escrever já se transforma em catarse, sua, minha e de muitos outros por aí. Valeu! Grande abraço!

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    1. Pois é, né, Gilberto, acho que é isso mesmo. As vezes tentamos mudar o que somos, as coisas ao nosso redor....uns conseguem, outros andam sempre em círculos.

      Obrigado por vir aqui e comentar.

      Forte abraço!

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  2. História triste porque, no fim das contas, a avó desequilibrada venceu. Incutiu, numa criança indefesa, uma autoimagem negativa que persiste até hoje e tornou o adulto tão covarde e sem compaixão quanto ela. E esse adulto continua agredindo o menino. É incapaz de sentir pena do mais fraco; é incapaz de defender o inocente.
    Pode deletar este comentário, Schloesser. Juro que não vou me magoar. Só não posso ver uma criança tão cruelmente agredida e me omitir. Abraço!

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    1. Eu nunca deletaria um comentário seu, Carla! Ele foi muito inteligente, aliás. Sinceridade acima de tudo (sua e minha), se tenho coragem de me expor desta maneira é porque a necessidade de desabafo é urgente e tenho que suportar qualquer possível reação e/ou consequência. Estas coisas fizeram parte da minha história, hoje não vejo porque negá-la ou retê-la para mim mesmo. Elas moldaram a maneira como sou e minha forma de fazer arte. Até porque muitas situações daquele passado se repetem hoje no presente. Só senti que esse texto te agrediu, peço desculpas.

      Abração e conto sempre com você por aqui.

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    2. Não me agrediu, Schloesser. Agrediu a você mesmo e de forma injusta. Você não era um palerminha nem nenhuma das outras classificações negativas que você se atribuiu. Foi vítima inocente. Você não trata ninguém com a violência que dirige a si. Então aprenda a se tratar tão bem quanto trata os outros. Tá na Bíblia, lembra? Abraço!

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    3. Estou tentando, Carla, ser mais brando comigo mesmo, de verdade.
      Obrigado!

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