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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"REMINISCÊNCIAS" - Um conto de Zé Gatão escrito por Luca Fiuza com rabiscos de Eduardo Schloesser.




Normalmente, não gosto de lembrar do meu passado, sobretudo da minha infância. Ainda assim, tive em algumas fases da vida momentos agradáveis, por que não dizer até engraçados.
Há muitos anos atrás, vivia com minha mãe em uma cidade de pequeno porte para a qual havíamos nos mudado há um ano. Experimentávamos um dos raros períodos em que nossa situação se achava em um nível razoável. Minha mãe trabalhava em uma loja de doces finos perto de casa. Nesta época, eu fazia um curso de Jornalismo e Publicidade em outra cidade, mas no meio do ano acabei abandonando-o por achá-lo pra lá de tedioso. Minha mãe não gostou muito, mas deixou que eu agisse como achasse melhor. Eu era um felino alto e desempenado. Gostava de praticar longas corridas e cedo comecei a me interessar por fisiculturismo. A princípio, malhava em casa mesmo, com pesos artesanais fabricados por mim. No lugar de barras, me exercitava em galhos de árvores que conseguissem suportar meu peso. O tempo ocioso era grande e eu gostava de passá-lo em um bosque próximo, me deixando ficar à beira do regato, profundamente mergulhado em minhas cismas e tristezas íntimas.
Depois de quase um mês, sem fazer nada e cansado daquela vida inútil, resolvi procurar trabalho. Por ser uma cidade pequena não havia boas oportunidades. Ainda assim, através de um amigo, um galinho carijó quase sempre enfezado, consegui um trabalho de fotógrafo auxiliar no estúdio do pai dele, um galo velho de maus bofes que curiosamente simpatizava comigo. Tinha o dom de aprender rápido e logo estava dominando meu ofício. O velho ficou satisfeito com meu desempenho. Dali a uma semana me deu um adiantamento reforçado. Metade eu entreguei nas mãos de minha mãe e fiquei com o resto para meu uso pessoal. Além de comprar algumas roupas e calçados novos, resolvi me inscrever em uma academia de musculação junto à praça central da cidade.  A academia era acanhada, os aparelhos meio velhos, mas era o que eu tinha à mão. Com o tempo, adquiri um físico avantajado, massudo, sem divisões. Não me importei, pois isto eu conseguiria posteriormente, com uma alimentação mais adequada e aparelhos mais modernos. Com certeza, não naquele lugar e naquela cidade.
O proprietário da academia era um gatão vira lata de expressão velhaca. Tinha braços grandes, mas mal trabalhados, pernas finas, peito amplo e relativamente desenvolvido. Uma barriga roliça de bebedor de cerveja completava o quadro. Era uma figura grotesca e pouco estimulante para quem quisesse nele se espelhar para ter um corpo sarado. O local era escuro, mal ventilado e tinha um odor ruim de suor de diversos tipos de animais, principalmente cavalo. Como era a única academia da cidade, o safado felino cobrava as mensalidades a um preço extorsivo. Por não ter outra opção, seus frequentadores pagavam a contragosto, eu, inclusive. Todo dia eu ia malhar de manhã bem cedo, depois passava em casa, tomava um banho, forrava a pança, vestia roupas leves e ia trabalhar no estúdio até por volta de seis horas da tarde.

Apesar da rotina, eu gostava daquele trabalho. Não era nada emocionante, mas tanto eu quanto meu amigo, o galinho curtíamos estar ali. O galinho se chamava Renato. Estávamos sempre juntos. O único lugar que Renato não me acompanhava era para a academia, pois alegava ser tão fodão que não precisava daquela merda! Eu achava graça. Queria ver se ele tivesse que sair na porrada de verdade como faria! Em minha opinião ele era só um garganta!
O galo velho disse que ia precisar fazer uma viagem de uma semana a outra cidade e que deixaria o estabelecimento aos nossos cuidados, Achei ótimo!
Em uma tarde em particular, tive três experiências inusitadas. Primeiro com um filhote de peru e sua mãe. Depois com uma gata de tirar qualquer um do sério! E por último com o gatão dono da academia.
A perua e seu filhote chegaram lá pelo meio da manhã. Ela era um ser extravagante. Usava roupas de cores berrantes, chapelão de um roxo destoante com o resto da indumentária. Um colar de enorme de pérolas evidentemente falsas pendia de seu pescoço. Usava no bico um batom vermelho bem forte, cílios postiços e nas pálpebras uma sombra verde claro que deixava seu olhar esquisito.  O vestido amarelo ouro justo, evidenciava o formato circular de seu corpo atarracado. Os sapatões vermelhos brilhantes compunham a bizarra combinação que decerto era o top de linha dos endinheirados (ou não!). Sua voz era um grasnar alto e desafinado, bem típico de aves daquela espécie. O filhote era um molecote macilento, mimado. chorão e atrevido.
Polidamente, perguntei no que eu poderia ser útil. Na cabeça dela parece que eu a destratei. A perua me respondeu de modo ríspido e impositivo. Estrilou, dizendo que eu estava ali para atender! E rápido sem muito teretêtê!  Disse que queria uma foto bem caprichada de seu adorado pimpolho. Renato se abespinhou com aquele tratamento, mas fiz um sinal a ele para que se acalmasse e que deixasse tudo comigo.
Mais polidamente ainda pedi que a mãe sentasse o moleque em uma cadeira que se achava diante da
câmera. Atrás havia um painel branco. Liguei as luzes e me postei atrás da máquina fotográfica, louco para terminar aquele atendimento. Quando eu estava focalizando o moleque, este começou a se mexer e a gritar que estava demorando muito, que ele estava com fome, com calor, que queria fazer xixi e o escambal! Tive
que me dominar para não dar uns tapas naquela criaturinha inconveniente! Pedi que a perua mãe o levasse para mijar em um banheirinho no fundo da sala. Enquanto os dois iam ao toalete, pedi que Renato permanecesse calado. O galinho tremia de raiva, a face avermelhada denotava seu atual estado de espírito. Ao saírem do banheiro, mãe e filho trouxeram consigo uma fedentina insuportável! O filhinho da puta também tinha cagado. Fiz um rápido sinal para que Renato fechasse  logo a porta do banheiro! E aquela dona ainda se achava fina! Grande merda! Enjoado com aquele cheiro, levei mais de uma hora para fotografar a porra daquele moleque! E a peruona ainda me fez repetir várias fotos! Gastei filme pra caralho! Finalmente, ela se deu por satisfeita! Jogou no balcão um maço de notas e se retirou levando o filhote que fazia chilique, gritando que não queria ir embora. Ela voltaria na semana que vem para pegar as fotos. Pelo menos, ela pagou um valor bem acima do que seria cobrado.

Fomos olhar o banheiro. Tudo cagado! No chão, nas paredes, o sanitário entupido, borbulhando cheio de merda até as tampas! Deu um trabalhão para limpar tudo aquilo! Gastamos um litro de detergente, de álcool e outros produtos de limpeza e ainda ficou um cheirinho longe...! A sacana da mãe deve ter cagado junto com o filhinho! Só um moleque não poderia produzir sozinho aquela tal quantidade de bosta! Por fim limpamos tudo, desentupi o vaso. Ainda bem que não apareceu nenhum cliente.


Depois do almoço, chegou uma cliente digna de nota. Era a Miss Felina da cidade que ia concorrer a um torneio internacional de Beleza. Queria fazer um Book para um evento que ocorreria no mês seguinte. Aí está um trabalho que me agradou! Além de lindíssima, a gatinha era muito simpática. Finalizado o serviço, ela me deu um convite perfumado para o tal evento. Depois que ela saiu eu passei o resto da tarde como um sonâmbulo, sentindo no ar o doce aroma daquele corpo macio que ficou no ambiente. O galinho Renato disse que eu estava parecendo um idiota!

Um pouco antes da hora de fechar apareceu no estúdio, o dono da academia de musculação que eu frequentava. O sujeito chegou numa arrogância só! Queria umas fotos para fazer um novo documento de identidade. Ignorei o comportamento daquele energúmeno e procurei agir de maneira profissional. Quando terminei o serviço, falei o preço. Disse que ele poderia pagar no dia que viesse pegar as fotos. Para minha surpresa, o cretino soltou uma gargalhada estrondosa, afirmando que não ia pagar porra nenhuma! Renato adiantou-se furioso! Segurei-o pelo braço e falei que deixasse quieto. Ainda rindo, o babaca retirou-se.

Na manhã seguinte, bem cedo, fui à academia e malhei tranquilamente. O babaquara do dono nem me olhou. Fez que não era com ele. Antes de sair, fiz questão de parar no lugar onde ele estava. Falando baixo para só ele ouvir, falei que não ia pagar a porra da mensalidade daquele mês. O puto logo se aborreceu! Gritou que isso era um absurdo e que se a moda pegasse ele iria à falência. Mandei ele se fuder e fui saindo. Louco de fúria, ele avançou em mim e mandou um soco violento! Pobrezinho! Era lento como um caracol no cio! Eu, além de musculação, treinava Boxe com um gato preto. Era meu vizinho e era lutador profissional. Tinha outro gato com quem eu andava que era da região oriental e me ensinara uma luta de nome impronunciável. Trocando em miúdos, enchi o gato vira lata de muita porrada e os amiguinhos dele, outros gatos sarnentos, musculosos e imbecis que vieram tomar satisfação. Todos eles tomaram uma coça maior ainda! Resumo da ópera: passei a frequentar a academia totalmente de graça e aquele bastardo ainda pagou pelas fotos e pagou em dobro! Minha mãe se admirou quando na semana seguinte cheguei lá em casa com bastante dinheiro. O galo velho ao saber da história me deu uma gratificação tripla! Em minha vida nem tudo são flores, raramente são! Mas tenho algumas poucas coisas boas para recordar.

2 comentários:

  1. Até os momentos engraçados do Zé Gatão terminam em pancadaria. Faz sentido. Muito legal, Luca! O desenho dos dois encarando o banheiro ficou um barato, Schloesser. Parabéns!

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    1. Valeu mesmo, Carla! Cá pra nós se não tiver um pouquinho de ação as histórias do Felino ficam meio sem graça, né não?

      Amplexos.

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