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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O CARA DE PEIDO.


Não sei porque estas lembranças acordaram, arranhando as paredes do meu cérebro pedindo ar. Era 1975. Naqueles tempos um ano pareciam cinco, ou dez, dado a tantos acontecimentos se sobrepondo. De São Paulo para a Capital Federal. Do Brasília Pálace Hotel ao apartamento funcional na SQN 104. Aulas, inédito ambiente escolar, novos colegas, o despertar para um mundo peculiar e situações inusitadas.
O nome dele era Ulisses, seu pai tinha um comércio na CLN 104. Um tipo de garoto que você tinha vontade de matar. Eu pelo menos tive, uma meia dúzia de vezes. A primeira vez que o notei foi em meio à frequente bagunça reinante na sala de aula que nenhum professor conseguia debelar. Era um menino, acho que na faixa dos seus doze anos, cabelos bem finos e clarinhos, como cabelos albinos de uma espiga de milho, rosto avermelhado, um nariz pontudo, boca como um talho num melão maduro. Não consigo lembrar dos olhos, talvez porque sempre estivessem escondidos sob a viseira de um boné com um emblema de um time de futebol (acho que era do Fluminense). Toda aquela constituição somada a uma expressão de deboche permanente me deram a impressão de que aquele garoto tinha cara de peido, vai saber porque. Não dizemos, tal fulano tinha cara de bunda? Pra mim o Ulisses tinha cara de peido. Era magro e muito agitado, acho que éramos todos naquele período, tento me recordar de meninos obesos naqueles tempos e não consigo.
Não sei dizer porque nos aproximamos, eu não ia com a cara do moleque, acho que nem ele com a minha. O cara era um agitador, "entrão", eu sempre fiquei na minha. Mas por algum motivo desconhecido estávamos sempre conversando, acho que por ele ser um bosta, pressionado em casa, encontrei alguma afinidade.
Havia uma menina muita bonita na escola da qual fiquei afim, meu novo colega inventou que também era gamado nela. Certa vez ela respondeu mal a uma investida dele e ele ameaçou de bater nela na saída do colégio. Na real, não era sério da parte dele, mas a menina não sabia, ela chegou a pedir a uma servente para acompanha-la até em casa, que ficava no bloco A.
Só em mulheres mesmo o cara incutia temor, dos garotos ele sempre folgava e levava porrada. Uma vez a coisa ficou séria, ele mexeu com o cara errado, um tipo divertido, alto, magro, de voz roufenha, que apelidaram de Vampiro por causa de seus caninos exageradamente prominentes. Marcaram de resolver suas diferenças no gramado do lado de fora da escola. O Vampiro era um tipo alegre, muito popular, apesar de feio; a torcida era a favor dele, Ulisses o insultou e o magrão não teve dó, encheu-o de pancada, a briga não foi destas onde os meninos se agarram. Não. Vampiro cobriu o outro de murros; ali pela primeira vez eu via um olho inchar e fechar instantaneamente e um nariz crescer como um pimentão esguichando sangue. Se não o segurássemos era capaz do Vampiro fazer um estrago maior. Houve consequências, óbvio. O Vampiro ficou suspenso e ameaçado de expulsão, mas os detalhes fogem à minha lembrança.
O Cara De Peido não foi uma boa companhia para mim, matamos algumas aulas para andar a toa por algumas quadras da Asa Norte, deitar debaixo das árvores, matar o tempo sem objetivo nenhum. Deixávamos nossas mochilas nas carteiras, pulávamos a cerca da escola e voltávamos antes da última aula. Até que um dia pegaram nossos materiais e levaram pra diretoria e nos informaram que só seriam devolvidos mediante o comparecimento dos pais. Estou fodido, pensei, meu pai vai me matar e exibir minha cabeça para toda a população brasiliense. Conversei com minha mãe, que era mais maleável e depois de um baita sermão ela foi no colégio passar vergonha, tive que fazer uma promessa, a de nunca mais incorrer naquele erro e o drama passou.
Naquelas férias de meio de ano meu pai alugou um sítio de um amigo dele para criar umas galinhas, coelhos, porcos, codornas e uns outros tantos bichos. Quem tomaria conta seria eu e minha avó materna. Umas férias de merda, enfim.
Não sei bem como se deu, mas foi combinado que o Ulisses iria conosco. Foi legal, depois das tarefas com os bichos, corríamos aquelas trilhas e matas todas e brincávamos na piscininha de água corrente que havia na propriedade. A noite, à luz de velas, contávamos histórias de assombração. Tudo bem até o Ulisses inventar de quebrar todos os vidros das janelas do caseiro com um estilingue. Apesar da casa estar desocupada eu começava a suar antevendo o castigo que meu pai me imporia. Malgrado o mal-estar, não houve consequências para mim, o menino foi afastado, levado de volta para sua casa e meu pai tendo que pagar os prejuízos, alias, ele não teve outra coisa com aquela empreitada. Mais um dos tantos negócios que ele inventou que não deram certo. Mas isto já é uma outra história, eu e a vó tivemos que cuidar sozinhos de tudo aquilo, foram férias inesquecíveis, não no sentido positivo, claro.
Volta às aulas e lá estava o Cara De Peido e suas bravatas.
Eu era muito fã da série Kung Fu, com o David Carradine. Naqueles dias eu me via como o Kwai Chang Caine. Tentei usar uma roupa bem ao estilo, como tinha bastante imaginação improvisei vestimentas que emulassem às do personagem. Acho que fiquei parecendo um mendigo. Só não consegui o chapéu e embora tivesse tentado eu detestava andar descalço pelas quadras.
Foi vestido assim (mas com sandálias) que juntamente com o Ulisses, certa tarde, fui buscar meu irmão André na escola, o local era o Madre Carmen Salles, instituição que ganhou fama por causa de um trágico caso que comoveu o Brasil dois anos antes, o rapto e morte da menina Ana Lídia. As freiras do colégio não devem ter pensado nada bom ao meu respeito. Nem lembro mais se liberaram meu irmãozinho para vir comigo ou se minha mãe teve que ir lá.
Deixei de falar com o Ulisses da mesma maneira que começei, sem motivo que justificasse, se a memória não me trai, ele foi estudar em outro lugar, ou a família vendeu a padaria (seria um mercadinho?) que tinham na quadra, pois nunca mais o vi.
O caso é que de bom aluno em São Paulo eu me tornei um estudante medíocre em Brasília, e assim foi por minha vida seguinte. A culpa cabe tão somente a mim. Fiz muita bobagem e pensando sobre tudo hoje, se o pobre Ulisses tinha cara de peido eu devia ter cara de merda.


4 comentários:

  1. Fala, Eduardo! Como são interessantes nossas memórias de infância, não? Sério. Cada imagem que fica na nossa mente acaba não sendo a verdade absoluta do que houve, mas filtrada pela nossa meninice, traz sempre boa lembranças (tá certo, às vezes não tão boas) mas com certeza, sempre dão bons enredos para hqs e histórias diversas.
    Suas memórias são bem legais de ler.
    Ótima semana pra vc e a Verônica.
    Abração,

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    1. Sabe, Gilberto, existem histórias que exigem ser narradas, foi o caso desta, ela me incomodou até que eu começasse a digitar. Nunca mais tinha me lembrado destes fatos, assim como tantos outros, mas por algum motivo me senti compelido a dividir isto com meu público (que parece diminuir a cada mês que passa - neste blog, pelo menos). Vou colocar mais memórias aqui, sei que existem pessoas que fazem eco aos meus pensamentos e recordações.
      Eu e Verônica agradecemos aos votos e retribuímos.
      Um abraço e apareça sempre por aqui, meu bom.

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  2. Você teve sorte, Schloesser. Quando meus pais descobriram que eu estava matando aula, levei uma surra, um sermão interminável e fiquei seis meses de castigo. :) Gostei da sua história. A maioria das pessoas finge que teve uma infância sempre lindinha e harmoniosa feito comercial de margarina. Você foi mais honesto. Abraço!

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  3. Dei sorte mesmo, Carla, da minha mãe me livrar a cara daquela vez, se meu pai ficasse sabendo, eu também levaria uma surra e ficaria de castigo por muito tempo, como aconteceu em outras ocasiões. Fico feliz que tenha gostado. Aos poucos vou postando mais algumas memórias.
    Abração.

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