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terça-feira, 23 de abril de 2013

O PRIMEIRO HERÓI FANTASIADO.



A última vez que vi o velho Schloesser, foi em 1968. Ele estava deitado em um leito de hospital, com um curativo sobre um dos olhos (não lembro qual) devido a uma cirurgia para remoção de catarata. Foi estranho ve-lo ali, tão fragilizado, os bigodes branquíssimos, a barba por fazer, ele que sempre tivera um porte tão distinto. Ele morreria no ano seguinte motivado por um ataque cardíaco. Mas eu saberia disto muito mais tarde, quando as lembranças dele, como hoje, já estavam envoltas em brumas. Não tenho recordação se perguntava dele à minha avó. Hoje não há como saber, ela se foi a muito.

Daquela casinha em Cumbica onde me lembro que morei com meus avós maternos até os acontecimentos que narro hoje parece haver uma lacuna em minha memória, sei que moramos depois numa pequena casa em Guarulhos de propriedade de uma amiga da minha mãe. Desta vez éramos apenas eu e minha avó. Rememoro muitas caminhadas, sempre em casas de conhecidos dela. Não há como esquecer aquele menino, cujas rodas de um ônibus deixaram esmagado em frente a uma igreja próxima à nossa residência. Assomo os muitos velórios, flores, velas de cemitérios, os rádios antigos, as músicas que tocavam muito naquele período, coisas da Jovem Guarda, muito Roberto Carlos e Beatles. Por onde eu andava naquelas estradas de chão ladeadas por matagais, de algumas casas vinham sons de "Hey Jude", "Quando" ou "Brucutu". Minha avó em particular acoradava muito cedo e sintonizava o seu dial em programas de música sertaneja, daquelas bem antigas, de viola.
Certa vez na casa de alguém, numa manhã, um aparelho transmitia o programa do Gil Gomes, e aquela voz peculiar narrando casos escabrosos da violenta vida cotidiana, eu ouviria muitas vezes, à minha revelia, nos anos porvir.

Não raro, minha avó desmaiava em algum lugar, sempre na casa de alguém, por este motivo, analisando hoje, não dá pra discernir se isto acontecia devido a um derrame que ela tivera muitos anos antes (e lhe custara um olho) ou se a sua lendária necessidade de atenção a fazia encenar um ato dramático. Qualquer que fosse a causa, ela produzia em mim um efeito devastador.

Meu melhor período nestes anos foram os tempos que que minha mãe pagou ao Seu Evilásio e Dona Sebastiana, velhos conhecidos dela, para que eu e minha avó fôssemos morar na chácara deles até que a vida estivesse finalmente organizada. Na verdade aqueles senhores eram caseiros do lugar, tal sítio não pertencia a eles, mas a um sujeito que aparecia de quando em quando chamado Aníbal.
Foi uma época muito difícil para minha mãe, exposta a todos os tipos de constrangimentos, sei hoje, por vagas evocações minhas, como foram custosas as negociações para que permanecêssemos lá.
Uma série de tragédias em que ela foi coadjuvante, a dura luta com as enfermidades do pai, até o desfecho com a morte deste, a fizeram por uma pedra sobre tudo o que se relaciona com este ciclo. Tanto que ao indagar-la por alguns fatos para que melhor ficasse esclarecido aqui, ela me disse que não se recorda e prefere não lembrar. Tenho que respeitar.
Mas alheio a estes imbróglios de adultos, eu gostei de morar aquele ano na chácara. Sentia-me mais seguro. Havia o neto da Dona Sebastiana que ela criava como filho. Foi o primeiro amigo. A vida era uma brincadeira só, frutas comidas diretamente dos pomares, caquis, ameixas, uvas (que estavam sempre azedas), goiabas, enfim, foi o meu período "Chico Bento". Muitas sovas também, por desobedecer a vovó. Que mão pesada tinha aquela senhora!
Certo dia meus pais vieram nos visitar. Foi uma bela surpresa. Minha mãe sempre trazia um brinquedo para mim e para o outro garoto. Meu pai desta vez parecia mais descontraído do que das outras vezes que eu o tinha visto. Sorria e conversava.
Foi naquele lugar que eu tive contato com a primeira história em quadrinhos. Disney. 000 e Pata Hari. Mas eu só saberia do que se tratava muito depois.
Seu Evilásio com seu rádio verde e branco de pilhas, a noite ouvíamos novelas de rádio. Teria saído daí o meu gosto por contar histórias? 
O que mais me lembro? Aranhas, cobras, borboletas multicores que lutávamos para pegar, os mais velhos diziam que aquele pozinho das asas das borboletas causavam cegueira se colocadas no olho.
Bebíamos água de poço. Andávamos, eu e o amiguinho, sempre descalços, estávamos cheios de vermes. Minha mãe trouxe um vermífugo e ao toma-lo recordo-me que passei muito mal, botei muita lombriga pra fora.
Uma das piores dores de que tenho memória se deu naquele sítio, botei a mão sobre um Mandruvá. Chorei o dia todo, só não sei o que me deram pra me curar daquilo.
Tivemos um Natal por lá. Minha genitora me presenteou com um belo trenzinho amarelo, e trouxe um caminhãozinho para o outro guri.
Teve o caso do "Robbie, o Robô", mas este eu já relatei numa outra postagem com o mesmo título.

Em 1969 finalmente fomos, eu e minha avó, morar com meus pais. Sair da chácara foi um tanto traumático, eu tinha criado raízes ali, tinha um amigo, o primeiro que tive na vida e que muitos anos mais tarde me daria as costas, ignorando toda a infância que tivemos.

Nossa nova residência ficava próxima à base aérea de Cumbica. Era um casarão que pertencia à dona Bárbara, uma alemã, amiga do meu avô. Foi ali que minha vida de fantasias começou. Muitos livros, revistas e televisão.



O primeiro herói na minha vida foi o National Kid, um ser que veio do planeta Ândromeda para lutar pela paz na Terra contra os Incas Venusianos, depois contra os Seres Abissais, seguidos pelo Império Subterrâneo e os Zarrocos do Espaço.
Eu vivia correndo com os braços abertos sonhando que era o herói em seu voo e todos gostavam de mim. Era uma tristeza quando o seriado, por algum motivo, não era exibido. Acompanhei-o enquanto foi transmitido na tv. Ainda lembro da frase de abertura dos anos 60:
"Mais veloz que o jato, mais duro que o aço, super-homem invencível, cavaleiro da paz e da justiça,
Nacional kid!"


Muitas coisas mais a contar sobre minha permanência naquela casa, mas ficará para uma outra postagem.



2 comentários:

  1. Puxa, bacana o relato. Muita coisa em comum com a minha infância, entre elas, o fato de ter ido morar num lugar mais rural. No meu caso, uma vila de Caieiras, ainda em seu início, poucas casas, riacho, matas, etc...
    Outra coisa em comum, o National Kid. Quando me mudei em 73 para Caieiras, fiquei sem TV por 3 anos! Não havia energia elétrica. Então, nada de TV. Senti muito a falta dos seriados e desenhos...
    Um grande abraço,

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  2. Sim, Gilberto, muitas coisas em comum. Há esta empatia entre nós que acho muito legal, pois embora só tenhamos nos visto uma única vez, parece que nos conhecemos a muito tempo, né?

    Estes relatos, bem, nem sei direito por que os posto, afinal sempre fui muito reservado com relação ao meu passado, há coisas que até minha família desconhece. Sei lá, acho que na velhice, a tendência de se fazer notar é maior, daí, possa ser que alguém, um amigo, um parente, um admirador queira mais detalhes sobre coisas que no final só importam a mim, mas porque não dividi-las, não é?

    Muito obrigado e um abração.

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