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terça-feira, 6 de março de 2012

A CIGARRA E A FORMIGA ( CENAS FINAIS ).


 Há uma expressão aqui em Pernambuco quando algo é complicado: TÁ PAU! ou, É PAU! Tipo, alguém fez uma bobagem qualquer ou é frequente nas merdas que executa, "FULANO É PAU!" O ônibus tá atrasado? TÁ PAU!
Pois é, pensando nisto hoje, me dei conta de que vai fazer nove anos que estou exilado aqui. Quando cheguei, imaginava que ficaria o mínimo, achava que em um ano ou dois eu estaria de volta a Brasília, ou São Paulo. Todo ano eu pensava: Será o último. Até que o tempo foi me vencendo e eu parei de me preocupar. Algumas decepções que sofri com o mercado de arte/hq no início de 2004, mais a solidão que senti ao aportar nesta terra quente, gerou um amargoso álbum com histórias ultrapornoviolentas que ainda permanece inédito, e mesmo ele não foi capaz de dar vazão ao meu grito.
Quando me perguntam se gosto daqui eu respondo que me acostumei. Se eu dissesse que é ruim eu estaria mentindo, mas eu gostaria de voltar a Brasília. Na verdade eu queria voltar no tempo. Precisamente os meados de 1980. Queria estar com meus irmãos de novo, mas sem as angústias do presente. As dificuldades que enfrentávamos naquela época eram dureza mas estávamos juntos. Éramos como uma corda bem entretecida. Separados, parece que ficamos mais frágeis. Eu pelo menos me sinto mais enfraquecido.
Nove anos aqui. Só sentado dentro do meu quartinho produzindo rotineiramente desenhos que os outros me encomendam. Como passou rápido! Rápido como um tiro na nuca. Não, na nuca não, na barriga. Uma bala na nuca você apaga no ato, já nas tripas você perece devagar curtindo cada segundo de sofrimento. Hemorragia e a merda se misturando à corrente sanguínea provocando uma avassaladora infecção.


A cigarra cantava ao invés de trabalhar, chegou o inverno e ela não tinha onde se abrigar nem o que comer, a formiga trabalhou duro provendo a ela e a toda sua comunidade substância para os dias maus. Há quem diga que a cigarra com sua arte deu alento às trabalhadoras durante sua labuta. Será?
Enquanto vou produzindo estes desenhos que pela misericórdia de Deus me encomendam, não posso nem me dar ao luxo de, como Carolina, olhar a vida passar na janela. É PAU!


4 comentários:

  1. como são as ilustrações que vc vê logo de cara qdo entra aqui não imaginava encontrar um texto tão paulera! imaginei que fosse algo mais light, mas mesmo que surpreendida entendo como é, a vida adulta não é nada do que imaginavamos na infância e adolescencia...
    As vezes eu tbm me pego pensando em coisas parecidas, mas achoque todos somos assim, principalmente qdo temos muitas preocupações na cabeça, mas como a vida é cíclica, isso é sinal de as coisas vão mudar, então se por acaso vc estiver se sentindo meio por baixo, loga vai estar por cima!
    Bjo

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  2. Oi, Bruna, grato por suas palavras de alento. Na verdade eu reclamo de barriga cheia e até peço perdão a Deus por isto, pois tenho muito mais do que mereço. Sei que Deus tem seus planos para nós e não compreendemos isto, muitas vezes queremos impor a Ele nossa vontade (o velho homem lutando para se sobressair). No meu caso, tenho tidos tantos dissabores atualmente que fico me perguntando em qual via errada eu entrei ao longo do caminho. A resposta eu quase sempre sei de cara, mas voltar e acertar o que foi feito errado é impossível, daí me frustro e surgem desabafos como o desta postagem. Mas é um momento, logo, como você disse, as coisas irão melhorar se Deus quiser.
    Beijão e obrigado mais uma vez.

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  3. Fala, Eduardo! A Bruna têm razão. A vida é cíclica. E você têm talento de sobra para, além de criar belos desenhos, chegar lá e ser feliz. Mas as coisas não são fáceis, eu que o diga.
    Comprei umas revistas da Minuano hoje, com desenhos seus, entre eles, aquele seu Batman de braços cruzados. Excelente!!
    Abração,

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  4. Digaí, Gilberto! Falam que é preciso perseguir o sonho para ve-lo realizado; na prática isto tem acontecido comigo, bastante material publicado e reconhecimento do público, ainda que bem reduzido. Sei que é preciso ter paciência, mas confesso que as vezes me sinto farto. Tem pelo menos quatro anos que não consigo que me paguem um vintém a mais por ilustração, em contrapartida, como você deve saber, tudo sobe de preço, aluguel, plano de saúde, passagens, alimentos, remédios e etc. Tenho notado com pesar que apesar de todo avanço mental, a arte, principalmente aquela como forma de vender um produto, ainda não alcançou um status que permita ao artista se impor, ou seja, ainda é tratada como coisa menor, altamente descartável. Desta feita, me vejo assim, ficando velho e correndo como louco atrás do tempo sem nunca alcança-lo. Como planejar uma mudança de ambiente? Como dar uma viajada para arejar a mente? Como tirar umas férias para poder tocar um projeto particular que sonha ve-lo editado? Acho que não há uma solução, senão continuar trabalhando, na esperança de que o quadro mude.
    Obrigado e um abraço.

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