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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PEDRO, O LOBO E O CARTUNISTA (Um conto de Eduardo Schloesser)

Não sei se o que me acordou as cinco e trinta da manhã foi a bexiga quase estourando ou o ribombar de um trovão que estremeceu as paredes. Acho que foi a vontade de mictar, as tais trovoadas não pararam desde a tarde anterior, então penso que meus ouvidos já estavam acostumados. Lá fora a chuva caía torrencialmente. A umidade no quartinho fazia meus ossos doerem. Eu estava às vésperas de completar 65 invernos, mas ainda tinha uma ereção das boas, mesmo sem ir pra cama com uma mulher nos últimos dez anos. Bem, melhor ser um solitário com ereções do que um brocha solitário. Naquele momento a tal ereção me dificultava aliviar a bexiga, eu tinha que apontar o bicho para baixo pra não mijar na própria cara. A urina saía a intervalos e em jatos curtos. Pareceu levar uma eternidade, o conforto pela liberação me provocava um gostoso arrepio na espinha.
Abri a torneira da pia para lavar as mãos, a coitada tossiu duas vezes como uma velha cancerosa antes de liberar a água. Molhei o rosto com o líquido gelado, afinal não ia conseguir dormir de novo. Seria melhor sentar na prancheta e tentar terminar uma série de tiras pra tentar vender ao "O Matutino". O aluguel ia vencer em uma semana e eu estava quebrado, na verdade estivera quebrado durante toda a vida, mas uma coisa era não ter dinheiro na juventude, outra é estar arruinado na terceira idade.
Antes do trabalho, o desejum; abri a geladeira, uma companheira mais fiel do que as mulheres que passaram pela minha vida. Só que assim como eu, ela estava velha e teimava em não funcionar, e como algumas mulheres, só colaboravam na base da porrada, dei dois tapões na lateral e ouvi um clic, a luzinha acendeu e o barulho característico dos refrigeradores antigos se fez ouvir. Dentro dela só tinha um ovo, uma lata de sardinha já aberta, uma garrafa de água e um pote de maionese que estava lá desde o ano passado. Preciso jogar fora qualquer hora destas. Botei o ovo pra cozinhar e me sentei na mesinha que me servia de apoio para os desenhos. Esbocei algumas idéias e fui verificar o ovo. No pequeno armário tinha ainda duas fatias de pão, as laterais estavam começando a embolorar. Maldita umidade desta cidade moribunda. Cortei a parte mofada, coloquei sal no ovo, agreguei o que restava da sardinha e improvisei um sanduíche. Tinha esquecido de comprar leite, como odeio café, o sanduba teve que descer com água mesmo.
Olhei em volta, jornais velhos e gibis antigos pra todo lado. O que tinha feito da minha vida? Fui até a estante e peguei uma pequena coleção composta de três volumes em brochura de um série criada por mim que fizera sucesso por mais de uma década, "O GORDO NA PRIVADA" .  Eram reflexões sobre a vida por um sujeito que se sentava no "trono" para ler as notícias e fazia um monólogo melancólico sobre os fatos marcantes do momento. Recebi vários prêmios por este trabalho, mas dinheiro, ah, isso não. O pouco que recebia deu pra manter uma filha estudando na Inglaterra e mais nada. A série começou a perder força juntamente com os jornais. Quase ninguém lia mais, o que restou foi esta coletânea que uma editora que não se importa em perder dinheiro compilou em minha homenagem. A coletânea faturou mais um prêmio, inclusive. Só os saudosistas me ligam pra dizer que sentem falta do Gordo Na Privada.
A nova série que estava criando parecia não ter força, as idéias pareciam "engessadas", não me sentia estimulado. Pensava em iniciar uma graphic novel, tinha algumas coisas dançando na minha mente, mas como competir com a nova garotada que fazia sucesso no mercado gringo?
Rabisquei algumas coisas mais um tempo até que o telefone tocou. Olhei o relógio. Oito e quinze. Já? O tempo feio lá fora não deixou a manhã aparecer. Atendi. Era o Pedro. Um fã que virou amigo. O sujeito era meio maluco mas era legal, a mulher dele também era fissurada nos meus cartuns.
- Diga, meu velho, tudo bem? Tava dormindo? Perguntou ele seguido de um riso sardônico, algo peculiar nele.
- Nada. Como cê tá?
- Tudo certo.
- Que bom.
- Ei, seu aniversário é amanhã, né?
- Dizem que sim.
- Pois tenho um convite pra te fazer.
- Manda.
- Venha passar seu "niver" com a gente.
- Olha Pedro, eu não dou a mínima pra esse negócio de aniversário. Vamos deixar pra lá.
- Não aceito não como resposta, se cê não vier a Mafalda vai ficar magoada contigo. Teremos uma surpresa pro almoço.
- Sei não.
- Olha cê sabe o caminho. Te espero amanhã. Nem pense em não vir.
Deligou. Cara maluco. Tinha uns cinquenta anos, a mulher dele era um pouco mais velha, uma gordinha inteirona. O casal parecia ter saído de um show tipo Woodstock.
Bem, talvez fosse mesmo uma idéia legal, sair um pouco desta maldita rotina, rir um pouco do marxismo infantil daqueles debilóides. Por que não?

A manhã seguinte não me recebeu chuvosa. Tava frio e nublado mas me sentia disposto, havia dormido melhor, passara o dia anterior desenhando tiras e uns dois editores pareciam animados a publica-las. A sorte podia mudar a qualquer momento, quem podia prever?
Comprara na tarde de ontem alguns itens para a geladeira, leite, pão, queijo, presunto, geleia e tal. A maionese continuava lá.
Fiz um sanduba e fui pro chuveiro. Ele engasgou. Nada nesta kitinete funcionava direito. Depois de um tempo a água chegou fria, aos poucos ela foi esquentando. A boa e velha ereção lá estava, uma situação quase permanente na minha vida. Isto era bom, uma das poucas coisas que me faziam sentir vivo.
Coloquei meu jeans, uma camisa amarela já meio desbotada e meu blaiser preferido. Na verdade sempre me vestia assim, demodê. Calcei minhas botas, coloquei um perfume e peguei meu chapéu. Sim eu usava chapéu. Comecei imitando o Crumb e me habituei.
Meu velho Escort me esperava como um vagabundo. Girei a chave na ignição e ele chorou manhoso. "Vamos, meu, não me deixe na mão, é meu aniversário." Como se lesse meu pensamento ele reagiu. Somos dois velhos, mas penso que como não devo ficar na cama por este motivo, ele também deve sentir prazer em ainda poder me transportar.
Aquela hora da manhã não havia tráfego doentio, peguei a via expressa e em uma hora eu entrava na estrada que me conduziria ao sítio do Pedro. Ficava nas proximidades de uma cidadezinha interiorana. O sol espiava retraído por entre nuvens escuras, dando àquela manhã uma claridade onírica. O rádio sintonizava uma agradável emissora que tocava sucessos antigos da Jovem guarda. Nada mal.
Depois de duas horas eu entrava à esquerda da avenida e pegava uma estradinha de chão. Em dez minutos eu parava em frente ao portão de madeira e arame farpado do Pedro.
Buzinei.
Um estrondoso e anormal latido de cão se fez ouvir. Curioso, o Pedro não tinha cachorro.
Num instante, o rosto redondo, barbado e sorridente do meu amigo despontou detrás de umas bananeiras. Escancarou a porteira e eu passei por ele.
Ao abrir a porta do carro quase desfaleci. Ao lado dele um animal enorme se fazia presente. Era um cão, mas de um tipo que eu nunca tinha visto antes. Com certeza era um cachorro, mas parecia com um humano trajando uma fantasia de canídeo, seus membros superiores e inferiores eram longos e musculosos. O dorso era extenso e volumoso. A cabeçorra exibia um focinho comprido e ao mesmo tempo largo, um nariz negro, brilhoso e desproporcional. As orelhas eram diminutas, contrastando com o resto. A calda basta apontava para o solo. A língua que lhe pendia da bocarra de presas enormes, era grossa como a de um boi. O pelo negro e espesso como lã de aço. Mas o que mais assustava eram os olhos amarelados que lhe davam um "que" de assustadoramente humano.
- Que diabos de cachorro é este Pedro? Disse eu perplexo.
- Ué, o que tem?
- Como, o que tem? Parece mais um lobisomem!
Ao ouvir isto a expressão do bicho mudou. Seus olhos me fuzilaram.
- Depois te conto a história do cão, agora vem cá e me dá um abraço.
- Ei, deixa disso, não sou chegado nessas viadagens.
-Feliz aniversário seu filho da puta! Ele me abraçou com força e eu me senti reconfortado. Talvez aquele fosse o único amigo que eu tinha.
- Venha vamos pra dentro. A Mafalda tá preparando aquela lasanha que cê adora.
- Legal.
A habitação era grande, a arquitetura barroca, como aquelas casinhas cafonas de Ouro Preto, tinha uma ampla e acolhedora varanda na frente. Lá de dentro, Mafalda veio me saldar com seu sorriso largo e gargalhada contagiante, apesar dos dentes amarelados pelos anos de tabagismo. Tinha mal hálito, era gorda, mas uma gorda bem feita, sem barriga, com seios volumosos e uma bunda incrível, parecia ter duas melancias no traseiro. Um rosto bonito, quase de fada. Veio com um cigarro na mão e me abraçou apertado. O contato com aquele corpo macio fez meu pau subir. Ah, se ela não fosse mulher do meu amigo!
- E então artista? quantos anos?
- Ah, sei lá, acho que 65. Mas me sinto com 64.
- Ei, quer tirar esta roupa e por uma bermuda, ficar de chinelos? Indagou Pedro.
- Nada disso, tô bem assim. Apesar do sol ter aparecido ainda está frio.
- Cê que sabe, senta aí, sei que tu gosta dessa cadeira de balanço.
- Valeu.
- Cerveja? Ah, cê num gosta, né?
- Odeio esta porra, mas se tiver aquele vinho do porto...
- Claro, tá te esperando.
- Cara, cê é meu herói!.
Mafalda voltou pra cozinha com sua enorme bunda balançante, meu pau ainda vibrava.
Olhei em volta e lá estava o tal cão do diabo, como eu já chamava na minha mente. Estava deitado no quintal de terra, me olhava fixamente, poderia jurar que naquele semblante quase humano havia um olhar de ciúmes.
Pedro começou a falar sobre as mesmas coisas de sempre, rock, HQs e literatura. Só assunto chato. Falava dos anos sessenta e setenta como se tivessem sido grande coisa. Eles foram uma merda, e não foi por causa da ditadura militar, se assim fosse os oitenta e noventa teriam sido melhores, foram a mesma porcaria.
- Cara, a sua obra reflete bem o que o PT tenta dizer sem efeito nos dias de hoje...
- Ouça Pedro, de uma vez por todas, não tenho nada a ver com as esquerdas brasileiras apesar do que eu disse no passado. Tô pouco me fodendo se o país tá na merda, o que posso fazer? Nunca foi, e nunca será diferente. Vamos tocando o barco apesar de tudo. Sempre vão haver pobres e ricos e nós no meio reclamando.
- Cara, como você pode dizer isto?
- Porque não? Eu odeio Marx, Stalin, Mao, Castro e toda esta corja de assassinos que vocês endeusam. Pra mim o único pecado dos americanos é fazerem filmes cada dia mais ruins, só isto. Os livros e as músicas (Elvis e o jazz , claro) são o máximo. Aliás, eu gosto do Big Mac.
- Cara, não acredito que cê tá falando isso.
- Pois pode acreditar, mas não quero discutir contigo, hoje é meu aniversário, lembra?
- É, claro, desculpa, é que eu pensei...
- Evolua, meu amigo, evolua...
Neste momento Mafalda, com seu sorriso doce, anunciou que o almoço estava pronto.
Lavamos as mãos como pessoas civilizadas e fomos para a ampla sala papar a lasanha entre gargalhadas e vinhos. A sobremesa era uma torta de amora, que a gordinha colhera do próprio quintal arborizado, deliciosa como ela mesma.
A porta estava aberta e a figura do cachorro sinistro se destacou na entrada. Ficou lá nos observando com aquela língua molhada e colossal pendendo da boca.
- Pedro, que raios de cachorro estranho é este? Como ele veio parar aqui?
- Mano, mais tarde te conto, agora que tal um charuto?
- Não, parei, mas obrigado.
- Garotos, vão lá pra fora conversar, vou arrumar a louça e me junto a vocês. Falou Mafalda.
Saímos, e o cão ainda na varanda.
- Pedro, mantenha este bicho longe de mim.
- Cara, desencana, ele não vai te fazer nada.
- Se não amarrar este cachorro escroto eu vou embora agora!
- Tá, tudo bem. Lobo, vai lá pro quintal, vai!
- Lobo?!?
- É como o dono dele o chamava. Bem, acho que era o dono.
- Como assim acha? Quem era o dono dele?
- Bem, senta aqui, vou te contar.
O imenso canídeo negro saiu da varanda com um olhar rancoroso.
Pedro parecia um pouco pálido e relutante ao narrar a chegada daquela espécie de monstro ao seu sítio.
- Foi numa tarde chuvosa - começou ele - eu e Mafalda tínhamos acabado de dar uma daquelas trepadas boas, uma das únicas em que eu não precisei usar aquela pílula, cê sabe, daquelas vermelhinhas. O médico disse que uma das possíveis causas do meu problema de impotência poderiam ser frutos dos muitos anos que fumei maconha....
- Porra, Pedro, foda-se a tua merda de vida sexual, eu quero saber do cachorro!
- Claro, claro, desculpe, tenho esta tendência à dispersão. Como eu dizia, depois daquela foda, vim pra varanda fumar um charuto. Mafalda foi assistir suas novelas. A chuva tava diminuindo, então ouvi um chamado débil no portão. Sabe, não temos problemas de violência neste lugar, mas algo naquele chamado, não sei porque, não me cheirou bem. Entrei pra pegar o velho 38 que meu pai me deixou com esta casa, fui até a cerca e vi este enorme cão negro e um cara que parecia ter saído, sei lá, de Chernobyl...
- Como assim?
- O cara era barbudo e cabeludo, estava em andrajos, doente, com ulcerações na pele, precisava de ajuda.
Falava com um sotaque estranho. O cão apesar de disforme, tinha algo de imponente e uma expressão no olhar como que implorando ajuda, cê sabe, sempre gostei de cães.
- Sei, e aí?
- Bem, abri o portão e deixei o cara entrar. Claro que não o coloquei dentro da minha casa, vai que ele tivesse uma moléstia contagiosa...
- Claro, mas e aí?
- Bem, ele gemia de dor e disse que precisava de um médico. Disse que o cão se chamava Lobo, tinha esse nome por causa do seriado Vigilante Rodoviário que passava na TV na década de 60. Eu era fã, minha simpatia pelo animal crescia.
- Cara, vá direto ao ponto.
- Bem, deixei-o com o cão na chuva e entrei pra telefonar pra uma ambulância. Mafalda que via tudo da janela perguntou o que estava acontecendo, expliquei e ela achou melhor avisar a polícia. Confuso, não sabia direito o que fazer, mas ela tinha razão, achei melhor ligar pros gambés, eles saberiam que medidas tomar. O telefone não estava dando linha, acontece quando chove muito por aqui. Neste exato momento ouvi gritos do lugar onde deixei o mendigo e o cão. Dois sujeitos conversavam com o moribundo, uma conversa nada amistosa. Instintivamente fui até eles e então quando me viram, me apontaram suas pistolas, acho que eram automáticas, não entendo de armas, falavam numa língua estranha, acho que era norueguês, ou russo, vai saber.
- E o que aconteceu?
- Eu pedia calma aos caras, que era de paz, mas parecia que eles não me entendiam, eu parecia uma ameaça. Eram dois homens altos e fortes. O cabeludo ferido, num impulso, tentou pegar a arma de um deles e o outro alvejou-o bem na cabeça. Ao ver isto o cachorro lançou-se em cima do cara e arrancou-lhe um naco de carne do pescoço, o outro apontou a arma para mim e ia puxar o gatilho, mas mas uma vez com uma rapidez incrível, o animal abocanhou-lhe a bunda... foi aí que.. que...
- Foi aí o quê? O que aconteceu?
- Eu puxei o 38 e disparei. Acertei o gringo bem na testa....
Silêncio. Pedro estava lívido. A mera lembrança do ocorrido deixava-o transtornado.
- Que aconteceu em seguida Pedro?
- Não me pergunte mais nada, por favor. O cão salvou minha vida, fiquei com ele... foi isso.
- Mas e os outros caras?
- Morreram os três - falou Mafalda atrás de mim, bem séria - chamamos a polícia e explicamos o ocorrido. Houve inquérito e tudo mais.
- Estranho, leio todos os jornais e não vi uma linha sobre isto - Repliquei.
- Não saiu nos jornais, não me pergunte porque. Olhe, você é nosso amigo e somos fãs do seu trabalho, mas não nos importune mais com suas perguntas, este caso já nos fez sofrer demais.
Era até esquisito vê-la assim tão séria.
- Tudo bem, desculpem. Deve ter sido barra, polícia investigação e tudo mais...
- Já chega por favor!
- Ok, certo, só quero que saibam que me solidarizo com vocês.
- Sabemos disso, por isto ele te contou tudo. O cão tem sido nosso protetor.

Ela se sentou ao nosso lado, fumando. Ficamos silentes, a tarde úmida, uma garoa leve caía fantasmagórica. Eu refletia sobre o que acabara de ouvir. Estava desassossegado, queria ir embora dali mas estava constrangido, não queria magoar meus amigos.
Neste instante um burro magro apareceu nas cercanias à esquerda do sítio, dava pra vê-lo atrás de uns arbustos baixos abocanhando o capim molhado. Do nada, o estranho e imenso canídeo negro saltou-lhe no pescoço, rasgando as carnes. O pobre animal deu umas duas relinchadas e estrebuchou. As imensas presas dilaceravam o asno com sanha louca.
De tão perplexo, não consegui dizer uma palavra. Pedro e Mafalda olhavam impassíveis.
- Esta maldito burro não irá nos importunar nunca mais. Falou ele.
- Bem feito. Respondeu ela.
Nervoso, balbuciei:
- Pessoal, posso tomar aquela cerveja que vocês me ofereceram?
- Pensei que não gostasse.
- Não gosto, mas confesso que a história que você narrou só poderá ser digerida com cerveja.
- Pegue você mesmo, tá na geladeira. Você sabe onde fica. A seriedade de Mafalda agora me incomodava, depois da cerveja eu iria embora e nunca mais voltaria. Pensava isto enquanto me dirigia à grande cozinha.
Olhei em volta, estava aturdido com tudo aquilo, se eu queria sair da rotina, tinha conseguido.
Abri a enorme geladeira de duas portas.....    e fiquei petrificado.
Havia um corpo esquartejado lá dentro.
A principio não entendi direito o que via, um tronco sem cabeça e com apenas o braço direito, um braço magro de veias azuladas. Estava reclinado obstruindo a lâmpada do refrigerador. Na prateleira de baixo, duas pernas, uma dobrada e outra por cima semi-dobrada. Instintivamente procurei pela cabeça, e lá estava, atrás das pernas, um rosto barbado, de uma barba clara, como os cabelos, que brilhavam em gotículas congeladas, um olho semi-aberto e outro escancarado fora das órbitas. Os lábios azulados, entreabertos, permitiam ver uns dentes imperfeitos. Pelo inchaço que apresentava, parecia ter perdido traços fisionômicos, tornando-se a paródia grotesca de um rosto humano.
Fechei aquilo. Uma vertigem me fez apertar os olhos para não cair ao solo ali mesmo. Me contive, pensando ter tido uma alucinação abria a porta de novo, a cena dantesca me embrulhou o estômago de tal maneira que tive convulsões.
Voltei apressado aonde estava o casal. Fumavam tranquilamente. Movido por uma raiva incontida, falei:
- Pedro, tem um cadáver em pedaços na sua geladeira! Que porra tá acontecendo aqui?
Ele me olhou assustado, sem saber como responder. Foi Mafalda que calmamente replicou.
- Não está acontecendo nada. Como sei que você não ia sossegar enquanto não descobrisse a verdade, preferi que você fosse até lá e visse com seus próprios olhos.
- Mas... o que é isto? O-o que está havendo?
- O que acha? Não chamamos a polícia, ninguém soube o que se passou aqui. Um dos corpos tá lá na geladeira, o outro foi devorado pelo cão. Alimentamos ele diariamente com as partes daqueles assassinos.
Boquiaberto, não encontrei o que dizer. Ela continuou:
- O que queria você? Que a polícia e os repórteres nos tirasse o sossego que lutamos tanto para conquistar?
Fiz um movimento brusco com a mão.
- E porquê porra, me fizeram parte disto? Porquê me chamaram aqui pra ficar sabendo desta merda toda?
- Gostamos do você, é nosso amigo, somos fã do seu trabalho, tínhamos que dividir com alguém e...
- O caralho minha senhora!!! Tenho cara de trouxa? Me diga o motivo verdadeiro!
Ela agora me olhava perplexa, sem saber o que responder. O marido dela tremia com aquela cara de idiota.
O cachorro do inferno silenciosamente subiu as escadas da varanda. Todas aquelas emoções reviraram o meu estômago, me curvei e o vômito subiu e saiu da minha boca em grandes golfadas, os jatos saíram até pelo meu nariz. O líquido gosmento amarelado com pedaços de lasanha e torta invadiram a cerâmica vermelha. Lutando para conter os espasmos estomacais, com os olhos lacrimejantes, me recompus. Tossia para livrar a garganta do que restava do gosto azedo.
Pra aumentar o meu terror, vi o enorme canídeo preto lamber meu vômito do assoalho. Quase ri. Com voz débil proclamei:
- Assassinos filhos da puta! Pensam que tudo vai ficar numa boa? Que volto pra casa como se nada tivesse acontecido? Eu vou denuncia-los à polícia.
- Pense bem, não faça isso.
- Vou agora mesmo.
Pedro se adiantou:
- Vai colocar as únicas pessoas que se importam com você na cadeia? E porquê? Por causa de uns loucos  que apareceram aqui numa tarde armados e que iam nos matar para queimar arquivo?
- Mas está errado, entende? Há uma linha muito tênue que separa o que é certo e o errado em situações deste tipo, e se você perdeu o discernimento, eu ainda não perdi.
Peguei meu chapéu, e me voltei cambaleante em direção ao carro. Ouvi às minhas costas:
- Pedro, ele vai mesmo fazer o que diz, impeça-o!
Voltei-me.
- E ele vai fazer o quê Mafalda? Pegar o revolver calibre 38 e me dar um tiro? Depois vai dar meu corpo para este monstro que vocês adotaram comer? É isso? Quando vai parar?
Nada responderam.
Entrei no carro. Liguei. Não pegou.
- Vamos amigão, não me deixe na mão agora.
- Ele gemeu duas vezes e pegou. Quase ri de felicidade.
Manobrei e saí dali. Tive que parar pra abrir a cerca. Saí do carro. O casal  e o cachorro me olhavam perdidos. Arranquei a toda.
Um alívio profundo me invadia a alma. Tudo parecia um pesadelo, eu esperava acordar a qualquer momento e constatar que os meus amigos ainda eram os mesmos. Ao invés disso, o que ouvi foi um estouro e o carro derrapar no cascalho da estradinha de chão. Pneu furado. Ah não, pensei. Logo agora?
Intrigado saí do carro para pegar o estepe. Quando olhei à minha esquerda na relva que ladeava a rua, vi o imenso cachorro preto me olhando sério. Fiquei petrificado. Ele se aproximou silencioso, se empinou e pousou as imensas patas no meu peito. Era mais alto que eu, cheirava a vômito.
- NEM FODENDO QUE VOU DEIXAR VOCÊ DENUNCIAR MEUS HUMANOS ÀS AUTORIDADES. Disse ele numa voz roufenha, baixa e profunda.
- C-c-cê fala?!?
- SIM, QUANDO É PRECISO EU FALO. SABE, SOU FÃ DOS TEUS QUADRINHOS, POR ISTO NÃO TE MATO AQUI E AGORA. AH, SURPRESO? SIM, EU TAMBÉM SEI LER. CURTO TUAS IDÉIAS, TEUS DESENHOS. FUI EU QUE FALEI PROS MEUS HUMANOS TE CHAMAREM AQUI. QUERIA TE CONHECER, ACHAVA QUE TU ERA GENTE FINA MAS CÊ NUM PASSA DE UM BOSTA. PENA, MAS EU SEI QUE NEM SEMPRE UMA OBRA GENIAL FAZ JUS À PESSOA QUE A CONCEBE. MEUS HUMANOS GOSTAM DE VOCÊ, NÃO É JUSTO QUE OS PREJUDIQUE.
- Porque se refere a eles como seus humanos?
Seus olhinhos amarelos brilharam e um sorriso se desenhou na sua caratonha.
- UMH, SEI, VOCÊS PENSAM QUE SÃO NOSSOS DONOS QUANDO NA VERDADE NÓS É QUE POSSUÍMOS VOCÊS. É SÓ PARAR PRA PRESTAR ATENÇÃO, QUEM DOMINA QUEM?
Ele olhou profundamente nos meus olhos.
- EU DISSE AO PEDRO E À MAFALDA QUE ELES NÃO SE PREOCUPASSEM, QUE EU CUIDARIA DE VOCÊ, POR ISTO COLOQUEI ESTA TÁBUA COM UM PREGÃO PRA FURAR SEU PNEU, PRA TERMOS ESTA CONVERSINHA.
Ele me virou com violência em direção ao solo e deu uma profunda fungada no meu cu. Naquela hora tive a certeza que minhas ereções haviam me abandonado para sempre. Em seguida me colocou em pé e cheirou minhas axilas e pescoço.
- PRONTO, AGORA CONHEÇO TEU CHEIRO. TE ACHO ATÉ NO INFERNO. VOU TE DEIXAR IR EMBORA, MAS SE DER UM PIO EM RELAÇÃO AO QUE VIU E OUVIU AQUI, EU TE ENCONTRO... E NÃO QUEIRA QUE ISTO ACONTEÇA.
- É.. eu...
- O QUÊ?
- Não sei se conseguirei conviver com isto, sério mesmo!
- SEI, POSSO TE DAR UMA SUGESTÃO?
- Qual?
- RELATE TUDO NUMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS. ELAS TAMBÉM SERVEM PRA ISTO NÃO É? PROS LEITORES UMA FICÇÃO BESTA, PRA VOCÊ UMA CATARSE. QUE TAL?
- É, creio que sim, na verdade pode funcionar, sim.
- BELEZA, RESOLVIDO ENTÃO. QUANDO PUBLICAR, TRAGA PRA EU LER. VENHA, VAMOS TROCAR SEU PNEU, DAQUI A POUCO ANOITECE.
- Lobo?
- SIM?
- Qual a verdade sobre o seu dono e os caras que queriam mata-lo?
- VAMOS LÁ CARTUNISTA, NÃO TEVE MUITO POR UM DIA? DEIXE ESTA HISTÓRIA PRA OUTRA OCASIÃO. TÁ TARDE, E NÃO ESQUEÇA TEU CHAPÉU ALI NO CHÃO.

Duas horas depois eu entrava na avenida expressa. A noite estava estrelada, a lua amarelada no céu negro parecia um olho morto. Apesar do alívio por escapar da morte, um espectro me envolvia. Ansiava por papel e nanquim para relatar nele a minha experiência nefanda.O maldito animal gostava dos meus cartuns! Puta merda, tive a vida salva pelas histórias em quadrinhos! Quem diria?

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