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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

EU E O TEATRO.




Eu resisti muito a entrar na faculdade. Queria falar sobre isto com mais tempo, mas se for esperar estar desocupado não escrevo nada aqui.
Na verdade só fiz minha inscrição para o vestibular em 1985, por muita insistência de minha mãe. Nunca me senti muito a vontade do meio das pessoas, então, assim que acabei o meu segundo grau, foi com um suspiro de alívio. Estudos, pensei eu, nunca mais. Nada contra o saber, que fique claro, o que nunca suportei era a escola enquanto instituição de ensino e seus métodos arcaicos. Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo. Hoje eu diria que era a minha inadaptabilidade a qualquer meio que me fazia pensar assim. Estar entre pessoas, ter que conviver com toda a gama de esquisitices que elas trazem me dava vertigens.
Já que você gosta tanto de desenhar, porque não faz algo ligado a arte? Indagava minha genitora. Tá, tudo bem, eu disse.
Fiz minha inscrição para as provas ciente que não passaria nem pela porta da faculdade. Sempre fui péssimo aluno. Mas passei, e com boa colocação. Não acho que fosse um curso muito disputado todavia. Licenciatura Plena em Artes Plásticas, foi minha escolha de curso, e eu nem sabia que raios isto significava.
Bom, como eu disse, passei, mas naquela época, se me lembro bem, só haviam aulas de manhã e a tarde, como eu trabalhava em tempo integral, tive que pagar a matrícula e tranca-la antes mesmo de começar o curso. Louco, né? Pois é, naquela faculdade era possível. Depois de um ano mais ou menos, abriu as aulas noturnas e finalmente me vi numa sala que ficava num anexo das instalações da faculdade no Centro Comercial Sul, o CONIC. Cadeiras colocadas em círculo e tive que passar pelo vexame de me apresentar, dizer de onde vinha e o que eu esperava do curso, como se estivesse no primário. Não lembro o que respondi,  mas recordo que não reconheci a minha própria voz. Eu trabalhava bastante durante o dia e a noite após as aulas eu tinha ainda disposição para puxar ferro no quartinho de empregada lá em casa, eu despejava  minhas frustrações nos pesos, era uma válvula de escape, sempre foi. Depois de umas duas semanas em certa agonia, mudo num canto da sala, tivemos nossa primeira aula de improvisação teatral, acho que o nome era esse. O professor, mais veado impossível, era uma figura que lembrava o Salvador Dalí até na forma de se expressar, cheio de caras e bocas, gesticulava mais que o Doutor Gori do seriado Spectreman, mestre em frases de efeito, se gabava se ter sido assistente do Ziembinski e que havia morado e comido pão com mortadela no período de vacas magras com a cantora Maria Alcina.
Foi por aí que comecei a me sociabilizar. As aulas, excelentes por sinal (aquele professor tinha ótima didática), me fez ficar a vontade nos grupos onde fazíamos grandes trabalhos. Ele dava um tema e nós desenvolvíamos à nossa maneira. Como ator, eu não podia ser pior, embora sempre fosse elogiado pelos colegas de classe (que era composto por uns 80% de mulheres), mas tinha bons argumentos para levar a cabo as ideias que eram propostas.
Eu esperava sempre ansioso por aqueles exercícios, isto porque as aulas de desenho, escultura, fotografia e etc, não me despertavam interesse, eram pouco desafiadoras e modéstia parte eu tinha bom domínio daquilo tudo, História da Arte então eu tirava de letra, só tinha notas boas. Eu me lascava mesmo eram em matérias como psicologia, didática e sei lá mais o quê, pois isto não me motivava. Mas teatro não, aquilo me impulsionava, me fazia querer mais; contar histórias, desenvolver cenas, mímica e tudo mais me tiraram de minha concha, pelo menos por um período.
Em 88, sofri um revés emocional que me deixou sequelas, não pude continuar o curso. Na verdade foi um somatório de coisas que quase me alienaram. Tranquei a matrícula. Voltei um ano e meio depois para o período vespertino pois estava desempregado, não era a mesma coisa, outra turma, outras matérias. Mas ali cheguei a produzir uns bons trabalhos a óleo sobre tela e algumas esculturas em argila. Estas artes ficaram em exposição um tempo e foram sumindo uma a uma. Não eram meus na verdade, pertenciam à faculdade. Alguns espertinhos, alunos e mestres levaram pra suas casas, eu acho.
Pintei ainda uns murais, muito elogiados. Foi ali que meu professor de pintura a óleo me deu um conselho que nunca segui: "Se você quiser fazer sucesso com a pintura, abandone esta sua veia neoclássica".
Conclui meu curso de professor de artes sem fazer parte da festa de formatura. Voltei pra concha.

Estas aquarelas e estudos são da capa do livro " O Juiz De Paz Na Roça" e " As Casadas Solteiras" do Martins Pena.

Tenham todos um bom fim de semana.






2 comentários:

  1. Puxa, quanta história você têm, meu amigo (no bom sentido, claro). Fico orgulhoso de sua superação. Eu, de minha parte, apesar de ter melhorado muito, continuo um bicho do mato; ainda não fiz Faculdade e talvez nem vá fazer, nessa altura do campeonato.
    Gostei do processo completo de sua ilustração. Ótimo como sempre.
    Abração,

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  2. Olá, Gilberto, muito obrigado por seus comentários. Se você gosta de histórias, espere até eu narrar alguns fatos que vivi no período que morei no Rio de Janeiro, não sei se é pra rir ou chorar, aguarde.
    Não fez faculdade? Quem liga pra isto cara? Você tem seu trabalho, sua arte. Diploma não conta nada sem a esperiência (pelo menos eu acho).
    Um forte abraço.

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