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terça-feira, 25 de novembro de 2014

NUMA E A NINFA ( CENA 8 )


Semana passada (sábado pra ser bem exato) fui me encontrar com o mano Thony Silas, ele desenha pra Marvel e DC e é talvez o único que não se incomode em conversar com meros mortais, todos os outros com quem me esbarrei pareciam que o fato de desenhar gibis para o mercado gringo os tornavam  uma classe superior de pessoas. Lá estavam também uma rapaziada que desenha, gente jovem, batalhadora, honesta, muitos deles sustentam suas famílias com suas ilustrações, todos com suas pastas cheias de folhas e traços maravilhosos. Eu em particular me impressiono fácil com coisas que sou incapaz de fazer. Páginas e páginas minuciosamente detalhadas do Batman, do Lanterna Verde, Wolverine e coisas tais. Exatamente como vemos ao folhear as revistas nas bancas, e esse é o problema: já tem quem faça aquilo sem os probleminhas que os editores de cara detectam, uma imperceptível falha de anatomia, de perspectiva ou um hachuriado não condizente com a cena. Existe ali o talento e o sonho de vingar, aparecer, publicar, viver do que gosta e tem competência para fazer. Mas novamente o mercado entra em crise, as editoras de heróis focam no seus produtos para o cinema, há quem diga que a Marvel decretará o fim dos quadrinhos, já ouvi falar em demissão de funcinários nessas empresas. A mim isto pouco importa, mas para estes rapazes restará, quem sabe, a sorte de migrar seus talentos para publicidade, designs para games ou algo do tipo. Vi a mim mesmo naqueles moços anos antes, só que não tinha 10% do talento que eles tem. Eram outros tempos, uma era pré internet. Fui em muito evento tentando mostar meus desenhos, fiz muitas páginas para os agenciadores que com certezam as jogaram na lata do lixo. É parte do sistema. Minha teimosia me levou ao meu traço pessoal e publicação modesta dos meus títulos e sei que qualquer degrau acima, se galgá-lo, é lucro.
Na verdade me senti mais velho ali, não há como não sentir, ninguém estava interessado no que eu tinha para falar ou mostrar, nem me importei, pra ser sincero. A realidade é que eu, de fato, não tinha nada ali para dizer ou mostrar, se havia naquele meio, um mundo no qual eu podesse transitar, ele a muito ficou para trás. Deixei o pessoal lá, me despedi do Thony e fui embora. Antes passei no espaço Geek da livraria Cultura para dar uma olhada nas HQs, tava lá em destaque a Enciclopédia dos Quadrinhos e me lembrei que meu nome consta num dos verbetes. Na prática, que diferença isso faz? Tudo vai ao pó. Antes aquelas estantes eram recheadas de títulos, de todas as editoras nacionais e gringas. Hoje este espaço deu lugar aos games, séries de tv e estatuetas assim como os mega eventos que pegam o nome dos quadrinhos para promover a cultura pop do qual os quadrinhos fazem parte, mas numa posição que está longe de ser o destaque. Dizem que tudo é cíclico, talvez a arte sequencial volte a abastecer essas mídias e ser sua força motriz, talvez não.

Me dirigi ao Cais de Santa Rita para pegar o meu ônibus.

Para vocês, mais uma imagem de Numa e a Ninfa.






4 comentários:

  1. Uma análise melancólica, mas talvez muito realista do que é o mercado de quadrinhos, Eduardo. Assisti tempos atrás uma entrevista do Eduardo Ferigato, em que ele dizia meio o que você disse, em relação aos novos talentos e a seus portfólios incríveis na maioria das vezes. Ele já fez coisas para o exterior e após buscar por anos publicar nas grande s editoras americanas, concluiu que melhor seria seguir seu instinto e gosto pessoal, deixar de perseguir vento, e fazer seus próprios projetos vingarem. Hoje ele faz o QUAD e se diz mais realizado e seguro. (Logicamente creio, ele faz publicidade e ilustrações também).
    Mês que vêm teremos por aqui o Comicon Experience. Queria ir, mas acho o custo um pouco alto. O foco será, como vc disse, a cultura Pop e não apenas os quadrinhos. Pena... Nesse aspecto o FIQ é bem melhor. Gratuito e focado nos quadrinhos.
    Bom, paro por aqui. Periga ficar escrevendo, escrevendo, e não chegar a lugar algum.
    Um grande abraço,

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    1. Suas colocações são muito pertinentes, meu caro Gilberto. Assisti à entrevista com o Ferigato, acho que foi um link postado por você e ali vemos um pouco da dura realidade que é este mercado. Em todos os lugares, em todos os tempos vemos uns poucos atingindo o cume da montanha, boa parte dos artistas de hqs que tanto admiramos "não chegaram lá", ou se chegaram, não levaram, por exemplo, Jack Kirby nunca teve os direitos por suas criações, só comeu uma pequena parte do bolo que ajudou a montar, Graham Ingels, o "Gastly", um dos gênios da EC levou uma vida difícil, muitos dizem que foi porque ele fez escolhas erradas, mas como alguém com um traço tão original fica assim sem trabalho? Bem , não quero divagar demais, mas se a coisa é complicada em lugares onde existe mercado e tradição, que dirá aqui, onde a coisa até hoje engatinha. Claro, tem havido avanços, de forma independente os talentos tem dado suas caras. Mas ainda continua sendo uma questão de dinheiro fazendo dinheiro. Por exemplo: você citou a CCXP, quem teve grana pra pagar caro por um espaço por lá terá mais chances de "aparecer" aos olhos de algum editor gringo ou se revelar a um novo público. Os que não tem grana pra bancar os próprios projetos, não tem "amigos importantes" continuam remando contra a maré, tentam se valer dos financiamentos coletivos e por aí vai. É muito amor a arte dos quadrinhos. Da minha parte estou bem cansado disso tudo. Mas há ainda algum fôlego, então, além do Poe e a "encantada" conclusão do Zé Gatão pela Devir, vamos ver sai mais alguma coisa, ando tendo algumas ideias aqui.
      Grato, meu amigo, por sua visita e comentário.
      Grande abraço.

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  2. Olá Eduardo td bem? Me chamo André Abílio e algum tempo atrás, precisamente no ano de 2012 comprei a revista na banca "curso modular básico de desenho" mas só agora encontrei o seu blog, virei seu fã...Eu fiz o desenho da criança chupando o sorvete em cima de uma baleia, bem gostaria de mostrar minha tentativa, rsrs... tem como me passar o seu contato para enviá-lo ?

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    1. Opa, André! Obrigado pelo carinho.
      Rapaz, nem me lembro dos desenhos que fiz para estas revistas, foram tantas e a tanto tempo, mas eu gostaria, sim, de ver seu trabalho. Passei meu e-mail para você.
      Um forte abraço.

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